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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Música e o Silêncio (Jenseits der Stille)

"A Música e o Silêncio" (1996) dirigido por Caroline Link (Saída Marrakech - 2013) é um belo e sensível filme, traz como reflexão a importância de nossas escolhas em contrapartida com o sentimento por aqueles que amamos, e, sobretudo, a compreensão.
Desde a mais tenra idade, Lara serviu de intérprete para seus pais surdos, ajudando-os a se comunicar com os outros. Já crescida, ela demonstra grande talento musical. É quando surge um dilema em sua vida, pois se quiser abraçar uma promissora carreira, terá que mudar-se para Berlim. Lara (Tatjana Trieb) é uma criança esperta e sabe lidar com seus pais surdos de maneira muito leve e bem-humorada, ela os protege e os auxilia em todos os aspectos, Kai (Emmanuelle Laborit) e Marti (Howie Seago) parecem duas crianças necessitando sempre de apoio, não há grandes empecilhos e a família é muito feliz, Lara está para ganhar uma irmãzinha e é na tradicional festa de natal em família que com brilho nos olhos se apaixona pela música ao visualizar sua tia Clarissa (Sibylle Canonica) tocando clarinete. Sua tia lhe presenteia com o instrumento e assim nasce seu desejo pela carreira, mas os pais não gostam por ser um mundo que não compreendem, o pai principalmente é contra, é um tanto egoísta até porque guarda ressentimentos de sua irmã por um episódio na infância. Mas, o professor de Lara a incentiva e a tia lhe impulsiona. 
Aos 18, Lara (Sylvie Testud) precisa decidir se irá mesmo persistir nessa carreira, pois precisa partir para Berlim e deixar seus pais. Lara, então, parte com a tia e começa a vivenciar experiências, como o primeiro amor, mas ela é uma garota triste no fundo, sente falta dos pais e entra em conflito com sua tia. As coisas começam a tomar uma nova forma quando Marti percebe que está perdendo a filha, a irmã de Lara tem um temperamento diferente do dela e não tem aquele sentimento de proteção com os pais, ela ama a irmã e vai sozinha atrás de Lara, diante destas circunstâncias Marti promete compreender o desejo dela pela música, algo alheio a seu mundo. 

Este drama tem um incrível poder de nos transportar para as emoções dos personagens, que são compostos com tanta sensibilidade e verossimilhança, há inúmeras cenas marcantes, como quando o pai pergunta a Lara como é o som das coisas, como da neve, do pôr do sol, são momentos tocantes entre pai e filha, o carinho de Lara, a paciência e a compreensão dela é imensa, o que é lindo, mas torna os pais dependentes e acaba dificultando suas decisões futuras e também a sua personalidade. Mas, claro, quando algo atinge o âmago do pai ele reage e o interessante deste longa é exatamente a mensagem final, do como é primordial trabalhar a compreensão, para assim entender as características e limitações de cada um, como Lara explicando seu mundo, a música ao pai, que conhece apenas o silêncio.

Os diálogos, os olhares, os detalhes, as emoções transpassam a tela, retrata com delicadeza dois jeitos de ver e sentir o mundo, mas que se unem pelo amor, afinal para sentir não há necessidade de som. O filme tem uma aura melancólica e mágica, as atuações de Tatjana Trieb (criança) e Sylvie Testud (jovem) encantam e percebemos a drástica mudança de personalidade, assim como a transformação que acontece em Marti ao se ver só e perdendo sua filha por egoísmo, ciúme e mágoas passadas, ao final vemos um pai mais maduro e disposto a compreender a filha, a última cena é dotada do mais puro sentimento de afeição e compreensão. Belíssimo!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gabbeh

"Gabbeh" (1996) é um longa repleto de poesia, tradição e misticismo. Gabbeh é o nome de um tapete persa, colorido e decorado com motivos que transmitem a história familiar de quem o tece. Gabbeh é também o nome da personagem central feminina, integrante do povo Ghashghai, uma tribo nômade que cria ovelhas e usa a lã tingida para tecer os seus tapetes. Dentro desta perspectiva, Mohsen Makhmalbaf, diretor iraniano profundamente e ativamente envolvido em questões políticas e sociais, amante e defensor da arte e da literatura, não segue uma única tendência cinematográfica, mas experimenta vários estilos a serviço de uma linguagem poética que, segundo ele, é essencial quando se quer tocar e cultivar os melhores sentimentos nas pessoas.
Os filmes ocidentais são totalmente diferentes dos orientais, enquanto no ocidente as histórias são complexas e os personagens simples, no oriente a história é simples e os personagens complexos, os orientais se apegam a uma filosofia de vida, um certo misticismo que torna tudo muito mágico e misterioso. O que faz com que, quem não esteja acostumado, ache-o tedioso e lento. "Gabbeh" é um tipo de realismo fantástico, um conto de fadas étnico. A jovem Gabbeh surge de um tapete para um casal de idosos, sugerindo ser ela mesma a mulher em idade avançada, e conta sua história como quem a assiste. Além disso, tal como nos fios do tapete, as ações das personagens se entrelaçam e afetam vidas mutuamente. Se, quando tecidos, alguns fios ficam soltos para serem aproveitados na trama, mais adiante, algumas cenas do filme, parecem carecer de continuidade, complementa-se ou são repetidas mais tarde, reforçando as metáforas não explícitas, tais como num poema. A fotografia natural e simplista é o mais arrebatador, a natureza se entrelaça aos personagens, em dado momento é dito: "A vida é cor!" As cores representam os estágios da vida de Gabbeh. O apelo visual é complementado ao som da natureza, como o riacho, as ovelhas e o uivo do amado de Gabbeh.
A mulher carrega na tradição a incumbência de tecer, mas não tem a liberdade de falar, elas buscam assim uma outra maneira de expressar-se. O diretor mostrou em "Gabbeh" a mulher como alguém que ama participar da narrativa e encontra no tecer uma forma de contar sua história do seu ponto de vista, através de seus olhos. Por isso que cada tapete é único, não existem dois tapetes iguais, cada um é uma reflexão única da tecelã, sobre sua vida.

A velha lavando seu Gabbeh a beira do riacho com seu velho ao lado veem sua história quase que cantada, é puro lirismo. Participamos da história deles e temos imensa alegria de conhecer o que aquele tapete tecido há tanto tempo atrás tem para dizer. Um aspecto interessante é que o ato de contar histórias é uma tradição iraniana, e Mohsen Makhmalbaf fundiu isso em seu filme, ele também subverte a tradição quando coloca as mulheres como sujeito da narrativa. 
"Gabbeh" é poético e recheado de simbolismos, uma joia rara a ser descoberta e apreciada com carinho!