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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Sibéria, Meu Amor (Sibir. Monamur)

"Sibéria, Meu Amor" (2011) dirigido pelo russo Slava Ross é um filme desolador e desesperador, porém lindo e afetuoso à sua maneira, são demonstrações duras e cruas, o ambiente inóspito e gélido só aumenta sentimentos de tristeza e solidão e no decorrer somos absorvidos por uma poesia melancólica e emocionante.
Monamour é um vilarejo isolado em meio à floresta boreal da Sibéria. O lugar é cercado por cães selvagens que devoram quem ousa se aproximar. É lá onde moram o menino Leshka e seu avô, Ivan. Leshka toma um dos cães como seu melhor amigo e vive na esperança de que seu pai retorne, depois de dois anos de ausência. De tempos em tempos, seu tio Yura traz comida e suprimentos para lá. Mas este é atacado pelos cães e desaparece, e Leshka e Ivan se veem isolados do mundo. Ao ver o avô atirar no seu cachorro, o menino foge e cai num poço. Agora, o avô precisa achar ajuda.
Acompanhamos o pequeno Leshka (Mikhail Protsko) e seu avô (Pyotr Zaychenko) que vivem isolados em um vilarejo abandonado chamado Monamour, na Sibéria, um local gélido cercado por uma floresta de coníferas, a comida é escassa e a fome é constante, o avô não sabe mais como fazer para ajudar o menino que sonha com a volta do pai, apegados a uma imagem de Cristo seguem os dias em meio a solidão e as incertezas, os cães selvagens rodeiam o local e o menino consegue chegar próximo de um deles o transformando em uma companhia, Yura (Sergei Novikov), tio de Leshka faz questão de levar comida e um pouco de carinho, apesar das reclamações da esposa. Em paralelo vemos uma outra história envolvendo dois soldados que recolhem uma prostituta para levar ao seu comandante, sob novas promessas a garota vai, porém o que se inicia é estupro e violência, ao longo essas vidas se convergem num final comovente.
A vida nesse local é uma verdadeira luta, as dificuldades são extremas e ainda há os militares que não dão sossego, nessas idas de Yura na casa de Leshka acontece algo violento que desencadeia uma série de outros eventos, uma amostra do quão selvagem é aquele ambiente e que apesar de imensamente belo é também poderoso em aniquilar a frágil vida humana. É doloroso observar a tristeza e a esperança do garoto ao imaginar que o pai voltará algum dia, o avô o trata de forma rígida e as demonstrações de amor são expostas em momentos quando se preocupa em como arranjar alimento e com o fato de que precisa tirá-lo daquele lugar, ele pede para Yura levá-lo, mas acontece o acidente e dias depois quem surge é sua esposa que acaba não encontrando ninguém na casa, pois o neto brigou com o avô ao vê-lo atirar nos cães e fugiu caindo no poço, o avô saiu atrás de ajuda, mas o vento e o frio o derrubou. E é ai que os personagens se cruzam, os soldados e a prostituta vão acudir Leshka.

A história paralela é um tanto deslocada em boa parte da trama e retrata que não há alívio para a mulher, sofre pelas mãos dos soldados e também pelas do comandante, há uma virada sutil em que o soldado a vê de outra forma e resolve ajudá-la a levando embora dali, e então encontram o avô caído na estrada que diz o nome do vilarejo e que o menino precisa ser socorrido. O final é bastante tocante ao retratar a inocência e a carência de Leshka.

"Sibéria, Meu Amor" é um filme muito bonito visualmente, o ambiente é seu grande destaque e amplia os sentimentos de desolação e tristeza, os personagens sofrem com as incertezas em todos os aspectos e tentam sobreviver, é uma história que sutilmente se desenrola para algo mais afetuoso, porém de modo bem distinto, fica nas entrelinhas, nos semblantes e nas silenciosas transformações.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Anistia (Amnistia)

"Anistia" (2011) dirigido por Bujar Alimani (Chromium - 2015) é um filme melancólico que retrata as deficiências que assolam a Albânia, o desemprego, o machismo, as burocracias, a violência, entre tantas outras coisas. A narrativa tem um ritmo lento e poucos são os diálogos, a protagonista exibe pelo olhar toda a sua tristeza, medo e desesperança. O tom escuro do longa amplia a sensação de desalento e questões existenciais são desencadeadas a partir dos dilemas vividos. 
A visita íntima é finalmente legalizada na capital da Albânia, Tirana, e uma vez por mês Elsa (Luli Bitri) desloca-se por vários quilômetros para passar alguns momentos com o marido encarcerado por conta de alugueis não pagos. Essa jornada permite que ela se aproxime de Shpetim (Karafil Shena), marido de uma detenta, presa por falsidade ideológica, mas uma anistia aos presidiários atrapalha o nascimento deste novo amor.
Visualizamos os trâmites e o modelo prisional no início e a visita íntima sendo legalizada no país, que acaba sendo uma obrigação, Elsa se desloca do interior para a capital afim de visitar seu marido e consumar o ato, que em nenhum momento é visto como algo bom, ao contrário, seus olhar sempre está vazio e seu corpo inerte, há inúmeras questões que permeiam o sofrimento de Elsa, nada é expressado e por isso exige sensibilidade do espectador para compreender a protagonista, a desestrutura familiar, a falta de dinheiro para criar os filhos, o sogro extremamente machista, a rotina obrigatória de se deslocar até Tirana, as mentiras que conta para ocultar a prisão do pai para os filhos, as consequências emocionais são fortes e não parece haver sentido em sua vida. As coisas tomam outro rumo quando ela conhece Shpetim, que também prova do sofrimento da perda de sentido, a mulher presa e as visitas íntimas preestabelecidas, as burocracias do sistema, quando eles se conhecem ao acaso a paixão timidamente se aproxima, as cenas de Elsa e Shpetim se amando nunca são mostradas e os rostos de seus respectivos cônjuges também não, pois a história quer nos mostrar que não importa o desejo pessoal, sem autonomia um recomeço com um novo marido é impossível e perigoso, como bem retratado pela figura do sogro. Com essa impossibilidade de prosseguir seus sentimentos tornam-se culpa e vergonha, uma nova carga de sofrimento pende sobre suas costas e a desesperança surge ainda mais forte quando o governo declara anistia e tanto o marido de Elsa como a esposa de Shpetim retornam ao lar.

"Anistia" é introspectivo e denso, causa aflição observar a vontade de Elsa em tentar ter sua liberdade e sempre encontrar alguma barreira social, quando ela resolve ir morar em Tirana na casa de uma colega e consegue um emprego há um lampejo de confiança, a parte que ela diz que precisa resolver algumas coisas para a colega demonstra o quanto está se sentindo segura, pois ela se mostra almejando o futuro, o que infelizmente logo se desfaz, seu sogro a obriga a voltar com os filhos para casa, seu marido retorna e desiste do amor. Apesar do filme ser cadenciado e não revelar quase nada com palavras, a angústia da personagem transpassa a tela e a compreendemos, seu final seco impacta e permanece conosco por um bom tempo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Vaqueiro (Vaquero)

"Vaqueiro" (2011) dirigido, roteirizado e protagonizado por Juan Minujín é um filme que capta os anseios de um aspirante a ator e todos os pensamentos que o afastam das possibilidades de conseguir papéis, é deveras interessante acompanhar a jornada do protagonista que ao invés de abocanhar oportunidades, mesmo que mínimas, prefere cultivar inveja e a autodepreciação. Ele passeia entre camarins e coxias de teatro sempre com uma cara amarrada reparando no sucesso dos colegas, e desse jeito amargando não só sua vida profissional, mas também a pessoal.
Julián Lamar (Juan Minujín) é um ator desiludido e amargurado por só conseguir papéis secundários na indústria de cinema e televisão da Argentina. Sente-se desajustado com sua carreira, seu ambiente de trabalho e com seus companheiros de profissão. Quando um consagrado diretor norte-americano decide filmar um faroeste no país, Juan fica obcecado com a ideia de que esse papel pode salvar sua carreira. Aos poucos ele vai perceber que a distância entre seus desejos e a realidade são bem maiores do que ele gostaria. 
Julián está atuando numa peça de teatro e é coadjuvante em uma novela, mas sua ambição é demasiada e negativa, ele desejaria estar estrelando algum filme americano e estar sendo vangloriado por todos, está tão obcecado que quando recebe incentivo e elogios não ouve, em vários momentos a figurinista demonstra adorar seu trabalho e ele nem liga, continua a invejar os outros e contaminar sua mente com pensamentos depreciativos. Enquanto Julián deseja mal aos colegas ou os inveja seu semblante demonstra o oposto, dissimula perfeitamente, aliás, Julián é um ótimo ator, quando se empenha e esquece suas pretensões desmedidas, mas são poucos estes momentos. Quando por intermédio de amigos consegue uma vaga para o teste de um filme de faroeste dirigido por um americano, Julián na entrevista fica nervoso e tropeça no inglês, porém recebe a ligação tão almejada, estará na audição, daí ele começa a entrar no personagem, se imagina já como um cowboy e tem o texto na ponta da língua, nestes instantes até simpatizamos e torcemos para que consiga.

Julián se fechou numa bolha e não consegue enxergar a realidade, fica imaginando, sonhando e nisso acabou se perdendo, anulando as chances que poderia ter em sua carreira, o que acontece na audição gera um misto de sentimentos, vergonha alheia é a palavra.
"Vaqueiro" é um filme interessante por expor o âmago de um ator frustrado, no como é enlouquecedor estar no meio que ama e não conseguir se sobressair e com isso a facilidade em fazer nascer pensamentos ruins e depreciativos, um ótimo trabalho de Juan Minujín!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Hora e a Vez de Augusto Matraga

"Sapo não pula por boniteza, 
Mas porém por precisão." (provérbio capiau)

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (2011) dirigido por Vinícius Coimbra (A Floresta Que se Move - 2015) é baseado no conto homônimo do livro "Sagarana", do escritor Guimarães Rosa, o filme narra a história de Augusto Matraga (João Miguel), fazendeiro mineiro valente e mulherengo, à beira da falência, que ao buscar vingança por sua mulher tê-lo trocado por Ovídio Moura (Werner Schunemann), quase morre após cair em uma emboscada armada pelos capangas do Major Consilva (Chico Anysio). "Renascido", depois de ter sido cuidado por um casal, Matraga dedica o resto da sua vida à sua fé e ao trabalho, esperando "sua hora e sua vez" chegar, até fazer amizade com o rei do sertão, Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), e seu bando de jagunços.
A história já foi adaptada em 1965, dirigida por Roberto Santos, tanto essa primeira versão como a segunda são obras maravilhosas que evidenciam o povo sertanejo, a vivência rural, as lutas entre fazendeiros, a violência e o misticismo. Conhecido como Nhô Augusto e também como Augusto Matraga, João Miguel encarna perfeitamente um sujeito rude que é capaz de qualquer coisa, executa maldades por pura crueldade e não se importa com a sua fazenda que está arruinada e tão pouco com a mulher e a filha, haja vista a decadência do marido, dona Dionóra (Vanessa Gerbelli) decide ir embora com Ovídio Moura levando a filha Mimita, enquanto isso seus capangas colocam-se a serviço de seu inimigo Major Consilva Quim Recadeiro (Chico Anysio), restando o frouxo, mas fiel Quim (Irandhir Santos). Nhô Augusto sabendo disso resolve se vingar matando todos, no caminho é pego em uma emboscada pelos capangas do Major que o esfolam, mas no momento em que iam matá-lo se joga de um penhasco. Dado por morto, Quim inconsolável vai até a fazenda do Major buscar vingança, mas o coitado termina sendo morto. Contudo, Nhô Augusto é encontrado por um casal de negros velhos, a mãe Quitéria e o pai Serapião, que cuidam com paciência deste homem que aos poucos se recupera, mas agora ele é outro homem, aparentemente. Religioso, se submete ao trabalho duro, a penitências e a rezas, espera ser perdoado pelas suas crueldades e deseja ir para o céu encontrar com Deus. Nhô Augusto tem notícias de sua família, mas prefere ficar aonde está. Um dia, Nhô Augusto oferece estadia a Joãozinho Bem-Bem, jagunço de larga fama, acompanhado de seus capangas, faz tudo o que pode para agradá-los e vendo a destreza de Matraga, Joãozinho o convida para acompanhá-lo, mas ele recusa e prefere continuar só.
Recuperado, Augusto põe-se a viajar sem destino num jumento, ele sente que chegou a sua vez quando reencontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando prestes a executar uma vingança contra um assassino que fugira. Neste momento ele opõe-se e começa a matar os capangas de Joãozinho, e no fim entra em um peculiar duelo.

"Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia…"

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é um filme feito com minuciosidade, apuro e vigor, a estética é linda e captura nosso olhar a cada frame, a trilha sonora remete ao faroeste e complementa perfeitamente o clima da história. As magníficas interpretações de João Miguel e Irandhir Santos, este que o pouco que aparece se sobressaí, especialmente é de reverenciar, João se entrega e suas expressões nos conduzem a dualidade de sua alma, a transformação da qual passa é brusca, de um homem mal para religioso e passivo, ele é ambíguo, complexo. Brilha também José Wilker e Chico Anysio, ambos falecidos, foi o último trabalho deles no cinema. O filme ganhou diversos prêmios, mas teve alguns problemas burocráticos na distribuição e com alguns anos de atraso a produção chegou ao circuito comercial, mas sem grande visibilidade, infelizmente.

Fiel à prosa de Guimarães Rosa, é um deleite a sonoridade dos jogos com as palavras, o lúdico e mítico, os maneirismos expostos encantam e reverenciam a obra. 
"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é irretocável, um belíssimo exemplar nacional que merecia ser exaltado pelo capricho que foi concebido.

"E tudo foi bem assim, porque tinha de ser, já que assim foi."

sábado, 5 de novembro de 2016

Trabalhar Cansa

"Trabalhar Cansa" (2011) dirigido pela dupla Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole - 2014) e Marco Dutra (Quando Eu Era Vivo - 2014) é um filme que explora no sobrenatural o horror que o cotidiano estressante causa, a trama segue com metáforas explícitas o quanto o trabalho e a rotina incessante acaba influenciando o psicológico das pessoas. Afinal, o trabalho dignifica o homem?
Helena (Helena Albergaria), jovem doméstica, decide montar o seu primeiro negócio: uma mercearia de bairro. Ela contrata Paula (Naloana Lima) para tratar da filha e da casa. Mas quando Otávio (Marat Descartes), o marido de Helena, fica desempregado, as relações entre as três personagens mudam de repente. Acontecimentos inquietantes começam então a ameaçar o comércio de Helena.
Inicialmente a história mostra o sonho de Helena prestes a se concretizar, o minimercado situado num ótimo bairro, ela dá prosseguimento na papelada, visita o local que antigamente já tinha sido um mercado e que ainda guarda as prateleiras e freezers do antigo dono que sumiu misteriosamente. Mesmo que o marido tenha perdido o emprego ela persiste na ideia e finaliza o acordo. Observamos todo o processo antes e depois da inauguração, exige-se muita determinação e vontade, Helena contrata um ajudante, um açougueiro e uma moça que fica no caixa, já logo de cara dá problemas no estoque, faltam produtos, além de que volta e meia surge um cheiro podre que invade os corredores e afugentam os clientes. Esses imprevistos começam a preocupar Helena, todos os dias conta a quantidade de produtos e sempre dá por falta, até que desconfia do ajudante e o despede, a moça do caixa também é fiscalizada corriqueiramente, uma certa obsessão toma conta de Helena, ela não é mais capaz de descansar, em sua casa a filha está mais apegada a empregada e se irrita por tudo estar fora do lugar, pois não é mais ela que limpa e arruma, também sente ciúmes da relação da filha com Paula, esta que trabalha de forma irregular e recebe um salário incompleto, fora que dorme no próprio serviço num quartinho apertado e sem ventilação. 
Nesse meio tempo Otávio procura emprego, em uma das entrevistas marcada com um amigo, é pego de surpresa ao integrar uma entrevista coletiva e desiste por não querer se submeter a uma dinâmica ridícula. Ele leva o currículo em variadas empresas, mas nada acontece. O que resta é trabalhar por comissão em casa como vendedor de seguro de vida. Ele não é muito presente na rotina de Helena, mas o vemos esporadicamente ajudá-la. A tensão aumenta quando a parede que foi recentemente pintada mofa depois do episódio do cheiro ter sido resolvido, Helena tenta disfarçar por algum tempo, mas a curiosidade do porquê a parede estar daquele jeito é maior, daí ela pega uma marreta e a destrói, o que sai de dentro é algo inimaginável. 

É uma enorme metáfora sobre o como o trabalho em excesso transforma o ser humano em animal selvagem, o deixando insatisfeito, frustrado, pois como se vê Helena nunca está feliz, apesar de ter realizado o sonho de trabalhar para ela mesma, os problemas só aumentam, quando não é a contabilidade, é a estrutura, e por aí vai. Helena se sacrificou pelo trabalho e só perdeu, o cansaço físico e psicológico a detonou.
O suspense dá o tom à história, estranhos acontecimentos permeiam o cotidiano, é criada uma atmosfera obsessiva onde eventos sobrenaturais se materializam, o filme mescla essas passagens com uma densa crítica social sobre a competitividade do mercado de trabalho, o desfecho ao contrário da aura sinistra, dá um choque de realidade.

"Trabalhar Cansa" é um exemplar interessante do cinema nacional, começando pelo gênero, o terror é inserido com destreza e assemelha-se com um pesadelo, o drama vivido pelos personagens é angustiante, as incertezas e as frustrações em torno dessa busca por encontrar soluções para ter uma vida melhor.
Tudo o que rodeia a esfera do mercado de trabalho está representado no filme, assusta de verdade analisar a transformação do ser humano por conta de conseguir e manter um emprego. Perde-se boa parte de si nessa caminhada. Triste e cruel!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vulcão (Eldfjall)

"Vulcão" (2011) dirigido pelo islandês Rúnar Rúnarsson (Sparrows - 2015) é um drama intenso que lentamente mostra um personagem que se desconstrói ao longo da trama. Inevitável não pensar no valor da vida e no como estamos agindo. É a história de amadurecimento de um homem de 67 anos de idade. Quando Hannes (Theódór Júlíusson) se aposenta de seu emprego como zelador, começa o vazio que é o resto de sua vida. Ele está afastado de sua família, quase não tem amigos e o relacionamento com sua esposa está desgastado. Por meio de eventos drásticos, Hannes percebe que ele tem que ajustar sua vida a fim de ajudar alguém que ama.
Não tem como não associar este filme ao "Amour" (2012) de Haneke, existem muitas similaridades e o desfecho é o mesmo, talvez Haneke tenha se inspirado, ou seja apenas uma coincidência, vai saber... O grosso da história é parecido, mas os elementos são diferentes, por exemplo, a melancolia entranhada, o ambiente ajuda nessa sensação, a Islândia tem esse poder por si só. É bom enaltecer este longa, pois "Amour" veio depois e se sobressaiu, ganhou inúmeros prêmios, já "Vulcão" ficou desconhecido. Rúnar Rúnarsson é um exímio diretor, tem uma sensibilidade ímpar, consegue extrair beleza da tristeza. É um filme silencioso que cresce e nos leva junto com seu personagem. 
Hannes é rabugento e visto por todos como um infeliz, depois que se aposenta percebe que sua vida não tem sentido, destrata os filhos, os netos e sua mulher Anna (Margrét Helga Jóhannsdóttir). Nada o agrada, briga por coisas banais e não compartilha da felicidade dos filhos, está sempre prestes a entrar em erupção, mas após ouvir uma conversa de seus filhos se dá conta do como é visto, sua personalidade muda também após escapar de um acidente marítimo. Sua redenção chega atrasada, percebeu tarde demais o quão distante e ríspido estava sendo, depois de passar uma noite agradável com a esposa, ela é acometida por um derrame gravíssimo, Anna fica paralisada e perde totalmente a noção do real, Hannes decide cuidar dela em casa, mesmo os filhos sendo contra, ele sabe que não há nada que possa reverter este quadro e dia após dia vê o sofrimento aumentar, sua mulher que na noite anterior lhe despertou desejo, agora vegeta e apenas urra, então nasce um sentimento de humanidade, vê fotos e vídeos de seu passado e percebe que precisa tomar uma decisão, aos poucos compreende os acontecimentos e faz o que precisa ser feito. 
Hannes diante de uma situação inesperada tenta se posicionar, antes um homem frio e aborrecido se transforma numa pessoa afável. É pela dor que ele renasce.

O título se dá porque Hannes se mudou com a família de sua ilha natal devido uma erupção vulcânica, esse episódio permeia a vida de Hannes, o desejo de retornar o persegue, mas há muito se estabeleceu na cidade, e ele é o próprio vulcão, um homem irritadiço que as pessoas temem ficar perto, por muitas vezes ele espalha sua lava que contamina o ambiente e afugenta todos ao redor. Mas mesmo tendo esse aspecto rochoso seu interior é feito de fragilidades, as cenas que demonstram suas fraquezas são as mais impressionantes. 
Com tom pessimista, cru em sua abordagem, é imensamente bonito em sua tristeza, traz à tona um tema difícil de digerir. "Vulcão" expõe com sinceridade o drama que é envelhecer, muitas vezes nos damos conta do amor pelas pessoas que nos rodeia tarde demais, e daí recomeçar exige grande força.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro)

"As Neves do Kilimanjaro" (2011) dirigido por Robert Guédiguian (O Fio de Ariane - 2015) inspirado no poema "Os Pobres", de Victor Hugo, é um filme que exala humanidade e amor ao próximo, nos faz enxergar além de nós mesmos e perceber a dor alheia. Retrata sem clichês a crise econômica que assola e a complexidade na relação de classes.
Apesar de ter perdido o emprego, Michel leva uma vida feliz com Marie-Claire. Eles estão apaixonados há mais de 30 anos, seus filhos e netos lhes dão alegria e vivem cercados de amigos próximos. Ambos se orgulham de sua luta política e seus valores morais. Mas a felicidade do casal é interrompida quando dois homens armados e mascarados os amarram e atacam violentamente, roubando o dinheiro que tinham guardado para fazer uma viagem ao monte Kilimanjaro. Michel e Marie-Claire ficam ainda mais chocados quando descobrem o autor do ataque.
O filme propõe que pensemos no outro, os personagens vivem uma vida boa, se viram como podem, não são ricos, mas também não são pobres, são trabalhadores. Michel (Jean-Pierre Darroussin) líder sindical fica com a missão de sortear as pessoas que serão demitidas, entre tantos ele acaba perdendo seu emprego também, o amigo fica indignado por isso, mas Michel jamais seria capaz de não colocar seu nome na caixinha. A sua esposa Marie-Clarie (Ariane Ascaride) trabalha como acompanhante de uma senhora de idade, o casal está junto há muito tempo e mesmo estando desempregado agora, dão um jeito, logo ele se aposentará e receberá alguns benefícios dos anos de trabalho. Os filhos já crescidos, casados e com filhos resolvem presentear os pais com uma caixinha de madeira que contém algum dinheiro e duas passagens para o monte Kilimanjaro, no norte da Tanzânia, isso acontece na festa de aniversário de casamento deles, onde estão reunidos vários amigos, inclusive as pessoas recém-demitidas. Emocionados ao receber tal presente, inclusive ao som de "Les Neiges du Kilimandjaro", de Pascal Danel, comemoram e logo começam a se preparar para a viagem. Mas, durante uma noite aparentemente sossegada junto de seus melhores amigos, são roubados e atacados violentamente, traumatizando-os. Os ladrões levam a caixinha, os cartões do banco e um gibi antigo, artigo único que terá uma função importante na história.
Sem dúvida um acontecimento triste, uma experiência da qual ninguém deveria passar, após relatarem a polícia o ocorrido e com o passar dos dias, ao acaso, Michel acaba descobrindo um dos autores do crime, o que o deixa inconformado, foi um dos rapazes demitidos que estava na festa e os viu ganharem o presente. O moço é preso e a vida do casal muda, pois ele tem dois irmãos menores que ficaram órfãos. Essa situação faz com que Marie-Claire e Michel repensem a sua decisão e o papel deles nessa sociedade, que infelizmente, não viabiliza a humanidade.

O filme de Robert Guédiguian não é utópico, há delicadeza na forma que expõe seus personagens, eles não são perfeitos, pelo contrário, são repletos de erros, mas refletem no que poderiam fazer para mudar a situação, a viagem que não se concretizará não os fará menos felizes, tudo o que aconteceu certamente transformou a maneira deles viverem.
Não é fácil suscitar mensagens de solidariedade, vivemos numa sociedade violenta por conta da pobreza, e por isso não há espaço para a generosidade, pensamos na nossa segurança, bem-estar e só. O filme retrata que em qualquer parte do mundo existe o não encaixe nas determinadas classes sociais, por exemplo, Michel e Marie-Claire não são burgueses, sempre trabalharam, criaram seus filhos e abdicaram de muito nas suas vidas para terem um pouco de conforto, mas para aqueles que não têm o que comer, são caracterizados burgueses.

"A coragem é compreender sua própria vida, harmonizá-la, aprofundá-la, estabelecê-la e coordená-la, apesar do senso comum."

"As Neves do Kilimanjaro" é um belo conto de generosidade que traz profundas questões sociais. Será que algumas ações, como roubar em determinadas circunstâncias, são justificáveis? O fato é que as condições de vida são diferentes para cada um, colocar todos na mesma balança é um erro, ainda mais perante a alarmante crise de desemprego. 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Vampire

"Vampire" (2011) dirigido por Shunji Iwai (April Story - 1998, Hana e Alice - 2004) é um drama poético que retrata nada mais que a solidão. Não espere terror ou coisas sobrenaturais, o filme é delicado e sensível ao mostrar um lado macabro e bizarro do ser humano, e a sua inaptidão para a vida.
Um professor, com sede de sangue, busca mulheres com tendências suicidas na internet para serem suas vítimas. No entanto, ele sempre se enternece por elas antes de matá-las.
Primeiro longa no idioma inglês do japonês Shunji Iwai, que mantém a sua essência simples, porém obscura, esqueça todo o fascínio que envolve a figura de um vampiro, todo o mistério e elegância, o personagem de "Vampire" é apenas um ser humano, aliás demasiadamente humano, pois ele sente no âmago as dores de sua existência. Simon vivido por Kevin Zegers é um homem solitário, vive com sua mãe que sofre de Alzheimer, e inclusive ele cria uma maneira de mantê-la no quarto com uma engenhoca bem interessante feita de balões, ele é professor de biologia de uma escola secundária e tem o hábito de ajudar jovens suicidas a se matarem em troca do sangue delas. Ele procura por belas garotas na internet que não queiram mais viver e ele ardilosamente propõe que elas deem o seu sangue. A primeira cena já mostra ele coletando o sangue de uma suicida, ela diz a Simon que não deseja sentir dor antes de morrer e então aceita o seu método de coleta. Ele bebe o sangue com dificuldade e minutos depois o vomita. 
O filme tem cenas que provocam estranheza, mas ao mesmo tempo nunca perde sua delicadeza, todos os personagens são frágeis, alheios a vida e complexos. "Vampire" claramente demonstra o quão difícil são as relações humanas. Também há momentos tensos, a câmera não titubeia em mostrar perfurações feitas por agulhas e o sangue se esvaindo do corpo. 
O protagonista vai em busca de mais vítimas, todas suicidas em potencial que rondam lugares propícios, como pontes, e aquelas que externam isso através da internet em sites e grupos, Simon as fisga, marca um encontro dizendo que também se suicidará e as manipulam para que aceitem o seu processo de retirada de sangue, ele jamais machuca a vítima, não provoca dor e sente afeição por cada uma. Ele bebe o fluído vital pensando assim ter encontrado o sentido de sua vida.

Simon é ambíguo, ele é um assassino em série, mas demonstra repúdio a um grupo de "vampiros" que atacam as jovens de maneira violenta, as sufocando e estuprando e mordendo-as no pescoço com dentes falsos de metal, sente carinho por Ladybird, uma de suas possíveis vítimas, que escapa de um suicídio coletivo, do qual ele também estava. Quando ele vai a casa dela para a coleta se humaniza de tal modo que desiste do ato. Os dois se envolvem momentaneamente, e por fim vai embora. O terror da situação se transforma numa bela poesia. O desespero está presente em toda a narrativa, porém de maneira contida. 
"Vampire" é angustiante, dolorido e cria uma sensação estranha no espectador, o tema pesado é convertido em beleza e encantamento, impossível não se compadecer por Simon.

Kevin Zegers está perfeito, seu semblante, seu modo de se portar, todos os diálogos de seu personagem são interessantes e mostram o seu espírito perturbado. Ao longo observamos as suas nuances, destaque para a cena em que uma de suas alunas parece querer cometer o suicídio e ele a aconselha, depois ela confessa ter sido brincadeira para chamar a sua atenção, mas ao final ele termina doando seu sangue a ela. Confuso, irônico, é uma situação que acaba o atormentando muito, uma outra personagem importante e que ele pouco se importa é a irmã de um policial que vive em sua casa, o desprezo dele acaba provocando a sua derrocada.
"Vampire" tem uma estética apurada e etérea, a trilha sonora quase inteiramente no piano destaca a sensibilidade, e a narrativa passeia entre o terno e excêntrico sem dificuldades. É uma produção que merece atenção!

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Orador (O Le Tulafale)

"O Orador" (2012) de Tusi Tamasese reflete sobre tradições fincadas nos princípios do amor e do respeito, é um curioso retrato sobre a cultura samoana.
O filme conta a história do agricultor Saili e sua família que procuram viver em paz, e para isso evitam, ao máximo, o contato com outras pessoas de sua vila. Porém, diversos acontecimentos o obrigarão a assumir seu papel de líder. Quando uma tragédia se abate sobre sua família, Saili deve superar suas dificuldades físicas e sociais e impor-se, rompendo sua invisibilidade social e conquistando o respeito de sua comunidade.
As ilhas Samoa fica no sudoeste do oceano pacífico, a meio caminho entre o Havaí e a Nova Zelândia, definitivamente um pontinho perdido no meio do oceano pacífico, e sem dúvidas um lugar belíssimo por sua natureza e interessante por suas tradições. É o primeiro longa-metragem vindo de lá e uma ótima oportunidade de conhecer a cultura local, assim como as suas belezas. Falado no idioma samoano o longa é um drama contemporâneo sobre honra, coragem e questões de superação. Saili (Fa'afiaula Sanote) é um anão agricultor casado com uma mulher que foi banida da família, ela não pode frequentar os lugares e portanto se mantém afastada em um casebre isolado da aldeia juntamente com sua filha Litia (Salamasina Mataia), uma adolescente como qualquer outra a descobrir as novidades da vida. Em dado momento ela se envolve com um homem casado e termina por engravidar. Vaaiga (Tausili Pushparaj) é uma mulher calma e que está muito doente, o tempo todo a vemos fazendo artesanatos.
A terra é muito importante para eles, é passada de geração em geração, e a morte é algo que não existe, os seus parentes são enterrados no quintal de casa para que continuem de algum modo ainda vê-los. Os antepassados tem grande peso sobre a família, há muito respeito por aqueles que se foram. A religião é muito cultivada e todos seguem corretamente os horários de cada oração. O perdão é outra coisa abordada no longa, existe um ritual em que a pessoa se ajoelha na frente da casa coberta por um manto até que seja perdoada.
Há muita ternura no personagem, um lado quase inocente em percorrer pela vida. A simplicidade rege o seu caminho, mas a coragem vai crescendo dentro dele devido as circunstâncias. Saili precisa arranjar forças quando sua esposa morre, pois o irmão leva o corpo a fim de enterrá-la com os seus, mas isso é injusto e Saili necessita ganhar voz e se tornar um orador, o que só o chefe da aldeia pode conceder, e assim poder ir formalmente em nome de sua comunidade até a família de Vaaiga e conseguir a permissão para ficar com o corpo dela. Uma das cenas mais emocionantes é quando Saili cava o buraco no quintal de sua casa do qual enterrará sua mulher e acaba por ficar preso lá sob uma pesada chuva, quem o salva é Litia, que até então não gostava dele, também é ela que o segue quando ele se torna orador, aliás a única. Esse momento é sublime e demonstra amor, honra e coragem.

"O Orador" é um filme tranquilo, silencioso e que traduz muito bem a cultura da Samoa. As coisas são ditas quando precisam ser ditas, não há desperdício de palavras, tem até um diálogo entre mãe e filha que diz assim: "Uma pedra pode apodrecer, mas as palavras não. As pessoas falam muito." Isso exemplifica o quanto de valor eles dão para o que se é dito, por isso existem os rituais de perdão e de oratória, para que se aprenda a usar o dom da fala de maneira adequada.
Refletindo valores, cultura e tradições, é uma linda obra vinda desse paraíso perdido!

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O Abismo Prateado

"O Abismo Prateado" (2011) dirigido por Karim Aïnouz (Praia do Futuro - 2014) é um filme bem intimista inspirado na canção "Olhos nos Olhos" de Chico Buarque.
Violeta (Alessandra Negrini) é deixada pelo seu marido Djalma (Otto Jr.), que após um mergulho no mar toma a difícil decisão. A informação chega por uma mensagem de voz, fria e com a repetição de um 'não te amo mais', Violeta não consegue seguir com sua rotina, fica sem saber o que fazer e a única coisa que quer é compreender o porquê foi abandonada. Ao chegar em casa diz para seu filho que irá viajar, e o que vem a seguir são momentos de imensa solidão e desespero, dos quais a levam por inúmeros lugares durante a madrugada. Ambientado no Rio de Janeiro, a protagonista vaga pelas ruas, se hospeda num hotel, extravasa em uma boate e anda pelas areias da praia, lugar em que parece se acalmar ao encontrar uma garotinha e seu pai Nassir, um pintor de parede, lá eles trocam algumas palavras e cria-se rapidamente uma empatia.
Alessandra Negrini está maravilhosa, uma mulher frágil que expõe todas as fases de sua dor ao ser abandonada sem mais nem menos, pois para ela o relacionamento estava perfeito, principalmente pelo apartamento recém-comprado em Copacabana. A mensagem fria e curta a faz perder o chão e enfrentar um abismo profundo, do qual perde-se por uma noite toda. O roteiro se sustenta nas sensações vividas por Violeta e várias vezes o filme fica vago justamente por ela estar perdida. Nós a acompanhamos nesta jornada incerta desde o primeiro impacto, vemos os seus olhos assustados, sua inquietação, seus questionamentos internos, e a sua ansiedade. Uma das cenas mais lindas é a dança na boate ao som de "Maniac" e também o choro à beira-mar. O silêncio sufoca e nos perdemos junto a ela. Difícil não se emocionar! Mas tudo isso passa, o choro cessa, o dia nasce; ainda é dolorido, mas a vontade de seguir volta e o sentimento de reerguer-se vem à tona.

Um filme poético, intimista e feminino, retrata o drama de ser abandonada e todas as intensidades da dor e do desespero, mas assim como na canção de Chico Buarque o refazer-se acontece.

"Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais."

segunda-feira, 23 de março de 2015

Shun Li e o Poeta (Io Sono Li)

"Confuso entre os erros, estava o caminho."

"Shun Li e o Poeta" (2011) marca a estreia do diretor Andrea Segre que nos fascina com tamanha poesia envolvida em sua história. O filme é uma joia rara e elogiá-lo se torna uma tarefa muito fácil.
Shun Li é uma imigrante chinesa que trabalha em uma oficina têxtil nos limites de Roma e está há oito anos tentando obter documentos para trazer seu filho para a Itália. Subitamente, ela é transferida para Chioggia, uma pequena cidade do Vêneto, onde passa a trabalhar como garçonete em uma taverna. Lá, ela conhece Bepi, um pescador de origem eslava, conhecido como "O Poeta", e que tem frequentado o local por anos. A amizade que surge entre ambos é uma fuga poética da solidão e um diálogo silencioso entre culturas diferentes. Shun Li (Tao Zhao) tenta se virar para falar a língua italiana e esse é mais um dos motivos que faz do filme um encanto. Obrigada a trabalhar no bar pelos homens da máfia chinesa que a trouxeram, ela espera conseguir pagar a dívida para que eles possam trazer seu filho. Nesta pequena cidade rodeada pelo mar adriático e a lagoa de Veneza, a beleza resplandece aos nossos olhos.
Aos poucos Shun Li aprende a preparar cafés e conhece os frequentadores do local, também lida com preconceitos e as diferenças culturais, ela é esforçada e a sua maneira graciosa porém silenciosa acaba agradando grande parte daqueles pescadores que sempre se encontram por lá, em especial o simpático Bepi (Rade Serbedzija). Os dois travam uma amizade inesperada e que confunde os outros, pois todos pensam que Bepi está apaixonado, mas a relação deles é muito mais que isso, é uma mistura de afinidades e diferenças, uma junção de suas solidões e saudades. No silêncio eles se entendem, não há qualquer tipo de julgamento ou preconceito, são apenas dois seres humanos trocando afetos.
Shun Li divide um quarto com uma colega em cima do restaurante e é proibida de ter qualquer tipo de contato com os italianos, em certo momento a relação dela com Bepi é posta em risco e Li precisa se distanciar senão sua dívida volta ao início. Bepi como está há muito tempo em Chioggia as pessoas nem lembram mais que é um estrangeiro, tem vários amigos pescadores que o chamam de poeta por sempre formar frases com rimas, mas de qualquer modo também é solitário. O filme é repleto de cenas tocantes, uma delas é quando Shun Li mostra para Bepi o culto ao poeta Qu Yuan, o mais importante da tradição chinesa.

Uma obra que exprime muito sentimento, a beleza é ampla, está nos personagens e seus detalhes, nos diálogos, nos silêncios e na paisagem úmida. Mesmo que o filme trate de um tema triste, como a situação de escrava em que Li se encontra e da xenofobia que recebe de alguns, o foco se dá no melhor do ser humano, e por isso nos faz sorrir e acreditar que existem pessoas das quais valem a pena conhecer e compartilhar sentimentos, e por mais que sejam diferentes entre si acabam se compreendendo em algum ponto. Com um roteiro simples nos apaixonamos por Shun Li e Bepi, tornamo-nos íntimos conforme o desenrolar e desejamos que fiquem bem. O ritmo é marcado por um caminhar delicado e pelas características dos personagens, a fotografia é lindíssima retratando a imensidão do mar, os barcos, as montanhas, e as peculiaridades da região.

A crítica sobre o como os moradores temem a onda de imigração é leve e o conto sobre solidariedade e amor ao próximo é fascinante. 
"Shun Li e o Poeta" é um filme aconchegante que nos traz apenas sentimentos bons e uma enorme vontade de dar um abraço em alguém.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Minha Pequena Princesa (My Little Princess)

"My Little Princess" (2011) aborda um assunto complexo e faz um recorte interessante sobre um caso bem polêmico, a história de Eva Ionesco, que quando ainda muito criança foi a grande estrela de sua mãe, que a fotografava nua e em poses insinuantes. A direção do filme é da própria Eva.
Irina, mãe de Eva se apaixona por fotografia e em sua excentricidade se foca no erotismo, mulheres nuas em ambientes obscuros ao lado de objetos, como caveiras, crucifixos e afins, mas o ensaio mais famoso de sua carreira é o de sua filha, "Eloge de ma Fille" do qual retratou Eva em poses completamente provocantes, isso começou quando ainda tinha cinco anos. As fotos em que Eva aparece nua tem sido alvo de discussões desde que apareceu pela primeira vez em 1970, os tempos eram outros e a liberdade da sexualidade estava muito em voga, porém nem tudo que se diz arte o é de fato. Eva até gostava de posar e é possível ver em seu semblante sempre sério e marcante. Ela também foi modelo de outros fotógrafos, como Jacques Bourboulon, sendo a mais jovem mulher a posar na revista Playboy. Em sua carreira também atuou em filmes, como "O Inquilino", de Roman Polanski, mas talvez seu mais perturbador trabalho no cinema seja em "Maladolescenza" (1977), cujo roteiro se foca nas descobertas sexuais de um casal de adolescentes em um local paradisíaco. Considerado pornografia infantil, o filme chegou a ser proibido em diversos países. Irina acabou perdendo a guarda de Eva, tempos depois esta viria a processar a própria mãe, o filme "My Little Princess" é um acerto de contas, uma maneira de colocar pra fora toda essa angústia vivida por Eva, que alega ter sido vítima de pedofilia.
No filme a atriz Anamaria Vartolomei é Violetta, e tem aproximadamente 10 anos na história, no início vemos o quão ausente sua mãe era, apenas a visitando esporadicamente deixando aos cuidados de sua bisavó, mas ao ganhar uma máquina fotográfica de um dos seus amantes decide fotografar a menina, a ensina caras e bocas, poses e isso a agrada de certa forma, parece uma brincadeira, as duas se aproximam, mas Hannah, vivida pela sempre incrível atriz Isabelle Huppert, se torna obsessiva, principalmente quando começa a ganhar muito dinheiro com as fotos. Ela justifica que o que está fazendo é arte. Conforme o tempo passa a menina sofre, na escola todos a chamam de puta, além de que usa roupas e maquiagem que nada tem a ver com sua idade. A mãe é arrogante e percebe que ali satisfaz suas necessidades, ganhar dinheiro e prestígio dentro do universo artístico, sua excentricidade conquista muitos intelectuais, pois seu discurso de que o que faz é arte é deveras muito sedutor.

Uma história chocante, pertinente e que vale a pena assistir para tirar várias conclusões sobre o que pode de fato ser chamado de arte, e principalmente ao expor que nem sempre uma mãe sabe o que é melhor para seu filho.
O filme conta com uma fotografia espetacular, cores intensas e obscuras, e um figurino de cair o queixo. Hannah é estranha, histérica e cada vez mais afunda sua filha num universo adulto, por muitas vezes a menina sente falta de brincar com outras crianças, mas estas já não se interessam por ela e ainda a insultam por sempre estar vestida de maneira escandalosa. As cenas exploram o como sua personalidade estava sendo moldada e a sua inocência sendo arrancada da maneira mais pérfida. A atriz mirim romena Anamaria Vartolomei está esplêndida, sua evolução na história é natural e sofremos junto com ela pela perda de sua identidade.

Dentro dessa temática é bom ressaltar que muitos pais levam seus filhos em agências para trabalhar na TV, ser um astro mirim, e este acaba sendo a grande fonte de renda na casa, uma responsabilidade é adquirida muito cedo e as influências externas acabam moldando sua personalidade, a arrogância e a prepotência tomam conta desta criança, e mais tarde ela sentirá as consequências, por isso os pais precisam saber dosar e deixar que elas escolham, castrar a liberdade de uma criança é provocar uma dor para vida toda.

Eva Ionesco
"My Little Princess" é um bom filme, desperta curiosidade e conhecemos um pouco mais sobre essa polêmica história sob o olhar da própria Eva. As fotos originais impressionam com o caráter totalmente erótico, expressões e posturas de uma mulher em um corpo de criança, a adultização é clara.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A Cabana (Die Summe Meiner Einzelnen Teile)

"A Cabana" (2011) é um filme alemão com uma forte crítica social, ele questiona o que é ser louco em uma sociedade que sufoca, onde a hipocrisia domina deixando de lado certos aspectos individuais. A tradução do título é bem pobre e não passa seriedade ou profundidade, coisa que o longa tem de sobra. É imensamente triste se for parar pra pensar, dá vontade de se embrenhar em meio a floresta assim como Martin, sentindo a leveza do silêncio para então dar vazão ao que castramos em nós mesmos com o tempo. O título original ao pé da letra é: "A Soma de Todas as Minhas Partes" (Die Summe Meiner Einzelnen Teile).
Quem é o louco afinal? Aquele que se deixa levar pela onda caótica da rotina, cujo único pensamento é gerar dinheiro para sobreviver, ou aquele que se abstém de tudo isso? Por que quando alguém não deseja fazer parte simplesmente por não se encaixar é taxado como louco? Martin percebe o quão ordinária a sociedade pode ser, principalmente na questão do tratamento de sua saúde mental, o aprisionando e o dopando, sendo que isso não o ajudará de fato. A história segue em ritmo lento e acompanhamos a decadência do personagem, é emocionante toda a sua trajetória.
Martin (Peter Schneider) é um talentoso matemático com uma carreira promissora, mas devido a uma internação em uma clínica psiquiátrica é visto como doente mental, ele perde o emprego e termina vivendo como um mendigo. Algo muda quando conhece Viktor (Timur Massold), um garoto ucraniano que perdeu sua mãe por uma overdose. Ambos solitários e deslocados decidem fugir do barulho da cidade e vão para a floresta, lá a ideia de construir uma cabana parece o começo de uma nova vida. Eles se tornam muito amigos. Não há quase diálogos porque Martin não fala a língua do garoto, o que torna as situações bem contemplativas.
A "loucura" de Martin é libertadora e em meio a natureza consegue acalmar sua mente, percebe-se que quando andava pelas ruas da cidade ele era inquieto e contava sem parar, as cenas em que começa a se integrar no local, subindo em árvores, respirando ar fresco é as das mais bonitas, é como se estivesse se encontrando, é a naturalidade de ser.

Outra personagem que sofre a angústia e a pressão de se tornar um alguém é Lena, que trabalha como assistente de dentista, Martin se apaixona por ela e a encoraja a viver de forma idílica também. Os problemas de Martin vem desde a infância, seu pai o maltratava, mas não sabemos mais que isso, o filme deseja expor o quanto o ser humano é sugado e pressionado, chega um ponto em que não se aguenta mais, no caso do protagonista, assim como de tantas outras pessoas exige-se tratamento a base de remédios para poder seguir em frente, Martin foi internado, trancafiado em uma clínica, o que só fez piorar sua situação, após sua saída não conseguiu mais se estabelecer segundo os padrões sociais.
Martin é descartado e isso revolta, pois é como se fosse apenas uma peça nas engrenagens do sistema. Em dado momento desesperado vai até a casa do cara que certa vez o atropelou, ele pega o dinheiro e o carro a fim de conseguir fugir com Lena e Viktor para Portugal, onde existe uma comunidade alternativa. Esse roubo faz com que Martin seja procurado tanto pelos médicos que o trataram, como pela polícia. Em nenhum momento o julgamos, na verdade o que surge é identificação.

Dirigido por Hans Weingartner que assim como fez em "Edukators" (2004) critica o capitalismo e a sociedade que exclui o que incomoda e julga desnecessário, gerando desigualdades e provocando revolta, tristeza e desesperança.
O longa não poupa e coloca em xeque as clínicas que tratam as pessoas que sofrem de algum distúrbio mental, aprisionar e dopar não vai curar ninguém, isso é violência e só faz tirar a realidade deixando de ser quem se é aos poucos.
O filme causa tristeza, para os seres mais pensantes é desesperador, difícil ter que viver em função de algo que não lhe é prazeroso, e o pior é saber que não há escolha, ou você faz parte, ou é excluído e taxado como louco, entre outras coisas.
Viktor na verdade é Martin quando criança, ele o resgata e salva a figura do menino que ainda podia sonhar. Na floresta ele junta todas as suas partes e consegue aliviar suas angústias, e de fato ser livre. Porém, o final nos aprisiona junto com o personagem, é torturante ver que não há escapatória.
"A Cabana" é um filme profundo, poético, silencioso, reflexivo, além de ter uma trilha sonora bem bonita e um personagem para se guardar na memória.

"O medo não é uma droga. O medo é desnecessário. É supérfluo. Você não precisa dele."

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Delicadeza do Amor (La Délicatesse)

Não é novidade que a eterna Amélie Poulain (Audrey Tautou) esbanja o elegante charme francês em cada gesto, expressão facial, e até no modo de andar. "A Delicadeza do Amor" (2011) é um filme frágil, e essa delicadeza toda está personificada na personagem de Audrey. Nathalie é uma jovem viúva que perde o marido em um atropelamento. Tempos depois da tragédia, ela continua em luto e com dificuldades para se relacionar com outros homens, a sua única motivação é o trabalho. Apesar das investidas constantes de seu chefe, Nathalie acaba vivendo um romance no trabalho com Markus (François Damiens), um sueco desajeitado, meio careca e antissocial.
O início do filme é veloz, mas cauteloso, é mostrado o começo do amor com François (Pio Marmaï), um moço muito bonito e bem-humorado, o namoro, o casamento, e finalmente a tragédia. A dor da perda atinge a frágil Nathalie que agora só pensa em trabalhar, preencher seu tempo para não pensar na dor. Ela ignora por três anos qualquer possibilidade de romance. Só que sem querer ela beija um colega de trabalho, em um momento de transe, absorta em pensamentos. Markus entra na sala e ela o acaba beijando inesperadamente. Seu colega sai atordoado e uma onda de felicidade o toma. Depois de muitas conversas e de admiração mútua, os dois embarcam num romance do qual os amigos irão questionar de maneira bem hostil. Markus é o tipo que ninguém para pra olhar, as pessoas geralmente nem se dão conta de que existe ou trabalha com ele. Apesar de seu porte, ele passa batido. Não é referencial de beleza, e nem esbanja um corpo atlético, porém há algo em Markus de que Nathalie precisa, e essa coisa se chama: delicadeza. Ele a admira, a escuta, olha nos olhos, espera seu tempo, e cuida de seu coração machucado. Não vou dizer beleza interior, porque isso já virou frase feita, "fulano não é bonito, mas tem beleza interior", acredito que seja a pessoa certa, na hora certa. É quando você olha pra pessoa e se vê nela, as ideias são tão fáceis, elas surgem e são compartilhadas sem medo de julgamento.
Markus não tem medo de ser quem ele é perto de Nathalie, e ela por sua vez, não tem receio de expor sua dor. O casal protagonista carrega um misto de drama e comédia, e se mostram do jeito que são, humanos. Repletos de defeitos, qualidades, tristezas e alegrias. Interessante notar a reação das pessoas ao ver Markus junto de Nathalie, a maioria delas não entende porquê. Mas o fato é que elas desconhecem a essência humana. A cena da avó de Nathalie deixa claro isso. Ela o vê por alguns segundos, mas sente que Markus é uma pessoa boa.

"A Delicadeza do Amor" marca a estreia dos irmãos David e Stéphane Foenkinos na direção. O filme é baseado em um romance também escrito por David Foenkinos. No início, o filme é dominado pela tristeza de Nathalie, e apesar dela transcorrer rapidamente, a angústia continua na personagem, que aos poucos vai se desfazendo, e mergulhamos na magia que envolve esse casal. Markus não poderia encontrar lugar melhor para se esconder do que o coração de Natthalie.
O filme cativa pela sinceridade, e pelo cenário: a estonteante e romântica Paris. Assisti-lo é um carinho que fazemos em nossa própria alma.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Alpes (Alpeis)

"Alpes" (2011) do diretor Yorgos Lanthimos (Dente Canino - 2009) é um filme fora do comum, excêntrico mas hiper interessante, como sempre ele insere um tema forte e passa a mensagem de uma maneira estranha. Lanthimos entrou para minha lista de diretores geniais, ao lado de Lars Von Trier e Michael Haneke. Ele é muito criativo na elaboração e no desenvolvimento de seus filmes.
A história é sobre um grupo de pessoas que se encontram regularmente em um ginásio esportivo para discutirem e ensaiarem, denominados como Alpes, cada um escolhe o nome de uma montanha, o nome do grupo é porque cada montanha é insubstituível, mas muito semelhantes, de forma que a substituição de uma por outra se torna imperceptível, eles são substitutos de pessoas que faleceram, muitos os contratam para preencher o vazio que fica após perder um ente querido. A enfermeira vivida pela ótima Aggeliki Papoulia é o foco do filme, ela fica obcecada por uma jovem tenista que sofre um acidente, logo entra pro grupo com o codinome Monte Rosa, mas quando a menina morre não conta a eles, pois uma outra estava escalada para substituí-la. Ela vai por conta própria se oferecer à família, então recebe a missão de interpretar a jovem para os pais que sofrem pela perda. Com o tempo ela acaba se confundindo e as personalidades se misturam, talvez a solidão que sente seja preenchida pelo que faz, se apega naquelas pessoas, o que a fará ter grandes problemas no grupo, e consequentemente ser expulsa. Desesperada não sabe como agir diante a realidade que a cerca.
É complicado se habituar com a forma que o filme se desenrola, mas quando nossa ficha cai é impressionante a densidade que está contida ali. A identidade é a grande questão, os personagens são carentes e têm características bem peculiares. Não dá para negar as semelhanças com os personagens de "Dente Canino", até a forma de andar da personagem central nos remete a ele.
O início do filme é muito bonito, uma ginasta executa com destreza a coreografia, são movimentos precisos, porém ela deseja uma música mais pop e faz o pedido ao treinador, ele nega e diz que não está preparada para algo assim, é uma rigidez que se explica mais ao longo do filme. Eles treinam as personalidades dos falecidos, absorvem trejeitos, gostos, frases, costumes, é uma preparação para que a família realmente ache que a pessoa continua entre eles. Veja o absurdo disso tudo, quem em sã consciência substituiria um ente querido? Eles usam a desculpa que é para amenizar a dor, mas a verdade é que ninguém está afim de sofrer, desejam preencher egoisticamente o buraco que existe dentro deles. Não admitem o período do luto, é como se a pessoa que morreu tivesse culpa pelo sofrimento que eles irão passar, e então contratam os substitutos com o intuito de neutralizar a dor.

O cinema de Lanthimos é autoral, tem seu jeito próprio, consegue atingir um público diferenciado e seleto, nem todos são capazes de se habituar ao seu estilo, sempre há questões morais envolvidas, porém a estranheza da narrativa faz com que afastem os espectadores. Chega um ponto do filme que a interpretação domina, a realidade se dissipa, ninguém tem identidade própria. A ginasta parece encenar para seu treinador, e será que o pai da enfermeira é realmente seu pai? Essas questões vão dando um nó na nossa cabeça.
Muitos desejam ser outros, viver uma vida que não é sua, a sociedade traz essa insatisfação pessoal, absorvemos influências externas o tempo todo e desse modo fica difícil saber o que é inerente ao nosso ser. Se for analisar friamente interpretamos no dia a dia, somos pessoas diferentes dependendo de quem está ao nosso lado. Os comportamentos mudam, tudo muda, e isso sem ao menos percebermos. Essa confusão acontece no filme, a personagem Monte Rosa ao ser afastada por quebrar as regras se sente perdida e angustiada, não sabe o que fazer com sua vida, desesperada ainda tenta adentrar na casa dos pais da tenista, mas é expulsa. Ela se habituou a não ser ela mesma.
Interessante quando os filmes conseguem abranger uma amplidão de reflexões, dá para analisar diversos aspectos da nossa sociedade diante deste longa. É considerado bizarro, mas há diversas coisas no nosso cotidiano que são estranhas, só que por serem executadas pela maioria se tornam normais.

O grande ponto é a carência e o egoísmo. As pessoas têm pressa em preencher o vazio, e principalmente por medo do sofrimento substituem, no filme por pessoas, mas na realidade há vários métodos de substituição.
Yorgos Lanthimos faz parte do cinema grego contemporâneo, cada vez mais os títulos são ousados e de uma técnica impecável, como os recentes: "O Garoto que Come Alpiste" - 2012 de Ektoras Lygizos e "Miss Violence" - 2013 de Alexandros Avranas. É a prova de que a estranheza não está só em Lanthimos, mas sim no cinema grego, e isso é uma grande qualidade. Assistir a estes filmes é um exercício maravilhoso que nos dá a chance de absorver o máximo da história.