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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
Ruído Branco (White Noise)
"Ruído Branco" (2022) dirigido por Noah Baumbach (Mistress America - 2015), adaptação da obra-prima de Don DeLillo é um filme ousado que acaba soando estranho e caótico, mas é um estilo de história que agrada um público voraz que não se importa com narrativas difusas e divagações filosóficas acerca do entorno, uma mistura ácida, absurda por vezes, mas que traz um conjunto de ideias maravilhosas para debater após a sessão.
Difícil traçar uma sinopse, pois é uma obra em movimento, pode parecer que não vai para lugar algum, só que ela norteia o assunto e o restante o espectador decide o que fazer com a informação. Jack Gladney (Adam Driver) é um professor universitário de meia-idade especialista em Hitler que se sente frustrado por não saber alemão, ele vive com sua quarta esposa Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos, alguns de casamentos anteriores, é uma família comum que de repente é abalada por um "evento tóxico", uma nuvem de fumaça no horizonte transforma a vida da família que inicialmente se recusa a acreditar na veracidade dos fatos, mas a história não se prende nessa catástrofe, se passa algumas situações engraçadas ou absurdas e logo os vemos novamente vivendo como antes, certamente o paralelo com a pandemia é óbvio e daí pode-se viajar nas ideias, como o negacionismo e o autoengano, e é a partir dessa quebra de normalidade que começamos a perceber o drama existencial de cada um na tela, mas de maneira conturbada e até incômoda, gera ansiedade, pois nem tudo está conectado, são assuntos diferentes que não são aprimorados, tem que isolá-los ou focar naquele que mais te contamine.
A trama se passa na década de 80 e é extremamente atual todos os pontos exibidos, como o academicismo com sua verborragia e altivez, além da frustração e autodepreciação, o tédio do privilégio, a depressão e a consciência dramática da própria finitude, o encucamento com coisas abstratas que levam à obsessão, o espetáculo do consumismo com o supermercado sendo uma distração com suas paletas de cores, o vício em ansiolíticos, o fetiche em desastres, teorias da conspiração, entre tantas outras.
"A família é o berço da desinformação do mundo."
"Ruído Branco" é provocador, irônico, exagerado, esquisito, mas em alguma questão certamente o filme vai alfinetar o espectador, a espiral que o roteiro faz é uma experiência que atordoa, são situações cotidianas evidenciadas com a lupa do absurdo.
O humor do longa de Baumbach é controverso e vem acompanhado de desespero, a realidade é assustadora e o autoengano faz parte do mecanismo para a sobrevivência das avalanches ocasionadas dia a dia, daí também parte para os vícios, sejam eles dos mais variados para estar num lugar mais confortável.
Filosofia afiada com altas doses de humor por vezes irritante e ridículo e outras sombrio e sarcástico, encarar a realidade e o entorno é um exercício cruel e indigesto, o filme faz isso muito bem e talvez não agrade exatamente por esse motivo, o som que vem dele é desarmônico e bastante desagradável.
*Disponível no catálogo da Netflix!
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
O Pintassilgo (The Goldfinch)
"O Pintassilgo" (2019) dirigido por John Crowley (Brooklin - 2015) é a adaptação do romance homônimo da escritora Donna Tartt, ganhador do prêmio Pulitzer de 2014, uma obra cuja narrativa intriga e exala melancolia com seus personagens enredados pelas casualidades do destino, as experiências vividas estimulam pensamentos sobre o como os acontecimentos vão nos moldando e nos transportando para lugares que nunca havíamos pensado estar. A adaptação para o cinema causou uma divisão de opiniões e muitos o têm classificado como um filme de estilo clássico com ótimos elementos, mas que não soube atrair a atenção como um todo, soa confuso e arrastado, além de ser a maior bomba de bilheteria do ano, isso tudo não significa que o longa seja ruim, existe uma clara falta de interesse no mercado de adaptações literárias, o calhamaço de Donna Tartt possui uma história reflexiva, não linear e triste, sua escrita aparentemente complexa estimula com tantos detalhes e sentimentos esmiuçados, um clássico instantâneo que atinge um bom bocado de pessoas, mas não o suficiente para o tornar tão popular.
"O Pintassilgo" é uma história que retrata traumas, perdas, tristeza, culpa, memórias, redenção e também amor, um acontecimento trágico marca a vida do pequeno Theo e suas decisões nesse instante o moldará dali para frente, as pequenas camadas vão sutilmente sendo apresentadas e mergulhamos profundo em suas emoções. Um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, modifica para sempre a vida do jovem Theodore Decker (Oakes Fegley). Além de sua mãe falecer no evento, ele é incentivado por um desconhecido a levar consigo um quadro lá exposto, O Pintassilgo, além de um anel com o brasão de sua família. Nos dias seguintes Theo recebe o abrigo da sra. Barbour (Nicole Kidman) e, ao pesquisar sobre o brasão, conhece Hobie (Jeffrey Wright), um vendedor de antiguidades que agora é o tutor de Pippa (Aimee Laurence), filha do homem desconhecido, que também estava no museu no momento do atentado. Tal encontro modifica para sempre a vida do garoto, seja por seu interesse no mercado de antiguidades ou mesmo pela paixão que nutre pela jovem.
Completamente fiel ao livro, tanto na narrativa como na ambientação melancólica e cenários reproduzidos, assim como a caracterização dos personagens e a intensidade das relações e suas sutilezas, como olhares e gestos, também a fotografia e trilha sonora somam para intensificar as sensações, não é simples adaptar uma obra que passeia por várias fases da vida, ainda mais de forma não tradicional, é um longa que soube valorizar a narrativa e extrair o máximo de detalhes importantes de todo o contexto, claro que obviamente só lendo para perceber a grandiosidade, mas a essência está presente.
Muitas partes marcam e ficam ecoando, vamos acompanhando toda a trajetória de Theo, a perda da mãe, a culpa o corroendo, o quadro que guarda e mantém em segredo - uma forma de resgatar a memória da mãe, a adaptação na casa dos Barbour, o aprendizado com Hobie, que o faz se apaixonar por antiguidades, o amor por Pippa o enredando nisso tudo; o retorno do pai, a ida para o Texas, a amizade com Boris - ponto crucial de sua formação de caráter, seu vício em drogas e as reviravoltas da vida que vão o tragando para um lugar decadente e solitário.
"Não escolhemos o nosso coração. Não podemos obrigar-nos a querer o que é bom para nós ou o que é bom para as outras pessoas. Não escolhemos a pessoa que somos."
Há bastante drama, porém o suspense permeia por todo o desenrolar, afinal o quadro, o Pintassilgo do artista holandês Carel Fabritius, que faleceu numa explosão aos 32 anos e cuja pintura foi uma das doze que sobreviveram a esse evento faz um paralelo e conversa com a história de Theo intermeando pensamentos acerca da arte e vida num conjunto de reflexões filosóficas muito bonitas.
"O Pintassilgo" é um filme requintado de atmosfera misteriosa e narrativamente denso, promove um olhar sensível para a construção de caráter e amadurecimento do protagonista guiando-nos por caminhos tortuosos, conflitantes e apaixonantes.
"Que a vida - para além do mais que possa ser - é curta. Que o destino é cruel e talvez não aleatório. Que a Natureza (ou seja, a Morte) ganha sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos de lhe baixar a cabeça e a bajular..."
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Em Busca de Watership Down (Watership Down) Minissérie
"Em Busca de Watership Down" (2018) dirigido por Noam Murro é uma minissérie animada coproduzida pela BBC e Netflix. Baseada no clássico romance homônimo de 1972 de Richard Adams essa adaptação optou por uma abordagem amena para que atinja mais público, com certeza a violência fez falta, mas a história é tão grandiosa e tão cheia de camadas que é impossível não se hipnotizar pelas aventuras das quais o bando de coelhos enfrenta. O livro é uma obra-prima pela sua profundidade em exibir a vida selvagem dos coelhos com todos os obstáculos e inimigos, muitos temas estão envoltos e mesmo sem querer faz incríveis alegorias. O filme de 1978 também é marcante por recriar esse universo sem floreios expondo cenas violentas e de melancolia, um clássico absoluto, assim como o livro que se faz necessário para qualquer leitor.
Confira a resenha de ambos aqui.
Situada numa idílica paisagem rural do sul da Inglaterra, a aventura baseada no romance de Richard Adams acompanha a jornada de um bando de coelhos por um novo lar após a destruição de seu habitat. Liderados por um par de irmãos valentes, eles saem de sua terra nativa em Sandleford Warren e enfrentam provações angustiantes, bem como predadores e outros adversários, em rumo a uma terra prometida, com uma sociedade perfeita.
Com uma abordagem mais leve em questão da agressividade e até o tom de medo que permeia a obra acaba sendo mais palatável e consegue abranger todos os públicos, mas isso não tira o mérito da produção que organizou a história muito bem, claro que condensada, pois o livro é imensamente detalhista, porém não tem o que dizer sobre a fidelidade do enredo e sobre a personalidade dos personagens, o desenvolvimento dos principais, como Hazel (James McAvoy), Fiver (Nicholas Hoult), Bigwig (John Boyega), Holly (Freddie Fox), Clover (Gemma Arterton), Hyzenthlay (Anne-Marie Duff), consegue traduzir boa parte das sensações que cada um sente, os receios, a coragem, o instinto e a união. Os demais não são tão explorados e outro que fica de lado é a gaivota Kehaar, que tem bastante importância na trama e que dá um tom sarcástico e que revela uma amizade inesperada. Outro ponto a ser referido é a computação gráfica que não é das melhores, a estética realista deixa a desejar, só que o roteiro é tão poderoso que isso soa pequeno e insignificante, a jornada dos coelhos começa quando Fiver prevê a destruição da coelheira, ele e seu irmão conseguem juntar mais alguns coelhos para começar a procurar um lugar seguro, a mitologia envolvendo a criação da espécie é colocada em um rápido prólogo e durante alguns pontos da narrativa surgem mínimas referências tanto a El-Ahrairah como o Coelho Negro, Hazel sofre por ter que liderar o grupo e inspirar confiança, já que o destino é incerto e muito perigoso, com o passar do tempo Fiver vai tendo novas visões que indicam o caminho para Watership Down, mas inúmeras situações se passam que tanto servem para fortalecer a amizade como para surgir mais medo e desconfianças, eles encontram um viveiro com coelhos conformados pelo fim que os espera e a terrível Efrafa comandada pelo General Woundwort (Ben Kingsley), um enorme coelho que domina um exército e mantém um outro grande número aprisionados.
Há muitos temas envoltos, como hierarquia social, confiança, companheirismo, religião, sacrifício, amizade, destruição da natureza, assim metáforas e simbolismos acabam se formando e, por consequência, grandes reflexões surgem. Crítica social, política, ambiental e religiosa em uma animação de aventura hipnotizante em que a vida selvagem é explorada sob um ponto de vista cru e melancólico. Há um ar de tristeza e indecisão, o medo é recorrente e a natureza é quase sempre opressiva.
"Talvez alguns humanos entendam que todas as coisas vivas sofrem e merecem respeito"
"Em Busca de Watership Down" consegue conservar a essência da história mesmo com uma abordagem branda, aqui não há sangue e pedaços de orelhas sendo arrancadas, mas há sempre a tensão no ar e a sugestão da violência, a jornada dos coelhos é repleta de emoção, imergimos e ficamos apreensivos a cada aventura, uma produção que apesar de carecer de um visual melhor possui um roteiro que se sustenta, uma obra imprescindível e atemporal que merece sempre ser revisitada.
Não deixe de conferir, está disponível na Netflix!
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quinta-feira, 30 de agosto de 2018
O Autor (El Autor)
"O Autor" (2017) dirigido por Manuel Martín Cuenca (Canibal - 2013) é uma adaptação de uma história do escritor Javier Cercas, que retrata a saga de um homem comum, mas ambicioso que busca inspiração para escrever um livro de alta literatura, só que por mais que tente nada o ajuda a criar, o fracasso insiste em acompanhá-lo. Da onde surgem as inspirações? Será que são epifanias em momentos de ócio ou os estudos e ler continuamente ajuda na elaboração? Como saber se o que está escrevendo é original e não fruto de algo que tenha lido ou ouvido? Por isso, a realidade é muitas vezes usada para inspirar escritores, os passantes e suas angústias secretas, uma gama de possibilidades que atraem qualquer mente criativa, e é por aí que o protagonista começa a desenvolver seu livro, só que ao invés de apenas observar faz dos seus personagens peças num tabuleiro, manipulando-as como bem quer sem se importar, ele espia, se intromete e obsessivamente as leva para o destino que sua história pede.
Álvaro (Javier Gutiérrez) sonha em ser escritor, de alta literatura, não um picareta como o escritor de bestsellers que sua esposa Amanda (María León) gosta. Quando ele encontra a mulher o traindo, ele decide largá-la e sair do emprego para tentar alcançar seu sonho. Ele começa a provocar conflitos reais para então poder escrever sobre eles, mas ele é a principal vítima dos seus atos.
O filme mistura uma sutil sátira ao drama do protagonista que anseia obstinadamente escrever seu livro, mas não qualquer um, como os de sua esposa (María León), uma escritora de bestsellers adorada, ele claramente tem inveja de seu sucesso e sua escalada no meio, mas fecha-se nessa bolha de alta literatura, a narrativa brinca com a questão do processo de criação e se o talento é inerente ou se pode ser adquirido, Álvaro faz um curso para aprimorar técnicas de escrita e se apequena diante a sua jovial e bela mulher que está nos holofotes, até que ele vê ela o traindo e sem manifestar nenhuma emoção vai embora para outro lugar, se acomoda num apartamento onde coloca sua mesa, computador e cadeira num absoluto branco, tal qual uma página, e o emprego é praticamente esquecido, decidido tem certeza que escreverá. Ele é um sujeito comum, sem muitos atrativos e quando lê em voz alta seu conto para o professor, vivido pelo excelente Antonio de la Torre, este o coloca no chão criticando seu modo americanizado e repleto de soluções fáceis, ele diz coisas terríveis a Álvaro, que se não fosse pela sua obsessão cega certamente teria esquecido a ideia de escrever um livro. Mas ele reúne algumas falas do professor em sua mente e inicia sua busca por inspiração no cotidiano, utilizando as pessoas do seu prédio como personagens e suas vidas como enredo, mas ele não se contenta em apenas observar para então criar, ele quer de fato saber o que acontece dentro dos apartamentos, daí começa a gravar com seu celular as conversas do casal de mexicanos ao lado, seduz a síndica com o interesse de saber mais sobre os outros moradores, aliás, Adelfa Calvo é incrível em cena, principalmente quando canta com paixão, coisa que Álvaro não possui, ele não demonstra paixão pelo que está fazendo, parece que vive dentro de um sonho egoísta.
Seu livro vai tomando forma à medida que descobre sobre alguns moradores, os vai moldando a partir das fofocas retiradas da síndica em troca de noites de amor, vai se infiltrando em suas vidas, mentindo e articulando para que coisas ocorram e dessa forma sua história ganhar corpo, só que ele não tem limites e não se interessa pelo ser humano em si, ele manipula e despreza, provoca conflitos, e nessa sua loucura não contou que talvez algo pudesse dar errado, que seus personagens de carne e osso se voltariam contra ele. Uma reviravolta que não cogitou em momento algum.
"O Autor" é um exemplar original que mescla ironia e sensibilidade, retrata um homem comum e sem brilho, até aí tudo bem, na maior parte todos somos, mas ele alimenta sentimentos como inveja, indiferença, arrogância, prepotência, ou seja, nada aberto para inspirações, por isso nunca consegue concluir seu sonho, pois é medíocre e pensa que está acima dos outros, quando na verdade, está à sombra, sempre acariciando o fracasso. Seu desfecho é um tanto desapegado aos clichês e para quem procura por filmes diferenciados dentro do catálogo da Netflix é uma boa opção!
terça-feira, 28 de agosto de 2018
A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society)
"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" (2018) dirigido por Mike Newell (O Amor nos Tempos do Cólera - 2007), baseado na obra homônima de Annie Barrows e Mary Ann Shaffer, retrata o poder dos livros em unir as pessoas e o como as histórias conseguem abraçá-las em suas solidões, a afinidade criada a partir da literatura enquanto o caos reinava é o mote principal e em seguida conhecemos uma outra parte, que também sofreu perdas por conta da guerra e que através do destino se uniu a essa família.
Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. O clube, criado antes de existir de fato, foi formado de improviso, como um álibi para proteger seus membros dos alemães. O que nenhum dos integrantes da Sociedade imaginava era que os encontros pudessem trazer consolo e esperança e, principalmente, auxiliar a manter a mente sadia. As reflexões e as discussões a respeito das obras os livraram dos pensamentos sobre as dificuldades que enfrentavam.
Juliet é uma escritora em ascensão, apesar de estar sendo reconhecida pelo seu segundo livro, seu maior orgulho é o primeiro livro, uma biografia crítica de Anne Brontë, a guerra também levou parte de si, ela perdeu os pais, mas segue firme e busca inspiração para seu novo livro, e é através de algumas cartas trocadas com um desconhecido que a encontra, Dawsey Adams (Michiel Huisman) pede auxílio sobre um exemplar de contos infantis de Shakespeare de Charles e Mary Lamb, Juliet entusiasmada com a história da Sociedade descrita por Dawsey lhe dá o livro de presente e logo se convida para conhecê-los, Juliet arruma as malas e no dia de sua partida seu noivo Mark (Glen Powell), a pede em casamento e coloca um anel em seu dedo, ela aceita e vai em busca do que seria seu próximo livro, porém não é bem isso que acontece, ao chegar lá todos a recebem bem, mas existem coisas das quais só pertencem a eles, segredos e tristezas que só essa família formada a partir da dificuldade e do amor aos livros entendem.
O que se sucede é que Juliet se torna uma curiosa compulsiva e acaba até irritando com tantas perguntas, faltou um pouco de sensibilidade e delicadeza, talvez pela preocupação da personagem em escrever seu próximo livro a fez se comportar assim. Com o passar do tempo o convívio e a experiência do lugar a fez se sentir como se fosse parte deles, mas esse sentimento dela não é tão natural, pelo menos não transpassa desse modo ao espectador. A motivação e o elo que ela forma com todos ali não causa empatia, o que salta aos olhos são outros personagens, que infelizmente não são tão bem explorados, como a maravilhosa Isola (Katherine Parkinson), que confecciona seu próprio gim e se torna uma companheira para Juliet, ela é dona de cenas inspiradas, alegres, mas que contém grande melancolia, o gentil Eben Ramsey (Tom Courtenay) e outro que pouco aparece e que gera interesse é o editor de Juliet, interpretado pelo ótimo Matthew Goode.
Os traumas da guerra, o amor à literatura, o reconhecer-se no outro, são temas que são abordados com carinho e uma pitada de bom humor, somos introduzidos ao horror que eles vivenciaram, escolhas que tomaram, como o caso de Elizabeth (Jessica Brown Findlay) tida como uma filha para Amelia (Penelope Wilton), que é atormentada pelas perdas, Juliet vai a fundo e de pouco a pouco descobre o que aconteceu com Elizabeth e decide que o que escreverá sobre eles não será publicado.
O filme é um pouco longo e perde o ritmo em algumas partes, mas possui cenas dotadas de sensibilidade, conversas afetuosas e tomadas espetaculares da natureza do local, a fotografia é linda e exuberante, um verdadeiro deslumbre.
"Nosso clube do livro nas sextas à noite se tornou nosso refúgio. É uma liberdade particular perceber que o mundo se torna cada vez mais escuro à sua volta, mas que só é necessária uma vela para enxergarmos novos mundos se revelando. Foi isso que encontramos na nossa sociedade."
"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" tem seus enfeites, mas no todo é um filme delicado que tem no vínculo da amizade e na admiração pelos demais seu maior triunfo, o romance fica em segundo plano e se concentra lá pelo final, mas não anula o que importa, a inspiração da figura feminina, Elizabeth e sua determinação, suas escolhas em tempos tão terríveis, a exaltação à literatura e o poder dos livros em unir as pessoas, no aconchego das histórias, nos aprendizados e na riqueza que elas proporcionam.
Destaque para os personagens do clube da casca de batata, principalmente, Eben, o criador da torta, Isola e suas especiarias para fazer seu gim e os debates acalorados sobre os livros, e o bônus dos créditos finais em que recitam trechos de algumas obras, como "Ao Farol", de Virgínia Woolf, "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson, "A Tempestade", de Shakespeare, "Jane Eyre", de Charlotte Brontë e "A importância de ser Fiel", de Oscar Wilde.
Disponível no catálogo da Netflix!
segunda-feira, 30 de julho de 2018
Severina
"(…) as vidas dos indivíduos consistem em certas coisas classificáveis, divididas entre as reais, que são raras e valiosas; as simples, que são ordinárias e normais; e as fantasmas, ou ‘névoas’ — como febre, dor de dente, terríveis decepções…"
"Severina" (2017) dirigido por Felipe Hirsch (Insolação - 2010), baseado na obra do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa é um filme brasileiro/uruguaio delicado e imersivo, um exercício metalinguístico sedutor e que consegue captar perfeitamente a atmosfera literária. Melancólico, agradável, um delírio fascinante que traz um sabor amargo e ao mesmo tempo prazeroso.
Dono de livraria (Javier Drolas) se encanta com uma mulher (Carla Quevedo) que visita sua loja e volta dia após dia para cometer furtos. Inicialmente ele não reage, mas numa das vezes, mais interessado em puxar conversa do que recuperar o prejuízo, ele a encurrala. Ela passa então a pegar livros em outros estabelecimentos, porém ele não está disposto a se libertar da misteriosa obsessão.
Somos introduzidos a um ambiente dominado por um ar literário, as ruas clássicas de Montevidéu repleta de sebos, prédios antigos, um charme romântico único, a fotografia escura acentua o clima de elegância e melancolia. Dividido em capítulos, a narrativa flui exatamente como se estivéssemos lendo um livro, as cenas são páginas que mesclam realidade aos devaneios do protagonista que se apaixona de forma obsessiva por uma moça misteriosa que entra em sua livraria e rouba livros, o livreiro consumido pelo tédio e que sonha em escrever um romance vê nela uma chance de quebrar a monotonia e viver um amor. R. promove encontros de leitura em sua livraria, lá é ponto de encontro dos bibliófilos, e num dia aparece uma moça e vasculha as prateleiras e pega alguns livros e enfia debaixo da blusa, R. a olha com admiração e espanto e nos dias que se sucedem ele parece não se importar com os roubos, mas sim em querer vê-la novamente e puxar assunto, assim quando ela volta e rouba mais alguns livros ele a prende no local e a faz devolvê-los e, por consequência, conhecê-la, mas a moça é misteriosa e não permite muitas perguntas, quando ela quer dizer algo ela diz sem a necessidade de perguntas, diz se chamar Ana e que mora com o pai em uma pensão, que rouba os livros para consumo deles próprios, pois são amantes de histórias e das muitas vidas que pululam delas.
Somos introduzidos a um ambiente dominado por um ar literário, as ruas clássicas de Montevidéu repleta de sebos, prédios antigos, um charme romântico único, a fotografia escura acentua o clima de elegância e melancolia. Dividido em capítulos, a narrativa flui exatamente como se estivéssemos lendo um livro, as cenas são páginas que mesclam realidade aos devaneios do protagonista que se apaixona de forma obsessiva por uma moça misteriosa que entra em sua livraria e rouba livros, o livreiro consumido pelo tédio e que sonha em escrever um romance vê nela uma chance de quebrar a monotonia e viver um amor. R. promove encontros de leitura em sua livraria, lá é ponto de encontro dos bibliófilos, e num dia aparece uma moça e vasculha as prateleiras e pega alguns livros e enfia debaixo da blusa, R. a olha com admiração e espanto e nos dias que se sucedem ele parece não se importar com os roubos, mas sim em querer vê-la novamente e puxar assunto, assim quando ela volta e rouba mais alguns livros ele a prende no local e a faz devolvê-los e, por consequência, conhecê-la, mas a moça é misteriosa e não permite muitas perguntas, quando ela quer dizer algo ela diz sem a necessidade de perguntas, diz se chamar Ana e que mora com o pai em uma pensão, que rouba os livros para consumo deles próprios, pois são amantes de histórias e das muitas vidas que pululam delas.
Ana é sua musa de carne e osso, antes ele nutria-se e livrava-se do tédio com o que lia, com a enigmática moça que rouba livros se vê enredado numa narrativa que ele mesmo quer tecer, sua curiosidade é aguçada a cada visita que ela faz e seu interesse torna-se obsessivo quando ela se afasta após um sarau, eles se amam e ele a acompanha para a pensão, crê que está namorando, quer conhecer o pai/namorado e Ana diz que é complicado e que a vida é uma merda. R. desesperado por perder sua musa num impulso pega suas malas e muitos livros e se hospeda na mesma pensão a fim de encontrar Ana, no dia seguinte seus livros desapareceram junto de sua amada. O mistério cresce e o livreiro começa a procurar pistas, vai até o sebo de Ahmed (Alejandro Awada), um muçulmano ateu com grande conhecimento sobre a doutrina cristã, ele o avisa que ele não foi o primeiro a se apaixonar e que era frequente os roubos, contou algumas coisas que poderiam ser ou não verdades e que demoraria até o inverno para a moça regressar.
Ana é um mistério, ao lado de um homem (Alfredo Castro) cuja identidade é uma incógnita vai de lá para cá, assume vidas diferentes, mas sempre roubando livros e seduzindo os livreiros, R. se apaixona pelo mistério que Ana provoca, tirando-lhe da monotonia e o transformando num desses personagens de romances clássicos com seu amor obsessivo. A trama conduz o espectador para situações que bambeiam entre realidade e surrealidade, colocando em dúvida sobre o que de fato é ou não é, seria tudo produção da mente do livreiro, ou realmente essa mulher fascinante existe?
O filme entrelaça literatura e cinema de um jeito delicioso e deixa no espectador o sabor de um livro lido, o encanto de contemplar uma história de amor, fonte inesgotável, tanto para as criações de obras literárias quanto cinematográficas. A união dessas artes resulta num filme melancolicamente charmoso em todos os quesitos.
"Severina" como o próprio personagem diz é um "delírio amoroso", um conto entre uma ladra de livros e um livreiro aspirante a escritor, uma ode à literatura.
Não tem como não se apaixonar pelos lugares retratados, as ruas por onde os personagens passam, ou os interiores das livrarias remetendo à épocas passadas. Traz a magia das palavras escritas, tão esquecidas nos dias de hoje em que tudo é pressa e imagem, há uma nuvem de decadência pairando sobre esses lugares abarrotados de livros, prateleiras que guardam verdadeiras relíquias e histórias atemporais, cujas fronteiras entre realidade e imaginação são invisíveis, como outro personagem diz, "livreiros são como alquimistas".
É um abraço apertado e gostoso entre cinema e literatura. Um mimo adorável para os bibliófilos e os cinéfilos!
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Mary Shelley
"Mary Shelley" (2017) dirigido por Haifaa Al-Mansour (O Sonho de Wadjda - 2012) é uma biografia delicada e fascinante sobre a precursora do gênero de ficção científica, a criadora do romance gótico Frankenstein. Apesar de não ter profundidade e peso a história consegue cativar por seus personagens interessantes e sua atmosfera literária.
A história do romance entre o poeta Percy Shelley (Douglas Booth) e Mary Wollstonecraft (Elle Fanning), uma jovem de 17 anos que viria a se tornar a aclamada escritora Mary Shelley, autora do livro "Frankenstein ou o Prometeu Moderno".
Mary Goldwin estava destinada às palavras, criada num ambiente intelectual e libertário, filha do filósofo William Godwin e da escritora e feminista Mary Wollstonecraft desenvolveu desde pequena paixão pela escrita, o pai a incentivava a encontrar sua própria voz e seu próprio estilo, e para isso a enviou para o campo, onde conheceu o poeta e seguidor de seu pai Percy Shelley, que mais tarde se tornaria seu marido, quando Percy e Mary se apaixonaram decidiram viver juntos mesmo Percy já sendo casado, seu espírito de amor livre gerou consequências dramáticas, inclusive o suicídio da sua primeira mulher, Mary viveu muitas tristezas e decepções e a partir delas criou sua obra-prima, todas as agruras, desde a perda do filho, as dívidas, o ostracismo, os altos e baixos do relacionamento contribuíram para sua evolução como escritora. E foi num verão tedioso e libidinoso em que passaram na casa de Lord Byron que Mary começa a conceber a ideia de seu romance, lá junto de sua meia-irmã Claire Clairmont, amante de Byron e o médico e escritor John William Polidori têm a ideia de cada um escrever uma história de fantasmas depois de lerem alguns contos de horror. Assim nasce uma poderosa história de horror sobre abandono, uma novidade na época ainda mais para uma mulher, a história foi recusada por inúmeras editoras, não acreditavam que tinha sido ela a autora, uma moça de aparência delicada ter colocado tais palavras sombrias e tristes no papel, então como última alternativa aceitou que o livro fosse publicado anonimamente com o prefácio de seu marido, o que gerou grande interesse dos leitores, mais tarde seu pai descobriu a verdade e conseguiu fazer uma nova remessa colocando o nome de Mary, as outras obras concebidas a partir do jogo na casa de Byron também geraram polêmicas, Polidori criou a primeira história de vampiro inglesa, "O Vampiro", mas foi publicada e creditada a Byron, foi um enorme sucesso e mais tarde Byron viria refutar a autoria, o vampiro descrito por Polidori era um ataque ao amigo, afetado, arrogante, mas que também sabia ser sedutor. Já as outras não tiveram tanta fama, Percy Shelley redigiu "Fragmento de uma História de Fantasma" e a verdadeira história de Byron tão pouco viria a ser comentada, esse verão em que ficaram presos na mansão de Byron por conta de uma tempestade foi cenário de muito ócio e de elucubrações, Mary era uma ouvinte silenciosa e tinha curiosidade na ciência, nas teorias de Darwin e por isso se aproximou bastante de Polidori, a concepção de "Frankenstein" foi uma junção de todos os seus sentimentos e seus interesses.
No filme o relacionamento de Percy e Mary é retratado com muito romantismo, Percy tinha ideias de amor livre e acreditava que por Mary ter sido criada em meio a ideias liberais também nutria esse desejo, porém ela queria somente Percy e sua paixão era demasiada forte, sofreu muitas desventuras e decepções, a vida dos dois foi marcada por perdas, infidelidades e dívidas, mas se amavam e se admiravam intensamente, além da paixão compartilhavam e se dedicavam ao amor à leitura e escrita.
A história destaca bastante os outros personagens e cria a curiosidade no espectador em querer saber mais sobre eles, um filme de cada um seria ótimo, Lord Byron, por exemplo, magnifico e repulsivo na pele de Douglas Booth, a animada e carente meia-irmã de Mary, vivida por Joanne Froggatt, que presenciou boa parte dos dissabores, assim como os vivenciou, principalmente ao engravidar de Byron.
"Mary Shelley" retrata a trajetória de Mary Shelley até sua criação mais famosa e que ainda continua sendo referência do horror gótico e ficção científica, e claro, uma crítica à arrogância e prepotência humana e cuja descrição da solidão e abandono são sentimentos que conseguem penetrar à alma.
É um filme de atmosfera romântica, o peso e a decadência são amenizadas, mas os elementos literários cativam e embelezam à obra, para quem quer conhecer mais da autora vivida por Elle Fanning e do fatídico verão na mansão de Byron até a publicação de um dos romances mais famosos e influentes, é um exemplar encantador e poético.
terça-feira, 10 de julho de 2018
A Livraria (The Bookshop)
"Entre livros, ninguém pode se sentir sozinho."
"A Livraria" (2017) dirigido por Isabel Coixet (Assumindo a Direção - 2014), adaptado do livro homônimo de Penelope Fitzgerald é uma fábula encantadora sobre o amor à literatura, a ambientação e a atmosfera da história fascina e apesar de carecer de alguma profundidade consegue homenagear lindamente a bibliofilia.
No final da década de 50, uma mulher (Emily Mortimer) recém-chegada em uma pacata cidade do litoral da Inglaterra decide abrir uma livraria. Contudo, sua iniciativa é vista com maus olhos pela conservadora comunidade local, que passa a se opor tanto a ela quanto ao seu negócio, obrigando-a lutar por seu estabelecimento.
Florence é uma viúva que coloca em prática seu desejo de abrir uma livraria numa pacata e retrógrada cidadezinha inglesa, ao mesmo tempo que é uma mulher delicada e paciente é também persistente e corajosa, ela então precisa enfrentar Violet Gamart (Patricia Clarkson), uma aristocrata que fica extremamente incomodada com sua ousadia e faz de tudo para que não consiga sucesso, inventa burocracias e usa de seu poder para isso, só que esse lado da história não é tão relevante, o que é maravilhoso de verdade são os habitantes que aos poucos vão sendo inseridos ao universo da literatura, ao abrir o local as pessoas não acreditavam que fosse dar certo, pois ali ninguém tinha o hábito da leitura, eram pessoas simples, mas conforme os dias a livraria começa fazer enorme sucesso, especialmente, quando um novo romance surge, "Lolita", de Nabokov, as vitrines logo se enchem desses exemplares e a população sente grande interesse pelo polêmico livro. Outro ponto a se destacar é a relação que Florence estabelece com Christine (Honor Kneafsey), uma garotinha esperta que é dona de frases incríveis e que por fim leva adiante o que tanto Florence sonhou, outro personagem interessante, mas não tão bem desenvolvido é Edmund Brundish (Bill Nighy), um recluso senhor e o único leitor do local, que no decorrer se apaixona por Florence e sua determinação e tenta ajudá-la a manter a livraria. Edmund também se encanta pela obra de Ray Bradbury, quando por ocasião Florence envia o exemplar de Fahrenheit 451. A relação dos dois se estreitam à medida que Florence envia os exemplares e Violet decide de fato acabar com seu estabelecimento. O roteiro fica na superficialidade, por exemplo, Violet deseja montar um centro cultural apenas para se aparecer e não porque tem amor envolvido, o poder que ela detém sobre todos e as maneiras mesquinhas com que age para derrubar Florence acaba ficando para segundo plano, pois o que realmente se sobressai é a beleza da ambientação, as estantes repletas de livros, a livraria em si esbanjando charme, a natureza ao redor, a sensibilidade de Florence, a sua inocência em meio a sua coragem, e todas as pessoas que de algum modo foram tocadas por seu sonho.
Aos amantes de literatura fará mais efeito, autores e títulos citados para conhecer, outros tão aclamados que na época eram novidade, as capas, as estantes, isso o filme exala com perfeição e mantém com encanto durante todo o tempo, o idealismo de Florence é também marcante mesmo ela tendo uma personalidade doce, e sua visão para introduzir livros que seriam grandes sucessos potencializa a alma da história.
Dois personagens se sobressaem, a pequena Christine que possui personalidade forte e garante ótimos diálogos e que é impregnada sem saber pelo espírito de Florence. Um livro em especial é indicado a ela e isso fará com que dê seguimento ao sonho tão almejado de sua amiga. Outro é o coadjuvante James (Milo North), um jornalista desempregado que apresenta maneirismos esquisitos e que de mansinho se alia a Violet, muitos dos personagens não são explorados e suas atitudes se perdem, como no caso de Sr. Brundish, que inicialmente é recluso por conta de seu passado e odiar as fofocas sobre ele, mas que no decorrer se transforma em uma caricatura.
"A Livraria" é uma fábula agradável, aconchegante e uma linda homenagem à literatura, nos arrebata pelo visual e é impossível não querer ir atrás do livro adaptado e todos os títulos citados, vasculhar alguns sebos e livrarias, arrumar sua estante e apreciar esse hábito tão delicioso que nos faz viajar, refletir e que nos afasta da solidão.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Uma Grande Aventura (Watership Down) Filme/Livro
"Watership Down" (1978) traduzido no Brasil como "Uma Grande Aventura" ou "A Longa Jornada" é uma animação baseada no romance homônimo de 1972 de Richard Adams e dirigida por Martin Rosen (The Plague Dogs - 1982, também baseado na obra homônima de Richard Adams), conhecida como uma das mais perturbadoras e sanguinolentas animações, sem dúvidas, uma obra-prima atemporal que conversa tanto com o universo infantil como o adulto, há um exagero em sua fama de violência, mas o seu conteúdo é sim bastante obscuro, pois trata-se de sobrevivência. Richard Adams começou toda essa história por causa de suas filhas em uma viagem de carro pela Inglaterra, motivado ele pesquisou sobre a vida dos coelhos, o habitat, os seus modos e construiu algo grandioso, pode-se encarar "Watership Down" como uma aventura hipnotizante ou como uma metáfora para o comportamento humano, a religião, a sociedade e sua escala de poder, e tantos outros simbolismos que vão aparecendo no decorrer.
Com sua toca ameaçada de destruição, um grupo de coelhos é obrigado a abandonar o lugar onde vivem e partir em uma grande aventura. Eles não estão prontos para essa viagem, cheia de perigos e surpresas, mas precisam encontrar uma nova casa o mais rápido possível. Os valentes coelhos são perseguidos por animais domésticos, conseguem fugir dos humanos e até encontram um coelho malvado que não quer saber de ajudá-los e sim atrapalhar o caminho. Mas juntos, eles enfrentam cada desafio e problema, com a força da amizade.
A sinopse pode enganar por seu tom fabuloso em que coelhos buscam um lugar seguro e por conta da união conseguem sobreviver, porém ao entrar em contato com o livro/filme e observar a maneira que esses coelhos são retratados, como os traços naturais do desenho no filme, desmistifica o estereótipo de candura que supostamente possuem, a história é permeada de situações ruins em que o medo é o grande protagonista, eles são movidos por esse medo e usam de suas características, como agilidade, audição privilegiada e a sagacidade para elaborar truques e ir adiante sem se deixarem abater, além de fugirem de inimigos de outras espécies também precisam lidar com as armadilhas de outros coelhos. Tudo começa quando Cinco-Folhas (Richard Briers), um coelho franzino pressente algo ruim vindo em direção à coelheira, ele visualiza uma bituca de cigarro que sinaliza a presença de homens e um pedaço de madeira fincado na terra, uma placa, e logo tem a visão do campo todo ensanguentado, junto com seu irmão Aveleira (John Hurt) vão até o chefe do Owsla - os coelhos mais fortes e superiores da coelheira - e avisam sobre a tragédia que está por vir, mas o grande coelho menospreza a recomendação de irem embora. Após isso Cinco-Folhas e Aveleira formam um grupo e partem em busca de um bom lugar para viver, nesta jornada passam por muitos perigos, encontram raposas, gatos, cachorros, pássaros, homens com espingardas e coelhos estranhos e tantas outras adversidades, precisam conquistar território, construir as próprias tocas, conseguir um local para comerem e acima de tudo permanecerem unidos são e salvos. Durante essa extenuante caminhada alguns morrem e se machucam, conhecem modos de vida diferentes e percebem que precisam de muita coragem para seguirem, principalmente, quando vão atrás de fêmeas na temida Efrafa.
Uma das coisas que mais chama a atenção na animação é a sua estética, os coelhos não são retratados como seres bonitinhos e a natureza deles é exposta de maneira real, os hábitos e a luta pela sobrevivência, e claro, aí entra a violência, arranhões e mordidas que arrancam pedaços, além de imprevistos, mas nada é gratuito, quando percebem que só lutando poderão escapar se tornam impetuosos e selvagens, as cenas sangrentas são poucas na verdade, o conteúdo foi baseado realmente na vida dos coelhos, a fonte de inspiração do autor foi o livro de Ronald Lockley, "A Vida Privada dos Coelhos", portanto, a agressividade faz parte, mas nada tão estarrecedor, existe um exagero em torno.
O filme é um clássico e merece toda a atenção, só que funciona isoladamente do livro, a reprodução não é fiel e os acontecimentos não estão na ordem, alguns personagens não são focados e demora-se a distingui-los, porém visualizar o cenário e todo o percurso alimenta ainda mais a nossa imaginação, é uma experiência que nutre. Condensar um livro de centenas de páginas cheio de detalhes é complicado e a imersão acaba não funcionando por ter uma abordagem rápida, a ação é quem manda, chama-se isso de plot-driven, onde o personagem está à mercê dos acontecimentos e por conta do tempo seu perfil não é explorado por completo. O que é uma pena, pois cada coelho exibe uma característica única, Cinco-Folhas é intuitivo, Aveleira é confiável, Manda-Chuva é forte e corajoso, Dente-de-Leão é um exímio contador de histórias, Amora-Preta é astuto, estes são os principais, mas quando abre espaço para algum coelho em cena percebe-se algo que se sobressai em cada.
Em dado momento da jornada eles encontram uma coelheira com hábitos diferentes dos demais coelhos, são bem recebidos pelo grande e melancólico Prímula, mas algo parece estranho em seus hábitos polidos e desinteressados, por exemplo, quando por agradecimento pela acolhida querem contar uma história sobre a mitologia deles, que envolve El-ahrairah - uma espécie de Deus, eles rejeitam veementemente, no decorrer perceberam que dia após dia um coelho desaparecia, e então descobriram que os homens não eram generosos em tratá-los, mas ali era um viveiro e todos os coelhos tinham consciência disso. A mitologia mencionada a cada nova empreitada inspira os coelhos a não desistir, já que El-ahrairah, o herói deles venceu utilizando inúmeras artimanhas, o mito no livro é muito mais desenvolvido e não tem como não relacioná-lo com a religião, é dito que o mundo foi criado por Frith, representado pelo sol, e que nesse mundo habitava muitos animais e todos viviam em paz, até que os coelhos liderados por El-ahrairah se proliferaram demasiadamente e acabaram com a comida dos outros animais, estes imploraram a Frith para que pedisse ao coelho controlar seu povo, mas foi ignorado e Frith decidiu dar aos outros animais garras e presas para caçar os coelhos, e assim foram sendo mortos, até que restou somente El-ahrairah, que acabou ganhando também várias características, como a aguçada percepção para poder sobreviver com tantos inimigos a sua volta.
A história toca em temas muito pertinentes, como confiança, companheirismo, hierarquia social, religião, sacrifício, e demonstra a amizade improvável entre os coelhos e a gaivota, Kehaar, uma personagem maravilhosamente bem adaptada para o filme, na voz de Zero Mostel, sem dúvidas, as cenas que participa são as melhores, a ave tem um misto de simpatia e impaciência com os coelhos, eles a ajudaram a se recuperar depois de um ataque de um gato e o pássaro grato os ajuda a encontrar Efrafa e libertar as fêmeas de lá, essa coelheira tem um sistema ditatorial, horários determinados para comer e há patrulhas por todos os cantos, são coelhos que não temem a luta e são muito leais. As fêmeas estão bastante insatisfeitas e estressadas e quando Manda-Chuva (Michael Graham Cox) entra lá com o pretexto de se juntar e se tornar um deles, observa tudo ao redor e as convence a fugir direto para a liberdade. Claro que esta fuga não é fácil e dependem muito da engenhosidade e da sorte, e os efrafianos não se dão por vencidos.
A sobrevivência requer sacrifício e isso os coelhos não temem, outro ponto interessante é a conversa que Aveleira vai tentar com o general Vulnerária (Harry Andrews), onde ele diz que é estupidez guerrear entre a mesma espécie enquanto poderiam ampliar o território e usufruir juntos dos recursos naturais, as alegorias estão por toda a parte, basta se atentar a narrativa que tudo tem um paralelo com a nossa sociedade e o comportamento humano, mas se quiser ter uma interpretação literal, onde a fantasia e a aventura predomina também pode, inclusive essa é a grandeza da obra, fazer com que cada leitor/espectador tenha sua própria perspectiva da história. A aura melancólica é penetrante mesmo com toda a ação, uma parte que evidencia muito esse sentimento é quando Cinco-Folhas pressente algo em relação a seu irmão e a canção "Bright Eyes" de Art Garfunkel, que acompanha a cena torna ainda mais forte essa melancolia.
"Chegar ao fim de um período de ansiedade e temor! Sentir a nuvem que pende sobre nós, leve e dispersa - a nuvem que reanima o coração e faz com que a felicidade não fique apenas na lembrança! Isto, pelo menos, é uma alegria que deve ser conhecida por quase toda criatura vivente."
"Muitos seres humanos dizem apreciar o inverno, mas do que realmente gostam é de se sentir protegidos. Não enfrentam problemas de alimentação. Têm lareiras e roupas quentes. O inverno não os fere fundo e, portanto, aumenta seu sentimento de habilidade e segurança. Para pássaros e animais, e para pessoas sem recursos, o inverno é cruel."
*A Netflix e a BBC One anunciaram a produção de uma minissérie animada de 'Watership Down" em quatro episódios. Estamos no aguardo!
Com sua toca ameaçada de destruição, um grupo de coelhos é obrigado a abandonar o lugar onde vivem e partir em uma grande aventura. Eles não estão prontos para essa viagem, cheia de perigos e surpresas, mas precisam encontrar uma nova casa o mais rápido possível. Os valentes coelhos são perseguidos por animais domésticos, conseguem fugir dos humanos e até encontram um coelho malvado que não quer saber de ajudá-los e sim atrapalhar o caminho. Mas juntos, eles enfrentam cada desafio e problema, com a força da amizade.
A sinopse pode enganar por seu tom fabuloso em que coelhos buscam um lugar seguro e por conta da união conseguem sobreviver, porém ao entrar em contato com o livro/filme e observar a maneira que esses coelhos são retratados, como os traços naturais do desenho no filme, desmistifica o estereótipo de candura que supostamente possuem, a história é permeada de situações ruins em que o medo é o grande protagonista, eles são movidos por esse medo e usam de suas características, como agilidade, audição privilegiada e a sagacidade para elaborar truques e ir adiante sem se deixarem abater, além de fugirem de inimigos de outras espécies também precisam lidar com as armadilhas de outros coelhos. Tudo começa quando Cinco-Folhas (Richard Briers), um coelho franzino pressente algo ruim vindo em direção à coelheira, ele visualiza uma bituca de cigarro que sinaliza a presença de homens e um pedaço de madeira fincado na terra, uma placa, e logo tem a visão do campo todo ensanguentado, junto com seu irmão Aveleira (John Hurt) vão até o chefe do Owsla - os coelhos mais fortes e superiores da coelheira - e avisam sobre a tragédia que está por vir, mas o grande coelho menospreza a recomendação de irem embora. Após isso Cinco-Folhas e Aveleira formam um grupo e partem em busca de um bom lugar para viver, nesta jornada passam por muitos perigos, encontram raposas, gatos, cachorros, pássaros, homens com espingardas e coelhos estranhos e tantas outras adversidades, precisam conquistar território, construir as próprias tocas, conseguir um local para comerem e acima de tudo permanecerem unidos são e salvos. Durante essa extenuante caminhada alguns morrem e se machucam, conhecem modos de vida diferentes e percebem que precisam de muita coragem para seguirem, principalmente, quando vão atrás de fêmeas na temida Efrafa.
Uma das coisas que mais chama a atenção na animação é a sua estética, os coelhos não são retratados como seres bonitinhos e a natureza deles é exposta de maneira real, os hábitos e a luta pela sobrevivência, e claro, aí entra a violência, arranhões e mordidas que arrancam pedaços, além de imprevistos, mas nada é gratuito, quando percebem que só lutando poderão escapar se tornam impetuosos e selvagens, as cenas sangrentas são poucas na verdade, o conteúdo foi baseado realmente na vida dos coelhos, a fonte de inspiração do autor foi o livro de Ronald Lockley, "A Vida Privada dos Coelhos", portanto, a agressividade faz parte, mas nada tão estarrecedor, existe um exagero em torno.
O filme é um clássico e merece toda a atenção, só que funciona isoladamente do livro, a reprodução não é fiel e os acontecimentos não estão na ordem, alguns personagens não são focados e demora-se a distingui-los, porém visualizar o cenário e todo o percurso alimenta ainda mais a nossa imaginação, é uma experiência que nutre. Condensar um livro de centenas de páginas cheio de detalhes é complicado e a imersão acaba não funcionando por ter uma abordagem rápida, a ação é quem manda, chama-se isso de plot-driven, onde o personagem está à mercê dos acontecimentos e por conta do tempo seu perfil não é explorado por completo. O que é uma pena, pois cada coelho exibe uma característica única, Cinco-Folhas é intuitivo, Aveleira é confiável, Manda-Chuva é forte e corajoso, Dente-de-Leão é um exímio contador de histórias, Amora-Preta é astuto, estes são os principais, mas quando abre espaço para algum coelho em cena percebe-se algo que se sobressai em cada.
A sobrevivência requer sacrifício e isso os coelhos não temem, outro ponto interessante é a conversa que Aveleira vai tentar com o general Vulnerária (Harry Andrews), onde ele diz que é estupidez guerrear entre a mesma espécie enquanto poderiam ampliar o território e usufruir juntos dos recursos naturais, as alegorias estão por toda a parte, basta se atentar a narrativa que tudo tem um paralelo com a nossa sociedade e o comportamento humano, mas se quiser ter uma interpretação literal, onde a fantasia e a aventura predomina também pode, inclusive essa é a grandeza da obra, fazer com que cada leitor/espectador tenha sua própria perspectiva da história. A aura melancólica é penetrante mesmo com toda a ação, uma parte que evidencia muito esse sentimento é quando Cinco-Folhas pressente algo em relação a seu irmão e a canção "Bright Eyes" de Art Garfunkel, que acompanha a cena torna ainda mais forte essa melancolia.
♪ Há uma névoa ao longo do horizonte,
um estranho brilho no céu
e ninguém parece saber para onde você vai
E o que isto quer dizer,
oh, é um sonho? ♪
"Coelhos (diz o Sr. Lockley) são, em muitos aspectos, parecidos com seres humanos. Um desses é, sem dúvida, sua grande habilidade em superar desastres e deixar que o fluxo da vida os transporte além dos limites do terror e do dano. Têm uma certa qualidade, que não seria justo descrever apenas como resistência ou indiferença. Trata-se, melhor dizendo, de uma imaginação abençoadamente restrita e o sentimento intuitivo de que Vida é Presente."
Colocando o livro e o filme lado a lado, o livro certamente sai em disparada com sua profundidade e imersão, mas não diminui o valor da adaptação, que mesmo não satisfazendo o leitor ainda consegue emocionar e incutir o interesse, a quem se deparou inicialmente com o filme e ficou sabendo do livro depois com certeza terá vontade de se enveredar pelas páginas de "Watership Down". As descrições, os cenários, os hábitos, os diálogos, o vocabulário criado pelo autor, simplesmente mágico apesar de carregar um tom sombrio, o fato de se basear na vida natural dos coelhos é o diferencial do livro, que em nenhum momento esconde ou floreia as atitudes difíceis e selvagens para a sobrevivência. Outra questão que permeia a história é a destruição da natureza causada pelas mãos do homem, o quão distantes e separados da natureza estão e todo o desequilíbrio que isso tudo causa no ambiente devido a ambição desmedida e egoísmo. Crítica ambiental, social, política e religiosa, por mais que o autor negue que fez qualquer alegoria ou metáfora, elas estão presentes e saltam aos nossos olhos. "Watership Down" é um livro original, cru, melancólico, fascinante e memorável; o filme também impressiona pela representação dos coelhos e ao dar ênfase nas decisões que precisam tomar diante do caos. A obra cinematográfica é notável, mas a leitura é imprescindível.
"Para os coelhos, tudo que é desconhecido é perigoso. A primeira reação é se assustar, a segunda é correr. Várias e várias vezes eles se assustaram, até chegar ao ponto da exaustão. Mas o que eram esses sons e para onde, nesse ambiente selvagem, eles poderiam correr?".
"Chegar ao fim de um período de ansiedade e temor! Sentir a nuvem que pende sobre nós, leve e dispersa - a nuvem que reanima o coração e faz com que a felicidade não fique apenas na lembrança! Isto, pelo menos, é uma alegria que deve ser conhecida por quase toda criatura vivente."
"Muitos seres humanos dizem apreciar o inverno, mas do que realmente gostam é de se sentir protegidos. Não enfrentam problemas de alimentação. Têm lareiras e roupas quentes. O inverno não os fere fundo e, portanto, aumenta seu sentimento de habilidade e segurança. Para pássaros e animais, e para pessoas sem recursos, o inverno é cruel."
*A Netflix e a BBC One anunciaram a produção de uma minissérie animada de 'Watership Down" em quatro episódios. Estamos no aguardo!
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Lavoura Arcaica
"...e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."
"Lavoura Arcaica" (2001) dirigido por Luiz Fernando Carvalho (Capitu - 2008) é uma adaptação fiel do livro homônimo de Raduan Nassar, uma obra sensível e imensamente poética, uma joia da literatura nacional. Tudo foi transposto com beleza, cada dilema e cada complexidade, textos integrais são ditos pelos atores que se expressaram com total dedicação. É um exemplar maravilhoso e um dos grandes filmes do cinema nacional, foi concebido com delicadeza e nos delicia durante o tempo que nos toma, também é uma experiência transformadora que coloca em evidência as escolhas, a vida em família, a liberdade, a religiosidade, o amor, o tempo, entre tantos outros temas caros à nossa existência.
"Lavoura Arcaica" narra em primeira pessoa a história de André (Selton Mello), que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.
O filme aborda temas complexos, como a difícil interação entre pais e filhos, a criação rígida em que a figura do pai é que exerce poder incontestável, minando desejos e anseios dos filhos, um pai que ao mesmo tempo é bom, mas ignora que os filhos tenham suas fraquezas. Nesta família patriarcal, a mãe é somente uma figura que carrega as dores dos males que penetram o seio familiar, ela é a que toma os filhos nos braços, algo que só fortalece esse ciclo sufocante de hipocrisia.
A religião acentua as regras morais ditadas pelo pai, que cego pelas doutrinas não consegue enxergar o que se passa a seus filhos, isso afasta André que não consegue pedir ajuda ao pai, quando volta para casa ele tenta conversar, inclusive a melhor parte do filme e uma das cenas mais belas, André fala de suas dores, mas seu pai é incapaz de compreender.
"O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória."
"Lavoura Arcaica" narra em primeira pessoa a história de André (Selton Mello), que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.
Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família e a terra, fiado na doutrina cristã. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana (Simone Spoladore), e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo. Ambientado na década de 40, numa comunidade rural formada por imigrantes libaneses, a família de André é comandada com rigidez pela figura do pai (Raul Cortez), que preza pelos valores cristãos, os filhos cumprem uma rotina dominada pelo tédio e pelo trabalho, André se rebela e decide ir embora de lá, principalmente, por estar apaixonado pela sua irmã, Ana. Esta foi a forma que encontrou para expor seu desejo de liberdade. Tomado de angústia ele vai viver sozinho longe de tudo numa pensão suja, sem a abundância que tinha em casa, a sua fuga afeta todos os membros da família, especialmente, Ana. A mãe inconsolável, pede para o filho mais velho, Pedro, que o traga de volta. O encontro dos dois é regado a diálogos intensos e junto a devaneios imergimos no passado de André.
Cheio de poesia visual, "Lavoura Arcaica" causa incômodo, o personagem André é dominado pela angústia e ele a todo instante parece querer expelir isso de si, são cenas que causam desconforto, mas não simplesmente pelas situações retratadas, como a primeira cena em que ele se masturba ferozmente caído no chão, mas pela significância que elas têm para o protagonista. A direção de fotografia, assinada por Walter Carvalho é um primor e ela é fundamental para passar os mais variados sentimentos, tem uma textura seca e suja. A trilha sonora com influências de música árabe é um complemento belíssimo, som e imagem se integram perfeitamente e intensifica as sensações.
"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto."
A religião acentua as regras morais ditadas pelo pai, que cego pelas doutrinas não consegue enxergar o que se passa a seus filhos, isso afasta André que não consegue pedir ajuda ao pai, quando volta para casa ele tenta conversar, inclusive a melhor parte do filme e uma das cenas mais belas, André fala de suas dores, mas seu pai é incapaz de compreender.
"– Por que empurrar o mundo pra frente? Se já tenho minhas mãos atadas, não vou, por iniciativa, atar meus pés também. Por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem. Eu já não vejo diferença. Tanto faz que as coisas andem pra frente ou que elas andem pra trás.
– Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
– Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro. Da mesma forma, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto. Maior despropósito que isso, só mesmo a vileza do aleijão, que na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica mais feio o feio que consente o belo…
– Mais pobre o pobre que aplaude o rico; menor o pequeno que aplaude o grande; mais baixo o baixo que aplaude o alto. E assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam. Acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros. A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira.
– É muito estranho o que eu estou ouvindo.
– Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo. Erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente."
As interpretações são sublimes, Selton Mello se entrega vorazmente a seu personagem, se revolta contra à ditadura do pai e se enovela cada vez mais em seus desejos, ele grita, se contorce, se infiltra na natureza, seus pés se esfregando junto à terra é uma constante. Raul Cortez, o pai, dá valor ao tempo e tem a paciência como a maior qualidade, seus sermões antes do jantar exprimem a lei do cabresto, ele é soberano em cena, quando André o contesta não sabe como proceder, a não ser com mais repressão. Simone Spoladore como Ana não diz uma palavra durante todo o filme, mas expressa pelo seu corpo a paixão pela vida, esta que acende em André o desejo pela liberdade. Essa rebeldia de André toma conta de seu irmão caçula, Lula (Caio Blat), que também deseja sair daquela célula familiar e descobrir o mundo. Leonardo Medeiros como Pedro, o irmão mais velho e que vai em busca de André, passa para frente os mesmos valores que o pai ensinou, mas vendo e ouvindo o irmão que está perdido e acometido por delírios e pela epilepsia, se amargura diante a situação.
É um retrato pertinente da dura relação entre pai e filho, da distância das gerações que causa a falta de diálogos, e o como o conservadorismo religioso danifica ainda mais, pois o amor é distorcido, cria-se regras e castra-se a liberdade do querer e do pensar. O argumento da tradição serve para oprimir e cometer injustiças, as mulheres da casa que o digam, quando o pai é contestado, simplesmente diz-se que é tradição.
"Lavoura Arcaica" é um filme denso, indigesto, lírico, também longo e enfadonho, mas de um valor imensurável para quem aprecia obras poéticas, mergulhar em sua narrativa é uma experiência única de reflexão. A sensação causada não passa após seu término, ao contrário, ela cresce dentro de nós à medida que pensamos nas questões abordadas."O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória."
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