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sábado, 24 de fevereiro de 2018

15 Filmes sobre Sonhos (15 Dream Movies)

Segue uma lista que explora o universo dos sonhos, suas camadas, seus mistérios, suas belezas, o onírico se mesclando à realidade, são diversas as obras que passeiam por essas características, portanto, os listados são apenas uma pequena amostra do quão fascinante é quando inconsciente e consciente se unem. 

15- "Preso na Escuridão" (Abre los Ojos - 1997) de Alejandro Amenábar
Cesar (Eduardo Noriega) é jovem, rico e bonito. Em torno dele, duas mulheres (Penélope Cruz e Najwa Ninri), mas uma armadilha do destino vai fazer com que ele viva um pesadelo terrível. Tudo começa com um acidente, em que sua namorada morreu e seu rosto foi desfigurado e, para piorar as coisas, ele foi acusado de assassinato e condenado. Ainda na prisão, se submete a várias cirurgias e consegue recuperar seu belo rosto. Mas começa a apresentar um comportamento estranho, que intriga o psiquiatra local.

14- "Sonhando Acordado" (La Science des Rêves - 2006) de Michel Gondry
Stephane Miroux (Gael García Bernal) vê seus sonhos invadirem constantemente a vida real. Quando dorme, se transforma no carismático apresentador do programa "Stephane TV", explicando sua "ciência dos sonhos" na frente das câmeras de papelão. Na vida real, tem um trabalho chato numa editora de calendários em Paris. Ele flerta com a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas a moça não está disposta a encarar alguém como ele. Guy (Alain Chabat), colega de trabalho de Stephane, até tenta ajudá-lo na conquista, mas nada funciona. Incapaz de chegar ao coração de Stephanie na vida real, Stephane procurará as respostas em seus sonhos.

13- "Ladrão de Sonhos" (La Cité des Enfants Perdus - 1995) de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Krank (Daniel Emilfork) envelhece numa nebulosa torre aquática por não poder sonhar e tenta resolver a sua limitação sequestrando as crianças das cidades vizinhas para lhes roubar os sonhos. One (Ron Perlman), um caçador de baleias, forte como um cavalo, sai em busca de Denree, seu irmão mais novo que fora sequestrado pelos homens de Krank. Com a ajuda da menina Miette (Judith Vittet), logo eles chegam na cidade das crianças perdidas.

12- "Rabbits" (2002) de David Lynch
É assustador, estranho e até mesmo engraçado. Rabbits é a mãe e o pai de todos os pesadelos. A atuação, os movimentos, as luzes e as câmeras nos levam ao pavoroso e indecifrável mundo do subconsciente, do qual nunca mais iremos querer acordar.

11- "Alice" (Neco z Alenky - 1988) de Jan Svankmajer


Quando Alice seguiu o Coelho Branco no País das Maravilhas, iniciou-se assim uma surpreendente e perigosa aventura onírica pelo mundo infanto-juvenil. O animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.

10- "Dream" (Bi-Mong - 2008) de Ki-duk Kim
Jin acorda depois de ter sonhado com um acidente de trânsito ao estar seguindo sua ex-namorada. Guiado pelo sonho, chega até o lugar dos fatos e ali se encontra com o acidente, que realmente aconteceu, e que aconteceu exatamente igual ao seu sonho. Ele segue a polícia até a casa da suspeita, Ran, e alí é testemunha de como ela nega a acusação de atropelamento e fuga, já que declara ter dormindo toda a noite. Jin explica seu sonho aos policiais e pede que acusem ele no lugar dela. A polícia o vê como um louco e prende Ran. Jin logo percebe que, cada vez que ele sonha, Ran, sonâmbula, representa inconscientemente seu sonhos na vida real.

09- "O Congresso Futurista" (The Congress - 2013) de Ari Folman
Uma atriz em fim de carreira (Robin Wright) decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter melhores condições de cuidar de seu filho, portador de deficiência física. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando assim uma atriz virtual idêntica à ela mesma. Enquanto a empresa pode utilizar essa imagem virtual para os fins que desejar, a atriz real será proibida de atuar até o resto de sua vida. Aos poucos, ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.

08- "A História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien - 2003) de Jacques Rivette
Julien (Jerzy Radziwilowicz) é um relojoeiro frustrado de 40 anos, que está chantageando Madame X (Anne Brochet): ele sabe de coisas misteriosas que a envolvem no tráfico de objetos antigos, mas desconhece a ligação entre ela e a sublime Marie (Emmanuelle Béart), por quem Julien havia se apaixonado perdidamente cerca de um ano antes. Tendo reencontrado a amada, ele percebe que algo mudou no seu comportamento: apesar do seu crescente amor por Julien, Marie parece incapaz de encontrar a sensação das coisas. Julien fará o que puder para ajudar Marie a se liberar desse estado.

07- "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Dr. - 2001) de David Lynch 
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

06- "Corpo e Alma" (Testről és Lélekről - 2017) de Ildikó Enyedi
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa. Saiba+

05- "Paprika" (Papurika - 2006) de Satoshi Kon
Num futuro próximo, o Dr. Tokita (Tôru Furuya) inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Sua colega, a Dra. Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), psicoterapeuta e pesquisadora de ponta, desenvolve um tratamento psiquiátrico revolucionário a partir do aparelho. Mas, antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o DC-Mini é roubado. Quando vários dos pesquisadores do laboratório começam a enlouquecer e a sonhar em estado de vigília, Atsuko assume seu alter-ego, Paprika, a bela "detetive de sonhos", para mergulhar no mundo do inconsciente e descobrir quem está por trás da tragédia.

04- "Sereia" (Rusalka - 2007) de Anna Melikyan
Era uma vez, uma garota chamada Alisa, que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre. Saiba+

03- "O Fantasma da Sícilia" (Sicilian Ghost Story - 2017) de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo. Saiba+

02- "Acordar para a Vida" (Waking Life - 2001) de Richard Linklater
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem têm longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.

01- "Sonhos" (Dreams - 1990) de Akira Kurosawa
"Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo. Saiba+

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lavoura Arcaica

"...e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é..."

"Lavoura Arcaica" (2001) dirigido por Luiz Fernando Carvalho (Capitu - 2008) é uma adaptação fiel do livro homônimo de Raduan Nassar, uma obra sensível e imensamente poética, uma joia da literatura nacional. Tudo foi transposto com beleza, cada dilema e cada complexidade, textos integrais são ditos pelos atores que se expressaram com total dedicação. É um exemplar maravilhoso e um dos grandes filmes do cinema nacional, foi concebido com delicadeza e nos delicia durante o tempo que nos toma, também é uma experiência transformadora que coloca em evidência as escolhas, a vida em família, a liberdade, a religiosidade, o amor, o tempo, entre tantos outros temas caros à nossa existência. 
"Lavoura Arcaica" narra em primeira pessoa a história de André (Selton Mello), que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro (Leonardo Medeiros), passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.
Sem ordem cronológica, André faz uma jornada sensível a sua infância, contrapondo os carinhos maternos e os ensinamentos quase punitivos do pai. Este valoriza acima de tudo o tempo, a paciência, a família e a terra, fiado na doutrina cristã. Mas André não aceita esses valores. Ele tem pressa, quer ser o profeta de sua própria história e viver com intensidade incompatível com a lentidão do crescimento das plantas. Nesse trajeto, a paixão incestuosa por sua irmã Ana (Simone Spoladore), e sua rejeição, exercem papel fundamental na decisão de fugir da casa da família. A mãe desesperada manda o primogênito Pedro buscá-lo para tentar reconstruir a paz familiar. Trazido de volta para a fazenda, André é recebido por seu pai em uma longa conversa e uma festa que, ao invés de resolverem o conflito, evidenciam a distância intransponível entre as gerações. Por essa razão, a história é muitas vezes descrita como uma versão invertida da parábola do filho pródigo. Ambientado na década de 40, numa comunidade rural formada por imigrantes libaneses, a família de André é comandada com rigidez pela figura do pai (Raul Cortez), que preza pelos valores cristãos, os filhos cumprem uma rotina dominada pelo tédio e pelo trabalho, André se rebela e decide ir embora de lá, principalmente, por estar apaixonado pela sua irmã, Ana. Esta foi a forma que encontrou para expor seu desejo de liberdade. Tomado de angústia ele vai viver sozinho longe de tudo numa pensão suja, sem a abundância que tinha em casa, a sua fuga afeta todos os membros da família, especialmente, Ana. A mãe inconsolável, pede para o filho mais velho, Pedro, que o traga de volta. O encontro dos dois é regado a diálogos intensos e junto a devaneios imergimos no passado de André.
Cheio de poesia visual, "Lavoura Arcaica" causa incômodo, o personagem André é dominado pela angústia e ele a todo instante parece querer expelir isso de si, são cenas que causam desconforto, mas não simplesmente pelas situações retratadas, como a primeira cena em que ele se masturba ferozmente caído no chão, mas pela significância que elas têm para o protagonista. A direção de fotografia, assinada por Walter Carvalho é um primor e ela é fundamental para passar os mais variados sentimentos, tem uma textura seca e suja. A trilha sonora com influências de música árabe é um complemento belíssimo, som e imagem se integram perfeitamente e intensifica as sensações.

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto." 

O filme aborda temas complexos, como a difícil interação entre pais e filhos, a criação rígida em que a figura do pai é que exerce poder incontestável, minando desejos e anseios dos filhos, um pai que ao mesmo tempo é bom, mas ignora que os filhos tenham suas fraquezas. Nesta família patriarcal, a mãe é somente uma figura que carrega as dores dos males que penetram o seio familiar, ela é a que toma os filhos nos braços, algo que só fortalece esse ciclo sufocante de hipocrisia. 
A religião acentua as regras morais ditadas pelo pai, que cego pelas doutrinas não consegue enxergar o que se passa a seus filhos, isso afasta André que não consegue pedir ajuda ao pai, quando volta para casa ele tenta conversar, inclusive a melhor parte do filme e uma das cenas mais belas, André fala de suas dores, mas seu pai é incapaz de compreender.

"– Por que empurrar o mundo pra frente? Se já tenho minhas mãos atadas, não vou, por iniciativa, atar meus pés também. Por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem. Eu já não vejo diferença. Tanto faz que as coisas andem pra frente ou que elas andem pra trás.
– Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho.
– Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro. Da mesma forma, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto. Maior despropósito que isso, só mesmo a vileza do aleijão, que na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz. Fica mais feio o feio que consente o belo… 
– Mais pobre o pobre que aplaude o rico; menor o pequeno que aplaude o grande; mais baixo o baixo que aplaude o alto. E assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam. Acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros. A vítima ruidosa que aprova o seu opressor se faz duas vezes prisioneira.
– É muito estranho o que eu estou ouvindo.
– Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo. Erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente."

As interpretações são sublimes, Selton Mello se entrega vorazmente a seu personagem, se revolta contra à ditadura do pai e se enovela cada vez mais em seus desejos, ele grita, se contorce, se infiltra na natureza, seus pés se esfregando junto à terra é uma constante. Raul Cortez, o pai, dá valor ao tempo e tem a paciência como a maior qualidade, seus sermões antes do jantar exprimem a lei do cabresto, ele é soberano em cena, quando André o contesta não sabe como proceder, a não ser com mais repressão. Simone Spoladore como Ana não diz uma palavra durante todo o filme, mas expressa pelo seu corpo a paixão pela vida, esta que acende em André o desejo pela liberdade. Essa rebeldia de André toma conta de seu irmão caçula, Lula (Caio Blat), que também deseja sair daquela célula familiar e descobrir o mundo. Leonardo Medeiros como Pedro, o irmão mais velho e que vai em busca de André, passa para frente os mesmos valores que o pai ensinou, mas vendo e ouvindo o irmão que está perdido e acometido por delírios e pela epilepsia, se amargura diante a situação. 

É um retrato pertinente da dura relação entre pai e filho, da distância das gerações que causa a falta de diálogos, e o como o conservadorismo religioso danifica ainda mais, pois o amor é distorcido, cria-se regras e castra-se a liberdade do querer e do pensar. O argumento da tradição serve para oprimir e cometer injustiças, as mulheres da casa que o digam, quando o pai é contestado, simplesmente diz-se que é tradição.
"Lavoura Arcaica" é um filme denso, indigesto, lírico, também longo e enfadonho, mas de um valor imensurável para quem aprecia obras poéticas, mergulhar em sua narrativa é uma experiência única de reflexão. A sensação causada não passa após seu término, ao contrário, ela cresce dentro de nós à medida que pensamos nas questões abordadas.

"O tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia a dia para ser vida nos subterrâneos da memória."

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O Pântano (La Ciénaga)

Uma das coisas que o cinema arte nos ensina é que há muito para se analisar num filme, como a ideia, a narrativa, os personagens, trilha sonora ou a falta dela, ambientação, e mais uma porção de detalhes, o que faz um filme ser bom é a ideia que ele quer passar e, principalmente, que após seu término não nos abandone. O diferencial está no depois, no que ele vai provocar no seu íntimo.
"O Pântano" (2001) de Lucrecia Martel (A Menina Santa - 2004) não causa sensações boas a quem o assiste, porém a abordagem de uma história aparentemente banal é transformada com originalidade dando um aspecto reflexivo enorme. É uma experiência riquíssima pra quem gosta de cinema, o som é utilizado de forma genial, como por exemplo, o ranger de cadeiras sendo puxadas, tilintar de copos, a chuva, os tiros, etc. É algo desconfortável, assim como as personagens em total letargia, esvaziadas de vida.
A história segue duas famílias de classe média no interior da Argentina, La Ciénaga, conhecida por suas extensões de terra que se alagam com as fortes chuvas repentinas, formando pântanos que são armadilhas mortais para os animais da região. Perto da cidade fica o povoado de Rey Muerto, em que está localizado o sítio La Mandrágora, onde são cultivados pimentões vermelhos. Para ele vão as duas famílias, lideradas por Mecha (Graciela Borges) e Tali (Mercedes Morán). Mecha é uma mulher em torno de 50 anos, que tem 4 filhos e um marido que procura ignorar bebendo cada vez mais. Já Tali é prima de Mecha e também tem 4 filhos, sendo que ama seu marido e sua família. Em meio a um verão infernal, as duas famílias entram em conflito quando a tensão entre elas aumenta. Não há poesia no filme de Lucrecia, sem emoção alguma ela procura mostrar o estado de inércia do ser humano, assim como o título diz, o pântano.
Vemos situações um tanto quanto bizarras, no início todos estão bêbados sentados à beira de uma piscina suja, daí Mecha acaba caindo e quem vai lá acolher é as filhas e a empregada, ninguém se levanta, e ainda uma das meninas que nem carteira de motorista tem é que leva Mecha ao hospital, depois dessa situação nos é mostrado fragmentos de um estranho verão, onde crianças não são crianças, os meninos andam com armas, caçam, o barulho dos tiros acontece o filme todo, a única criança nesta história é o filho de Tali, o último resquício de pureza, mas será que em meio ao caos há espaço para ele?

Mesmo que a família de Tali seja totalmente diferente da de Mecha na questão de dar atenção aos filhos, existem problemas pessoais que não são expostos, está tudo nos olhares e gestos, é a família que aparenta ser "normal", mas não é. Já a de Mecha está explícito o quão sujos eles são.
A narrativa tem uma tensão que nos aflige e os personagens incomodam e muito, na maioria das vezes não acontece nada, eles se esticam e se amontoam o tempo todo, o calor é intenso e a sujeira é uma constante, não tomam banho, rolam na lama, não há preocupações apesar dos conflitos estarem presentes continuamente.
É um longa lento, cansativo e incômodo, mas que proporciona um novo olhar para o cinema em que podemos determinar o que faz um filme ser realmente bom, ele traz tudo o que não é legal de ver, é o retrato do ser humano num estado decadente e sem esperança, assim como a piscina lá do quintal que sempre estará da mesma forma, suja.

"O Pântano" consegue falar por meio das imagens e as sensações causadas são quase táteis, pode parecer bizarro certas situações, mas é a realidade que é mostrada. Lucrecia Martel em sua estreia compôs um filme único que explora recursos narrativos e esteticamente também bastante interessantes, a tensão permeia toda a estagnação dos personagens, fica-se esperando alguma tragédia devido a tanto descaso. É um filme incrível mas que certamente deixa um gosto amargo em seu final.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Samsara

"Samsara" (2001) de Pan Nalin é uma "história de amor espiritual" filmada nas imponentes locações geladas do Himalaia. É sobre experiências e decisões. O foco está nas buscas empreendidas por duas pessoas diferentes. De um lado, um homem procura pelo esclarecimento espiritual por meio da renúncia ao mundo real. De outro, uma mulher quer encontrar esclarecimento no amor e uma nova vida inserida no mundo. Essas duas buscas em determinado momento se cruzarão e conectarão irreversivelmente a vida dos personagens. Tashi passou três anos meditando, ao sair da reclusão e recuperar suas forças, questões surgiram em sua mente, principalmente quando vai ao vilarejo próximo e se apaixona por Pema. Não conseguindo controlar seus instintos deixa o mosteiro e vai atrás de sua amada.
"Samsara" é uma palavra de origem sânscrita que significa "fluxo incessante de renascimentos através dos mundos". A maioria das tradições considera Samsara uma condição a ser superada, pois os ciclos se repetem apenas no homem que não atingiu sua iluminação.
O maior conflito do ser humano é lidar com os desejos, não existe felicidade plena, estes desejos nos levam para a dor e o sofrimento, mas é a partir daí que evoluímos e adquirimos uma consciência mais elevada. Buda teve uma vida mundana antes de alcançar a iluminação e isso foi indispensável para conseguir chegar a tal patamar: Anular desejos. Em determinado momento, Tashi questiona seu mestre sobre a liberdade que lhe prometeu quando entrou ainda criança no mosteiro, e termina dizendo: "Tem coisas que devemos desaprender para poder aprendê-las. E tem coisas que precisamos possuir para poder renunciá-las."
Tashi segue em busca de seus desejos, começa a trabalhar na propriedade do pai de Pema e logo eles se envolvem. A grande pergunta é: Será que Tashi apenas queria satisfazer seus desejos sexuais, ou houve um amor verdadeiro? Dentro da aura do filme acredito que Pema foi essencial para o desenvolvimento espiritual de Tashi, assim como Yashodhara foi para Siddhartha (o primeiro buda). E o filme nada mais é que o retrato desta história. Podemos contemplar um diálogo riquíssimo entre Tashi e sua esposa sobre o papel da mulher no budismo. Pema foi deixada com o filho e Tashi seguiu de volta ao mosteiro, ele constatou que tudo não passava de uma ilusão. Quando seu mestre Apo falece, começa a pensar em todas as decisões e percebe o que realmente sua alma necessita. Outra frase que permeia o filme e explica muito: "O que é mais importante, satisfazer mil desejos ou conquistar apenas um?". Qual a vantagem em se conquistar mil desejos, se estes não passam de ilusões e felicidades momentâneas?

Siddhartha talvez tenha conseguido chegar a iluminação graças a Yashodhara, mas quem se lembra dela? Foram através das experiências ditas mundanas que ele conseguiu experimentar o amor, o sofrimento e todos os sentimentos que acometem as pessoas, vivenciou uma tórrida paixão, a paternidade, o trabalho braçal, e desejos menores que parecem serem maiores que tudo. Mas Yashodhara já era compassiva, e então porque ela não se tornou um buda? Ao fim, acabou sozinha, com um filho e renunciou a tudo, ou seja, ela também alcançou a iluminação.
"Samsara" conta uma bela história e nos mostra essa parte esquecida, a da mulher de Siddhartha. É um filme grandioso, com uma fotografia exuberante e cenas extasiantes. Uma obra-prima!
É impossível colocar todas as nuances do filme em um texto, é preciso vê-lo e mais de uma vez, acredito que seja de grande aprendizagem a nós que fazemos parte de um fluxo constante, estamos aprendendo a cada minuto, o importante é ter essa consciência e amadurecer nossa mente e espírito. Melhorar nas pequenas coisas cotidianas já é um avanço, saber escutar, ficar calado, questionar, compreender o outro, eliminar sentimentos mesquinhos. O essencial é buscar conhecimento e passá-lo adiante.

O filme tem uma abordagem interessante sobre o budismo que aqui no ocidente tende a ser distorcido em alguns aspectos. É de uma beleza sem tamanho, a paisagem já demonstra a amplidão que permeia a história e os conceitos. A cultura é belíssima!
Tudo é um ciclo, até que entendamos os verdadeiros valores e nos livremos das insignificâncias, assim atingindo a iluminação.

Deixo a reflexão final do longa: "Como alguém pode impedir uma gota d'água de jamais secar? Atirando-a no mar."

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Harvey

"Harvey" é um curta perturbador e a princípio a sensação causada é a de agonia. Para as pessoas mais sensíveis não aconselho, são imagens estranhas que podem gerar bastante desconforto. A história é sobre um homem, que fica obcecado pela sua "outra metade", incompleto e infeliz vê na vizinha do lado a chance de se ver por inteiro.
Todos nós queremos encontrar alguém que nos complete, que nos preencha em algo que falte, talvez essa seja a maior busca do ser humano, encontrar seu amor, aquele que encaixe perfeitamente. Em "Harvey" isso é demonstrado de forma literal e quase absurda.
A satisfação pessoal cada vez mais está difícil de ser alcançada, e isso acaba gerando solidão e um grande vazio, quem não se integra na sociedade sente o peso de viver só. Por isso a busca de alguém que nos compreenda é infinita, pois ninguém vai ser o suficiente a nós diante ao mundo que vivemos, isso se reflete nas propagandas: seja rico, tenha um corpo perfeito e consiga um milhão de amigos, um exemplo é o Facebook, muitos visualizam coisas que desejam a si próprios, aí vem sentimentos como inveja, depressão, revolta, ilusão, solidão, e esse é apenas um exemplo. Pode ser também no trabalho, com os amigos, na própria casa, se sentir inapto para certas coisas que outros conseguem, e quando você idealiza um alguém e sem querer se depara com ele, automaticamente sente como se fosse a cara metade desta pessoa.

"Harvey" dirigido pelo australiano Peter MacDonald retrata um personagem que sente exatamente este vazio, e fica obcecado pela vizinha a fim de que ela se torne a sua outra metade, só que no curta perturbadoramente isso é levado ao pé da letra. É desconfortante, mas mostra exatamente como ficamos quando nos sentimos incompletos, realmente falta um pedaço.
Em estilo P&B, o clima criado é sufocante e desesperador. O curta é extremo, a mensagem é direta e faz com que pensemos em nossos sentimentos egoístas, que para não olhar para nós mesmos, se idealiza no outro na esperança que este nos salve de alguma forma.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Tipo Ruim / Bad Guy / Nabbeun Namja

Kim Ki-Duk consegue expôr de forma poética o lado não muito agradável do ser humano, e em "Bad Guy" (2001) ele faz exatamente isso, retrata a figura de um sujeito que nada tem de bom a dar, mas que de alguma maneira simpatizamos com ele, talvez seja pelo seu olhar e seu silêncio constante.
Sun-hwa (Seo Won) de repente é abordada por um estranho quando esperava seu namorado, e o cara a beija a força na frente de todos. Este impulso o fez ser humilhado e espancado, Sun-hwa cospe na cara dele e o xinga e o manda pedir desculpas, mas mal sabe ela que essa atitude lhe custará muito caro. Han-ki (Jo Jae-hyeon) é um tipo ruim, cafetão resolve fazer da virgem Sun-hwa uma garota de programa. Han-ki desenvolveu uma paixão obsessiva e violenta pela garota e fará qualquer coisa para tê-la. Um dia Sun-hwa rouba uma página de um livro de arte e encontra uma carteira perdida ao lado do livro. O roubo da página e posteriormente da carteira marca o início do abismo da jovem. Han-ki denuncia ao dono da carteira o assalto e este obriga-a recorrer a um agiota para pagar os estragos que causou. E a maneira que ela pagará o empréstimo será se prostituindo.
Somos arrastados a um mundo onde a violência e o sexo é o cotidiano. De início Sun-hwa somente chora por ter perdido sua vida, resiste em fazer sexo com os clientes, mas com o passar do tempo percebe que pode usar de seu charme e beleza, e então começa a viver aquele mundo. E o mais absurdo, nutrir algum tipo de sentimento por aquele que a desgraçou. De certa forma somos voyeurs, a relação que se torna essencialmente perturbadora aos nossos olhos, parece fazer cada vez mais sentido a eles.

"Bad Guy" é um drama que segue a linha de uma paixão nada convencional, e nos instiga a pensar o porque dos personagens agirem de tal forma. Sun-hwa em determinado momento parece se conformar com a situação que se encontra e a gostar do cara mau, querendo ou não, ali ele é o único a sentir algo por ela, mesmo não expondo, pois seus gestos na maioria das vezes são agressivos, mas interessante observar que demora para Han-ki consumar o ato sexual com Sun-hwa, talvez uma espécie de punição a ele mesmo, já que no fundo sabe que fez algo terrível.
Algumas cenas são carregadas de simbolismos, como a da praia onde ela vê uma garota indo para o mar cometer suicídio, e onde encontra uma foto rasgada faltando os rostos das pessoas, e mais tarde descobrimos que era a de Han-ki e Sun-hwa, não se sabe exatamente o que o diretor quis passar com essa cena, mas a mim parece que o destino daquela garota era estar com Han-ki, mesmo sendo uma paixão torta e perturbada; e a menina entrando no mar é o vislumbre dela mesma, pois se ela não aceitar toda a situação que se encontra, sua única alternativa é se matar. E é a partir desta cena que seus sentimentos começam a mudar em relação ao mundo que agora faz parte. A foto que ela encontra rasgada e tenta consertar, simboliza que está reorganizando e juntando os cacos interiores de si mesma.
"Bad Guy" é um filme seco, mas completamente poético, a trilha sonora é algo interessante e complementa com o ambiente vulgar.

Ficamos atordoados à medida que a garota aceita sua condição e se submete ao estranho amor de Han-ki. O final nos deixa literalmente de boca aberta, o silêncio do personagem é perturbador e ficamos confusos o filme todo ao tentar decidir o que sentir por aquele homem, que ora parece ser um alguém desprotegido que precisa desesperadamente de carinho, ora um sujeito totalmente sem escrúpulos que é capaz de tudo. Em um mundo onde não há regras, matar ou morrer é algo comum. A cena em que ele vai preso e Sun-hwa vai a prisão dizer que quer que ele saia logo é onde percebemos que de fato ela nunca mais voltará a sua vida normal, tanto que ele a liberta, mas acaba voltando e se submetendo o que a nós parece um absurdo sem tamanho. Ao final o único sentimento deixado é o de interrogação, ficamos nos perguntando o porquê ela voltou para um amor que machuca e destrói?
O amor pode nascer em qualquer lugar e de diversas formas, ele não segue regras ou padrões e se desenvolve à maneira de cada um.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A Professora de Piano (La Pianiste)

"A Professora de Piano" (2001) é um filme sobre sexo, perversão, violência física e psíquica. Uma mulher repleta de contrastes que na sua vida cotidiana mostra ser de temperamento reto, rígido e que quando o seu mais profundo íntimo é provocado, ela se revela uma pessoa doentia. É um eterno estudo para os psicólogos e psicanalistas.
Erika (Isabelle Huppert) é uma professora de piano de um prestigioso conservatório, arrogante e boçal, trata os alunos com duras e insensíveis críticas, sua vida pessoal não destoa da profissional. Solteira, ela mora com a mãe que a trata como uma adolescente. Seu desequilíbrio deságua no sexo e é canalizado para as perversões. Nas horas vagas assiste filmes pornôs em cabines, cheira os lenços onde homens momentos antes se limparam, corta sua genitália com lâminas para sentir dor, caminha pelos estacionamentos a fim de ver se encontra algum casal transando somente para observá-los. Quando conhece Walter (Benoît Magimel) o novo aluno de piano, um talentoso rapaz que chama a sua atenção, ela nos mostra sua personalidade um tanto quanto estranha. Walter passa a nutrir por Erika sentimentos carnais e românticos. Ela o deixa completamente fora de si, pois alterna seu estado de dominadora e passiva em minutos, não sabe dizer exatamente o que quer, mas o deseja de forma voraz.
A cena da qual ele lê a carta que ela lhe escreveu citando como quer ser tratada na cama, o deixa perturbado, e de início causa repulsa, mas ao longo do tempo, ele se vê envolvido na loucura dessa mulher. O filme se concentra também no relacionamento entre Erika e sua mãe, que vivem em pé de guerra por causa das atitudes uma da outra. Os diálogos entre elas e a maneira que convivem é de fato muito estranho, Erika com seus 40 anos ainda dá satisfações, e não sabemos se ela sofre por isso, ou sente algum tipo de amor por sua mãe. Um dos pensamentos que Erika segue é a de que nenhum aluno jamais ultrapasse sua genialidade de tocar piano, Schubert, principalmente, a sua grande obsessão.
Michael Haneke é especialista nesses temas que perturbam o espectador, é cruel e sempre violento, não conseguimos nutrir simpatia pelos personagens. É uma experiência difícil e não recomendada à qualquer pessoa. A essência humana assusta, o íntimo quando exposto de maneira irracional, as necessidades, os exageros, e o como somos frágeis quando lidamos com os outros e até com nós mesmos. Partindo de um romance de Elfriede Jelinek, Haneke acerta ao escolher um ambiente assim, aparentemente culto e refinado, Erika é a verdadeira falsa moralista, por trás do discurso puritano e culto, há um imaginário composto por sentimentos completamente sórdidos.

O filme é composto por músicas eruditas maravilhosas, e como na música clássica em que as notas oscilam da mais suave à exaltação dos sentimentos, assim também é Erika, uma pessoa aparentemente controlada, mas que carrega em si uma imensidão de sentimentos reprimidos que quando expostos causam dor e sofrimento, por isso a autopunição, a dor física que se assemelha ao prazer. Os dois extremos que se chocam e viram uma coisa só, dor e prazer sendo iguais.
"A Professora de Piano" é desconfortante, pois os valores morais caem e aparece o mais ridículo do ser humano, o quanto somos complicados e difíceis de se satisfazer. E que quando isso acontece não nos importamos com o que causamos para os demais e a si próprios. Como disse no início é um longa do qual deve ser analisado pelo aspecto psicológico, e as pessoas que trabalham nesse ramo deveriam assisti-lo e estudá-lo. Isabelle Huppert faz de sua personagem uma incógnita, totalmente inexpressiva, não sabemos o que sentir por aquela pessoa, talvez pena, repulsa, raiva, ou simplesmente nada. O longa é um mergulho no mais profundo e sombrio da alma humana.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón

[...] Ou talvez devesse dizer: o livro me adotaria. Ele se destacava timidamente no canto de uma estante, encadernado numa capa cor de vinho e sussurrando seu título em letras douradas que brilhavam na luz vinda da cúpula no alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com as pontas dos dedos, lendo em silêncio: A Sombra do Vento - Julián Carax.

Daniel Sempere é um menino de 10 anos, que vive na Barcelona de 1945, pós-segunda guerra. Ainda sobre o clima pesado do fim da guerra, é apresentado por seu pai, ao dono de um sebo importante de Barcelona, "O Cemitério dos Livros Esquecidos", lugar meio mágico, onde estão exemplares de livros abandonados. Este lugar tem um ritual: A primeira vez que alguém o visita, escolhe um livro, aquele que preferir, e que o adote, garantindo assim que nunca desapareça, que se mantenha vivo para sempre. Nessa visita, um tanto quanto ritualista e apaixonante para amantes de livros, Daniel se vê escolhido por uma obra em especial, "A Sombra do Vento", de Julián Carax. Este livro amaldiçoado, mudará o rumo de sua vida e o arrastará por um labirinto de mistérios, segredos, personagens enigmáticos e romance. Ao se ver fascinado pelo escritor desconhecido, Daniel começa uma busca inocente por maiores informações sobre o autor. E descobre que este promissor escritor teve uma vida cheia de desgraças, sendo dado como morto em circunstâncias suspeitas.
Com isso se envolve numa trama que tenta encontrar novos exemplares do autor e descobrir sua biografia. Nesse meio tempo conhece Clara, com quem vive seu primeiro romance inocente e pré-adolescente, mas que lhe causa grande decepção. Depois, conhece Fermin a quem tira da sarjeta e que se torna seu grande amigo. Enfrenta a fúria, o sadismo e o medo de Fumero, e por fim se realiza através do amor de Bea. A vida do autor desconhecido e a sua própria parece se entrelaçar de forma mágica e paralela, coincidentemente num ambiente fascinante de Barcelona onde Daniel percorre as praças, cafés do mundo gótico, as Ramblas e o Tibidabo, adentrando nos mistérios e segredos mais obscuros desta cidade.

"Enquanto percorria túneis e túneis de livros na penumbra, não pude evitar que me invadisse uma sensação de tristeza e desânimo. Não podia evitar pensar que se eu, por puro acaso, tinha descoberto todo um universo num só livro desconhecido na infinidade daquela necrópole, dezenas de milhares de outros livros ficariam inexplorados, esquecidos para sempre. Senti-me rodeado por milhares de páginas abandonadas, de universos e almas sem dono, que se fundiam em um oceano de escuridão enquanto o mundo que palpitava do lado de fora daquelas paredes perdia a memória sem perceber, dia após dia, sentindo-se mais sábio quanto mais esquecia."

"A Sombra do Vento" tem uma narrativa de ritmo eletrizante, escrita em uma prosa ora poética, ora irônica. O enredo mistura gêneros, como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, o romance de Zafón é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros, é um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias.
Um livro sobre paixão, paixão aos livros, e quer romance mais gostoso do que se envolver nas histórias contadas por eles? Em "A Sombra do Vento", Zafón nos envolve nessa paixão, misturando aventura, mistério, romance e literatura, uma declaração de amor aos livros que invadem nossa imaginação, nos trazendo tantos conhecimentos, nos tirando da mesmice de sempre e nos abrindo novos horizontes. A história e os personagens ficam gravados na memória, o autor consegue de forma arrebatadora fazer com que uma sensação agradável apareça toda vez que lembramos desse magnífico livro.