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terça-feira, 31 de julho de 2018
November
"November" (2017) escrito e dirigido pelo estoniano Rainer Sarnet (Idioot - 2011) é baseado no livro "Rehepapp Ehk November", de Andrus Kivirähk, completamente fiel ao folclore da Estônia retrata lendas e tradições que acabam demonstrando o pior do ser humano, num ambiente desolado e falido acompanhamos a rotina de alguns camponeses que fazem pacto com o demônio e pedem auxílio dos espíritos, a corrupção faz parte da vida de todos e o horror faz com que percam sentimentos nobres. Um filme estranhamente atraente e poético.
A história é ambientada em uma aldeia pagã estoniana onde lobisomens, a peste e espíritos vagam. O problema principal dos aldeões é como sobreviver ao inverno frio e escuro. E, para esse objetivo, nada é tabu. As pessoas roubam umas das outras, dos seus senhorios alemães, dos espíritos, do diabo e de Cristo. A personagem principal é uma jovem fazendeira chamada Liina, que está desesperada e apaixonada por um garoto da aldeia chamado Hans.
O horror retratado não advém especificamente das criaturas, mas sim da atmosfera pesada que circula nesse vilarejo, as atitudes dos habitantes que roubam uns dos outros, e que preguiçosos tentam enganar até o diabo ao levar groselhas em troca de um Kratt, que é feito a partir de utensílios domésticos, eles sempre precisam estar trabalhando, são escravos dos humanos, este que deveria dar o sangue, a alma em troca, pois os Kratts são almas roubadas. Na mitologia estoniana são descritos como uma criatura mágica criada por utensílios domésticos ou feno pelo seu mestre que então daria três gotas de sangue para o diabo trazer uma alma a ele. No livro de Andrus Kivirähk sugere que muitos usavam groselhas para enganá-lo e assim salvar suas vidas. O Kratt faz tudo que o mestre manda, trabalha, rouba e até voa para isso, caso o trabalho não surgisse ele se tornaria violento se revoltando contra seu dono, uma artimanha para se livrar de um Kratt, era sugerir um trabalho impossível de realizar e que de tanto tentar pegaria fogo ou se desmancharia. A maioria dos camponeses fabricam seus Kratts, que constantemente são vistos trabalhando em meio a floresta, os homens terminam folgados e vingativos, eliminando qualquer rastro de um bom sentimento para com o outro.
Em meio a um cenário gélido tanto pelo clima quanto pelo modo de se relacionarem há Liina (Rea Lest), que ama intensamente em segredo Hans (Jörgen Liik), que por sua vez ama a baronesa (Jette Loona Hermanis), Liina faz de tudo para que Hans a note e Hans faz de tudo para que a baronesa o ame, ambos desesperados utilizam feitiços, meios que talvez pudessem de alguma forma trazer o coração do amado para perto dos seus. O pai de Liina a prometeu em casamento para um velho do vilarejo, desnorteada ela tenta até matar a jovem baronesa, que todas as noites sobe até o telhado e quando está para cair sempre é salva por alguém, Hans recorre ao diabo e troca sua alma por um Kratt, dessa vez o diabo não se engana com as groselhas e dá vida a um Kratt que conta histórias de amor, alimentando ainda mais a sua paixão pela baronesa.
Em meio a um cenário gélido tanto pelo clima quanto pelo modo de se relacionarem há Liina (Rea Lest), que ama intensamente em segredo Hans (Jörgen Liik), que por sua vez ama a baronesa (Jette Loona Hermanis), Liina faz de tudo para que Hans a note e Hans faz de tudo para que a baronesa o ame, ambos desesperados utilizam feitiços, meios que talvez pudessem de alguma forma trazer o coração do amado para perto dos seus. O pai de Liina a prometeu em casamento para um velho do vilarejo, desnorteada ela tenta até matar a jovem baronesa, que todas as noites sobe até o telhado e quando está para cair sempre é salva por alguém, Hans recorre ao diabo e troca sua alma por um Kratt, dessa vez o diabo não se engana com as groselhas e dá vida a um Kratt que conta histórias de amor, alimentando ainda mais a sua paixão pela baronesa.
O filme é um primor não só em sua narrativa, o visual é um deslumbre, a fotografia em preto e branco, na maior parte do tempo prevalecendo um branco translúcido e a paisagem gelada com sua floresta densa hipnotiza e gera angústia, porém mesmo assim o humor está presente em variadas situações bizarras e nos maneirismos e nas incríveis performances físicas dos atores, o belo está continuamente de mãos dadas com o horror. Excepcional em todos os quesitos, como os ruídos da natureza, o vento e o fogo, ou o barulho das passadas na neve, roupas, mastigação, além da trilha fúnebre que anuncia o mal ou o sofrimento. O conto nos transporta para um mundo fantástico, habitado tanto por demônios, espíritos, bruxas, criaturas pagãs e Cristo, mas também conversa com o realismo ao expor o lado traiçoeiro, ganancioso e mesquinho do ser humano, e claro, a tragédia, um clássico das histórias de amor.
"Eu fecho os olhos e finjo que as palavras que ele diz a ela são para mim."
"November" é uma fábula fascinante e que não se detém a sentimentalismos ao retratar as lendas estonianas, expõe-se preconceito, miséria, angústias e corrupção, além de agradar aos olhos com seu visual estonteante. O humor nada convencional permeia muitas das cenas, citando uma delas, quando a peste chega ao vilarejo na forma de um bode e os habitantes tentam se desvencilhar enganando-a colocando as calças na cabeça, que pelo cheiro não saberia identificá-los, a peste volta depois sob a forma de um porco, realmente estranho, mas efetivo ao demonstrar os comportamentos das pessoas sempre agindo para de algum modo se beneficiarem. Para quem busca por filmes fora da caixinha é mais que indicado, há beleza, lirismo e crueza. Filmaço!
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
O Esgrimista (Miekkailija)
"O Esgrimista" dirigido por Klaus Härö (Cartas ao Padre Jacob - 2009) é um belo filme que reúne alguns elementos bem convencionais, mas que mesmo assim surpreende pela maneira que aborda a esperança em tempos tão difíceis.
Centrando-se no momento pós-segunda guerra, quando estonianos que lutaram pela Alemanha são perseguidos pelo Governo da União Soviética. Baseado em fatos reais, conta a história do esgrimista Endel Nelis, que nos anos 50 criou uma escola de esgrima para crianças na Estônia. Märt Avandi vive Endel, que fugindo da polícia secreta russa volta para a Estônia e vai parar na pequena cidade de Haapsalu. Lá consegue emprego como professor e tem que criar um clube de esportes. Esgrimista, resolve ensinar sua modalidade às crianças do local. A escola carece de materiais esportivos e as crianças não veem muitas perspectivas, a chegada de Endel ilumina o ambiente, a sua decisão em ensinar esgrima às crianças dá um novo ar, mas por outro lado enfurece o diretor, que vê o esporte como sendo de elite e não para crianças pobres. Então, começa a investigar a vida de Endel, enquanto este se desdobra para arrumar recursos e ensinar o esporte. Alguns se sobressaem e se interessam cada vez mais, porém Endel não leva muito jeito para ensinar, é bruto e se desestabiliza diante os erros, mas acaba cativando os alunos. Ele também se envolve com uma professora e inicia um romance que ajudará com que compreenda ainda mais as crianças.
Centrando-se no momento pós-segunda guerra, quando estonianos que lutaram pela Alemanha são perseguidos pelo Governo da União Soviética. Baseado em fatos reais, conta a história do esgrimista Endel Nelis, que nos anos 50 criou uma escola de esgrima para crianças na Estônia. Märt Avandi vive Endel, que fugindo da polícia secreta russa volta para a Estônia e vai parar na pequena cidade de Haapsalu. Lá consegue emprego como professor e tem que criar um clube de esportes. Esgrimista, resolve ensinar sua modalidade às crianças do local. A escola carece de materiais esportivos e as crianças não veem muitas perspectivas, a chegada de Endel ilumina o ambiente, a sua decisão em ensinar esgrima às crianças dá um novo ar, mas por outro lado enfurece o diretor, que vê o esporte como sendo de elite e não para crianças pobres. Então, começa a investigar a vida de Endel, enquanto este se desdobra para arrumar recursos e ensinar o esporte. Alguns se sobressaem e se interessam cada vez mais, porém Endel não leva muito jeito para ensinar, é bruto e se desestabiliza diante os erros, mas acaba cativando os alunos. Ele também se envolve com uma professora e inicia um romance que ajudará com que compreenda ainda mais as crianças.
O longa tem um roteiro delicado mostrando a difícil vida de Endel, a sua tensão em tentar se esconder e dar o melhor de si para a educação de seus alunos, ele se esquiva dos obstáculos da mesma maneira com que luta esgrima, que aliás garante ao filme um diferencial, pois não é um esporte popular, portanto, nossa curiosidade se aguça. Endel explica passo a passo do esporte, desde a posição correta, o manejo com o florete, o movimentar-se, e para quê serve a esgrima. É um verdadeiro balé, elegante e potente. Ainda diz sobre o equilíbrio, distância e reflexo. Sem dúvidas, um filme edificante e inspirador, desde a transformação das crianças ao aprender até a possibilidade de uma competição. Endel fica apreensivo em ir para Leningrado, que está tomada por soldados russos, mas vê o quão importante é para eles essa oportunidade.
"O Esgrimista" coloca cada momento de forma natural, a não ser pelo seu final, mas que mesmo assim não tira a beleza do filme, existem inúmeros filmes do tipo, porém nunca é demais vermos que de coisas ruins podem surgir as boas, e que existem pessoas incríveis capazes de fazer a diferença. Endel mesmo sendo um refugiado político se entrega a paixão de ensinar e recebe a recompensa ao final.
Klaus Härö compôs uma obra belíssima e conseguiu imprimir suas características, o elenco infantil é muito expressivo e o protagonista marcante e delicado. O filme passeia por alguns gêneros, entre eles o romance, que é bem sutil, e deu uma açucarada na trama. O final exibe cenas que emocionam pela coragem e perseverança. Realmente é lindo ver a transformação das crianças.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Tangerinas (Mandariinid)
"Tangerinas" do diretor Zaza Urushadze é um filme estoniano lindíssimo que retrata a inutilidade da guerra.
A história acompanha Ivo (Lembit Ulfsak), que com a ajuda do produtor de tangerinas Margus (Elmo Nüganen) e do médico Juhan (Raivo Trass), salva a vida do checheno Ahmed (Giorgi Nakashidze) e do georgiano Niko (Misha Meskhi), em um povoado estoniano da Abecásia no meio da guerra de 1992. Neste ano estoura a guerra entre chechenos e georgianos pelas posses de terra da região da Abecásia, onde grande parte da população de estonianos acabou deixando o local. Entre os que ficaram está Ivo que vive isolado e fabrica caixas de madeira que são usadas para encaixotar as tangerinas cultivadas por seu amigo e vizinho Margus.
Um dia Ivo é surpreendido por dois soldados que pedem por comida e perguntam o porquê dele continuar lá em meio a guerra. Dias depois acontece um tiroteio na frente da casa de Margus, e Ivo se depara com aqueles dois soldados, um morto e o outro gravemente ferido. Ao enterrar os georgianos que morreram no ataque percebem que um ainda respira, e de repente Ivo está com um checheno e um georgiano dentro de sua casa. O checheno Ahmed e o georgiano Niko são cuidados por Ivo do mesmo jeito, pois tanto para Ivo como para Margus não importa a rivalidade, não existem lados, são dois seres humanos necessitando de ajuda, aos poucos eles vão melhorando e prometem acabar um com o outro, mas em respeito a Ivo uma trégua é feita. As ameaças são constantes e novamente tréguas são refeitas, Ivo os repreende como crianças e estes dois muito agradecidos vão tomando consciência, um vai vendo o lado do outro e convivendo aparece o lado humano e percebem que nem sabem pelo que estão lutando.
"Tangerinas" é um filme antibélico e de maneira linda consegue expor o lado mais bonito do ser humano. Ivo é um personagem emocionante, impossível não se encantar com seu jeito e suas palavras. Outro ponto bem bonito é a relação de amizade dele com Margus, um homem simples que cultiva suas tangerinas e cuja única preocupação é o fato delas estragarem.
É deveras tocante, pois nos lembra que se o ser humano respeitasse o outro por consequência as coisas se tornariam mais simples. Cada um tem o seu valor seja de que lugar for. Em um dos diálogos Ahmed diz gostar de música georgiana, e quando perguntado por Ivo sobre o direito de matar, o silêncio acaba sendo a sua resposta.
"Tangerinas" é um filme intimista, muito bem ambientado dando a sensação de vazio produzido pela guerra, e que promove um sentimento de otimismo em relação ao ser humano, sente-se orgulho dos personagens em muitas partes. É um longa imperdível que deveria ser visto por todos. Pouco importa quem chegou primeiro e quem tem o direito, todos merecem viver. A guerra destrói, ninguém sai ganhando. O recado que o personagem passa é valioso e nos faz sentir mais próximos uns dos outros.
"Tangerinas" é daqueles filmes que transforma um tema pesado em algo prazeroso, é simples mas traz uma profunda e reflexiva mensagem sobre paz.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Expurgo (Puhdistus)
Baseado na obra homônima da escritora finlandesa Sofi Oksanen, "Expurgo" (2012) conta a história de Aliide, uma velha senhora que vive solitária em uma floresta da Estônia, um dia acolhe em sua casa Zara, uma jovem russa. Apesar das desconfianças e precauções iniciais, as duas começam a se conhecer melhor e desenvolvem uma relação de amizade. Zara era uma escrava sexual na Rússia, e depois que fugiu passou a ser caçada por dois mafiosos que estavam envolvidos no mercado sexual. Aliide vê na nova amiga uma oportunidade de contar sua trajetória e suas experiências pela União Soviética, tentando se livrar dos próprios fantasmas. O ano é 1992, pouco tempo após o fim do regime soviético na Estônia. Passado e presente se cruzam nos revelando a história de duas mulheres oprimidas.
Uma breve introdução sobre a Estônia se faz necessário para compreender melhor o drama em que a personagem Aliide vive. A Estônia fica situada entre a Finlândia, Letônia, Rússia e Suécia, na Segunda Guerra Mundial os alemães ocuparam a Estônia, mas em 1944 a União Soviética expulsou os nazistas e o exército vermelho assumiu o comando. O regime soviético então foi restabelecido, no que causou mais danos para a população. Quem não aderisse era massacrado, morto ou deportado. As punições diminuíram um pouco só quando Stalin morreu, mas ainda assim inúmeros crimes foram cometidos e a Estônia se tornou independente em 1991.
A história acontece nesse contexto, sai os nazistas entra os soviéticos, Aliide e sua irmã Ingel se apaixonam por Hans Pekk, este por sua vez sente-se atraído por Ingel, Aliide não tem uma beleza extraordinária e acaba se retraindo por conta disso, ela passa então a nutrir um amor obsessivo em relação a Hans, capaz de qualquer coisa por um único momento, um único olhar, ou mesmo um elogio. Ingel e Hans se casam e não demora muito para terem um bebê, Aliide vive em função da irmã para ficar mais próxima de Hans, e em dado momento tem a ideia de que para Hans não morrer lutando é preciso escondê-lo, com o consentimento da irmã prepara um esconderijo do qual ele ficará por algum tempo, enquanto isso ela enfrenta perguntas e mais perguntas sobre o paradeiro de Hans, ela defronta-se com muita violência e abuso sexual da parte dos comunistas.
O filme passeia entre passado e presente, vai revelando aos poucos sobre as histórias que se cruzam, a menina Zara que foge dos mafiosos do ramo de exploração sexual aparece na casa de Aliide, e esta se depara com o destino e vê a oportunidade de expurgar seus pecados do passado.
Para viver na Estônia em tempos de guerra era preciso mentir e até trair, e foi o que Aliide fez, ainda mais movida por um amor não correspondido, ela foi capaz de trair a própria irmã a delatando juntamente com a filhinha e logo foram deportadas para um campo de trabalhos forçados. Casou-se com um comunista e mudou para sua casa com o marido, tudo com o objetivo de ficar mais próxima de Hans, para ele reconhecer nela uma mulher. Hans nesse meio tempo enclausurado enlouquece, quer a mulher e sua filha de volta, mas Aliide inventa que elas estão bem e que isso foi necessário. Toda vez que seu marido sai ela o tira do esconderijo, o limpa, o alimenta e se ilude achando que a amará. Com certeza Aliide fez coisas horríveis, mas de certo modo na inocência, se Hans simplesmente a olhasse já seria o suficiente, mas não o fez e então esse amor foi a consumindo e diante do contexto em que vivia agiu para conseguir sobreviver.
A personagem aparentemente sem sal vai ganhando uma beleza imensurável, o desfecho ressalta isso. Ela se transformou em uma mulher dura, pois foi mal vista por todos e esquecida por seus familiares. Na verdade, os chamados crimes e pecados foram sacrifícios necessários em um período repressor. O filme tem um roteiro encorpado que fascina à medida que avança, a personagem se livra da sujeira do passado através de Zara, e esta graças a Aliide se livra da sua. A cena final é libertadora e aliviante.
"As pessoas correm e fogem enquanto têm forças. Quando já não têm forças tentam se esconder. Mas nem todos podem correr rápido o suficiente, ou encontrar um esconderijo suficientemente bom."
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