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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A Árvore dos Frutos Selvagens (Ahlat Agaci)

"A Árvore dos Frutos Selvagens" (2018) dirigido por Nuri Bilge Ceylan (Três Macacos - 2008, Sono de Inverno - 2014) exibe sensibilidade e crítica, são planos longos repletos de diálogos e contemplação, a paisagem é essencial e os sentimentos desencadeados em torno são profundos e reflexivos. Inspirado na história real do pai do co-roteirista Akin Aksu e o arco do protagonista é baseado no próprio Akin Aksu.
Sinan (Doğu Demirkol) é um jovem apaixonado por literatura que sempre sonhou em se tornar um grande escritor. Ao retornar para o vilarejo em que nasceu, ele faz de tudo para conseguir juntar dinheiro e investir na sua primeira publicação. O problema é que seu pai deixou uma dívida que atrapalhará os seus planos.
É um filme com um pouco mais de três horas de duração e que passeia por diversos assuntos entre o protagonista e as pessoas que encontra, como um escritor famoso da cidade, líderes religiosos, o prefeito, sua família, em especial seu pai e, claro, ele mesmo. Saído da faculdade recentemente pretende publicar seu livro, mas não será tão fácil, como também não será passar no concurso público e exercer a profissão de professor, Sinan é um jovem inerte e sem perspectiva e que possui um senso crítico ácido, despreza a aldeia e é demasiadamente pedante e presunçoso, apesar de querer obter sucesso com o livro ele é alheio a tudo o que o rodeia. Novamente na casa dos pais precisa lidar com o fato do pai ter afundado as economias da família e estar endividado por conta de apostas, e ainda enfrentar as pessoas que o param para cobrar e dizer sobre a honra quebrada do pai. Sinan vai pedir auxílio ao prefeito para que publiquem seu livro de confissões pessoais baseado em observações cotidianas, mas devido o gênero classificado por ele como "um meta-romance peculiar de auto-ficção livre de qualquer fé, ideologia e lealdade" não é possível, a ajuda não vem de nenhum lugar e é preciso arcar por conta própria. A maneira com que Sinan se relaciona é sempre com um tom de superioridade e questionamentos, em variados momentos cai bem, pois trata de religião, política, literatura, mas em outros soa chato e é difícil ter empatia por ele, não é fácil acompanhar sua jornada e o tempo todo estamos grudados nele, seja em suas longas caminhadas e em paradas recheadas de diálogos longos e desgastantes, mas compensa pelas reflexões em suas diversas camadas, além de proporcionar visualmente sensações ainda mais potentes, a paisagem ampla e seus estágios ajudam na experiência, são cenas poéticas, como o vento ao balançar os galhos dourados pelo sol enquanto há uma conversa sobre passado e futuro, o som dos pássaros, da chuva de verão que cai momentaneamente nas folhas. Um verdadeiro deslumbre!
É imenso na produção de percepções e continua assim por todo o desenrolar, algumas partes tocam mais e outras pendem para um lado crítico ao demonstrar um rapaz que é arrastado para um destino do qual não quer aceitar e estar ao redor de pessoas das quais não lhe interessa, ele é o retrato de uma geração perdida e sem perspectivas.

Aos poucos Idris (Murat Cemcir), o pai de Sinan, vai sendo delineado e ganhando mais formas, ele é professor primário e tem uma personalidade inteligente, mas simples e desligada às regras, infelizmente o personagem não é tão explorado e foca apenas na relação conflituosa e na antipatia que Sinan sente por ele, porém ao fim o diálogo entre eles é magistral e quebra toda a arrogância do filho. Ele percebe que o pai também teve suas expectativas e seus desencantos e que a concepção de tê-lo como perdedor não faz sentido, ainda surge a surpresa de que foi o único a ler seu livro, o que o deixa mexido, vemos isso pelo seu olhar que até então carregava um ar de menosprezo e desinteresse. A comparação que Sinan faz deles, o avô, o pai e ele com a pereira selvagem é ótima e mais linda ainda é a resposta que ouve. Idris é um baita personagem, carismático e brilhante, mas como vemos o filme pelo olhar de Sinan só temos a chance de enxergá-lo melhor ao final.

"A Árvore dos Frutos Selvagens" traz primorosos diálogos críticos, emocionais e reflexivos acerca de variados temas, muitos deles inspirados em Nietzsche e Dostoiévski, não há dúvidas de seu poder narrativo, das palavras que transformam, e não é à toa que os críticos franceses o compararam aos grandes romances de formação.
Concebido com sensibilidade e inteligência é um filme engrandecedor e satisfatório!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ward nº6 (Palata N°6)

"Ward nº 6" (2009) dirigido por Aleksandr Gornovsky e Karen Shakhnazarov (Tigre Branco -2012), baseado em um conto de Chekhov, "Enfermaria nº6", conta a história de um psiquiatra que se torna paciente do asilo que antes comandava. Adaptado para a Rússia dos dias atuais, o filme é uma mistura de ansiedade e mistério, mostrando como é fácil nos tornarmos o que mais tememos. A adaptação moderna de um conto de Chekhov para a Rússia contemporânea em que um médico psiquiatra se torna paciente é sem dúvidas interessante e angustiante, as conversas entre Gromov e Ragin são regadas a ansiedade e seus pontos de vista levantam questões importantes. O começo do filme em que conta-se a história do local é algo maravilhoso, assim como a união da ficção e realidade na utilização de pacientes reais. 
É um filme que serve para a reflexão sobre um tema atemporal, a corrupção institucional e o como os indivíduos categorizados loucos são marginalizados e sofrem nas mãos daqueles que obtêm algum poder, a crise existencial pulsa e diálogos filosóficos coroam a obra. Filmado em um hospital psiquiátrico em funcionamento, o local, um antigo mosteiro, mistura ficção e realidade, onde instaura-se de forma documental uma investigação acerca do médico que se tornou paciente. Além da bela e terrível apresentação sobre o lugar, alguns pacientes são entrevistados e respondem perguntas sobre fé e sonhos, em seguinte acompanhamos um jovem médico, Khobotov (Evgeniy Stychkin), que assumiu o lugar de Ragin (Vladimir Ilin), aos poucos somos introduzidos à história e as entrevistas que tentam extrair de todos no local, pacientes, funcionários e médicos, o que teria levado o homem àquele estado? Claro, tudo fica mais interessante quando Ragin estabelece vínculo com Gromov (Aleksey Vertkov), um homem inteligente, mas que sofre da síndrome de perseguição, quando Ragin o descobre começa a trocar ideias o tempo todo e isso leva os outros médicos a perguntar sobre sua sanidade.
O fato é que para Ragin ninguém é interessante, não consegue estabelecer uma conversa a não ser com seu amigo Mikhail, só que com Gromov as discussões inspiradas levam Ragin ao abismo, ele é um homem sossegado sem grandes aflições, nunca experimentou o sofrimento e por isso o despreza, seu pessimismo é tanto que nada do que venha a fazer tem valor, já que no final a única coisa que o espera é a morte, ele diz que a felicidade está dentro e independe do ambiente, mas fecha os olhos para o mundo dos outros, suas ideias começam a chacoalhar à medida que Gromov o desperta e numa cena brilhante pergunta ao médico que razões ele tem para pregar sobre o significado da vida, já que ignora o sofrimento e nunca viveu de fato. A partir daí tudo que acreditava desmorona e nada é capaz de impedir sua derrocada, enquanto isso os médicos conspiram por visualizar Ragin cada vez mais deprimido e bêbado.

Gromov propõe em seus diálogos pontos de vista que até então o médico não havia pensado, já que estava mergulhado em suas próprias ideias niilistas e apenas sentado em sua cadeira sem viver de fato a vida. Quando se passa pelo sofrimento e a ação se faz necessária algo muda e as percepções da vida se tornam diferentes. Depois dessa conversa Ragin não foi mais o mesmo e se entregou à bebida o levando a um estado apoplético. 

A atmosfera de angústia, desespero e ansiedade predomina a maior parte do tempo, discorre com maestria sobre o como os transtornos mentais surgem em sua maioria a partir da hipersensibilidade das pessoas em razão de sofrimentos, rejeições, traumas, etc. É um exemplar importante para afastar o preconceito contra os doentes mentais e ter mais compaixão e, principalmente, retratar essas instituições que os aprisionam e os sedam o tempo todo, algo extremamente desumano que só faz eliminar a personalidade do doente.
"Ward nº6" traz grandes questionamentos e faz uma ótima adaptação do conto para a Rússia contemporânea, mas que de algum modo se faz universal, até porque as dores e os sofrimentos humanos são semelhantes.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

No Coração da Escuridão (First Reformed)

"First Reformed" (2017) dirigido por Paul Schrader (Cães Selvagens - 2016) é um filme potente e que deixa um apanhado de questões para refletir, o existencialismo é pontiagudo e fere, nos faz mergulhar profundo em nós mesmos e remexer em tudo que se acredita ou não e perceber o quão perdidos estamos.
Um ex-militar capelão (Ethan Hawke) é torturado pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Ele é ainda desafiado após fazer amizade com Mary (Amanda Seyfried), uma jovem paroquiana e seu marido ambientalista radical. Ele logo descobre segredos escondidos da cumplicidade de sua igreja com empresas inescrupulosas.
O reverendo Ernst Toller é solitário e dependente do álcool, está a frente de uma pequena e importante centenária igreja protestante, que atualmente é praticamente uma atração turística e que está agregada a uma organização, que mais tarde ele descobre estar ligada a ações negativas, ou seja, nada relacionado ao conceito humanitário da qual a religião diz pregar. Observamos que Toller é um sujeito reservado e que está sofrendo de alguma doença, além da tristeza do seu passado, ele está se dedicando a escrever um diário do qual destruirá no final do ano, sua escrita é perturbada e recheada de perguntas, mas todos da comunidade o têm em alto valor por ser o líder e, portanto, ele também é uma espécie de conselheiro, e é a partir do encontro com Mary que sua confusão interior se torna ainda maior, ao pedir a ele que converse com Michael (Philip Ettinger), seu marido, questões sobre depressão, a destruição do meio ambiente, interesses econômicos, o rumo que o homem está dando ao planeta sem nem se importar surgem, o marido de Mary luta pela causa e está cansado de ser taxado como um lunático, ele exibe ao reverendo provas do caos e acende nele questionamentos acerca do aquecimento global e todo o sofrimento entre as espécies, Michael se recusa a colocar um filho neste mundo podre e sem futuro, mas a questão é que Mary não quer abortar, Michael parece disposto a agir de forma desesperada para ser "escutado", desolada Mary se aproxima cada vez mais do reverendo e ilumina a vida de Toller, que se atormenta entre dor e dúvidas, sua fé é posta em xeque, a hipocrisia do meio e a dele também o consome, e contaminado por tudo isso decide fazer algo no dia da festa do centenário da igreja.

Paul Schrader construiu um drama sombrio, carregado e que causa desconforto, os diálogos são atuais e pungentes, capazes de nos transformar ao final da sessão, o filme  tem como influências "Luz de Inverno", de Ingmar Bergman e "Diário de um Pároco de Aldeia", de Robert Bresson, além de seu próprio "Taxi Driver", mas apesar de beber de várias fontes o filme é original e causa impacto, impossível ir dormir tranquilo após assisti-lo, o sentimento crescente de desolação, a descrença, os conflitos internos, a obra aponta para muitas questões, para cada um pesará de um jeito, por exemplo, a degradação do meio ambiente provocada pelas mãos do homem em prol de seu bem-estar, até quando o planeta irá aguentar, que futuro terão as próximas gerações? Ninguém se importa se terá recursos naturais, a imensidão de lixo predomina, todo o equilíbrio já está comprometido, aquecimento global, devastação de florestas, extinção de espécies, rios contaminados, etc.

"First Reformed" é um filme introspectivo e inteligente na abordagem, o desenvolvimento do personagem é maravilhoso, ele de início mesmo sendo descrente se dispõe a ajudar, mas as conversas e o desfecho de Michael só aumentam os seus conflitos internos, sua visão se amplia e acaba desesperançoso não só consigo mesmo, mas com tudo ao redor, com o ser humano; a única luz, o resquício de pureza e esperança é Mary, mas seus sentimentos em relação a ela se misturam e sua hipocrisia vem à tona, assim como seu egoísmo. Ethan Hawke está sublime, completamente absorvido por um personagem complexo, cuja descrença vai alcançando vários níveis, o acompanhamos seja em seus silêncios, em seus pensamentos postos em seu diário, ou nos diálogos primorosos repletos de reflexão.
Paul Schrader é um exímio argumentista e marcante como realizador, em "First Reformed" conseguiu transcender-se, uma obra de atmosfera meditativa, incômoda e que passeia por vários assuntos importantes dos quais a maioria prefere se esquivar. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

You Disappear (Du Forsvinder)

"You Disappear" dirigido por Peter Schønau Fog (A Arte das Lágrimas - 2006) flerta com a filosofia e a neurociência, é um drama familiar tenso que vai colocando em xeque questões morais. Somos conduzidos por uma trama fragmentada recheada de informações acerca da consciência, memória e livre-arbítrio. 
Professora, Mia (Trine Dyrholm) é casada com Frederik (Nikolaj Lie Kaas), um diretor bem-sucedido que é pego roubando da sua própria escola. Na dúvida se o marido fez isso por vontade própria ou devido ao tumor que cresce no cérebro dele, ela está desesperada para solucionar o caso e descobrir com que tipo de homem está casada. Enquanto pagava um advogado para defendê-lo, ela é forçada a se deparar com estudos de neurociência para repensar quem é Frederik.
Mia fica sem chão ao ser informada do tumor do marido e se desespera para que tudo se esclareça em relação ao crime, ela chama o advogado Bernard (Michael Nyqvist - uma de suas últimas aparições) para cuidar do caso e convencer o júri de que quando Frederik pegou o dinheiro da escola não estava consciente, houve uma série de sintomas para que ele agisse assim, as cenas no tribunal se mesclam com vários flashbacks mostrando o antes da cirurgia e voice-overs explicando estudos sobre a neurociência em relação à memória e o livre-arbítrio. Mia fica frágil psicologicamente com as mudanças drásticas de personalidade do marido, principalmente depois da operação e se apega ao advogado Bernard, um homem gentil que cuida de sua mulher que sofreu danos no cérebro devido um acidente, inclusive, eles fazem parte de um grupo que reflete e traz pesquisas sobre o assunto.
As discussões que surgem são intrigantes, mas são expostas de maneira muito didáticas, isso estraga um pouco, além de seu tom frio, mas graças as atuações de Trine Dyrholm, Michael Nyqvist e Nikolaj Lie Kaas a história se sustenta e não perde o fôlego, nossa curiosidade é aguçada, será que Frederik realmente teve todos os sintomas desencadeados pelo tumor em seu cérebro, ou cometeu o ato por puramente falha de caráter? É o que a esposa se pergunta o tempo todo. O quanto o conhece e o quanto ele mudou com o passar do tempo, e essas dúvidas a consomem e a deixam vulnerável. 
É preciso embarcar na proposta do longa, mesmo sendo um drama familiar intenso as emoções são distantes e o foco está mais no conteúdo filosófico acerca da mente e seus meandros. São inúmeras explanações sobre o mecanismo do cérebro e o comportamento humano, nossa fragilidade se algo acometê-lo, as mudanças que ocorrem com o tempo, o quanto as memórias são verdadeiras ou apenas criações de nossa imaginação, somos responsáveis pelo que nos tornamos ou o juízo dos outros nos molda? Somos puramente química, mas é a química ou o livre-arbítrio que nos governa?

Mia se perde nesse turbilhão e vivencia todas as modificações do marido e de sua vida com pesar, a fragilidade e carência a domina por completo, interessante observar o quanto o filho adolescente Niklas (Sofus Rønnov) fica à deriva nesta história, tem uma ou duas cenas emocionais em que ele reclama e diz o quanto sofre e desejaria que ela fosse mãe de verdade, e a declaração dele no tribunal sobre o pai e sua personalidade antes e depois do tumor. A complexidade das situações vão moldando os personagens e acompanhamos o ruir psicológico, principalmente de Mia, como vemos numa pequena reviravolta ao final retratando a vulnerabilidade de sua mente.

"You Disappear" pode soar redundante e frio, mas promove intrigantes debates acerca da consciência, memória, moralidade, livre-arbítrio, leis da natureza, a fragilidade humana e por aí vai... Para quem é curioso e tem sede de conhecimento é um prato cheio. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Dois Rémi, Dois (Deux Rémi, Deux)

"Dois Rémi, Dois" (2016) dirigido por Pierre Léon (O Idiota - 2008) é uma adaptação leve do livro "O Duplo" de Dostoiévski, que reflete sobre os conflitos da existência, as inseguranças e o desejo de ser outro. Rémi (Pascal Cervo) é um homem de 30 anos perdido na vida que não tem um bom emprego e que leva uma tímida vida amorosa. Certo dia, ele precisa dividir sua vida com um sósia, um outro dele, um ser não muito agradável e bem invasivo. A questão é, qual deles será o verdadeiro Rémi?
Rémi leva sua vida de modo pacato, divide um apartamento com o irmão Philippe (Serge Bozon), trabalha em uma empresa especializada em produtos para gatos e é apaixonado por Delphine (Luna Picoli-Truffaut - neta de François Truffaut), filha do seu patrão, a sua timidez e insegurança o travam nas decisões, principalmente as amorosas, Rémi não é sociável no trabalho e os colegas não têm muito o que dizer sobre ele. Um dia, Rémi encontra um homem parecido com ele e começa a segui-lo, então se assusta ao ver que ele é exatamente idêntico, um duplo. O Rémi dois é o oposto do Rémi um, totalmente relaxado, debochado e também um tanto chato e insensível, ele toma a vida do original, vai trabalhar no mesmo local e o engraçado é que ninguém ali questiona ou se importa com o fato de ter dois Rémi, ao contrário, ficam comparando e na maior parte do tempo indiferentes. A única pessoa que percebe algo estranho e não aceita Rémi dois é Delphine.
O filme é bem curtinho (66 min) e surpreende por seu humor, extrai leveza de um tema complexo e nos tira gargalhadas de situações inesperadas, há diálogos certeiros e extremamente atuais, demonstra a indiferença das pessoas, a completa falta de empatia, relações superficiais e automáticas e o imenso vazio que sobra disso tudo. Rémi não se relaciona muito com os outros, não chega a ser um antissocial, porém cultiva insegurança e conflitos existenciais, Rémi gostaria de ser mais determinado, ousado, falador e conquistador, percebe que seu eu não cativa os que estão próximos, daí surge seu duplo, o tal mito chamado "Doppelganger", que diz que todos têm uma cópia em algum lugar do mundo, geralmente o outro seria uma versão diferente apenas no caráter. Na história Rémi dois é mal-intencionado, esbanja carisma por onde passa, mas na verdade é um chato, Rémi a partir da chegada do seu duplo é posto em xeque por si mesmo e reflete sobre seus conflitos internos e sobre seu verdadeiro eu.
"Dois Rémi, Dois" é suave, mas não deixa de ser intrigante e nos instiga a fazer um exercício de autoconhecimento e entender o como encaixamos no meio em que vivemos, é difícil permanecer seguro de si diante a "manuais" que dizem que tais qualidades são importantes num ambiente de trabalho, ou se for mais de um jeito do que outro se dará melhor na vida, isto acaba alimentando a insegurança e o desejo de ser outro. É inevitável, ainda mais nas redes sociais em que todos mostram os seus melhores lados.

A narrativa é agradável e subjetiva, joga com esses conflitos de personalidade e dualidade com a ótima e cativante atuação de Pascal Cervo, os dois Rémi são bem delineados e suas expressões preenchem a tela. Há um certo charme em muitas passagens e não tem como não sorrir e gargalhar apesar de todo o drama envolvido, exemplo disso é a cena do piano com a mãe e o irmão de Rémi. A trilha sonora concebida por Alexander Zekke é vivaz e a fotografia de Thomas Favel encanta, é um filme com características únicas e surpreende por utilizar o humor de maneira inteligente e promover questionamentos acerca de temas existenciais. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tirésia

"Tiresia" (2003) dirigido por Bertrand Bonello (Nocturama - 2016) é um longa francês peculiar e atraente, disserta sobre masculino e feminino e o poder de transformação do ser humano.
Para uma melhor compreensão é bom que se saiba sobre o mito grego do qual intitula a obra, Tirésias todo dia ia ao templo fazer suas orações, um dia ao sair encontrou um casal de cobras venenosas copulando, ambas se voltaram contra ele e então atirou uma pedra na fêmea, assim Tirésias transforma-se numa mulher e torna-se em uma prostituta famosa. Tempos depois indo ao mesmo templo orar encontrou outro casal de cobras copulando e novamente interrompeu o ato, dessa vez matando o macho e assim tornando-se homem novamente. Como Tirésias tinha passado pelos dois sexos, Zeus e Hera o chamaram para uma discussão sobre quem teria mais prazer na relação sexual, Hera dizia que era o homem, Zeus dizia que era a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma". Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da previsão. Dentro deste contexto somos absorvidos pela estranha narrativa de Bonello, Tirésia, em seu primeiro momento (Clara Choveaux), é um transexual brasileiro que vive com seu irmão se prostituindo nos subúrbios de Paris. Certa noite ela encontra Terranova (Laurent Lucas), um homem distante, misterioso, que fica obcecado e a sequestra. No cárcere e sem as doses regulares de hormônios que tomava para adquirir formas femininas, Tirésia volta à sua forma masculina original (Thiago Telès). Decepcionado, Terranova cega Tirésia e o abandona em uma floresta, onde é resgatado pela jovem Anna (Célia Catalifo), que o leva à igreja local, onde volta a se recuperar, definitivamente na forma masculina.
Terranova é um ser recluso que aprecia arte e tem pretensões poéticas ao sequestrar Tirésia, esta que se destaca aos olhos dele por sua bela forma e que o intriga por sua transformação. Ele a admira, observa-a no dia a dia que pouco a pouco sem os hormônios vai perdendo as características femininas, a barba cresce, a voz engrossa, Terranova vai atrás dos hormônios, porém, sem sucesso decide abandoná-lo numa estrada, mas antes cega Tirésia. Esta primeira parte do filme é instigante e provoca uma série de questões envolvendo gêneros, também exerce um grande fascínio pela maneira com que é abordado o tema, o clima é de total tensão. A interpretação de Laurent Lucas com seu olhar vidrado de curiosidade e seu silêncio incomoda, e Clara Choveaux exprime perfeitamente o medo, a solidão, e encanta quando canta uma cantiga popular brasileira, "Terezinha de Jesus", que mexe com Terranova.

Após ser deixado na beira da estrada a história ganha novos tons e até parece ser um outro filme, a passagem é realmente brusca, Tirésia, interpretado por Thiago Telès é acudido por Anna, uma jovem muda que vê em Tirésia um propósito. Laurent Lucas nesta parte interpreta um padre, o que causa uma grande confusão, mas representa a dualidade. Tirésia aceita a transformação e o dom da premonição e muitas pessoas vão até ele lhe oferecendo presentes, a curiosidade e o desejo de saber o que acontecerá move as pessoas. 

Sombrio, melancólico e incômodo, a experiência para quem o assiste é única, abarca muitas questões sem apresentar necessariamente respostas, somos deixados à deriva ao final matutando tudo o que vimos, absorvendo e tentando pelo menos um pouco compreender este enigma chamado ser humano.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)

"Capitão Fantástico" (2016) dirigido pelo ator Matt Ross é um belo filme que traz reflexões acerca da vida, o que realmente tem importância e agrega, questiona as regras da sociedade, o modus operandi, e também a criação dos filhos sem qualquer vínculo com o meio. 
Ben (Viggo Mortensen) é o pai de seis crianças, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.
Ben e sua esposa decidiram criar seus filhos longe das normas e besteiras do cotidiano, as crianças são fortes e sabem de tudo, desde trabalhos pesados, como plantar, caçar, escalar, mas sem deixar de trabalhar a mente também com literatura, política e física quântica, são todos inteligentes, questionadores e muito dedicados. A figura da qual eles celebram é a do ativista político norte-americano Noam Chomsky. Tudo muda quando a esposa de Ben acometida por uma doença acaba falecendo, os filhos querem ir ao enterro, mas Ben sabe que não serão bem recebidos pelos pais dela por causa do formato de vida que escolheram, por fim eles vão e tentarão impedir a cerimônia, já que ela era budista e desejava ser cremada e as cinzas jogadas na descarga de um banheiro público. A educação que Ben passa a seus filhos é a mais clara possível, não há tabus, não há hipocrisias, tudo é ensinado nos mínimos detalhes, a disciplina é a ordem, mas permeada com harmonia e alegria. O personagem de Viggo Mortensen exagera em alguns aspectos quase os tornando verdadeiramente em selvagens, ele é rígido sobre a alimentação e não há futilidades que tirem o foco. Mas em determinado momento confrontado pelo pai de sua esposa começa repensar em alguns conceitos, decide então que seus filhos tenham uma vida comum e aprendam a viver de acordo com a sociedade, triste ele vai embora e os deixa na casa dos avós. Os filhos, por sua vez, não o abandonam e o ajuda a se reerguer, juntos concretizam o desejo da mãe e seguem com amor, bom humor e música.
Vespyr (Annalise Basso), Bodevan (George MacKay), Rellian (Nicholas Hamilton), Zaja (Shree Crooks), Kielyr (Samantha Isler) e Nai (Charlie Shotwell) são excelentes e cada um com sua personalidade cativa, representa um lado doce e mais suave da vida, de viver com o suficiente e respeito à natureza. Porém, o interessante é que em nenhum momento o filme coloca que o lado de Ben é o certo, pois há pontos negativos, querendo ou não impondo também regras. O que o filme propõe é repensar a sociedade em que vivemos, o suposto roteiro que devemos seguir e se caso decidirmos não segui-lo, com certeza seremos criticados, pressionados e taxados de loucos e alienados. 

Pertinente quando posto em evidência a educação, para viver socialmente talvez eles não sejam tão espertos, foram criados em outra fôrma, ainda mais se colocados num sistema de ensino quadrado e limitado cheio de repetições que focam em valores distorcidos. Ambos os lados têm defeitos, buscar um equilíbrio entre esses dois universos é algo que sempre pode ser trabalhado em nós, por exemplo, reduzir o consumismo, ter uma conexão com a natureza, questionar padrões, ser quem se é verdadeiramente. 
Destaque para a paleta de cores vivas e vibrantes que deixa a fotografia estonteante, a trilha sonora é marcada pela ótima canção "Varðeldur", de Sigur Rós, e ainda encanta com uma versão de "Sweet Child O' Mine" cantada por Samantha Isler, e outras, como "I Shall Be Released" de Bob Dylan.

"Capitão Fantástico" é leve, divertido e pontuado por ótimos diálogos e cenas hipnotizantes, mas não se aprofunda nas complexidades do tema, é uma boa e palatável história que deixa a seguinte pergunta: Você vive, ou apenas sobrevive?

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A Excêntrica Família de Antonia (Antonia)

"Assim como essa crônica nada se conclui."

"Antonia" (1995) dirigido pela holandesa Marleen Gorris (O Último Lance - 2000) é um filme de personagens grandiosas que exemplificam o empoderamento feminino, a obra disserta sobre o tempo e de forma poética e leve aborda diversos assuntos.
Definido como uma celebração da vida e da morte conta a história de uma encantadora geração de mulheres. Comandada por Antonia, a saga familiar atravessa várias gerações, falando de força, de beleza e de escolhas que desafiam o tempo. Nesse universo conhecemos curiosos personagens, como o filósofo pessimista, a netinha superdotada, a filha lésbica, a avó louca, o padre herege, a amiga que adora procriar, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos que são acolhidos por sua generosidade.
Antonia (Willeke van Ammelrooy) retorna ao vilarejo que nasceu e cresceu ao lado de sua filha Danielle (Els Dottermans) para visitar a sua mãe, que está para morrer. A partir de então, Antonia começa a reviver com os vizinhos e as recordações. Ela é uma mulher diferente e encara a vida com outros olhos, é forte e generosa, mas como ela própria diz foi acolhida no lugar "como uma colheita ruim, uma criança deformada, ou um manifesto da onipresença divina". Antonia é uma matriarca e a sua família vai se constituindo na base do amor e respeito, e ela ainda coloca debaixo de suas asas as mais diferentes pessoas, desde a menina com deficiência que foi estuprada pelo irmão, mas que acaba encontrando seu amor, que Antonia também protege, a mulher que uiva para a lua, a parideira e o filósofo pessimista.
O filme quebra paradigmas e mostra uma liberdade de ser, Antonia, por exemplo, nega o pedido de casamento de seu vizinho, que diz que seus filhos precisam de uma mãe, mas Antonia completa de que ela não precisa dos filhos dele. Mais tarde ela aceita ser amante apenas. Em dado momento Danielle decide querer ter um filho, só que não deseja passar por todas as convencionalidades, pulando as "etapas", vai com sua mãe à cidade e transa com o irmão de Letta, a personagem que adora procriar. São temas pertinentes e que empolgam o espectador, como a hipocrisia da igreja, os discursos moralistas e machistas, além do sentido da vida e morte.
Thérèse, a filha de Danielle é extremamente inteligente e precisa que a professora dê atenção extra a ela, já que a sala de aula a entedia. É aí que Danielle se apaixona e a professora integra também a comunidade de Antonia. Thérèse está sempre às voltas do filósofo Kromme Vinger, eles discutem vários assuntos e adoram citar Nietzsche e Schopenhauer, o tempo passa e Thérèse engravida, Kromme Vinger aconselha ela não ter a criança, pois o mundo está uma calamidade, porém ela dá à luz a Sarah.

"Antonia" representa toda a complexidade e diversidade que existe na sociedade humana, mas como a personagem principal demonstra, quando se há respeito pela liberdade do outro, tudo flui. Também mostra um viés pessimista, de que a vida é feita de sofrimentos e tragédias, mas por outro lado feita de pequenos momentos que engrandecem nossa existência. A filosofia de Schopenhauer permeia toda a trama e a frase "Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte" é uma das tantas que se encaixa perfeitamente à história.
Sara, bisneta de Antonia certa vez lhe diz: "Não é triste que nada exista?" E Antonia responde: "Por isso há tanto." 

"Nada morre para sempre. Alguma coisa sempre fica de onde outra nasce. Assim a vida começa, sem saber de onde veio ou por que existe[...] a vida quer viver."

Um filme lindo, filosófico, feminista, que coloca em destaque a passagem do tempo e passeia por inúmeros temas importantes, é sensível, poético e proporciona grandes momentos de reflexão. 
O tempo é implacável, chega sem se importar, mas como Antonia diz à bisneta que a questiona se existe um céu: "esta é a única dança que dançamos."

"As estações se repetiam, o tempo trouxe a vida de novo... e com completa satisfação produziu nada além de si mesmo."

terça-feira, 24 de maio de 2016

Anomalisa

"Anomalisa" (2015) dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson é uma animação densa e realista sobre a existência humana, os conflitos internos, as dores e a desesperança. Michael Stone (David Thewis) é um palestrante motivacional que acaba de chegar à cidade de Cincinnati. Ele segue do aeroporto direto para o hotel, onde entra em contato com um antigo caso para que possam se reencontrar. A iniciativa não dá certo, mas Michael logo se insinua para duas jovens que foram ao local justamente para ver a palestra que ele dará no dia seguinte. É quando ele conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona.
Michael vive numa rotina social completamente claustrofóbica, ele não enxerga as pessoas, pois todas são idênticas, não possuem nada de especial, o mesmo acontece para as vozes, independente de ser mulher, criança, homem, é sempre a mesma voz que ele ouve. Bem-sucedido autor de livros motivacionais, ele ensina seu método infalível para oferecer um serviço de atendimento ao cliente perfeito, garantindo o aumento da produtividade de uma empresa em até 90%. Michael viaja ensinando suas técnicas, mas com isso veio a tristeza em ter que lidar com pessoas sem personalidade e atrativos, a convivência humana é insuportável para ele. Tudo é banal e nada o satisfaz porque não há espontaneidade e originalidade em absolutamente ninguém que encontra.
No início o achamos um sujeito arrogante, mas conforme o desenrolar nos conectamos com seu drama e percebemos muito de nós mesmos nele. Michael Stone em meio a monotonia ouve uma voz diferente que o alegra, algo que o desperta, é Lisa, uma atendente de telemarketing que mistura ingenuidade, baixa auto-estima e bom humor, ela não é bonita ou realmente interessante, mas é diferente e isso basta. Apaixonado até pelos detalhes, a cicatriz perto do olho, a forma que ela se move e, principalmente, por sua voz, ele quer ouvi-la, inclusive a cena em que ela canta "Girls Just Want To Have Fun", de Cyndi Lauper é de uma sensibilidade única, os momentos iniciais da paixão são encantadores e até a cena de sexo emociona. Porém, passado esse encantamento Michael começa a perceber coisas em Lisa que o incomoda, e aos poucos a voz dela vai se perdendo e ganhando o tom que ele criou para todas as outras pessoas. Michael é um ser cansado que não faz questão de convívio, coloca todos no mesmo grupo de imbecis e dane-se, vive solitário, é áspero e não se sensibiliza com a emoção alheia. Por ser um filme em Stop Motion merece ser ressaltado quão real e denso ele é, retrata duramente questões existenciais, é lindo e triste ao mesmo tempo.

As ideias expostas ficam martelando em nossa mente, a complexidade dos relacionamentos, a forma superficial com que nos conectamos, o egoísmo em lidar com o outro, por muitas vezes fazemos igual ao Michael e colocamos todos num mesmo saco, a solidão acaba nos acompanhando, e por conseguinte, a insatisfação. No filme há uma referência a Síndrome de Fregoli, um transtorno psicológico em que o indivíduo acredita que as pessoas a sua volta são capazes de se disfarçar para se fazerem passar por outras.
"Anomalisa" nos faz pensar no que de fato nos torna especiais e diferentes dos demais, será que a personalidade e afinidades são capazes de manter o interesse de alguém, ou temos a necessidade de sempre buscar algo que nos surpreenda?

Na cultura do imediatismo sofremos cada vez mais com ansiedade, impaciência, frustrações e solidão, a felicidade costuma durar alguns segundos e logo espera-se por algo que substitua o que julgamos não servir mais. Por conta disso deixamos de enxergar as pessoas e também a nós mesmos, perdemos a consciência do que realmente vale a pena, somos levados por sentimentos mesquinhos e decadentes, não compartilhamos vida, sentimentos, somos parte de uma rotina mecânica que nos adoece. Todos que assistirem "Anomalisa" se identificará em algum momento com Michael Stone, e daí vem a reflexão do nosso comportamento perante a vida e aos outros.
Melancólico, delicado e realista, essa obra de Charlie Kaufman e Duke Johnson é uma joia rara da animação e merece todos os elogios. Uma baita produção!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Out of Nature (Mot Naturen)

“Mot Naturen” (2014) dirigido e protagonizado por Ole Giæver (Fjellet – 2011) é um filme introspectivo do qual retrata a viagem existencial de Martin, que desesperado por causa de seu cotidiano vai para às montanhas passar um fim de semana essencial e quase pueril. Mergulhamos dentro de seus pensamentos e partilhamos de seus sentimentos e fantasias.
O filme retrata de forma incrível o ser humano e o como pensamos. Martin é o clássico modelo de homem na sociedade, trabalhador, casado e pai de um menino, ele está claramente sufocado com sua vida e olha para seus colegas e esposa de modo distante, ele parece não se encaixar em nada. Martin não deseja sair para beber com os seus colegas de trabalho e nem passar o fim de semana com a família, então arranja suas coisas e vai para às montanhas, seus questionamentos passeiam por vários aspectos, desde os mais reflexivos, a divertidas, ou imaginativas situações. Martin é um cara comum, não é feito de qualidades apenas, como a maioria aparenta, por isso se sente desesperado e tenta se recuperar de tudo isso sozinho, longe da confusão cotidiana. Mas quando chega se pergunta se esta é a decisão certa, pois ele poderia estar junto de sua família, brincando com seu filho, do qual não é muito próximo, várias vezes seus pensamentos pairam sobre isso e Martin não sabe muito bem como ser pai. Vemos alguns flashbacks de quando era criança e sutilmente exemplifica um pouco de sua personalidade atual.
Seus sentimentos estão aprisionados, e na natureza ele pode dar vazão a eles e tenta compreender quem de fato é. Super interessante acompanhar o fluxo de sua consciência, suas alternâncias e confusões representam o quão o ser humano é complexo ao lidar com a rotina e com que lhe é basicamente programado. Martin nos conta em pensamentos o como conheceu sua esposa, ele fantasia possibilidades, como o divórcio ou até a morte dela. Estar consigo mesmo é algo difícil, quase sempre estamos rodeados de pessoas, de normas a gritar: Isto é assim e siga por aqui. Ir de encontro com que deseja se tornou praticamente impossível, todos estão a postos para lhe impor e te sufocarem com padrões. Martin nem sabe o que ele quer, está absorvido pelo mais do mesmo de sua vida e perdido tenta se localizar em meio as árvores, os rios e as montanhas. Nas palavras do diretor: “Para estar presente no mundo, antes é preciso estar presente em si mesmo”. Essa é a mais pura e essencial verdade.

O longa tem cenas lindíssimas, a câmera busca sempre detalhar não só o personagem como tudo que o circunda. Seus pensamentos entram em harmonia com a natureza. Martin vai em busca de sua própria natureza, um encontro consigo mesmo, avalia suas escolhas para assim poder seguir em frente. Nos identificamos com Martin e podemos observar que assim como ele somos muitos, o dia a dia nos limita a ser só um. Carregamos tantos sentimentos e o sentir-se aprisionado acaba sendo algo que inevitavelmente acontece. Também estamos em constante transformação, a cada experiência mudamos, mas para isso não se tornar confuso precisamos olhar para dentro e se perguntar e, principalmente se enxergar. 
“Mot Naturen” é delicioso de se assistir, tem uma dinâmica interessante, propõe ao espectador um tema reflexivo e traz momentos divertidos. É simples, porém genial!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Advantageous

“Advantageous” (2015) dirigido por Jennifer Phang é um filme melancólico que passeia por muitas questões existenciais. Em uma cidade no futuro próximo onde a opulência ofusca dificuldades econômicas, Gwen e sua filha, Jules, fazem tudo o que podem para manter a alegria, apesar de toda a instabilidade em volta do seu mundo.
Gwen (Jacqueline Kim – também roteirista) é mãe de Jules (Samantha Kim), uma menina de 13 anos muito inteligente. As duas tentam sobreviver em um mundo extremamente luxuoso e tecnológico. Somos apresentados a um futuro clean, mas mascarado, telefonemas e conferências são feitos através de hologramas e a estética nunca esteve tão em alta. Gwen trabalha em uma empresa que prima pela beleza e que antes de tudo ataca o psicológico das pessoas. Gwen já não representa mais o conceito da empresa, está envelhecida e não se encaixa nos padrões atuais. E, portanto o futuro de sua filha está em risco ao perder esse emprego. Interessante o conteúdo do longa, ainda mais por ter sido feito por mulheres, a visão em torno das pressões, seja elas estéticas ou morais. Gwen é mãe solteira, precisa trabalhar duro e lidar com o meio que diz que não há espaço pra ela, Jules é sua vida e é capaz de tudo para dar um futuro garantido a sua filha.
O futuro retratado não está muito longe de nossa atualidade, cada vez mais os trabalhos estão sendo automatizados e restrito a padrões, deixando muitas pessoas desempregadas e à margem. Invisíveis, a sociedade os engole com sua riqueza e tecnologia. Gwen acaba se sujeitando a um novo método, ainda em fase de experimentação, algo que a mudará completamente. Imensamente triste observar o quão dispostas as pessoas estão a se submeter a qualquer custo pela sobrevivência.
“Advantageous” pode parecer complicado de início, mas é uma crítica muito clara ao futuro que estamos a caminho. Um futuro em que seu valor será medido por características exteriores e que será possível apagar seu eu para poder ser outro. Os diálogos são lindos e reflexivos, o ritmo é lento, mas atrai a atenção, seu clima melancólico e angustiante exige que pensemos o meio em que vivemos, e as atuações coroam esse drama existencial. É um filme claro, apesar das metáforas. Uma bela surpresa, e para quem curte ficção científica é um exemplar diferenciado e sensível.

Em vários momentos Jules questiona porque e pra quê existe, a questão da reprodução é colocada em pauta sutilmente. Os seres humanos se baseiam em sentimentos egoístas em relação ao assunto, "eu quero porque cuidará de mim", "porque eu desejo ser melhor", "isso irá mudar minha vida", mas não se dão conta que se está colocando um ser humano no mundo que sentirá por si só as coisas. Engravidar é uma falsa obrigação moral para a mulher, desde criança cuidamos de bonecas e entendemos isso como instintivo, quando na verdade não é. Para mim é um crime colocar um ser neste planeta cada vez mais desigual, violento e repleto de ignorância. O filme entra nesta questão social, mas como já disse sutilmente, Gwen ama tanto sua filha e teme tanto por seu futuro que se submete a algo que não melhorará, mas piorará a situação da menina. O filme pode ser encarado de forma depressiva e até pessimista, mas serve para levantar questões que a todo o tempo somos confrontados, especialmente às mulheres. 
“Advantageous” é silencioso e incrível ao passar amplamente pontos tão significativos. Ao encarar esse futuro que o filme nos oferece vemos como num espelho nossa atualidade. Tudo que merece valor é subjugado. A pobreza é invisível enquanto os meios de comunicação exaltam padrões criando assim infelicidade e insatisfação. A sociedade acaba doente e o mundo se torna trágico. É um filme independente muito bem realizado que suscita discussões importantes. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Human

"Human" (2015) dirigido pelo fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, criador da série fotográfica "Earth from Above", que vendeu 4 milhões de livros, e pela direção e co-produção do filme "Home", assistido por 600 milhões de pessoas. Em  setembro de 2015 lançou seu novo documentário: "Human", um retrato sensível sobre a Terra e seus habitantes. Foram 3 anos de filmagem e mais de 2.000 entrevistas em 60 países. É um trabalho extremamente lindo que capta emoções e que demonstra que somos únicos. São diversas culturas, histórias e olhares que fazem com que compreendamos o outro. Os assuntos variam entre amor, felicidade, superação, dor, guerra, morte, pobreza versus riqueza e o sentido da vida. Vivemos sem perceber o outro e não pensamos duas vezes em julgar, esse é um documentário essencial para que lembremos o que significa "ser humano". Em intervalos somos presenteados com belíssimas imagens aéreas ao redor do mundo, é mostrado o Quênia, Nepal, Paquistão, Mongólia, Madagascar, Bolívia, República Dominicana, Haiti, USA, França, entre outros, e tudo acompanhado por uma trilha sonora transcendental criada por Armand Amar que ajuda imensamente refletir sobre o que vemos, proporciona uma interiorização bem significativa.
"Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme". (Yann Arthus-Bertrand)

O que nos torna humanos?
A primeira parte se concentra na questão do amor, dor e status social, são visões diferentes e interessantes. Acompanhamos histórias de amor, o amor que cuida, mas também o amor que machuca, as distorções acerca do sentimento que, afinal todos nós buscamos, porque não suportamos estar sós no mundo.
Relatos sobre a pressão e a exaustão do trabalho, dores físicas e psicológicas, a vida que se resume em se levantar e trabalhar, sacrifícios para sustentar a família, esforços que tiram a força e anulam uma vida. A diferença de classes também é mostrado como nesse depoimento: "O que é pobreza para mim? É quando eu preciso ir para à escola, mas não posso ir. Quando preciso comer, mas não posso. Quando preciso dormir, mas não posso. Quando minha esposa e meus filhos sofrem. Não tenho o nível intelectual necessário para sair dessa situação. Nem eu, nem minha família. Eu me sinto realmente pobre. No corpo e na mente. E vocês ricos que estão me ouvindo, o que têm a dizer sobre sua riqueza?"

Em vários momentos percebe-se que a riqueza dá liberdade de adquirir, mas torna as pessoas incapazes de esbanjar sentimentos, e que a pobreza dá as pessoas uma riqueza impossível de ser comprada por dinheiro. Há um depoimento bem marcante de um aborígene que diz assim: "Das pessoas mais generosas que conheço, algumas não têm dinheiro. E deve ser assim. Quando não se tem dinheiro, vive-se de outra forma. Os anciões por exemplo... Nossa língua não tem palavras para dizer 'por favor' ou 'obrigado', porque se espera que compartilhemos e demos o que temos. Hoje temos de dizer 'por favor' e 'obrigado', temos de implorar. Antigamente era normal compartilhar tudo. Fazia parte de nossa identidade. E não só para os aborígenes, eu imagino que no mundo todo fazia-se a mesma coisa antes do dinheiro. Mas agora é: 'Isso é meu', tem palavras como 'meu', não se compartilha mais nada. E virou. Isso nos mata como seres humanos, como sociedade, como raça. Quando digo 'raça', refiro-me à raça humana. Negamos abrigo aos outros, negamos comida, negamos a sobrevivência somente por causa do dinheiro."
Também contém uma entrevista com o ex-presidente do Uruguai José Mujica, um grande ser humano que exemplifica bem a questão da sobriedade, em se ter apenas o necessário, pois o que se gasta na verdade é o nosso tempo de vida, porque quando compramos algo pagamos com o tempo de vida que gastamos para conseguir o dinheiro, e a vida é a única coisa que não se pode comprar. 

A segunda parte reflete sobre homossexualidade, guerra, família e morte. Impressionante são as histórias vivenciadas por conta da guerra, vidas destruídas, seja pela perda de familiares ou de si mesmos, há aqueles que se modificaram como pessoa, que jamais viverão sem se lembrar do que passaram, pois viram e sentiram o gosto amargo da violência, mas alguns desejam vingança e outros que gostaram da sensação de matar. Um trecho bem significativo é de um cara que diz que todos querem saber como é a guerra, mas ninguém se preocupa em perguntar como ele está se sentindo. Angustiante e pesado vemos crianças preparadas para a guerra, pois se tornou um estado normal em muitos lugares. As pessoas estão realmente cansadas desse tipo de vida. Todos se despem perante a câmera e confiam a nós pedaços de suas vidas, somos arrebatados por tantas emoções, sorrisos, sofrimentos, lamentações e súplicas que fica difícil não derramar lágrimas e perceber que por mais que sejamos diferentes queremos o mesmo, viver dignamente e ser o que somos!
A homossexualidade também faz parte desse emaranhado de histórias e acompanhamos fortes depoimentos, de quem não se aceita, de quem não é aceitado, ou aqueles que receberam todo o apoio dos pais, o fato é que muitas pessoas creem que ser homossexual é uma opção, não acreditam que isso faça parte da pessoa como qualquer outro traço de personalidade. Como dito: "Você é gay? E daí?", esse 'e daí' faz tanta falta e é tão óbvio.

Da morte não falamos, principalmente em nossa cultura, temos medo do fim, quando na verdade o que precisamos é falar para pelo menos entender um pouco que estar vivo é algo maravilhoso. Aceitar que o corpo vai embora, mas os momentos vividos ficam, não tem como lutar contra isso. Seja com humor: "Depois da morte não tem mais nada. Vamos dar risada. Vamos para o céu, mas não pegamos o caminho certo. Embaixo da terra, não vai dar no céu. Não é o caminho certo. Eu não acho que exista vida após a morte. Eu não acredito nisso", ou com sabedoria: "Não tenho medo de morrer. Não sei se Deus existe ou não, mas prefiro acreditar. E quando olho para o universo, espero que nosso espírito vá para algum lugar, onde nos reconheçamos uns aos outros. Além dos meus pais, eu adoraria rever meu melhor amigo Shaunie, que morreu quando tinha 21 anos. Eu adoraria passar tempo com ele, viajando de carona pelo céu, como fazíamos aqui na Terra quando éramos jovens. Também adoraria encontrar todas as pessoas maravilhosas que tentaram tornar o mundo melhor e trabalharam pela justiça e pela paz no mundo. Para mim, isso é o mais importante. E quando analisamos as grandes religiões, filosofias e ideologias, e tentamos simplificar dogmas e teologias complexos, tudo se resume ao amor. Então espero que meu espírito seja levado para um grande balé e uma grande dança cósmica de amor, onde não haja mais sofrimento nem tristeza. Onde não possamos mais magoar ou ser magoados. E onde possamos realmente celebrar o grande dom da consciência, o grande dom de ser, o grande dom da vida. E se, afinal, Deus não existir, ainda sou grato pelo dom da vida. Sempre penso... que as últimas palavras que gostaria de dizer antes de morrer são: "Obrigado. Obrigado pelo dom da vida". 

A terceira parte diz sobre felicidade, educação, corrupção e o sentido da vida. É incrível observar que para cada um a felicidade significa uma coisa, para muitos está em suprir as necessidades básicas, ou poder se satisfazer com miudezas, compartilhar momentos, adquirir bens materiais, ver um sorriso no rosto do filho, se aceitar, colher o que plantou, acordar pela manhã e estar vivo.
A importância da educação é evidenciada, as crianças que vivem em lugares que sempre estão em conflito e que ir pra escola é difícil, nutrem a esperança de que com a educação as pessoas se livrariam da ignorância e perceberiam que a guerra é inútil. São olhares tristes, mas esperançosos. A imagem do professor é poderosa, eles podem mudar o destino de muitos. A deficiência é outro tema abordado, a dificuldade de viver em sociedade, dos obstáculos a ser ultrapassados, das estigmatizações e esteriótipos. 

Nos tornamos humanos quando somos capazes de sentir a dor do outro, quando conseguimos adentrar no ser de outra pessoa e sentimos vontade de fazer algo para que essa dor se amenize. Viver com dignidade, essa é a questão que fica pairando, ainda mais quando o tema imigração vem à tona, o caos, a desumanidade é tão grande que é insuportável. 
E afinal, qual a finalidade de existir, se não fizermos nada valioso simplesmente nossa vida não terá sentido? É aterrador pensar que estamos aqui e apenas sobrevivendo, esquecendo-se de que somos importantes e que tudo é tão amplo e repleto de possibilidades. Um dos depoimentos mais lindos sobre isso é de um brasileiro, com verdade e sutileza ele diz: "A vida é como carregar uma mensagem da criança que você foi um dia para o velho que você vai ser amanhã. E tentar não deixar essa mensagem se perder, se desfazer. Muitas vezes me pergunto sobre isso, porque quando eu era criança eu pensava tantas coisas bonitas. 'Nossa! Eu quero um mundo sem mendigos, todo mundo feliz'. Coisas tão simples e sutis. Mas a gente perde isso, a vida faz a gente perder. Daqui a pouco só trabalhamos para poder comprar coisas e não tá nem aí pro mendigo, não ajuda ninguém. Aí cadê aquela mensagem da criança? Talvez o sentido da vida seja não deixar essa mensagem da criança desaparecer."

"Human" é um documentário enriquecedor que nos proporciona ampliar o olhar perante o outro, entender que cada ser humano é um mundo e que devemos respeitar, porque queremos que seja assim conosco. "Fazemos parte do 'todo humano', somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios". Essa frase do escritor Khaled Hosseini se encaixa perfeitamente na aura do filme.
Por fim, assistam "Human", uma obra imprescindível capaz de nos modificar. Em tempos em que o amor ao próximo se tornou algo raro, é ainda mais válido!

Dividido em 3 partes de 90 min, está disponível no Youtube.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron)

"Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência" fecha a trilogia "sobre ser um ser humano" de Roy Andersson, e mais uma vez ele fez a proeza de analisar a espécie humana de fora, consequentemente refletimos sobre toda a estupidez que permeia nossa vida. O primeiro "Canções do Segundo Andar" (2000), continua sendo meu favorito, talvez pelo impacto da narrativa e seus simbolismos ao retratar a morte da cultura e o humor negro em relação a nós humanos em não ter mais tempo de sentar, ouvir e pensar diferente. O segundo "Vocês, os Vivos" (2007), é ainda mais irônico e ridiculariza certas ações das quais nós nem percebemos que fazemos no dia a dia, todas praticamente sem sentido, mas que continuamos a fazer para a engrenagem seguir funcionando. A comédia é inserida em todos os seus filmes, porém não é nada convencional, rimos mas logo percebemos que estamos rindo de nós mesmos. O terceiro segue dois homens – um vendedor ambulante e um homem com um ligeiro distúrbio mental. Pelo filme afora vamos assistindo às explicações do vendedor de como a sociedade realmente é. O longa é baseado num detalhe (os pássaros pousados em galhos) de um famoso trabalho a óleo de Pieter Brueghel, intitulado "Os Caçadores na Neve".
Se a existência for analisada de muito perto ela se torna insustentável, por isso o distanciamento se faz necessário, o absurdo está praticamente em tudo, como no cotidiano tedioso de empregos escrotos, de pessoas que não se interessam pelo outro verdadeiramente e que apenas os usam conforme vão precisando. A aparência dos personagens segue o padrão dos outros longas anteriores, todos pálidos, lentos e quase sem vida. Completamente melancólicos, os dois protagonistas vendem objetos que dizem alegrar pessoas, eles garantem o riso, o que torna tudo ainda mais engraçado é o fato de que tanto os objetos como eles próprios são inúteis. Tomar consciência da sua existência é uma das coisas mais desesperadoras, um dos escapes dos personagens é a bebida, cenas no bar são uma constante. Em dado momento um deles diz: "O que seria da vida se não tomássemos umas?"
A narrativa não tem linearidade, são cenas aleatórias que alternam personagens e situações, algumas bem difíceis de decifrar, mas que propõem o que o próprio título explica, a câmera sempre está estática, mas há grande movimentação de personagens, principalmente aqueles que estão ao fundo. Muitas coisas se passam na tela, desde bobagens cotidianas a grandes tragédias, incluindo a guerra, massacres e o poder que alguns seres acreditam ter sobre outros. Simbolismos vão e vêm, repetem-se conforme o desenrolar, um deles é a frase sempre dita ao telefone: "Fico feliz que esteja tudo bem". Frases que costumamos articular no automático sem se preocupar em sua veracidade, por exemplo quando perguntamos se está tudo bem a alguém, sendo que nem queremos saber a resposta. Não importa, são apenas convencionalidades, infelizmente.

Antes que o título te seduza é preciso saber que se está diante de um filme existencialista e filosófico, para quem não tem o hábito de assistir obras com narrativas diferenciadas não irá gostar, tudo nele é estranho, agora quem curte experimentar e aprecia este estilo de cinema vá sem medo. É um estudo crítico e cômico ou ainda trágico sobre os seres humanos. Diversas interpretações podem ser dadas, é subjetivo e particular, algumas passagens refletem o quanto estamos deslocados no mundo, apenas percorrendo pelos dias sem nem mesmo saber se é quarta ou quinta. Nos conectamos com a história de acordo com as situações que se assemelham a nossa própria vida. Vale ressaltar seu prólogo que retrata três mortes e que até mesmo aí o ser humano é capaz de ser absurdo e sem sentido.

"Um Pombo Pousou..." observa o ser humano em momentos cotidianos, o como ele acontece na vida e o que a vida representa para ele. Mesmo tendo um tema pesado e até medonho, pois muitas pessoas evitam pensar literalmente em suas vidas e no seu inevitável fim, tudo é conduzido com um peculiar bom humor, rimos das situações, mas logo o sorriso se afrouxa e lembramos que também fazemos parte deste grande teatro chamado vida.