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quarta-feira, 20 de novembro de 2019
O Rei (The King)
"O Rei" (2019) dirigido por David Michôd (Reino Animal - 2010, Flesh and Bone - 2015) é um drama épico livremente baseado em eventos históricos e adaptado da peça Henrique V, de Shakespeare. Uma produção poderosa que passa por intrigas de poder políticas e familiares com violência, beleza e questionamentos.
Após a morte de seu pai, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, obrigado a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França.
Uma ótima surpresa, tanto em seu visual como na condução, é um filme que enche os olhos, mas que também promove reflexões acerca de todo o emaranhado provocado pela ânsia de poder. Acompanhamos a decadência do rei (Ben Mendelsohn), uma figura cruel e do qual o filho que o sucederá rejeita, então o rei deixa claro que a coroa será do outro filho que possui o desejo de ascender de maneiras não tão inteligentes, mas acaba que depois da morte do rei e do filho mais novo Henry é coroado, este que antes vivia uma vida simples de boêmio junto de seu fiel amigo e antigo cavaleiro Falstaff (Joel Edgerton). Todos os personagens possuem características marcantes e se entrelaçam numa trama permeada de intrigas, negociações e artimanhas, Henry é completamente avesso aos planos de guerra e se distancia do pai justamente por isso, mas quando se torna rei se depara e é obrigado a pensar nessas questões e fica de frente a difíceis decisões e cujas pessoas que o rodeiam não são confiáveis, o jogo de poder vai acontecendo e seu processo de amadurecimento é confuso e solitário, sua posição não lhe permite amizades sinceras, em meio a tantas desconfianças ele nomeia Falstaff como seu marechal e na decorrência dos fatos vai se tornando numa pessoa dura e amarga, tão próximo da figura do pai que tanto detestava. O magnetismo de Chalamet impressiona e a ótima interação entre os personagens o torna um épico diferente em que o peso das escolhas tem muito mais ênfase do que qualquer ação e violência, apesar de que as sequências de embates são incríveis e denotam também grande carga dramática, não só a estética prevalece, há uma gama de questões envoltas.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.
O roteiro escrito pelo próprio diretor David Michôd em parceria com Joel Edgerton é bem estruturado e se revela como um poderoso thriller político juntamente com o amadurecimento de um jovem de ideais pacifistas que se vê obrigado a assumir a coroa e aconselhado a não se mostrar fraco inicia uma guerra desnecessária.
"O Rei" é um filme solene, retrata os bastidores do reino, as tramas, estratégias e negociações, a solidão e o tédio; a transformação. Todos os sentimentos são transmitidos pelo olhar de Henry, sempre pensativo e angustiado, as poucas cenas de embate são impecáveis e dolorosas, é rico na ambientação e inteligente no desenrolar.
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar)
"Midsommar" (2019) dirigido por Ari Aster (Hereditário - 2018) é uma obra que trabalha sentimentos de perda e luto de maneira estarrecedora, sua aura solar impregnada por símbolos pagãos absorvem o espectador numa atmosfera inebriante e pulsante, muito se assemelha ao terror folk de "O Homem de Palha" - 1973, pelo fato de conter elementos macabros e utilizar cultos pagãos num cenário diurno, o medo é trabalhado de variadas formas sempre colocando o quanto o diferente e a cultura do outro assusta, explora suas camadas com inteligência e fornece olhares diversos promovendo reflexões profundas, além de perturbar com sua luminosidade e fascinar por seus mistérios.
Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani vivida pela ótima Florence Pugh - "Lady Macbeth" - 2016, vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia numa viagem para um festival de verão único em uma remota vila sueca. O que começa como férias despreocupadas de verão em uma terra de luz eterna toma um rumo sinistro quando os moradores do vilarejo convidam o grupo a participar de festividades que tornam o paraíso pastoral cada vez mais preocupante e visceralmente perturbador.
A única parte escura do filme é o seu início quando retrata Dani preocupada com a irmã bipolar e com sua relação com o namorado Christian, que claramente está sufocado, mas adia o término do relacionamento criando um círculo de dependência que faz Dani sofrer, angustiante acompanhar o modo como Dani reage à tragédia envolvendo sua família, ela suporta o sofrimento calada, não demonstra tristeza para o namorado e quando percebe que precisa colocar para fora sai da presença dele e sozinha chora e grita. Convidados por Pelle (Vilhelm Blomgren) viajam para a Suécia a fim de conhecerem sua família e celebrarem o festival de solstício de verão numa pequena comunidade chamada Harga, junto deles vão Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter), amigos com comportamentos tão chatos e escrotos quanto o do próprio Christian para com Dani, inicialmente ela não estava convidada, mas toda a situação a levou a querer ir e Pelle se mostrou bastante empático e receptivo, então chegando lá somos apresentados ao edênico local e no decorrer vamos observando toda a festividade que acontece a cada 90 anos e tem a duração de 9 dias.
O filme faz questão de mostrar que se trata de uma fábula, um conto de fadas sombrio à la Grimm, mesmo se passando na mais completa resplandecência, logo em seu começo observamos uma espécie de prenúncio, um quadro que possui desenhos/símbolos que denotam toda a trajetória da história, há muitas referências no seu decorrer, como as pinturas e outros diversos elementos bem explícitos, porém todo o mistério é mantido e permanece intacto nos levando para algo completamente único e peculiar, rituais de sacrifício, fertilidade, prosperidade, uma comunidade extremamente unida e feliz repleta de segredos e regras de sobrevivência.
Tudo é muito bonito, as flores coloridas e tão vivas impressiona e geram efeitos de bem-estar, acolhimento e liberdade, quase sempre o pessoal está usando substâncias psicotrópicas naturais e Dani tem várias bad trip e sensações de que a natureza se apodera dela. O que seria uma maneira de o casal se reconciliar termina por ser um aliviante e intenso recomeço para Dani, o lugar a abraça num momento sensível e a faz eliminar suas angústias e sofrimentos, vide a cena de catarse lá pelo final entre ela e as meninas, a partir do instante que ela começa a ajudar nos afazeres e a se integrar nos rituais sua mente e seu corpo dão indícios de que ali é seu lugar. Impressionante o como o terror é sutil e tão cheio de detalhes, a cultura exposta contendo autoimolação, canibalismo, sacrifícios, rituais de fertilidade e feitiços podem soar bárbaros a alguns, mas para outros um motivo de estudo e compreensão numa perspectiva antropológica, também pode-se gerar algum riso, já que há uma certa mania de desdenhar de algo que não se possui o conhecimento.
"Midsommar" é um filme esteticamente impecável, perturba pela sua claridade e o ar de deslocamento que provoca, as tradições ancestrais são detalhadas, belas canções e danças folclóricas são exibidas, vários rituais brutais e cerimônias baseadas na mitologia nórdica, elementos e símbolos intrigantes, o mistério das runas e toda a festividade envolvendo o solstício gera bastante curiosidade. É um exemplar perfeito para quem curte filmes que abraçam a temática de cultos pagãos e inserem um potente e complexo drama dentro desse contexto.
sexta-feira, 22 de março de 2019
13 Filmes Neo-Noir (13 Neo-Noir Movies)
Segue um apanhado de filmes que resgatam elementos que compõem o gênero noir, cunhado em 1946 pelo crítico francês Nino Frank para suspenses com temáticas policiais, ambientação escura e personagens com caráter dúbio, há uma série de características instigantes que o moldam e há uma gama interessante de filmes atuais que referenciam e homenageiam esse clássico gênero. Confira:
Nelly Lenz (Nina Hoss) é uma sobrevivente do campo de concentração durante a segunda guerra mundial, onde foi deixada terrivelmente desfigurada. Após uma cirurgia de reconstrução facial, Nelly volta à Berlin em busca do seu marido Johnny (Ronald Zehrfeld). Quando ela finalmente o encontra, Johnny não a reconhece. No entanto, ele se aproxima dela com uma proposta.
12- "Aura" (El Aura - 2005) Argentina
Esteban Espinosa (Ricardo Darín) é um taxidermista e um homem tímido, que passa os dias isolado em sua oficina. Por trás das aparências Espinosa tem um grande sonho de poder: planeja praticar o crime perfeito. Ele decide fazer sua primeira viagem às florestas da Patagônia com o objetivo de caçar. Acidentalmente, Espinosa mata um bandido e descobre um esquema milionário de assalto a um carro-forte. Ele resolve então levar o plano adiante por si mesmo, mas para isso precisa antes superar um mal que lhe acomete: a epilepsia.
11- "Alois Nebel" (2011) Rep. Tcheca
Fim dos anos 80 no século XX. Alois Nebel trabalha como expedidor na pequena estação ferroviária de Bílý Potok, uma remota vila na fronteira tcheco-polonesa. Ele é um solitário, que gosta mais de relógios antigos do que de pessoas, e acha tranquila a solidão da estação – exceto quando a névoa invade. Então ele alucina, vê trens dos últimos cem anos passarem pela estação. Eles trazem fantasmas e sombras do tenebroso passado da Europa Central. Alois não consegue se livrar desses pesadelos e acaba indo parar no sanatório.
10- "A Lei da Noite" (Live by Night - 2017) EUA
Boston, década de 1920. Joe Coughlin (Ben Affleck), filho mais novo de um capitão de polícia, se envolve com o crime organizado. Ele aproveita seus dias rodeado de dinheiro e poder, mas suas escolhas podem levá-lo à prisão ou até mesmo à morte. Adaptação do livro escrito por Dennis Lehane.
09- "Estrangulado"/"O Monstro de Martfüi" (A Martfüi Rém - 2016) Hungria
Hungria, 1960. A pequena cidade de Martfüi está sofrendo com os horrores que tomaram conta da região: um assassino sanguinário está à solta tirando a vida de várias pessoas. Obcecado em encontrar o culpado, o detetive designado para o caso está sendo fortemente pressionado pelo promotor a condenar alguém e, isso fará com que um homem que nunca poderia ter cometido tais crimes seja acusado.
Um filme inspirado em uma história real perturbadora e indigesta sobre um serial killer de uma pequena cidade da Hungria, no período socialista entre 1957 a 1964. A atmosfera sombria e a abordagem crua cria sensações angustiantes e o desenvolvimento por mais que não crie tensão causa mal-estar, pois não esconde a violência e a agonia vivenciada. Saiba+
08- "Carvão Negro, Gelo Fino" (Bai Ri Yan Huo - 2014) China
Em 1999, a descoberta macabra de vários cadáveres é feita em uma pequena cidade. Um incidente sangrento durante a tentativa de capturar o suposto assassino deixa dois policiais mortos e outro gravemente ferido. O oficial sobrevivente, Zhang Zili, é suspenso das suas funções e acaba aceitando um emprego como segurança em uma fábrica. Cinco anos mais tarde, uma outra série de assassinatos misteriosos ocorre. Ajudado por um ex-colega, Zhang decide investigar os crimes por conta própria. Ele descobre que todas as vítimas foram conectadas em vida a Wu Zhizhen, uma jovem que trabalha em uma lavanderia. Fingindo ser um cliente, Zhang começa a observá-la e se acha apaixonando pela reticente Wu. Num dia frio de inverno, ele faz uma descoberta terrível. Com sua vida agora em perigo, ele percebe que nem sempre é possível separar a culpa da inocência.
07- "Dália Negra" (The Black Dahlia - 2006) Alemanha/EUA/França
Elizabeth Short (Mia Kirshner) era uma jovem bonita, que estava determinada em ser famosa e era conhecida como a "Dália Negra". Após seu corpo ser encontrado, torturado e retalhado, em um terreno baldio de Los Angeles, tem início uma busca pelo assassino. Os detetives e ex-boxeadores Lee Blanchard (Aaron Eckhart) e Bucky Bleichert (Josh Hartnett) são encarregados da investigação do caso, mas a obsessão que os dois desenvolvem por ela acaba por arruinar suas vidas.
06- "Animais Noturnos" (Nocturnal Animals - 2016) EUA
Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward (Jake Gylenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.
Um thriller intrigante e elegante cuja narrativa nos enreda hipnoticamente, é uma história dentro de outra história, realidade e ficção que se unem e se colidem, uma metalinguagem arrebatadora. Saiba+
05- "In the Shadow" (Ve Stínu - 2012) Eslováquia/Polônia/Rep. Tcheca
Drama criminal de época passado nos anos 50 na antiga Tchecoslováquia, que trata de um pequeno delito que serve de base para se encobrir um plano elaborado com ligações ao regime comunista.
04- "Hotel Império" (2018) Portugal/China
Maria (Margarida Vila-Nova) viveu por toda sua vida no Hotel Império, o negócio de seu pai localizado em uma região tradicional de Macau, porém manter o local funcionando está cada vez mais difícil. Quando Chu (Rhydian Vaughan), o filho da coproprietária do hotel, retorna à Macau depois de 20 anos em busca de vingança, a situação de Maria fica ainda mais complicada.
03- "O Lugar Onde Tudo Termina" (The Place Beyond the Pines - 2012) EUA
Luke (Ryan Gosling) é um motociclista misterioso, que pilota dentro de globos da morte para um circo itinerante. Quando descobre que sua ex-namorada, Romina (Eva Mendes), teve um filho seu, ele tenta se reaproximar dela. Sua intenção é mostrar-se um pai capaz de sustentar o filho e, para isso, Luke decide participar de uma série de roubos a bancos. O problema é que Luke não consegue reprimir seu lado violento, o que lhe traz problemas não apenas com Romina mas também com Robin (Ben Mendelsohn), seu parceiro de assaltos. Apesar dos vários problemas inesperados que surgem, ainda assim Luke resolve realizar sozinho um assalto a banco. Perseguido pela polícia, ele vira alvo de Avery Cross (Bradley Cooper), um policial que cumpria sua rotina fazendo a ronda diária.
02- "Drive" (2011) EUA
Durante o dia, um misterioso motorista (Ryan Gosling) trabalha como mecânico e dublê automobilista de filmes de Hollywood. À noite, ele se dedica como piloto de fuga para bandidos e mafiosos. Este motorista também é vizinho de Irene (Carey Mulligan), uma garçonete que é casada e tem um filho com Standard Gabriel (Oscar Isaac). Ao aproximar-se da moça e da criança, o motorista começa a criar um forte relacionamento com ambos até a volta de Standard, que acaba de sair da prisão. Percebendo a situação difícil de Standard, o motorista se dispõe a ajudá-lo num assalto que pagaria sua dívida aos criminosos. Só que o golpe dá errado, o que coloca em risco as vidas do motorista, Irene e seu filho. Saiba+
01- "O Abutre" (Nightcrawler - 2014) EUA
Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) é um jovem determinado e desesperado por trabalho que descobre o mundo em alta velocidade do jornalismo sensacionalista em Los Angeles. Ao encontrar equipes de filmagem freelances à caça de acidentes, incêndios, assassinatos e outras desgraças, Lou entra no reino perigoso e predatório dos nightcrawlers - as minhocas que só saem da terra à noite.
"O Abutre" é um filme noir moderno, ele traz um assunto que faz parte do cotidiano, pois é só ligar a televisão que veremos notícias de mortes se transformando em histórias escabrosas que são repetidas diversas vezes sem se importar com os familiares e sua dor. O abuso de imagens, tom da voz, comentários desnecessários são artifícios para prender a atenção das pessoas. O filme é uma sátira sobre essa inescrupulosidade. Saiba+
Bônus
"The Looming Storm" (Bao xue jiang zhi - 2017) China
Yu, um guarda de fábrica autoconfiante, acredita ser um detetive e começa a se intrometer em uma investigação de assassinato. As coisas só se tornam mais complicadas neste filme noir chinês que lida com o amor e o destino.
Bônus
"The Looming Storm" (Bao xue jiang zhi - 2017) China
Yu, um guarda de fábrica autoconfiante, acredita ser um detetive e começa a se intrometer em uma investigação de assassinato. As coisas só se tornam mais complicadas neste filme noir chinês que lida com o amor e o destino.
terça-feira, 12 de junho de 2018
A Infância de Um Líder (The Childhood of a Leader)
"A Infância de Um Líder" (2015) dirigido pelo ator Brady Corbet (Mistérios da Carne - 2004) é um drama sombrio que como o próprio título revela retrata a infância de uma criança que se tornará um líder fascista, é uma história interessante e que traz o terror sob uma perspectiva realmente surpreendente, aparentemente não há nada que se encaixe no gênero, porém o horror é trabalhado em pequenas doses e com total originalidade, até porque acompanhar o pequeno protagonista e seu difícil desenvolvimento durante o período final da primeira guerra é perturbador, sua personalidade vai sendo moldada a partir de eventos complexos e uma estranha relação com os pais.
1918. Prescott (Tom Sweet), um garoto americano passa a morar na França, já que seu pai (Liam Cunningham) é convidado pelo governo americano para trabalhar na criação do Tratado de Versalhes. Juntamente com a mãe (Bérénice Bejo) se instalam num imenso casarão em um lugarejo onde o fanatismo religioso impera. A abertura estonteante e ao mesmo tempo aterradora faz questão de evidenciar e nos fazer imergir neste cenário. A imagem e o som se complementam de maneira assustadora durante toda a história chegando ao ápice de modo ameaçador e vertiginoso. Acompanhamos os personagens com ansiedade e observamos tudo pelo olhar da criança que se molda a partir do desafeto da mãe, da autoridade exacerbada do pai, do fanatismo religioso, da infelicidade, opressão e as incertezas que pairam no ar.
As sensações que a história provoca são incômodas e a cada cena nos deslumbramos com o requinte visual e narrativo, seu desenvolvimento faz questão de expor com cuidado cada detalhe, a movimentação de câmera suave e a lentidão inicial só faz ficar ainda mais interessante, pois a tensão vem de forma crescente a partir do momento em que a criança se torna incontrolável, a mãe coloca a educação nas mãos da jovem professora de francês e o pouco de singeleza advém da cozinheira, já o restante é pura opressão e desamor, o ambiente contribui para a melancolia e vazio, as obrigações religiosas e o pai que administra com mãos de ferro a família, assim como faz em seu trabalho complementa arruinando a personalidade de Prescott. Impressionante a composição de personagem de Tom Sweet, seus olhares e comportamentos vão nos levando ao que se tornaria no futuro, diante de tudo que estava vivendo e dentro do contexto histórico não poderia dar em outra coisa: a empatia com ideias fascistas.
A atmosfera do filme atinge em cheio e exemplifica que o terror é um gênero que pode ser trabalhado sob variadas vertentes, os elementos transmitem uma espécie de mau agouro, tempos ruins que se aproximam, a sensação de sufoco vai ficando cada vez mais forte e o real terror acontece num final apoteótico.
A narrativa é dividida em capítulos que demonstram Prescott cometendo travessuras e fazendo birras, no início ele joga pedras nos outros depois do ensaio de uma peça na igreja, a mãe o força a pedir desculpas para todos e isso o faz ficar mais revoltado, o menino tem personalidade forte e uma de suas características físicas, o cabelo comprido, é alvo de perguntas e chacotas e sempre é confundido por menina, o que o deixa realmente nervoso. O relacionamento com a mãe é difícil e distante, não há afeto e há algo não esclarecido ali no ambiente familiar, pois ela é uma mulher frustrada e fria, muito do menino é com certeza vindo dela e do tratamento que destina a ele, já o pai se torna violento por não saber mais lidar e tudo culmina num rompante de raiva num jantar na casa deles em que estão comemorando o encerramento da Primeira Guerra.
"A Infância de Um Líder" inspirado vagamente num conto homônimo de Sartre retrata com primor a ascensão de um líder fascista, mas contudo não explora as questões políticas, mas sim as psicológicas, do como os traços inatos da personalidade somado a acontecimentos conturbados são capazes de formarem monstros; o vazio e o mal se solidificando remete ao filme "A Fita de Branca" (2009) que também carrega um tom de pesadelo progressivo. É um filme sombrio, instigante e singular que tem na sua ambientação e na sua trilha sonora uma força descomunal. Poderoso!
terça-feira, 24 de abril de 2018
O Monstro de Martfüi/Estrangulado (A Martfüi Rém)
"O Monstro de Martfüi" (2016) dirigido por Árpád Sopsits (Torzók - 2001) é um filme inspirado em uma história real perturbadora e indigesta sobre um serial killer de uma pequena cidade da Hungria, no período socialista entre 1957 a 1964. A atmosfera sombria e a abordagem crua cria sensações angustiantes e o desenvolvimento por mais que não crie tensão causa mal-estar, pois não esconde a violência e a agonia vivenciada.
Hungria, 1960. A pequena cidade de Martfü está sofrendo com os horrores que tomaram conta da região: um assassino sanguinário está à solta tirando a vida de várias mulheres. Obcecado em encontrar o culpado, o detetive designado para o caso está sendo fortemente pressionado pelo promotor a condenar alguém e, isso fará com que um homem que nunca poderia ter cometido tais crimes seja acusado.
Logo de cara conhecemos o local onde tudo acontece, uma fábrica de sapatos da qual muitas mulheres trabalham, numa noite Réti (Gábor Jászberényi) vai lá encontrar a mulher que gosta e acompanhá-la até sua casa, porém durante este trajeto ela é atacada e assassinada e Réti termina sendo acusado e sentenciado à prisão perpétua. Passa-se sete anos e os crimes continuam acontecendo e a polícia abafando, mas quando um jovem policial Szirmai (Péter Bárnai) é designado para investigar ele liga os novos assassinatos com o caso Réti. A história segue três linhas narrativas: o inocente sofrendo na cadeia e suas apelações sendo negadas, o real assassino em ação e a investigação que se torna pontual quando Szirmai assume, como filme policial carece de suspense e tensão, as tramas não se conectam e quebram a apreensão, mas como filme de serial killer é impressionante por focar na frieza e crueldade de Bognár Pál (Károly Hajduk), que escolhe as mulheres aleatoriamente, as estrangula e depois as estupra largando-as nuas e machucadas no lago ou nos trilhos de trem, ele é doentio e realmente causa asco.
A fotografia escura ajuda na inserção do thriller mesmo que o mistério seja pouco trabalhado, o estuprador assassino é revelado logo e acompanhamos uma série de mortes provocadas de forma brutal, enquanto isso a polícia se desdobra para esclarecer o caso e reverter a situação de Réti com alguma desculpa plausível. A correria da polícia contrasta com o ritmo vagaroso do maníaco e as partes na prisão retratando Réti na maioria das vezes é depressiva e inerte. Por mais que as partes não se conectem perfeitamente é um filme que não segue um caminho óbvio e comum do gênero policial, ele prefere ser fiel ao horror que foi o caso real e o quanto a polícia foi relapsa ao encontrar um culpado rapidamente para mostrar competência ao Estado. O principal era manter a segurança mesmo que fosse tudo uma mentira.
"O Monstro de Martfüi" é pesado e se mantém firme nas cenas em que retrata o assassino em ação, vemos seu semblante, o seu modo de agir, toda a sua obsessão depravada em possuir essas mulheres mortas, e no fim quando é pego e interrogado nos causa um gelo na espinha, é terrivelmente cruel e vazio. Apesar de arrastado e quebrar a tensão em muitos momentos é um noir elegante que choca e ainda critica com peso o quanto a incompetência da polícia juntamente com as burocracias do Estado podem acabar gerando histórias terríveis a fim de mascarar a realidade.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Aglaja
"Aglaja" (2012) dirigido por Krisztina Deák é um filme sinestésico que aborda a relação de mãe e filha e a arte circense. Baseado em fatos reais, esta é a história da infância e adolescência de Aglaja (Babett Jávor), filha de uma família de artistas circenses do Leste Europeu. A família foge para a Europa Ocidental após cometer um assalto que os permite começar uma nova vida. Para alcançar o sucesso, sua mãe gasta todo o dinheiro da família para realizar um ato perigosíssimo: ficar pendurada pelos cabelos no domo do circo. Toda noite, Aglaja é aterrorizada pelo medo de perder a sua mãe, mas em algum dia, ela tem que seguir a tradição da família e tornar-se "a mulher dos cabelos de aço".
Uma bela homenagem ao mundo do circo, mostrando os bastidores, a apreensão dos artistas misturado com fascinação e amor à arte, uma maneira livre de viver e com tão pouco reconhecimento, os treinos exaustivos, o sacrifício, as dores e também a satisfação de levar ao público a alegria e em troca receber aplausos. Todo o mecanismo envolvendo os números são retratados com precisão e isso garante tensão toda vez que se apresentam, os ruídos de cordas, estalos são extremamente desconfortáveis e dão a sensação exata do perigo e da destreza dos artistas. A história segue a pequena Aglaja vivida inicialmente por Babett Jávor, que apenas observa os pais e todo o universo circense que a rodeia, ela nos insere em sua vida a princípio na Romênia dos anos 70, uma vida difícil, pois a ditadura imperava e então decidiram roubar o dono do circo e fugir, assim a saga por várias capitais europeias acontece, Sabine (Eszter Ónodi), a mãe, que era considerada uma exímia trapezista não consegue mais trabalhar e somente Tandarica (Zsolt Bogdán), o pai, que representa um palhaço é contratado, a menina vê tudo e transpassa pelo olhar toda a sua curiosidade, receio e a falta de carinho. É preciso conviver com variadas pessoas de todos os lugares do mundo, torcer para não ser substituído e sempre estar aprimorando os truques. A relação dos pais de Aglaja não vai muito bem e Sabine acaba pegando todo o dinheiro e comprando o equipamento para o número do cabelo de aço, a asiática que sofreu um acidente concorda e ensina o que Sabine precisa saber. Aglaja sente toda noite um misto de sentimentos, é lindo vê-la subindo e rodopiar pelo ar apenas presa pelo cabelo, porém a sensação que sente ouvindo os pequenos ruídos a atormenta, a única coisa que a faz sentir-se melhor é colocar uma pedra entre os dentes. Além da história focar na tradição circense, demonstra a relação conflituosa de mãe e filha, quando pequena Aglaja via tudo acontecer, participava de alguns números, mas não tinha afeto. Até que um dia Aglaja foi separada dos pais, pois menores não podiam trabalhar e desse modo parou num internato, dez anos se passaram e a mãe aproveitou esse tempo para fazer fama e a obteve pelo seu número acrobático. Aglaja aos 15 anos, interpretada por Piroska Móga, se torna uma adolescente linda e retraída que preferia que a mãe estivesse morta do que suportar vê-la novamente no picadeiro.
Com o reconhecimento que adquiriu Sabine cada vez mais se superava na criatividade ao ser içada, mas numa de suas apresentações sofreu um acidente terrível, Aglaja sempre esteve à sombra de sua mãe e a sua personalidade reflete toda a ausência e desejo de ser vista por aquela mulher, é uma história impressionante sobre o florescer juvenil, sobre o como é importante não deixar que a figura materna tenha peso nas escolhas próprias e que a aceitação vem apenas de si mesmo. Sabine era espetacular e Aglaja se encolhia diante à mãe, os sentimentos eram conflitantes e era praticamente invisível. Há um ponto do filme que Aglaja se mostra e começa a viver, a mãe fica impotente para números pesados e então gerencia a filha que dança nua no palco, mas Sabine quer que ela siga seus passos, a tradição dos cabelos de aço, e novamente Aglaja sente-se diminuída e sem saber quem de fato é.
"Aglaja" é um exemplar único que retrata com minúcia e verdade o mundo do circo, as cenas de bastidores são incríveis, o receio e a fascinação em torno dos artistas provocam grandes momentos, e a pequena Aglaja passeando entre os trailers fica marcado na memória. Nos instantes finais visualizamos uma cena completamente libertadora e aliviante, Aglaja enxerga por si mesma, entende suas vontades e segue sua vida.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Corpo e Alma (Teströl és Lélekröl)
"Corpo e Alma" (2017) dirigido pela húngara Ildikó Enyedi (Simon Mágus - 1999) é um filme que mexe com os sentidos, uma obra bela que mescla romance e fantasia com doses caprichadas de originalidade.
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa.
A história se passa num ambiente pesado, um abatedouro, e por incrível que pareça nasce algo desse lugar, um amor entre duas pessoas completamente sozinhas e incapazes de se conectar com as pessoas, Endre (Géza Morcsányi) administra o abatedouro e lida com a dificuldade de uma paralisia no braço esquerdo, um dia olhando pela sua janela vê Maria (Alexandra Borbély), que sozinha espera o intervalo passar para voltar ao trabalho, ela possui limitações e várias manias, não cria relações, não permite contato físico e tudo precisa estar milimetricamente perfeito, os dois trocam olhares, mas a realidade é confusa para a aproximação. É dentro dos sonhos que tudo acontece: um cervo e uma cerva caminhando pela floresta gelada. Por ocasião, em uma consulta psicológica da empresa, descobrem sonhar o mesmo e daí o desenrolar torna-se curioso e poético, Endre e Maria ficam entusiasmados pela descoberta e dia após dia se encontram para revelar o sonho e sorrirem diante ao fato de ser o mesmo, cervos andando pela floresta, mas conforme a relação vai se delineando e desejos vêm à tona, os sonhos dão uma parada e a realidade se torna ameaçadora, Endre é fechado e tolhido e Maria sofre por não saber o que está sentindo, ela parece ter a síndrome de asperger, seu comportamento frio e robótico não ajuda e Endre fica perturbado por não entendê-la.
As cenas do abatedouro choca-se com o teor lírico do longa, algumas delas demonstra passo a passo do procedimento, vísceras e sangue dominam a tela, uma abordagem chocante e real, o trabalho ali é brutal, há um diálogo entre Endre e um entrevistado para o emprego em que ele pergunta o que sente por aqueles animais que processam ali, e o outro responde que não pensa nada e Endre devolve dizendo que se ele não sente pena não deve trabalhar lá, pois terá uma depressão. Não há questionamentos sobre o assunto, o filme expõe a rotina e fica por conta de cada um o que sentir vendo as imagens. Há um recado nos créditos finais que diz que alguns animais foram prejudicados durante a filmagem, mas nenhum por conta do filme, e que apenas documentaram a rotina num abatedouro. Diante desse cenário impróprio para criar qualquer tipo de elo, eis que Endre e Maria se conectam, surgindo primeiro no universo dos sonhos para então a realidade, tanto um como o outro terão que descobrir como ir adiante, Endre reavivando o que há muito deixou para trás e Maria aprendendo a sentir a si mesma e as sensações que a vida oferece.
As cenas do abatedouro choca-se com o teor lírico do longa, algumas delas demonstra passo a passo do procedimento, vísceras e sangue dominam a tela, uma abordagem chocante e real, o trabalho ali é brutal, há um diálogo entre Endre e um entrevistado para o emprego em que ele pergunta o que sente por aqueles animais que processam ali, e o outro responde que não pensa nada e Endre devolve dizendo que se ele não sente pena não deve trabalhar lá, pois terá uma depressão. Não há questionamentos sobre o assunto, o filme expõe a rotina e fica por conta de cada um o que sentir vendo as imagens. Há um recado nos créditos finais que diz que alguns animais foram prejudicados durante a filmagem, mas nenhum por conta do filme, e que apenas documentaram a rotina num abatedouro. Diante desse cenário impróprio para criar qualquer tipo de elo, eis que Endre e Maria se conectam, surgindo primeiro no universo dos sonhos para então a realidade, tanto um como o outro terão que descobrir como ir adiante, Endre reavivando o que há muito deixou para trás e Maria aprendendo a sentir a si mesma e as sensações que a vida oferece.
Com ritmo lento e permeado de silêncios, os detalhes ganham força monumental, as imagens transmitem os sentimentos, a descoberta do amor é delicada e inusitada, Maria é uma pessoa que não consegue interagir, não entende as sensações e é completamente lógica em sua vida, aos poucos ao vivenciar as experiências que a vida lhe proporciona aprende que nem tudo precisa ser assim, até porque amar alguém nunca é uma conta exata, é repleta de diferenças e nuances, como o final exemplifica. Endre também redescobre-se, pois afastado de envolvimentos e fechado em si por conta da deficiência não esperava que sua alma pudesse ser afetada por outra, e no universo dos sonhos tanto um como o outro se encontram, a partir dessa bela coincidência as barreiras devagar vão sendo quebradas.
Não é fácil se conectar com outro ser humano, cada um enxerga a vida de uma forma, tem a sua realidade e para romper bloqueios requer muito empenho e querer, quando o sentimento ultrapassa o entendimento e começa a habitar um universo mais onírico, tudo se desenvolve melhor e ajuda no contato verdadeiro, assim foi com Endre e Maria que entre fascinação e dor se unem.
"Corpo e Alma" desenvolve uma narrativa original que mescla o real e o fantástico sob uma perspectiva peculiar e incômoda, o ambiente pesado e frio contrapondo com a sutileza dos sonhos e descobertas cotidianas gera sensações variadas que ora encanta, ora repele, mas reflete o amor e a sua capacidade de modificação e descobertas.
Vale destacar a trilha sonora com as canções "What He Wrote" e "My Manic and I", de Laura Marling.
"Corpo e Alma" desenvolve uma narrativa original que mescla o real e o fantástico sob uma perspectiva peculiar e incômoda, o ambiente pesado e frio contrapondo com a sutileza dos sonhos e descobertas cotidianas gera sensações variadas que ora encanta, ora repele, mas reflete o amor e a sua capacidade de modificação e descobertas.
Vale destacar a trilha sonora com as canções "What He Wrote" e "My Manic and I", de Laura Marling.
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Sing (Mindeki)
"Mindeki" (2016) dirigido por Kristóf Deák é um curta húngaro de 25 minutos inspirado em uma história verdadeira, passa uma rica e verdadeira mensagem sobre empatia e o valor da amizade, muito bem produzido, edição e fotografia caprichada, atuações impecáveis e cheio de detalhes e visões. Em pouco tempo a história emociona e marca pela atitude das crianças.
Budapeste, Hungria, 1990. Inspirado numa história real, acompanha um coral escolar premiado e uma menina recém-chegada à classe, que está prestes a descobrir o horrível segredo por trás de sua fama.
Zsófi (Dorka Gáspárfalvi) chega na escola nova e se empolga para fazer parte do coral, super bem elogiado e ganhador de vários prêmios, já no seu primeiro dia a professora pede para que ela fique para uma conversa depois que terminam o ensaio, Erika (Zsófia Szamosi) é muito rígida e diz a Zsófi para que ela simplesmente não cante, mas apenas mexa a boca, afinal é um coro de prestígio e qualquer defeito pode o tirar da competição, aliás, ela diz que não é possível ganhar se todos cantarem. A menina murcha e passa os dias tristes, treinando a música apenas mexendo os lábios, só que ao fazer amizade com Liza (Dorka Hais), esta percebe algo errado, já que Zsófi parecia animada no início, as duas passam por diversos momentos de pura amizade, escutando música juntas e brincando, a cumplicidade dá a Zsófi a coragem de revelar o segredo e então diz o que a professora lhe pediu para fazer para continuar no coral. Liza fica muito inconformada com a situação, mas promete guardar segredo pela amiga, porém, ela descobre mais uma coisa sobre o coral e a partir daí tem uma ideia, pois acredita que todos têm o direito de cantar independente de ter talento ou não, para isso Liza e Zsófi precisarão da ajuda de todas as crianças do coral.
Zsófi (Dorka Gáspárfalvi) chega na escola nova e se empolga para fazer parte do coral, super bem elogiado e ganhador de vários prêmios, já no seu primeiro dia a professora pede para que ela fique para uma conversa depois que terminam o ensaio, Erika (Zsófia Szamosi) é muito rígida e diz a Zsófi para que ela simplesmente não cante, mas apenas mexa a boca, afinal é um coro de prestígio e qualquer defeito pode o tirar da competição, aliás, ela diz que não é possível ganhar se todos cantarem. A menina murcha e passa os dias tristes, treinando a música apenas mexendo os lábios, só que ao fazer amizade com Liza (Dorka Hais), esta percebe algo errado, já que Zsófi parecia animada no início, as duas passam por diversos momentos de pura amizade, escutando música juntas e brincando, a cumplicidade dá a Zsófi a coragem de revelar o segredo e então diz o que a professora lhe pediu para fazer para continuar no coral. Liza fica muito inconformada com a situação, mas promete guardar segredo pela amiga, porém, ela descobre mais uma coisa sobre o coral e a partir daí tem uma ideia, pois acredita que todos têm o direito de cantar independente de ter talento ou não, para isso Liza e Zsófi precisarão da ajuda de todas as crianças do coral.
A história cativa e surpreende ao mostrar o como a amizade verdadeira, a luta pela sua liberdade e a imaginação geram força e desmontam qualquer repressão. A união na cena final é poderosa e emociona deixando o espectador com um sorriso que perdurará por um bom tempo. História marcante e com uma engrandecedora mensagem, lição de empatia e harmonia para a busca da liberdade individual.
Criativo, um exemplo de resistência dessas crianças à opressão silenciosa da professora, demonstra que quando todos têm o mesmo desejo, a união, a amizade produzem grandes efeitos e incentivam outros a agirem com coragem. Não poderia esquecer de mencionar as lindas canções, como "Bodzavirág". Um primor!
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Liza, a Fada Raposa (Liza, a Rókatündér)
"Liza, A Fada Raposa" (2015) é o primeiro longa-metragem do realizador húngaro Károly Ujj Mészáros e conta a história de Liza, uma enfermeira em busca do amor que, por ciúme, se vê transformada numa fada raposa (figura mitológica oriental), o que faz com que todos os homens que por ela se apaixonam acabem por morrer. O filme é uma mistura de comédia romântica e fantasia, Liza (Monika Balsai) é uma inocente e solitária trintona à procura do amor. Cuidando de Marta (Piroska Molnár) pelos últimos 12 anos, tem como único companheiro Tomy Tani (David Sakurai), o fantasma de um pop star japonês dos anos 50. Quando Márta morre e Liza é culpada pelos parentes da falecida de tê-la assassinado para herdar seu apartamento, o sargento Zoltan (Szabolcs Bede Fazekas) começa a investigar o caso. Liza ganha confiança lendo dicas de revistas femininas, mas todos os seus possíveis namorados acabam morrendo. O sargento Zoltan, mesmo encarregado de investigá-la, se apaixona por Liza, esta começa a crer que, num acesso de ciúmes de seu amigo Tomy, foi transformada numa fada raposa.
Interessante que "Liza, a Fada Raposa" pode facilmente se passar por um filme doce e terno, mas o diretor soube usar o tom de humor num estilo mais amargo, perceba que sempre há tristeza, solidão e medo envolvidos.
Após a morte de Márta, Liza tem tempo para procurar o seu amor inspirada por um livro de romance japonês, mas isso desperta a ira do cantor fantasma que é apaixonado por ela, que a amaldiçoa e a impedirá que se relacione, pois os homens logo morrem ao se interessar por ela. O filme é dividido em capítulos, com o nome de quem irá morrer, são situações surreais, muito criativas e originais. O sargento Zoltan, acaba se instalando na casa de Liza, a que herdou de Márta, ela alugou um quarto devido a sua situação financeira, ele vive a anotar sobre Liza e acredita na sua história sobre a maldição. Zoltan se apaixona, mas de maneira altruísta, e segundo a lenda só um amor desinteressado seria capaz de quebrar essa maldição, mas mesmo assim ele não se livra de sofrer acidentes.
Os elementos utilizados são surpreendentes e muitos deles convidam à reflexão, como quando Liza começa a seguir dicas de uma revista feminina sobre como ficar bonita e conquistar um homem. O humor negro está sempre presente, desde ao retratar o gênero comédia romântica, a rede de fast-food chamada Mekk Burguer, mas ao mesmo tempo é melancólico e ingênuo. Difícil classificar esse filme, é uma comédia mordaz com momentos de musical, de conto de fadas, de suspense, de delicadeza e tristeza.
Após a morte de Márta, Liza tem tempo para procurar o seu amor inspirada por um livro de romance japonês, mas isso desperta a ira do cantor fantasma que é apaixonado por ela, que a amaldiçoa e a impedirá que se relacione, pois os homens logo morrem ao se interessar por ela. O filme é dividido em capítulos, com o nome de quem irá morrer, são situações surreais, muito criativas e originais. O sargento Zoltan, acaba se instalando na casa de Liza, a que herdou de Márta, ela alugou um quarto devido a sua situação financeira, ele vive a anotar sobre Liza e acredita na sua história sobre a maldição. Zoltan se apaixona, mas de maneira altruísta, e segundo a lenda só um amor desinteressado seria capaz de quebrar essa maldição, mas mesmo assim ele não se livra de sofrer acidentes.
Os elementos utilizados são surpreendentes e muitos deles convidam à reflexão, como quando Liza começa a seguir dicas de uma revista feminina sobre como ficar bonita e conquistar um homem. O humor negro está sempre presente, desde ao retratar o gênero comédia romântica, a rede de fast-food chamada Mekk Burguer, mas ao mesmo tempo é melancólico e ingênuo. Difícil classificar esse filme, é uma comédia mordaz com momentos de musical, de conto de fadas, de suspense, de delicadeza e tristeza.
Pode-se associar o estilo a Jean-Pierre Jeunet, mas acrescentaria também um pouco de Roy Andersson e Anders Thomas Jensen. É um filme de ambiguidades emocionais, no humor há um fundo de tristeza e na tristeza há um fundo de humor.
Monika Balsai encanta interpretando Liza, ela é inocente e possui baixa auto-estima, o filme é peculiar, assim como seus personagens com costumes estranhos, Liza adora o Japão, Zoltan as músicas tradicionais da Finlândia, há um personagem que é louco por comidas que misturam ingredientes dos mais variados, e daí por diante...
quarta-feira, 11 de maio de 2016
O Filho de Saul (Saul Fia)
"Você vai abandonar os vivos por causa dos mortos?"
"O Filho de Saul" (2015) dirigido pelo húngaro László Nemes é angustiante e claustrofóbico ao retratar o já tão explorado tema holocausto nazista. Pois bem, não é um filme que provoca empatia, o protagonista sempre filmado muito de perto se apega a algo dentro daquele inferno, e acaba não pensando em seus semelhantes que podem perder a vida justamente por causa de seus atos egoístas.
A história segue Saul (Géza Röhrig), um húngaro membro do Sonderkommando, o grupo de prisioneiros judeus isolados do acampamento e forçados a ajudar os nazistas na máquina de extermínio em grande escala. Enquanto trabalhava em um dos crematórios, Saul descobre o cadáver de um menino que toma por seu filho. Ao mesmo tempo o Sonderkommando planeja uma rebelião, Saul decide realizar uma tarefa impossível: salvar o corpo da criança das chamas, encontrar um rabino para recitar o Kadish do enlutado e oferecer ao menino um enterro apropriado.
O que o filme propõe ao espectador é analisar a situação de Saul, sua obsessão em querer encontrar um rabino naquelas circunstâncias para enterrar um menino que tomou como seu filho é completamente irracional, ele se arrisca, coloca a vida dos outros em perigo, as vezes que ele sai andando em meio ao horror são inúmeras, a tensão cresce pelo que pode acontecer, mas ele não desiste desta busca, pois seria algo que daria algum alívio a sua dor e um meio de relembrar quem é.
"O Filho de Saul" se sobressai pela técnica, filmado em janela clássica (4:3), a câmera na mão com diversos planos-sequências e cortes sutis, além do close constante no protagonista, tudo isso contribui para nos sufocar e provocar enjoos. O áudio acaba tendo a grande função de nos introduzir ao horror, sabemos o que se passa naquele lugar, mas não vemos claramente. Acompanhamos apenas Saul, que realiza suas funções, que consiste em ajudar a tirar as roupas, esperar a matança, recolher os corpos e limpar, são ações automáticas, até que ele se depara com o garoto e inicia sua busca por um rabino, deixando seus afazeres de lado e não ajudando com o plano de rebelião de seus colegas. Saul sabe de seu destino, dia menos dia será ele a ser morto, portanto, sua loucura é consciente, uma maneira de se sentir vivo.
Géza Röhrig fez um excelente trabalho, um homem silencioso que aparentemente não é capaz de muito, mas que surpreende e faz com que arregalemos os olhos diante de sua ousadia, ele entra em lugares não permitidos, se infiltra em meio aos outros para procurar o tal do rabino, entra no consultório médico atrás da criança e é pego, e sempre com o mesmo semblante. Chega um momento que não aguentamos mais, temos raiva, mas conforme o desenrolar o sentido de humanidade aparece.
Outro ponto marcante do filme é a confusão, a maior parte do tempo não se sabe muito bem o que acontece, quem manda no quê e em quem, são diálogos soltos, falta compreensão entre eles mesmos, o que ajuda na irritação, mas que traduz perfeitamente o caos.
"O Filho de Saul" é um é filme frio, duro e que causa bastante desconforto, mas interessante pela abordagem e pela maneira que chega a cada um de nós.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Queda Livre (Szabadesés)
"Queda Livre" (2014) dirigido pelo interessante diretor húngaro György Pálfi (Taxidermia - 2006) é uma mescla de absurdo, ironia e fantasia. É incrível que seu filme seja ao mesmo tempo belo e grotesco. A tristeza está disfarçada de cinismo, há inúmeras críticas, mas pela surrealidade fica difícil acertar o que de fato quer dizer. O filme reúne algumas histórias a partir do suicídio malsucedido de uma velha (Piroska Molnar), ela se joga do alto do prédio de onde mora, mas se levanta e junta suas coisas. Ao ver o elevador quebrado precisa subir os sete lances de escada, e daí a cada andar conhecemos as figuras que habitam o local e suas excentricidades.
É humor negro que não acaba mais, o diretor oferece ao espectador uma visão bizarra e ampliada do como o ser humano se comporta, os contos são todos interligados e a beleza fica por conta da fotografia, cada um tem a sua paleta de cores e ângulos diferenciados, além da trilha sonora eletrônica de Amon Tobin que intensifica toda a estranheza.
No primeiro conto observamos um guru tentando fazer seus alunos acreditarem no poder da mente podendo até ultrapassar uma parede. Como em todos os outros as possibilidades de interpretação são abertas, somos atraídos a prestar atenção e a desvendar os significados que refletem na sociedade em que vivemos. Na segunda história temos uma festa de cantores líricos, cuja anfitriã está nua, ela recebe os convidados enquanto o marido a apresenta a homens que a elogiam, aqui fica fácil perceber que a nudez dela significa invasão, o desconforto pelos olhares e também pelo marido a deixar de lado. Na terceira há o casal com fobia de germes, para se tocarem se enrolam em papel filme, a paranoia pela qualidade de vida chega ao ponto da obsessão.
O quarto episódio e mais escrachado de todos é em formato de sitcom, com direito a claque de risos, a mulher divide o apartamento com dois homens que se comportam como crianças, uma perfeita e dolorida alfinetada nesses programas imbecis que são exibidos aos montes. Na quinta história é sobre uma mulher que se submete a uma cirurgia que coloca seu bebê para dentro do útero novamente, ao meu ver é uma maneira bem surreal de abordar o aborto. Na sexta um menino que sofre bullying dos pais, alimenta seu medo na forma de um gigantesco boi parado a sua frente.
Acompanhamos a velha subir as escadas em total cansaço, seja o físico ou psicológico, o longa tem muitas passagens surreais e absurdas, mas que conversam com situações reais, toda a depressão é refletida com acidez e rimos dela.
"Queda Livre" é um longa especial, caprichado e que exige atenção do espectador, mas em nenhum momento se torna cansativo ou chato, é super atrativo, envolvente, e enigmático.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Deus Branco / White God / Fehér Isten
"Deus Branco" (2014) dirigido pelo húngaro Kornél Mundruczó (Delta - 2008) é um conto visionário entre uma espécie superior e os seus desgraçados inferiores... Privilegiando os cães de raça, uma nova lei impõe uma taxa pesada sobre as raças cruzadas. Os donos passam a abandonar seus cães e os refúgios ficam rapidamente superlotados. Lili (Zsófia Psotta), 13 anos, luta para proteger seu cão, Hagen, mas seu pai acaba abandonando o animal nas ruas. Hagen e a sua dona procuram desesperadamente um ao outro, até que Lili perde as esperanças. Lutando para sobreviver, Hagen percebe depressa que nem todo mundo é o melhor amigo do cão. Ele junta-se a um bando de cães errantes, mas é capturado e enviado para um canil. Mesmo sem esperanças de sobrevivência, os cães aproveitam as oportunidades para escapar e se revoltarem contra a humanidade. A sua vingança será implacável. Nesse cenário, Lili pode ser a única pessoa que pode pôr fim a esta guerra entre o homem e o cão.
O primeiro ponto a se destacar sem dúvida é o desempenho dos cães, principalmente do protagonista, sobra inteligência, sensibilidade e esperteza. O elenco canino está expressivamente perfeito. Todos vieram de uma sociedade protetora de animais e foram adotados pela equipe ao final do filme. O diretor usou dois labradores gêmeos, Luke e Body, para o papel de Hagen e vários treinadores ajudaram a ensaiar as cenas mais difíceis. O longa foge completamente dos clichês que envolvem histórias em que os animais são o foco, há alguns elementos parecidos, mas a mistura de gêneros prende o espectador, há drama, ação, aventura, pitadas de humor e suspense, mas o principal é a crítica embutida, o homem, o deus branco do título, que despreza as minorias por se julgar superior. Os cães são uma bela metáfora e representa todas essas minorias que também estão subordinadas ao poder do mais forte.
Vemos o mundo sob o olhar de Hagen que tem todo o amor e carinho por Lili, filha de pais divorciados e que de última hora precisa morar com o pai, um inspetor de matadouro. Ele é um homem mesquinho e que não aceita Hagen, ele é um cão mestiço e é preciso pagar uma taxa para a prefeitura. Todo o ressentimento que esse homem tem em si é descontado no cão, ele o abandona no meio da rua para o pavor de sua filha. Lili não desiste de seu amigo e inicia uma busca incansável que trará alguns problemas para sua vida. Daí em diante acompanhamos a trajetória de Hagen ao submundo, onde conhecerá o pior do ser humano. Enfrentando o medo, a multidão, veículos, à procura de alimento e constantemente o controle de agentes da zoonose, ele acaba encontrando um grupo de cães, do qual o acolhe. Mas não demora para que caia em mãos sedentas por dinheiro e violência. Aprisionado, Hagen é treinado para lutar em rinhas, e é aí que acontece uma grande mudança em sua personalidade, se torna cruel devido ao sofrimento que o homem o infligiu. A cena em que ele briga é tão violenta, tão forte, que o cão ao final parece refletir no que acabou se tornando.
Hagen acaba sendo capturado e enviado ao canil, onde o ápice de sua revolta acontece e a luta sangrenta dos cães contra os homens toma forma de fato, as ruas de Budapeste são tomadas por eles e até policiais de choque tentam contê-los. O complexo de superioridade do ser humano não tem limites, escravizam e excluem aqueles que julgam inferiores. O filme reflete essa questão de maneira interessante com cenas poderosas.
"Deus Branco" (alusão ao filme de Samuel Fuller, White Dog - 1982) é um filme corajoso ao retratar as mazelas da sociedade, desse humano que se julga o dono daqueles que não tem opção. Os cães foram uma ótima escolha, afinal o ser humano pensa que o animal é inferior, assim como faz com pessoas as classificando por características. Existe uma grande hierarquia, onde esse homem, o deus branco, está no topo e pensa ter o poder para dominar quem acredita estar abaixo.
É uma alegoria provocativa e reflexiva, uma obra singular e que tem em seu elenco canino uma força de expressão gigantesca, a revolta e a vingança contra o ser humano que domina e se julga superior foi bem representada por eles.
A mistura de gêneros, assim como a trilha sonora tem efeitos positivos, e destaque tanto para a cena de abertura quanto a que finaliza, são sublimes, majestosas.
Um filme que contém uma forte crítica ao ser humano que se julga um Deus e que por isso age cruelmente contra aqueles que pensa ser inferior.
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