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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Resurrection

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David. Ele diz coisas enigmáticas para Margaret, palavras que a faz ir de encontro ao seu terrível passado. É incrível a capacidade de atração da história, a visceralidade que surge em Margaret quando acha que sua filha corre perigo, sua raiva, seu medo em ter de lidar com um monstro do passado que surge de mansinho, mas não menos perturbador, David é polido com sua voz mansa e sorriso cínico, a história parece não fazer sentido, a perspectiva que temos é embaçada e conflituosa, mas assim são os traumas que foram soterrados e que submergem inesperadamente.

É um filme que sabe trabalhar bem seu suspense/thriller, que possui uma protagonista que se ergue sobre a história, cuja atmosfera sufoca a cada evento enigmático, os olhares desesperados de Margaret, sua violência física que cresce quando prevê o perigo, sua angústia em lidar com um passado amargo e extremamente doloroso, abusos de diversos tipos, não há nada que mensure a grandeza da interpretação de Hall, a estranheza do filme se converte em emoção, não tem como não ter empatia por essa mulher que está afundada em terrores. Como superar traumas de abuso? Fugindo e seguindo a vida? E então como conviver com os fantasmas advindos disso?
 
Sincero e honesto ao retratar os acarretamentos de abusos perversos, "Resurrection" é um filme potente e voraz, não é fácil, não é simples, e seu final carrega um misto de peso e alívio. Destaque para a cena em que Magaret narra toda sua história pregressa para a estagiária, um monólogo destruidor.

terça-feira, 15 de março de 2022

Lamb (Dýrið)


"Lamb" (2021) dirigido por Valdimar Jóhannsson é um filme que mescla fantasia e horror a uma narrativa que convida o espectador a exercer sua reflexão e permite uma criatividade sem igual, o desenrolar vai no oposto das histórias imediatistas que não criam vínculos com suas personagens e não produzem sensações mais profundas e que apenas visam saciar a expectativa do público. Muito se compara "Lamb" ao longa de Robert Eggers, "A Bruxa" (2015), acredito que tenha algo em comum em seu cerne, como a ancestralidade que o ser humano é incapaz de entender, sobre sua relação de egocentrismo, desconhecimento e menosprezo com a natureza que acaba gerando atitudes de poder e que mais tarde serão cobradas.
María (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive isolado em sua fazenda na Islândia, fazem o parto de um misterioso recém-nascido entre as ovelhas de seu celeiro. A inesperada perspectiva de uma vida familiar lhes traz muita alegria e eles resolvem criar o bebê como se fosse sua própria filha.
Acompanhamos a vida de um casal numa fazenda permeada por uma natureza selvagem e de proporções ameaçadoras, de início percebemos os animais e seus comportamentos parecendo que algo está à espreita, acontece o período de nascimentos de ovelhas e o casal se ocupa desse trabalho enquanto vivem de maneira sorumbática seus dias. Se preocupam apenas com o essencial para a sobrevivência. Até que uma ovelha dá a luz a um bebê diferenciado, só que nesse momento não vemos absolutamente nada, só se observa os olhares do casal que ficam impressionados e veem nesse evento uma possibilidade de mudarem suas rotinas e sentimentos novos surgirem. Os dois levam essa ovelhinha para casa, colocam em um berço, a amamentam e a protegem da ovelha mãe que não para de balir embaixo da janela do quarto. Impressionante a tensão criada a partir dessas cenas, é como se fosse um aviso de que algo está errado e ainda mais depois de um ato violento de Maria para que pudesse ter o bebê só para si. A tensão segue crescente e a câmera não tem pressa em nos mostrar Ada, nome escolhido e que tem uma carga emocional enorme, já que mais a frente vemos o túmulo daquela que seria a filhinha do casal, essa bizarrice ganha tons bem perturbadores quando a presença de Ada se faz forte e sem nenhuma palavra acompanhamos uma consciência acontecendo.

Em dado momento, Pétur (Björn Hlynur Haraldsson), irmão de Ingvar é jogado de um carro perto da fazenda e não demora para que conheça Ada, claramente chocado e pensando que o irmão e Maria estejam pirando, mas é capturado pela pequena Ada e sua inocência, a relação entre os três é bem pouco aprofundada e acaba que não serve muito para o desenrolar, o que fica de fato é a atmosfera de fábula que flerta com o horror e que deixa em seu final uma moral que carrega o desconhecido, o quão pequeno é o ser humano diante a natureza e sua ancestralidade, mas pode-se tirar inúmeras reflexões, as camadas se expandem dentro dessa história, cada um vê e sente de formas distintas, mas exemplificando, tira-se muitas questões para além do humano e a grandiosidade que o cerca, como instinto materno, relação do humano com o animal nos tempos modernos em que o coloca no lugar de um filho, traumas, luto, etc.

 
"Lamb" é um filme para quem deseja sair da zona de conforto, das expectativas supridas e, principalmente, abrir novas perspectivas. Um filme diferenciado que remete a uma fábula ameaçadora e nos coloca diante da obscuridade da existência.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

The Innocents (De Uskyldige)


"The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.
Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso.
Acompanhamos a adaptação e as experiências geradas a partir da amizade que nasce entre Ida, Ben (Sam Ashraf) e Aisha (Mina Yasmin Bremseth Asheim), todos de alguma forma desajustados e solitários, os pais de Ida dão mais atenção a sua irmã Anna (Alva Brynsmo Ramstad), por conta do autismo, são pais que não veem os filhos, não sabem o que se passa e todo o tempo das crianças dispensado nos arredores do prédio surgem ideias de brincadeiras que quando executadas desencadeiam reações diferentes em cada, além disso, descobrem que possuem poderes, Ben consegue mover objetos, Aisha consegue ler pensamentos, e esta cria um laço com Anna, que desenvolve-se a partir dessa conexão. Esse elo de certa forma alimenta Ida e ela vai se modificando, entendendo a empatia, ao contrário de Ben, que utiliza seu poder para cometer maldades para aqueles que lhe fizeram alguma coisa. O desenvolvimento da história é interessante, misteriosa e pende para reflexões diversas, principalmente sobre a moralidade na infância, que a partir das experiências e observações vai se formando e quando um adulto não dá suporte se transforma num caos interno, isso é muito explícito em Ben, ele não tem a bússola moral ainda, é desprovido de afeto e não sabe lidar com críticas e brincadeiras, seu instinto é revidar e tendo um poder que aumenta junto com sua raiva não tem como se desenvolver de forma sadia, mas não podemos julgá-lo malvado justamente por ele não ter essa consciência. Já Aisha é uma menina mais sensível e observadora, a empatia já está instalada nela, perceba que se importa com os outros ao redor e quer unir forças para dar um fim no que Ben começou. E, Ida, que antes não se importava com Anna e se sentia excluída percebe a mãe e os outros de forma diferente. Seu olhar se amplia e outras nuances aparecem.

"The Innocents" é um filme magnífico que mesmo tendo cenas pesadas e incômodas não perde a sutileza nem a humanidade das crianças em meio a um cenário frio e desesperançoso. Com atuações impecáveis, o elenco infantil cria perfeitamente a sensação de tensão e angústia devido o descontrole que vem através de seus poderes. Especialmente a pequena Ida - Rakel Lenora Fløttum, que contracena com sua mãe Ellen Dorrit Petersen, consegue expressar uma gama de sentimentos complexos que ora revira o estômago, como na cena do gato, e ora encanta, como na cena final, que é um belo exemplo de um despertar de união de forças.
 
O filme é um misto de terror/suspense/drama que combina elementos perturbadores e reflexivos na mesma proporção, lento em seu desenvolvimento, mas uma experiência cinematográfica incrível, que certamente não irá sumir após algum tempo, é um filme marcante, intenso e que exemplifica de maneira incômoda a falta de moralidade na infância.

terça-feira, 5 de maio de 2020

11 Filmes Sobre Alienígenas / Terror Cósmico

Segue a lista de filmes que abordam a vida extraterrestre, alienígenas e criaturas estranhas vindas das profundidades do universo, alguns flertam com o terror cósmico, outros já assumem uma postura mais dramática e que refletem a nossa sociedade, todos muito intrigantes e que merecem destaque dentro dessa temática. Confira:

11- "Terra para Echo" (2014) EUA
Depois que uma construção começa a escavar em sua vizinhança , os amigos Tuck, Munch e Alex inexplicavelmente começam a receber estranhas mensagens codificadas em seus celulares. Convencidos de que algo está acontecendo, eles procuram seus pais e as autoridades. Quando todos ao seu redor se recusam a levar a sério as mensagens, os três embarcam em uma aventura secreta para decifrar o código e segui-lo até sua fonte. Mas cuidar do assunto por conta própria coloca o trio diante de algo além da sua imaginação quando se deparam com um misterioso ser de outro mundo precisando de ajuda.

10- "The Hole in the Ground" (2019) Irlanda
Enquanto tenta escapar de um passado conturbado, a jovem Sarah (Seána Kerslake) luta para reconstruir sua vida em uma cidade no interior da Irlanda com seu filho, Chris (James Quinn Markey). Tudo vai bem, até que um encontro misterioso com um novo vizinho faz com que Sarah entre em uma onda crescente de medo e perseguição, fazendo-a duvidar a respeito do que é real e o que não é.

09- "Contato Visceral" (Wounds - 2019) EUA/UK
Depois que um cliente do bar onde Will (Armie Hammer) trabalha esquece o seu celular no balcão devido a um incidente atípico, ele decide levar o aparelho para casa. No dia seguinte, Will começa a receber estranhas mensagens ameaçadoras e tenta não se envolver em nada, mas rapidamente eventos bizarros e aterrorizantes tomam conta da situação.

08- "Spring" (2014) EUA
Após a morte de sua mãe, o inconsolável Evan vai afogar as mágoas com seus amigos no bar onde trabalha. No entanto, ele se envolve numa briga que acaba fazendo com que seu chefe o demita. Sem rumo e com a possibilidade de ser perseguido por seu novo desafeto, Evan decide viajar para fugir de seus problemas. Numa pequena e turística cidade costeira na Itália, ele conhece e se interessa por uma linda e misteriosa mulher. Logo se torna claro que ela possui segredos obscuros que podem destruí-los. Uma produção de baixo orçamento que passeia por alguns gêneros, como romance, horror e ficção científica, no próprio cartaz do filme está escrito: "Um híbrido entre Richard Linklater e H.P. Lovecraft". Saiba+

07- "A Região Selvagem" (La Región Salvaje - 2016) México
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre. Um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção. Saiba+

06- "A Chegada" (Arrival - 2016) Canadá/EUA
Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.

05- "Sob a Pele" (Under the Skin - 2013) UK
Um alienígena (Scarlett Johansson) chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade voraz... Mas ao longo do processo, ela descobre uma inesperada porção de humanidade em si mesma.

04- "Vivarium" (2019) EUA
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo. Um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. Saiba+

03- "A Cor que Caiu do Espaço" (Colour Out of Space - 2020) EUA
Os Gardners são uma família que se muda para uma fazenda remota na zona rural da Nova Inglaterra para escapar da agitação do século XXI. Eles estão ocupados se adaptando à sua nova vida quando um meteorito cai no seu quintal da frente. O misterioso aerólito parece fundir-se com a terra, infectando tanto a terra quanto as propriedades do espaço-tempo com uma estranha cor sobrenatural. Para seu horror, a família Gardner descobre que essa força alienígena está gradualmente transformando todas as formas de vida que ela toca… incluindo-as.

02- "O Culto" (The Endless - 2018) EUA
Dois irmãos, Justin e Aaron, foram criados num culto religioso do qual fugiram quando Justin percebeu a possibilidade da ocorrência de um suicídio em massa. Dez anos depois, eles, recebem uma mensagem em vídeo bastante enigmática. Nela, um membro do culto fala de uma ‘ascensão’ iminente e então resolvem regressar ao local aonde eram realizados os cultos em busca de respostas. Mas, ao chegarem, descobrem que o ‘culto’ pode afinal não ser o que pensavam e começam a duvidar, inclusive, se serão bem-vindos. "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido", e é na atmosfera de criaturas lovecraftianas que o filme se inicia, mas não se engane com o que parece ser simplesmente uma seita de adoração a seres extraterrestres, pois a história é uma reflexão contundente sobre a existência, as repetições, a rotina e o conformismo, de maneira intrigante o roteiro vai se desnovelando, porém sem dar respostas concretas, a percepção é individual. Saiba+

01- "Distrito 9" (District 9 - 2009) África do Sul/EUA/Canadá
Há 20 anos uma gigantesca nave espacial pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul. Como estava defeituosa, milhões de seres alienígenas foram obrigados a descer à Terra. Eles foram confinados no Distrito 9, um local com péssimas condições e onde são constantemente maltratados pelo governo. Pressionado por problemas políticos e financeiros, o governo local deseja transferir os alienígenas para outra área. Para tanto é preciso realizar um despejo geral, o que cria atritos com os extra-terrestres. Durante este processo Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), um funcionário do governo, é contaminado por um fluido alienígena. A partir de então ele se torna um simbionte, já que seu organismo gera algumas partes extraterrestres. Com o governo desejando usá-lo como arma política, Wikus conta apenas com a ajuda do extraterrestre Christopher para escapar.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ares / Nada Ortodoxa (Unorthodox)

Segue a resenha de duas séries disponíveis no catálogo da Netflix que fazem a diferença entre a infindável lista de títulos. Confira:

"Ares" (2020) é uma série holandesa dirigida por Giancarlo Sanchez e Michiel ten Horn, com apenas oito episódios à primeira vista causa uma certa dúvida sobre seu tema que é focado em uma sociedade secreta composta pela grande elite do país, o seu desenrolar acaba enganando, mas aos poucos vai soltando pistas para então seu elaborado e inteligente desfecho. Misteriosa, sombria e fria fica a dica para os que estão interessados, se enveredem pela história sem saber muito, vale muito a pena imergir nas obscuridades e se surpreender ao final. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Uma sociedade estudantil secreta no coração de Amsterdã, onde os melhores amigos Rosa e Jacob se rendem a um mundo de riqueza e poder. Contudo, lentamente eles começam a perceber que entraram em um lugar demoníaco, construído sobre segredos do passado da Holanda. Um lugar onde o verdadeiro poder chega a um preço terrível.
Acompanhamos a protagonista Rosa (Jade Olieberg), uma estudante de medicina de origem humilde, mas que possui bastante ambição, ela encontra meios para subir quando se depara com Ares, uma sociedade secreta, através de seu melhor amigo Jacob (Tobias Kersloot), mesmo ele querendo afastá-la desse meio Rosa se interessa e adentra esse universo. Em sua casa possui a responsabilidade de cuidar da mãe mentalmente instável e seu pai se desdobra trabalhando como enfermeiro, na universidade se destaca e nas aulas sabe até mais que os professores, cansada da sua vida não pensa duas vezes quando é convidada a ir para Ares. Os membros são bizarros e sempre estão escondendo algo, todos são descendentes de famílias influentes da Holanda e lá dão seguimento à linhagem com seus ritos e regras, observamos a iniciação de Rosa envolvendo marcação na pele, submissão aos líderes e diversas privações, incluindo o mundo externo. A narrativa pode parecer confusa e extremamente lenta, mas compensa acompanhar todos os mistérios e cada camada proposta pela série, a partir de um ponto Rosa começa a vomitar um líquido preto, algo parecido com petróleo, os membros ficam chocados com a rapidez da ascensão de Rosa na sociedade, o vômito é um signo importante, descobrimos então que ele significa a culpa, enquanto isso Jacob adentra os meandros do local e cada vez mais descobre a origem dessa sociedade e a sua própria, sua confusão mental aumenta quando ao tocar uma parede é consumido e seus dedos ganham o mesmo aspecto do líquido e do qual lhe dá um poder, além de que neste espaço há um poço que vive uma criatura denominada Beal que se alimenta dessa substância. As perguntas não cessam em nossa mente e é só no final que entendemos que a série toca num assunto muito sério, o imperialismo holandês, as grandes conquistas através da exploração e escravidão dos negros, Rosa percebe que precisa se entregar e se tornar o próprio Beal, para assim acabar com Ares e fazer justiça. Realmente ela propõe reflexões contundentes do como a Holanda, um país tão pequeno se tornou tão rico rápido, do como o poder se perpetuou por causa da escravidão e do sangue negro derramado, Rosa é o símbolo da mudança e da verdade.

"Nada Ortodoxa" (2020) é uma minissérie alemã de quatro episódios dirigida por Maria Schrader e traz uma impressionante e libertadora história, reflete sobre o ultraconservadorismo da religião judaica, mas demonstra respeito às heranças culturais permeando com boas doses de conhecimento. 
Na intenção de escapar do casamento arranjado por seus pais em Nova York, Esther Shapiro (Shira Haas), uma jovem judia de 19 anos, resolve fugir para Berlim e começar uma nova vida. No novo país, ela passa a explorar a própria identidade e sexualidade para além dos valores religiosos com os quais cresceu. A história é inspirada no best-seller "Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots", de Deborah Feldman, sobre a fuga de uma jovem judia de uma seita religiosa.
A protagonista é um alento para nosso coração, inserida em um meio completamente fechado cada vez mais sente necessidade de explorar o mundo e a si mesma, esse desejo aumenta quando depois do casamento arranjado a pressão constante para que engravide a torture dia após dia. Diante de um cenário castrador, como deixar suas aulas de piano, decide pegar os documentos que sua mãe lhe deu para a cidadania alemã e com a ajuda da professora de piano consegue fugir sozinha e sem nada em mãos - só para elucidar que sua mãe foi rejeitada pela comunidade e mora em Berlim com a esposa. Longe do meio em que vive Esther se deslumbra ao mesmo tempo que sente receio por seu futuro, logo de cara consegue fazer amizades e se encaixar num grupo de músicos de orquestra, ela ama música e mais adiante até consegue fazer uma audição no conservatório, sua vida começa a tomar seu próprio destino mesmo entre tantas dificuldades, sente que a liberdade de ser é prazerosa e que não precisa sentir culpa por isso. Os amigos lhe ajudam nesse processo, alguns mais do que outros, e daí surge a mudança que começa externamente na retirada da peruca para então se tornar mais confiante e decidida. O que torna seu rito de transformação ainda mais desafiador é por estar num local cheio de histórias traumáticas para sua comunidade de descendentes de judeus sobreviventes ao Holocausto, aliás a série aborda seriamente a respeito da religião e suas regras, principalmente sobre o pensamento de que eles precisam se manter unidos e passarem de geração em geração a dor de sua história para que isso nunca se perca. É um choque para Esther, mas ela é uma alma livre e que necessita conhecer-se, viver para entender-se. É realmente muito sensível sua trajetória e traz à tona costumes e tradições culturais que são representados com cuidado e também revela o outro lado, o do poder de escolha, da ponderação, da empatia e da liberdade. Apaixonante!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vivarium / Devorar (Swallow)

Segue a resenha de dois filmes bizarros e muito interessantes que não poderiam estar de fora do catálogo aqui do blog, continuarei fazendo postagens conjuntas, pois assim se torna mais fácil administrar meus pensamentos e continuar na ativa. Confira:

"Vivarium" (2019) dirigido por Lorcan Finnegan (Sem Nome - 2016) é um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo.
Acompanhamos o jovem casal Tom e Gemma que pretendem iniciar uma vida juntos, numa visita a um empreendimento chamado Yonder são surpreendidos por Martin, um vendedor robótico e de sorriso contínuo, animados com a proposta vão até esse conjunto habitacional e se deparam com uma imensidão de casas iguais, inicialmente parece um sonho, mas aos poucos percebem não ser bem o que querem, mas Martin sumiu e ao tentarem sair não conseguem, sempre voltam para o mesmo lugar, cansados decidem ficar, mas por fim terminam num loop infinito, ainda mais quando do nada aparece uma caixa com um bebê dentro indicando que precisam criá-lo, daí a repetição se dá e rapidamente o vemos crescido com comportamentos bizarros, como imitar os trejeitos de Gemma e Tom, ele grita ininterruptamente quando quer ser alimentado, um show de horrores que perturbam o casal e os desestruturam psicologicamente. Tom entra numa espiral de que precisa cavar um buraco no quintal para que quem sabe ache uma saída, e Gemma aterrorizada com a criança sempre diz que não é a mãe dele, mas acaba o protegendo em muitos momentos, esse local perfeito é irritantemente falso, desde a grama ao céu com suas nuvens redondinhas, claro que percebemos que estão presos sendo cobaias, talvez de alienígenas que estão estudando e reproduzindo comportamentos, interessante que na superfície tudo parece ser idêntico, mas as emoções são mimetizadas, a história abarca questões sobre o conceito familiar, a estrutura frágil e rotineira, os papéis desempenhados para dar algum sentido, os filhos preenchendo o espaço e tomando toda a energia para no fim envelhecidos e sozinhos morrerem. É um filme estranho que gera agonia pela sua repetição, mas que faz pensar nos padrões estabelecidos, e que por mais que se quebre muitos deles ainda assim sem perceber copia-se e repete-se a grande maioria.

"Devorar" (2019) dirigido por Carlo Mirabella-Davis é uma obra repleta de camadas, um filme aparentemente bizarro, mas que disserta sobre questões femininas, do como a mulher é ainda vista, sobre seu suposto papel dentro da família e suas supostas obrigações, surpreendente o como a história te leva para meandros psicológicos angustiantes e reflexivos. 
Hunter (Haley Bennett) é uma dona de casa que engravidou recentemente e se vê cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos. Enquanto o marido e a família reforçam o controle sobre sua vida, Hunter deve enfrentar o segredo sombrio por trás de sua nova obsessão.
Acompanhamos Hunter e sua vida aparentemente perfeita, casada com o rico Richie (Austin Stowell), também convive com os sogros (David Rasche), (Elizabeth Marvel), a imensa casa é cuidada por ela e segue seus dias solitária e invisível, Hunter não possui voz própria nesse meio que está inserida, seus desejos são tolhidos, a expectativa da família é que ela engravide. Hunter é uma mulher infeliz e que por traumas passados conduz sua existência de maneira submissa, aos olhos do marido quer ser prefeita, foi ensinada a agradar, mas chega em um determinado momento que ela adquire uma compulsão em engolir objetos, como agulhas, bolinhas de gude, tachinhas e pilhas, ela gosta de sentir as texturas em sua boca e não o ato em si, como diz para a psicóloga contratada pela família após descobrirem no ultrassom que tinha outras coisas além do bebê em sua barriga. A gravidez indesejada só amplia suas angústias, aumenta a vontade de engolir os objetos e quando expelidos os guarda como um troféu, além disso traumas passados vêm à tona, despertam nela sentimentos perturbadores, ela pensa no como veio ao mundo, na complexidade de sua existência e sua inadequação naquela família que a tem apenas como uma boneca pronta para agradar-lhes.
Melancólico e sensível retrata a opressão que a mulher sofre para realizar as expectativas dos outros, a falta de controle sobre si mesma desencadeou sua compulsão, que não só faz paralelo com a gravidez, mas o ato de engolir e expelir e de guardar o objeto como um troféu seria um tipo de controle secreto, um desejo seu satisfeito, algo só dela. O filme amplia essas questões quando o trauma é inserido no contexto e percebemos que para ela sair dessa prisão é preciso muito mais do que foi retratado, mas com certeza um começo, resolver as pendências e se olhar com mais carinho, deixar o meio que a oprime e seguir livre. Além da originalidade da obra, sua estética e trilha sonora são incríveis e só agregam para gerar o terror vivido pela protagonista. Um ótimo filme que abrange questões femininas com autenticidade e une a tristeza e a beleza em pequenas e intensas dosagens.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Entre Realidades (Horse Girl)

"Entre Realidades" (2020) dirigido por Jeff Baena (The Little Hours - 2017) é um filme que se encaixa na categoria de ame ou odeie, particularmente o encarei de forma séria e em vários momentos a tristeza foi inevitável, é preciso analisá-lo nas entrelinhas e por mais que pareça algo bizarro a sensibilidade impera, ainda mais porque vemos a história sob o olhar da protagonista. 
Sarah (Alison Brie) é uma mulher sonhadora e socialmente desajeitada. Apaixonada por artes e artesanato, cavalos e crimes sobrenaturais, ela percebe que seus sonhos estão cada vez mais lúcidos e passa a se perguntar o que seria realidade e o que seria ilusão.
O filme tem uma carga dramática intensa, mas possui uma delicadeza impressionante, principalmente pela incrível atuação de Alison Brie e seus grandes olhos que nos revelam lentamente e confusamente sua decaída psicológica, o desencadear-se do seu adoecimento mental é progressivo e nos envolve numa manta de surrealismo que beira o humor, mas que na verdade é profundamente doloroso. Sarah é uma moça introspectiva, porém gosta de se comunicar e é bastante agradável, mantém uma relação distante, mas amigável com sua colega de quarto Nikki (Debby Ryan) e a sua colega de trabalho Joan (Molly Shannon), só que ninguém de fato é um elo e a vemos sempre sozinha, sua rotina inclui trabalho, visitar a hípica do qual seu antigo cavalo se encontra, fazer aulas de zumba e assistir seu seriado favorito, chamado Purgatório. Quando chega seu aniversário Nikki a obriga a se divertir um pouco e lhe apresenta um amigo, Darren (John Reynolds), Sarah já se encanta pelo nome, o mesmo do personagem da sua série predileta, com a ajuda de bebidas e algumas substâncias consegue se desprender e se divertir, mas esse momento marca o começo de um desencadear de problemas que vêm como sonhos lúcidos em que ela se enxerga num quarto branco com duas pessoas desconhecidas e mais adiante acordando em lugares estranhos, sua conclusão é que esta sendo abduzida e que é um clone de sua avó. Mesmo que ela saiba que tanto sua avó como sua mãe sofreram com distúrbios psicológicos não acredita que esteja acontecendo também consigo, seu pensamento é de que faz parte de algo grandioso e esteja num emaranhado de coisas sobrenaturais e experiências científicas. Elabora teorias cada vez mais surreais e junta elementos do seu cotidiano, como pessoas que viu, frases aleatórias que ouviu e sua mente produz sonhos, ela imerge tanto nesse universo que termina acordando em outros lugares e quando entra em si pensa ter sido abduzida.

No início a história possui um tom levemente cômico, uma personagem agradável e doce, mas a medida que sua mente se torna mais confusa e paranoica entramos junto dela num território sombrio, estranho e genuíno, sua mente vai se perdendo progressivamente e intensamente, o ápice seria quando ela conversa com seu ficante a respeito de suas teorias, o rapaz a ouve achando engraçado, mas entende depois através de um colapso nervoso que não estava brincando, essa cena explica o seu estado de saúde mental, e é impressionante que a partir daí as coisas realmente se tornam desesperadamente tristes, como a cena em que num minuto está no banho e no outro aparece pelada na loja em que trabalha, todas as cenas carregam sutilezas e por ser tudo mostrado através de seu olhar talvez nos confunda um pouco, mas é para nos dar a justa sensação de estar se perdendo dentro de si mesmo.

"Entre Realidades" é um ótimo exemplar sobre saúde mental, ele te insere na falta de controle sobre os delírios de forma orgânica, e mesmo sendo por vezes elusivo suas minuciosidades garantem a beleza da obra, certamente um filme para se ver com mais carinho.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ad Astra

"Ad Astra" (2019) dirigido por James Gray (Z: A Cidade Perdida - 2016) é um filme belo visualmente e que propõe reflexões pertinentes sobre solidão, incertezas e vazio, e não é somente por explorar o espaço que essas sensações são ampliadas, mas, principalmente, por escavar a complexa mente humana. De atmosfera íntima e melancólica acompanhamos a grandiosa jornada de um homem pelo enigmático universo e, por consequência, o encontro de si mesmo.
Após um terrível acidente, um astronauta (Brad Pitt) recebe a notícia de que há algo misterioso ameaçando a sobrevivência de nosso planeta, algo que também está relacionado com o sumiço de seu pai (Tommy Lee Jones). Agora, ele recebe a missão de viajar para tentar solucionar este mistério, que tem segredos que desafiam a existência humana e nosso lugar no cosmos.
Imenso, triste e silencioso, a história foge das convencionalidades de filmes sobre espaço e traz além da beleza plástica bastante verossímil, vide aquele início espetacular em que o astronauta cai da torre de comunicação e fica girando na atmosfera, também reflete sobre questões íntimas do protagonista de maneira contida e inteligente, a sensação de angústia permeia a obra e inebria a cada cena, tanto pelas tomadas maravilhosas no espaço, como nas claustrofóbicas cenas na nave, e pela maneira que o protagonista se comporta diante a tudo, sempre controlado apesar de possuir sentimentos adversos.
Roy é um respeitado astronauta e é convocado para uma missão, pois estranhas emissões de antimatéria dentro do sistema solar estão afetando as fontes de energia da Terra, por incrível que pareça isso pode estar relacionado a seu pai desparecido e ao Projeto Lima, missão comandada por Clifford há mais de 15 anos para captar sinais de vida extraterrestre. Roy é frio e sereno e sabe ser certeiro ao tomar decisões em momentos tensos, uma exigência da profissão que acaba sendo uma tortura, e diante dessa missão precisará ter ainda mais controle, a jornada para reencontrar seu pai no espaço exigirá muito esforço interno, pois existe nele uma ambiguidade e complexidade de sentimentos em relação a esse homem, Roy nunca construiu elos afetivos e seus conflitos são obstáculos bem maiores do que sua longa e perigosa viagem a Netuno.

Brad Pitt está soberbo, um homem repleto de traumas que se mantém impenetrável e que exerce um controle sobre si mesmo capaz de nos deixar perturbados, sempre silencioso e melancólico acompanhamos seus sentimentos por meio de suas narrações, são nesses instantes que o conhecemos profundamente e muitas questões existenciais pungem.
O filme tem um tom sóbrio e fascina por diversos aspectos, especialmente pelo fato de se passar num futuro não muito distante e toda a ideia do espaço criada ser aceitável, como a colonização na lua demonstrando o capitalismo e a ganância do ser humano, o satélite é uma zona de turismo repleto de propagandas e franquias e também possui zonas de conflitos pela aquisição de recursos, Marte também foi colonizado e o retrato é muito interessante, pois existem salas que reproduzem a natureza da Terra, espaços minimalistas claustrofóbicos, mas, no entanto, curiosos. 

"Ad Astra" é introspectivo e lento, traz um vazio e um niilismo que machuca, retrata a busca do ser humano por algo grandioso, suas escolhas por muitas vezes egoístas, o afastamento de si mesmo, os conflitos de identidade, a ganância, a falta de sensibilidade, e a imensa e assustadora solidão.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Enterro de Kojo (The Burial of Kojo)

"O Enterro de Kojo" (2018) dirigido pelo também músico Sam Blitz Bazawule é uma obra acima de tudo plástica, encanta pelo visual, mas a narrativa não deixa a desejar, seu onirismo e poesia se encaixam belamente. O filme é uma fábula que mistura viagem espiritual, memórias, vingança e transformação.
Kojo (Joseph Otsiman) e seu irmão, Kwabena (Kobina Amissah-Sam), sempre tiveram um péssimo relacionamento. Kojo provocou um acidente que resultou na morte da noiva do irmão, no dia em que eles iriam se casar. Sete anos mais tarde, Kwabena coloca em ação sua vingança e deixa Kojo à beira da morte em uma mina. A única esperança do homem é sua filha, Esi (Cynthia Dankwa), que tenta encontrá-lo. Ela relata suas memórias de infância e essa história por meio de um olhar de realismo mágico e uma série de sonhos bizarros.
Repleto de metáforas visuais somos conduzidos por uma história narrada de forma não linear por uma Esi adulta, em sua maioria são tomadas que remetem a sensação de sonho ou imaginação, uma espécie de conto de fadas, mas com a identidade do país e que ousa em sua narrativa e exposições visuais, os atores entregam bons personagens e nos envolvem na atmosfera. Conhecemos Kojo pelos olhos de sua filha, Esi, ela nos conta sobre uma tragédia e sobre os sonhos recorrentes de seu pai e o como ele acreditava que apenas a água poderia apagar o passado, então por conta disso se mudou antes dela nascer para uma vila rodeada por nada a não ser água. Foi lá que conheceu sua esposa e Esi nasceu com a promessa dos adivinhos da região que traria prosperidade e boa sorte. O tempo com o seu pai durante a infância é retratado e o quanto ele gostava de contar histórias das quais não possuíam significados inicialmente, mas que se amarravam e faziam sentido em seu final. E é assim que o filme vai se desnovelando, sob formas curiosas que envolvem lendas entrelaçadas por memórias que fazem a pequena Esi amadurecer. Um dia aparece um velho cego na vila e diz que o corvo do reino intermediário estava tentando capturar o pássaro sagrado e que somente uma criança de coração puro poderia mantê-lo salvo, Esi sonha com o corvo nesta noite, daí o irmão de Kojo aparece na vila e diz que os esperam na cidade, chegou o momento de enfrentar o passado. Lá os dois se desdobram para conseguir emprego nas minas, mas as circunstâncias são ruins e apelam para um local do qual está fechado e é muito perigoso, Kojo sofre um acidente e fica dias desaparecido. Nesse meio tempo vemos Esi ao lado da avó vendo novelas bem precárias e após o acidente ela entende que é a única que pode ajudar seu pai. 

Pode parecer um amontoado de cenas, mas elas conversam entre si e terminam por se encaixar, metáforas visuais vão de encontro com a história de Kojo e o irmão. Na verdade, a história é bem simples e envolve o sentimento de culpa colocado em simbólicas imagens, esbanja poesia e originalidade, uma linda experiência vinda de Gana, cujo cinema é tão pouco divulgado.

"O Enterro de Kojo" fascina por sua linda estética surreal e também garante uma apreciação de sua narrativa que brinca com a linha do tempo e nos absorve numa fábula de viagem espiritual e lendas, além da redenção do pai e amadurecimento da filha. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Pintassilgo (The Goldfinch)

"O Pintassilgo" (2019) dirigido por John Crowley (Brooklin - 2015) é a adaptação do romance homônimo da escritora Donna Tartt, ganhador do prêmio Pulitzer de 2014, uma obra cuja narrativa intriga e exala melancolia com seus personagens enredados pelas casualidades do destino, as experiências vividas estimulam pensamentos sobre o como os acontecimentos vão nos moldando e nos transportando para lugares que nunca havíamos pensado estar. A adaptação para o cinema causou uma divisão de opiniões e muitos o têm classificado como um filme de estilo clássico com ótimos elementos, mas que não soube atrair a atenção como um todo, soa confuso e arrastado, além de ser a maior bomba de bilheteria do ano, isso tudo não significa que o longa seja ruim, existe uma clara falta de interesse no mercado de adaptações literárias, o calhamaço de Donna Tartt possui uma história reflexiva, não linear e triste, sua escrita aparentemente complexa estimula com tantos detalhes e sentimentos esmiuçados, um clássico instantâneo que atinge um bom bocado de pessoas, mas não o suficiente para o tornar tão popular. 
"O Pintassilgo" é uma história que retrata traumas, perdas, tristeza, culpa, memórias, redenção e também amor, um acontecimento trágico marca a vida do pequeno Theo e suas decisões nesse instante o moldará dali para frente, as pequenas camadas vão sutilmente sendo apresentadas e mergulhamos profundo em suas emoções. Um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, modifica para sempre a vida do jovem Theodore Decker (Oakes Fegley). Além de sua mãe falecer no evento, ele é incentivado por um desconhecido a levar consigo um quadro lá exposto, O Pintassilgo, além de um anel com o brasão de sua família. Nos dias seguintes Theo recebe o abrigo da sra. Barbour (Nicole Kidman) e, ao pesquisar sobre o brasão, conhece Hobie (Jeffrey Wright), um vendedor de antiguidades que agora é o tutor de Pippa (Aimee Laurence), filha do homem desconhecido, que também estava no museu no momento do atentado. Tal encontro modifica para sempre a vida do garoto, seja por seu interesse no mercado de antiguidades ou mesmo pela paixão que nutre pela jovem.
Completamente fiel ao livro, tanto na narrativa como na ambientação melancólica e cenários reproduzidos, assim como a caracterização dos personagens e a intensidade das relações e suas sutilezas, como olhares e gestos, também a fotografia e trilha sonora somam para intensificar as sensações, não é simples adaptar uma obra que passeia por várias fases da vida, ainda mais de forma não tradicional, é um longa que soube valorizar a narrativa e extrair o máximo de detalhes importantes de todo o contexto, claro que obviamente só lendo para perceber a grandiosidade, mas a essência está presente.

Muitas partes marcam e ficam ecoando, vamos acompanhando toda a trajetória de Theo, a perda da mãe, a culpa o corroendo, o quadro que guarda e mantém em segredo - uma forma de resgatar a memória da mãe, a adaptação na casa dos Barbour, o aprendizado com Hobie, que o faz se apaixonar por antiguidades, o amor por Pippa o enredando nisso tudo; o retorno do pai, a ida para o Texas, a amizade com Boris - ponto crucial de sua formação de caráter, seu vício em drogas e as reviravoltas da vida que vão o tragando para um lugar decadente e solitário. 

"Não escolhemos o nosso coração. Não podemos obrigar-nos a querer o que é bom para nós ou o que é bom para as outras pessoas. Não escolhemos a pessoa que somos."

Há bastante drama, porém o suspense permeia por todo o desenrolar, afinal o quadro, o Pintassilgo do artista holandês Carel Fabritius, que faleceu numa explosão aos 32 anos e cuja pintura foi uma das doze que sobreviveram a esse evento faz um paralelo e conversa com a história de Theo intermeando pensamentos acerca da arte e vida num conjunto de reflexões filosóficas muito bonitas.

"O Pintassilgo" é um filme requintado de atmosfera misteriosa e narrativamente denso, promove um olhar sensível para a construção de caráter e amadurecimento do protagonista guiando-nos por caminhos tortuosos, conflitantes e apaixonantes. 

"Que a vida - para além do mais que possa ser - é curta. Que o destino é cruel e talvez não aleatório. Que a Natureza (ou seja, a Morte) ganha sempre, mas isso não quer dizer que tenhamos de lhe baixar a cabeça e a bajular..."

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar)

"Midsommar" (2019) dirigido por Ari Aster (Hereditário - 2018) é uma obra que trabalha sentimentos de perda e luto de maneira estarrecedora, sua aura solar impregnada por símbolos pagãos absorvem o espectador numa atmosfera inebriante e pulsante, muito se assemelha ao terror folk de "O Homem de Palha" - 1973, pelo fato de conter elementos macabros e utilizar cultos pagãos num cenário diurno, o medo é trabalhado de variadas formas sempre colocando o quanto o diferente e a cultura do outro assusta, explora suas camadas com inteligência e fornece olhares diversos promovendo reflexões profundas, além de perturbar com sua luminosidade e fascinar por seus mistérios. 
Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani vivida pela ótima Florence Pugh - "Lady Macbeth" - 2016, vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia numa viagem para um festival de verão único em uma remota vila sueca. O que começa como férias despreocupadas de verão em uma terra de luz eterna toma um rumo sinistro quando os moradores do vilarejo convidam o grupo a participar de festividades que tornam o paraíso pastoral cada vez mais preocupante e visceralmente perturbador.
A única parte escura do filme é o seu início quando retrata Dani preocupada com a irmã bipolar e com sua relação com o namorado Christian, que claramente está sufocado, mas adia o término do relacionamento criando um círculo de dependência que faz Dani sofrer, angustiante acompanhar o modo como Dani reage à tragédia envolvendo sua família, ela suporta o sofrimento calada, não demonstra tristeza para o namorado e quando percebe que precisa colocar para fora sai da presença dele e sozinha chora e grita. Convidados por Pelle (Vilhelm Blomgren) viajam para a Suécia a fim de conhecerem sua família e celebrarem o festival de solstício de verão numa pequena comunidade chamada Harga, junto deles vão Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter), amigos com comportamentos tão chatos e escrotos quanto o do próprio Christian para com Dani, inicialmente ela não estava convidada, mas toda a situação a levou a querer ir e Pelle se mostrou bastante empático e receptivo, então chegando lá somos apresentados ao edênico local e no decorrer vamos observando toda a festividade que acontece a cada 90 anos e tem a duração de 9 dias. 

O filme faz questão de mostrar que se trata de uma fábula, um conto de fadas sombrio à la Grimm, mesmo se passando na mais completa resplandecência, logo em seu começo observamos uma espécie de prenúncio, um quadro que possui desenhos/símbolos que denotam toda a trajetória da história, há muitas referências no seu decorrer, como as pinturas e outros diversos elementos bem explícitos, porém todo o mistério é mantido e permanece intacto nos levando para algo completamente único e peculiar, rituais de sacrifício, fertilidade, prosperidade, uma comunidade extremamente unida e feliz repleta de segredos e regras de sobrevivência.

Tudo é muito bonito, as flores coloridas e tão vivas impressiona e geram efeitos de bem-estar, acolhimento e liberdade, quase sempre o pessoal está usando substâncias psicotrópicas naturais e Dani tem várias bad trip e sensações de que a natureza se apodera dela. O que seria uma maneira de o casal se reconciliar termina por ser um aliviante e intenso recomeço para Dani, o lugar a abraça num momento sensível e a faz eliminar suas angústias e sofrimentos, vide a cena de catarse lá pelo final entre ela e as meninas, a partir do instante que ela começa a ajudar nos afazeres e a se integrar nos rituais sua mente e seu corpo dão indícios de que ali é seu lugar. Impressionante o como o terror é sutil e tão cheio de detalhes, a cultura exposta contendo autoimolação, canibalismo, sacrifícios, rituais de fertilidade e feitiços podem soar bárbaros a alguns, mas para outros um motivo de estudo e compreensão numa perspectiva antropológica, também pode-se gerar algum riso, já que há uma certa mania de desdenhar de algo que não se possui o conhecimento.

"Midsommar" é um filme esteticamente impecável, perturba pela sua claridade e o ar de deslocamento que provoca, as tradições ancestrais são detalhadas, belas canções e danças folclóricas são exibidas, vários rituais brutais e cerimônias baseadas na mitologia nórdica, elementos e símbolos intrigantes, o mistério das runas e toda a festividade envolvendo o solstício gera bastante curiosidade. É um exemplar perfeito para quem curte filmes que abraçam a temática de cultos pagãos e inserem um potente e complexo drama dentro desse contexto.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Bacurau

"Bacurau" (2019) dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho (Aquarius - 2016) é um filme instigante e essencial, sua mescla de gêneros aguça nossa curiosidade e imprime força a cada cena e diálogo, traz a representatividade nordestina, a cultura de um povo forte que jamais cede ou retrocede, a palavra que mais o resume é resistência. 
Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.
O filme aos poucos revela seus personagens, não há protagonismo, todos possuem seu espaço e importância, assim como o próprio lugar, Bacurau, cujo nome vem de um pássaro noturno, de repente, a cidade não se encontra mais no mapa e o único jeito de ensinar as crianças é utilizando um mapa confeccionado por eles próprios, algumas coisas estranhas vão acontecendo e a população já acostumada com a vida difícil como a questão da água acabam dando seu jeito, pois não há qualquer amparo do governo, unidas seguem suas vidas rejeitando o prefeito que quando aparece fazem questão de deixá-lo falando sozinho.
O clima do filme é de puro suspense e se desenvolve para um faroeste à la cangaço, além de flertar com a ficção científica, uma distopia nem tão distópica assim já que muito do que é mostrado revela não só da atualidade em que vivemos, mas sobre o como sempre foi com seu ciclo de injustiças, corrupção e violência, onde se aniquila o mais pobre e o considerado ignorante, as mazelas expostas são realistas e explícitas e, por isso, tão incômodas; o caos é familiar. Potente em sua mensagem e certeiro como entretenimento, um longa completo e brilhante em todos os sentidos, uma história que representa o país, há símbolos e metáforas pelo decorrer que vamos descobrindo juntamente com nuances de surrealismo, possui diálogos que enfrentam e marcam, certamente Bacurau veio na hora certa para nos fazer refletir o Brasil como um todo e tentar entendê-lo sem referências externas e preconceitos.

É um filme com um imenso poder de despertar pensamentos, mas isso não quer dizer que seja difícil de assistir, ao contrário, é um ótimo entretenimento, conversa e brinca conosco o tempo todo, os alívios cômicos são espontâneos e provocantes, inúmeras vezes se coloca em evidência clichês utilizados pelo brasileiro, por exemplo, que por morar em determinada parte do país se considere quase um europeu e despreza quem vive em regiões menos favorecidas, subestimam o diferente, uma clara falta de conhecimento em não saber da própria história, além de querer que o país copie o modelo estrangeiro enquanto eles riem, usufruem, apoderam-se e aniquilam.

O levante da população, a união em preservar a cultura e pelo embate começar de dentro da escola se faz intenso e impactante, quem não se arrepiar pela força e coragem dos habitantes de Bacurau está morto por dentro, é imensamente essencial para cada vez mais trabalharmos nossa lucidez nesses tempos tão obscuros e de estreitamento de ideias.
"Bacurau" pulsa resistência e representatividade, é força e emoção, uma obra bonita, provocante e alegórica.