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sexta-feira, 17 de março de 2023

To Leslie

  

 "To Leslie" (2022) dirigido por Michael Morris é um filme intimista que concentra toda sua narrativa na personagem central com seu cotidiano simplório e caótico, seus laços foram danificados por conta do vício em álcool, autodestrutiva segue seus dias no puro ócio apenas se culpando por suas escolhas. Traumatizada e atormentada ninguém mais acredita em sua mudança e é jogada de lá para cá, mas o filme não é negativo e propõe a sua redenção, é uma história sem firulas e comovente, acreditar em si mesma é o maior obstáculo de Leslie.
Andrea Riseborough dá vida a essa mulher de maneira real, não força estereótipo e em muitas vezes sentimos vergonha, tristeza, desespero, deslocamento, vagamos junto dela, sentimos na pele suas angústias e as pequenas crises de consciência que cresce à medida que compreende que a mudança só pode acontecer de dentro para fora, mas óbvio que é necessário ajuda para que o ciclo se complete, ninguém consegue sair de uma situação tão crítica sozinho, mas o tempo e o respeito àquela situação faz toda a diferença e isso se dá no personagem de Sweeney (Marc Maron), que delicadeza, paciência e empatia esse ser humano possui, alguém totalmente fora da vida dela dá o suporte, pois os familiares praticamente desistiram e nisso também não há como julgar, é algo imensurável e complexo lidar com o peso do outro, ainda mais para o filho de Leslie, que cresceu com a história de sua mãe sendo exposta e ridicularizada. Para contextualizar tudo começa quando Leslie ganha US$ 190 mil  na loteria, dinheiro que daria para organizar a sua vida e do filho, mas para comemorar ela paga uma rodada de bebidas para todos, daí a história avança seis anos e a vemos sendo despejada de um quarto de hotel barato por falta de pagamento, ela segue andando sem rumo com sua mala rosa, parando em bares e se consolando nas bebidas pagas por alguns homens, até que bate na porta de seu filho em outra cidade, o jovem a acomoda por alguns dias, mas claramente dá errado quando encontra bebidas escondidas debaixo do colchão comprados com dinheiro roubado de seu colega de quarto. Leslie é deixada na casa de conhecidos desse seu passado nebuloso, segue-se mais dores, humilhação, desnorteamento até que Sweeney lhe oferece emprego e abrigo no hotel em que trabalha.

A sutileza de Sweeney ao abordar os problemas de Leslie dando espaço para que ela mesma perceba que está se destruindo e se auto enganando, não a forçando e não desistindo no meio do caminho quando suas inconstâncias de humor se dão é primordial, só mesmo alguém que já tenha passado por um inferno semelhante é capaz de acolher alguém dessa maneira, já outras pessoas não suportam a primeira decaída, como o filho, que foi atingido em cheio pelo vício de sua mãe logo na infância, os "amigos" do passado a ridicularizam, principalmente por conta da perda do dinheiro da loteria e por ser uma cidade pequena isso se agrava mais ainda.
Algo bastante notável nesse longa é a forma de tratar esse tema com cuidado e realismo, não há excesso de dramaticidade, mas sim silêncios que sufocam e lágrimas que ficam presas nos olhos, a dor é imensa e a personagem não se dá o direito nem de sofrer por mais que sua vida esteja estraçalhada, se culpa, mas não percebe que boa parcela do que aconteceu com ela muitos tiveram responsabilidade, justamente por saberem que Leslie era imatura. Andrea Riseborough é minimalista e brilha em cena, ela toda desgrenhada e pálida dá vida a essa mulher que vaga de bar em bar buscando algo que nunca encontrará, a sua alma, modo de dizer, está trancafiada em si mesma e como é complicado a tomada de consciência para entender que mesmo deslocada e diferente dos demais há um caminho para si.
 
"To Leslie" é uma história modesta e comum, forte e preciosa, é incrível a jornada da protagonista, sua decadência arrastando todos ao redor junto de seu vício, o autoengano e traumas são tratados com sutileza, mas nunca deixando de nos afetar, seu final é um recomeço sincero. É um filme bonito com uma atuação bonita de Andrea Riseborough.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

The Banshees of Inisherin

 

"The Banshees of Inisherin" (2022) dirigido por Martin McDonagh (Três Anúncios Para um Crime - 2017) é um filme que exala solidão e um existencialismo potente que nos faz rir de desespero, particularmente a narrativa me conduziu como se estivesse lendo um livro, devagar e com intervalos contemplativos belíssimos, quadros melancólicos e que evoluem à medida dos acontecimentos cotidianos e mal-entendidos risíveis. Apesar da erma ilha aparentar uma certa paz e o tédio controlar a vida de seus habitantes, do outro lado o estrondo da guerra civil está a todo vapor. Situado numa ilha remota na costa oeste da Irlanda nos idos dos anos 20, acompanhamos um impasse entre os amigos de longa data Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson). Inesperadamente Colm põe fim à amizade deles e Pádraic fica desesperado amparado pela sua irmã Siobhán (Kerry Condon) e pelo problemático jovem Dominic (Barry Keoghan), esforçando-se para recuperar o relacionamento e recusando-se a aceitar um não como resposta, os esforços repetidos de Pádraic apenas fortalecem a determinação de seu ex-amigo e, quando Colm entrega um ultimato, os eventos sucedem-se rapidamente com consequências inesperadas. O rompimento dessa amizade também atinge outros habitantes da ilha fazendo com que encarem o próprio abismo, como Dominic, um rapaz que sofre violências por parte do pai e que é esnobado pela irmã de Pádraic. Colm está cansado de tudo e diante da finitude da vida dedica seus dias a deixar um legado através da arte, já o ingênuo Pádraic se apega ao raso da vida, simples e gentil atravessa seus dias de puro nada, seu relacionamento com a irmã às vezes o traz para realidade, já que Siobhán quer sair da ilha por não aguentar mais o barulho que o silêncio faz. A situação simplesmente vai se transformando em algo desesperador para Pádraic, teimoso insiste em ir atrás de Colm e o segue pelos lugares e não aceita que o amigo tenha parado de gostar dele. A simplicidade desse personagem aos poucos vai sendo substituída por atitudes chatas e vergonhosas, até surgem sentimentos de pena ou graça, mas à medida que a narrativa transcorre também percebemos o endurecimento desse personagem, ele vai perdendo a ilusão e começa a articular maldades.

É um filme primoroso, os diálogos que proporcionam reflexões, a fotografia e o cenário imenso dessa ilha repleta de pedras confluindo com a solidão que cada personagem sente, a angústia nos olhos de Pádraic pelo fim da amizade, sua insistência chata, seu amor por Jenny, sua mini mula que também é afetada por essa guerra travada entre os dois. Pádraic é limitado e amarrado ao lugar que mora, sua ilusão de felicidade é quase ingênua pela falta de conhecimentos acerca de tudo, ele leva a vida de modo rudimentar, o que irrita Colm, que nessa fase de vida já não quer perder tempo com bobagens e até engraçado quando diz que Pádraic é mais interessante bêbado.
 
Há muitos aspectos e nuances que podemos trazer para nosso cotidiano, amizades desfeitas do nada, a falta de profundidade nas relações, a solidão mascarada por inúmeros artifícios/vícios, o tédio, angústias e ansiedades geradas a partir de expectativas que os outros depositam em nós, etc. A melhor personagem que encara com inteligência o meio em que vive e tem uma tomada de decisão perspicaz é Siobhán, ela é sincera ao dialogar, encara seus medos e suas peculiaridades e se move antes de ter seu ser corrompido ou destruído.
"The Banshees of Inisherin" é uma crônica excêntrica e por vezes absurda e apesar de ter um tom cômico, na verdade, é triste e desesperançosa, sua melancolia atinge em cheio ao nos colocar diante da solidão e das complexidades que abrangem a finitude da vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O Menu (The Menu)

"O Menu" (2022) dirigido por Mark Mylod é um filme ácido e crítico que caminha por um suspense nada convencional, repleto de reviravoltas acaba sendo gostoso de degustar, diferente dos pratos que são expostos ao longo da história. É sempre satisfatório assistir um longa cuja história expõe as breguices estrambólicas da burguesia que faz questão de pagar para ter exclusividade em experiências, o cerne da narrativa é basicamente a gourmetização que acaba destruindo o amor envolvido no ato de preparar um prato para um cliente.
Tyler (Nicholas Hoult) é um entusiasta da alta gastronomia que convida Margot (Anya Taylor-Joy) para uma experiência única em um restaurante disputadíssimo que se localiza em uma ilha onde cultivam seus próprios alimentos, absolutamente todos. A cozinha desse famoso restaurante é liderado pelo renomado chef Slowik (Ralph Fiennes). Junto deles estão também outros singulares clientes. Por exemplo, um astro de cinema e sua assistente, três funcionários do mercado financeiro, uma importante crítica gastronômica e seu editor, além de um casal milionário.
O fato é que esses clientes não estão lá à toa, a única que não deveria estar é Margot, ela foi chamada de última hora por Tyler, isso causa impaciência no chef e bagunça todo seu cronograma, os pratos começam a serem servidos e enquanto Tyler se delicia com porções ínfimas, Margot desdenha, ela não faz parte da elite e não consegue achar nada satisfatório nesse lugar. A cada prato do menu situações pessoais dos convidados são expostas, o jeito autoritário e estranho do chef só eleva o terror, são jogados no ventilador hipocrisias e vaidades, o ego e o poder adquirido pelo dinheiro, pouco a pouco as máscaras se desfazem e alcança a violência, que para alguns também não é considerada real. Todos nesse espaço são pessoas deploráveis, Tyler é puxa-saco, prepotente e quando seu ídolo o coloca à prova se mostra um verdadeiro farsante. Os três amigos do mercado financeiro são os clássicos ricos que dão carteirada, mas se olhar mais de perto se vê a fraude. O ator decadente que pensa que todos ao redor o conhece, os críticos gastronômicos cuja soberba exala a quilômetros de distância quando analisam um prato, e também o homem que trai a mulher e que possui um segredo horroroso. O desenrolar vai passeando por um humor sádico e quanto mais se adentra no menu pior fica.
 
Em dado momento o chef diz para Margot escolher um lado e nisso está embutido a luta de classes, de um lado a exausta classe trabalhadora e do outro a caricatura do rico esnobe que não valoriza o serviço que consome e insatisfeito não compreende aquilo que sua fortuna compra, o que transforma qualquer prazer em objeto de luxo. Tudo vira questão de status e exclusividade quanto mais exorbitante são os preços. É bem interessante traçar paralelos com a realidade e perceber lugares que se vendem para pessoas especiais.
 
"O Menu" traz uma atuação impecável de Ralph Fiennes, que interpreta com rigor e elegância um ser humano frustrado, ele não gosta das pessoas que consomem seus pratos e busca uma vingança incluindo a si mesmo. Só apenas quando Margot pede um X-burguer, Slowik quebra essa armadura e o faz relembrar de quando cozinhava com amor e o quanto os clientes saboreavam com prazer o lanche. É uma cena maravilhosa!
Mesmo não se aprofundando tanto em seus personagens faz um excelente retrato de uma burguesia cafona e, sobretudo, o filme concebe um suspense inventivo e que nos faz não desgrudar os olhos da tela.  
*Disponível no catálogo da Star+

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Ruído Branco (White Noise)

"Ruído Branco" (2022) dirigido por Noah Baumbach (Mistress America - 2015), adaptação da obra-prima de Don DeLillo é um filme ousado que acaba soando estranho e caótico, mas é um estilo de história que agrada um público voraz que não se importa com narrativas difusas e divagações filosóficas acerca do entorno, uma mistura ácida, absurda por vezes, mas que traz um conjunto de ideias maravilhosas para debater após a sessão.
Difícil traçar uma sinopse, pois é uma obra em movimento, pode parecer que não vai para lugar algum, só que ela norteia o assunto e o restante o espectador decide o que fazer com a informação. Jack Gladney (Adam Driver) é um professor universitário de meia-idade especialista em Hitler que se sente frustrado por não saber alemão, ele vive com sua quarta esposa Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos, alguns de casamentos anteriores, é uma família comum que de repente é abalada por um "evento tóxico", uma nuvem de fumaça no horizonte transforma a vida da família que inicialmente se recusa a acreditar na veracidade dos fatos, mas a história não se prende nessa catástrofe, se passa algumas situações engraçadas ou absurdas e logo os vemos novamente vivendo como antes, certamente o paralelo com a pandemia é óbvio e daí pode-se viajar nas ideias, como o negacionismo e o autoengano, e é a partir dessa quebra de normalidade que começamos a perceber o drama existencial de cada um na tela, mas de maneira conturbada e até incômoda, gera ansiedade, pois nem tudo está conectado, são assuntos diferentes que não são aprimorados, tem que isolá-los ou focar naquele que mais te contamine. 
A trama se passa na década de 80 e é extremamente atual todos os pontos exibidos, como o academicismo com sua verborragia e altivez, além da frustração e autodepreciação, o tédio do privilégio, a depressão e a consciência dramática da própria finitude, o encucamento com coisas abstratas que levam à obsessão, o espetáculo do consumismo com o supermercado sendo uma distração com suas paletas de cores, o vício em ansiolíticos, o fetiche em desastres, teorias da conspiração, entre tantas outras.

 "A família é o berço da desinformação do mundo."
 
"Ruído Branco" é provocador, irônico, exagerado, esquisito, mas em alguma questão certamente o filme vai alfinetar o espectador, a espiral que o roteiro faz é uma experiência que atordoa, são situações cotidianas evidenciadas com a lupa do absurdo. 
 
O humor do longa de Baumbach é controverso e vem acompanhado de desespero, a realidade é assustadora e o autoengano faz parte do mecanismo para a sobrevivência das avalanches ocasionadas dia a dia, daí também parte para os vícios, sejam eles dos mais variados para estar num lugar mais confortável.
Filosofia afiada com altas doses de humor por vezes irritante e ridículo e outras sombrio e sarcástico, encarar a realidade e o entorno é um exercício cruel e indigesto, o filme faz isso muito bem e talvez não agrade exatamente por esse motivo, o som que vem dele é desarmônico e bastante desagradável.
*Disponível no catálogo da Netflix!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Melhores Filmes Vistos de 2022

Selecionei 13 filmes por puro gosto e experiência pessoal, ao longo do ano assisti poucos filmes, mas esses merecem muito entrar na lista.

13- "Lamb" (Cordeiro - 2021) Islândia

María (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive isolado em sua fazenda na Islândia, fazem o parto de um misterioso recém-nascido entre as ovelhas de seu celeiro. A inesperada perspectiva de uma vida familiar lhes traz muita alegria e eles resolvem criar o bebê como se fosse sua própria filha. "Lamb" (2021) dirigido por Valdimar Jóhannsson é um filme que mescla fantasia e horror a uma narrativa que convida o espectador a exercer sua reflexão e permite uma criatividade sem igual, o desenrolar vai no oposto das histórias imediatistas que não criam vínculos com suas personagens e não produzem sensações mais profundas e que apenas visam saciar a expectativa do público. Muito se compara "Lamb" ao longa de Robert Eggers, "A Bruxa" (2015), acredito que tenha algo em comum em seu cerne, como a ancestralidade que o ser humano é incapaz de entender, sobre sua relação de egocentrismo, desconhecimento e menosprezo com a natureza que acaba gerando atitudes de poder e que mais tarde serão cobradas.

12- "Os Inocentes" (The Innocents/De Uskyldige) 2021 - Dinamarca/Suécia/Finlândia/Noruega/França/Reino Unido

Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso. "The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.

11- "Benedetta" (2022) França/Bélgica/Holanda

No século XVII, uma freira italiana faz parte de um convento na Toscana desde quando era criança. Ela sofre de um distúrbio e tem perturbações e visões religiosas e eróticas. Assistida por uma companheira, a relação entre as duas acabam se tornando um romance amoroso.

 10- "Red Rocket" (2021) EUA


Mikey é um astro decadente de filmes adultos cuja carreira terminou. Enfrentando problemas financeiros em Los Angeles, ele decide rastejar de volta para sua pequena cidade natal, no Texas, para viver com a ex-esposa e a sogra. Quando essa família disfuncional parece estar fazendo as coisas funcionarem, Mikey conhece uma jovem chamada Strawberry trabalhando na caixa registradora de uma loja de donuts local e imagina que a garota pode ser a solução para seus problemas – e a volta por cima em sua carreira.

09- "Men" (2022) Reino Unido 

Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios.

08- "Resurrection" (2022) EUA 

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David.

07- "Não Fale o Mal" (Speak No Evil - 2022) Dinamarca/Holanda 

Após conhecerem uma família holandesa durante suas férias na Tosca, uma família dinamarquesa recebe o convite de passar o fim de semana na casa de seus novos amigos. Mas não demora muito para que mal-entendidos revelem que a família holandesa não é quem diziam ser.

06- "Nada de Novo no Front" (Im Westen Nichts Neues - 2022) Alemanha/EUA

Paul Baumer e seus amigos Albert e Muller se alistam voluntariamente no exército alemão, movidos por uma onda de fervor patriótico. Mas isso é rapidamente dissipado quando enfrentam a realidade brutal da vida no front. Em meio à contagem regressiva, Paul deve continuar lutando até o fim, com nenhum objetivo além de satisfazer o desejo do alto escalão de acabar com a guerra com uma ofensiva alemã.

05- "Não! Não Olhe!" (Nope) 2022 - EUA

Na zona rural da Califórnia, os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer) administram uma grande fazenda de treinamento de cavalos. Mas tudo muda quando seu pai Otis (Keith David) morre de forma misteriosa sob uma nuvem sinistra. A partir desse momento, moradores de toda a vizinhança passam a testemunhar um mal terrível se aproximando pelo céu e deixando um rastro de morte e destruição.

04- "Pleasure" (2021) França/Holanda/Suécia

Uma garota sueca de 20 anos tenta ser uma estrela pornô em Los Angeles. Trabalhando na categoria "amador adolescente" e compartilhando um apartamento com outras atrizes, Jessica pretende escalar todos os degraus e se tornar uma verdadeira estrela pornô, tornando-se um mito e trabalhando seu corpo como uma atleta.

03- "O Milagre" (The Wonder - 2022) USA/Reino Unido/Irlanda

Em 1859 uma enfermeira inglesa é chamada a uma pequena vila na Irlanda para investigar o que alguns afirmam ser uma anomalia médica ou um milagre. Lá, ela encontra uma garota de 11 anos que parou de comer há meses e continua viva.

02- "Triângulo da Tristeza" (Triangle of Sadness - 2022) Suécia/Alemanha/Reino Unido/França 

Os modelos Carl e Yaya estão navegando pelo mundo da moda enquanto exploram os limites de seu relacionamento. O casal é convidado para um cruzeiro de luxo com uma galeria de passageiros milionários, um oligarca russo, traficantes de armas britânicos e um capitão de personalidade peculiar, alcoólatra e adorador de Marx. A princípio, tudo parece instagramável. Mas uma tempestade começa a se formar e o cruzeiro termina de forma catastrófica. Carl e Yaya se veem abandonados em uma ilha deserta com um grupo de bilionários e uma das faxineiras do navio. É então que a hierarquia entre eles subitamente se transforma. "Triângulo da Tristeza" (2022) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior, 2014 - The Square, 2017), ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano é um filme que expõe sem metáforas o privilégio da elite, daqueles que não aceitam não e cujo tédio é sanado por situações esdrúxulas. O longa abrange algumas temáticas interessantes que envolvem o capitalismo, como os influencers digitais e a maneira fácil de se ganhar montantes de dinheiro com publicidade, a imagem de perfeição e luxo atraem cada vez mais pessoas para esse mundo e no primeiro capitulo acompanhamos um casal de modelos que, por exemplo, brigam num restaurante sobre quem deveria pagar a conta. As situações exploradas no decorrer são permeadas por muito sarcasmo e o diretor faz questão de provocar o espectador, as pessoas são péssimas e o desenrolar dos acontecimentos só realçam o quão ridículos são.

01- "Pearl" (2022) Canadá/EUA

 
Aprisionada na fazenda isolada de sua família, Pearl (Mia Goth) deve cuidar de seu pai doente sob a vigilância amarga e autoritária de sua mãe devota. Desejando uma vida glamourosa como ela viu nos filmes, todas as ambições, tentações e repressões da personagem colidem, resultando na impressionante história de origem da icônica vilã de ‘X’.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Resurrection

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David. Ele diz coisas enigmáticas para Margaret, palavras que a faz ir de encontro ao seu terrível passado. É incrível a capacidade de atração da história, a visceralidade que surge em Margaret quando acha que sua filha corre perigo, sua raiva, seu medo em ter de lidar com um monstro do passado que surge de mansinho, mas não menos perturbador, David é polido com sua voz mansa e sorriso cínico, a história parece não fazer sentido, a perspectiva que temos é embaçada e conflituosa, mas assim são os traumas que foram soterrados e que submergem inesperadamente.

É um filme que sabe trabalhar bem seu suspense/thriller, que possui uma protagonista que se ergue sobre a história, cuja atmosfera sufoca a cada evento enigmático, os olhares desesperados de Margaret, sua violência física que cresce quando prevê o perigo, sua angústia em lidar com um passado amargo e extremamente doloroso, abusos de diversos tipos, não há nada que mensure a grandeza da interpretação de Hall, a estranheza do filme se converte em emoção, não tem como não ter empatia por essa mulher que está afundada em terrores. Como superar traumas de abuso? Fugindo e seguindo a vida? E então como conviver com os fantasmas advindos disso?
 
Sincero e honesto ao retratar os acarretamentos de abusos perversos, "Resurrection" é um filme potente e voraz, não é fácil, não é simples, e seu final carrega um misto de peso e alívio. Destaque para a cena em que Magaret narra toda sua história pregressa para a estagiária, um monólogo destruidor.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

The Eddy (Minissérie)

 
"The Eddy" (2020) minissérie disponível no catálogo da Netflix é um achado maravilhoso que cativa com toda sua musicalidade e sentimentos complexos, com personagens apaixonantes somos absorvidos por uma aura de melancolia numa Paris pulsante onde predominantemente o que se sobressai é a veneração pelo jazz e os laços afetivos que são construídos a partir dele.
Dirigido por Damien Chazelle (Whiplash - 2014, La La Land - 2016) acompanhamos em oito episódios a história de Elliot (André Holland), um exímio pianista que abandonou a carreira após uma tragédia familiar e partiu sozinho para Paris onde abriu uma casa de show especializada em jazz junto de seu melhor amigo Farid (Tahar Rahim). Elliot não é uma pessoa fácil de lidar, é extremamente perfeccionista e a banda intitulada The Eddy composta pelos melhores músicos é a sua vida, conhecemos alguns integrantes mais de perto em episódios dedicados a eles, como Maya (Joanna Kulig) que precisa lidar com frustrações na carreira e sua relação conturbada com Elliot e Jude (Damian Nueva), que esbanja autenticidade e afeto. Elliot precisa dar um jeito em sua vida, há muitas pontas soltas e depois da morte misteriosa de seu sócio e amigo sua vida vai ladeira abaixo, são muitas coisas para resolver, problemas com o clube, coisas ocultas que Farid fazia e além disso, sua filha Julie (Amandla Stenberg) vem morar em Paris e tentar criar laços com o pai, mas é uma tarefa muito difícil e nenhum dos dois estão preparados, ela acaba indo morar na casa da viúva de Farid, Amira (Leïla Bekhti).
A trama policial acaba desviando muito o tom da série, é uma lástima infelizmente, acaba perdendo muito o contexto dramático dos personagens que são ricos e densos em suas mais diversas camadas, isso se deve a excelência das interpretações, inclusive os integrantes da banda são músicos na vida real que nunca interpretaram. A parte musical é linda e empolgante e por isso nem importa tanto as decaídas que o roteiro dá. Outro ponto positivo é que a história é repleta de diversidade, a Paris retratada é recheada de culturas, onde imigrantes lutam pelo seu espaço ao lidar com preconceito e desigualdade. 
 
A minissérie tem episódios marcantes, vibrantes, melancólicos e apesar da trama escorregar no lado policial tem fascinantes cenas em que a música impera nos proporcionando beleza ao ver a paixão que exala dos músicos, mais orgânico impossível. As histórias se desenrolam de maneira contida e por mais que soe arrastada em alguns pontos vale muito assisti-la.
 
"The Eddy" é uma minissérie vibrante pelo jazz e tocante pelas histórias que acompanhamos, até poderia se aprofundar em mais personagens, as diversas personalidades são apaixonantes, mas também complexas e caóticas, e mesmo que hajam desentendimentos e conflitos o afeto sempre norteia essas relações. 

terça-feira, 28 de julho de 2020

Arkansas / The Gentlemen (Magnatas do Crime)

Segue dois filmes que tratam de um tema em comum, o tráfico de drogas, mas que são construídos de forma única, os dois com seus diferenciais são sem dúvidas exemplares maravilhosos que merecem mais reconhecimento. Confira:

"Arkansas" (2020) marca a estreia na direção do comediante Clark Duke, que também corroteirizou e atuou no longa, é uma história que vai ligando os pontos aos poucos, dividida em cinco capítulos acompanhamos a ascensão dos personagens no tráfico de drogas no sul dos EUA, que assim como o narrador e protagonista do filme revela não é tão organizado e que não existe códigos de honra igual a mafia italiana e mexicana.
Kyle (Liam Hemsworth) e Swin (Clark Duke) entram por acaso no tráfico de drogas. Eles trabalham num esquema de sucesso no sul dos Estados Unidos, recebendo ordens de Frog (Vince Vaughn), um chefe que nunca encontraram pessoalmente. Quando uma das entregas leva a um assassinato involuntário, os dois precisam se proteger das represálias que virão.
Tudo começa quando a dupla conhece Bright (John Malkovich), o chefe deles em Arkansas, mas acaba acontecendo um mal-entendido e os dois decidem agir por conta própria alavancando o negócio, daí a trama vai nos colocando a par da vida de Frog, desde a sua entrada no tráfico até o momento em que se põe como o mandante de tudo, o interessante é a maneira que esses personagens se conectam em um emaranhado de situações perigosas, mas o que deixa ainda mais enérgico é o como cada um encara, Kyle, nosso narrador é um homem frio e que diz não ser ambicioso, no decorrer vemos ele lidar com uma possível transformação onde a falta de lealdade e a ganância são o caminho mais fácil, já Swim com seus trejeitos engraçados beirando ao caricato traz um certo respiro para a rotina deles que é permeada de tensão e violência. O humor cínico e as pequenas reviravoltas dão ao longa uma característica única e que surpreende muito em relação ao tema tráfico de drogas.
"Arkansas" é um exemplar que mescla cinismo, violência e apesar de ter bastante energia caminha num ritmo mais lento, seu clima introspectivo é justamente o que gera o magnetismo e aflição. Ótimo!

"Magnatas do Crime" (2019) escrito e dirigido por Guy Ritchie (Snatch: Porcos e Diamantes - 2000) é um filme que chama a atenção de primeira pelo elenco, um show de atuações que ganhamos enquanto viajamos pela ousada trama, o jeito enérgico e envolvente do diretor dá as caras novamente e que primor de narrativa que mescla sensações diversas em menos de um minuto. 
O norte-americano Mickey Pearson (Matthew McConaughey) chega a Londres decidido a vender o seu negócio milionário e viver despreocupadamente de rendimentos, ao lado de Rosalind (Michelle Dockery), a sua belíssima esposa. Contudo, por ser bastante cobiçado e estar relacionado com drogas ilegais, o negócio em questão vai envolver criminosos de toda a espécie e grau, desencadeando intrigas, chantagens, conspirações e assassinatos. 
É um filme de gângster estiloso, super elegante e recheado de tramas fascinantes, os personagens são excêntricos e geram antipatia, principalmente Mickey, desprezível até o âmago. Acompanhamos uma bela introdução que se revelará em determinado ponto em suas inúmeras reviravoltas doidas, mas temos como fio condutor Fletcher (Hugh Grant), um jornalista que deseja chantagear Mickey e seu capanga Ray (Charlie Hunnam), Mickey está vendendo sua secreta e moderna plantação a Matthew (Jeremy Strong), que não está satisfeito com o preço, nesse meio entra uma quadrilha de chineses e o jogo entre eles fica confuso, onde um tenta dar um passo a frente pensando estar dando uma jogada de mestre, só que este já pensou nesta cartada e está mais a frente ainda, além de que muitas situações são essencialmente sorte. Para completar Ray conta com a ajuda do treinador de boxe interpretado por Colin Farrell, que diz não se envolver em questões criminosas, porém executa os pedidos de Ray, aleatoriamente termina por completar esse time de malucos. Sarcástico, violento, repleto de viradas com diálogos inteligentes e sacadas diferenciadas, cenas de ações vibrantes, além da trilha sonora que é simplesmente a perfeição! 
"Magnatas do Crime" é uma obra estilosa, ácida e que trapaceia, feita com asseio em seus mínimos detalhes, como o figurino e acessórios dos personagens que ajudam a criar personalidades marcantes e delinear traços específicos, além dos prazerosos jogos de diálogos intricados e o desencadeamento das ações que é o que conduzem realmente a história. Baita filme, um dos melhores do ano!

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A Garota Viciada (Sarah T: Portrait of a Teenage Alcoholic)

"A Garota Viciada" (1975) dirigido por Richard Donner (A Profecia - 1976, Os Goonies - 1985) é um filme raro feito para a televisão estrelado por Linda Blair, a Regan do icônico filme "O Exorcista" (1973).
Baseado na história real de Sarah Travis, uma menina de 15 anos que começou a viciar-se no álcool quando sentiu dificuldades em se adaptar a nova vida com a mãe Jean e o padrasto, após o divórcio dos pais, e também teve problemas com a nova vizinhança e a nova escola. Rejeitada pelos colegas Sarah passou a beber cada vez mais tornando-se uma dipsomaníaca. 
O filme é um intenso retrato do alcoolismo na infância e adolescência, acompanhamos a trajetória de Sarah que sente dificuldade para adaptar-se a uma nova rotina após o divórcio dos pais, deslocada e tímida a mãe força a menina a ter amigos e o sentimento de inadequação e solidão dá margem para que ela se interesse por querer fugir da realidade, o álcool lhe propicia isso e tudo se inicia numa festa dentro de sua própria casa em meio aos adultos tomando uísque e outros destilados, a facilidade em obter as garrafas a faz ainda mais ter vontade, a sensação lhe satisfaz e daí para frente começa a esconder bebidas em seu armário do quarto e da escola, ninguém percebe a sua mudança, mas Sarah fica mais solta e aceita a ir numa festa por intermédio da mãe com o galã da escola Ken Newkirk (Mark Hamill - o eterno Luke Skywalker), lá não demora para beber e impressiona o rapaz pela quantidade de bebida que toma, isso a faz ficar completamente fora de si e Ken a leva para casa, a mãe fica brava com a situação e culpa Ken e mais tarde quando tudo está incontrolável o culpam por viciá-la, mas eles não querem enxergar a verdade e tão pouco creem que ela está caindo num abismo, Sarah também não compreende que está doente, só que mais adiante quando chega ao ponto de colocar a sua vida em risco e também a dos outros o médico lhe aconselha a ir num grupo de A.A., e assim percebe o como é difícil olhar para si e se dar conta que está doente, não é simples e para uma adolescente é extremamente perturbador, aliás o filme mostra crianças viciadas dando depoimentos fortes de como se aproximaram da bebida, e quase sempre foram vendo os pais bebendo. A história retrata com realismo algo que é mais comum do que se imagina, a depressão na infância, o sentimento de inadequação e a necessidade de fuga aliada a obtenção fácil do álcool.

Linda Blair é uma potência em cena, para quem só a conhece pelo filme de horror "O Exorcista", vale a pena dar uma conferida em "A Garota Viciada", que nos coloca diante de uma situação pouco comentada, retrata com seriedade a derrocada que um vício causa, desde as primeiras sensações de prazer, as mudanças que causam no humor, na transformação da personalidade para algo que a pessoa pensa ser melhor, e então os efeitos colaterais, as dores físicas e emocionais. São poucas as obras que acertam o tom dentro desse tema e esse é um ótimo exemplar que, sem dúvidas, deveria ser mais conhecido. Uma joia, um clássico perdido que certamente vale o esforço da procura. 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Daniel Isn't Real

"Daniel Isn't Real" (2019) dirigido por Adam Egypt Mortimer é uma produção independente adaptada do livro "In This Way I Was Saved", de Brian DeLeeuw, que também escreveu o roteiro. Intrigante, sombrio e com pitadas de terror cósmico, mexe bastante com nossa imaginação por flertar tanto com o sobrenatural quanto com transtornos mentais, a estética é sensacional e possui autenticidade e originalidade. 
Após sofrer um forte trauma familiar, Luke (Miles Robbins) ressuscita seu amigo imaginário de infância, Daniel (Patrick Schwarzenegger). Carismático e cheio de energia, Daniel ajuda Luke a voltar aos trilhos e alcançar seus sonhos, antes de levá-lo à beira da loucura.
Acompanhamos Luke, um garoto de nove anos que presencia a briga de seus pais e ao sair de casa se depara com uma terrível cena de assassinato em massa numa cafeteria, diante desse cenário desolador cria um amigo imaginário e o chama de Daniel. Com a separação a mãe de Luke se torna cada vez mais instável, e insatisfeita com a amizade imaginária faz o filho prender Daniel numa casa de brinquedo. Anos se passam e Luke já com dezoito anos se vê solitário e com a internação de sua mãe acaba soltando Daniel, que também já é um adulto. A partir daí Daniel começa a controlar a mente de Luke, de início é até libertador, pois ele se solta, flerta e se apaixona pela pintora Cassie (Sasha Lane), então Luke se torna mais corajoso e desencadeia em Daniel uma certa inveja, o controle aumenta e Luke sente seu emocional instável, alucina e entra numa paranoia de que terá o mesmo destino do rapaz do tiroteio em sua infância. Começa uma busca insana por pistas e nesse caminho se depara com aberrações monstruosas, as cenas de entrelaçamentos entre Luke e Daniel são incríveis, distorções e efeitos visuais bizarros, o terceiro ato é um emaranhado louco e agonizante, muitos elementos remetem a filmes do gênero dos anos 80, a construção da narrativa é flexível e deixa a cargo do espectador dar a sua interpretação, a atmosfera surreal brinca com as possibilidades da história e nos faz imaginar além da doença mental e ir de encontro realmente com os demônios e monstros. 

"Daniel Isn't Real" é um filme esquisito, te faz viajar, mescla elementos curiosos e traz atuações atraentes, tanto Miles Robbins - filho de Tim Robbins, dando vida a um rapaz vulnerável e instável, como Patrick Schwarzenegger - filho de Arnold Schwarzenegger, com seu jeito charmoso, manipulador e enigmático. Sem dúvidas, um filme de terror além do convencional e que gera uma série de reflexões acerca da trama. 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pequenos Delitos (Small Crimes) / Sem Perdão (Shot Caller)

Segue dois filmes disponíveis no catálogo da Netflix que retratam o mesmo tema com o mesmo ator e ambos produzidos no mesmo ano. São obras realistas, sombrias e que se debruçam no caráter de seus protagonistas. Confira:

"Pequenos Delitos" (2017) dirigido por E.L. Katz é um filme que possui uma narrativa interessante que avança com tons de humor ácido para uma violência gradativa, o protagonista carrega o caos para onde quer que vá, destrói tudo que o cerca. Uma composição maravilhosa de Nikolaj Coster-Waldau, intérprete do icônico Jaime Lannister.
Acompanhamos Joe Denton, um ex-policial corrupto que após cumprir seis anos de prisão volta para a casa dos pais a fim de reconstruir a vida, mas logo de cara percebemos que seu passado e sua personalidade intempestiva não o deixará atingir seus desejos. Ele quer se reconectar com a filha, assumir o controle da vida, mas aos poucos se dá conta que ninguém quer contato com ele e que nunca vai ser perdoado pelo crime cometido, as pessoas ao redor não admitirão a sua reintegração à sociedade e somado a isso tudo vem uma sucessão de problemas não resolvidos que acabam atingindo os mais próximos, o personagem se molda de uma maneira decadente, o desenrolar vai o desconstruindo e apesar de gerar empatia no início suas atitudes vão causando repulsa, uma incrível composição de Nicolaj que só pela sua postura já demonstra sua personalidade instável. O filme captura nossa atenção e mexe bastante com nossos nervos ao passar por tons de sarcasmo e obscuridade atingindo um ápice memorável! 

"Sem Perdão" (2017) dirigido por Ric Roman Waugh é um filme intenso que nos insere na vida de Jacob/Money, vivido magnificamente por Nikolaj Coster-Waldau, um empresário de colarinho branco que acaba se envolvendo em um acidente e vai parar na cadeia, lá desolado pela situação aprende a sobreviver e entra para uma gangue extremamente perigosa, a narrativa é pontuada por flashbacks que demonstram alguns motivos pelos quais entrou para o mundo do crime e sua ascensão através da violência.
Impressionante a construção do personagem, ele realmente muda muito durante o desenrolar, não só fisicamente, mas também sua postura e modo de enxergar a vida, na prisão cada vez mais se envolve em esquemas que o leva a se afundar e assim não o favorecendo a obter sua liberdade, mas em compensação sua fama e poder lhe fornece respeito de todos os detentos e de muitos agentes penitenciários. É uma onda que o engole e o joga para longe do que foi sua vida anterior, ele se insere até rapidamente na gangue e se alia aos mais fortes, incluindo Frank (Jon Bernthal) e Bottles (Jeffrey Donovan), mas seu processo de transformação é marcante pela aceitação da violência, e se tem uma coisa que esse filme faz é retratar as ações violentas de modo realista e seco, outro ponto é não entregar os possíveis desfechos, o que importa realmente é acompanhar a complexidade do personagem nessa trajetória pelo sistema penitenciário, onde ele experimenta altas doses de fúria e sofrimento. 

domingo, 31 de maio de 2020

The Lodge

"The Lodge" (2019) dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz (Boa Noite, Mamãe - 2014) é um filme de terror que foge dos clássicos sustos e prima mais pela atmosfera tensa e sufocante, é lento no desenvolvimento e trabalha em detalhes a personalidade dos personagens, uma boa amostra do quão aterradora é a mente humana, se familiariza com alguns elementos de "Hereditário" e também lembra em alguns pontos "O Iluminado". Sem dúvidas, uma obra marcante! 
Durante o feriado de fim de ano, Grace (Riley Keough) viaja com seu futuro noivo e os dois filhos dele para um remoto chalé. Quando a relação entre ela e as crianças finalmente começa a se estabelecer, uma nevasca e estranhos acontecimentos ameaçam despertar demônios psicológicos de sua infância. 
Acompanhamos logo de início uma cena chocante, daí parte para como os irmãos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) lidam com o ocorrido, o pai (Richard Armitage) sem dar tempo para que eles sofram e passem pelo luto os arrasta para uma casa isolada junto de sua namorada para passarem o natal, tudo com a intenção de aproximá-los, mas os dois não querem e antes de ir investigam a vida da moça, Grace tem um passado sombrio e traumático envolvendo uma seita religiosa liderada pelo próprio pai, vive a base de remédios e seu semblante demonstra sempre cansaço, não há dúvidas de que essa ideia é irresponsável já que ele precisa ir trabalhar e deixá-los nesse local à deriva das próprias emoções. O roteiro brinca demasiadamente com o espectador, as várias situações nos dão certas dicas que ao se desenrolarem acabam caindo por terra, o fato é que Grace tenta a aproximação e os irmãos relutam, depois eles se aproximam e começam a confundir a mente dela, objetos somem, inclusive seu remédio, vai ficando cada vez mais grave e o ápice é o sumiço de seu cachorro que a faz perder o senso de realidade, eles continuam a inventar que estão numa espécie de limbo por conta da culpa e a fazem crer que ela é a causadora disso tudo, ela entra na paranoia religiosa novamente e quando Aidan e Mia se dão conta é tarde demais, não adianta contar a verdade e restabelecer qualquer tentativa de conexão, o mal está feito. Quando o pai chega ao local invadido pela nevasca não parece haver saída e o que se segue é caos e tragédia. O misto de sensações que a história provoca é incrível, os personagens oscilam em seus sentimentos e ações, perturbam e criam revolta, principalmente o pai que foi um irresponsável e insensível com os filhos, não deu tempo para entenderem e passar pelo fardo, logo os joga numa isolada casa cheia de lembranças junto com a namorada instável em meio a uma nevasca horrorosa. É um redemoinho de ações erradas.

O filme possui em grande parte uma ambientação fantasmagórica e sufocante onde tensões se estabelecem e refletem em imagens as emoções das crianças em relação a situação, e apesar de cair o ritmo em determinado momento é uma obra perturbadora e que choca pela ousadia de muitas cenas, a construção dos personagens é um primor, além da incrível direção de arte. 

"The Lodge" tem uma trama que cria enigmas e tensões que arrepiam pela carga dramática. Forte e desagradável em inúmeros momentos, mas isso é um atributo formidável do roteiro mesmo que algumas partes caiam na monotonia. O destaque vai para a beleza plástica e a perturbação intensa vivida por Riley Keough.