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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Hamaca Paraguaya

"Hamaca Paraguaya" (2006) dirigido por Paz Encina é um marco do cinema paraguaio, já que desde 1978 não se produziu nada no país, sendo o último filme feito "Cerro Cora", de Guillermo Vera. É um filme que exige o máximo de atenção do espectador, pois a narrativa e a estética foge completamente dos padrões. Cinema autoral da melhor qualidade e rica experiência para quem aprecia cinema.
Em 1935, num lugar remoto do Paraguai, o casal de idosos Cândida e Ramón espera pelo filho que foi lutar na Guerra do Chaco. Faz muito calor, e eles também anseiam por chuva, que foi anunciada, mas nunca chega, assim como também o vento, que nunca sopra. Ele corta cana, ela cuida da casa, e o cachorro nunca para de latir. Eles continuam esperando por tempos melhores. Ramón é otimista, Cândida acredita que o filho já esteja morto. As cenas repetem-se monotonamente a cada dia.
Falado em guarani "Hamaca Paraguaya" retrata a inércia e a monotonia, são longos planos em câmera fixa e quase sempre distantes e diálogos que nada tem a ver com o que se passa em cena, como quando Ramón corta cana sozinho e o diálogo que acontece é do filho se despedindo para ir à guerra do Chaco (Guerra entre Paraguai e Bolívia). 
O som ambiente ajuda na extrema naturalidade, o ruído dos pássaros que nunca são enxergados por Ramón devido as nuvens carregadas, os trovões que anunciam a chuva que nunca vem e os latidos incessantes do cachorro. A hamaca (rede) foi o símbolo que a diretora usou para metaforizar a paralisia do país e do povo paraguaio, a constante espera de algo e a acomodação por causa medo.
O filme disserta sobre o tempo, a velhice, o amor. Uma obra impressionante e poética. Amargo e doce ao mesmo tempo, assim como a vida. O casal de idosos sofrem pela partida do filho, pela espera, pela quase certeza de não vê-lo mais, mas apesar do tom pessimista do longa, há uma ponta de esperança, como a chuva ao final representando dias melhores. Pouco acontece, quase sempre estão reclamando, seja da rede estar velha, do vento que não sopra, do cachorro que ora late demais, ora está quieto demais, e especialmente do calor.

A repetição das cenas e das conversas dão uma certa angústia, assim como a lentidão com que os personagens exercem suas poucas atividades e no como conduzem as conversas, o cansaço, o tédio, a espera.
É um filme em que o som é tão importante quanto a imagem, e é ele que conta a história, evocando memórias, nos colocando de frente ao presente e deduzindo um futuro. Não é um filme fácil, mas sem dúvidas é daquelas obras que precisamos conhecer, pela sua importância em evidenciar o cinema paraguaio e para saber mais da cultura e História do país. 

Palavras da diretora Paz Encina: "Quando concebi a estética temporal para "Hamaca Paraguaya", decidi que cada imagem duraria todo o tempo que fosse necessário para expressar-se e não o tempo para que os outros o vissem. Em cada plano, os pequenos atos são mostrados de principio a fim: um suspiro que termina, um leque que se abana e acaba por refrescar o ambiente, o canto de uma cigarra, alguém que descasca e come uma laranja em tempo real. O que me interessa é que cada imagem capture não somente a beleza exata das coisas, senão também os momentos precisos que evocam um detalhe perfeito de cada um destes atos, que se observam na totalidade de seu desenvolvimento."
Que o futuro seja generoso e nos traga mais filmes vindos do Paraguai, registrando a realidade do país e do seu povo. Um bom exemplo recente é o "7 Caixas" (2014), criativo e genuíno. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

7 Caixas (7 Cajas)

"7 Caixas" (2012) filme paraguaio dirigido por Tito Chamorro e Juan Carlos Maneglia é uma surpresa e tanto. Sou suspeita a falar, pois adoro o cinema latino-americano, este é mais uma amostra do potencial em criar à base de poucos recursos. O filme mescla drama, thriller e ação, é inteligente ao abordar um garoto sonhador, que mesmo já tendo crescido o bastante para poder "cair na real", segue nutrindo uma certa inocência. A edição é muito bem trabalhada, dando agilidade à narrativa e proporcionando aquele gostinho de suspense ao tentarmos descobrir o que há por trás de todo o esquema envolvendo as 7 caixas.
O personagem central é Victor (Celso Franco), um garoto de 17 anos que trabalha como carregador no Mercado 4, a mais movimentada feira de Assunção. Um dia, ele perde um serviço porque fica assistindo televisão e imaginando-se nos filmes americanos, nos programas e etc. Também deseja comprar o celular que sua irmã está vendendo, um modelo que contém uma câmera embutida (super novidade até anos atrás), mas devido ao preço fica desiludido. Porém, Victor recebe uma proposta em que consiste carregar 7 caixas sem saber do conteúdo que existe dentro delas, ele deve dar uma volta pelas redondezas até que a polícia desocupe o local que está sendo investigado, em troca recebe 100 dólares, só que rasgado ao meio, como uma promessa que execute o trabalho direito.
É a partir daí que as coisas começam a ficar tensas, é uma verdadeira corrida onde tramas paralelas se cruzam. Assim como Victor, nós também não sabemos o que há nas caixas, então o clima é permeado pelo suspense e tememos pelo garoto, já que as pessoas com que está lidando são criminosas. O carregamento das 7 caixas estava incumbido a Nelson (Victor Sosa), que por conta de um problema pessoal não pôde chegar a tempo, muito nervoso por ter perdido o serviço começa a caçar Victor pelas ruas, ele é acompanhado por sua amiga Liz (Lali Gonzalez), que o ajuda várias vezes a escapar tanto de Nelson, como da polícia.
O filme envolve sonhos em meio a falta de oportunidades, a pobreza, a violência, e todas as maracutaias que existem nestes grandes centros comerciais. A briga e a concorrência para obter um trocado e comprar um mero sanduíche. Um garoto como Victor é alvo fácil para os vilões que usam de sua inocência para atingir seus objetivos de forma ilegal, no final já sabemos quem se dá mal, mas no filme o desfecho é outro, e não perde a chance de mostrar que Victor conseguiu realizar seu sonho, que era aparecer na TV.

A edição é ótima, a trama é bem amarrada, a trilha sonora é frenética, e a câmera focando sempre nos olhos desesperados de Victor faz do filme um diferencial, além das pitadas de humor que traz nos diálogos, principalmente dos policiais.
"7 Caixas" participou de diversos festivais, foi elogiado tanto pela crítica como pelo público, também foi o filme que deu a maior bilheteria na história do cinema paraguaio. Sem dúvidas merece muitos elogios, é original e genuíno. Uma curiosidade bacana é que os diálogos é uma mescla de espanhol e guarani, num rápido dialeto que exigiu legenda até mesmo para as cópias exibidas no Paraguai. 
Nesse ambiente hostil, onde oportunidades são escassas, as pessoas precisam por necessidade se submeterem a empregos muito duros, como é o caso da irmã de Victor e sua amiga grávida no restaurante oriental.

Com toda essa miséria mostrada, o mais bonito é que há ternura, e ela está nos detalhes, é preciso ter olhos atentos para poder enxergá-la em meio ao caos. Ela está em vários momentos entre Victor e Liz, no brilho dos olhos dele ao encarar a televisão, e em muitas situações envolvendo a sua irmã com outros personagens, mas sobretudo está no sorriso do garoto ao final do longa.
Deem uma chance a "7 Caixas", ele vale cada minuto, é impossível desgrudar os olhos da tela.