Mostrando postagens com marcador 2008. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2008. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna)

"O Silêncio de Lorna" (2008) dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne (A Garota Desconhecida - 2016) possui uma linha naturalista quase documental, característica ímpar dos irmãos, neste há um elaborado roteiro que discute não só a problemática da imigração ilegal e a máfia da naturalização, mas também retrata o processo de entendimento sobre a culpa que a protagonista sofre no desenrolar. O cotidiano é exposto com crueza e não há espaço para melodramas, a atriz albanesa Arta Dobroshi realiza uma tour de force, o controle de suas emoções e sua conscientização do entorno gera um conturbado e dilacerante final.
Lorna (Arta Dobroshi) deseja se tornar sócia em uma lanchonete, junto com seu namorado. Envolvida em um esquema, aceita se casar com Claudy (Jérémie Renier), um dos capangas do mafioso Fabio (Fabrizio Rongione), apenas para adquirir a nacionalidade belga. Após certo tempo ela é obrigada a mais uma vez se casar, desta vez com um mafioso russo. Só que para que este novo compromisso seja selado, Lorna precisa se livrar de Claudy.
Acompanhamos o cotidiano de Lorna que está prestes a conseguir sua cidadania graças a um esquema do taxista Fabio (Fabrizio Rongione), que faz parte da máfia albanesa, assim como o namorado de Lorna, Sokol (Alban Ukaj), que na maior parte do tempo está distante agindo na Alemanha, o plano de casá-la a troca de dinheiro com um viciado em drogas dá certo, mas Fabio planeja reaver o dinheiro a casando novamente com um russo e garante a ela que haverá um adicional e então conseguirá abrir a lanchonete que tanto sonha, mas para isso acontecer Claudy precisa morrer, fazendo de Lorna uma viúva de cidadania belga e dessa forma podendo casar-se novamente e possibilitando dar a cidadania à outrem. Claudy luta contra o vício em drogas e se apega a Lorna, ela demonstra distância, seus interesses são outros, mas à medida que ele implora por sua ajuda algo nela começa a mudar, e não há nada mais difícil para um viciado do que pedir auxílio, o vendo nesse estado o acompanha na internação e nos dias que segue limpo. Fabio pretende que Claudy tenha uma overdose, mas Lorna não concorda com isso, mesmo o namorado dizendo a ela que esses tipos só amam as drogas, ela decide ir por outros caminhos e pede o divórcio alegando violência doméstica, ela se machuca e consegue até testemunhas para agilizar a sentença, Claudy fica chateado por ser visto como um agressor e por ela querer a separação. De alguma maneira Lorna tenta salvar Claudy do iminente perigo e a relação ganha formas surpreendentes e até afetuosas, Lorna ao longo deste esquema sujo vai se conscientizando de sua culpa e do dano que causará na vida da frágil figura de Claudy, que diga-se de passagem, composta por Jérémie Renier com muita veracidade e veemência.

Lorna apesar de estar envolvida num sórdido esquema possui princípios morais, por isso seu controle emocional e frio na maior parte do tempo, não quer se envolver com os problemas de Claudy, mas os dilemas vão se tornando maiores conforme vai descobrindo o que Fabio planeja para o vulnerável Claudy, o esquema é mais sujo do que imaginava e os meios que usou para conseguir sua cidadania vão se transformando numa grande culpa. Depois o desejo de abrir a lanchonete com o namorado a guiou para que acatasse o segundo casamento, mas as circunstâncias se tornam ameaçadoras e confusas, Lorna entra num turbilhão de sentimentos e desestabiliza todo o esquema de Fabio.

"O Silêncio de Lorna" é um filme que retrata a crueza da realidade sem espaço para floreios, não há trilha sonora pontuando, somente em seu final ao som de Beethoven, o que se sobressaí é o roteiro e seu maior triunfo está nas interpretações, o envolvimento gradativo e a empatia que surge garante um emaranhado de sentimentos e uma dolorosa experiência. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Fantasma de Buenos Aires

"Fantasma de Buenos Aires" (2008) dirigido por Guillermo Grillo é um filme pitoresco e por vezes exagerado, a sua mescla de gêneros garante originalidade e no todo satisfaz o espectador. O sobrenatural está de mãos dadas com um humor irônico e nostálgico, o sombrio e afetuoso, as duas dimensões conversam inteligentemente e por fim além de garantir um gostoso sorriso no rosto aproveita para nos deixar grandes reflexões sobre vida e morte. 
Uma história sobre a relação entre um jovem de hoje e um fantasma mal-intencionado assassinado em 1920. Numa noite qualquer, três amigos fazem o "jogo do copo". Para surpresa deles, a sessão de espiritismo funciona e um fantasma passa a habitar a casa, manifestando-se como uma sombra que canta tango. Apenas um dos rapazes, marcado pela morte de sua mãe quando criança, se interessa por este fenômeno. Ele faz tudo que precisa para se reconectar com o espírito e consegue fazer um pacto com ele: o fantasma irá contar tudo o que há depois da morte e o garoto vai viver um dia em seu corpo. Assim, esse fantasma encontra a Buenos Aires dos dias atuais, enfrentando coisas que não entende. Desta forma, existem situações loucas, emotivas, de risco e, lentamente, uma amizade entre eles. Uma história de suspense, ironia, emoção e reflexão sobre as mudanças trazidas pelos anos. É como um tango vagabundo, que de alguma forma combina o humor, tristeza, amor e violência.
De início a história segue uma linha narrativa comum entre os filmes de terror, onde três jovens entediados decidem se aventurar no jogo do copo, mas as circunstâncias do ato são totalmente diferentes, quando um deles quebra o copo diz que o espírito ficará na casa e com medo saem do local, o único a se interessar pelo assunto é Tomás (Estanislao Silveyra) que perdeu a mãe muito pequeno e não se lembra de nada, ele necessita saber se é verdade que o espírito está lá para entender então o que há depois da morte, sozinho pega as chaves do amigo e de repente se depara com uma sombra cantando tango, ao se comunicar com ele desmaia e o fantasma lhe diz o que deseja. A história intercala momentos do passado vivido por Canaveri (interpretado pelo charmoso Ivan Espeche), um boêmio morto nos anos 20, este que propõe um pacto a Tomás, ele contará tudo o que quiser saber sobre o além se o garoto emprestar o corpo para poder resolver assuntos pendentes. Simples assim!

Tomás mesmo com receio acredita que o espírito deixará seu corpo quando tudo estiver esclarecido e a sua curiosidade em saber as coisas que acontecem depois da morte dão coragem para aceitar o pacto. A partir daí somos conduzidos por ótimos momentos de humor, o fantasma se assusta com a Buenos Aires atual e Tomás precisa saber lidar com a divisão de si mesmo, mas Canaveri acaba sendo digno e até respeita as vontades de seu anfitrião. Os passeios pela cidade, o espanto em ver como tudo mudou denotam muita nostalgia ao longa, sentimentos que vão surgindo para alguém que há muito estava afastado da realidade palpável.  

"Fantasma de Buenos Aires" traz uma narrativa criativa e charmosa, que ora é sombria, ora iluminada, instiga e emociona e possui belos momentos afetuosos. Passional assim como a alma de um tango!

sábado, 24 de fevereiro de 2018

15 Filmes sobre Sonhos (15 Dream Movies)

Segue uma lista que explora o universo dos sonhos, suas camadas, seus mistérios, suas belezas, o onírico se mesclando à realidade, são diversas as obras que passeiam por essas características, portanto, os listados são apenas uma pequena amostra do quão fascinante é quando inconsciente e consciente se unem. 

15- "Preso na Escuridão" (Abre los Ojos - 1997) de Alejandro Amenábar
Cesar (Eduardo Noriega) é jovem, rico e bonito. Em torno dele, duas mulheres (Penélope Cruz e Najwa Ninri), mas uma armadilha do destino vai fazer com que ele viva um pesadelo terrível. Tudo começa com um acidente, em que sua namorada morreu e seu rosto foi desfigurado e, para piorar as coisas, ele foi acusado de assassinato e condenado. Ainda na prisão, se submete a várias cirurgias e consegue recuperar seu belo rosto. Mas começa a apresentar um comportamento estranho, que intriga o psiquiatra local.

14- "Sonhando Acordado" (La Science des Rêves - 2006) de Michel Gondry
Stephane Miroux (Gael García Bernal) vê seus sonhos invadirem constantemente a vida real. Quando dorme, se transforma no carismático apresentador do programa "Stephane TV", explicando sua "ciência dos sonhos" na frente das câmeras de papelão. Na vida real, tem um trabalho chato numa editora de calendários em Paris. Ele flerta com a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas a moça não está disposta a encarar alguém como ele. Guy (Alain Chabat), colega de trabalho de Stephane, até tenta ajudá-lo na conquista, mas nada funciona. Incapaz de chegar ao coração de Stephanie na vida real, Stephane procurará as respostas em seus sonhos.

13- "Ladrão de Sonhos" (La Cité des Enfants Perdus - 1995) de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Krank (Daniel Emilfork) envelhece numa nebulosa torre aquática por não poder sonhar e tenta resolver a sua limitação sequestrando as crianças das cidades vizinhas para lhes roubar os sonhos. One (Ron Perlman), um caçador de baleias, forte como um cavalo, sai em busca de Denree, seu irmão mais novo que fora sequestrado pelos homens de Krank. Com a ajuda da menina Miette (Judith Vittet), logo eles chegam na cidade das crianças perdidas.

12- "Rabbits" (2002) de David Lynch
É assustador, estranho e até mesmo engraçado. Rabbits é a mãe e o pai de todos os pesadelos. A atuação, os movimentos, as luzes e as câmeras nos levam ao pavoroso e indecifrável mundo do subconsciente, do qual nunca mais iremos querer acordar.

11- "Alice" (Neco z Alenky - 1988) de Jan Svankmajer


Quando Alice seguiu o Coelho Branco no País das Maravilhas, iniciou-se assim uma surpreendente e perigosa aventura onírica pelo mundo infanto-juvenil. O animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.

10- "Dream" (Bi-Mong - 2008) de Ki-duk Kim
Jin acorda depois de ter sonhado com um acidente de trânsito ao estar seguindo sua ex-namorada. Guiado pelo sonho, chega até o lugar dos fatos e ali se encontra com o acidente, que realmente aconteceu, e que aconteceu exatamente igual ao seu sonho. Ele segue a polícia até a casa da suspeita, Ran, e alí é testemunha de como ela nega a acusação de atropelamento e fuga, já que declara ter dormindo toda a noite. Jin explica seu sonho aos policiais e pede que acusem ele no lugar dela. A polícia o vê como um louco e prende Ran. Jin logo percebe que, cada vez que ele sonha, Ran, sonâmbula, representa inconscientemente seu sonhos na vida real.

09- "O Congresso Futurista" (The Congress - 2013) de Ari Folman
Uma atriz em fim de carreira (Robin Wright) decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter melhores condições de cuidar de seu filho, portador de deficiência física. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando assim uma atriz virtual idêntica à ela mesma. Enquanto a empresa pode utilizar essa imagem virtual para os fins que desejar, a atriz real será proibida de atuar até o resto de sua vida. Aos poucos, ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.

08- "A História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien - 2003) de Jacques Rivette
Julien (Jerzy Radziwilowicz) é um relojoeiro frustrado de 40 anos, que está chantageando Madame X (Anne Brochet): ele sabe de coisas misteriosas que a envolvem no tráfico de objetos antigos, mas desconhece a ligação entre ela e a sublime Marie (Emmanuelle Béart), por quem Julien havia se apaixonado perdidamente cerca de um ano antes. Tendo reencontrado a amada, ele percebe que algo mudou no seu comportamento: apesar do seu crescente amor por Julien, Marie parece incapaz de encontrar a sensação das coisas. Julien fará o que puder para ajudar Marie a se liberar desse estado.

07- "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Dr. - 2001) de David Lynch 
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

06- "Corpo e Alma" (Testről és Lélekről - 2017) de Ildikó Enyedi
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa. Saiba+

05- "Paprika" (Papurika - 2006) de Satoshi Kon
Num futuro próximo, o Dr. Tokita (Tôru Furuya) inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Sua colega, a Dra. Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), psicoterapeuta e pesquisadora de ponta, desenvolve um tratamento psiquiátrico revolucionário a partir do aparelho. Mas, antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o DC-Mini é roubado. Quando vários dos pesquisadores do laboratório começam a enlouquecer e a sonhar em estado de vigília, Atsuko assume seu alter-ego, Paprika, a bela "detetive de sonhos", para mergulhar no mundo do inconsciente e descobrir quem está por trás da tragédia.

04- "Sereia" (Rusalka - 2007) de Anna Melikyan
Era uma vez, uma garota chamada Alisa, que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre. Saiba+

03- "O Fantasma da Sícilia" (Sicilian Ghost Story - 2017) de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo. Saiba+

02- "Acordar para a Vida" (Waking Life - 2001) de Richard Linklater
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem têm longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.

01- "Sonhos" (Dreams - 1990) de Akira Kurosawa
"Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo. Saiba+

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Morfina (Morfiy)

"Morfina" (2008) dirigido por Aleksey Balabanov (Eu Também - 2012) reconstitui vigorosamente a prática médica em plena Revolução Bolchevique (1917). Um jovem médico determinado e talentoso precisa lidar com inúmeros empecilhos, tanto a sua insegurança, como a ignorância das pessoas. Um retrato sombrio de como um homem com tanto para fazer se envereda por um caminho desolador,  o vício em morfina.
Adaptação da história "A Country Doctor's Notebook", de Mikhail Bulgakov, baseada na experiência real do autor russo, quando, como um médico rural se tornou viciado em drogas, após uma pequena dose prescrita. Balabanov cuidadosamente reconstrói o momento em que Bulgakov cai nos braços da morfina, os anos da Revolução Russa, e mostra com rigor a aspereza da prática da medicina nesse período histórico.
Doctor Polyakov Mikhail Alekseyevich (Leonid Bichevin) sai da cidade grande e vai para um local afastado ficar no lugar de outro médico, lá conhece o paramédico e duas irmãs parteiras, se estabelece no quarto do médico antecessor repleto de livros, percebe que há bastante medicamentos e quando surge seu primeiro paciente na madrugada não consegue salvá-lo, o que cria uma situação estranha, já que foi por uma doença considerada infantil, Mikhail então terá que provar seu talento, senão o nome do médico anterior sempre será falado, deste episódio da difteria por ter tido contato com o paciente precisou tomar uma vacina, que lhe causou "reações", uma outra dose foi dada e esse foi o início de seu vício. Os burburinhos de uma revolução chegam e assim caminham os dias, frios e isolados. As passagens que envolvem cirurgias são as melhores, pois é macabro todos os equipamentos, medicamentos e maneiras, Mikhail exibe controle, mas é inseguro e toda vez sai para consultar os livros e volta e conduz tudo brilhantemente.
O humor está presente na trama que contém um contexto histórico pesado e ameniza o tom que ainda continua duro, a trilha sonora ajuda a compor o cenário e dar mais leveza, a trajetória desse jovem médico é triste, vê-lo se transformar em um esboço sendo que poderia fazer muito pelas pessoas e pela medicina. Sempre interessante histórias que abordam a medicina, os primórdios com suas técnicas e tratamentos assustadores, vários tipos de doenças infecciosas e as soluções que utilizavam. 

Após tomar a vacina de morfina como antídoto, o doutor já começa a sentir náuseas e ao sentir os efeitos toma isso como uma alergia e a enfermeira lhe aplica mais uma dose e essa dose nos dias que se seguem vão aumentando, aos poucos vemos sua deterioração e nisso o filme é primoroso, completamente visual, nada de imersão em sua mente, é no físico que se concentra e a degradação é terrível. O visual é o fator principal e são muitos momentos tensos em que Mikhail precisa agir, como uma amputação, uma traqueostomia, um parto podálico, onde não se poupa gritos, sangue, ruído de vísceras, dor e a fragilidade do corpo.

"Morfina" tem uma ambientação arrebatadora e passa com exatidão as sensações, desde as inseguranças, sejam elas em relação à medicina ou contexto político, como nos sentimentos e sensações fisiológicas dos personagens. Outra caraterística muito atraente é o realismo, as maneiras russas e o humor, além de muito gelo e escorregão e, claro, a vodca, que possui diversas utilidades!
Outra dica para quem gosta da temática é a série britânica "A Young Doctor’s Notebook" (2012) que também é baseada nessa história de Bulgakov, estrelada por Daniel Radcliffe e Jon Hamm. 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Canções dos Mares do Sul (Pesni Yuzhnykh Morey)

"Uma coisa que eu aprendi foi que o que mantém a vida não é a força, mas o amor."

"Canções dos Mares do Sul" (2008) dirigido por Marat Sarulu (My Brother Silk Road - 2002) é um pequeno épico que emana uma belíssima mensagem de paz e amor, uma obra necessária para compreender que todos estão relacionados, russos e cazaques, cristãos e muçulmanos, europeus e asiáticos. 
Ivan (Vladimir Yavorsky) é russo e seu vizinho, Asan (Dzaidarbek Kunguzhinov), é cazaque. Eles vivem em uma pequena aldeia rural no Cazaquistão. Quando a esposa de Ivan dá à luz um menino moreno, Ivan começa a suspeitar que sua esposa o traiu com Asan. Instaura-se um conflito entre as duas famílias que perdura por muitos anos. Um dia, Ivan resolve viajar, e, ao encontrar seu avô, descobre a verdadeira história de sua família e de seus antepassados. Asan, por sua vez, parte à procura dos "Mares do Sul" em busca de sua paz interior. Enquanto isso, as duas mulheres, abandonadas à própria sorte e tendo de executar todo o trabalho de suas propriedades, deixam de lado seus conflitos e unem-se em seu sofrimento. 
A história apesar de se passar na Ásia central trata de assuntos universais, o preconceito e ódio pelo diferente por medo e ignorância, Ivan fica por 15 anos guardando raiva de Asan, eles sempre se deram muito bem, compartilhando momentos de uma boa amizade, mas o nascimento de seu filho o fez acreditar que sua mulher o traiu com Asan, os traços do menino o fizeram crer nisso, o tempo passa e Ivan recolhido em sua amargura e confrontado pelos familiares de sua esposa que fazem piada por ele ser um simples camponês e não ter sangue cossaco, decide procurar seu avô e saber um pouco mais de sua história e seus antepassados, enquanto isso Asan também mergulhado em tristeza ruma para encontrar os "Mares do Sul", a fim de tirar o peso de seu coração. As mulheres unem-se novamente, dividem as tarefas, bebem e conversam na ausência de seus maridos, já o filho desaparece com seu cavalo pelas estepes.
O avô vendo a dúvida que Ivan tem sobre a honestidade da mulher e amigo lhe conta a história de seus antepassados, a revelação o desarma totalmente, ali ele percebe que todos estão interligados e que nutrir ódio e preconceito é uma estupidez. A rica história contada pelo avô retrata gerações que guerrearam por ódio étnico e religioso e aqueles que também enfrentaram tudo por amor, a multietnicidade não está apenas em seu sangue, mas na da maioria que ali vive, por isso compreender o passado histórico é muito importante para ficar imune a esses conflitos.

O filme foi rodado nas redondezas do Lago Issyk-Kul e sua paisagem é absurdamente fascinante, os vales, as estepes, uma imensidão imersiva que traduz a ampla e vasta diversidade que existe nestas terras, são inúmeros povos que já passaram por ali e que fizeram dessa sociedade mista. 
"Canções dos Mares do Sul" é um belo e grandioso filme que reflete questões pertinentes e que carrega uma mensagem engrandecedora e elucidativa, nada como olhar com mais carinho para o outro e entender a sua própria história e a do lugar em que se vive.  

"Esta história é inspirada por problemas associados com sentimentos de pertencimento cultural e étnico. Cada tentativa de classificação é uma ilusão perigosa que gera medo, hostilidade e opressão... Eu acho que as ideias que funcionam através deste filme são remédios contra o medo. Todos nós pertencemos à mesma raça, à mesma família." - Marat Sarulu

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Stella

"Stella" (2008) de Sylvie Verheyde (Confissões de um Jovem Apaixonado - 2011) traz uma história dolorosa, mas esperançosa sobre a pré-adolescência.
Stella é uma garota argentina de 11 anos de idade que acaba de iniciar um novo curso numa escola de Paris. Mas sua vida, mesmo, transcorre dentro de um bar cujos pais exilados são donos. Um refúgio para a classe trabalhadora, que cai na bebida, faz apostas, fala de futebol e outras amenidades até o dia amanhecer. Para Stella, a escola é complicada. Mais do que os estudos, o que ela não suporta são as humilhações dos professores e amigos por causa de sua origem. É assim que começam a despertar na garota instintos mais violentos. Mas graças a sua única amiga, também filha de intelectuais argentinos exilados, Stella vai vislumbrar um mundo que não conhece: desde o primeiro amor até os perigos que cercam uma menina prestes a se tornar mulher.
Stella (Léora Barbara) nada mais é que o alter ego da diretora Sylvie Verheyde, a história se passa no final dos anos 70 e mais do que um filme sobre ritos de passagem é uma obra de personalidade e completamente passional. Stella é transferida para um novo colégio, onde irá cursar o 5º ano, a adaptação não é fácil, pois todos ao olhar da menina são esnobes e vazios, a escola e as matérias não fazem sentido pra ela que carrega em si uma bagagem de vida apesar de sua pouca idade. Seus pais são donos de um bar, cujos frequentadores são em sua maioria decadentes, bêbados e desempregados, este é o local em que ela fica interagindo e observando tudo o que acontece, desde as atitudes de seus pais irresponsáveis, até a convivência com pessoas das mais variadas, incluindo Alain (Guillaume Depardieu), por quem a garota cai de amores. Visto assim parece que seu futuro já está traçado, talvez, o mesmo de sua mãe. Porém, existem diversas possibilidades na vida e a de Stella é a sua amiga Gladys (Mélissa Rodriguès), uma menina rica que apresenta o universo da leitura, e do qual Stella se encanta. A cena em que Stella mente conhecer Cocteau para não se sentir envergonhada é o momento em que ela desperta, o que a leva a correr para um sebo e começar a se enveredar pelas maravilhas que um livro pode trazer.
A atuação de Léora é impressionante, diferente dos demais se entedia diante do universo escolar e se exclui, mas não deixa de estar aberta para novas descobertas. O modo com que Stella e Gladys vão se tornando amigas, e o fato de Gladys não se importar com a gritante diferença entre elas faz tudo se tornar mais simples e apaixonante.
A importância do incentivo sincero e a educação é o único meio de nos tornarmos pessoas melhores. 

O filme conta com uma narração em off da protagonista, suas observações acerca do mundo e dela mesma são interessantes e irônicas, mas não deixam de ser puras. Em dado momento ela diz: "Sei tudo sobre futebol: quais os melhores times e jogadores; sei fazer coquetéis e jogar fliperama; sei as regras do bilhar e sei jogar cartas; sei várias letras de música de cor; sei quem é sincero e quem mente; sei como se faz bebês e como se transa; só que no resto, sou péssima".
É agradável acompanhar o amadurecimento de Stella, o reconhecimento das oportunidades que estão à sua disposição, a sua lucidez perante a vida, e claro, a valorização de sua amizade com Gladys. A forma como lida com os adultos, principalmente com o comportamento dos pais, por exemplo, com a traição da mãe no próprio estabelecimento e o como deseja cuidar de seu pai depois disso. Realmente ela está ultrapassando um momento de extrema fragilidade e Gladys sem dúvidas foi um presente para sua vida.

Stella enxergou suas oportunidades e como todo ser humano com consciência teve gratidão. Seu agradecimento a Gladys no final é emocionante. Sentimos orgulho dela.
"Stella" disserta sobre a transição de criança à adolescência de modo natural, sem julgamentos e esteriótipos. É sincero e otimista na medida certa!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O Estranho em Mim (Das Fremde in Mir)

"O Estranho em Mim" (2008) dirigido por Emily Atef é um filme muito angustiante, o drama da personagem vivida pela Susanne Wolff é dificilmente explorado no cinema. Chega a doer de tão real. A depressão pós-parto é um assunto que muitas mulheres evitam, já que amar o ser que sai de suas entranhas é algo intrínseco e natural, e por não conseguir entender a melancolia e a incapacidade que as toma acabam se culpando.
Acompanhamos um jovem casal apaixonado, Rebecca, 32 anos, e seu namorado Julian, 34, estão ansiosamente esperando seu primeiro filho. O mundo deles parece perfeito quando Rebecca dá à luz a um menino saudável. Mas ao invés do amor incondicional que esperava sentir, ela se vê imersa num redemoinho de sensações de impotência e desespero. Seu próprio filho lhe parece um estranho. Com o passar dos dias, fica cada vez mais aparente sua inabilidade para cumprir com as obrigações maternas. Incapaz de admitir seus sentimentos para alguém, nem mesmo para Julian, ela desce ao fundo do poço, a ponto de perceber que está se tornando uma ameaça à criança. Depois de um ataque de nervos, Rebecca é mandada para uma clínica. Lentamente, ela começa a desejar o toque, o cheiro e a risada de seu filho. Talvez um despertar da mãe que há dentro dela.
É um filme particularmente feminino, mas isso não quer dizer que os homens não consigam criar empatia, a direção, a abordagem e a protagonista é de extrema sensibilidade. Rebecca tem um relacionamento e uma vida boa, está feliz pela chegada do bebê, mas após o parto não consegue criar o vínculo esperado, a hora da mamada é o forte indício de que algo está errado, mas como acontece na maioria dos casos a culpa a corroí e não conta para ninguém o que está sentindo, distancia-se do marido, seu semblante se modifica, e de repente sem querer percebe que a criança pode estar em risco na sua presença. Numa caminhada acaba esquecendo o carrinho na rua e pega um ônibus, o estopim para que a internem e daí comecem um tratamento para que se aproxime do filho.

Tenso, "O Estranho em Mim" consegue nos elucidar sobre o problema sem ser didático, há muitas cenas fortes, desconfortáveis e silenciosas que parecem não terminar, uma bela tour de force da atriz que se entregou à personagem com maestria. Além da depressão pós-parto o filme também disserta sobre a falta de comunicação.
A imagem da mãe segurando feliz seu bebê recém-nascido, o amor incondicional, a dedicação integral é demasiadamente exposta, é algo divino e ponto. Excluem-se todas as problemáticas que envolve a experiência de dar à luz. A diretora coloca em pauta o assunto que é considerado tabu e que não se conversa sobre, um momento delicado e de redescobertas para a mulher. 
"O Estranho em Mim" não é um filme de fácil absorção, é duro e chega a ser cruel o desespero que a personagem sofre. Um ótimo exemplar do cinema alemão, maduro, sensível e real.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Lágrimas de Abril (Käsky)

Guerra Civil Finlandesa, abril de 1918. Os brancos vitoriosos caçam os guardas vermelhos remanescentes. Cerca de 2.000 mulheres lutaram entre os soldados vermelhos, entre elas Miina Malin, comandante do esquadrão feminino. Após escapar do fuzilamento, Miina é recapturada por Aaro Harjula, um soldado branco que acredita em justiça e dignidade. Contrariando as ordens de seu superior, Harjula decide levar Miina à corte marcial para ser julgada. Durante o trajeto, acontece algo que mudará o destino dos dois.
Baseado no romance de Leena Lander, "Lágrimas de Abril" é um mergulho em um cenário de violência, miséria, poesia e desejos reprimidos, emoldurados por uma belíssima fotografia. As mulheres eram definidas como "lobas", e eram consideradas uma grande ameaça. A guerra é somente um pano de fundo nessa forte história, aqui questões humanas são colocadas em xeque, decisões cruciais, que quando tomadas, as consequências chegam de maneira dolorosa. A tradução do título para "Lágrimas de Abril" é extremamente acertada e sensível, pois o original "Käsky" é algo como "Comando" se traduzido ao pé da letra. 
O personagem Harjula é o ponto forte, pois em meio a tanto ódio e terror, ele ao contrário dos outros têm sentimentos e lamenta pelos prisioneiros que mais tarde serão executados. Miina consegue escapar de uma execução, em que mais ou menos quinze mulheres são capturadas ao tentar enfrentar o exército branco. Depois de uma noite de desforra, em que os soldados usufruem de seus corpos de maneira insana, executam-as, restando apenas Miina, que logo é pega pelo Harjula. Este por sua vez deseja um julgamento justo para aquela mulher, e por conta própria a leva à corte, só que no caminho acontece um imprevisto, onde ficam presos em uma ilha, e sentimentos mais fortes se revelam. Ao chegar no cenário de seu julgamento encontramos um homem rústico e bem peculiar, Emil Hallenberg é sisudo, intelectual, mas esconde algo em seu íntimo. Ele tem o poder de libertar ou não Miina, mas a mantém só para poder ficar perto de Harjula, que mais tarde percebemos suas verdadeiras intenções. Vendo que o soldado tem um carinho extra por Miina, Emil aproveita para tirar tudo que pode do seu querido Harjula.
O filme é apenas um retrato insosso dessa guerra. Também não pode-se dizer que é propriamente um romance, dada a frieza dos personagens que é necessária naquele ambiente. O desfecho do filme é surpreendente e emociona. Uma ponta de esperança, a liberdade de Miina faz com que Harjula lute para que ela consiga sobreviver, e ir ao encontro do menino que sua amiga antes de morrer a fez prometer encontrar.

"Lágrimas de Abril" é visualmente belíssimo e envolvente, ele segue um ritmo próprio em que as situações seguem sem serem forçadas. Muitos finlandeses o definem como um filme sem conteúdo, apenas como "um pedaço de guerra". Mas é perceptível que é um filme requintado e extremamente sensível, apesar da frieza, que deve ser da natureza dos finlandeses. Harjula é dotado de uma sensibilidade mais humana, Emil é mais caricato, porém em seu íntimo é um ser carente, e Miina faz o papel de uma mulher forte, durona e impenetrável. Pode-se dizer que a sensibilidade existe, mas não é aparente e explícita. É um filme característico e peculiar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (Valerie a Týden Divu) +Coisas Insignificantes (Cosas Insignificantes) + O Foguete (The Rocket)

Valerie, uma jovem adolescente que vive com sua avó, começa a ter os primeiros contatos com sua consciência sexual quando um grupo circense chega a sua cidade e é presenteada com um par de brincos mágicos. A linha entre sonhos e realidade é tênue nesta fantasia psicológica surrealista. Uma história que trata de amor, medo, sexo e religião. O filme "Valerie e sua Semana de Deslumbramentos" do diretor Jaromil Jires faz parte da New Wave Tcheca que se iniciou em 1960, as obras iam contra todo o realismo da época apresentando características de surrealismo e onirismo. "Valerie..." faz parte do surrealismo estético, onde os sonhos e pesadelos com qualquer tipo de criatura se externalizam.
Valerie é uma garota inocente que vive com sua avó, mas logo uma nova fase surgirá para ela, quando no início ganha um par de brincos que caracterizam a sua mudança. A narrativa carrega simbolismos muito bonitos, como o sangue pingando nas margaridas mostrando que a menina terá pela frente várias descobertas. De repente, ela começa a enxergar todos ao seu redor de outra forma e demoniza os adultos, a volúpia é a grande protagonista do filme. O amadurecimento sexual é o foco, a mistura de realidade e sonhos caracterizam diversos sentimentos, dos quais se fazem presentes nesta fase tão confusa. O despertar é trabalhado de maneira completamente onírica, onde o paganismo naturalista junta-se aos ícones, símbolos e rituais cristãos.
Vale dar uma conferida neste exemplar maravilhoso da New Wave Tcheca e se deslumbrar com todos os elementos do filme.

Esmeralda é uma adolescente com uma obsessão incomum: ela coleciona objetos perdidos, esquecidos ou descartados e os guarda em uma caixa embaixo de sua cama. É a história dessas coisas insignificantes e das pessoas por trás delas, todos de alguma maneira incapazes de se conectar com quem mais amam. Esses objetos, dentro de uma caixa, representam tanto a ausência da comunicação como sua possibilidade.
O filme entrelaça diversas pessoas que fazem parte do cotidiano de Esmeralda através dos objetos que ela encontra e guarda para si, em capítulos vamos conhecendo-os, assim como os seus respectivos donos, e a história delicadamente nos apresenta uma gama de possibilidades. É leve ao abordar o como certas coisas que julgamos pequenas dizem muito sobre nós. 
Dirigido por Andrea Martínez, "Coisas Insignificantes" tem uma aura de esperança, o roteiro simples e suave, juntamente com as atuações naturais cativa e nos faz pensar na nossa própria vida e suas insignificâncias.

Um menino acreditando trazer má sorte para todos em torno dele leva a sua família e dois novos amigos através de Laos para encontrar um novo lar. Depois de uma viagem cheia de calamidade por uma terra marcada pelo legado da guerra, para provar que ele não traz má sorte, ele constrói um foguete gigante para entrar na competição mais emocionante e perigosa do ano: O Festival de Rocket.
"The Rocket" filme de estreia do diretor australiano Kim Mardaunt é despretensioso ao mostrar a história de um menino marcado pela crença de seu povo e os desastres envoltos do local. Ambientada no Laos, Ahlo é um garotinho nascido em uma tribo que possui a crença de que quando se nasce gêmeos, um é abençoado e outro é amaldiçoado, seu irmão nasce morto, portanto não se sabe o que Ahlo será, mas conforme cresce devido a algumas coisas ruins que vão acontecendo ele é considerado amaldiçoado. Ao encontrar Kia e Tio Roxo no campo de refugiados em que se mudaram por causa da construção de uma hidrelétrica onde moravam, ele decide quebrar esse esteriótipo que criaram para ele.
A narrativa pode ser considerada clichê, mas isso não tira a beleza, ao contrário, dá magia à história tão cheia de sofrimento. Não há mal nenhum em utilizar meios para colorir algo tão terrível, e o diretor soube enfatizar detalhes importantes do povo, mesmo que exagerando é um belo filme de final feliz, não poderia ser diferente, você torce para Ahlo a cada segundo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

XXY + O Lar (Home)

"A escolha é do indivíduo e ninguém tem o direito de impor o que você é, tendo horas de vida ou 80 anos de idade." 

O filme de Lucia Puenzo (O Médico Alemão - 2013) tem uma ideia interessante e considerada tabu, pois dificilmente vemos ser discutida a intersexualidade em nossa sociedade. Apesar da narrativa permanecer quase sempre no mesmo lugar faz com que pensemos na questão de gêneros.
Alex (Inés Efron) nasceu com ambas as características sexuais. Tentando fugir dos médicos que desejam corrigir a ambiguidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo de Alex e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem 16, sentem-se atraídos um pelo outro.
O que o filme coloca em questão é o olhar preconceituoso das pessoas que a veem como uma aberração, mas no seu mundo interior Alex não quer escolher entre ser feminino ou masculino, até porque não há necessidade de rotular e definir. A opção do pai em decidir a não fazer a cirurgia e deixar que Alex escolhesse é o grande ponto do filme, é uma abertura da qual não estamos acostumados e por isso choca, mas quer amor maior do que dar a liberdade de escolha a quem se ama? E se este decidir permanecer do jeito que é, que assim seja!
O fato é que a sociedade não sabe lidar com o diferente, aquele que foge dos padrões, a decisão do pai em afastar e deixar Alex livre das opiniões e olhares foi incrível, pois deu a ela uma melhor maneira de se conhecer, ainda mais na fase da adolescência em que os hormônios borbulham. O filme não é conclusivo, mas foi muito acertado ao colocar em pauta um tema tão complexo. É para pensar e rever conceitos!

Marthe, Michel e seus três filhos moram tranquilamente em uma casa isolada no meio do nada, em frente à qual uma larga estrada permanece vazia, fechada desde sua construção. No início do verão, ela é finalmente inaugurada. A família tenta manter sua rotina, mesmo com o estresse causado pelo barulho incessante de centenas de carros. Mas os efeitos a longo prazo do incômodo com a constante perturbação instauram um clima crescente de tensão familiar. Ainda assim, eles se recusam a deixar o lar construído com tanta dedicação.
Dirigido por Ursula Meier (Minha Irmã - 2012), "O Lar" é um filme rico em significados, apesar de monótono, mas é para se analisar as situações que vão ocorrendo, o pouco de sossego que nós temos no nosso cotidiano é um dos pontos. O porquê da família ter se mudado em um lugar isolado não é explicado, mas fica óbvio que é por conta do estresse da cidade e a convivência forçada diária, isso é principalmente retratado na personagem de Isabelle Huppert. De início tudo está tranquilo, mas quando inauguram a rodovia que fica bem em frente à casa, as coisas vão se complicando, tanto no dia a dia que muda completamente, quanto ao estado físico e psicológico da família, porém mesmo com as dificuldades eles não se mudam, ficam e acabam vedando inteiramente a casa.
É um filme intrigante e com uma narrativa que beira o bizarro, na verdade é uma fábula contemporânea que diz: Não há para onde escapar das chatices da sociedade, sempre haverá algo para atrapalhar e nos afundar.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Casamento Silencioso (Nunta Muta)

"Casamento Silencioso" (2008) do diretor romeno Horatiu Malaele é um filme baseado em fatos reais que mistura o lúdico e o cruel de maneira particular. Retratando os efeitos do comunismo numa pequena aldeia romena, ele prima por seguir os moldes do realismo fantástico trazendo de forma diferenciada um fato histórico denso, mas sem nunca deixar de lado a comicidade enfatizando a cultura e a alegria do povo local.
O filme se inicia com uma equipe de TV indo até uma antiga aldeia povoada apenas por mulheres e que atualmente acreditam ser habitada por fantasmas, os repórteres perguntam a história para um senhor, o único homem do lugar, e este com um semblante triste começa a contar. Voltamos então ao passado, precisamente no ano de 1953, num pequeno vilarejo habitado por pessoas alegres.
Maria e Iancu são dois jovens apaixonados que estão prestes a se casar, os habitantes da vila ficam ansiosos pela festa, mas para espanto de todos o prefeito da cidade juntamente com dois soldados anunciam uma semana de luto pela morte de Stalin. Durante essa semana fica proibido qualquer tipo de comemoração. O pai de Maria fica entristecido, pois os familiares vieram de longe e estava tudo pronto para a festa, e é aí que ele tem uma grande ideia. Nas cenas seguintes o que vemos é de uma teatralidade exuberante. O pai da moça reúne todos os convidados dentro de sua casa, arruma uma bela mesa com diversas comidas, bebidas, e seguem comemorando em silêncio. Tudo muito contido, a comunicação se dá puramente por expressões faciais, gestos e sussurros. Primeiro eliminam os talheres e comem com as mãos, depois o brinde sem tocarem os copos, os músicos fingem tocar, as crianças ficam num canto amordaçadas, e a dança dos noivos que é o ponto que nos dá aquela noção de que o que estamos vendo não é uma comédia. A exata sensação que este longa passa é de um riso seguido de silêncio, de quando rimos no momento errado e ficamos constrangidos.

Os personagens têm ares fabulescos, há os beberrões, o louco, a menina duende, o anão, o anjo, entre outros, todos interpretados com total irreverência. A grande cena do filme sem dúvidas é a comilança que acontece no mais absoluto silêncio, os ruídos inevitáveis não demoram a acontecer, o que deixa tudo muito divertido. O que dizer do momento em que o noivo levanta e murmura: "um brinde à nossa amizade", como ninguém entende nada, a ideia de passarem o que ele disse de ouvido a ouvido surge, o chamado "telefone sem fio", assim a frase inicial vai se transformando em coisas surreais e super engraçadas.
A ironia que permeia o longa é uma crítica inteligente, a passividade que é quebrada em determinado momento mostra que mesmo tendo duras consequências, principalmente para as mulheres, eles tiveram a força de interromper o silêncio e dar vazão ao que eles eram de verdade, um povo feliz.

O filme retrata sofrimento, mas de maneira leve e com um humor bem peculiar, a alegria mesmo sendo silenciada é muito evidenciada, e o final é a grande apunhalada, voltando aos tempos atuais, enquanto os repórteres riem ao entrevistar a senhora na aldeia toda destruída, ela repete: "O que mais vocês querem tirar de nós?" A torrente de sentimentos é inevitável e é impossível não nos fazer pensar na quantidade de vidas que foram caladas.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A Canção dos Pardais (Avaze Gonjeshk-ha)

"A Canção dos Pardais" (2008) dirigido por Majid Majidi (Os Filhos do Paraíso - 1997) é um filme lindo, poético, cheio de metáforas e dilemas. A simplicidade é a grande marca deste diretor tão sensível.
A trama retrata Karim, um homem trabalhador que tem como profissão cuidar de uma fazenda de avestruzes, algo que requer bastante esforço e amor. O dinheiro é pouco e o custo de vida aumenta a cada dia, as necessidades aparecem aos montes, principalmente quando sua filha precisa de um novo aparelho auditivo. O filho menor tem o sonho de transformar a cisterna abandonada que fica próxima de sua casa em um aquário com peixinhos dourados. Karim repudia essa ideia e toda vez que o encontra lá com outros meninos o repreende. A vida segue até que um dia Karim é responsabilizado pelo sumiço de um avestruz e acaba sendo despedido. Para manter a casa e juntar dinheiro para o aparelho da filha começa a trabalhar acidentalmente de mototáxi na capital, Teerã. Dia após dia ele luta com a concorrência e com trabalhos que infringem sua moral, Karim é um homem do campo, honesto, com valores, orgulho, mas conforme vai se habituando ao ritmo da cidade, esses valores começam a se distanciar. A ânsia de ganhar mais e mais dinheiro, o passar por cima de outros trabalhadores, e tudo isso vai consumindo-o de maneira natural, o mais triste é que esquece do aparelho auditivo da filha e trata de maneira rude seu filho que apresenta uma rara esperança e alegria.
Karim todos os dias leva algo para casa, uma janela, uma porta, quinquilharias que não vai usar, mas mesmo assim as guarda, uma bela metáfora ao consumismo, onde compra-se em demasiado sem realmente precisar, no que acaba ficando parado e o pior, não passando pra frente, veja a cena em que a mulher dele dá a porta para uma amiga que necessitava, o quão triste é ver aquele homem se tornando num alguém egoísta e mesquinho. Ele buscou a porta e andou com ela nas costas por um longo caminho e a empilhou lá com a desculpa que iria usar. Ele fez uma pilha imensa no quintal de sua casa, coisas que ia pegando pelos lugares que passava, um dia ele cai lá do alto e se machuca feio, de cama Karim tem tempo de sobra para repensar seus valores e olhar a vida com outros olhos. A partir daí começamos a ver mais de perto o sonho de seu filho, e a delicadeza de sua filha ao mentir sobre o aparelho auditivo, são momentos únicos, mas extremamente profundos.

Sem poder fazer nada Karim observa o esforço de sua família, a mulher e seus filhos trabalhando, e o mais incrível, vê que o sonho de seu filho está virando realidade, ele e seus amigos limparam a cisterna e ganharam os tais peixinhos para o aquário desejado, também vê a filha dizendo que consegue ouvir, quando na verdade lê os lábios para entender. Ele acompanha a vida nos seus detalhes, e percebe o quanto se distanciou da tranquilidade e do amor. Mas infelizmente não há ganhos nesta história, talvez para mostrar que é através das perdas que nos tornamos fortes e sábios, dando valor para o que realmente é de verdade.
A cena mais bela é quando os garotos percebem que o balde com os peixes está furado, e então juntos correm para poder salvá-los, só que no caminho derrubam e aos prantos tentam juntá-los no chão. Perde-se tudo na vida, menos os sonhos, sempre há um recomeço para poder libertá-los de novo, a canção ao final revela este pensamento através dos olhos cansados de Karim, e dos sorrisos que se abrem aos poucos nos rostos das crianças. Há um futuro ali, mesmo que incerto.

Majid Majidi é um diretor de sensibilidade única, são histórias simples, situações que podem parecer mínimas, mas que na verdade contém uma carga reflexiva muito forte. E apesar de mostrar uma cultura tão diferente da nossa, ao mesmo tempo é parecida, até porque os filmes de Majid retratam sentimentos. E não há nada mais universal que isso.
Para aqueles que desejam conhecer o cinema iraniano, Majid Majidi é uma ótima iniciação, são filmes para corações sensíveis, pessoas que capazes de enxergar além das superficialidades, são sentimentos verdadeiros que acometem qualquer ser humano em qualquer parte do mundo.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Gravata (Le Noeud Cravate)

"Le Noeud Cravate" (2008) do canadense Jean-François Lévesque é uma animação elaborada em Stop-Motion e com outras personagens trabalhadas em 2D, no tradicional papel. A produção levou 2 anos para ficar pronta.
A história segue um homem solitário que trabalha em um alto prédio de escritórios. O único momento "alegre" em sua vida cinzenta é o dia de seu aniversário, do qual todo ano recebe um cartão e um presente de sua mãe, geralmente é uma gravata, mas inesperadamente ganha um acordeão. Sua vida segue indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, sua função é desamassar papéis com um ferro. Vários anos se passam, e um dia ele descobre o que acontece com os papéis que passa o dia todo desamassando com o maior cuidado. A descoberta o deixa triste, mas o fará dar um outro rumo a sua rotina. Aos 40 anos com seu acordeão redescobre a vida.
O curta expressa muito bem o quanto a rotina é fastidiosa, e que por causa dela perdemos a vontade de fazer coisas que gostamos, o cansaço nos toma, e comumente por um trabalho do qual somos apenas uma peça que mais tarde será descartada. Basta nós entendermos e mudar essa situação, sem medo. Por vezes a rotina vem de mansinho, se infiltra sem nem percebermos, e é perigoso que ao nos darmos conta já tenha se passado tempo demais. Mas sempre há tempo para recomeçar a ver a vida de uma outra forma, e tomar consciência de si mesmo, assim como o personagem do curta.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Emprego (El Empleo)

"El Empleo" é um curta muito inteligente e exemplifica de maneira simples mas eficaz o sistema atual: A "coisificação" do ser humano na sociedade em função do emprego.
Acompanhamos um dia de trabalho de um homem. Em seu mundo, objetos e pessoas não possuem diferenças. Dirigido por Santiago 'Bou' Grasso e roteiro desenvolvido por Patrício Plaza, o curta arrematou mais de 100 prêmios mundo afora.
Com menos de 7 minutos consegue passar a crítica de que as pessoas cada vez mais perdem a identidade e deixam de fazer coisas que gostam para simplesmente servir, são nada mais do que uma peça de quebra-cabeça. Usamos e somos usados o tempo todo, e ao final resta somente infelicidade ou indiferença. A ideia é genial e dá aquela sacudida no comodismo nosso de cada dia.
Por mais bizarra que pareça a situação, a ordem social está mantida, mas é uma realidade ilusória, onde tudo parece estar no lugar e todos têm suas pequenas fatias do bolo. Os trabalhadores precisam produzir, produzir, caso contrário não servem, é o valor medido pelo que se tem e produz, ao invés do que se é. 

O rosto dos personagens representam bem o cansaço e o vazio atual, pessoas seguindo suas rotinas, com seus horários, afazeres, e nada mais. Cada um com sua função. O início mostra o homem se levantando, acendendo um abajur, que é uma pessoa, tomando café da manhã, onde cadeiras, mesa também são pessoas, assim como o meio de transporte, semáforos, dentre tantas outras coisas. O que mais impressiona é o semblante melancólico, que nos faz ficar na dúvida, se é infelicidade ou indiferença, além de reavaliar o que significa trabalho. Será que o trabalho realmente dignifica o Homem?

São minutos que valem a pena, uma verdadeira obra crítica e reflexiva! Deem atenção aos créditos finais, está sob forma silenciosa, porém exclamativa.