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terça-feira, 28 de março de 2023

Copenhagen Cowboy (Série)

"Copenhagen Cowboy" (2022) dirigido por Nicolas Winding Refn (Drive - 2011, O Demônio de Neon - 2016) tem a assinatura do diretor, estilosa, soturna e bizarra, mistura diferentes elementos e gêneros e traz uma originalidade incomum, é um espetáculo misterioso, minucioso e hipnotizante.
Acompanhamos a jornada de Miu (Angela Bundalovic), uma jovem enigmática e lacônica que é comprada por Rosella (Dragana Milutinovic), uma mulher obscura que junto de seu irmão possui um bordel e está inserida no submundo do tráfico de mulheres, ela acredita que Miu tem poderes mágicos que a ajudará engravidar, a sequência de fatos muda a percepção de Rosella e Miu entra numa espiral de vingança pela imundice humana levando de certa forma a justiça. Entre os personagens há Nicklas (Andreas Lykke Jørgensen), metade humano, metade vampiro que cruza o caminho de Miu e que travará um conflito monumental, no caminho ela encontra uma série de pessoas que vivem nesse submundo de crimes, incluindo gangues, tráfico de drogas, esquemas ilegais de todos os tipos e níveis, em meio a essa loucura Miu permanece intacta, seu semblante sempre calmo e direta em suas palavras provoca diversas emoções nesses indivíduos, ela ajuda alguns nesse entremeio com seus poderes, mas parece que tudo que toca inevitavelmente sofre consequências. É bastante intrigante o modo como age, na maior parte do tempo muito lentamente, sua postura estoica e movimentações certeiras nas cenas de ação, além da forma que encontra essas pessoas pelo caminho, parece-se muito com um sonho sombrio. Há uma imensidão peculiar nessa história que mistura elementos de fantasia que passeia pelo sobrenatural e que se mistura aos podres do mundo real. 
O ritmo da série é lenta e hipnotiza tanto pelo modo de filmagem em que a câmera gira sem parar em várias ocasiões, quanto pela estética neon/noir e trilha sonora eletropop/synthpop, além dos enquadramentos perfeitos e que várias vezes remetem a videoclipes,  muitas passagens surrealistas lembram as obras de David Lynch, as respostas dos mistérios por muitas vezes vêm de forma subjetiva e metafórica, ou simplesmente não são respondidas, a narrativa transcorre em moldes próprios e talvez essa dinâmica não agrade tanto, principalmente em seu desfecho.

O apuro estético é um deleite e a maneira incomum que se desenrola a história com personagens excêntricos que vagam pela madrugada de Copenhagen enrolados em maldade e violência e uma heroína aparentemente frágil que não sabe de onde veio para buscar vingança é um tanto inusitado. O sobrenatural se mistura a podridão do mundo real e somos absorvidos por simbologias provocantes e perturbadoras.
 
"Copenhagen Cowboy" é uma série diferenciada dentro do catálogo da Netflix e espero que tenha uma segunda temporada, apesar de achar pouco provável. Vale muito a pena assistir algo que foge das narrativas tão batidas e rasas que séries mais tradicionais trazem, sempre é bom se encantar com perspectivas diversificadas.

sexta-feira, 17 de março de 2023

To Leslie

  

 "To Leslie" (2022) dirigido por Michael Morris é um filme intimista que concentra toda sua narrativa na personagem central com seu cotidiano simplório e caótico, seus laços foram danificados por conta do vício em álcool, autodestrutiva segue seus dias no puro ócio apenas se culpando por suas escolhas. Traumatizada e atormentada ninguém mais acredita em sua mudança e é jogada de lá para cá, mas o filme não é negativo e propõe a sua redenção, é uma história sem firulas e comovente, acreditar em si mesma é o maior obstáculo de Leslie.
Andrea Riseborough dá vida a essa mulher de maneira real, não força estereótipo e em muitas vezes sentimos vergonha, tristeza, desespero, deslocamento, vagamos junto dela, sentimos na pele suas angústias e as pequenas crises de consciência que cresce à medida que compreende que a mudança só pode acontecer de dentro para fora, mas óbvio que é necessário ajuda para que o ciclo se complete, ninguém consegue sair de uma situação tão crítica sozinho, mas o tempo e o respeito àquela situação faz toda a diferença e isso se dá no personagem de Sweeney (Marc Maron), que delicadeza, paciência e empatia esse ser humano possui, alguém totalmente fora da vida dela dá o suporte, pois os familiares praticamente desistiram e nisso também não há como julgar, é algo imensurável e complexo lidar com o peso do outro, ainda mais para o filho de Leslie, que cresceu com a história de sua mãe sendo exposta e ridicularizada. Para contextualizar tudo começa quando Leslie ganha US$ 190 mil  na loteria, dinheiro que daria para organizar a sua vida e do filho, mas para comemorar ela paga uma rodada de bebidas para todos, daí a história avança seis anos e a vemos sendo despejada de um quarto de hotel barato por falta de pagamento, ela segue andando sem rumo com sua mala rosa, parando em bares e se consolando nas bebidas pagas por alguns homens, até que bate na porta de seu filho em outra cidade, o jovem a acomoda por alguns dias, mas claramente dá errado quando encontra bebidas escondidas debaixo do colchão comprados com dinheiro roubado de seu colega de quarto. Leslie é deixada na casa de conhecidos desse seu passado nebuloso, segue-se mais dores, humilhação, desnorteamento até que Sweeney lhe oferece emprego e abrigo no hotel em que trabalha.

A sutileza de Sweeney ao abordar os problemas de Leslie dando espaço para que ela mesma perceba que está se destruindo e se auto enganando, não a forçando e não desistindo no meio do caminho quando suas inconstâncias de humor se dão é primordial, só mesmo alguém que já tenha passado por um inferno semelhante é capaz de acolher alguém dessa maneira, já outras pessoas não suportam a primeira decaída, como o filho, que foi atingido em cheio pelo vício de sua mãe logo na infância, os "amigos" do passado a ridicularizam, principalmente por conta da perda do dinheiro da loteria e por ser uma cidade pequena isso se agrava mais ainda.
Algo bastante notável nesse longa é a forma de tratar esse tema com cuidado e realismo, não há excesso de dramaticidade, mas sim silêncios que sufocam e lágrimas que ficam presas nos olhos, a dor é imensa e a personagem não se dá o direito nem de sofrer por mais que sua vida esteja estraçalhada, se culpa, mas não percebe que boa parcela do que aconteceu com ela muitos tiveram responsabilidade, justamente por saberem que Leslie era imatura. Andrea Riseborough é minimalista e brilha em cena, ela toda desgrenhada e pálida dá vida a essa mulher que vaga de bar em bar buscando algo que nunca encontrará, a sua alma, modo de dizer, está trancafiada em si mesma e como é complicado a tomada de consciência para entender que mesmo deslocada e diferente dos demais há um caminho para si.
 
"To Leslie" é uma história modesta e comum, forte e preciosa, é incrível a jornada da protagonista, sua decadência arrastando todos ao redor junto de seu vício, o autoengano e traumas são tratados com sutileza, mas nunca deixando de nos afetar, seu final é um recomeço sincero. É um filme bonito com uma atuação bonita de Andrea Riseborough.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

The Banshees of Inisherin

 

"The Banshees of Inisherin" (2022) dirigido por Martin McDonagh (Três Anúncios Para um Crime - 2017) é um filme que exala solidão e um existencialismo potente que nos faz rir de desespero, particularmente a narrativa me conduziu como se estivesse lendo um livro, devagar e com intervalos contemplativos belíssimos, quadros melancólicos e que evoluem à medida dos acontecimentos cotidianos e mal-entendidos risíveis. Apesar da erma ilha aparentar uma certa paz e o tédio controlar a vida de seus habitantes, do outro lado o estrondo da guerra civil está a todo vapor. Situado numa ilha remota na costa oeste da Irlanda nos idos dos anos 20, acompanhamos um impasse entre os amigos de longa data Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson). Inesperadamente Colm põe fim à amizade deles e Pádraic fica desesperado amparado pela sua irmã Siobhán (Kerry Condon) e pelo problemático jovem Dominic (Barry Keoghan), esforçando-se para recuperar o relacionamento e recusando-se a aceitar um não como resposta, os esforços repetidos de Pádraic apenas fortalecem a determinação de seu ex-amigo e, quando Colm entrega um ultimato, os eventos sucedem-se rapidamente com consequências inesperadas. O rompimento dessa amizade também atinge outros habitantes da ilha fazendo com que encarem o próprio abismo, como Dominic, um rapaz que sofre violências por parte do pai e que é esnobado pela irmã de Pádraic. Colm está cansado de tudo e diante da finitude da vida dedica seus dias a deixar um legado através da arte, já o ingênuo Pádraic se apega ao raso da vida, simples e gentil atravessa seus dias de puro nada, seu relacionamento com a irmã às vezes o traz para realidade, já que Siobhán quer sair da ilha por não aguentar mais o barulho que o silêncio faz. A situação simplesmente vai se transformando em algo desesperador para Pádraic, teimoso insiste em ir atrás de Colm e o segue pelos lugares e não aceita que o amigo tenha parado de gostar dele. A simplicidade desse personagem aos poucos vai sendo substituída por atitudes chatas e vergonhosas, até surgem sentimentos de pena ou graça, mas à medida que a narrativa transcorre também percebemos o endurecimento desse personagem, ele vai perdendo a ilusão e começa a articular maldades.

É um filme primoroso, os diálogos que proporcionam reflexões, a fotografia e o cenário imenso dessa ilha repleta de pedras confluindo com a solidão que cada personagem sente, a angústia nos olhos de Pádraic pelo fim da amizade, sua insistência chata, seu amor por Jenny, sua mini mula que também é afetada por essa guerra travada entre os dois. Pádraic é limitado e amarrado ao lugar que mora, sua ilusão de felicidade é quase ingênua pela falta de conhecimentos acerca de tudo, ele leva a vida de modo rudimentar, o que irrita Colm, que nessa fase de vida já não quer perder tempo com bobagens e até engraçado quando diz que Pádraic é mais interessante bêbado.
 
Há muitos aspectos e nuances que podemos trazer para nosso cotidiano, amizades desfeitas do nada, a falta de profundidade nas relações, a solidão mascarada por inúmeros artifícios/vícios, o tédio, angústias e ansiedades geradas a partir de expectativas que os outros depositam em nós, etc. A melhor personagem que encara com inteligência o meio em que vive e tem uma tomada de decisão perspicaz é Siobhán, ela é sincera ao dialogar, encara seus medos e suas peculiaridades e se move antes de ter seu ser corrompido ou destruído.
"The Banshees of Inisherin" é uma crônica excêntrica e por vezes absurda e apesar de ter um tom cômico, na verdade, é triste e desesperançosa, sua melancolia atinge em cheio ao nos colocar diante da solidão e das complexidades que abrangem a finitude da vida.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Marte Um

"Marte Um" (2022) dirigido por Gabriel Martins (No Coração do Mundo - 2019) é um filme feito com muito esmero ao retratar o espírito do povo brasileiro, as lutas travadas diariamente para conseguir seu sustento, a preocupação com os familiares e ainda conciliar os sonhos e esperança. Acompanhamos uma família de classe média baixa que mora na periferia de Contagem e sem grandes eventos vamos conhecendo cada um deles sobrevivendo aos desafios do cotidiano.
O filme traz a história de uma família periférica, nos últimos meses de 2018, pouco depois das eleições presidenciais. O garoto Deivinho (Cícero Lucas), o caçula da família Martins, sonha em ser astrofísico e participar de uma missão que em 2030 irá colonizar o planeta vermelho. Morando na periferia de um grande centro urbano, não há muitas chances para isso, mas mesmo assim ele não desiste. Passa horas assistindo vídeos e palestras sobre astronomia na internet. Wellington (Carlos Francisco), o pai, é porteiro em um prédio de elite e há um bom tempo está sem beber, uma informação que compartilha com orgulho em sessões do Alcoólicos Anônimos. Tércia (Rejane Faria) é a matriarca que depois um incidente envolvendo uma pegadinha de televisão acredita que está sofrendo de uma maldição. Por fim, a filha mais velha é Eunice (Camilla Damião) que pretende se mudar para um apartamento com sua namorada mas não tem coragem de contar aos pais.
A sensibilidade com que os personagens são retratados cativa o espectador, cada um deles tentando prosseguir da melhor maneira mesmo tendo a restrição econômica, dá-se o jeitinho e, acima de tudo, mesmo com todos os percalços externos e internos ao fim de tudo estão juntos. Tem um belo visual, os olhares brilham feito estrelas, há sempre um ar melancólico, porém nunca se rendendo de fato, a vida e os sonhos sempre resplandecem. Ver na tela características tão comuns, problemas tão corriqueiros que a imensa maioria passa aperta o coração, essas simples nuances de representatividade faz toda a diferença para conexão com a história, a crise econômica, as injustiças, os receios, os obstáculos praticamente intransponíveis, aliado a isso um período de obscurantismo na política começa a nascer e atacar os mais pobres, sobreviver a essas coisas só com muita força. Tércia por exemplo, depois de passar por uma pegadinha de um programa de TV fica tão traumatizada que acredita estar amaldiçoada, pois tudo ao seu redor começa a ruir, Wellington é um sujeito honesto e acaba sendo passado para trás em seu trabalho e sem piedade é jogado fora, também pressiona seu filho para que jogue futebol e até consegue uma vaga para participar de uma peneira, mas Deivinho se acidenta e fica impossibilitado, daí Wellington se rende a bebida pelo desgosto.

Deivinho sonha e o custo desse sonho é muito alto, ele passa o dia estudando sobre o universo, pretende apesar de tudo se tornar astrofísico e participar da missão que colonizará Marte. Ele é inteligente e até cria seu próprio telescópio, o que nos faz refletir sobre o tanto de pessoas capazes e cheias de vontade que estão presos em rotinas estafantes, mas que poderiam ser cientistas, astrônomos, profissões que não chegam para quem é pobre, e não adianta discursar sobre esforço porque essa é uma parcela extremamente pequena que contém doses altas de sorte. A verdade é que não existe incentivo e o desejo de que os pobres concretizem seus sonhos e saiam ocupando esses lugares. O filme neste aspecto é bastante sutil e prima mais pela beleza e poesia do cotidiano aprofundando aos poucos e deixando que o espectador perceba essas questões.
 
"Marte Um" é um conto lindo e triste sobre a realidade do povo pobre do Brasil, que sente a esperança pulsar toda vez que algo se despedaça a sua frente, esse poder de ser reerguer e de acolhimento entre seus familiares é o encanto do filme. Quem assistiu e não se identificou e se emocionou quando o pai fala: "A gente dá um jeito"? Não é daquelas propostas rasas de que é importante sonhar, não é isso não, é sobre a legitimidade de sonhar e a privação do meio para a concretização, é sobre a força que nasce de múltiplos sentimentos contidos, esses detalhes ganham uma grandeza singela na tela. A gente chora e sorri assistindo. Vale ressaltar a produtora mineira "Filmes de Plástico", o catálogo de filmes são riquíssimos e retratam a realidade brasileira com muito esmero.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O Menu (The Menu)

"O Menu" (2022) dirigido por Mark Mylod é um filme ácido e crítico que caminha por um suspense nada convencional, repleto de reviravoltas acaba sendo gostoso de degustar, diferente dos pratos que são expostos ao longo da história. É sempre satisfatório assistir um longa cuja história expõe as breguices estrambólicas da burguesia que faz questão de pagar para ter exclusividade em experiências, o cerne da narrativa é basicamente a gourmetização que acaba destruindo o amor envolvido no ato de preparar um prato para um cliente.
Tyler (Nicholas Hoult) é um entusiasta da alta gastronomia que convida Margot (Anya Taylor-Joy) para uma experiência única em um restaurante disputadíssimo que se localiza em uma ilha onde cultivam seus próprios alimentos, absolutamente todos. A cozinha desse famoso restaurante é liderado pelo renomado chef Slowik (Ralph Fiennes). Junto deles estão também outros singulares clientes. Por exemplo, um astro de cinema e sua assistente, três funcionários do mercado financeiro, uma importante crítica gastronômica e seu editor, além de um casal milionário.
O fato é que esses clientes não estão lá à toa, a única que não deveria estar é Margot, ela foi chamada de última hora por Tyler, isso causa impaciência no chef e bagunça todo seu cronograma, os pratos começam a serem servidos e enquanto Tyler se delicia com porções ínfimas, Margot desdenha, ela não faz parte da elite e não consegue achar nada satisfatório nesse lugar. A cada prato do menu situações pessoais dos convidados são expostas, o jeito autoritário e estranho do chef só eleva o terror, são jogados no ventilador hipocrisias e vaidades, o ego e o poder adquirido pelo dinheiro, pouco a pouco as máscaras se desfazem e alcança a violência, que para alguns também não é considerada real. Todos nesse espaço são pessoas deploráveis, Tyler é puxa-saco, prepotente e quando seu ídolo o coloca à prova se mostra um verdadeiro farsante. Os três amigos do mercado financeiro são os clássicos ricos que dão carteirada, mas se olhar mais de perto se vê a fraude. O ator decadente que pensa que todos ao redor o conhece, os críticos gastronômicos cuja soberba exala a quilômetros de distância quando analisam um prato, e também o homem que trai a mulher e que possui um segredo horroroso. O desenrolar vai passeando por um humor sádico e quanto mais se adentra no menu pior fica.
 
Em dado momento o chef diz para Margot escolher um lado e nisso está embutido a luta de classes, de um lado a exausta classe trabalhadora e do outro a caricatura do rico esnobe que não valoriza o serviço que consome e insatisfeito não compreende aquilo que sua fortuna compra, o que transforma qualquer prazer em objeto de luxo. Tudo vira questão de status e exclusividade quanto mais exorbitante são os preços. É bem interessante traçar paralelos com a realidade e perceber lugares que se vendem para pessoas especiais.
 
"O Menu" traz uma atuação impecável de Ralph Fiennes, que interpreta com rigor e elegância um ser humano frustrado, ele não gosta das pessoas que consomem seus pratos e busca uma vingança incluindo a si mesmo. Só apenas quando Margot pede um X-burguer, Slowik quebra essa armadura e o faz relembrar de quando cozinhava com amor e o quanto os clientes saboreavam com prazer o lanche. É uma cena maravilhosa!
Mesmo não se aprofundando tanto em seus personagens faz um excelente retrato de uma burguesia cafona e, sobretudo, o filme concebe um suspense inventivo e que nos faz não desgrudar os olhos da tela.  
*Disponível no catálogo da Star+

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Ruído Branco (White Noise)

"Ruído Branco" (2022) dirigido por Noah Baumbach (Mistress America - 2015), adaptação da obra-prima de Don DeLillo é um filme ousado que acaba soando estranho e caótico, mas é um estilo de história que agrada um público voraz que não se importa com narrativas difusas e divagações filosóficas acerca do entorno, uma mistura ácida, absurda por vezes, mas que traz um conjunto de ideias maravilhosas para debater após a sessão.
Difícil traçar uma sinopse, pois é uma obra em movimento, pode parecer que não vai para lugar algum, só que ela norteia o assunto e o restante o espectador decide o que fazer com a informação. Jack Gladney (Adam Driver) é um professor universitário de meia-idade especialista em Hitler que se sente frustrado por não saber alemão, ele vive com sua quarta esposa Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos, alguns de casamentos anteriores, é uma família comum que de repente é abalada por um "evento tóxico", uma nuvem de fumaça no horizonte transforma a vida da família que inicialmente se recusa a acreditar na veracidade dos fatos, mas a história não se prende nessa catástrofe, se passa algumas situações engraçadas ou absurdas e logo os vemos novamente vivendo como antes, certamente o paralelo com a pandemia é óbvio e daí pode-se viajar nas ideias, como o negacionismo e o autoengano, e é a partir dessa quebra de normalidade que começamos a perceber o drama existencial de cada um na tela, mas de maneira conturbada e até incômoda, gera ansiedade, pois nem tudo está conectado, são assuntos diferentes que não são aprimorados, tem que isolá-los ou focar naquele que mais te contamine. 
A trama se passa na década de 80 e é extremamente atual todos os pontos exibidos, como o academicismo com sua verborragia e altivez, além da frustração e autodepreciação, o tédio do privilégio, a depressão e a consciência dramática da própria finitude, o encucamento com coisas abstratas que levam à obsessão, o espetáculo do consumismo com o supermercado sendo uma distração com suas paletas de cores, o vício em ansiolíticos, o fetiche em desastres, teorias da conspiração, entre tantas outras.

 "A família é o berço da desinformação do mundo."
 
"Ruído Branco" é provocador, irônico, exagerado, esquisito, mas em alguma questão certamente o filme vai alfinetar o espectador, a espiral que o roteiro faz é uma experiência que atordoa, são situações cotidianas evidenciadas com a lupa do absurdo. 
 
O humor do longa de Baumbach é controverso e vem acompanhado de desespero, a realidade é assustadora e o autoengano faz parte do mecanismo para a sobrevivência das avalanches ocasionadas dia a dia, daí também parte para os vícios, sejam eles dos mais variados para estar num lugar mais confortável.
Filosofia afiada com altas doses de humor por vezes irritante e ridículo e outras sombrio e sarcástico, encarar a realidade e o entorno é um exercício cruel e indigesto, o filme faz isso muito bem e talvez não agrade exatamente por esse motivo, o som que vem dele é desarmônico e bastante desagradável.
*Disponível no catálogo da Netflix!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Close

"Close" (2022) dirigido por Lukas Dhont (Girl - 2018) é um filme muito sensível, um golpe que nos pega desprevenidos, um retrato das complexidades do amadurecimento, das descobertas da adolescência, o machismo entranhado nas relações, o preconceito e, sobretudo, o luto.
Léo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav de Waele) são amigos inseparáveis, vivem livres correndo pelas plantações da região, um amor protegido das garras infecciosas da sociedade, a inocência e o despertar soa sutil, bonito e o ambiente familiar ajuda nessa despreocupação com pensamentos conservadores. É algo natural acontecendo. Mas tudo muda quando começam a frequentar uma nova escola e à medida que questionamentos maliciosos e preconceituosos surgem, como a rotulação desse amor, os dois vão se distanciando, principalmente Léo que tem a necessidade de se inserir num grupo, Remi é mais introspectivo e se fecha quando essa distância de seu parceiro de vida se dá. Os quadros do filme que antes aproximavam e focavam neles juntos, agora se tornam escassos e melancólicos, os olhares contam muito sobre as emoções que os transcorrem, aliás essa proximidade nos afeta, somos parte dessa potente história de amizade/amor que se transforma em peso, desilusão, e então o golpe trágico; haja coragem e delicadeza para suportar.
O diretor compôs com muita acuidade e transborda pela tela as emoções, os traumas vividos na adolescência carrega-se para o resto da vida, amadurecer já é complicado e somando tragédias que levam a sentimentos como culpa não tem como mensurar a dor, além das particularidades que cada um tem para encarar tudo isso. Léo vai digerindo aos poucos os acontecimentos, o que vemos são fragmentos, ele se fecha, sente culpa, raiva, tristeza, vazio, seus olhares vão nos conduzindo.

"Close" tem cenas belíssimas e tristes, enchem os olhos e sentimos nosso coração se despedaçar, a narrativa contorna com amor a intimidade desses meninos; toda a estupidez de rotular e querer simplificar a relação de duas crianças que não freiam impulsos afetivos por normas e preconceitos vêm sempre com o olhar de fora e Léo sente o peso dessa imposição, afinal os "colegas" querem saber qual é a deles. Isso acarreta num mal-estar e a ruptura brusca machuca Rémi que já traz traços de uma melancolia. Um ponto a se destacar do filme é a seriedade com que se trata as emoções, o que na realidade parece que os adultos não fazem muita questão de enxergar, como a tristeza na infância/adolescência, traços de personalidade que se acentuam, desejos, etc.
 
Lindo, intenso, dolorido, sutil, sua linha narrativa engrandece e aponta para reflexões necessárias acerca do amadurecimento, o machismo encravado nas relações, o peso de carregar emoções que a sociedade incute através do medo. Léo vai se embrutecendo, enquanto Rémi se alia aos excluídos, o afastamento nevrálgico leva subitamente Léo a encontrar sentimentos pesados como culpa, vergonha, raiva e saudade. Um drama potente que é elevado pela complexidade das atuações, fascina pela inocência, mas logo tudo se quebra pela perda desta. Observamos com dor o desespero contido nos olhos de Léo. Grandioso!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Melhores Séries Vistas de 2022

  

Segue uma singela lista das melhores séries vistas de 2022, são obras de imensa qualidade e com certeza inesquecíveis.

07- "Amor e Anarquia" (Kärlek & Anarki - Suécia) 2 Temporadas - 2020/2022

Amor e Anarquia conta a história de Sofie Rydman (Ida Engvoll), uma consultora bem-sucedida, casada e mãe de dois filhos. Quando Sofie é contratada para modernizar uma antiga editora, ela conhece o jovem técnico de TI Max Järvi (Björn Mosten), iniciando um arriscado jogo de flerte com ele. Secretamente, Sofie e Max se desafiam a tomar atitudes e decisões que contradigam as normas sociais. A brincadeira parece inofensiva, mas, à medida que os desafios aumentam, os dois precisam lidar com as perigosas consequências de sua relação. 

06- "Terra à Venda" (Grond - Bélgica) 1 Temporada - 2022

Em Soil, quando um imigrante muçulmano morre na Bélgica, a família enfrenta o dilema de enterrar o corpo no país em que se encontram, ou realizar o desejo do falecido e retornarem para sua terra natal. Isso desperta no jovem Ishmael “Smile” Boulasmoum o desejo de começar um novo empreendimento. Ele e sua irmã acabaram de herdar os negócios do pai, e Smile acredita que exista uma oportunidade incrível para eles se começarem a trazer terra do Marrocos para que os imigrantes possam enterrar seus familiares no solo de sua nação. A partir disso, a família começa um negócio funerário que, apesar de lucrativo, irá se mostrar cheio de obstáculos e imprevisibilidades no caminho ao sucesso. 

05- "As Vidas Secretas da Família Uysal" (Uysallar - Turquia) 1 temporada - 2022

Oktay Uysal (Öner Erkan), um arquiteto de 44 anos está passando por uma séria crise de meia-idade. Oktay está tentando superar a ansiedade desse momento importante vivendo uma vida dupla. A primeira vista, ele aparenta ser apenas mais um pai de família, com um carro, uma casa e um trabalho que paga as contas. Por trás dessa fachada condicionada, ele é um punk como sempre foi quando era jovem. Dessa forma, Oktay decide retornar às suas raízes: usar roupas rasgadas, moicano e ouvir música barulhenta. Contudo, Oktay não é o único passando por um momento difícil. Em casa, cada pessoa de sua família passa por suas próprias crises de identidade e, eventualmente, suas jornadas individuais irão se chocar com o lado punk escondido de Oktay. Só elogios para essa série que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.

04- "Ollie, o Coelhinho Perdido" (Lost Ollie - EUA) 1 Temporada - 2022


A minissérie mistura duas narrativas complementares para compor uma bonita história de amizade. De um lado, acompanhamos a épica jornada de um brinquedo, que precisa enfrentar alguns desafios para reencontrar o menino que o perdeu. Ao mesmo tempo, conhecemos também a história dessa criança, que no processo acabou perdendo muito mais do que seu melhor amigo. A produção nos convida a olhar para o passado e lembrar daqueles companheiros que já deixamos para trás, mas que foram tão importantes em nossas vidas.

03- "Dahmer: Um Canibal Americano" (Monster: The Jeffrey Dahmer Story - EUA) 1 Temporada - 2022

Dahmer: Um Canibal Americano, minissérie de Ryan Murphy, acompanha a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters). A produção explora a juventude do assassino até sua vida adulta e traz um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos. Nascido na cidade de Milwaukee, Dahmer aterrorizou o estado de Wisconsin na década de 1980. Além dos brutais assassinatos, Jeffrey também cometia violência sexual e tortura contra sua vítimas. Seus crimes hediondos o tornaram um dos serial killers mais conhecidos e temidos dos Estados Unidos. Mesmo sua vizinha, Glenda Cleveland (Niecy Nash), tentando de várias maneiras denunciar o comportamento suspeito de Dahmer durante anos, a polícia a ignorou, facilitando os atos do serial killer. Tendo como alvo principalmente homens gays negros, Dahmer saiu impune por anos pelo simples fato das autoridades ignorarem o desaparecimento da vítimas. 

02- "O Urso" (The Bear - EUA) 1 Temporada - 2022

Na série de comédia dramática The Bear, Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem chef que herda um restaurante e tenta transformar o lugar em um grande negócio. No entanto, Carmy enfrenta várias dificuldades e busca ajuda nos diversos funcionários para tentar melhorar e transformar o The Beef em um dos maiores e melhores restaurantes de Chicago. A trama explora como cada personagem lida com suas vidas pessoais enquanto tentam alavancar suas carreiras na indústria alimentícia. Além das ambições profissionais e a rotina estressante do restaurante, a relação de Carmy com a família é cheia de tensão, especialmente depois do suicídio do irmão que impactou a todos. A produção discute comida, família e a rotina insana dos restaurantes. Carmy batalha para elevar seu estabelecimento e a si mesmo ao lado da equipe de cozinha carrancuda que aos poucos se transforma em uma nova família. 

01- "Better Call Saul" (EUA) 6 Temporadas - 2015/2022

Gus Fring (Giancarlo Esposito) está firme em sua decisão de acabar com os Salamanca, o que deixa Nacho (Michael Mando) em uma posição cada vez mais desconfortável, trabalhando para os dois lados. Enquanto isso, Saul (Bob Odenkirk) e Kim (Rhea Seehorn) se esforçam para desacreditar Howard (Patrick Fabian) na tentativa de concluir o caso Sandpiper. Paralelamente, através de vislumbres do futuro, acompanhamos a nova vida de Saul e os percalços por ele enfrentados após seu envolvimento nos negócios de Walter White (Bryan Cranston). História fechada com chave de ouro, uma obra-prima e sem dúvida, a melhor spin-off da história das séries de TV. Personagens icônicos!

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness)

 *Contém Spoilers

"Triângulo da Tristeza" (2022) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior, 2014 - The Square, 2017), ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano é um filme que expõe sem metáforas o privilégio da elite, daqueles que não aceitam não e cujo tédio é sanado por situações esdrúxulas. O longa abrange algumas temáticas interessantes que envolvem o capitalismo, como os influencers digitais e a maneira fácil de se ganhar montantes de dinheiro com publicidade, a imagem de perfeição e luxo atraem cada vez mais pessoas para esse mundo e no primeiro capitulo acompanhamos um casal de modelos que, por exemplo, brigam num restaurante sobre quem deveria pagar a conta. As situações exploradas no decorrer são permeadas por muito sarcasmo e o diretor faz questão de provocar o espectador, as pessoas são péssimas e o desenrolar dos acontecimentos só realçam o quão ridículos são. Dividido em três capítulos acompanhamos no primeiro momento Carl (Harris Dickinson), um modelo que está numa espécie de entrevista onde é ordenado a sorrir e parar em segundos e depois desfilar com ritmo, no caso é especificado que modelos homens ganham menos e logo o vemos com sua namorada Yaya (Charlbi Dean), também modelo em um restaurante caríssimo cuja conta a ser paga é discutida por um interminável, cansativo e raso diálogo sobre ela ganhar mais. A cena corta e logo os vemos em um iate luxuosíssimo tomando banho de sol, Yaya ganhou a viagem em troca de publicidade e os dois desfrutam do melhor que há, cardápio refinado e experiência única. Nesse iate acontecem situações incômodas envolvendo funcionários e seus clientes, inclusive Carl numa cena patética de ciúme, na verdade seu ego fica mexido ao ver um funcionário sem camisa consertando algo enquanto Yaya olha, o cara é bonito e ele se aborrece, então vai reclamar, logo depois vemos o cara indo embora do navio. A relação da classe trabalhadora com esses milionários é escancarada sem dó e retrata a EXPLORAÇÃO - escrevi em caixa alta porque essa palavra precisa ser gritada, e é exatamente isso o que o filme faz, os coloca numa posição de arrogância espalhafatosa que gera ânsia, se revela de maneira explícita e desenha muito bem a hierarquia, inclusive entre os funcionários designando regras absurdas.

Dentre esses passageiros conhecemos com mais afinco Dimitry (Zlatko Buric), um milionário russo que se define "Rei da Merda", já que sua fortuna advém de fertilizantes e adubos, o casal britânico Winston (Oliver Ford Davies) e Clementine (Amanda Walker), que enriqueceu vendendo granadas, além de outros que no decorrer ganham cenas icônicas, como Vera (Sunnyi Melles) e sua polêmica cena de vômito e caganeira e Therese (Iris Berben), que vitimada por um acidente vascular cerebral depende da cadeira de rodas e da bondade dos outros, ela consegue pronunciar uma única frase que dependendo a situação muda de entonação. Sem deixar de evidenciar a maravilhosa participação de Woody Harrelson, como o capitão bêbado Thomas Smith, principalmente no "duelo" de citações que trava com o russo sobre capitalismo e comunismo. Enquanto o navio sofre com uma tempestade, acaba a luz e o trágico está por vir, situações das mais estranhas acontecem, primeiro que ninguém liga para a tempestade e comem iguarias e enchem a cara de champagne, até que alguns passageiros comecem a iniciar o show de horrores.
 
O corte para o terceiro capitulo se dá numa explosão e logo vemos alguns sobreviventes chegando a uma ilha, aí se dá uma inversão de poder já que os ricos não sabem fazer nada para além de suas breguices, sempre foram servidos e para sobreviver precisarão eleger como líder Abigail, a faxineira, interpretada magistralmente pela filipina Dolly De Leon. O jogo de poder começa e as relações vão sendo testadas, principalmente a do casal de modelos, que em troca de comida aceita-se de tudo. O território se torna habitável e Abigail se vê numa posição confortável da qual nunca experimentou. O final do filme também joga com o espectador e promove uma série de análises das quais passam por inúmeros possíveis desfechos, a moralidade e as sentenças não são dadas de bandeja, o prato é dado e nós o comemos, mas cada um o digere de uma forma. 
"Triângulo da Tristeza" não poupa ironia e cutuca estereótipos, hipocrisias, preconceitos, privilégios, a moralidade humana de forma crua e debulha os absurdos disso tudo com risibilidade e perspicácia. Grande filme!
 
Nota: A atriz sul-africana Charlbi Dean de 32 anos infelizmente faleceu em agosto desse ano de uma doença repentina, vinda de uma carreira longa de modelo estava se firmando como atriz na série "Raio Negro".

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Resurrection

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David. Ele diz coisas enigmáticas para Margaret, palavras que a faz ir de encontro ao seu terrível passado. É incrível a capacidade de atração da história, a visceralidade que surge em Margaret quando acha que sua filha corre perigo, sua raiva, seu medo em ter de lidar com um monstro do passado que surge de mansinho, mas não menos perturbador, David é polido com sua voz mansa e sorriso cínico, a história parece não fazer sentido, a perspectiva que temos é embaçada e conflituosa, mas assim são os traumas que foram soterrados e que submergem inesperadamente.

É um filme que sabe trabalhar bem seu suspense/thriller, que possui uma protagonista que se ergue sobre a história, cuja atmosfera sufoca a cada evento enigmático, os olhares desesperados de Margaret, sua violência física que cresce quando prevê o perigo, sua angústia em lidar com um passado amargo e extremamente doloroso, abusos de diversos tipos, não há nada que mensure a grandeza da interpretação de Hall, a estranheza do filme se converte em emoção, não tem como não ter empatia por essa mulher que está afundada em terrores. Como superar traumas de abuso? Fugindo e seguindo a vida? E então como conviver com os fantasmas advindos disso?
 
Sincero e honesto ao retratar os acarretamentos de abusos perversos, "Resurrection" é um filme potente e voraz, não é fácil, não é simples, e seu final carrega um misto de peso e alívio. Destaque para a cena em que Magaret narra toda sua história pregressa para a estagiária, um monólogo destruidor.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

As Vidas Secretas da Família Uysal (Uysallar)

"As Vidas Secretas da Família Uysal" (2022) dirigido por Onur Saylak é uma minissérie turca espetacular disponível no catálogo da Netflix, uma história repleta de camadas que vai desnudando os personagens pouco a pouco, que provoca o espectador fazendo oscilar nossos sentimentos diante às ações de cada um. Com 8 episódios acompanhamos a família Uysal, que passa por uma crise, todos sem exceção têm suas perturbações e estão à beira de um colapso. Oktay (Öner Erkan) é um arquiteto de 44 anos que se vê sufocado com a rotina, emprego e família, não suporta mais viver desse jeito e resolve escrever uma carta se despedindo, mas acaba que ele desiste e a esconde. No seu íntimo vive uma chama esquecida e a partir de uma visita que faz a sua antiga cidade decide reviver seu "verdadeiro" eu, e então uma vida dupla se inicia, de dia enfrenta os percalços do trabalho e seu chefe instável, Berhudar (Haluk Bilginer), tentando projetar uma prisão que nunca sai, e a noite coloca sua jaqueta cheia de spikes com a escrita "amante do caos" e seu enorme moicano colorido. Mas não é só Oktay que está enfrentando uma crise, sua esposa Nil (Songül Öden) que quer retornar ao mercado de trabalho não consegue por ser considerada velha e isso só faz aumentar sua obsessão com a aparência e sua ânsia por procedimentos estéticos, além de que se infiltra numa teia de mentiras que acarretará uma consequência inesperada. Os filhos também estão perdidos, o adolescente Ege (Umut Yesildag) que claramente possui traços psicopatas e a pequena Ece (Nilay Yeral), uma menina inteligente que não tem nenhuma atenção e que busca um pouco disso numa vizinha. Há também Olcay (Ugur Yucel), o pai tóxico de Oktay. A cada episódio o enredo nos arremessa diante das atitudes desses personagens que estão infelizes mesmo tendo uma condição financeira elevada, a distância só faz esses segredos se tornarem cada vez mais fortes e os sentimentos perante eles mudam a cada instante, ora sentimos empatia, ora asco, a complexidade e o caráter reflexivo dá um ar beirando o perturbador, pois são inúmeras as questões que surgem, como por exemplo, a hipocrisia, o egoísmo, o machismo, a indiferença, a máscara social, e com o passar dos episódios Oktay vai se tornando uma chacota, isso se concretiza ao final quando o amigo expõe a sua mediocridade e hipocrisia, que aquela fantasia nada tem a ver com ser punk, as relações que ele formou com os três desabrigados, esses sim lutando contra o sistema só aumenta as características de uma pessoa entediada e covarde.

Só elogios para essa minissérie que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.
 
"As Vidas Secretas da Família Uysal" é uma minissérie que merece o reconhecimento, bem feita e que foge das produções turcas que se assemelham a dramalhões novelescos e que usam de artifícios básicos e comuns para fisgar o espectador, vale destacar o roteirista Hakan Gunday, que tem outras séries maravilhosas em seu currículo, como "Assassino sem Passado" e "Şahsiyet". Enfim, ainda vale enaltecer o trabalho dos atores e, principalmente, de Haluk Bilginer, como Berhudar, que compôs um personagem cheio de camadas que com o tempo só piorava. Sensacional!