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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Pintassilgo (The Goldfinch)

"O Pintassilgo" (2019) dirigido por John Crowley (Brooklin - 2015) é a adaptação do romance homônimo da escritora Donna Tartt, ganhador do prêmio Pulitzer de 2014, uma obra cuja narrativa intriga e exala melancolia com seus personagens enredados pelas casualidades do destino, as experiências vividas estimulam pensamentos sobre o como os acontecimentos vão nos moldando e nos transportando para lugares que nunca havíamos pensado estar. A adaptação para o cinema causou uma divisão de opiniões e muitos o têm classificado como um filme de estilo clássico com ótimos elementos, mas que não soube atrair a atenção como um todo, soa confuso e arrastado, além de ser a maior bomba de bilheteria do ano, isso tudo não significa que o longa seja ruim, existe uma clara falta de interesse no mercado de adaptações literárias, o calhamaço de Donna Tartt possui uma história reflexiva, não linear e triste, sua escrita aparentemente complexa estimula com tantos detalhes e sentimentos esmiuçados, um clássico instantâneo que atinge um bom bocado de pessoas, mas não o suficiente para o tornar tão popular. 
"O Pintassilgo" é uma história que retrata traumas, perdas, tristeza, culpa, memórias, redenção e também amor, um acontecimento trágico marca a vida do pequeno Theo e suas decisões nesse instante o moldará dali para frente, as pequenas camadas vão sutilmente sendo apresentadas e mergulhamos profundo em suas emoções. Um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, modifica para sempre a vida do jovem Theodore Decker (Oakes Fegley). Além de sua mãe falecer no evento, ele é incentivado por um desconhecido a levar consigo um quadro lá exposto, O Pintassilgo, além de um anel com o brasão de sua família. Nos dias seguintes Theo recebe o abrigo da sra. Barbour (Nicole Kidman) e, ao pesquisar sobre o brasão, conhece Hobie (Jeffrey Wright), um vendedor de antiguidades que agora é o tutor de Pippa (Aimee Laurence), filha do homem desconhecido, que também estava no museu no momento do atentado. Tal encontro modifica para sempre a vida do garoto, seja por seu interesse no mercado de antiguidades ou mesmo pela paixão que nutre pela jovem.
Completamente fiel ao livro, tanto na narrativa como na ambientação melancólica e cenários reproduzidos, assim como a caracterização dos personagens e a intensidade das relações e suas sutilezas, como olhares e gestos, também a fotografia e trilha sonora somam para intensificar as sensações, não é simples adaptar uma obra que passeia por várias fases da vida, ainda mais de forma não tradicional, é um longa que soube valorizar a narrativa e extrair o máximo de detalhes importantes de todo o contexto, claro que obviamente só lendo para perceber a grandiosidade, mas a essência está presente.

Muitas partes marcam e ficam ecoando, vamos acompanhando toda a trajetória de Theo, a perda da mãe, a culpa o corroendo, o quadro que guarda e mantém em segredo - uma forma de resgatar a memória da mãe, a adaptação na casa dos Barbour, o aprendizado com Hobie, que o faz se apaixonar por antiguidades, o amor por Pippa o enredando nisso tudo; o retorno do pai, a ida para o Texas, a amizade com Boris - ponto crucial de sua formação de caráter, seu vício em drogas e as reviravoltas da vida que vão o tragando para um lugar decadente e solitário. 

"Não escolhemos o nosso coração. Não podemos obrigar-nos a querer o que é bom para nós ou o que é bom para as outras pessoas. Não escolhemos a pessoa que somos."

Há bastante drama, porém o suspense permeia por todo o desenrolar, afinal o quadro, o Pintassilgo do artista holandês Carel Fabritius, que faleceu numa explosão aos 32 anos e cuja pintura foi uma das doze que sobreviveram a esse evento faz um paralelo e conversa com a história de Theo intermeando pensamentos acerca da arte e vida num conjunto de reflexões filosóficas muito bonitas.

"O Pintassilgo" é um filme requintado de atmosfera misteriosa e narrativamente denso, promove um olhar sensível para a construção de caráter e amadurecimento do protagonista guiando-nos por caminhos tortuosos, conflitantes e apaixonantes. 

"Que a vida - para além do mais que possa ser - é curta. Que o destino é cruel e talvez não aleatório. Que a Natureza (ou seja, a Morte) ganha sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos de lhe baixar a cabeça e a bajular..."

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Mistério de Henri Pick (Le Mystère Henri Pick)

"O Mistério de Henri Pick" (2019) dirigido por Rémi Bezançon (Nosso Futuro - 2015) é um filme de mistério permeado por uma aura de comédia inteligente que envolve a autoria de um best-seller na linda paisagem da Bretanha. Protagonizado pelo excelente Fabrice Luchini, que adora esse universo literário, vide "Dentro da Casa" (2012), "Pedalando com Molière" (2013), "Gemma Bovary" (2014), acompanhamos uma história deliciosa que se desenrola com elegância e bom humor na medida exata, não há nada tão grandioso, mas surpreende pela bela união de literatura e cinema. 
Daphné Despero (Alice Isaaz) é uma ambiciosa editora em busca de novos romances para publicar. Um dia, enquanto visita seu pai, ela conhece uma livraria de manuscritos rejeitados. Lá, ela se encanta com uma história nunca antes publicada, escrita por um pizzaiolo bretão chamado Henri Pick. Admirada com o talento encontrado, ela começa a pesquisar sobre o autor e acaba descobrindo que ele faleceu há dois anos. Com o apoio da família de Pick, o manuscrito é publicado e imediatamente vira uma febre em toda a França, entrando para a lista de mais vendidos e gerando fascínio sobre a história do autor. Como parte da turnê de divulgação do livro, Daphné e a família de Pick são convidadas para ir ao programa de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), um crítico literário pedante e desagradável, que não hesita em questionar todos os pontos da história de Henri Pick. Convencido de que se trata de uma farsa, Jean-Michel inicia uma trajetória em busca da verdade sobre o mais novo best-seller francês.
Somos envolvidos rapidamente pela história que possui um ótimo tom de comédia e o mistério sempre é alimentado, nossa imaginação trabalha bastante e formulamos as possíveis possibilidades durante todo o desenrolar, Jean-Michel é um crítico literário presunçoso, possui um programa na TV em que na maioria das vezes deixa seu convidado desconfortável, ele é um chato arrogante, mas a composição o deixa engraçado e Fabrice Luchini é especialista neste tipo. Daphné é uma jovem que deseja o sucesso de sua editora, porém nunca encontra o livro certo, sabe que para isso é necessário muito mais que a história dentro do livro, Fred (Bastien Bouillon), seu marido, é escritor e sofre por não ter nenhuma reputação e espera que Jean-Michel leia o seu livro e faça uma crítica em seu programa, o que não acontece, Daphné parece não dar importância apesar de incentivá-lo, e o mistério começa mesmo quando ela vai visitar seu pai e lá se interessa por uma biblioteca de livros não publicados e encontra e se apaixona por um manuscrito, sem perder tempo o faz virar um sucesso e sua carreira enfim decola. O autor da obra, Henri Pick, é um pizzaiolo e faleceu há dois anos, a família desacredita que um homem tão comum escreveria algo tão profundo e tão pouco Jean-Michel crê nessa história, no seu programa cria uma cena com a esposa de Henri Pick e promete que irá desvendar e revelar a verdadeira autoria.

Jean-Michel fica obcecado e inicia uma investigação intensa e parte para a cidadezinha onde encontra a pequena e agora famosa biblioteca, tenta contato com a esposa de Henri Pick, mas quem lhe auxilia nessa empreitada é Joséphine (Camille Cottin), filha do pizzaiolo escritor, os dois vão em busca de pistas e cada vez mais Jean-Michel tem certeza que tudo não passa de uma farsa de Daphné. É divertido acompanhar os rompantes antipáticos de Jean-Michel e seus passeios de bicicleta pelo pitoresco local, as referências literárias pipocam nos diálogos e satisfaz muito o espectador que também ama literatura. 

"O Mistério de Henri Pick" é um agradável filme de mistério literário, sua boa dose de humor ajuda a acompanhar as diversas reviravoltas mirabolantes e não tem como não se encantar com o visual charmoso dos vilarejos à beira-mar, além de criticar o mercado editorial que está cada vez mais ansioso em busca de novos sucessos e que para aguçar a vontade de compra da população é capaz de criar meios questionáveis. 

quarta-feira, 6 de março de 2019

O Príncipe Feliz (The Happy Prince)

"O Príncipe Feliz" (2018) do ator e estreante na direção Rupert Everett é um filme magnânimo que exalta e homenageia uma das figuras mais emblemáticas da literatura inglesa do século XIX, Oscar Wilde, um dos nomes mais importantes da literatura. Apesar dos grandes feitos na carreira, esse influente escritor, poeta e dramaturgo, teve uma vida curta. Condenado a dois anos de prisão, Oscar Wilde contemplou sua liberdade por apenas três anos antes de vir a falecer. Agora, as lembranças e pensamentos dele formarão um retrato dos últimos dias do escritor.
É um filme feito com muita paixão, Rupert Everett cria com propriedade o excêntrico escritor, ele já o havia interpretado no teatro em 2012 e sua dedicação para esta produção levou anos e anos, sua capacidade em dar vida a Wilde é encantadora e apesar de alguma monotonia e passagens confusas envolvendo flashbacks é uma primorosa e exuberante obra que certamente agradará aos apreciadores de Oscar Wilde. Poético, a narrativa se entrelaça com o conto "O Príncipe Feliz", uma das fábulas escritas para seus filhos, a história diz sobre uma estátua e uma andorinha e possui uma bela moral de amizade, solidariedade e desprendimento. O filme foca nos anos após sua prisão, que aconteceu por perder um processo de difamação contra o Marquês de Queensberry, Wilde mantinha um caso com o filho dele e indignado o acusou de sodomia e comportamento indecente, o escritor o processou por difamação, mas acabou perdendo e considerado culpado foi sentenciado, o início de sua decadência começa aí, após sair da prisão obteve bloqueio para a escrita e a miséria o acompanhou, perdeu prestígio e também a saúde, a angústia tirou o lugar da excentricidade e observamos um ser humano perdido, mas que mesmo assim possuía grandes amigos dos quais o incentivava e o ajudava.
"Por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara."
A história não usa de didatismo, portanto é necessário conhecer pelo menos um pouco da vida do escritor, principalmente esses anos conturbados em que se iniciou sua derrocada, vemos um homem grandioso se apequenar e sofrer por amor, observamos suas tentativas de obter prazer com jovens rapazes e demonstrar a elegância que lhe restava. São passagens interessantes e tristes, ele anda por becos e tabernas enquanto amigos tentam resgatá-lo e fazê-lo retornar à escrita. Também há sua mulher Constance (Emily Watson) que acaba cortando a renda que restava a Oscar depois de perceber que ele não mudaria, infelizmente a relação com os filhos se quebra, não há mais vínculos e só vemos algo pelos trechos do passado quando lia para eles, Oscar volta a se encontrar com o jovem amante Alfred (Colin Morgan), que fica por um curto período até que seus pais cortam sua renda, mas por outro lado haviam leais amigos que sempre estavam à disposição, como Robert Ross (Edwin Thomas), seu executor literário e Reggie Turner (Colin Firth), que o acompanhou até seus minutos finais.

Nesta parte de sua vida só havia lugar para o sofrimento e a atmosfera faz jus sendo lúgubre, mas ainda restava uma grande parcela de paixão, sua necessidade em amar e ser amado por Alfred, sua fuga junto dele o levou por alguns dias a se sentir vivo, mas depois novamente seguiriam os joguetes para cima dele e dessa forma novamente lembrá-lo de que sua personalidade também o enojava, então volta para a realidade melancólica e o vemos pelas ruas trôpego e mais adiante com saúde frágil completamente destruído.

"Sofrer é um momento muito prolongado. Não podemos dividi-lo por estações. […] Para nós o tempo não progride. Ele gira. Parece circular em torno de um centro de dor."

"O Príncipe Feliz" é o recorte do período de declínio do escritor que era conhecido por suas excentricidades, uma figura exuberante que causou grande polêmica, na época homossexualidade era considerado crime e acabou sendo preso por dois anos, na prisão produziu entre outros escritos "De Profundis", uma compilação de cartas destinadas ao seu amante, a causa de sua desgraça. Nesta, que se tornou uma obra-prima inusitada, percebe-se outras camadas de Wilde, tão diferentes de seus outros trabalhos, são textos recheados de sentimentos conflituosos sobre a sua paixão cega e autodestrutiva.
É notável o empenho de Rupert Everett, sua composição e dedicação é inquestionável e mesmo que soe vaidoso o filme merece reconhecimento.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Os Irmãos Sister (The Sisters Brothers)

"Os Irmãos Sister" (2018) é o primeiro filme em língua inglesa de Jacques Audiard (Ferrugem e Osso - 2012), adaptado da obra homônima do escritor canadense Patrick DeWitt é um faroeste repleto de nuances e que consegue transpor todas as camadas reflexivas que o livro propõe. É melancólico, sombrio e também permeado por um humor negro. 
Eli (John C. Reilly) e Charlie (Joaquin Phoenix) Sisters são dois pistoleiros que recebem uma missão complicada: capturar e eliminar Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed), um explorador de minas de ouro. Os assassinos perseguem o explorador através do deserto do Oregon, no entanto, Eli começa a ter uma crise de consciência sobre a carreira que leva. Para se salvar, Hermann pode se aproveitar dessa fraqueza momentânea e oferecer um acordo melhor para os irmãos.
Esperei muito por essa adaptação, pois o livro me surpreendeu de uma forma que jamais imaginei, personagens diferentes dos apresentados na maioria dos westerns, foge dos clichês convencionais e se aprofunda nos sentimentos que cada um experimenta vivendo nesse ambiente, uma obra que passeia pelo drama e humor negro com grande habilidade. A adaptação conseguiu conservar essa essência e o elenco virtuoso ressalta ainda mais essas características, todos têm seu espaço e brilham cada um à sua maneira, deslumbrante a composição de John C. Reilly como Eli, geralmente o vemos em papéis coadjuvantes e sempre impecável, mas aqui temos a exata noção de sua potência como ator, a incorporação de um homem que não se encaixa, que está à frente de sua época, que questiona os meios violentos dos quais utiliza e consegue estabelecer elos afetivos facilmente, sua postura, seu gestual e todos os detalhes o tornam um personagem interessante, por exemplo, quando decide usar a escova de dentes, algo que destoa de todo o cenário retratado, Joaquin Phoenix como Charlie é também um absurdo de excelência, ele é o irmão violento, prepotente e conhecido por sua destreza com as armas, o que sobra a Eli de perspicácia falta a Charlie, ele é o retrato do homem ambicioso e indômito, do outro lado temos Jake Gyllenhaal como Morris, uma espécie de detetive do Comodoro, ele é o meio pelo qual os irmãos conseguirão chegar até o alvo, falso e descrente seu personagem aparenta não possuir moral nenhuma até conhecer Hermann, vivido por Riz Ahmed, um químico que possui um sonho utópico, seu personagem é extremamente sensível e toda sua inteligência impressiona Morris, através dele consegue vislumbrar uma vida diferente e se encanta com a ideia e seus meios de obter o ouro do rio, claro que a ambição é a força que o move, mas durante o processo a afetividade ganha forma, algo super incomum em filmes deste gênero. Os quatro possuem sua carga dramática e toda a trajetória os levam a pensar e, a partir daí, modificarem seus modos de agir.  
Charlie e Eli saem com uma missão, capturar Hermann com o apoio de Morris, este disfarçado se finge de amigo e desse modo o levará até os irmãos, Eli não está satisfeito com o cavalo que recebeu e tão pouco em ficar de fora da reunião com o Comodoro, ele questiona o tempo todo qual o propósito de matar Hermann e durante a viagem sofre de pesadelos e com os incidentes que se revelam, se imagina abrindo uma loja e se libertando dessa vida de violência, os motivos para seguir e matar Hermann não o deixam sossegado e enquanto isso Charlie bebe e se irrita com tudo e todos, mais para frente entendemos o porquê está nessa com o irmão e o quanto Charlie o subestima não enxergando o quanto o protege e controla a sua impulsividade.

Dentre tantas situações que ultrapassam durante a viagem, como infortúnios, ameaças conhecidas e desconhecidas e pitadas de sorte, observamos Morris se interessando pelas ideias de Hermann, são diálogos primorosos em que tanto um como o outro pensam em um futuro melhor, a fórmula que Hermann criou para enxergar o ouro no rio salta aos olhos de Morris e a ambição fala mais alto, logo muda de lado e o acompanha até São Francisco para o garimpo. Quando finalmente os quatro se juntam depois de acertarem as contas e pensarem no quanto de ouro acharão com a fórmula, empreendem um duro trabalho com graves lesões físicas, a violência é deixada de lado e a melancolia toma conta, há medo misturado a sonhos, afeto e muita ambição, e é justamente esse anseio desmedido que detona todo o plano e a narrativa ganha ainda mais contornos tristes e escuros. 

"A maioria das pessoas vai continuar insatisfeita, sem nunca tentar entender por que ou como elas poderiam mudar as coisas para melhor, elas morrem sem nada no coração a não ser sangue sujo..." (trecho do livro)

"Os Irmãos Sister" é uma bela e sensível obra que aborda crise existencial, ganância e relações afetivas em meio a um cenário hostil com um humor particular e um ar sombrio. Um atípico faroeste, pois deixa a violência e questões de vingança para segundo ou terceiro plano, o foco está na evolução da personalidade dos personagens, na mudança de suas prioridades, no entendimento do trabalho bárbaro que cometem, são homens diferentes entre si, complexos e fascinantes. 
O filme conta com uma série de acertos, desde o diretor Jacques Audiard que colocou suas características, como realismo e sensibilidade, o elenco formidável, destacando-se principalmente John C. Reilly, a trilha sonora composta por Alexandre Desplat e a recriação do cenário, que mesmo a história se passando no oeste americano as gravações foram realizadas no sul da Espanha e na Romênia.

A onda de faroestes retornou e está surpreendendo com tamanha criatividade e originalidade em seus enredos, deixando de lado cenas batidas de duelos em que a ação é o mais importante, recentemente fiz uma lista com alguns exemplares, confira

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Em Busca de Watership Down (Watership Down) Minissérie

"Em Busca de Watership Down" (2018) dirigido por Noam Murro é uma minissérie animada coproduzida pela BBC e Netflix. Baseada no clássico romance homônimo de 1972 de Richard Adams essa adaptação optou por uma abordagem amena para que atinja mais público, com certeza a violência fez falta, mas a história é tão grandiosa e tão cheia de camadas que é impossível não se hipnotizar pelas aventuras das quais o bando de coelhos enfrenta. O livro é uma obra-prima pela sua profundidade em exibir a vida selvagem dos coelhos com todos os obstáculos e inimigos, muitos temas estão envoltos e mesmo sem querer faz incríveis alegorias. O filme de 1978 também é marcante por recriar esse universo sem floreios expondo cenas violentas e de melancolia, um clássico absoluto, assim como o livro que se faz necessário para qualquer leitor. 
Confira a resenha de ambos aqui.
Situada numa idílica paisagem rural do sul da Inglaterra, a aventura baseada no romance de Richard Adams acompanha a jornada de um bando de coelhos por um novo lar após a destruição de seu habitat. Liderados por um par de irmãos valentes, eles saem de sua terra nativa em Sandleford Warren e enfrentam provações angustiantes, bem como predadores e outros adversários, em rumo a uma terra prometida, com uma sociedade perfeita.
Com uma abordagem mais leve em questão da agressividade e até o tom de medo que permeia a obra acaba sendo mais palatável e consegue abranger todos os públicos, mas isso não tira o mérito da produção que organizou a história muito bem, claro que condensada, pois o livro é imensamente detalhista, porém não tem o que dizer sobre a  fidelidade do enredo e sobre a personalidade dos personagens, o desenvolvimento dos principais, como Hazel (James McAvoy), Fiver (Nicholas Hoult), Bigwig (John Boyega), Holly (Freddie Fox), Clover (Gemma Arterton), Hyzenthlay (Anne-Marie Duff), consegue traduzir boa parte das sensações que cada um sente, os receios, a coragem, o instinto e a união. Os demais não são tão explorados e outro que fica de lado é a gaivota Kehaar, que tem bastante importância na trama e que dá um tom sarcástico e que revela uma amizade inesperada. Outro ponto a ser referido é a computação gráfica que não é das melhores, a estética realista deixa a desejar, só que o roteiro é tão poderoso que isso soa pequeno e insignificante, a jornada dos coelhos começa quando Fiver prevê a destruição da coelheira, ele e seu irmão conseguem juntar mais alguns coelhos para começar a procurar um lugar seguro, a mitologia envolvendo a criação da espécie é colocada em um rápido prólogo e durante alguns pontos da narrativa surgem mínimas referências tanto a El-Ahrairah como o Coelho Negro, Hazel sofre por ter que liderar o grupo e inspirar confiança, já que o destino é incerto e muito perigoso, com o passar do tempo Fiver vai tendo novas visões que indicam o caminho para Watership Down, mas inúmeras situações se passam que tanto servem para fortalecer a amizade como para surgir mais medo e desconfianças, eles encontram um viveiro com coelhos conformados pelo fim que os espera e a terrível Efrafa comandada pelo General Woundwort (Ben Kingsley), um enorme coelho que domina um exército e mantém um outro grande número aprisionados.

Há muitos temas envoltos, como hierarquia social, confiança, companheirismo, religião, sacrifício, amizade, destruição da natureza, assim metáforas e simbolismos acabam se formando e, por consequência, grandes reflexões surgem. Crítica social, política, ambiental e religiosa em uma animação de aventura hipnotizante em que a vida selvagem é explorada sob um ponto de vista cru e melancólico. Há um ar de tristeza e indecisão, o medo é recorrente e a natureza é quase sempre opressiva.

"Talvez alguns humanos entendam que todas as coisas vivas sofrem e merecem respeito"

"Em Busca de Watership Down" consegue conservar a essência da história mesmo com uma abordagem branda, aqui não há sangue e pedaços de orelhas sendo arrancadas, mas há sempre a tensão no ar e a sugestão da violência, a jornada dos coelhos é repleta de emoção, imergimos e ficamos apreensivos a cada aventura, uma produção que apesar de carecer de um visual melhor possui um roteiro que se sustenta, uma obra imprescindível e atemporal que merece sempre ser revisitada.
Não deixe de conferir, está disponível na Netflix!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ward nº6 (Palata N°6)

"Ward nº 6" (2009) dirigido por Aleksandr Gornovsky e Karen Shakhnazarov (Tigre Branco -2012), baseado em um conto de Chekhov, "Enfermaria nº6", conta a história de um psiquiatra que se torna paciente do asilo que antes comandava. Adaptado para a Rússia dos dias atuais, o filme é uma mistura de ansiedade e mistério, mostrando como é fácil nos tornarmos o que mais tememos. A adaptação moderna de um conto de Chekhov para a Rússia contemporânea em que um médico psiquiatra se torna paciente é sem dúvidas interessante e angustiante, as conversas entre Gromov e Ragin são regadas a ansiedade e seus pontos de vista levantam questões importantes. O começo do filme em que conta-se a história do local é algo maravilhoso, assim como a união da ficção e realidade na utilização de pacientes reais. 
É um filme que serve para a reflexão sobre um tema atemporal, a corrupção institucional e o como os indivíduos categorizados loucos são marginalizados e sofrem nas mãos daqueles que obtêm algum poder, a crise existencial pulsa e diálogos filosóficos coroam a obra. Filmado em um hospital psiquiátrico em funcionamento, o local, um antigo mosteiro, mistura ficção e realidade, onde instaura-se de forma documental uma investigação acerca do médico que se tornou paciente. Além da bela e terrível apresentação sobre o lugar, alguns pacientes são entrevistados e respondem perguntas sobre fé e sonhos, em seguinte acompanhamos um jovem médico, Khobotov (Evgeniy Stychkin), que assumiu o lugar de Ragin (Vladimir Ilin), aos poucos somos introduzidos à história e as entrevistas que tentam extrair de todos no local, pacientes, funcionários e médicos, o que teria levado o homem àquele estado? Claro, tudo fica mais interessante quando Ragin estabelece vínculo com Gromov (Aleksey Vertkov), um homem inteligente, mas que sofre da síndrome de perseguição, quando Ragin o descobre começa a trocar ideias o tempo todo e isso leva os outros médicos a perguntar sobre sua sanidade.
O fato é que para Ragin ninguém é interessante, não consegue estabelecer uma conversa a não ser com seu amigo Mikhail, só que com Gromov as discussões inspiradas levam Ragin ao abismo, ele é um homem sossegado sem grandes aflições, nunca experimentou o sofrimento e por isso o despreza, seu pessimismo é tanto que nada do que venha a fazer tem valor, já que no final a única coisa que o espera é a morte, ele diz que a felicidade está dentro e independe do ambiente, mas fecha os olhos para o mundo dos outros, suas ideias começam a chacoalhar à medida que Gromov o desperta e numa cena brilhante pergunta ao médico que razões ele tem para pregar sobre o significado da vida, já que ignora o sofrimento e nunca viveu de fato. A partir daí tudo que acreditava desmorona e nada é capaz de impedir sua derrocada, enquanto isso os médicos conspiram por visualizar Ragin cada vez mais deprimido e bêbado.

Gromov propõe em seus diálogos pontos de vista que até então o médico não havia pensado, já que estava mergulhado em suas próprias ideias niilistas e apenas sentado em sua cadeira sem viver de fato a vida. Quando se passa pelo sofrimento e a ação se faz necessária algo muda e as percepções da vida se tornam diferentes. Depois dessa conversa Ragin não foi mais o mesmo e se entregou à bebida o levando a um estado apoplético. 

A atmosfera de angústia, desespero e ansiedade predomina a maior parte do tempo, discorre com maestria sobre o como os transtornos mentais surgem em sua maioria a partir da hipersensibilidade das pessoas em razão de sofrimentos, rejeições, traumas, etc. É um exemplar importante para afastar o preconceito contra os doentes mentais e ter mais compaixão e, principalmente, retratar essas instituições que os aprisionam e os sedam o tempo todo, algo extremamente desumano que só faz eliminar a personalidade do doente.
"Ward nº6" traz grandes questionamentos e faz uma ótima adaptação do conto para a Rússia contemporânea, mas que de algum modo se faz universal, até porque as dores e os sofrimentos humanos são semelhantes.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society)

"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" (2018) dirigido por Mike Newell (O Amor nos Tempos do Cólera - 2007), baseado na obra homônima de Annie Barrows e Mary Ann Shaffer, retrata o poder dos livros em unir as pessoas e o como as histórias conseguem abraçá-las em suas solidões, a afinidade criada a partir da literatura enquanto o caos reinava é o mote principal e em seguida conhecemos uma outra parte, que também sofreu perdas por conta da guerra e que através do destino se uniu a essa família.
Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. O clube, criado antes de existir de fato, foi formado de improviso, como um álibi para proteger seus membros dos alemães. O que nenhum dos integrantes da Sociedade imaginava era que os encontros pudessem trazer consolo e esperança e, principalmente, auxiliar a manter a mente sadia. As reflexões e as discussões a respeito das obras os livraram dos pensamentos sobre as dificuldades que enfrentavam.
Juliet é uma escritora em ascensão, apesar de estar sendo reconhecida pelo seu segundo livro, seu maior orgulho é o primeiro livro, uma biografia crítica de Anne Brontë, a guerra também levou parte de si, ela perdeu os pais, mas segue firme e busca inspiração para seu novo livro, e é através de algumas cartas trocadas com um desconhecido que a encontra, Dawsey Adams (Michiel Huisman) pede auxílio sobre um exemplar de contos infantis de Shakespeare de Charles e Mary Lamb, Juliet entusiasmada com a história da Sociedade descrita por Dawsey lhe dá o livro de presente e logo se convida para conhecê-los, Juliet arruma as malas e no dia de sua partida seu noivo Mark (Glen Powell), a pede em casamento e coloca um anel em seu dedo, ela aceita e vai em busca do que seria seu próximo livro, porém não é bem isso que acontece, ao chegar lá todos a recebem bem, mas existem coisas das quais só pertencem a eles, segredos e tristezas que só essa família formada a partir da dificuldade e do amor aos livros entendem.
O que se sucede é que Juliet se torna uma curiosa compulsiva e acaba até irritando com tantas perguntas, faltou um pouco de sensibilidade e delicadeza, talvez pela preocupação da personagem em escrever seu próximo livro a fez se comportar assim. Com o passar do tempo o convívio e a experiência do lugar a fez se sentir como se fosse parte deles, mas esse sentimento dela não é tão natural, pelo menos não transpassa desse modo ao espectador. A motivação e o elo que ela forma com todos ali não causa empatia, o que salta aos olhos são outros personagens, que infelizmente não são tão bem explorados, como a maravilhosa Isola (Katherine Parkinson), que confecciona seu próprio gim e se torna uma companheira para Juliet, ela é dona de cenas inspiradas, alegres, mas que contém grande melancolia, o gentil Eben Ramsey (Tom Courtenay) e outro que pouco aparece e que gera interesse é o editor de Juliet, interpretado pelo ótimo Matthew Goode. 

Os traumas da guerra, o amor à literatura, o reconhecer-se no outro, são temas que são abordados com carinho e uma pitada de bom humor, somos introduzidos ao horror que eles vivenciaram, escolhas que tomaram, como o caso de Elizabeth (Jessica Brown Findlay) tida como uma filha para Amelia (Penelope Wilton), que é atormentada pelas perdas, Juliet vai a fundo e de pouco a pouco descobre o que aconteceu com Elizabeth e decide que o que escreverá sobre eles não será publicado.
O filme é um pouco longo e perde o ritmo em algumas partes, mas possui cenas dotadas de sensibilidade, conversas afetuosas e tomadas espetaculares da natureza do local, a fotografia é linda e exuberante, um verdadeiro deslumbre. 

"Nosso clube do livro nas sextas à noite se tornou nosso refúgio. É uma liberdade particular perceber que o mundo se torna cada vez mais escuro à sua volta, mas que só é necessária uma vela para enxergarmos novos mundos se revelando. Foi isso que encontramos na nossa sociedade."

"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" tem seus enfeites, mas no todo é um filme delicado que tem no vínculo da amizade e na admiração pelos demais seu maior triunfo, o romance fica em segundo plano e se concentra lá pelo final, mas não anula o que importa, a inspiração da figura feminina, Elizabeth e sua determinação, suas escolhas em tempos tão terríveis, a exaltação à literatura e o poder dos livros em unir as pessoas, no aconchego das histórias, nos aprendizados e na riqueza que elas proporcionam.
Destaque para os personagens do clube da casca de batata, principalmente, Eben, o criador da torta, Isola e suas especiarias para fazer seu gim e os debates acalorados sobre os livros, e o bônus dos créditos finais em que recitam trechos de algumas obras, como "Ao Farol", de Virgínia Woolf, "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson, "A Tempestade", de Shakespeare, "Jane Eyre", de Charlotte Brontë e "A importância de ser Fiel", de Oscar Wilde. 
Disponível no catálogo da Netflix!

terça-feira, 31 de julho de 2018

November

"November" (2017) escrito e dirigido pelo estoniano Rainer Sarnet (Idioot - 2011) é baseado no livro "Rehepapp Ehk November", de Andrus Kivirähk, completamente fiel ao folclore da Estônia retrata lendas e tradições que acabam demonstrando o pior do ser humano, num ambiente desolado e falido acompanhamos a rotina de alguns camponeses que fazem pacto com o demônio e pedem auxílio dos espíritos, a corrupção faz parte da vida de todos e o horror faz com que percam sentimentos nobres. Um filme estranhamente atraente e poético.
A história é ambientada em uma aldeia pagã estoniana onde lobisomens, a peste e espíritos vagam. O problema principal dos aldeões é como sobreviver ao inverno frio e escuro. E, para esse objetivo, nada é tabu. As pessoas roubam umas das outras, dos seus senhorios alemães, dos espíritos, do diabo e de Cristo. A personagem principal é uma jovem fazendeira chamada Liina, que está desesperada e apaixonada por um garoto da aldeia chamado Hans.
O horror retratado não advém especificamente das criaturas, mas sim da atmosfera pesada que circula nesse vilarejo, as atitudes dos habitantes que roubam uns dos outros, e que preguiçosos tentam enganar até o diabo ao levar groselhas em troca de um Kratt, que é feito a partir de utensílios domésticos, eles sempre precisam estar trabalhando, são escravos dos humanos, este que deveria dar o sangue, a alma em troca, pois os Kratts são almas roubadas. Na mitologia estoniana são descritos como uma criatura mágica criada por utensílios domésticos ou feno pelo seu mestre que então daria três gotas de sangue para o diabo trazer uma alma a ele. No livro de Andrus Kivirähk sugere que muitos usavam groselhas para enganá-lo e assim salvar suas vidas. O Kratt faz tudo que o mestre manda, trabalha, rouba e até voa para isso, caso o trabalho não surgisse ele se tornaria violento se revoltando contra seu dono, uma artimanha para se livrar de um Kratt, era sugerir um trabalho impossível de realizar e que de tanto tentar pegaria fogo ou se desmancharia. A maioria dos camponeses fabricam seus Kratts, que constantemente são vistos trabalhando em meio a floresta, os homens terminam folgados e vingativos, eliminando qualquer rastro de um bom sentimento para com o outro.
Em meio a um cenário gélido tanto pelo clima quanto pelo modo de se relacionarem há Liina (Rea Lest), que ama intensamente em segredo Hans (Jörgen Liik), que por sua vez ama a baronesa (Jette Loona Hermanis), Liina faz de tudo para que Hans a note e Hans faz de tudo para que a baronesa o ame, ambos desesperados utilizam feitiços, meios que talvez pudessem de alguma forma trazer o coração do amado para perto dos seus. O pai de Liina a prometeu em casamento para um velho do vilarejo, desnorteada ela tenta até matar a jovem baronesa, que todas as noites sobe até o telhado e quando está para cair sempre é salva por alguém, Hans recorre ao diabo e troca sua alma por um Kratt, dessa vez o diabo não se engana com as groselhas e dá vida a um Kratt que conta histórias de amor, alimentando ainda mais a sua paixão pela baronesa. 

O filme é um primor não só em sua narrativa, o visual é um deslumbre, a fotografia em preto e branco, na maior parte do tempo prevalecendo um branco translúcido e a paisagem gelada com sua floresta densa hipnotiza e gera angústia, porém mesmo assim o humor está presente em variadas situações bizarras e nos maneirismos e nas incríveis performances físicas dos atores, o belo está continuamente de mãos dadas com o horror. Excepcional em todos os quesitos, como os ruídos da natureza, o vento e o fogo, ou o barulho das passadas na neve, roupas, mastigação, além da trilha fúnebre que anuncia o mal ou o sofrimento. O conto nos transporta para um mundo fantástico, habitado tanto por demônios, espíritos, bruxas, criaturas pagãs e Cristo, mas também conversa com o realismo ao expor o lado traiçoeiro, ganancioso e mesquinho do ser humano, e claro, a tragédia, um clássico das histórias de amor.

"Eu fecho os olhos e finjo que as palavras que ele diz a ela são para mim."

"November" é uma fábula fascinante e que não se detém a sentimentalismos ao retratar as lendas estonianas, expõe-se preconceito, miséria, angústias e corrupção, além de agradar aos olhos com seu visual estonteante. O humor nada convencional permeia muitas das cenas, citando uma delas, quando a peste chega ao vilarejo na forma de um bode e os habitantes tentam se desvencilhar enganando-a colocando as calças na cabeça, que pelo cheiro não saberia identificá-los, a peste volta depois sob a forma de um porco, realmente estranho, mas efetivo ao demonstrar os comportamentos das pessoas sempre agindo para de algum modo se beneficiarem. Para quem busca por filmes fora da caixinha é mais que indicado, há beleza, lirismo e crueza. Filmaço!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Mary Shelley

"Mary Shelley" (2017) dirigido por Haifaa Al-Mansour (O Sonho de Wadjda - 2012) é uma biografia delicada e fascinante sobre a precursora do gênero de ficção científica, a criadora do romance gótico Frankenstein. Apesar de não ter profundidade e peso a história consegue cativar por seus personagens interessantes e sua atmosfera literária. 
A história do romance entre o poeta Percy Shelley (Douglas Booth) e Mary Wollstonecraft (Elle Fanning), uma jovem de 17 anos que viria a se tornar a aclamada escritora Mary Shelley, autora do livro "Frankenstein ou o Prometeu Moderno".
Mary Goldwin estava destinada às palavras, criada num ambiente intelectual e libertário, filha do filósofo William Godwin e da escritora e feminista Mary Wollstonecraft desenvolveu desde pequena paixão pela escrita, o pai a incentivava a encontrar sua própria voz e seu próprio estilo, e para isso a enviou para o campo, onde conheceu o poeta e seguidor de seu pai Percy Shelley, que mais tarde se tornaria seu marido, quando Percy e Mary se apaixonaram decidiram viver juntos mesmo Percy já sendo casado, seu espírito de amor livre gerou consequências dramáticas, inclusive o suicídio da sua primeira mulher, Mary viveu muitas tristezas e decepções e a partir delas criou sua obra-prima, todas as agruras, desde a perda do filho, as dívidas, o ostracismo, os altos e baixos do relacionamento contribuíram para sua evolução como escritora. E foi num verão tedioso e libidinoso em que passaram na casa de Lord Byron que Mary começa a conceber a ideia de seu romance, lá junto de sua meia-irmã Claire Clairmont, amante de Byron e o médico e escritor John William Polidori têm a ideia de cada um escrever uma história de fantasmas depois de lerem alguns contos de horror. Assim nasce uma poderosa história de horror sobre abandono, uma novidade na época ainda mais para uma mulher, a história foi recusada por inúmeras editoras, não acreditavam que tinha sido ela a autora, uma moça de aparência delicada ter colocado tais palavras sombrias e tristes no papel, então como última alternativa aceitou que o livro fosse publicado anonimamente com o prefácio de seu marido, o que gerou grande interesse dos leitores, mais tarde seu pai descobriu a verdade e conseguiu fazer uma nova remessa colocando o nome de Mary, as outras obras concebidas a partir do jogo na casa de Byron também geraram polêmicas, Polidori criou a primeira história de vampiro inglesa, "O Vampiro", mas foi publicada e creditada a Byron, foi um enorme sucesso e mais tarde Byron viria refutar a autoria, o vampiro descrito por Polidori era um ataque ao amigo, afetado, arrogante, mas que também sabia ser sedutor. Já as outras não tiveram tanta fama, Percy Shelley redigiu "Fragmento de uma História de Fantasma" e a verdadeira história de Byron tão pouco viria a ser comentada, esse verão em que ficaram presos na mansão de Byron por conta de uma tempestade foi cenário de muito ócio e de elucubrações, Mary era uma ouvinte silenciosa e tinha curiosidade na ciência, nas teorias de Darwin e por isso se aproximou bastante de Polidori, a concepção de "Frankenstein" foi uma junção de todos os seus sentimentos e seus interesses.

No filme o relacionamento de Percy e Mary é retratado com muito romantismo, Percy tinha ideias de amor livre e acreditava que por Mary ter sido criada em meio a ideias liberais também nutria esse desejo, porém ela queria somente Percy e sua paixão era demasiada forte, sofreu muitas desventuras e decepções, a vida dos dois foi marcada por perdas, infidelidades e dívidas, mas se amavam e se admiravam intensamente, além da paixão compartilhavam e se dedicavam ao amor à leitura e escrita. 
A história destaca bastante os outros personagens e cria a curiosidade no espectador em querer saber mais sobre eles, um filme de cada um seria ótimo, Lord Byron, por exemplo, magnifico e repulsivo na pele de Douglas Booth, a animada e carente meia-irmã de Mary, vivida por Joanne Froggatt, que presenciou boa parte dos dissabores, assim como os vivenciou, principalmente ao engravidar de Byron. 

"Mary Shelley" retrata a trajetória de Mary Shelley até sua criação mais famosa e que ainda continua sendo referência do horror gótico e ficção científica, e claro, uma crítica à arrogância e prepotência humana e cuja descrição da solidão e abandono são sentimentos  que conseguem penetrar à alma. 
É um filme de atmosfera romântica, o peso e a decadência são amenizadas, mas os elementos literários cativam e embelezam à obra, para quem quer conhecer mais da autora vivida por Elle Fanning e do fatídico verão na mansão de Byron até a publicação de um dos romances mais famosos e influentes, é um exemplar encantador e poético.

terça-feira, 10 de julho de 2018

A Livraria (The Bookshop)

"Entre livros, ninguém pode se sentir sozinho."

"A Livraria" (2017) dirigido por Isabel Coixet (Assumindo a Direção - 2014), adaptado do livro homônimo de Penelope Fitzgerald é uma fábula encantadora sobre o amor à literatura, a ambientação e a atmosfera da história fascina e apesar de carecer de alguma profundidade consegue homenagear lindamente a bibliofilia.
No final da década de 50, uma mulher (Emily Mortimer) recém-chegada em uma pacata cidade do litoral da Inglaterra decide abrir uma livraria. Contudo, sua iniciativa é vista com maus olhos pela conservadora comunidade local, que passa a se opor tanto a ela quanto ao seu negócio, obrigando-a lutar por seu estabelecimento.
Florence é uma viúva que coloca em prática seu desejo de abrir uma livraria numa pacata e retrógrada cidadezinha inglesa, ao mesmo tempo que é uma mulher delicada e paciente é também persistente e corajosa, ela então precisa enfrentar Violet Gamart (Patricia Clarkson), uma aristocrata que fica extremamente incomodada com sua ousadia e faz de tudo para que não consiga sucesso, inventa burocracias e usa de seu poder para isso, só que esse lado da história não é tão relevante, o que é maravilhoso de verdade são os habitantes que aos poucos vão sendo inseridos ao universo da literatura, ao abrir o local as pessoas não acreditavam que fosse dar certo, pois ali ninguém tinha o hábito da leitura, eram pessoas simples, mas conforme os dias a livraria começa fazer enorme sucesso, especialmente, quando um novo romance surge, "Lolita", de Nabokov, as vitrines logo se enchem desses exemplares e a população sente grande interesse pelo polêmico livro. Outro ponto a se destacar é a relação que Florence estabelece com Christine (Honor Kneafsey), uma garotinha esperta que é dona de frases incríveis e que por fim leva adiante o que tanto Florence sonhou, outro personagem interessante, mas não tão bem desenvolvido é Edmund Brundish (Bill Nighy), um recluso senhor e o único leitor do local, que no decorrer se apaixona por Florence e sua determinação e tenta ajudá-la a manter a livraria. Edmund também se encanta pela obra de Ray Bradbury, quando por ocasião Florence envia o exemplar de Fahrenheit 451. A relação dos dois se estreitam à medida que Florence envia os exemplares e Violet decide de fato acabar com seu estabelecimento. O roteiro fica na superficialidade, por exemplo, Violet deseja montar um centro cultural apenas para se aparecer e não porque tem amor envolvido, o poder que ela detém sobre todos e as maneiras mesquinhas com que age para derrubar Florence acaba ficando para segundo plano, pois o que realmente se sobressai é a beleza da ambientação, as estantes repletas de livros, a livraria em si esbanjando charme, a natureza ao redor, a sensibilidade de Florence, a sua inocência em meio a sua coragem, e todas as pessoas que de algum modo foram tocadas por seu sonho.

Aos amantes de literatura fará mais efeito, autores e títulos citados para conhecer, outros tão aclamados que na época eram novidade, as capas, as estantes, isso o filme exala com perfeição e mantém com encanto durante todo o tempo, o idealismo de Florence é também marcante mesmo ela tendo uma personalidade doce, e sua visão para introduzir livros que seriam grandes sucessos potencializa a alma da história. 
Dois personagens se sobressaem, a pequena Christine que possui personalidade forte e garante ótimos diálogos e que é impregnada sem saber pelo espírito de Florence. Um livro em especial é indicado a ela e isso fará com que dê seguimento ao sonho tão almejado de sua amiga. Outro é o coadjuvante James (Milo North), um jornalista desempregado que apresenta maneirismos esquisitos e que de mansinho se alia a Violet, muitos dos personagens não são explorados e suas atitudes se perdem, como no caso de Sr. Brundish, que inicialmente é recluso por conta de seu passado e odiar as fofocas sobre ele, mas que no decorrer se transforma em uma caricatura. 

"A Livraria" é uma fábula agradável, aconchegante e uma linda homenagem à literatura, nos arrebata pelo visual e é impossível não querer ir atrás do livro adaptado e todos os títulos citados, vasculhar alguns sebos e livrarias, arrumar sua estante e apreciar esse hábito tão delicioso que nos faz viajar, refletir e que nos afasta da solidão. 

terça-feira, 27 de março de 2018

Lady Macbeth

"Lady Macbeth" (2016) dirigido pelo estreante William Oldroyd é baseado no livro "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" do escritor russo Nikolai Leskov, que por sua vez se inspirou na personagem da peça de William Shakespeare, o filme traz uma abordagem interessante e aguda sobre preconceitos e empoderamento feminino.
Katherine (Florence Pugh) está presa a um casamento de conveniência. Casada com Boris Macbeth (Christopher Fairbank), a jovem agora se vê integrante de uma família sem amor. É só quando ela embarca em um caso extraconjugal com Sebastian (Cosmo Jarvis), um trabalhador da propriedade do marido, que as coisas começam a mudar. Ela só não contava que isso iria desencadear vários assassinatos.
Com aspecto suntuoso, frio e direto acompanhamos a protagonista Katherine que por conveniência casa-se com um homem agressivo e arrogante, ele não a toca em momento algum, mas a humilha sob diversas maneiras, completamente subjugada passa seus dias trancada dentro do casarão, quando o marido se ausenta ela começa a explorar o exterior e é a partir daí que conhecemos seu caráter duro e cruel, ela sofre nas mãos do sogro que é rígido na questão dela se manter no papel de mulher da casa e se resguardar, claro que Katherine não se curva ao sogro e nem ao padre que vem dar lições, se mantém serena, mas por dentro queima, ela cada vez mais quer se libertar e encontra em Sebastian uma paixão avassaladora, um escravo bonito e robusto que supre seus desejos carnais, o que de início parecia uma aventura para ele se transforma mais adiante em um pesadelo sem fim. É impressionante a identificação com a personagem no início, em pleno século XIX agir com determinação e ousadia, sair do protocolo e seguir seus desejos, mas ela sofre as agonias advindas dos seus atos, em um sistema completamente patriarcal e repressor não há espaço para sentimentos bons e tudo desanda quando coloca a frente suas vontades ao invés de seguir as normas. A empregada Anna (Naomi Ackie), ora demonstra afeto, ora medo, ora crueldade, os olhos sempre atentos, a obediência é que garante sua permanência ali, a tensão racial é aguda e com o decorrer ela vai se intensificando muito mais. Os sentimentos em relação a Katherine vão se embaçando no momento que começa a agir com requintes de crueldade, Sebastian vai sendo engolido por essa mulher e quando percebe é tarde demais e está preso numa situação irremediável, ele é escravo em todos os sentidos.

A crueza impera e a falta de trilha sonora aumenta essa sensação, porém é um filme pulsante que prima por movimentos e olhares poderosos, além das pausas solenes e enigmáticas. Os embates de poder que a protagonista trava com os outros personagens e suas graves consequências a revelam como um ser humano repleto de nuances que ao mesmo tempo em que se pôs a frente numa época castradora, agiu também com egoísmo calculando todas as suas ações. Ela é vítima das circunstâncias, viver para a submissão e ainda mais solitária deixa qualquer um louco, quem acaba sofrendo ainda mais são os criados que não possuem vida própria.

"Lady Macbeth" é um filme belíssimo, fascinante e que permite refletir sobre questões de gênero, classe e raça, a protagonista atravessa a tela, um brilhante trabalho de Florence Pugh, que passeia entre a frieza e o deboche, um personagem feminino marcante e subversivo. Uma obra de estética estonteante e narrativa arrebatadora!

terça-feira, 13 de março de 2018

Adeus, Christopher Robin (Goodbye Christopher Robin)

"Adeus, Christopher Robin" (2017) dirigido por Simon Curtis (A Dama Dourada - 2015) é um filme agridoce que nos introduz ao processo de criação do escritor A.A. Milne para o ursinho Pooh, a sensibilidade permeia toda a trama apesar das tristezas que a envolvem, provoca nostalgia, emoção e também mostra os traumas causados por conta da fama. Conhecemos a origem, antes da Disney obter os direitos, as inspirações e o desenrolar pesado desse universo mágico.
Traumatizado pelas batalhas vivenciadas na 1ª Guerra Mundial, o escritor e autor de peças teatrais Alan Milne (Domnhall Gleeson) retorna a Londres, onde tenta retomar a vida cotidiana ao lado da esposa, Daphne (Margot Robbie). Eles têm um filho, o pequeno Christopher Robin (Will Tilston), que basicamente é criado pela babá da família, Olive (Kelly Macdonald), devido à distância estabelecida pelo próprio pai. Disposto a escrever um livro que irá ajudar o mundo a evitar uma nova guerra, Milne leva a família para morar no campo. Lá ele se aproxima do filho, que serve de inspiração para criar seu personagem mais conhecido: o ursinho Pooh. Pooh (Puff) foi nomeado por causa do ursinho de Robin, outros brinquedos verdadeiros de Robin também emprestaram seus nomes para outros personagens, como Tigrão, Bisonho e Leitão.
Alan Milne deseja escrever um livro anti-guerra e sofre as consequências de ter a vivenciado, completamente traumatizado leva sua família para o campo, onde acaba não tendo nenhuma vontade de continuar seu livro, sua esposa Daphne exibe uma faceta manipuladora e egoísta e não demonstra afeto pelo filho, ela sai da casa e diz que só voltará quando o marido terminar o livro, o pequeno Christopher Robin apelidado de Billy Moon é cuidado o tempo todo por sua amada babá Olive, uma mulher triste e solitária e a única pessoa a se importar realmente com os sentimentos da criança. Porém, ela precisa se afastar para cuidar de sua mãe doente, algumas semanas se passam apenas entre pai e filho, Alan percebe com curiosidade a imaginação fértil de seu filho, sempre com um sorriso no rosto e pronto para inventar histórias com seus bichos de pelúcia, a partir desse convívio Alan começa a escrever poemas, Billy Moon até pede para que o pai escreva um livro para ele, mas o que se sucede é um imenso boom após a publicação de todo o universo imaginado pela criança, de repente seu ursinho é amado por outras crianças, que num mundo onde a dor da guerra prevalece encontram no livro motivos para sorrir.

O garoto é extremamente criativo e no espaço de tempo em que convive apenas com o pai, que anseia por inspiração, mostra suas brincadeiras e aí ele vê nisso a oportunidade de criar algo, são momentos mágicos em que Billy Moon pensa estar se divertindo, pois a mãe sempre dizia que enquanto o pai estiver escrevendo não era para incomodar, as coisas se misturaram e a partir disso os traumas foram sendo desenhados, a carência não era vista pelo pai, a mãe era distante e fria, e a única que lhe dava afeto foi embora devido divergências, pois Olive não tinha vida e não aguentava mais ser humilhada. O filme possui diálogos marcantes e a melancolia permeia toda a trama, as interpretações são emocionais e cativantes, e a fotografia é um primor, enche os olhos com todo o visual bucólico.

"Adeus, Christopher Robin" conta as razões do escritor ter criado o universo do ursinho Pooh, tendo como pano de fundo a guerra, que era considerada a última, as decepções e a sensação de impotência deixaram Milne completamente traumatizado, então vai para o campo com a família e lá sem nenhum tipo de criatividade de repente vê no convívio com seu filho a fonte que necessitava, diante da crueldade pela qual o mundo passava o ursinho Pooh trouxe novamente a alegria e a vontade de sonhar, Christopher quando adolescente sentiu que precisava fugir daquilo tudo, da imagem que o pai criou de si e foi para a guerra, uma forma de eliminar suas dores e sentir que estava vivo. Uma história triste, mas muito interessante e que merece ser conhecida pelos adoradores do ursinho Pooh, é um retrato curioso e que vai além da fantasia. Para quem conhece apenas a versão da Disney é mais que obrigatório assisti-lo.