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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

The Banshees of Inisherin

 

"The Banshees of Inisherin" (2022) dirigido por Martin McDonagh (Três Anúncios Para um Crime - 2017) é um filme que exala solidão e um existencialismo potente que nos faz rir de desespero, particularmente a narrativa me conduziu como se estivesse lendo um livro, devagar e com intervalos contemplativos belíssimos, quadros melancólicos e que evoluem à medida dos acontecimentos cotidianos e mal-entendidos risíveis. Apesar da erma ilha aparentar uma certa paz e o tédio controlar a vida de seus habitantes, do outro lado o estrondo da guerra civil está a todo vapor. Situado numa ilha remota na costa oeste da Irlanda nos idos dos anos 20, acompanhamos um impasse entre os amigos de longa data Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson). Inesperadamente Colm põe fim à amizade deles e Pádraic fica desesperado amparado pela sua irmã Siobhán (Kerry Condon) e pelo problemático jovem Dominic (Barry Keoghan), esforçando-se para recuperar o relacionamento e recusando-se a aceitar um não como resposta, os esforços repetidos de Pádraic apenas fortalecem a determinação de seu ex-amigo e, quando Colm entrega um ultimato, os eventos sucedem-se rapidamente com consequências inesperadas. O rompimento dessa amizade também atinge outros habitantes da ilha fazendo com que encarem o próprio abismo, como Dominic, um rapaz que sofre violências por parte do pai e que é esnobado pela irmã de Pádraic. Colm está cansado de tudo e diante da finitude da vida dedica seus dias a deixar um legado através da arte, já o ingênuo Pádraic se apega ao raso da vida, simples e gentil atravessa seus dias de puro nada, seu relacionamento com a irmã às vezes o traz para realidade, já que Siobhán quer sair da ilha por não aguentar mais o barulho que o silêncio faz. A situação simplesmente vai se transformando em algo desesperador para Pádraic, teimoso insiste em ir atrás de Colm e o segue pelos lugares e não aceita que o amigo tenha parado de gostar dele. A simplicidade desse personagem aos poucos vai sendo substituída por atitudes chatas e vergonhosas, até surgem sentimentos de pena ou graça, mas à medida que a narrativa transcorre também percebemos o endurecimento desse personagem, ele vai perdendo a ilusão e começa a articular maldades.

É um filme primoroso, os diálogos que proporcionam reflexões, a fotografia e o cenário imenso dessa ilha repleta de pedras confluindo com a solidão que cada personagem sente, a angústia nos olhos de Pádraic pelo fim da amizade, sua insistência chata, seu amor por Jenny, sua mini mula que também é afetada por essa guerra travada entre os dois. Pádraic é limitado e amarrado ao lugar que mora, sua ilusão de felicidade é quase ingênua pela falta de conhecimentos acerca de tudo, ele leva a vida de modo rudimentar, o que irrita Colm, que nessa fase de vida já não quer perder tempo com bobagens e até engraçado quando diz que Pádraic é mais interessante bêbado.
 
Há muitos aspectos e nuances que podemos trazer para nosso cotidiano, amizades desfeitas do nada, a falta de profundidade nas relações, a solidão mascarada por inúmeros artifícios/vícios, o tédio, angústias e ansiedades geradas a partir de expectativas que os outros depositam em nós, etc. A melhor personagem que encara com inteligência o meio em que vive e tem uma tomada de decisão perspicaz é Siobhán, ela é sincera ao dialogar, encara seus medos e suas peculiaridades e se move antes de ter seu ser corrompido ou destruído.
"The Banshees of Inisherin" é uma crônica excêntrica e por vezes absurda e apesar de ter um tom cômico, na verdade, é triste e desesperançosa, sua melancolia atinge em cheio ao nos colocar diante da solidão e das complexidades que abrangem a finitude da vida.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Melhores Filmes Vistos de 2022

Selecionei 13 filmes por puro gosto e experiência pessoal, ao longo do ano assisti poucos filmes, mas esses merecem muito entrar na lista.

13- "Lamb" (Cordeiro - 2021) Islândia

María (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive isolado em sua fazenda na Islândia, fazem o parto de um misterioso recém-nascido entre as ovelhas de seu celeiro. A inesperada perspectiva de uma vida familiar lhes traz muita alegria e eles resolvem criar o bebê como se fosse sua própria filha. "Lamb" (2021) dirigido por Valdimar Jóhannsson é um filme que mescla fantasia e horror a uma narrativa que convida o espectador a exercer sua reflexão e permite uma criatividade sem igual, o desenrolar vai no oposto das histórias imediatistas que não criam vínculos com suas personagens e não produzem sensações mais profundas e que apenas visam saciar a expectativa do público. Muito se compara "Lamb" ao longa de Robert Eggers, "A Bruxa" (2015), acredito que tenha algo em comum em seu cerne, como a ancestralidade que o ser humano é incapaz de entender, sobre sua relação de egocentrismo, desconhecimento e menosprezo com a natureza que acaba gerando atitudes de poder e que mais tarde serão cobradas.

12- "Os Inocentes" (The Innocents/De Uskyldige) 2021 - Dinamarca/Suécia/Finlândia/Noruega/França/Reino Unido

Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso. "The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.

11- "Benedetta" (2022) França/Bélgica/Holanda

No século XVII, uma freira italiana faz parte de um convento na Toscana desde quando era criança. Ela sofre de um distúrbio e tem perturbações e visões religiosas e eróticas. Assistida por uma companheira, a relação entre as duas acabam se tornando um romance amoroso.

 10- "Red Rocket" (2021) EUA


Mikey é um astro decadente de filmes adultos cuja carreira terminou. Enfrentando problemas financeiros em Los Angeles, ele decide rastejar de volta para sua pequena cidade natal, no Texas, para viver com a ex-esposa e a sogra. Quando essa família disfuncional parece estar fazendo as coisas funcionarem, Mikey conhece uma jovem chamada Strawberry trabalhando na caixa registradora de uma loja de donuts local e imagina que a garota pode ser a solução para seus problemas – e a volta por cima em sua carreira.

09- "Men" (2022) Reino Unido 

Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios.

08- "Resurrection" (2022) EUA 

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David.

07- "Não Fale o Mal" (Speak No Evil - 2022) Dinamarca/Holanda 

Após conhecerem uma família holandesa durante suas férias na Tosca, uma família dinamarquesa recebe o convite de passar o fim de semana na casa de seus novos amigos. Mas não demora muito para que mal-entendidos revelem que a família holandesa não é quem diziam ser.

06- "Nada de Novo no Front" (Im Westen Nichts Neues - 2022) Alemanha/EUA

Paul Baumer e seus amigos Albert e Muller se alistam voluntariamente no exército alemão, movidos por uma onda de fervor patriótico. Mas isso é rapidamente dissipado quando enfrentam a realidade brutal da vida no front. Em meio à contagem regressiva, Paul deve continuar lutando até o fim, com nenhum objetivo além de satisfazer o desejo do alto escalão de acabar com a guerra com uma ofensiva alemã.

05- "Não! Não Olhe!" (Nope) 2022 - EUA

Na zona rural da Califórnia, os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer) administram uma grande fazenda de treinamento de cavalos. Mas tudo muda quando seu pai Otis (Keith David) morre de forma misteriosa sob uma nuvem sinistra. A partir desse momento, moradores de toda a vizinhança passam a testemunhar um mal terrível se aproximando pelo céu e deixando um rastro de morte e destruição.

04- "Pleasure" (2021) França/Holanda/Suécia

Uma garota sueca de 20 anos tenta ser uma estrela pornô em Los Angeles. Trabalhando na categoria "amador adolescente" e compartilhando um apartamento com outras atrizes, Jessica pretende escalar todos os degraus e se tornar uma verdadeira estrela pornô, tornando-se um mito e trabalhando seu corpo como uma atleta.

03- "O Milagre" (The Wonder - 2022) USA/Reino Unido/Irlanda

Em 1859 uma enfermeira inglesa é chamada a uma pequena vila na Irlanda para investigar o que alguns afirmam ser uma anomalia médica ou um milagre. Lá, ela encontra uma garota de 11 anos que parou de comer há meses e continua viva.

02- "Triângulo da Tristeza" (Triangle of Sadness - 2022) Suécia/Alemanha/Reino Unido/França 

Os modelos Carl e Yaya estão navegando pelo mundo da moda enquanto exploram os limites de seu relacionamento. O casal é convidado para um cruzeiro de luxo com uma galeria de passageiros milionários, um oligarca russo, traficantes de armas britânicos e um capitão de personalidade peculiar, alcoólatra e adorador de Marx. A princípio, tudo parece instagramável. Mas uma tempestade começa a se formar e o cruzeiro termina de forma catastrófica. Carl e Yaya se veem abandonados em uma ilha deserta com um grupo de bilionários e uma das faxineiras do navio. É então que a hierarquia entre eles subitamente se transforma. "Triângulo da Tristeza" (2022) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior, 2014 - The Square, 2017), ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano é um filme que expõe sem metáforas o privilégio da elite, daqueles que não aceitam não e cujo tédio é sanado por situações esdrúxulas. O longa abrange algumas temáticas interessantes que envolvem o capitalismo, como os influencers digitais e a maneira fácil de se ganhar montantes de dinheiro com publicidade, a imagem de perfeição e luxo atraem cada vez mais pessoas para esse mundo e no primeiro capitulo acompanhamos um casal de modelos que, por exemplo, brigam num restaurante sobre quem deveria pagar a conta. As situações exploradas no decorrer são permeadas por muito sarcasmo e o diretor faz questão de provocar o espectador, as pessoas são péssimas e o desenrolar dos acontecimentos só realçam o quão ridículos são.

01- "Pearl" (2022) Canadá/EUA

 
Aprisionada na fazenda isolada de sua família, Pearl (Mia Goth) deve cuidar de seu pai doente sob a vigilância amarga e autoritária de sua mãe devota. Desejando uma vida glamourosa como ela viu nos filmes, todas as ambições, tentações e repressões da personagem colidem, resultando na impressionante história de origem da icônica vilã de ‘X’.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vivarium / Devorar (Swallow)

Segue a resenha de dois filmes bizarros e muito interessantes que não poderiam estar de fora do catálogo aqui do blog, continuarei fazendo postagens conjuntas, pois assim se torna mais fácil administrar meus pensamentos e continuar na ativa. Confira:

"Vivarium" (2019) dirigido por Lorcan Finnegan (Sem Nome - 2016) é um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. 
Aviso: Poderá conter spoilers!
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo.
Acompanhamos o jovem casal Tom e Gemma que pretendem iniciar uma vida juntos, numa visita a um empreendimento chamado Yonder são surpreendidos por Martin, um vendedor robótico e de sorriso contínuo, animados com a proposta vão até esse conjunto habitacional e se deparam com uma imensidão de casas iguais, inicialmente parece um sonho, mas aos poucos percebem não ser bem o que querem, mas Martin sumiu e ao tentarem sair não conseguem, sempre voltam para o mesmo lugar, cansados decidem ficar, mas por fim terminam num loop infinito, ainda mais quando do nada aparece uma caixa com um bebê dentro indicando que precisam criá-lo, daí a repetição se dá e rapidamente o vemos crescido com comportamentos bizarros, como imitar os trejeitos de Gemma e Tom, ele grita ininterruptamente quando quer ser alimentado, um show de horrores que perturbam o casal e os desestruturam psicologicamente. Tom entra numa espiral de que precisa cavar um buraco no quintal para que quem sabe ache uma saída, e Gemma aterrorizada com a criança sempre diz que não é a mãe dele, mas acaba o protegendo em muitos momentos, esse local perfeito é irritantemente falso, desde a grama ao céu com suas nuvens redondinhas, claro que percebemos que estão presos sendo cobaias, talvez de alienígenas que estão estudando e reproduzindo comportamentos, interessante que na superfície tudo parece ser idêntico, mas as emoções são mimetizadas, a história abarca questões sobre o conceito familiar, a estrutura frágil e rotineira, os papéis desempenhados para dar algum sentido, os filhos preenchendo o espaço e tomando toda a energia para no fim envelhecidos e sozinhos morrerem. É um filme estranho que gera agonia pela sua repetição, mas que faz pensar nos padrões estabelecidos, e que por mais que se quebre muitos deles ainda assim sem perceber copia-se e repete-se a grande maioria.

"Devorar" (2019) dirigido por Carlo Mirabella-Davis é uma obra repleta de camadas, um filme aparentemente bizarro, mas que disserta sobre questões femininas, do como a mulher é ainda vista, sobre seu suposto papel dentro da família e suas supostas obrigações, surpreendente o como a história te leva para meandros psicológicos angustiantes e reflexivos. 
Hunter (Haley Bennett) é uma dona de casa que engravidou recentemente e se vê cada vez mais viciada em se alimentar de objetos perigosos. Enquanto o marido e a família reforçam o controle sobre sua vida, Hunter deve enfrentar o segredo sombrio por trás de sua nova obsessão.
Acompanhamos Hunter e sua vida aparentemente perfeita, casada com o rico Richie (Austin Stowell), também convive com os sogros (David Rasche), (Elizabeth Marvel), a imensa casa é cuidada por ela e segue seus dias solitária e invisível, Hunter não possui voz própria nesse meio que está inserida, seus desejos são tolhidos, a expectativa da família é que ela engravide. Hunter é uma mulher infeliz e que por traumas passados conduz sua existência de maneira submissa, aos olhos do marido quer ser prefeita, foi ensinada a agradar, mas chega em um determinado momento que ela adquire uma compulsão em engolir objetos, como agulhas, bolinhas de gude, tachinhas e pilhas, ela gosta de sentir as texturas em sua boca e não o ato em si, como diz para a psicóloga contratada pela família após descobrirem no ultrassom que tinha outras coisas além do bebê em sua barriga. A gravidez indesejada só amplia suas angústias, aumenta a vontade de engolir os objetos e quando expelidos os guarda como um troféu, além disso traumas passados vêm à tona, despertam nela sentimentos perturbadores, ela pensa no como veio ao mundo, na complexidade de sua existência e sua inadequação naquela família que a tem apenas como uma boneca pronta para agradar-lhes.
Melancólico e sensível retrata a opressão que a mulher sofre para realizar as expectativas dos outros, a falta de controle sobre si mesma desencadeou sua compulsão, que não só faz paralelo com a gravidez, mas o ato de engolir e expelir e de guardar o objeto como um troféu seria um tipo de controle secreto, um desejo seu satisfeito, algo só dela. O filme amplia essas questões quando o trauma é inserido no contexto e percebemos que para ela sair dessa prisão é preciso muito mais do que foi retratado, mas com certeza um começo, resolver as pendências e se olhar com mais carinho, deixar o meio que a oprime e seguir livre. Além da originalidade da obra, sua estética e trilha sonora são incríveis e só agregam para gerar o terror vivido pela protagonista. Um ótimo filme que abrange questões femininas com autenticidade e une a tristeza e a beleza em pequenas e intensas dosagens.

quinta-feira, 14 de março de 2019

A Favorita (The Favourite)

"A Favorita" (2018) dirigido por Yorgos Lanthimos (O Lagosta - 2015, O Sacrifício do Cervo Sagrado - 2017) é um filme sarcástico e exuberante sobre os jogos de poder políticos e amorosos entre três mulheres dentro de uma corte baseando-se em parte na era da Rainha Anne, que reinou a Grã Bretanha entre 1707 e 1714, durante as guerras da Inglaterra contra a França.
Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes à oportunidade única.
Com uma linguagem peculiar e visão pessimista da humanidade o diretor grego vêm se destacando e ganhando cada vez mais notoriedade, "A Favorita" é sua obra mais palatável, mas continua firme com suas características tão inventivas e extraindo de seus atores performances de tirar o fôlego. 
Acompanhamos a frágil e carente Rainha Ana, que deposita toda a sua confiança na Duquesa de Marlborough, que mesmo tendo um sentimento aparentemente verdadeiro a manipula para os próprios interesses políticos, Ana sofre de dores constantes da gota, pelas inconstâncias de humor e por ter passado por 17 gravidezes malsucedidas, o pouco de afeto e consolo encontra nos encontros sexuais com a astuta Sarah, que de fato governa o rumo do país, Ana não consegue articular as palavras diante do conselho e não possui pulso firme, é tida como uma pessoa volúvel e fraca. Sarah então se aproveita e toma as decisões, até que a jovem Abigail, prima distante de Sarah, vinda de uma família falida, chega e começa a trabalhar como criada e aos poucos sua sede de poder se manifesta sob maneiras ardilosas, ela percebe que conseguindo a atenção da rainha recuperará seu posto e novamente ascenderá perante a sociedade. Abigail consegue rapidamente com sua doçura e dedicação fazer com que a rainha a note e a coloque numa posição melhor, ao lado dela se torna mais fácil a manipulação ao preencher a ausência de Sarah, logo a rainha se encanta e se envolve sexualmente com Abigail colocando em risco a posição de Sarah. A briga de egos é travada com diálogos afiados, cínicos e personagens multifacetadas compostas com primor, as três têm seu espaço e funcionam com perfeição juntas, protagonistas gloriosas.

Olivia Colman emprega em Ana só com o olhar sentimentos de ciúme, tristeza, raiva, impotência, carência extrema e sua histeria domina a tela, são momentos incríveis em cena, uma potência, Emma Stone surge com sua doce Abigail e cativa a inconstante rainha pela atenção e dedicação, além de seduzi-la e propiciar momentos de prazer, é uma personagem que vai descortinando pouco a pouco suas ambições, Rachel Weisz compõe uma mulher fria que possui o poder e o domina com maestria, os homens retratados na corte são exibidos de forma patética com suas perucas e maquiagem, e sempre se encontram em segundo plano fofocando e se distraindo com coisas bizarras. O único que tem mais ênfase é Robert Harley (Nicholas Hoult), que faz oposição ao governo e termina se aliando a Abigail. Todos dentro da corte se valem de seus status para se beneficiarem e trocarem favores, situações que vão se ampliando e mostrando até onde o ser humano vai para obter mais e mais poder e, ainda pior, retrata que mesmo rodeados de glamour a decadência sempre está à espreita e tudo o que se fez para chegar até ao topo se transforma numa grande chacota.

"A Favorita" é o primeiro filme de Lanthimos cujo roteiro não foi escrito por ele e seu brilhante parceiro Efthymis Filippou, mas a inconvencionalidade e o absurdo está presente, claro que não em grandes doses como nos anteriores, mas permanece e tomara que nunca se dissipe toda a estranheza que suas obras produzem. 
É um filme ácido que retrata de forma diferenciada o cenário da aristocracia e a pompa do ambiente real, seus figurinos exuberantes e maquiagem esdrúxula expõem personagens frágeis, artificiais e exageradas disputando poder político, amoroso e fazendo qualquer coisa em prol de suas ambições. O que de fato não mudou até hoje, apenas se alteraram cenários, roupas e máscaras. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Em Busca de Watership Down (Watership Down) Minissérie

"Em Busca de Watership Down" (2018) dirigido por Noam Murro é uma minissérie animada coproduzida pela BBC e Netflix. Baseada no clássico romance homônimo de 1972 de Richard Adams essa adaptação optou por uma abordagem amena para que atinja mais público, com certeza a violência fez falta, mas a história é tão grandiosa e tão cheia de camadas que é impossível não se hipnotizar pelas aventuras das quais o bando de coelhos enfrenta. O livro é uma obra-prima pela sua profundidade em exibir a vida selvagem dos coelhos com todos os obstáculos e inimigos, muitos temas estão envoltos e mesmo sem querer faz incríveis alegorias. O filme de 1978 também é marcante por recriar esse universo sem floreios expondo cenas violentas e de melancolia, um clássico absoluto, assim como o livro que se faz necessário para qualquer leitor. 
Confira a resenha de ambos aqui.
Situada numa idílica paisagem rural do sul da Inglaterra, a aventura baseada no romance de Richard Adams acompanha a jornada de um bando de coelhos por um novo lar após a destruição de seu habitat. Liderados por um par de irmãos valentes, eles saem de sua terra nativa em Sandleford Warren e enfrentam provações angustiantes, bem como predadores e outros adversários, em rumo a uma terra prometida, com uma sociedade perfeita.
Com uma abordagem mais leve em questão da agressividade e até o tom de medo que permeia a obra acaba sendo mais palatável e consegue abranger todos os públicos, mas isso não tira o mérito da produção que organizou a história muito bem, claro que condensada, pois o livro é imensamente detalhista, porém não tem o que dizer sobre a  fidelidade do enredo e sobre a personalidade dos personagens, o desenvolvimento dos principais, como Hazel (James McAvoy), Fiver (Nicholas Hoult), Bigwig (John Boyega), Holly (Freddie Fox), Clover (Gemma Arterton), Hyzenthlay (Anne-Marie Duff), consegue traduzir boa parte das sensações que cada um sente, os receios, a coragem, o instinto e a união. Os demais não são tão explorados e outro que fica de lado é a gaivota Kehaar, que tem bastante importância na trama e que dá um tom sarcástico e que revela uma amizade inesperada. Outro ponto a ser referido é a computação gráfica que não é das melhores, a estética realista deixa a desejar, só que o roteiro é tão poderoso que isso soa pequeno e insignificante, a jornada dos coelhos começa quando Fiver prevê a destruição da coelheira, ele e seu irmão conseguem juntar mais alguns coelhos para começar a procurar um lugar seguro, a mitologia envolvendo a criação da espécie é colocada em um rápido prólogo e durante alguns pontos da narrativa surgem mínimas referências tanto a El-Ahrairah como o Coelho Negro, Hazel sofre por ter que liderar o grupo e inspirar confiança, já que o destino é incerto e muito perigoso, com o passar do tempo Fiver vai tendo novas visões que indicam o caminho para Watership Down, mas inúmeras situações se passam que tanto servem para fortalecer a amizade como para surgir mais medo e desconfianças, eles encontram um viveiro com coelhos conformados pelo fim que os espera e a terrível Efrafa comandada pelo General Woundwort (Ben Kingsley), um enorme coelho que domina um exército e mantém um outro grande número aprisionados.

Há muitos temas envoltos, como hierarquia social, confiança, companheirismo, religião, sacrifício, amizade, destruição da natureza, assim metáforas e simbolismos acabam se formando e, por consequência, grandes reflexões surgem. Crítica social, política, ambiental e religiosa em uma animação de aventura hipnotizante em que a vida selvagem é explorada sob um ponto de vista cru e melancólico. Há um ar de tristeza e indecisão, o medo é recorrente e a natureza é quase sempre opressiva.

"Talvez alguns humanos entendam que todas as coisas vivas sofrem e merecem respeito"

"Em Busca de Watership Down" consegue conservar a essência da história mesmo com uma abordagem branda, aqui não há sangue e pedaços de orelhas sendo arrancadas, mas há sempre a tensão no ar e a sugestão da violência, a jornada dos coelhos é repleta de emoção, imergimos e ficamos apreensivos a cada aventura, uma produção que apesar de carecer de um visual melhor possui um roteiro que se sustenta, uma obra imprescindível e atemporal que merece sempre ser revisitada.
Não deixe de conferir, está disponível na Netflix!

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Desobediência (Disobedience)

"Desobediência" (2017) dirigido por Sebastián Lelio (Gloria - 2013, Uma Mulher Fantástica - 2017), baseado no livro homônimo de Naomi Alderman, aborda a homossexualidade versus o conservadorismo religioso com muita sensibilidade, qualidade maravilhosa desse diretor, suas histórias têm delicadeza e força, jamais estereotipa, há naturalidade no desenvolvimento e suas personagens preenchem a tela, neste Rachel Weisz e Rachel McAdams se entregam inteiramente e presenteia o espectador com atuações belíssimas e intensas.
Ronit (Rachel Weisz) precisa voltar para sua cidade natal após a morte de seu pai distante - um rabino. Mas ela causa um rebuliço no pacato local ao recordar uma paixão proibida por Esti (Rachel McAdams), sua melhor amiga de infância, que atualmente é casada com seu primo Dovid (Alessandro Nivola)
Ronit foi expulsa da comunidade judaica ortodoxa em que vivia em Londres, estabeleceu sua vida como fotógrafa em Nova Iorque e segue sozinha sem nenhuma amarra social, depois de receber um telefonema sobre a morte do pai, o respeitado rabino do local, volta e se depara novamente com o passado e as fortes tradições das quais todos conservam, ela observa de longe, respeita e continua sendo ela mesma, dando suas opiniões e se apresentando como uma pessoa liberal, sua chegada causa desconforto, pois não era de fato esperada, há muito tempo que ela não dava notícias e como tudo é mostrado o rabino não a considerava mais como filha. Sua surpresa acontece mesmo quando percebe que Dovid está casado com Esti, que aos poucos vai ser confrontada com seus próprios desejos, a presença de Ronit na casa a desperta para algo pendente em sua juventude, os sentimentos reprimidos e toda a pressão da qual vive fica insustentável e aí a questão sobre a liberdade de escolha vem à tona.
O filme retrata o como o conservadorismo religioso atravanca, a comunidade sempre está de olho na vida dos outros, julgando os atos, Ronit foi execrada pelo fato de não querer seguir os moldes, casamento, filhos e todo o manual que isso engloba, além do protocolo da religião, na juventude Esti, Dovid e ela eram inseparáveis e as duas eram apaixonadas, quando Ronit foi embora Esti vê na união com Dovid uma alternativa de fuga para esquecer sua vida pessoal e se submeter aos propósitos estabelecidos por Deus. Dovid não teve muito poder de escolha, seu tio lhe deu tudo que foi negado a Ronit e foi escolhido para sucedê-lo na sinagoga, o casamento foi ideia do rabino para que Esti tivesse a possibilidade de ser "curada", Dovid a partir da chegada de Ronit também começa a repensar, o ambiente fechado castra a liberdade de escolha, e veja só, o rabino no início estava falando justamente sobre isso antes de morrer, sobre o livre-arbítrio, Dovid no final também fecha com esse pensamento e o mais valioso é que coloca em prática. 

O passado de Ronit é colocado de forma sutil, compreendemos as razões pelas quais ela deixou a comunidade e o corte da relação com o pai, ao voltar ela se sente deslocada e angustiada, não há vínculos a não ser o primo, que também sofre à sua maneira, a pressão da sucessão, a continuidade da família com filhos, e depois que as fofocas envolvendo Esti e Ronit surgem, acaba também ressoando em sua respeitabilidade como homem colocando em risco seu título como rabino, Esti e Ronit revivem a paixão com intensidade e desespero, elas se complementam, mas não é apenas um reencontro repleto de desejo e uma desobediência às regras, é um encontro consigo próprias para refletirem nas suas decisões sem o peso das amarras sociais e do julgamento da religião. É exercer a liberdade de escolha mesmo que isso não signifique uma grande reviravolta.

"E não há nada tão gentil ou verdadeiro quanto o verdadeiro sentimento de estar livre. Livre para escolher."

"Desobediência" tem sutileza, é cadenciado e não utiliza artifícios fáceis, é espontâneo e também não estereotipa seus personagens ou religião, ele os retrata com cuidado e precisão. Em uma comunidade conservadora repleta de prescrições exercer sua liberdade é um ato de desobediência, na ótima cena em que Dovid está para ser nomeado rabino, angustiado deixa o discurso pronto de lado e num rompante começa a falar sobre o sentimento de se sentir livre e poder escolher, ali perante todos ele se liberta e concede a liberdade a Esti, um aliviante momento e um novo começo se abre tanto para ele, como para Ronit e Esti. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer)

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) dirigido por Yorgos Lanthimos (Alpes - 2011, The Lobster - 2015) tem um roteiro inusitado, que também tem a mente criativa de Efthymis Filippou, constante parceiro de Lanthimos, o universo criado retrata os extremos dos conflitos das relações, as complexidades do ser humano, o tom cômico e trágico causa desconforto e constrangimento, o fato é que o filme provoca e causa incômodo, traz situações absurdas, personagens desprovidos de emoções e quando existe algum indício carecem de significação, são atos mecânicos e diálogos crus e diretos, os símbolos e referências estão por toda a parte e é preciso estar atento a cada detalhe, conversa e ação. Criativo, irônico e desconcertante, intriga tanto em sua estética fria e robotizada, quanto em seu roteiro com desenrolar lento e repleto de pontas, é uma experiência única assistir os filmes de Lanthimos, que mesmo produzindo fora de seu país continua com suas estranhas características, quanto mais se pensa no filme mais coisas surgem e mais interessante fica. 
Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado que é casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Já há algum tempo ele mantém contato frequente com Martin (Barry Keoghan), um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando era operado por Steven. Ele gosta bastante do garoto, tanto que lhe dá presentes e decide apresentá-lo à família. Entretanto, quando o jovem não recebe mais a atenção de antigamente, decide elaborar um plano de vingança.
A vida aparentemente perfeita da família de Steven começa a ruir quando o jovem perturbado Martin - incrivelmente e extraordinariamente bem interpretado por Keoghan, não sente que está sendo uma prioridade mais na vida do médico, ele tem ressentimento e raiva por causa da morte do pai nas mãos de Steven, a relação é um jogo de troca, Steven nunca declara sua culpa, a disfarça em forma de pena pela falta de afeto que Martin sente e que mais tarde é transformada em obsessão e raiva, Steven em determinado momento se cansa de Martin, e este não tolera ser colocado de lado, ele se aproxima da família, cativa Kim e Bob e lança uma praga em cima da família do médico. Bob, o filho mais novo destoa do aspecto frio e reto da família, tem as próprias vontades, uma demonstração é não cortar o cabelo, ele representa a inocência, a gentileza nesse meio, ou seja, o Cervo, que possui essas características na simbologia, além de se sacrificar por um bem maior. Bob é o primeiro a sentir os sintomas da "maldição" de Martin, logo é Kim que sente suas pernas paralisarem, a influência de Martin sobre ela é imensa, pois em uma cena no hospital ela se levanta para olhar pela janela a pedido dele ao telefone, segundo Martin todos na família irão sofrer as consequências, só basta a Steven escolher um deles, é uma questão de equilíbrio, ao eliminar alguém da vida de Martin, alguém da vida de Steven também tem que ser. 

"Um: paralisia dos membros. Dois: recusa a comer ao ponto de morrer de fome. Três: sangramento dos olhos. Quatro: morte. Um, dois, três, quatro."

Martin vai soltando verdades no decorrer e tudo de maneira calma, mas também inquietante, ele é uma espécie de profeta. Steven é um homem extremamente egoísta, fraco e hipócrita, esconde sua culpa e finge asseio, em nenhum momento admite seus erros ou revela suas imperfeições. Ele é vazio. Anna com o desenrolar parece acordar e perceber um pouco as coisas, como quando na cozinha ao se defrontar com ele, que ao invés de estar preocupado com o filho pede para que ela faça um purê. "Você tem belas mãos. Nunca havia percebido. Mas todos têm me dito isso nos últimos dias, que belas mãos você tem, e agora vejo com os meus olhos. Macias e limpas. Mas quem liga se elas são lindas? Elas não têm vida". Só que ela não titubeia ao fato de fazer de tudo para não ser a escolhida para o sacrifício, como ao dizer que ainda podem ter mais filhos, aliás esta parte é carregada de humor negro e impacta com as atitudes de cada um ao querer se livrar do inevitável.

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" faz referência ao mito grego "Ifigênia", que escolhida ser sacrificada pelo próprio pai, foi por obra dos deuses, substituída por um animal no derradeiro momento, a tragédia é colocada nos moldes atuais e daí surge variadas camadas e cada espectador absorve e interpreta de uma maneira, mas o incômodo é certeiro e intenso ao evidenciar o lado podre do ser humano e os absurdos dos seus comportamentos enquanto disfarçam e fingem virtudes. Uma obra particular e imensamente desconcertante.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Viva

"Viva" (2015) dirigido pelo irlandês Paddy Breathnach (Blow Dry - 2001) é um filme ambientado em Cuba que reflete sobre questões importantes, como preconceito, família e sonhos com total firmeza e também delicadeza, o protagonista causa empatia e o acompanhamos nesta jornada de aprendizado, onde o resgate do amor e o sonhar se misturam. Uma bela história, tão essencial para todos nós refletirmos.
Quando tudo está à venda, qual o preço do amor? Jesus (Héctor Medina) é maquiador de um grupo de drag queens em Havana, mas sonha em se apresentar. Quando ele finalmente tem a chance de estar no palco, um estranho surge da multidão e bate em seu rosto. O estranho é seu pai Angel (Jorge Perugorría), um antigo lutador, que estava ausente por 15 anos de sua vida. Com pai e filho em conflito sobre suas expectativas opostas um do outro, Viva é uma história de amor sobre homens que lutam para se entender e voltar a ser uma família novamente.
Seguimos Jesus em seu cotidiano, pelas ruas de Cuba, a sua luta solitária para se sustentar arrumando cabelos de velhinhas e escovando as perucas das drags numa casa noturna, seu maior desejo é se apresentar e um dia surge a oportunidade, então se monta e entra no palco, Mama (Luis Alberto García), que comanda tudo por lá o protege dando conselhos, o incentiva ensinando a arte do espetáculo, Jesus realiza seu sonho passeando pelo salão interpretando, mas de repente leva um soco de um homem, que diz ser seu pai. Angel se instala na antiga casa e Jesus não se altera, mas fica chocado pela volta do pai que foi preso quando ainda era pequeno, Angel o proíbe de frequentar a casa de shows, o único sustento de Jesus, e daí esperamos uma reação mais enfática dele, mas não, por muitas vezes nos perguntamos o motivo desse garoto não o expulsar de lá, suas atitudes perante esse pai nos fazem refletir muito, sobre a importância de ter alguém da família por perto, um fator interessante é que o pai de Jesus não se importa dele ser gay, o que o incomoda é ele se montar, ele é um homem durão, ex-lutador que afundou a carreira cometendo um crime, está no fundo do poço, não consegue arranjar emprego e passa os dias a beber e a fumar. Jesus por um bom tempo acaba apelando para a prostituição, já que nada ganha arranjando os cabelos das velhinhas, tudo o que consegue é para comprar comida. 

A relação com o pai vai tomando uma outra forma quando Angel fica doente e Jesus cuida dele, a proximidade dá a chance desse pai entender o como seu filho tem um coração bom, e aos poucos se livrando desse preconceito e entendendo o sonho de Jesus, que amadurece e ganha ainda mais forças para seguir em busca do que quer.
O filme passeia por vários temas, como família, preconceito, sonhos e se aprofunda em cada um deles, é extremamente bela a interpretação de Héctor Medina, causa grande empatia, seus olhos jorram sentimentos, uma delicadeza melancólica, Jorge Perugorría também excelente em sua figura machista que se transforma pela bondade do filho, e sem deixar de enaltecer a interpretação de Luis Alberto García como Mama, que representa a maturidade e força. Outro ponto a se destacar é a intensa e dramática trilha sonora, boleros de se jogar no chão de tanto chorar, por exemplo, "El Amor".

"Viva" é lindo e sua beleza e força de expressão já começa pelo título, uma exultação triste e feliz ao mesmo tempo, mas libertadora. A transformação, a aceitação que se dá no fim exemplifica perfeitamente, uma cena marcante e uma lição que todos deveriam aprender.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Garage

"Garage" (2007) dirigido por Lenny Abrahamson (Frank - 2014 e Room - 2015) retrata um ser humano com grandes características e caráter irretocável, bondoso, inofensivo e puro, porém com uma existência solitária e praticamente insignificante justamente por ter essas qualidades. Todos que o conhecem e convivem com o grandalhão Josie faz deboche e o tem como um sujeito passivo, ninguém o ouve ou quer saber o que se passa, até que um garoto entra em sua vida modificando a sua maneira de ver as coisas e que o fará compreender como infelizmente o mundo realmente é. 
Tido por seus vizinhos como um inofensivo desajustado, que motiva bondade, tolerância e ocasional abuso, Josie (Pat Shortt) passou toda sua vida adulta como guarda de um decadente posto de gasolina nos arredores de uma pequena cidade no meio-oeste da Irlanda. Ele é limitado, solitário, apesar de sempre otimista e, ao seu modo, feliz. Até que, durante o decurso de um verão, o mundo de Josie sofre mudanças. Um adolescente, David (Conor Ryan), chega para trabalhar com ele. David gosta de Josie. Eles se abrem um para o outro e de repente o solitário adulto está bebendo cerveja nos trilhos do trem com os garotos da cidade. Josie descobre necessidades pessoais nunca antes despertadas. E Carmel (Anne-Marie Duff), que trabalha na loja local e tem sido sempre amável com ele, provoca sentimentos em seu interior que lutam para se expressar. É quando a vida de Josie muda perigosamente para sempre.
É com amabilidade que acompanhamos a rotina tediosa de Josie, que consiste em cuidar do posto de gasolina pouco frequentado e suas idas ao bar da cidade, a interação com os moradores é distante e a maior parte o trata com desdém, ironia, ou se aproveitando, poucos são os que se importam, a tranquilidade impera na vida desse homem, mas o cotidiano é alterado, lentamente também, com a vinda de um adolescente tão estranho quanto Josie, os dois começam a se falar, a beber cerveja juntos e logo um vínculo é formado mesmo que de maneira esquisita, pois David é quieto e está numa fase confusa.
Josie age inocentemente, não há malícia em seu interior, ele é um homem que pouco sabe do funcionamento de uma sociedade e suas leis, e por isso acaba caindo numa teia complexa que o fará perder a vontade de seguir. 

"Garage" é um filme bonito, tanto esteticamente com as locações naturais irlandesas quanto pela história ao retratar um ser humano que foge do comum, do padrão social aceitável, que por ser bom é alvo de piadas e desprezo, o filme arranca sorrisos no decorrer, é lindo e ao mesmo tempo triste observar Josie, pois é uma raridade que tem pouco valor, considerado retardado e até doente mental, aliás, duvido que haja pessoas bondosas e que têm a pureza de essência perante a este mundo que vivemos. Um filme simples, autêntico e que deixa grandes reflexões, especialmente em seu desfecho que pesa em nosso coração.

sábado, 16 de abril de 2016

Achados Musicais

Eis um compilado de achados musicais que tive o prazer de encontrar ao acaso no Youtube, são artistas que não se classificam em gêneros ou estilos únicos, todos fazem uma mistura generosa de muitas e muitas coisas. Aproveitem a lista e descubram a beleza de cada um!

"Quem ouve música, sente a sua solidão de repente povoada." (Robert Browning)

Rhye - EUA
É um duo composto por Mike Milosh (Canadá) e Robin Hannibal (Dinamarca), sim, são homens, apesar de tudo soar feminino, a voz macia e sensual produz essa impressão. O álbum de estreia intitulado "Woman" foi lançado em 2013. É tudo envolto por uma aura enigmática, e justamente por isso se torna intrigante. Confira o álbum "Woman".

Ane Brun - Noruega
Dona de uma voz singular, Ane Brun encanta, especialmente por seus vibratos, é doce mas potente. Já lançou seis álbuns, sendo o mais recente "When I'm Free" (2015), que mergulha num universo trip-hop, como na canção "Directions". Ane Brun tem um poder incontestável em sua voz, as músicas mais intimistas demonstram isso, "Oh Love" e na impressionante versão da música "Halo".

Yael Naim - Israel/França
Yael Naim é uma preciosidade, ela canta em diversos idiomas, toca variados instrumentos e nos embriaga com toda essa musicalidade. Ela ficou conhecida na mídia após sua canção "New Soul" ser exibida no comercial de um Laptop da Apple. Também se destaca por alguns covers, como em "Toxic". Em seu mais recente álbum "Older" (2015), seu som está ainda mais refinado, uma mistura de blues, jazz, folk, sua voz é delicada, vem de mansinho, mas é de total entrega. Um som prazeroso! Confira aqui.

Julien Doré - França
Vencedor da quinta temporada (2007) do programa de televisão Nouvelle Star, Julien Doré é um artista pop, mas que se diferencia dos outros, tem uma personalidade marcante e uma voz suave super charmosa. Tem vários hits e clipes sensacionais, vale conhecer! "Paris-Seychelles", "Kiss Me Forever".

Son Lux - EUA
Ryan Lott, mais conhecido por Son Lux é um artista multitalentoso, sua música nada convencional é chamativa e nos convida a viajar por lugares inimagináveis, a mistura de instrumentos orgânicos e eletrônicos cria uma atmosfera única. A sua voz é frágil, melancólica e penetrante. Um som diferenciado e poderoso! Facilmente se encontra suas músicas em trilhas sonoras de filmes, como "Easy", que está no longa francês "Mon Roi". Confira mais dele: "Change Is Everything", "You Don'tKnow Me", "Lost It To Trying".

My Brightest  Diamond - EUA
My Brightest Diamond é o projeto da cantora, compositora e multi-instrumentista Shara Worden. É um som que vai além, desconstrói, experimenta e liberta. A vocalista é impressionante, tem uma base erudita, assim como toda a parte instrumental da banda. É pop, mas não é! O quinto álbum "This is My Hand" é um trabalho admirável, começando pela primeira faixa "Pressure", que conquista pela interessante musicalidade. "Love Killer" e "This is My Hand" também se destacam. 

Marie Fisker - Dinamarca
Cantora e compositora, Marie Fisker tem um som forte, original e pessoal, é uma mistura de folk, country, rock progressivo, além de pitadas de outros gêneros. São canções simples, mas pontuais regadas a diversas emoções. Sua voz é sensual e intensa. Lançou seu álbum de estreia "Ghost of Love" em 2009. Confira as canções: "My Love, My Honey", "Seven Days".

Glass Animals - Reino Unido
Glass Animals é um quarteto inglês, cujo som passa pelo misterioso e psicodélico, a bela e sexy voz de Dave Bayley hipnotiza, a atmosfera das músicas são intensas, apesar de serem suaves. Com influências de batidas africanas misturada a sintetizadores cria-se um efeito sonoro bem interessante. A banda lançou seu álbum de estreia intitulado "Zaba" em 2014. Confira as faixas "Hazey", "Black Mambo" e "Gooey".

Les Fils du Calvaire - França
Composta pelo talentoso trio Clément, Damien e Jonathan, a banda lançou recentemente seu primeiro álbum "Les Fils de..." O som é algo novo, mistura muitos elementos prevalecendo a música eletrônica, o charme da língua francesa combina perfeitamente com toda a aura sedutora e também divertida, é bonito, gostoso e impossível não se deixar levar pelas batidas que se alternam. Foi lançado um videoclipe erótico e interativo da música "Rester avec Toi". Confira outras faixas, "Gin Fizz", "Qu'est-ce Qu'on est Bien".

The Muddy Brothers - Brasil
Fundada em 2012, o trio de Vila Velha/ES é formado por João Lucas (Voz e Gaita), Will Just (Guitarra e Violão) e Renato Just (Bateria), o som é um blues rock, mas tem diversas influências, entre elas a psicodelia. É fácil lembrar de Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Black Sabbath, mas a banda tem identidade e faz um som clássico de maneira impecável. O álbum de estreia "Handmade" foi lançado em 2013 e agora apresentam o novo trabalho intitulado "Facing the Sky", que foi gravado totalmente independente. Bom demais!

Julia Sarr - Senegal/França
Julia Sarr transcende as linguagens e nos aproxima da essência da música, sua voz suave, porém forte atinge diretamente nossas emoções. Ela já trabalhou com muitos músicos de renome como backing vocal. Sua música mistura jazz, soul e a tradicional música senegalesa. Tem dois álbuns lançados, "Set Luna" (2006) em parceria com Patrice Larose (virtuoso guitarrista de flamenco) e "Daraludul Yow" (2014). Confira as faixas "Adjana", "Doom L'enfant".

As Bahias e a Cozinha Mineira - Brasil
Composto por vocalistas trans, Assussena Assussena e Raquel Virgínia, a banda tem influências de nomes como Gal Costa, Novos Baianos, Amy Winehouse e Ney Matogrosso, o grupo propõe uma discussão acerca do machismo, da misoginia e de qualquer tipo de intolerância. A sonoridade é original e de imensa qualidade, além do timbre maravilhoso das cantoras. Com um trabalho tão lindo e livre certamente irá atingir mais e mais público. O primeiro álbum, "Mulher", foi gravado durante três anos, em meados de 2012 e lançado oficialmente em 2015. 

Jain - França
Jain é multicultural, mistura a música eletrônica com batidas africanas, hip hop, reggae, pop, etc. A fusão é devido ter morado no Congo e Emirados Árabes, ela é cheia de ideias, estilo, está sempre vestida de um modo contrastante. É interessante que mesmo sendo super diferente a sua música se adapta e se absorve facilmente. Lançou seu primeiro álbum chamado "Zanaka" em 2015. Vale muito a pena conhecer!

Y'akoto - Gana/Alemanha
Y'akoto é daquelas artistas que ama a música que faz independente se vai ser sucesso ou não. Suas letras são críticas e diz respeito a toda a humanidade, o conteúdo é universal. Seu som é uma mistura de soul, funk e blues, lembra um pouco Amy Winehouse e Macy Gray. Tem dois discos lançados "Baby Blues" (2012) e "Moody Blues" (2014).

Jibóia - Portugal
Jibóia é o projeto solo do músico Óscar Silva, ele não precisa de muito para produzir as suas delirantes músicas, um órgão, uma bateria e uma guitarra já é o suficiente, sem esquecer de dizer dos inúmeros pedais que usa. O poderoso mix de ritmos e influências exóticas nos deixa em estado de transe. A cantora Ana Miró, conhecida pelo seu projeto solo Sequin colabora com a sua doce e inebriante voz. Já no segundo disco intitulado "Masala", as músicas levam nomes de cidades do mundo todo. Confiras as faixas "Treta Yuga", "Dvapara Yuga" do álbum "Badlav".

Zaza Fournier - França
Zaza Fournier é cantora, compositora e instrumentista, ela caminha pelo pop e a música folclórica francesa. Não tem como não se apaixonar por sua voz e seu estilo peculiar, além de tudo ela está sempre acompanhada pelo seu acordeão. Puro charme! Tem três álbuns lançados "Zaza Fournier" (2008), "Regarde-moi" (2011) e "Le Départ" (2015). Ouça as canções: "Le Départ", "Comptine Pour une Désespérée" e "Vodka Fraise".

Hannah Williams - Reino Unido
Hannah Williams tem uma voz de arrepiar, vem da alma, do amor, do desejo, o som é um soul/funk/blues de primeira, e os músicos sensacionais, qualidade inenarrável. Seu álbum de estreia "A Hill Of Feathers" (2012) recebeu elogios de Sharon Jones e Charles Bradley. É um turbilhão de emoções.

Blubell - Brasil
Cantora e compositora, Blubell nasceu na cidade de São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo, mas cresceu na capital. Desde 2006 desenvolve seu trabalho autoral. Antes disso, fez parte de bandas independentes. Tem quatro álbuns lançados: "Slow Motion Ballet" (2006), "Eu Sou do Tempo Em Que A Gente Se Telefonava" (2011), "Blubell & Black Tie" (2012) e "Diva é a Mãe" (2013). O som de Blubell é nostálgico, nos remete aos anos 20 ou 50 facilmente, é divertido e também teatral, é uma mistura de blues, jazz e bolero, ela canta, mescla idiomas, sussurra, mas tudo com muita sofisticação. As letras são simples, porém super modernas, há um contraste entre melodia e letra e esse é o charme de Blubell.

Imany - França
Nadia Mladjao, mais conhecida por seu nome artístico Imany, é uma cantora de afro soul. O nome escolhido por ela significa "fé" no dialeto suaíle, falado nas Ilhas Comores. Quando jovem foi uma atleta de salto em altura, tornando-se posteriormente modelo de uma grande agência, e foi nas viagens que despertou seu talento para a música. Lançou seu primeiro álbum em 2011 intitulado "The Shape of a Broken Heart", um registro despretensioso, simples, mas muito gostoso de ouvir. A sua voz rouca é marcante e muito apaixonante, aliás esse álbum é bem romântico. Seu segundo álbum "Sous les Jupes des Filles" lançado em 2014 é também a trilha sonora do filme homônimo de Audrey Dana.

Imelda May - Irlanda
Imelda May mistura jazz, a rebeldia do punk e a animação do rockabilly, uma boa pedida para dar uma agitada. Já dividiu os palcos com nomes como Elton John, The Supremes e Elvis Costello. Ela também compõe e toca um instrumento chamado "Bodhrán", um tambor tipicamente irlandês. Tem quatro álbuns lançados: "No Turning Back" (2005), "Love Tattoo" (2008), "Mayhem" (2010) e "Tribal" (2014).

Noora Noor - Somália/Noruega
Noora Noor é considerada a rainha do soul na Noruega, ela é uma excelente cantora de blues e neo soul, equilibra perfeitamente potência e suavidade, vai de graves a agudos com total naturalidade. Tem três álbuns lançados, sendo o último "Soul Deep" (2009). É realmente um som que te toca na alma.

Liniker - Brasil
Liniker é de Araraquara, interior de São Paulo, um artista nato cheio de amor e poesia, está super em evidência e é uma grande promessa da música brasileira. Suas canções vão do samba a black music e soul com uma roupagem bem moderna, o ritmo swingado e sua voz grave levemente rouca e potente é uma delícia, e a banda Caramelows que o acompanha é simplesmente sensacional. Liniker é autêntico e usa seu corpo de forma política para expressar a liberdade de ser quem se é. Lançou seu EP "Cru" em 2015 e em breve sairá seu álbum de estreia "Remonta". Estamos no aguardo ansiosamente!

Dicas extras:

"Le Ring" é um programa da Deezer (serviço de Streaming de música) apresentado por Aline Afanoukoé, consiste na apresentação de artistas com a missão de superação de si próprios e respeito pelo público. O palco é um ringue e antes de começar o show os convidados se olham no espelho e dizem palavras que vier a mente. É gravado no famoso "La Bellevilloise" e transmitido pelo canal France Ô. São quatro músicas e a interação com o público é incrível. Confira aqui!

Criado em 2009, na Rádio Cultura Brasil, estreou na TV Cultura em 2011 e segue com a missão de mostrar a música brasileira de hoje. Apresentado por Roberta Martinelli, o "Cultura Livre" recebe artistas (cantores ou bandas) no estúdio. Eles tocam suas músicas, falam sobre a carreira e respondem perguntas da audiência. A interação com o público é um destaque da atração. Por meio das redes sociais e de uma chat-line, os telespectadores podem enviar suas perguntas e comentários aos artistas. Confira aqui.