quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
3 Faces (Se Rokh)
"3 Faces" (2018) dirigido por Jafar Panahi (Táxi Teerã - 2015) é mais uma produção de resistência, Panahi como em "Taxi Teerã" registra a maior parte das imagens dentro do seu carro, a realidade e a ficção se confundem e mostra de maneira investigativa e emocional todo o conservadorismo do local. Proibido de filmar e sair do Irã desde 2010 injustamente por questões políticas, ele vai desafiando os obstáculos e contrabandeando seus filmes para a Europa com ajuda de amigos, ele denuncia sem ser explícito, levanta questões importantes sem necessariamente apontar e, por isso, merece todo o reconhecimento, é um cineasta sensível e lúcido, uma importante figura do cinema mundial.
Uma famosa atriz iraniana (Behnaz Jafari) recebe um vídeo perturbador de uma garota implorando por ajuda para escapar de sua família conservadora. Ela então pede a seu amigo, o diretor Jafar Panahi, para descobrir se o vídeo é real ou uma manipulação. Juntos, eles seguem o caminho para a aldeia da menina nas remotas montanhas do norte, onde as tradições ancestrais continuam a ditar a vida local.
Jafar interpreta ele mesmo, simples e natural viaja com sua amiga, a atriz Behnaz Jafari, que também interpreta a si mesma, desnorteada pelo vídeo amador que recebeu de uma menina, Marziyeh, de uma aldeia nas montanhas, busca no diretor respostas, se foi editado ou se é verdadeiro. O filme começa exatamente mostrando o vídeo gravado pelo celular, onde a garota anda pelas cavernas da região dizendo sobre seu desejo de ser atriz, de estudar no conservatório em Teerã e o como a família a oprime, então diz que tentou falar com Behnaz inúmeras vezes sem obter nenhuma resposta e novamente pede o seu apoio, ao fim coloca uma corda no pescoço e o celular cai. O desespero de Behnaz a acompanha durante todo o difícil trajeto que faz com Panahi, que está sempre sereno e desconversando sobre seus supostos futuros filmes. O jogo entre o que é real e ficção é tão bem conduzido, não fica claro se Panahi armou tudo, o fato é que a câmera registra a aldeia e as pessoas que ali habitam de modo leve e até cômico, situações que poderiam soar desagradáveis por um outro ângulo acabam sendo simplórias. É um registro cru e naturalista, belo e emocional!
Nessa aldeia os pensamentos são restritos e patriarcalistas, as mulheres servem apenas para serviços domésticos, procriação e sempre se espera um bebê do sexo masculino, poucas são as meninas que estudam e possuem sonhos, Marziyeh não é bem vista por ser revoltada, não querer ficar ali, servir ao marido e apenas procriar, ela deseja ser atriz e passou no prestigiado conservatório em Teerã, porém sua família não aceita, principalmente seu irmão, que é ignorante, machista e grita o tempo todo sobre seu comportamento desrespeitoso.
São colocados em tela três gerações, Marziyeh é o futuro, a quebra de regras, de que por mais afastada que a aldeia seja e de que as leis são feitas e mudadas pelos próprios homens do lugar, as ideias chegam, através das novelas e séries, que aliás todos assistem, inclusive quando Behnaz aparece todos a reconhecem e a tratam bem, ela é a segunda geração, a atriz que conseguiu a fama e viver seus próprios desejos, o que no caso a atriz da qual Marziyeh se refugia nem é mostrada, a da primeira geração - protagonista de filmes do período pré-revolução Islâmica - que sofreu por ser a pioneira ao querer seguir o ramo artístico, na aldeia ela é rejeitada e vista como louca. Se Behnaz está onde está é porque essa mulher teve resistência e lutou.
"3 Faces" tem uma construção simples, mas rica em significados, é metalinguístico e humanista, Panahi observa a maior parte do tempo dentro de seu carro o rumo que a história vai tomando, as três mulheres é que discutem e arranjam as coisas. Por mais devagar que aconteça as mudanças, as transformações, não tem como barrá-las, por mais limitado e violento que seja o pensamento e o meio, a arte precisa seguir, pois através dela é que a maior parte dessas mudanças acontecem.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
A Balada de Buster Scruggs (The Ballad of Buster Scruggs)
"A Balada de Buster Scruggs" (2018) dirigido por Ethan Coen e Joel Coen (Inside Llewyn Davis - 2013, Ave, César! - 2016) é um filme marcante e que homenageia o clássico gênero faroeste com muito estilo, arrebatador e permeado por um humor negro somos absorvidos por seis contos fascinantes sobre o velho oeste.
Uma antologia em seis segmentos focada na fronteira americana. Acompanhando de foras da lei a colonizadores, até todo tipo de personalidade do velho oeste, essa série de histórias vai desde profundas reflexões até o mais completo absurdo.
O filme é muito bem elaborado dando a cada história uma personalidade única com personagens fascinantes, além do belíssimo trabalho de fotografia e sua ótima trilha sonora, tudo encaixadinho e que reaviva o tão aclamado gênero faroeste.
A narrativa baseia-se nas histórias de um livro do qual a câmera revela imergindo em suas páginas e imagens, a primeira história serve praticamente como uma introdução ao universo western, ao mesmo tempo em que também lembra que a identidade dos diretores está presente, o ousado cavaleiro quebra a quarta parede para nos mostrar de perto as suas destrezas em um tom bizarro carregado de humor negro embalado por canções originais típicas, a incrível interpretação de Tim Blake Nelson cativa e nos faz imergir e quando menos se espera termina, seu desfecho já denota que as características dos Coen vão adornar todos os contos por mais diferentes que sejam entre si e seus estilos sejam variados, há um tom tragicômico próprio deles, é uma boa pedida para quem é fã dos diretores e, claro, do gênero.
A segunda traz a história de um ladrão de bancos, vivido por James Franco, que ao tentar assaltar um banco acaba sendo pego de uma forma inesperada, ele se livra dessa, mas em compensação a má sorte anda ao seu lado, as reviravoltas são ótimas apesar de sua curta duração. O terceiro segmento tem um ar mais sombrio e um gosto amargo, dois artistas itinerantes, Liam Neeson como o chefe do negócio e Harry Melling interpretando um ingênuo homem deficiente que declama trechos da bíblia e da literatura inglesa, os trocados já não vêm diante de outras novidades artísticas e, por isso, um destino cruel se aproxima. Este não carrega nem uma ponta de humor sequer, talvez, surja apenas quando na apresentação as recitações não tenham fim, mas, do contrário, seu tom obscuro e completamente trágico esmaga nosso coração, o personagem de Liam Neeson é calado e vemos o medo que acompanha o rapaz. Por ter um ritmo mais lento e destacar outras emoções há uma quebra da ação, mas nada que prejudique, as histórias são ricas imageticamente e além de entreter traz reflexões acerca do ser humano, violência e morte.
A quarta história retrata um velho viajante mineiro vivido pelo grandioso Tom Waits, andando pelas paragens intocadas do oeste americano em busca de ouro, eis que depois de muito labutar acaba encontrando, a paisagem salta aos olhos e seu tom de fábula cria um efeito genial, onde no fim mostra a efemeridade do homem em relação à natureza, o homem trabalha e trabalha ao ponto de quase enlouquecer e luta pelas suas conquistas para no fim nada adiantar, o que resta é uma trágica e cômica morte.
O quinto segmento é o mais longo e se inicia de forma até desinteressante, mas à medida que avança e as situações se apresentam termina por deixar o espectador em choque. De todas com certeza tem o melhor desfecho, ela acompanha uma comitiva pelo deserto com destino a Oregon, nela está Alice (Zoe Kazan), que viaja com seu irmão a negócios, só que depois que ele morre as incertezas a corroem, ela se aproxima de Billy Knapp (Bill Heck), um dos guias da caravana, que se apaixona, a pede em casamento e diz que acertará as dívidas que o irmão deixou e ainda lhe dará um lar, mas o perigo sempre está rondando e a falta de perspicácia da moça a faz tomar decisões um tanto trágicas.
Para encerrar surge um conto de suspense em que a atmosfera de mistério invade uma carruagem que leva cinco pessoas diferentes entre si para um destino enigmático. Preconceitos e motivações são explorados em diálogos potentes, o trajeto vai ficando mais e mais sinistro à medida que os embates se tornam mais afiados, o cocheiro nunca para e os dois homens que acompanham os cinco passageiros revelam coisas que os perturbam. É interessante que nas seis histórias apesar de haver os elementos do clássico gênero também não deixa de subvertê-los dando aspectos e perspectivas novas.
"A Balada de Buster Scruggs" é um filme que homenageia o faroeste com suas histórias que passeiam por diferentes situações e estilos, um exemplar moderno rico em humor e beleza. Os Coen não decepcionam, sempre trazem roteiros inteligentes recheados com crueza e acidez, imaginação e metáforas sobre os dilemas existenciais.
Sem dúvidas se configura entre os melhores do ano! Disponível no catálogo da Netflix!
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Paraíso Perdido
"Esqueçam a vida lá fora e sejam quem são. Sejam felizes aqui no Paraíso Perdido, o lugar para aqueles que sabem amar."
"Paraíso Perdido" (2018) dirigido por Monique Gardenberg (Ó Paí, Ó - 2008) é um filme nacional que esbanja afeto e esperança, a família retratada é cativante, a atmosfera melancólica envolve juntamente com a trilha sonora brega que em sua maioria traz saudosas canções. O sobrecarregamento de personagens e o fato de não explorá-los acaba deixando a história sem profundidade, a trama os entrelaça de forma confusa e possui contornos de fábula, mas todos são tão apaixonantes que não tem como não sermos fisgados pela personalidade de cada um e também pelo ambiente descontraído da boate, a estreia de Jaloo e a presença de Erasmo Carlos abrilhantam a obra, mas todo o elenco é incrível, Júlio Andrade, Lee Taylor, Seu Jorge, Hermila Guedes, Malu Galli e Humberto Carrão.
Paraíso Perdido é um clube noturno gerenciado por José (Erasmo Carlos) e movimentado por apresentações musicais de seus herdeiros. O policial Odair (Lee Taylor) se aproxima da família ao ser contratado para fazer a segurança do jovem talento Ímã (Jaloo), neto de José e alvo frequente de homofóbicos, e aos poucos o laço entre o agente e o clã de artistas românticos vai se revelando mais e mais forte.
Odair é contratado por José para cuidar do neto, o jovem talentoso Imã depois que este sofre um ataque homofóbico, o policial se encanta pelo local e pelas pessoas tão amorosas e talentosas que ali habitam, Angelo, tio de Imã, é um eterno apaixonado e vive a relembrar de um antigo amor, sua filha Celeste está grávida e está confusa sobre sua relação com o namorado, Teylor, vivido por Seu Jorge é o único que não é da família, na trama também tem Pedro, vivido por Humberto Carrão, que se apaixona por Imã e não entende muito bem de início esse sentimento, a filha de José, Eva, vivida por Hermila Guedes, está presa há vinte anos, e a mãe de Odair, vivida por Malu Galli, que, infelizmente, sofre pela perda da audição e por não poder fazer o que mais ama, cantar, ela possui um passado com essa família e Odair aos poucos vai juntando as pistas e o entrelaçamento das histórias vai acontecendo aos trancos, Odair fica quieto e só se manifesta quando descobre algo pesado envolvendo Eva e seu pai.
É um filme regado a sentimentos e isso se deve as canções e as belíssimas interpretações destas, Jaloo especialmente encanta em cada apresentação, Júlio Andrade toda vez que surge rouba a cena e é uma pena que sua trama não avançou, o amor que ele cultiva e sua personalidade é das melhores coisas do filme. A aura agridoce predomina, por mais que essas pessoas sofram pelos desencontros e traumas, a felicidade sempre está às voltas, a esperança e o afeto, a certeza de que um tem o outro para se apoiar independente de qualquer coisa. É uma perfeita quebra da ideia tão falada de "família tradicional", é uma amostra de que laços são formados por sentimentos e não rótulos.
É um filme regado a sentimentos e isso se deve as canções e as belíssimas interpretações destas, Jaloo especialmente encanta em cada apresentação, Júlio Andrade toda vez que surge rouba a cena e é uma pena que sua trama não avançou, o amor que ele cultiva e sua personalidade é das melhores coisas do filme. A aura agridoce predomina, por mais que essas pessoas sofram pelos desencontros e traumas, a felicidade sempre está às voltas, a esperança e o afeto, a certeza de que um tem o outro para se apoiar independente de qualquer coisa. É uma perfeita quebra da ideia tão falada de "família tradicional", é uma amostra de que laços são formados por sentimentos e não rótulos.
"As pessoas não te odeiam pelo que você é, mas pelo que não conseguem ser."
"Paraíso Perdido" é um filme agradável, sentimental e aconchegante, a família unida pela arte e o amor nos traz sentimentos bons e fazem nossos olhos brilharem diante das belas apresentações musicais, onde romantismo e sofrimento imperam, um encanto relembrar as canções românticas populares, como "Não Creio em Mais Nada", de Paulo Sérgio, "Escalada", de Augusto Cesar, "Minhas Coisas", de Odair José e também clássicos de Raul Seixas, Reginaldo Rossi, Belchior, Angela Maria e Roberto Carlos. Há espaço também para as novas, como "Amor Marginal" de Jhonny Hooker, que inclusive é uma das apresentações mais intensas de Jaloo. É um filme brasileiro acolhedor, amável e nostálgico!
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Sam Was Here/Nemesis (A Deusa da Vingança)
"Sam Was Here" (2016) dirigido por Christophe Deroo é daqueles filmes que dão dor de cabeça ao tentar juntar as pistas para criar teorias e possíveis explicações, sua atmosfera enigmática e situações estranhas envolvem e mergulhamos profundo para tentar compreender pelo menos um pouco do que está acontecendo. O título em francês e em português sugerem uma explicação, ao contrário do americano que segue a linha do mistério, é praticamente impossível decifrar logo de cara e talvez nem tenha que ser decifrado, o diretor mesmo disse que o intuito foi conceber um longa atmosférico.
Sam (Rusty Joiner), um vendedor ambulante preso em uma cidade deserta, passa a questionar sua sanidade quando é ameaçado por moradores que o confundem com um assassino.
O filme tem alguns elementos que dão a entender facilmente que se passa fora da realidade, quando Sam chega na cidade desértica supostamente trabalhando como vendedor, percebe-se um ar fora do comum, a trilha sonora cósmica ajuda a criar maravilhosamente essa vibração, Sam bate na porta de possíveis clientes, mas parece que os habitantes estão se escondendo, outro ponto é uma luz vermelha no céu vista por Sam, tudo soa estranho a ele e então decide ligar para o chefe e ir embora dali, só que cai na caixa postal, assim como todas as ligações que realiza, como para a esposa. Ele vaga pela cidade deserta, vai parar num motel onde tem uma porta fechada com correntes, o clima de pesadelo vai tomando conta cada vez mais do cenário, o rádio sempre está sintonizado no programa local, onde pessoas ligam e reclamam, o radialista, Eddy, pede para que a população ligue e faça as reclamações ou que se souberem de algo relacionado ao pedófilo/assassino que denunciem. Mas onde estão essas pessoas que participam desse programa? Até que Sam recebe em seu pager uma mensagem anônima o acusando de "porco pedófilo", Sam fica confuso, mas não se preocupa, segue passando pelos lugares à procura das pessoas, ele vai deixando bilhetes com a frase: "Sam esteve aqui". Depois de algum tempo Sam visualiza uma viatura e quando vai de encontro leva um tiro, começa uma perseguição e logo depois mais algumas pessoas entram nessa perseguição contra Sam, ele se vê obrigado a fugir e lutar por sua vida.
Sam encontra cartas escritas por Eddy destinadas à população dizendo que ele é o assassino/pedófilo e que é preciso encurralá-lo e matá-lo, desesperado não entende a situação da qual se encontra e fica mais perturbado por não conseguir falar com a esposa, essa caçada é muito enigmática, nada é respondido e ficamos procurando pistas para entender se Sam é inocente ou não. Realmente a atmosfera construída é o grande destaque e é preciso acompanhá-la, graças a ela podemos formular algumas teorias, como se Sam está no purgatório refazendo seus passos e sendo julgado, ou mesmo no inferno, onde acertará as contas e o equilíbrio cósmico entre o bem e o mal será enfim restaurado.
"Sam Was Here" foge das fórmulas convencionais e deixa muitas pontas soltas para que o espectador reflita sobre o que assistiu, as perguntas deixadas provocam sensações perturbadoras, instiga a querer encontrar respostas, mas tudo o que criamos são apenas hipóteses, a tensão e o medo diante disso causa desconforto e é exatamente por esse motivo que vale a pena ser visto.
Disponível no catálogo da Netflix!
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
15 Filmes de Faroeste Modernos (15 Modern Western Movies)
O clássico gênero faroeste tem recebido novas roupagens e volta e meia aparece um diretor que se arrisca neste território, muitos se concentram na mesma fórmula, porém outros trazem outras perspectivas e até deixam de lado o chão poeirento e cheio de feno. É com certeza um gênero que se configura entre os mais amados do cinema. Segue a lista com 15 filmes de Faroeste Modernos que valem a pena conferir!
*Os números são só uma questão de ordem e não de preferência
*Os números são só uma questão de ordem e não de preferência
15- "Damsel" (2018) EUA
Samuel Alabaster (Robert Pattinson), um rico pioneiro, aventura-se pela remota fronteira dos EUA para se casar com o amor de sua vida, Penelope (Mia Wasikowska). Enquanto Samuel atravessa o Velho Oeste com um bêbado chamado Parson Henry (David Zellner) e um minicavalo chamado Butterscotch, sua jornada vai se tornando traiçoeira, apagando as linhas divisórias entre herói, vilão e donzela.
14- "A Vingança de Lefty Brown" (The Ballad of Lefty Brown - 2017) EUA
Lefty Brown (Bill Pullman) é um ajudante de 63 anos que toda a sua vida ficou ao lado da lenda do faroeste Eddie Johnson (Peter Fonda). Johnson foi apontado como senador de Montana e, apesar das objeções da esposa Laura, planeja deixar Lefty em cargo do rancho. Quando um ladrão mata Johnson, Lefty é confrontado pela sombra do parceiro e das feias realidades da justiça na fronteira.
13- "O Vale Sombrio" (Das Finstere Tal - 2014) Áustria
Um estranho homem chega a uma vila de uma montanha da Europa e é acolhido pelo povo até a chegada do rigoroso inverno. Ele se apresenta às pessoas como um fotógrafo norte-americano, mas ele não chegou até lá por acaso e sabe muito bem o que quer.
12- "Hostis" (Hostiles - 2017) EUA
Em 1892, duas famílias se unem ao chefe de um exército (Christian Bale) para ultrapassar as barreiras de uma guerra e voltar para suas tribos. Esta tarefa não será fácil, visto que os membros da família tem, entre si, conflitos que devem ser superados para terem sucesso em sua missão.
11- "Uma Mulher Exemplar" (Woman Walks Ahead - 2017) EUA
Final do século XIX. Caroline Weldon (Jessica Chastain), artista e ativista do Brooklyn, vai até a reserva Standing Rock para ajudar Touro Sentado, chefe dos sioux, a lutar pela preservação dos indígenas no local. Ela se muda para a aldeia com o filho adolescente, assume o cargo de secretária de Touro - que não fala inglês - e passa a enviar cartas para o governo dos EUA pedindo atenção ao caso.
10- "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (2015) Brasil
Baseado no conto homônimo do livro "Sagarana", do escritor Guimarães Rosa, o filme narra a história de Augusto Matraga (João Miguel), fazendeiro mineiro valente e mulherengo, à beira da falência, que ao buscar vingança por sua mulher tê-lo trocado por Ouvídio Moura (Werner Schunemann), quase morre após cair em uma emboscada armada pelos capangas do Major Consilva (Chico Anysio). "Renascido", depois de ter sido cuidado por um casal, Matraga dedica o resto da sua vida à sua fé e ao trabalho, esperando "sua hora e sua vez" chegar, até fazer amizade com o rei do sertão, Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), e seu bando de jagunços. Saiba+
09- "A Qualquer Custo" (Hell or High Water - 2016) EUA
Dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado com dois filhos, perderam a fazenda da família em West Texas e decidem assaltar um banco como uma chance de se restabelecerem financeiramente. Só que no caminho, a dupla se cruza com um delegado, que tudo fará para capturá-los.
08- "Doce País" (Sweet Country - 2017) Austrália
Sam, um aborígene de meia-idade, é designado para ajudar na mudança de um veterano de guerra, que acaba de se mudar para o posto militar onde ele vive, no norte da Austrália. O problema é que a relação dos dois logo se torna complicada e, como forma de se defender, Sam acaba matando o militar, sendo obrigado a deixar seu lar ao lado da mulher.
07- "Terra Selvagem" (Wind River - 2017) EUA
Cory (Jeremy Renner), caçador de coiotes e predadores traumatizado pela morte da filha adolescente, encontra o corpo congelado de uma menina em meio ao nada e decide iniciar uma investigação sobre o crime. Ao lado dele está uma agente novata do FBI (Elizabeth Olsen) que desconhece a região. Um filme tenso e pesado, somos inseridos no oeste norte-americano, especificamente no estado de Wyoming, um local que possui suas próprias regras e características extremas. Saiba+
06- "A Salvação" (The Salvation - 2014) Dinamarca
Na América de 1870, um pacífico colono americano mata o culpado por assassinar sua família, o que desperta a fúria do líder de uma famosa gangue local. Os covardes moradores da cidade traem sua confiança e delatam sua localização e plano para o bandido. Sozinho, ele é forçado a caçar a gangue com as próprias mãos. Tem todos os requisitos que um filme de faroeste necessita, e ainda se destaca pelo primor de sua estética e pelo roteiro simples, que não deixa de ser perspicaz. Saiba+
05- "A Balada de Buster Scruggs" (The Ballad Of Buster Scruggs - 2018) EUA
Uma antologia de faroeste em seis partes, uma série de histórias sobre o Velho Oeste americano contadas na incomparável voz dos cineastas Joel e Ethan Coen. Cada capítulo conta uma história distinta e independente. Saiba+
04- "Os Irmãos Sister" (The Sisters Brothers - 2018) EUA
Eli e Charlie são dois pistoleiros que recebem uma missão complicada: capturar e eliminar Hermann Kermit Warm, um explorador de minas de ouro. Os assassinos perseguem o explorador através do deserto do Oregon, no entanto, Eli começa a ter uma crise de consciência sobre a carreira que leva. Para se salvar, Hermann pode se aproveitar dessa fraqueza momentânea e oferecer um acordo melhor para os irmãos. Saiba+
03- "Oeste Sem Lei (Slow West - 2015) UK/Nova Zelândia
No século XIX o jovem Jay Cavendish (Kodi Smit-McPhee) cruza os Estados Unidos em busca de sua amada, que fugiu para terras distantes após ser acusada de cometer um crime. Nesta imprevisível jornada ele conta com a companhia de Silas Selleck (Michael Fassbender), um misterioso caubói. Um filme de faroeste atípico, começando pela sua beleza, a locação verdejante é extremamente linda, apesar da história se passar na América, tudo foi gravado na Nova Zelândia. A narrativa segue de forma lenta e a ação vem aos poucos, além do tom poético que permeia toda a trama. Saiba+
02- "Aferim!" (2015) Romênia
Na Romênia do século 19, um policial é contratado para encontrar um cigano fugitivo. Transformando a busca em aventura, o filme retrata a escravidão cigana que existiu no país por seis séculos. Um filme histórico que retrata com um humor ácido e particular a origem do racismo contra os ciganos. Somos transportados para o início do século XIX, na região sul da Romênia, Valáquia, 42 anos antes da independência. Saiba+
01- "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford - 2007) EUA
Carismático e imprevisível, Jesse James (Brad Pitt) foi o mais notório fora-da-lei da América. Ele planejava mais um de seus grandes assaltos quando soube que seus inimigos, ávidos por glória e fortuna, haviam se lançado numa corrida em sua captura. James declara guerra a todos eles. No entanto não poderia imaginar que a maior ameaça à sua vida viria de um dos homens em que mais confiava.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
Benzinho
"Benzinho" (2018) dirigido por Gustavo Pizzi (Riscado - 2010) é um ótimo filme que retrata de maneira emocionante e verdadeira os dramas de uma família de classe média brasileira, desde os obstáculos econômicos, as brigas, o cansaço, mas também os laços, o companheirismo e o amor, principalmente, o da mãe, vivido brilhantemente por Karine Teles, da qual possui uma força imensa e se entrega com muito naturalismo. O fato de ser um filme feito praticamente em família, já que Gustavo Pizzi é ex-marido de Karine e seus filhos gêmeos estarem em cena, além do sobrinho de Karine é algo que cria realmente uma atmosfera familiar.
O primogênito de uma família de classe média é convidado para jogar handebol na Alemanha e lança sua mãe (Karine Teles) em uma espiral de sentimentos pois, além de ajudar a problemática irmã (Adriana Esteves), lidar com as instabilidades do marido e se desdobrar para dar atenção ao seus outros filhos, ela terá de enfrentar sua partida antes de estar preparada para tal.
Fernando (Konstantinos Sarris), o filho mais velho de Irene é convidado para estudar e jogar handebol na Alemanha, a notícia pega de surpresa a família, Klaus (Otávio Müller), o pai, fica muito contente e é ele que corre atrás da papelada, enquanto Irene mergulha nos problemas cotidianos e financeiros para ignorar esse fato. Seus sentimentos em relação a partida do filho são conflituosos e o seu psicológico fica abalado, o medo de que seu filho nunca mais retorne para casa a impede que sinta alegria da conquista dele, Fernando tem pouco tempo para arrumar as coisas e partir, só que Irene não quer pensar sobre e sempre que a conversa vem à tona se assusta com a data da partida e diz que não a avisaram que seria tão cedo. Irene é uma mãezona, se dedica de corpo e alma aos seus quatro filhos, ela sabe que mais cedo ou mais tarde eles irão alçar voo, mas quando acontece mesmo algo a trava para não refletir e não sofrer. Muito zelosa, ela também abre as portas para sua irmã, que sofre com a inconstância de comportamento do seu marido, todos a recebem de braços abertos e ela também acaba sendo um suporte para Irene, a relação de amizade e cumplicidade das duas é muito bonita, essa grande família possui um vínculo forte de afeto.
Acompanhamos toda a trajetória emocional desta mulher, seus conflitos internos e externos, sua gana de vida, sempre se virando para conseguir um extra, sua felicidade em se formar no ensino médio e conseguir driblar os problemas cotidianos e cuidar dos filhos.
É um filme que é muito próximo da realidade, o jeito da família, da convivência e até os problemas corriqueiros, como o adiamento para consertar uma torneira ou uma porta emperrada, dos sonhos em poder ter uma casa melhor, de encontrar meios de ganhar dinheiro por conta própria, seja vendendo marmita, jogos de lençol, etc. O marido de Irene é muito sonhador e vive a planejar um futuro que para ela parece bem distante, ele deseja vender uma casa que eles tem na praia para comprar um ponto e fazer um restaurante que acredita que vai ser sucesso, mas a realidade acaba sempre batendo a sua porta e adiando todos os seus propósitos.
"Benzinho" é um filme sensível e emocional ao colocar o medo que uma mãe sente em ver seu filho ir embora de casa, olhá-lo crescido e admitir que chegou o momento da separação, ela só realmente se dá conta de tudo quando Fernando entra no ônibus, em meio a tantos sentimentos ela chora e sorri e percebe no desfile cívico em que seu filho do meio, Rodrigo, está tocando, que ele será o próximo.
É um filme que faz um retrato sincero e bonito de uma família bem brasileira, repleta de problemas, mas com muito afeto um pelo outro.
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Dogman
"Dogman" (2018) dirigido por Matteo Garrone (Reality - 2012, O Conto dos Contos - 2015) é uma história que retrata que não se pode ter tudo, o protagonista tenta agradar a todos, mas isso acarretará em consequências cada vez mais difíceis, o fazendo ruir e perder toda a sua dignidade. Todo o tempo nos perguntamos o porquê dele sempre ceder, as respostas surgem com o desenrolar ao entendermos sua personalidade canina, onde deseja tanto estar entre os cidadãos de bem, como também estar perto daqueles não tão bem vistos como forma de sobreviver e não se tornar vítima, mas essa maneira dele se comportar não dá certo e faz com que nem um lado nem o outro lhe dê atenção.
Marcello (Marcello Fonte), simpático funcionário do Pet Shop Dogman, na periferia de Roma, vive uma relação de amizade e ao mesmo tempo de humilhação com Simone (Edoardo Pesce), um ex-boxeador que aterroriza a todos no bairro em que vivem. Depois de uma humilhação que Simone pratica contra ele, Marcello comete um crime bárbaro.
Inspirado em um caso real que aconteceu nos anos 80 na Itália, Garrone nos presenteia com uma história naturalista sobre a violência, por um lado está Simone, um brutamontes que causa medo e revolta entre os habitantes do bairro, sua presença sempre é sinal de confusão e Marcello é uma espécie de brinquedo para ele, já que é dócil e leal, há um misto de adoração e medo em seu relacionamento com Simone, ele não consegue dizer não e sempre está à disposição seja para arranjar cocaína e se meter em roubos, claro que na maior parte das vezes é coagido simplesmente pela figura de Simone, mas Marcello também usa de sua figura franzina para ganhar a atenção dos demais e de algum modo ser protegido por Simone, que no caso não está interessado nisso, não tem nenhuma troca por parte dele e, por isso, Marcello acaba sendo sempre humilhado, o que dá a impressão que gosta de sofrer, é puramente masoquista. Ele dá e faz tudo o que tem e pode para o suposto amigo achando que ele irá dar algo em troca quando precisar, mesmo sabendo inconscientemente que não terá retorno, mas mesmo assim se submete. Por incrível que pareça muitas pessoas fazem isso e o filme exemplifica de uma maneira cru e revoltante. O título é explícito, Marcello realmente tem a personalidade de um cão amistoso, leal e que se dobra ao seu dono, o outro, Simone, um cão raivoso que sai mordendo a torto e a direito, talvez pelo modo como foi criado e as circunstâncias do ambiente o fizeram se proteger dessa forma, mas o que os dois querem se resume em uma única e igual coisa: atenção.
É incômodo visualizar a submissão de Marcello, ele está sempre no meio dos homens no bar escutando o quanto Simone enche o saco arrumando confusão e não pagando suas dívidas, até discutem um meio para sumir com ele, Marcello escuta calado a ideia e segue sua vida, que se resume a lavar os cachorros em seu surrado pet shop e agradar a filha com mergulhos, sua frustração em não poder levá-la em viagens melhores o faz tentar ganhar dinheiro vendendo cocaína, o que o aproxima também da parte não tão bem vista do bairro. Simone vive pegando a cocaína e não o paga, além de colocá-lo em situações perigosas de roubo, só que Marcello parece não se importar na maior parte do tempo, pois para ele estar inserido é um meio de não se tornar vítima, só que as coisas mudam de figura quando Simone articula um plano de roubo e Marcello termina preso.
A decisão que Marcello toma é estranha, será que ele tem tanto medo de Simone ao ponto de se sujeitar à prisão, ou quer mostrar que ele também é forte em não dar o braço a torcer e colocar o amigo na cadeia? Sua lealdade é tão forte assim para que estrague a própria vida? O fato é que depois disso o bairro vira às costas pra ele, pois foi considerado traidor e Simone é indiferente, Marcello quer metade do dinheiro do roubo, mas vendo que o amigo não tem intenção nenhuma em lhe dar dinheiro ou algum tipo de agradecimento por ficar na prisão no lugar dele, segue-se uma espiral de violência em que Marcello se enfurece ao ver sua reputação ir pro ralo com os demais e com a filha, sua última escolha é mostrar para todos ali que é capaz de consertar as coisas, mas termina como um cachorro que late, late e late pedindo inutilmente atenção.
"Dogman" traz uma interpretação impressionante de Marcello Fonte, sua figura franzina, suas atitudes e seus olhares nos conduzem desde o primeiro momento, sua voz terna para falar com os cachorros, sua submissão aos demais, e então a fase final em que sua visceralidade vem à tona, um poderoso retrato de um lugar em que a lei que impera é a do mais forte, o local decadente, o clima nublado e a pobreza só acentua para a atmosfera fria e pesada. É um filme marcante que demonstra o ser humano tentando sobreviver em um ambiente pobre em todos os sentidos.
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