Mostrando postagens com marcador Thriller. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Thriller. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Resurrection

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David. Ele diz coisas enigmáticas para Margaret, palavras que a faz ir de encontro ao seu terrível passado. É incrível a capacidade de atração da história, a visceralidade que surge em Margaret quando acha que sua filha corre perigo, sua raiva, seu medo em ter de lidar com um monstro do passado que surge de mansinho, mas não menos perturbador, David é polido com sua voz mansa e sorriso cínico, a história parece não fazer sentido, a perspectiva que temos é embaçada e conflituosa, mas assim são os traumas que foram soterrados e que submergem inesperadamente.

É um filme que sabe trabalhar bem seu suspense/thriller, que possui uma protagonista que se ergue sobre a história, cuja atmosfera sufoca a cada evento enigmático, os olhares desesperados de Margaret, sua violência física que cresce quando prevê o perigo, sua angústia em lidar com um passado amargo e extremamente doloroso, abusos de diversos tipos, não há nada que mensure a grandeza da interpretação de Hall, a estranheza do filme se converte em emoção, não tem como não ter empatia por essa mulher que está afundada em terrores. Como superar traumas de abuso? Fugindo e seguindo a vida? E então como conviver com os fantasmas advindos disso?
 
Sincero e honesto ao retratar os acarretamentos de abusos perversos, "Resurrection" é um filme potente e voraz, não é fácil, não é simples, e seu final carrega um misto de peso e alívio. Destaque para a cena em que Magaret narra toda sua história pregressa para a estagiária, um monólogo destruidor.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

The Innocents (De Uskyldige)


"The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.
Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso.
Acompanhamos a adaptação e as experiências geradas a partir da amizade que nasce entre Ida, Ben (Sam Ashraf) e Aisha (Mina Yasmin Bremseth Asheim), todos de alguma forma desajustados e solitários, os pais de Ida dão mais atenção a sua irmã Anna (Alva Brynsmo Ramstad), por conta do autismo, são pais que não veem os filhos, não sabem o que se passa e todo o tempo das crianças dispensado nos arredores do prédio surgem ideias de brincadeiras que quando executadas desencadeiam reações diferentes em cada, além disso, descobrem que possuem poderes, Ben consegue mover objetos, Aisha consegue ler pensamentos, e esta cria um laço com Anna, que desenvolve-se a partir dessa conexão. Esse elo de certa forma alimenta Ida e ela vai se modificando, entendendo a empatia, ao contrário de Ben, que utiliza seu poder para cometer maldades para aqueles que lhe fizeram alguma coisa. O desenvolvimento da história é interessante, misteriosa e pende para reflexões diversas, principalmente sobre a moralidade na infância, que a partir das experiências e observações vai se formando e quando um adulto não dá suporte se transforma num caos interno, isso é muito explícito em Ben, ele não tem a bússola moral ainda, é desprovido de afeto e não sabe lidar com críticas e brincadeiras, seu instinto é revidar e tendo um poder que aumenta junto com sua raiva não tem como se desenvolver de forma sadia, mas não podemos julgá-lo malvado justamente por ele não ter essa consciência. Já Aisha é uma menina mais sensível e observadora, a empatia já está instalada nela, perceba que se importa com os outros ao redor e quer unir forças para dar um fim no que Ben começou. E, Ida, que antes não se importava com Anna e se sentia excluída percebe a mãe e os outros de forma diferente. Seu olhar se amplia e outras nuances aparecem.

"The Innocents" é um filme magnífico que mesmo tendo cenas pesadas e incômodas não perde a sutileza nem a humanidade das crianças em meio a um cenário frio e desesperançoso. Com atuações impecáveis, o elenco infantil cria perfeitamente a sensação de tensão e angústia devido o descontrole que vem através de seus poderes. Especialmente a pequena Ida - Rakel Lenora Fløttum, que contracena com sua mãe Ellen Dorrit Petersen, consegue expressar uma gama de sentimentos complexos que ora revira o estômago, como na cena do gato, e ora encanta, como na cena final, que é um belo exemplo de um despertar de união de forças.
 
O filme é um misto de terror/suspense/drama que combina elementos perturbadores e reflexivos na mesma proporção, lento em seu desenvolvimento, mas uma experiência cinematográfica incrível, que certamente não irá sumir após algum tempo, é um filme marcante, intenso e que exemplifica de maneira incômoda a falta de moralidade na infância.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Arkansas / The Gentlemen (Magnatas do Crime)

Segue dois filmes que tratam de um tema em comum, o tráfico de drogas, mas que são construídos de forma única, os dois com seus diferenciais são sem dúvidas exemplares maravilhosos que merecem mais reconhecimento. Confira:

"Arkansas" (2020) marca a estreia na direção do comediante Clark Duke, que também corroteirizou e atuou no longa, é uma história que vai ligando os pontos aos poucos, dividida em cinco capítulos acompanhamos a ascensão dos personagens no tráfico de drogas no sul dos EUA, que assim como o narrador e protagonista do filme revela não é tão organizado e que não existe códigos de honra igual a mafia italiana e mexicana.
Kyle (Liam Hemsworth) e Swin (Clark Duke) entram por acaso no tráfico de drogas. Eles trabalham num esquema de sucesso no sul dos Estados Unidos, recebendo ordens de Frog (Vince Vaughn), um chefe que nunca encontraram pessoalmente. Quando uma das entregas leva a um assassinato involuntário, os dois precisam se proteger das represálias que virão.
Tudo começa quando a dupla conhece Bright (John Malkovich), o chefe deles em Arkansas, mas acaba acontecendo um mal-entendido e os dois decidem agir por conta própria alavancando o negócio, daí a trama vai nos colocando a par da vida de Frog, desde a sua entrada no tráfico até o momento em que se põe como o mandante de tudo, o interessante é a maneira que esses personagens se conectam em um emaranhado de situações perigosas, mas o que deixa ainda mais enérgico é o como cada um encara, Kyle, nosso narrador é um homem frio e que diz não ser ambicioso, no decorrer vemos ele lidar com uma possível transformação onde a falta de lealdade e a ganância são o caminho mais fácil, já Swim com seus trejeitos engraçados beirando ao caricato traz um certo respiro para a rotina deles que é permeada de tensão e violência. O humor cínico e as pequenas reviravoltas dão ao longa uma característica única e que surpreende muito em relação ao tema tráfico de drogas.
"Arkansas" é um exemplar que mescla cinismo, violência e apesar de ter bastante energia caminha num ritmo mais lento, seu clima introspectivo é justamente o que gera o magnetismo e aflição. Ótimo!

"Magnatas do Crime" (2019) escrito e dirigido por Guy Ritchie (Snatch: Porcos e Diamantes - 2000) é um filme que chama a atenção de primeira pelo elenco, um show de atuações que ganhamos enquanto viajamos pela ousada trama, o jeito enérgico e envolvente do diretor dá as caras novamente e que primor de narrativa que mescla sensações diversas em menos de um minuto. 
O norte-americano Mickey Pearson (Matthew McConaughey) chega a Londres decidido a vender o seu negócio milionário e viver despreocupadamente de rendimentos, ao lado de Rosalind (Michelle Dockery), a sua belíssima esposa. Contudo, por ser bastante cobiçado e estar relacionado com drogas ilegais, o negócio em questão vai envolver criminosos de toda a espécie e grau, desencadeando intrigas, chantagens, conspirações e assassinatos. 
É um filme de gângster estiloso, super elegante e recheado de tramas fascinantes, os personagens são excêntricos e geram antipatia, principalmente Mickey, desprezível até o âmago. Acompanhamos uma bela introdução que se revelará em determinado ponto em suas inúmeras reviravoltas doidas, mas temos como fio condutor Fletcher (Hugh Grant), um jornalista que deseja chantagear Mickey e seu capanga Ray (Charlie Hunnam), Mickey está vendendo sua secreta e moderna plantação a Matthew (Jeremy Strong), que não está satisfeito com o preço, nesse meio entra uma quadrilha de chineses e o jogo entre eles fica confuso, onde um tenta dar um passo a frente pensando estar dando uma jogada de mestre, só que este já pensou nesta cartada e está mais a frente ainda, além de que muitas situações são essencialmente sorte. Para completar Ray conta com a ajuda do treinador de boxe interpretado por Colin Farrell, que diz não se envolver em questões criminosas, porém executa os pedidos de Ray, aleatoriamente termina por completar esse time de malucos. Sarcástico, violento, repleto de viradas com diálogos inteligentes e sacadas diferenciadas, cenas de ações vibrantes, além da trilha sonora que é simplesmente a perfeição! 
"Magnatas do Crime" é uma obra estilosa, ácida e que trapaceia, feita com asseio em seus mínimos detalhes, como o figurino e acessórios dos personagens que ajudam a criar personalidades marcantes e delinear traços específicos, além dos prazerosos jogos de diálogos intricados e o desencadeamento das ações que é o que conduzem realmente a história. Baita filme, um dos melhores do ano!

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Daniel Isn't Real

"Daniel Isn't Real" (2019) dirigido por Adam Egypt Mortimer é uma produção independente adaptada do livro "In This Way I Was Saved", de Brian DeLeeuw, que também escreveu o roteiro. Intrigante, sombrio e com pitadas de terror cósmico, mexe bastante com nossa imaginação por flertar tanto com o sobrenatural quanto com transtornos mentais, a estética é sensacional e possui autenticidade e originalidade. 
Após sofrer um forte trauma familiar, Luke (Miles Robbins) ressuscita seu amigo imaginário de infância, Daniel (Patrick Schwarzenegger). Carismático e cheio de energia, Daniel ajuda Luke a voltar aos trilhos e alcançar seus sonhos, antes de levá-lo à beira da loucura.
Acompanhamos Luke, um garoto de nove anos que presencia a briga de seus pais e ao sair de casa se depara com uma terrível cena de assassinato em massa numa cafeteria, diante desse cenário desolador cria um amigo imaginário e o chama de Daniel. Com a separação a mãe de Luke se torna cada vez mais instável, e insatisfeita com a amizade imaginária faz o filho prender Daniel numa casa de brinquedo. Anos se passam e Luke já com dezoito anos se vê solitário e com a internação de sua mãe acaba soltando Daniel, que também já é um adulto. A partir daí Daniel começa a controlar a mente de Luke, de início é até libertador, pois ele se solta, flerta e se apaixona pela pintora Cassie (Sasha Lane), então Luke se torna mais corajoso e desencadeia em Daniel uma certa inveja, o controle aumenta e Luke sente seu emocional instável, alucina e entra numa paranoia de que terá o mesmo destino do rapaz do tiroteio em sua infância. Começa uma busca insana por pistas e nesse caminho se depara com aberrações monstruosas, as cenas de entrelaçamentos entre Luke e Daniel são incríveis, distorções e efeitos visuais bizarros, o terceiro ato é um emaranhado louco e agonizante, muitos elementos remetem a filmes do gênero dos anos 80, a construção da narrativa é flexível e deixa a cargo do espectador dar a sua interpretação, a atmosfera surreal brinca com as possibilidades da história e nos faz imaginar além da doença mental e ir de encontro realmente com os demônios e monstros. 

"Daniel Isn't Real" é um filme esquisito, te faz viajar, mescla elementos curiosos e traz atuações atraentes, tanto Miles Robbins - filho de Tim Robbins, dando vida a um rapaz vulnerável e instável, como Patrick Schwarzenegger - filho de Arnold Schwarzenegger, com seu jeito charmoso, manipulador e enigmático. Sem dúvidas, um filme de terror além do convencional e que gera uma série de reflexões acerca da trama. 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pequenos Delitos (Small Crimes) / Sem Perdão (Shot Caller)

Segue dois filmes disponíveis no catálogo da Netflix que retratam o mesmo tema com o mesmo ator e ambos produzidos no mesmo ano. São obras realistas, sombrias e que se debruçam no caráter de seus protagonistas. Confira:

"Pequenos Delitos" (2017) dirigido por E.L. Katz é um filme que possui uma narrativa interessante que avança com tons de humor ácido para uma violência gradativa, o protagonista carrega o caos para onde quer que vá, destrói tudo que o cerca. Uma composição maravilhosa de Nikolaj Coster-Waldau, intérprete do icônico Jaime Lannister.
Acompanhamos Joe Denton, um ex-policial corrupto que após cumprir seis anos de prisão volta para a casa dos pais a fim de reconstruir a vida, mas logo de cara percebemos que seu passado e sua personalidade intempestiva não o deixará atingir seus desejos. Ele quer se reconectar com a filha, assumir o controle da vida, mas aos poucos se dá conta que ninguém quer contato com ele e que nunca vai ser perdoado pelo crime cometido, as pessoas ao redor não admitirão a sua reintegração à sociedade e somado a isso tudo vem uma sucessão de problemas não resolvidos que acabam atingindo os mais próximos, o personagem se molda de uma maneira decadente, o desenrolar vai o desconstruindo e apesar de gerar empatia no início suas atitudes vão causando repulsa, uma incrível composição de Nicolaj que só pela sua postura já demonstra sua personalidade instável. O filme captura nossa atenção e mexe bastante com nossos nervos ao passar por tons de sarcasmo e obscuridade atingindo um ápice memorável! 

"Sem Perdão" (2017) dirigido por Ric Roman Waugh é um filme intenso que nos insere na vida de Jacob/Money, vivido magnificamente por Nikolaj Coster-Waldau, um empresário de colarinho branco que acaba se envolvendo em um acidente e vai parar na cadeia, lá desolado pela situação aprende a sobreviver e entra para uma gangue extremamente perigosa, a narrativa é pontuada por flashbacks que demonstram alguns motivos pelos quais entrou para o mundo do crime e sua ascensão através da violência.
Impressionante a construção do personagem, ele realmente muda muito durante o desenrolar, não só fisicamente, mas também sua postura e modo de enxergar a vida, na prisão cada vez mais se envolve em esquemas que o leva a se afundar e assim não o favorecendo a obter sua liberdade, mas em compensação sua fama e poder lhe fornece respeito de todos os detentos e de muitos agentes penitenciários. É uma onda que o engole e o joga para longe do que foi sua vida anterior, ele se insere até rapidamente na gangue e se alia aos mais fortes, incluindo Frank (Jon Bernthal) e Bottles (Jeffrey Donovan), mas seu processo de transformação é marcante pela aceitação da violência, e se tem uma coisa que esse filme faz é retratar as ações violentas de modo realista e seco, outro ponto é não entregar os possíveis desfechos, o que importa realmente é acompanhar a complexidade do personagem nessa trajetória pelo sistema penitenciário, onde ele experimenta altas doses de fúria e sofrimento. 

domingo, 31 de maio de 2020

The Lodge

"The Lodge" (2019) dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz (Boa Noite, Mamãe - 2014) é um filme de terror que foge dos clássicos sustos e prima mais pela atmosfera tensa e sufocante, é lento no desenvolvimento e trabalha em detalhes a personalidade dos personagens, uma boa amostra do quão aterradora é a mente humana, se familiariza com alguns elementos de "Hereditário" e também lembra em alguns pontos "O Iluminado". Sem dúvidas, uma obra marcante! 
Durante o feriado de fim de ano, Grace (Riley Keough) viaja com seu futuro noivo e os dois filhos dele para um remoto chalé. Quando a relação entre ela e as crianças finalmente começa a se estabelecer, uma nevasca e estranhos acontecimentos ameaçam despertar demônios psicológicos de sua infância. 
Acompanhamos logo de início uma cena chocante, daí parte para como os irmãos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) lidam com o ocorrido, o pai (Richard Armitage) sem dar tempo para que eles sofram e passem pelo luto os arrasta para uma casa isolada junto de sua namorada para passarem o natal, tudo com a intenção de aproximá-los, mas os dois não querem e antes de ir investigam a vida da moça, Grace tem um passado sombrio e traumático envolvendo uma seita religiosa liderada pelo próprio pai, vive a base de remédios e seu semblante demonstra sempre cansaço, não há dúvidas de que essa ideia é irresponsável já que ele precisa ir trabalhar e deixá-los nesse local à deriva das próprias emoções. O roteiro brinca demasiadamente com o espectador, as várias situações nos dão certas dicas que ao se desenrolarem acabam caindo por terra, o fato é que Grace tenta a aproximação e os irmãos relutam, depois eles se aproximam e começam a confundir a mente dela, objetos somem, inclusive seu remédio, vai ficando cada vez mais grave e o ápice é o sumiço de seu cachorro que a faz perder o senso de realidade, eles continuam a inventar que estão numa espécie de limbo por conta da culpa e a fazem crer que ela é a causadora disso tudo, ela entra na paranoia religiosa novamente e quando Aidan e Mia se dão conta é tarde demais, não adianta contar a verdade e restabelecer qualquer tentativa de conexão, o mal está feito. Quando o pai chega ao local invadido pela nevasca não parece haver saída e o que se segue é caos e tragédia. O misto de sensações que a história provoca é incrível, os personagens oscilam em seus sentimentos e ações, perturbam e criam revolta, principalmente o pai que foi um irresponsável e insensível com os filhos, não deu tempo para entenderem e passar pelo fardo, logo os joga numa isolada casa cheia de lembranças junto com a namorada instável em meio a uma nevasca horrorosa. É um redemoinho de ações erradas.

O filme possui em grande parte uma ambientação fantasmagórica e sufocante onde tensões se estabelecem e refletem em imagens as emoções das crianças em relação a situação, e apesar de cair o ritmo em determinado momento é uma obra perturbadora e que choca pela ousadia de muitas cenas, a construção dos personagens é um primor, além da incrível direção de arte. 

"The Lodge" tem uma trama que cria enigmas e tensões que arrepiam pela carga dramática. Forte e desagradável em inúmeros momentos, mas isso é um atributo formidável do roteiro mesmo que algumas partes caiam na monotonia. O destaque vai para a beleza plástica e a perturbação intensa vivida por Riley Keough.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ares / Nada Ortodoxa (Unorthodox)

Segue a resenha de duas séries disponíveis no catálogo da Netflix que fazem a diferença entre a infindável lista de títulos. Confira:

"Ares" (2020) é uma série holandesa dirigida por Giancarlo Sanchez e Michiel ten Horn, com apenas oito episódios à primeira vista causa uma certa dúvida sobre seu tema que é focado em uma sociedade secreta composta pela grande elite do país, o seu desenrolar acaba enganando, mas aos poucos vai soltando pistas para então seu elaborado e inteligente desfecho. Misteriosa, sombria e fria fica a dica para os que estão interessados, se enveredem pela história sem saber muito, vale muito a pena imergir nas obscuridades e se surpreender ao final. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Uma sociedade estudantil secreta no coração de Amsterdã, onde os melhores amigos Rosa e Jacob se rendem a um mundo de riqueza e poder. Contudo, lentamente eles começam a perceber que entraram em um lugar demoníaco, construído sobre segredos do passado da Holanda. Um lugar onde o verdadeiro poder chega a um preço terrível.
Acompanhamos a protagonista Rosa (Jade Olieberg), uma estudante de medicina de origem humilde, mas que possui bastante ambição, ela encontra meios para subir quando se depara com Ares, uma sociedade secreta, através de seu melhor amigo Jacob (Tobias Kersloot), mesmo ele querendo afastá-la desse meio Rosa se interessa e adentra esse universo. Em sua casa possui a responsabilidade de cuidar da mãe mentalmente instável e seu pai se desdobra trabalhando como enfermeiro, na universidade se destaca e nas aulas sabe até mais que os professores, cansada da sua vida não pensa duas vezes quando é convidada a ir para Ares. Os membros são bizarros e sempre estão escondendo algo, todos são descendentes de famílias influentes da Holanda e lá dão seguimento à linhagem com seus ritos e regras, observamos a iniciação de Rosa envolvendo marcação na pele, submissão aos líderes e diversas privações, incluindo o mundo externo. A narrativa pode parecer confusa e extremamente lenta, mas compensa acompanhar todos os mistérios e cada camada proposta pela série, a partir de um ponto Rosa começa a vomitar um líquido preto, algo parecido com petróleo, os membros ficam chocados com a rapidez da ascensão de Rosa na sociedade, o vômito é um signo importante, descobrimos então que ele significa a culpa, enquanto isso Jacob adentra os meandros do local e cada vez mais descobre a origem dessa sociedade e a sua própria, sua confusão mental aumenta quando ao tocar uma parede é consumido e seus dedos ganham o mesmo aspecto do líquido e do qual lhe dá um poder, além de que neste espaço há um poço que vive uma criatura denominada Beal que se alimenta dessa substância. As perguntas não cessam em nossa mente e é só no final que entendemos que a série toca num assunto muito sério, o imperialismo holandês, as grandes conquistas através da exploração e escravidão dos negros, Rosa percebe que precisa se entregar e se tornar o próprio Beal, para assim acabar com Ares e fazer justiça. Realmente ela propõe reflexões contundentes do como a Holanda, um país tão pequeno se tornou tão rico rápido, do como o poder se perpetuou por causa da escravidão e do sangue negro derramado, Rosa é o símbolo da mudança e da verdade.

"Nada Ortodoxa" (2020) é uma minissérie alemã de quatro episódios dirigida por Maria Schrader e traz uma impressionante e libertadora história, reflete sobre o ultraconservadorismo da religião judaica, mas demonstra respeito às heranças culturais permeando com boas doses de conhecimento. 
Na intenção de escapar do casamento arranjado por seus pais em Nova York, Esther Shapiro (Shira Haas), uma jovem judia de 19 anos, resolve fugir para Berlim e começar uma nova vida. No novo país, ela passa a explorar a própria identidade e sexualidade para além dos valores religiosos com os quais cresceu. A história é inspirada no best-seller "Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots", de Deborah Feldman, sobre a fuga de uma jovem judia de uma seita religiosa.
A protagonista é um alento para nosso coração, inserida em um meio completamente fechado cada vez mais sente necessidade de explorar o mundo e a si mesma, esse desejo aumenta quando depois do casamento arranjado a pressão constante para que engravide a torture dia após dia. Diante de um cenário castrador, como deixar suas aulas de piano, decide pegar os documentos que sua mãe lhe deu para a cidadania alemã e com a ajuda da professora de piano consegue fugir sozinha e sem nada em mãos - só para elucidar que sua mãe foi rejeitada pela comunidade e mora em Berlim com a esposa. Longe do meio em que vive Esther se deslumbra ao mesmo tempo que sente receio por seu futuro, logo de cara consegue fazer amizades e se encaixar num grupo de músicos de orquestra, ela ama música e mais adiante até consegue fazer uma audição no conservatório, sua vida começa a tomar seu próprio destino mesmo entre tantas dificuldades, sente que a liberdade de ser é prazerosa e que não precisa sentir culpa por isso. Os amigos lhe ajudam nesse processo, alguns mais do que outros, e daí surge a mudança que começa externamente na retirada da peruca para então se tornar mais confiante e decidida. O que torna seu rito de transformação ainda mais desafiador é por estar num local cheio de histórias traumáticas para sua comunidade de descendentes de judeus sobreviventes ao Holocausto, aliás a série aborda seriamente a respeito da religião e suas regras, principalmente sobre o pensamento de que eles precisam se manter unidos e passarem de geração em geração a dor de sua história para que isso nunca se perca. É um choque para Esther, mas ela é uma alma livre e que necessita conhecer-se, viver para entender-se. É realmente muito sensível sua trajetória e traz à tona costumes e tradições culturais que são representados com cuidado e também revela o outro lado, o do poder de escolha, da ponderação, da empatia e da liberdade. Apaixonante!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vivarium / Devorar (Swallow)

Segue a resenha de dois filmes bizarros e muito interessantes que não poderiam estar de fora do catálogo aqui do blog, continuarei fazendo postagens conjuntas, pois assim se torna mais fácil administrar meus pensamentos e continuar na ativa. Confira:

"Vivarium" (2019) dirigido por Lorcan Finnegan (Sem Nome - 2016) é um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo.
Acompanhamos o jovem casal Tom e Gemma que pretendem iniciar uma vida juntos, numa visita a um empreendimento chamado Yonder são surpreendidos por Martin, um vendedor robótico e de sorriso contínuo, animados com a proposta vão até esse conjunto habitacional e se deparam com uma imensidão de casas iguais, inicialmente parece um sonho, mas aos poucos percebem não ser bem o que querem, mas Martin sumiu e ao tentarem sair não conseguem, sempre voltam para o mesmo lugar, cansados decidem ficar, mas por fim terminam num loop infinito, ainda mais quando do nada aparece uma caixa com um bebê dentro indicando que precisam criá-lo, daí a repetição se dá e rapidamente o vemos crescido com comportamentos bizarros, como imitar os trejeitos de Gemma e Tom, ele grita ininterruptamente quando quer ser alimentado, um show de horrores que perturbam o casal e os desestruturam psicologicamente. Tom entra numa espiral de que precisa cavar um buraco no quintal para que quem sabe ache uma saída, e Gemma aterrorizada com a criança sempre diz que não é a mãe dele, mas acaba o protegendo em muitos momentos, esse local perfeito é irritantemente falso, desde a grama ao céu com suas nuvens redondinhas, claro que percebemos que estão presos sendo cobaias, talvez de alienígenas que estão estudando e reproduzindo comportamentos, interessante que na superfície tudo parece ser idêntico, mas as emoções são mimetizadas, a história abarca questões sobre o conceito familiar, a estrutura frágil e rotineira, os papéis desempenhados para dar algum sentido, os filhos preenchendo o espaço e tomando toda a energia para no fim envelhecidos e sozinhos morrerem. É um filme estranho que gera agonia pela sua repetição, mas que faz pensar nos padrões estabelecidos, e que por mais que se quebre muitos deles ainda assim sem perceber copia-se e repete-se a grande maioria.

"Devorar" (2019) dirigido por Carlo Mirabella-Davis é uma obra repleta de camadas, um filme aparentemente bizarro, mas que disserta sobre questões femininas, do como a mulher é ainda vista, sobre seu suposto papel dentro da família e suas supostas obrigações, surpreendente o como a história te leva para meandros psicológicos angustiantes e reflexivos. 
Hunter (Haley Bennett) é uma dona de casa que engravidou recentemente e se vê cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos. Enquanto o marido e a família reforçam o controle sobre sua vida, Hunter deve enfrentar o segredo sombrio por trás de sua nova obsessão.
Acompanhamos Hunter e sua vida aparentemente perfeita, casada com o rico Richie (Austin Stowell), também convive com os sogros (David Rasche), (Elizabeth Marvel), a imensa casa é cuidada por ela e segue seus dias solitária e invisível, Hunter não possui voz própria nesse meio que está inserida, seus desejos são tolhidos, a expectativa da família é que ela engravide. Hunter é uma mulher infeliz e que por traumas passados conduz sua existência de maneira submissa, aos olhos do marido quer ser prefeita, foi ensinada a agradar, mas chega em um determinado momento que ela adquire uma compulsão em engolir objetos, como agulhas, bolinhas de gude, tachinhas e pilhas, ela gosta de sentir as texturas em sua boca e não o ato em si, como diz para a psicóloga contratada pela família após descobrirem no ultrassom que tinha outras coisas além do bebê em sua barriga. A gravidez indesejada só amplia suas angústias, aumenta a vontade de engolir os objetos e quando expelidos os guarda como um troféu, além disso traumas passados vêm à tona, despertam nela sentimentos perturbadores, ela pensa no como veio ao mundo, na complexidade de sua existência e sua inadequação naquela família que a tem apenas como uma boneca pronta para agradar-lhes.
Melancólico e sensível retrata a opressão que a mulher sofre para realizar as expectativas dos outros, a falta de controle sobre si mesma desencadeou sua compulsão, que não só faz paralelo com a gravidez, mas o ato de engolir e expelir e de guardar o objeto como um troféu seria um tipo de controle secreto, um desejo seu satisfeito, algo só dela. O filme amplia essas questões quando o trauma é inserido no contexto e percebemos que para ela sair dessa prisão é preciso muito mais do que foi retratado, mas com certeza um começo, resolver as pendências e se olhar com mais carinho, deixar o meio que a oprime e seguir livre. Além da originalidade da obra, sua estética e trilha sonora são incríveis e só agregam para gerar o terror vivido pela protagonista. Um ótimo filme que abrange questões femininas com autenticidade e une a tristeza e a beleza em pequenas e intensas dosagens.

sábado, 18 de abril de 2020

O Poço (El Hoyo) / A Casa (Hogar)

Segue a resenha de dois filmes espanhóis disponibilizados pela Netflix, inclusive os mais vistos do streaming, e não é à toa, já que tocam em temas essenciais, especialmente porque dialogam com a atualidade sombria e incerta em que estamos vivendo, desigualdade social, desemprego, isolamento, ambição desenfreada, conflitos sociais, etc, temas que valem a pena refletir e que fazem um paralelo profundo com a realidade.

"Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem."

"O Poço" (2020) dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia é um filme essencial, principalmente por causa da situação atual em que vivemos, ele retrata de forma cru e provocativa o quanto o ser humano se torna uma besta quando enclausurado necessitando sobreviver, repleto de metáforas e simbolismos, mas também direto em diversos momentos, não é fácil acompanhar o lado perverso e faminto da sociedade, a ambição desvairada e a falta de empatia e humanidade, o caos obviamente se instala usando artifícios que fazem o espectador refletir na sua própria condição, no meio em que está inserido e na sociedade em geral.  
Dentro de um sistema prisional vertical, os presos são designados para um determinado nível e forçados a racionar alimentos a partir de uma plataforma que se move entre os andares. Uma alegoria social sobre a humanidade em sua forma mais sombria e faminta.
Goreng (Ivan Massagué) acorda e depara-se com uma situação desconfortável, ele está preso numa espécie de prisão que possui um poço infindável, do qual uma plataforma se desloca levando comida entre os andares, sua companhia é o estranho e escroto Trimagasi (Zorion Eguileor), na parede o número é o 48 e segundo calcula vai até o 132, a dupla no início trava uma troca de diálogo interessante e aos poucos descobrimos mais sobre o lugar, o funcionamento acontece a partir do nível zero com a plataforma abarrotada de alimentos, ela vai descendo e os confinados comem o quanto querem até que ela vá para o próximo, sendo proibido guardar qualquer comida consigo, se isso ocorrer imediatamente o local esquenta ou esfria, Goreng escolheu entrar nesse experimento por vontade própria com a intenção de parar de fumar e levou consigo o livro "Dom Quixote", já seu companheiro escolheu levar uma faca auto-afiante, o que indica que se precisar sobreviver tem uma aliada. O banquete servido daria para todos se alimentarem, mas o que acontece é que dominados pela fúria, ambição e medo se empaturram fazendo com que não sobre absolutamente nada para os andares inferiores, o que gera violência, caos e morte. Goreng de tempos em tempos se muda de andar e experimenta tanto a tranquilidade de ter o que comer quanto a dor da fome, quando ele encontra Iomoguiri (Antonia San Juan), uma das administradoras do local ela lhe diz que a ideia do experimento era perfeita, mas que as pessoas estragaram tudo e tenta convencer os que estão no andar de baixo a racionar para que chegue alimento até o final do poço, mas obviamente cada um pensa somente em si e devora todas as comidas. Esse pensamento de dividir entra na mente de Goreng e obcecado com Miharu (Alexandra Masangkay), a estranha personagem que desce na plataforma em meio a comida para tentar encontrar sua filha e também por causa do próximo companheiro em outro andar, Baharat (Emilio Buale), que está a apenas seis andares do topo, se afia ao ideal de ir descendo nível por nível convencendo que comam somente o necessário, obviamente a violência entra em cena e traz à tona o animalesco no seu ponto mais alto. O filme é excelente em manter o espectador curioso e aflito, mas especialmente acerta ao incutir reflexões particulares a cada um, seja elas de cunho religioso, político-social, ou com mensagens de esperança e transformação em seu final, são simbolismos que afetam de maneiras diferentes e ganham camadas profundas. 
"O Poço" revela um sistema de isolamento em que é inviável a ação coletiva e quando essa regra é quebrada para acontecer uma possível transformação se dá através da violência e muito sangue, dai a frase: "a solidariedade nunca é espontânea". Uma potente crítica a diferença de classes, onde a ganância e a indiferença do topo prejudica quem está muito mais abaixo, por exemplo, ficamos sabendo do número real de andares lá pelo fim, ou seja, a invisibilidade da extrema miséria que acaba indo pelo único caminho, o da violência e morte. Sem dúvidas, uma obra para ser assistida outras vezes para captar ainda mais nuances que conversam com a realidade. Filmaço!

"A Casa" (2020) dirigido por Àlex Pastor e David Pastor (Vírus - 2009) é um suspense magnético que aborda de forma primorosa a obsessão e a paranoia pelo poder e sucesso. 
Javier Muñoz (Javier Gutiérrez) é um executivo desempregado que é forçado a vender seu apartamento. Quando ele descobrir que ainda tem as chaves, ficará obcecado pela família que agora mora lá e decidirá recuperar a vida que perdeu, a qualquer preço.
O protagonista é um homem que não se conforma com sua atual condição, antes um publicitário de respeito, agora um reles homem sujeito a qualquer tipo de trabalho, vide o momento em que ele não percebe estar sendo designado para um estágio não remunerado por um antigo colega, essas situações humilhantes vão se aglomerando e Javier vai as guardando de modo frio, principalmente quando é obrigado a se mudar por não poder bancar mais seu luxuoso apartamento, a sua esposa não vê problema em se mudar para um lugar mais humilde e seu filho é retratado como um menino retraído e isolado do resto. Acompanhamos então a recusa de Javier a seguir um outro tipo de vida, primeiro que ele mente em relação a vender seu precioso carro e começa a stalkear os novos moradores de seu adorado apartamento. Acontece que Javier ainda possui as chaves desse local, pois quando despediu em seu carro a empregada ela as jogou em cima dele, diante desse cenário não pensa duas vezes e espera toda a família sair e se infiltra na casa alheia. Começa a surgir sentimentos de inveja e obsessão, Javier se adapta a rotina da família e capta as fragilidades e começa a seguir Tomás (Mario Casas), se aproxima dele no grupo do AA e mente, se torna amigável e confiável, nesse meio tempo cada vez mais se familiariza e continua a adentrar o apartamento, arquiteta intrigas e deixa a sua própria família à mercê, sendo indiferente a sua esposa e filho. Ele cria seu roteiro e é fiel a suas paranoias, brinca com a vida do outro, seu desejo é a posição de poder e se aproxima do lado que está no topo. O desenrolar é permeado por cenas tensas e que incutem pensamentos acerca da moral, a não aceitação de um homem antes bem remunerado - talvez nem tenha sido grande em sua profissão, o que tudo indica é que teve sorte e boas relações - tendo que lidar com a realidade palpável de trabalhar para sobreviver. Ele não aceita esse cenário e diante das circunstâncias seu desejo é ascender e para isso pouco importa os entraves. É frio, hediondo e execrável, a pessoa que experimenta estar lá em cima e cultiva em si a ambição e cobiça ávida jamais aceitaria estar abaixo. Sua mente não trabalha nesse universo. O filme causa polêmica porque não tem um desfecho julgador e que dê lições, simplesmente esse tipo de pessoa existe aos montes e raramente se dá mal, acumula-se relações, troca de favores e permanece nesse lugar mesmo que dê sinais de sempre haver transtornos, como a ótima cena final da torneira pingando.
"A Casa" é uma obra que retrata o cerne da inescrupulosidade, e por isso que é tão incômodo e provocativo, nosso desejo de juiz vem à tona, mas claramente sabemos que a justiça não existe para essas pessoas. Sem dúvidas, um ótimo exemplar para evidenciar o quão doentio é a ânsia que domina a ganância e a sede do poder de estar acima sem se importar com quem está ao seu lado, mesmo que essa pessoa seja o seu próximo mais próximo. Para pensar e muito!

quarta-feira, 11 de março de 2020

Entre Realidades (Horse Girl)

"Entre Realidades" (2020) dirigido por Jeff Baena (The Little Hours - 2017) é um filme que se encaixa na categoria de ame ou odeie, particularmente o encarei de forma séria e em vários momentos a tristeza foi inevitável, é preciso analisá-lo nas entrelinhas e por mais que pareça algo bizarro a sensibilidade impera, ainda mais porque vemos a história sob o olhar da protagonista. 
Sarah (Alison Brie) é uma mulher sonhadora e socialmente desajeitada. Apaixonada por artes e artesanato, cavalos e crimes sobrenaturais, ela percebe que seus sonhos estão cada vez mais lúcidos e passa a se perguntar o que seria realidade e o que seria ilusão.
O filme tem uma carga dramática intensa, mas possui uma delicadeza impressionante, principalmente pela incrível atuação de Alison Brie e seus grandes olhos que nos revelam lentamente e confusamente sua decaída psicológica, o desencadear-se do seu adoecimento mental é progressivo e nos envolve numa manta de surrealismo que beira o humor, mas que na verdade é profundamente doloroso. Sarah é uma moça introspectiva, porém gosta de se comunicar e é bastante agradável, mantém uma relação distante, mas amigável com sua colega de quarto Nikki (Debby Ryan) e a sua colega de trabalho Joan (Molly Shannon), só que ninguém de fato é um elo e a vemos sempre sozinha, sua rotina inclui trabalho, visitar a hípica do qual seu antigo cavalo se encontra, fazer aulas de zumba e assistir seu seriado favorito, chamado Purgatório. Quando chega seu aniversário Nikki a obriga a se divertir um pouco e lhe apresenta um amigo, Darren (John Reynolds), Sarah já se encanta pelo nome, o mesmo do personagem da sua série predileta, com a ajuda de bebidas e algumas substâncias consegue se desprender e se divertir, mas esse momento marca o começo de um desencadear de problemas que vêm como sonhos lúcidos em que ela se enxerga num quarto branco com duas pessoas desconhecidas e mais adiante acordando em lugares estranhos, sua conclusão é que esta sendo abduzida e que é um clone de sua avó. Mesmo que ela saiba que tanto sua avó como sua mãe sofreram com distúrbios psicológicos não acredita que esteja acontecendo também consigo, seu pensamento é de que faz parte de algo grandioso e esteja num emaranhado de coisas sobrenaturais e experiências científicas. Elabora teorias cada vez mais surreais e junta elementos do seu cotidiano, como pessoas que viu, frases aleatórias que ouviu e sua mente produz sonhos, ela imerge tanto nesse universo que termina acordando em outros lugares e quando entra em si pensa ter sido abduzida.

No início a história possui um tom levemente cômico, uma personagem agradável e doce, mas a medida que sua mente se torna mais confusa e paranoica entramos junto dela num território sombrio, estranho e genuíno, sua mente vai se perdendo progressivamente e intensamente, o ápice seria quando ela conversa com seu ficante a respeito de suas teorias, o rapaz a ouve achando engraçado, mas entende depois através de um colapso nervoso que não estava brincando, essa cena explica o seu estado de saúde mental, e é impressionante que a partir daí as coisas realmente se tornam desesperadamente tristes, como a cena em que num minuto está no banho e no outro aparece pelada na loja em que trabalha, todas as cenas carregam sutilezas e por ser tudo mostrado através de seu olhar talvez nos confunda um pouco, mas é para nos dar a justa sensação de estar se perdendo dentro de si mesmo.

"Entre Realidades" é um ótimo exemplar sobre saúde mental, ele te insere na falta de controle sobre os delírios de forma orgânica, e mesmo sendo por vezes elusivo suas minuciosidades garantem a beleza da obra, certamente um filme para se ver com mais carinho.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Quem Com Ferro Fere (Quien a Hierro Mata)

"Quem Com Ferro Fere" (2019) dirigido por Paco Plaza (Verónica - 2017) é um filme surpreendente que parte de um drama moral para um thriller angustiante com reviravoltas desconfortáveis. Desenvolve-se numa espiral de escolhas e consequências pesadas e brutais. Ótimo exemplar espanhol disponível no catálogo da Netflix.
Após a morte de seu irmão Sergio, o enfermeiro de asilo Mario (Luis Tosar) se prepara para um novo capítulo da sua vida com a chegada de seu primeiro filho. Mas, quando um chefe de cartel é enviado ao asilo para os cuidados de Mario, ele começa a questionar se seu dever é mais importante que as vidas que este homem destruiu.
Conhecemos Mario, enfermeiro de uma casa de repouso que está prestes a ser pai, ele se encontra num dilema quando é designado para cuidar de Antonio Padin (Xan Cejudo), o patriarca de um cartel de tráfico de drogas que decide se internar ao invés de voltar para casa, Mario então começa a se questionar e por conta disso ele se vê diante novamente de seu turvo passado. Do outro lado acompanhamos Toño (Ismael Martínez) e Kike (Enric Auquer) que decidem dar uma guinada na empresa comprando drogas de colombianos e revendendo para chineses, uma situação que o pai deles não quer saber e se envolver, os dois ficam por conta e terminam se endividando e Kike vai preso, a saga por dinheiro para não serem mortos se inicia e Toño vendo a proximidade de Mario com o seu pai o chantageia para que ele o ajude a fazê-lo voltar para casa, mesmo num estado terminal o pai ainda tem forças para recusar e continua sendo mal com quem quer que seja. Mario segue os dias aparentando doçura e mostrando dedicação aos cuidados desse homem, mas por dentro cultiva desejos de vingança e dá seguimento a seu plano, todos os dias injeta uma quantidade de droga fazendo com que o velho sinta aos poucos a dor e a danificação em seu corpo.
O passado de Mario com as drogas é revelado lentamente e as lembranças envolvendo seu irmão vêm à tona, o roteiro segue numa crescente sem pressa e totalmente angustiante. O desejo de vingança se intensifica e apesar de seu jeito frio é dominado por seus sentimentos e fica praticamente cego a qualquer outra coisa, está decidido a terminar com todos eles, mas a vingança não é simples e chega um ponto que não se sabe quem de fato se vingou de quem, e daí o título que se refere ao ditado: "Quem com ferro fere, com ferro será ferido".

Intenso e repleto de instantes brutais, a história tem um desenvolvimento lento maravilhoso que segura a tensão e surpreende por suas ótimas reviravoltas, além das interpretações potentes de Enric Auquer e Ismael Martínez que promovem momentos de sangue nos olhos revelando a psicopatia desenfreada, e obviamente Luis Tosar que mesmo contido consegue passar o que sente. 

"Quem Com Ferro Fere" é um thriller marcante que possui cenas violentas memoráveis, a vingança não segue pelos moldes comuns e repletos de clichês, e realmente fica aquele sentimento amargo, chega a lembrar os longas sul-coreanos que ficaram aclamados pelo "gênero" vingança, onde a caça e o caçador se misturam e se embolam num amontoado de consequências trágicas. Filmaço!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Deerskin: A Jaqueta de Couro de Cervo (Le Daim)

"A Jaqueta de Couro de Cervo" (2019) dirigido por Quentin Dupieux (Wrong - 2012) é um filme estranho carregado de sátira e com uma intrigante metalinguagem que trata da obsessão do personagem por uma jaqueta de camurça. Original, absurdo, mas que culmina em metáforas inteligentes.
Quando Georges (Jean Dujardin) encontra uma fascinante jaqueta de camurça, sua vida muda completamente, de um dia para o outro. A vestimenta passa a ser sua principal obsessão e o leva até uma jornada de possessividade, ciúmes e comportamento psicótico. Quando menos percebe, Georges se tornou uma outra pessoa. 
Georges joga sua antiga jaqueta e está em busca de uma nova que seja estilosa e perfeita, ele saca todo o seu dinheiro e investe nesse desejo, então o vendedor tira uma jaqueta de camurça de um baú e Georges encantado a compra e ainda ganha de brinde uma câmera amadora, a todo momento ele se olha no espelho fazendo poses admirando sua jaqueta e se sente praticamente num faroeste, principalmente quando compra botas, luvas e ganha uma calça também de camurça, além do chapéu que tira do atendente morto do hotel em que se encontra. Georges não tem mais nenhum centavo e não tem como sobreviver, a história vai se moldando a partir do momento em que ele encontra a moça do bar (Adèle Haenel) que pergunta o que ele faz da vida, sem muito pensar diz ser cineasta, intrigada ela lhe diz que seu hobby é editar, inclusive fez um árduo trabalho de colocar em "ordem" o longa "Pulp Fiction". Diante dessa mentira Georges acredita que está realmente fazendo um filme, captura imagens do local e de si mesmo e convence a garota a ajudá-lo, mas para isso precisa urgentemente de dinheiro, ele inventa um monte de mentiras e ela saca o dinheiro. As imagens são aleatórias e mostrando na totalidade a jaqueta, sua obsessão é gigante que ela até ganha uma voz. O seu filme vai se moldando e o intuito é que todas as jaquetas desapareçam e apenas a de Georges exista, essa sua insanidade vai se lapidando e novas alternativas são criadas para que consiga o seu propósito, ele não mede esforços e cria um personagem para si extremamente obcecado, violento e ridículo.

A metalinguagem é repleta de ironia, o processo criativo e as situações desencadeadas são absurdas e coloca o espectador numa armadilha tentando decifrar o que não necessita ser explicado, a obra de Dupieux brinca com essas questões o tempo todo. 
Georges não mede esforços para realizar seu sonho, de que sua jaqueta seja a única no mundo e acredita piamente que assim ela o quer também, usando a mentira de ser cineasta põe em prática seu plano e para isso utiliza seu estilo matador que termina sendo cem por cento de camurça. 

"A Jaqueta de Couro de Cervo" certamente não é um filme esquecível, a sua estranheza não é gratuita e apesar de aparentar não significar nada conforme o desenrolar inteligentemente vira o jogo e demonstra uma paródia de si mesmo. Uma obra inusitada e peculiarmente certeira.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Zombi Child

"Zombi Child" (2019) dirigido por Bertrand Bonello (Nocturama - 2016) é baseado na história de Clairvius Narcisse, um haitiano que alega ter sido transformado em um morto-vivo por um feiticeiro vodu, a história assustadora e curiosa de Narcisse atraiu a atenção de cientistas do mundo todo que apresentaram diversas versões para a possível ressurreição. O filme é imensamente interessante e se desenvolve em duas linhas temporais, a primeira nos anos 60 mostrando um homem sendo ressuscitado, escravizado na colheita de cana-de-açúcar e zumbificado por alguma substância, e na segunda uma jovem tentando se adaptar a um colégio tradicional na França após perder os pais num terremoto que devastou o Haiti.
Haiti, 1962. Um homem é trazido de volta do mundo dos mortos apenas para ser enviado ao inferno do trabalho nos campos de cana. Em Paris, 55 anos depois, na conceituada escola da Legião de Honra, uma jovem aluna haitiana confessa um antigo segredo de família para o grupo de novas amigas - sem imaginar que sua estranha narrativa vai convencer uma colega de coração partido a fazer o inimaginável.
Longe da figura que conhecemos hoje como zumbi, entramos nas profundezas obscuras de sua mitologia, de origem africana e pagã, um terreno em que por vezes soa estereotipado demais, porém mesmo assim um ótimo filme sobre a herança cultural. Acompanhamos Mélissa, que apesar de ter crescido na França possui raízes haitianas, ela descende diretamente de um zumbi e mesmo sendo a única negra num colégio feminino de elite destinado somente a jovens filhas de pais condecorados com medalhas de honra não encontra tantos entraves, mas olhando com mais atenção a curiosidade que ela surte nas meninas lê-se como racismo, principalmente quando uma delas com o coração partido pelo namorado decide se enveredar pelo sobrenatural com a ajuda da tia de Mélissa.
O filme toca em pontos fortes da História da colonização do Haiti, da escravização, da miséria, da revolta dos escravos e a independência do país, a dor, os traumas, e assim pincela várias outras questões, como a má interpretação e caricatura do vodu, a apropriação cultural e a sua exotização, o maior exemplo disso é a utilização dos clichês utilizados por Hollywood, especialmente quando transformou o livro "A Serpente e o Arco-Íris", de Wade Davis no filme "A Maldição dos Mortos-Vivos". 

O ir e vir do tempo o torna um pouco arrastado e prejudica algumas ações, cortes bruscos também são um tanto utilizados, mas ao todo é uma obra que combina poeticamente o Haiti do passado com a França atual, um cinema que explora as raízes e reflete o quanto a apropriação e o uso de culturas afro-caribenhas são exploradas de modo banal.

"Zombi Child" é uma experiência intrigante e intensa, sem muito detalhar observamos as tradições culturais haitianas juntamente com questões sobre o colonialismo francês através das aulas na escola, narrativas que se complementam e dão substância e originalidade à trama, de certo modo chocante ao evidenciar o quanto as tradições são deturpadas e soterradas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

No Coração do Mundo

"No Coração do Mundo" (2019) dirigido por Gabriel Martins (O Nó do Diabo - 2017) e Maurilio Martins é um filme nacional maravilhoso e surpreendente, reflete a realidade brasileira com potência e exibe elementos totalmente únicos do nosso país, possui uma crescente instigante, tensa e ainda incute profundas reflexões acerca do cotidiano.
Contagem, Minas Gerais. Dentro da comunidade local, Marcos (Leo Pyrata) se vira diariamente com os pequenos crimes que comete. Quando reencontra Selma (Grace Passô), uma antiga amiga, ele se convence da possibilidade de executar um assalto bem-sucedido. Mas o plano só pode ser colocado em prática com a ajuda de uma terceira pessoa, e Ana (Kelly Crifer), namorada de Marcos, hesita em participar.
É uma pérola nacional que merece ser descoberta, não poderia ser mais a cara do Brasil, como a primeira cena em que mostra o famoso carro de telemensagem, além de sua bela e forte introdução que é capaz de nos fazer identificar e emocionar ao som de "BH é o Texas", de MC Papo. Somos introduzidos na favela de Contagem onde as pessoas fazem o que podem para garantir seu sustento, o dia a dia cansativo e permeado pela violência faz com que muitos tenham o sonho de mudar de vida, só que pelo caminho comum do trabalho é praticamente impossível, como observamos em Ana que é cobradora de ônibus e mantém uma rotina exaustiva e sem nenhuma perspectiva, todos os dias rodando os mesmos lugares e aguentando descaso e maus-tratos de passageiros. Seu namorado Marcos vive perambulando e se recusa a trabalhar formalmente, enquanto sua mãe sobe e desce as ruas vendendo seus produtos, ele ajuda Selma, uma antiga amiga que faz "bico" de fotógrafa nas escolas, e então entendemos que Selma desejar ir embora e demonstra isso na frase que diz: "O coração do mundo é onde a gente quer pisar, é onde vai o desejo da gente. É o próximo lugar". À frente de tantas dificuldades Selma começa a elaborar um plano, algo grande capaz de mudar sua vida, mas para isso precisa de ajuda e chama Marcos e lhe diz que também é preciso que Ana os ajude. Desiludida com o trabalho no ônibus e diante da possibilidade da enorme quantia de dinheiro e o sonho de ir para longe aceita a proposta.

É uma obra orgânica ao colocar os problemas sociais enfrentados pelas pessoas da comunidade, e sensível mesmo tendo enorme força, seu desenvolvimento não tem pressa e sabe agregar tensão e surpresa, possui sequências memoráveis e traz diálogos poeticamente naturais. 

"No Coração do Mundo" conversa com a realidade periférica perfeitamente, nos introduz à história com inteligência, vigor e a desenvolve de maneira crescente, as situações mesclam drama social e thriller com uma pitada de humor. As obras da produtora mineira Filmes de Plástico buscam retratar esse cotidiano de forma verdadeira e espontânea, vale muito a pena conhecer outros filmes, como "Ela Volta na Quinta" ou "Temporada".