Mostrando postagens com marcador Luxemburgo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luxemburgo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Mary Shelley

"Mary Shelley" (2017) dirigido por Haifaa Al-Mansour (O Sonho de Wadjda - 2012) é uma biografia delicada e fascinante sobre a precursora do gênero de ficção científica, a criadora do romance gótico Frankenstein. Apesar de não ter profundidade e peso a história consegue cativar por seus personagens interessantes e sua atmosfera literária. 
A história do romance entre o poeta Percy Shelley (Douglas Booth) e Mary Wollstonecraft (Elle Fanning), uma jovem de 17 anos que viria a se tornar a aclamada escritora Mary Shelley, autora do livro "Frankenstein ou o Prometeu Moderno".
Mary Goldwin estava destinada às palavras, criada num ambiente intelectual e libertário, filha do filósofo William Godwin e da escritora e feminista Mary Wollstonecraft desenvolveu desde pequena paixão pela escrita, o pai a incentivava a encontrar sua própria voz e seu próprio estilo, e para isso a enviou para o campo, onde conheceu o poeta e seguidor de seu pai Percy Shelley, que mais tarde se tornaria seu marido, quando Percy e Mary se apaixonaram decidiram viver juntos mesmo Percy já sendo casado, seu espírito de amor livre gerou consequências dramáticas, inclusive o suicídio da sua primeira mulher, Mary viveu muitas tristezas e decepções e a partir delas criou sua obra-prima, todas as agruras, desde a perda do filho, as dívidas, o ostracismo, os altos e baixos do relacionamento contribuíram para sua evolução como escritora. E foi num verão tedioso e libidinoso em que passaram na casa de Lord Byron que Mary começa a conceber a ideia de seu romance, lá junto de sua meia-irmã Claire Clairmont, amante de Byron e o médico e escritor John William Polidori têm a ideia de cada um escrever uma história de fantasmas depois de lerem alguns contos de horror. Assim nasce uma poderosa história de horror sobre abandono, uma novidade na época ainda mais para uma mulher, a história foi recusada por inúmeras editoras, não acreditavam que tinha sido ela a autora, uma moça de aparência delicada ter colocado tais palavras sombrias e tristes no papel, então como última alternativa aceitou que o livro fosse publicado anonimamente com o prefácio de seu marido, o que gerou grande interesse dos leitores, mais tarde seu pai descobriu a verdade e conseguiu fazer uma nova remessa colocando o nome de Mary, as outras obras concebidas a partir do jogo na casa de Byron também geraram polêmicas, Polidori criou a primeira história de vampiro inglesa, "O Vampiro", mas foi publicada e creditada a Byron, foi um enorme sucesso e mais tarde Byron viria refutar a autoria, o vampiro descrito por Polidori era um ataque ao amigo, afetado, arrogante, mas que também sabia ser sedutor. Já as outras não tiveram tanta fama, Percy Shelley redigiu "Fragmento de uma História de Fantasma" e a verdadeira história de Byron tão pouco viria a ser comentada, esse verão em que ficaram presos na mansão de Byron por conta de uma tempestade foi cenário de muito ócio e de elucubrações, Mary era uma ouvinte silenciosa e tinha curiosidade na ciência, nas teorias de Darwin e por isso se aproximou bastante de Polidori, a concepção de "Frankenstein" foi uma junção de todos os seus sentimentos e seus interesses.

No filme o relacionamento de Percy e Mary é retratado com muito romantismo, Percy tinha ideias de amor livre e acreditava que por Mary ter sido criada em meio a ideias liberais também nutria esse desejo, porém ela queria somente Percy e sua paixão era demasiada forte, sofreu muitas desventuras e decepções, a vida dos dois foi marcada por perdas, infidelidades e dívidas, mas se amavam e se admiravam intensamente, além da paixão compartilhavam e se dedicavam ao amor à leitura e escrita. 
A história destaca bastante os outros personagens e cria a curiosidade no espectador em querer saber mais sobre eles, um filme de cada um seria ótimo, Lord Byron, por exemplo, magnifico e repulsivo na pele de Douglas Booth, a animada e carente meia-irmã de Mary, vivida por Joanne Froggatt, que presenciou boa parte dos dissabores, assim como os vivenciou, principalmente ao engravidar de Byron. 

"Mary Shelley" retrata a trajetória de Mary Shelley até sua criação mais famosa e que ainda continua sendo referência do horror gótico e ficção científica, e claro, uma crítica à arrogância e prepotência humana e cuja descrição da solidão e abandono são sentimentos  que conseguem penetrar à alma. 
É um filme de atmosfera romântica, o peso e a decadência são amenizadas, mas os elementos literários cativam e embelezam à obra, para quem quer conhecer mais da autora vivida por Elle Fanning e do fatídico verão na mansão de Byron até a publicação de um dos romances mais famosos e influentes, é um exemplar encantador e poético.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Souvenir

"Souvenir" (2016) dirigido por Bavo Defurne (No Caminho das Dunas - 2011) é um filme leve e despretensioso dentro da soberba filmografia de Isabelle Huppert, ela abrilhanta a narrativa que soa como um conto de fadas, é um romance açucarado e permeado de obstáculos, mas que garante ao final da sessão um sentimento de aconchego e felicidade. 
Laura (Isabelle Huppert), caiu no anonimato após perder uma final para o grupo ABBA no Festival Eurovisão da Canção, ela vive agora trabalhando em uma fábrica de patê. Um jovem colega de trabalho, Jean Leloup (Kévin Azaïs), descobre seu segredo e, com charme, a convence a se apresentar pela primeira vez em anos. Aspirante a boxeador, ele se empolga com a nova possibilidade de negócio e, apaixonados, os dois decidem tentar fazer com que o retorno dela aos holofotes aconteça.
Acompanhamos a tediosa rotina de Liliane na fábrica, sua solidão é quebrada quando um jovem belo e cheio de vida começa a fazer um estágio na fábrica e se encanta por ela, ele desconfia que ela seja Laura, uma famosa cantora do passado por causa que seu pai é um grande fã, inclusive enciumando a sua esposa, entre olhares e pequenas conversas se aproximam e quando Jean de fato descobre seu "segredo" a convida para uma apresentação fechada no clube em que treina boxe, inicialmente reluta, mas logo sente-se preenchida por poder dar vida a seu talento novamente. A relação entre os dois se estreita cada vez mais e Jean a incentiva a continuar na carreira depois que vazam sobre Liliane voltar à ativa após essa apresentação, ele é um jovem cheio de sonhos e passa toda a energia para a cantora que reaviva seus desejos. O relacionamento entre os dois vai da ternura a grandes rompantes, existem muitos obstáculos, mas sempre conseguem um meio de driblar as diferenças, há uma grande admiração vinda dos dois lados. 
Kévin Azaïs vive um personagem adorável, carismático, o jovem encanta Liliane, vivida por Huppert de modo charmoso e descontraído, a beleza de Jean e o interesse que ele demonstra por ela a faz reavivar o que há muito havia se perdido, a história tem uma leveza surpreendente e fascina por sua simplicidade e colocar dois personagens, que apesar de idades díspares cultivam a pureza dos sonhos e da coragem de se entregar mesmo com todo o receio e incertezas.

Há beleza em todos os aspectos do longa, seja na interpretação, no desenvolvimento da história, na fotografia que exibe uma aura fantasiosa e na composição dos cenários, como a casa de Liliane que é totalmente vintage, como a televisão, vitrola, etc, uma sensação de nostalgia permeia o ambiente, ela de fato parou no tempo e vive o cotidiano de maneira mecânica, mas devagar com a chegada do vivaz Jean a imponência de Liliane vem à tona, e são esses momentos que nos fisga, quando Laura emerge novamente com todo o brilho cantando suas charmosas canções, como "Souvenir" e "Joli Garçon", a responsável por seu renascimento. 

"Souvenir" tem ares de conto de fadas, traz sensação de nostalgia e exibe graciosidade e simplicidade, um ótimo filme para alimentar sonhos, imaginação e amores. Impossível não sair cantarolando ♪Joli garçon. Je dis oui ♪

terça-feira, 15 de março de 2016

O Novíssimo Testamento (Le Tout Nouveau Testament)

"O Novíssimo Testamento" (2015) dirigido por Jaco Van Dormael (Sr. Ninguém - 2009) é uma comédia sarcástica que ora pende para o absurdo, ora para a crítica, as metáforas estão espalhadas por toda parte, em todos os personagens. É divertido e sagaz ao colocar o foco não somente no cerne religioso e sim na questão do machismo, o Deus patriarcal que tudo domina. 
Deus existe e mora em algum lugar de Bruxelas, arrogante e grosseiro passa os dias digitando em seu computador ultrapassado regras escrotas para tornar a vida humana mais difícil, com ele mora sua mulher submissa e sua filha Ea, que arquiteta um plano de vingança para seu pai. Decidida a escrever um novíssimo testamento, pede conselhos a seu irmão J.C, que não passa de uma estátua que ganha vida em alguns momentos. Ea quer livrar a humanidade desse Deus e pra começar entra na sala secreta de seu pai e invade o seu computador arcaico, e então manda a data exata da morte de todas as pessoas, todos ficam assustados achando ser algum hacker, mas quando as mortes começam a bater com as datas percebem ser verdade, aí algumas pessoas decidem fazer extravagâncias, realizar seus sonhos, abandonar seus empregos, e outras continuam na mesma, outras ainda sabendo do tanto de vida que terão brincam, por exemplo, um rapaz que se joga de tudo que é lugar e se salva por não ser o dia de sua morte. Com o passar do tempo ninguém mais tem medo e a figura de Deus se torna dispensável.
Deus é retratado como um sujeito sem escrúpulos, bruto, machista e que se vangloria, frases como "eu seja louvado" são ditas a todo o tempo, ele trata a sua mulher como um nada e a sua filha com estupidez, até que ela se vinga e ele precisa tirar o traseiro do sofá e ir atrás para tentar reverter a situação, no que se mostra ainda mais incompetente e vítima de suas próprias regras.
Enquanto isso Ea está coletando seus seis novos discípulos para escrever o novíssimo testamento, primeiro encontra um mendigo do qual irá escrever os relatos das pessoas que ela escolheu, entre eles está uma moça solitária que se apaixona por seu assassino, um menino que decide virar menina, a mulher que abandona o marido e começa a namorar um gorila, entre outros.
Benoît Poelvoorde como Deus está sensacional, ele bebe, fuma e xinga, o filme desconstrói a imagem sublime e celestial e coloca Deus em uma frágil posição. Em meio aos humanos é tido como um maluco, um bêbado. Ea interpretada por Pili Groyne esbanja graciosidade e inteligência, os momentos em que conversa com as pessoas são os melhores, ou quando ela escuta a música vinda de dentro de cada um, e também quando decide inventar um sonho para a pessoa. Yolande Moreau como a mulher de Deus, intitulada Deusa, vive a fazer seus bordados e a ver jogos de beisebol, no final do longa ela demonstra toda a sua doçura e prova que o mundo pode ser reformulado e ter todas as cores e possibilidades. O toque feminino faz toda a diferença!
"O Novíssimo Testamento" abarca uma série de questões, em toda cena existe algo para se pensar, tudo é envolto em um tom de comédia e toques surrealistas, mas não se engane há grandes reflexões.

O que você faria se soubesse a data exata de sua morte? Abandonaria sua rotina, transformaria sua vida, ou simplesmente a esperaria da mesma maneira que antes? Diante deste fato alguns personagens, os discípulos que Ea escolheu refletem sobre o que sentem ao saberem o dia exato em que vão morrer. Deus se torna uma figura ultrapassada, assim como seu computador, a ideia de um Deus que tudo vê, tudo comanda e tudo julga é repressora, machista e ilusória. A maior mensagem do filme é para sermos o que bem entendermos, livres de qualquer julgo. Não há nada que nos impeça de ser feliz a não ser nós mesmos.
Jaco Van Dormael soube colocar delicadeza, sátira, fantasia, crítica, metáforas num delicioso roteiro e deu de presente ao espectador um longa engenhoso.

Discutindo as relações humanas, a consciência da mortalidade, o machismo da religião, as influências moralistas que regem as vidas das pessoas, adentramos em um mundo completamente ficcional e estranho, mas ao mesmo tempo real e crítico. A comédia serve para dar leveza e o humor não tem limites. Outro ponto positivo da trama é sua estrutura episódica que dá a liberdade de brincar com os personagens.
"O Novíssimo Testamento" é uma comédia brilhante, desfaz conceitos, preconceitos e proporciona um olhar mais amplo para a vida, ao invés de procurarmos sentido em algo dito superior, é mais válido tomar consciência de si mesmo e perceber o que de fato nos faz feliz. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Mr. Hublot

"Mr. Hublot", curta francês vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação de 2014, é dirigido por Laurent Witz e Alexandre Espigares. 
O senhor Hublot é um homem aposentado, solitário, com transtorno compulsivo (TOC) e que tem medo do mundo exterior. Mas com a chegada de seu novo robô de estimação, que lembra um cão, as coisas começam a tomar um outro rumo. Hublot terá que aprender a lidar com seu novo companheiro.
A vida tão certinha e desinteressante deste homem muda quando avista de sua janela um cachorro-robô latindo na rua para os carros que passam, no outro dia ele vê o cão tremendo de frio e dormindo dentro de uma caixa, no dia seguinte Hublot percebe que a caixa é levada pelo caminhão de lixo, desesperado sai de sua casa e tenta parar o caminhão, em vão. De repente, ele o encontra e feliz decide adotá-lo. O cachorro com o tempo cresce desenfreadamente e começa a destruir a casa, até que o homem que tinha medo de mudanças decide a lidar com sua nova vida.
É um curta muito gracioso e cheio de detalhes, por mais que pareça óbvia a mensagem vale a pena assistir, mostra que quando se tem amor, as mudanças acontecem de forma natural. O universo de curtas-metragens é muito enriquecedor e é incrível a capacidade de se passar uma mensagem que emociona em tão pouco tempo. A animação mereceu a estatueta!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um Bairro Distante (Quartier Lointain)

"Um Bairro Distante" (2010) é uma adaptação do mangá de Jiro Taniguchi, o filme narra a história de Thomas, um cartunista e pai de família na faixa dos cinquenta anos, Thomas se sente distante da família e apesar dos fãs adorarem suas personagens, o lado profissional está afetado, ele gostaria de fazer algo mais intimista e emocional. Thomas sem querer toma o trem errado e volta à cidade onde cresceu, em uma visita ao cemitério desmaia e desperta quarenta anos antes em seu corpo de adolescente. De volta ao passado, deverá entender as razões da misteriosa partida de seu pai.
A grande sacada do filme é que Thomas volta a sua adolescência com a mentalidade e a consciência de adulto, ou seja, ele revive todos os acontecimentos antes da estranha partida de seu pai de maneira mais compreensiva. A volta ao passado lhe dá a oportunidade de mudar o ocorrido, mas será que é possível mudar o que já aconteceu?
Os sentimentos pessoais se tornam egoístas quando envolvem outras pessoas, no caso de Thomas ele tenta segurar seu pai na casa no dia em que ele irá embora, só que o desejo do pai era o mesmo, fugir de uma vida da qual lhe foi imposta, uma vida que o aprisionava. O menino aos poucos vai descobrindo o que há por trás daquele homem sempre quieto, e então compreende que mesmo que as decisões de seu pai o afete, não poderá mudar o passado.
Thomas volta em uma cidade do interior de Paris dos anos 70, onde viveu sua adolescência, seu primeiro amor, suas descobertas e seus traumas. São cenas charmosas e imensamente nostálgicas. Quando somos crianças o mundo a nossa volta parece pequeno, tudo se resume aos pais e aos nossos desejos supridos. Quando adolescentes começamos a perceber que a vida não é feita de cores a todo instante, nossos pais têm problemas, às vezes já nem se entendem mais, ou na verdade, nunca se entenderam, e mesmo assim não levamos em conta os seus sentimentos, ainda não somos capazes de enxergá-los com distanciamento. Só mais tarde é que compreendemos a dimensão de alguma situação que quando adolescentes não compreendíamos.

Thomas com mentalidade adulta em corpo de criança revive uma situação traumática, seu pai o abandonou no dia de seu próprio aniversário, para todos da família foi um episódio estranho e sem explicação, mas agora ele pode enxergar os porquês, mas principalmente compreender e até perdoar.
Thomas ao regressar encontra seus amigos de escola, as brincadeiras, a garota da qual era apaixonado, mas essas coisas de menino vão sendo deixadas pra trás, as descobertas acerca de sua mãe e seu pai vão lhe abrindo caminhos. Tinha algo que segurava seu pai na cidade e não era a família que ele formou por pura ocasionalidade. É uma realidade difícil de encarar mas completamente necessária, já que a partida do pai o perseguiu pela vida toda.

"Um Bairro Distante" é um filme sensível, segue de forma leve e passa a mensagem sutilmente nos dando a possibilidade de olhar por diversos ângulos.
Tem ótimas atuações e uma fotografia maravilhosa, além de ser fiel ao mangá de Jiro Taniguchi, que passa o seguinte recado: Não podemos mudar o nosso passado, mas podemos compreendê-lo, e por conseguinte, nos entendermos melhor.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Histeria (Hysteria)

Em 1880, a Inglaterra ainda tem dificuldade em abandonar velhos hábitos, em especial na medicina. Nessa época, que não se acredita na existência de germes e bactérias, ainda são usados métodos iguais para qualquer tipo de doença. Mortimer Granville (Hugh Dancy) é um jovem médico de pensamentos modernos que sofre para conseguir ajudar as pessoas ao seu redor, e para manter um emprego fixo, já que ninguém gosta de suas inovações. Quando começa a trabalhar com o Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), Mortimer conhece a "doença" chamada Histeria, que estaria afetando metade das mulheres de Londres. O jovem também conhece as duas filhas do velho doutor, a comportada Emily (Felicity Jones) e a revoltada Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Ao mesmo tempo que os tratamentos para a Histeria evoluem, Mortimer começa a ver com outros olhos o papel das mulheres na sociedade em que vive e a duvidar se a Histeria realmente é uma doença.
A tal da Histeria era um termo médico para a "doença" que as mulheres tinham na época, quando elas ficavam agitadas, emocionalmente abaladas e agressivas (efeitos normais de ciclos menstruais ou apenas desejo sexual, já que era uma época de muita repressão às mulheres). O tratamento era um estímulo sexual com os dedos ou com jatos d'água, feitos claro, por um profissional.
"Histeria" conta de modo muito leve e com o tão conhecido humor inglês a história do primeiro vibrador numa sociedade completamente machista, onde as mulheres não tinham espaço, eram reprimidas, insatisfeitas e quando alguma se sobressaía como foi o caso de Charlotte, era vista como uma mulher voluntariosa, histérica, e que jamais se casaria, pois nenhum homem se atreveria a domar uma mulher assim. A ideia do vibrador, ou massageador, veio porque as mulheres cada vez mais procuravam o tratamento manual, e assim as mãos dos médicos ficavam dormentes. O filme revela o assunto de forma superficial, colocando ênfase também no começo da mudança em relação de como as mulheres eram vistas no século passado.
Apesar do filme ser classificado como comédia romântica, ele não se encaixa perfeitamente no gênero, tem toda a história de romance e de opostos que se atraem, mas o foco está no interessante retrato desse pedaço da História em que ocorreram grandes mudanças.

O filme retrata uma sociedade diferente, cheia de elegância e pomposidade, mas que na verdade era dominada pelo machismo. As várias cenas em que as mulheres estão no consultório com as pernas abertas, porém cobertas com descrição são um tanto engraçadas, os orgasmos são dos mais variados, e os médicos ao final dizendo que a consulta foi satisfatória e aliviou a paciente da histeria são momentos pitorescos. A ideia era de que a mulher não tinha prazer sexual como o homem, portanto, logo era diagnosticada histérica, mas graças a invenção do vibrador, novas descobertas foram feitas e a mulher avançou grandes passos na sociedade.
Outro ponto muito bom do filme é Edmund, amigo de Mortimer, um homem de fortuna que esbanja com as novidades tecnológicas da época, inclusive ele foi um dos que ajudaram a criar o tão adorado vibrador, aparece também o telefone, super novidade na época e que só pessoas abastadas podiam ter.
O ritmo é ótimo, o conteúdo interessante, divertido sem ser debochado. É um tanto quanto estranho e curioso, digamos que é uma versão romanceada sobre o primeiro vibrador, e isso já vale a pena para querer conferi-lo.