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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Filha Perdida (The Lost Daughter)

"A Filha Perdida" (2021) dirigido por Maggie Gyllenhaal e estrelado por Olivia Colman exibe as complexidades do feminino entre simbolismos e passagens que nos faz refletir sobre a maternidade e a enorme responsabilidade que cai sobre a mulher, tanto no quesito de estar fisicamente presente suprindo as necessidades do filho, como nas emoções tendo que até muitas vezes fingir e suprimir seus próprios anseios. É a tal da romantização da maternidade. O fato é que sentimentos são complexos e cada um tem seus próprios meios de lidar com eles. Mergulhamos junto a Leda em suas lembranças, um recorte verdadeiro e sem floreios de uma mãe.
Ao mesmo tempo que é um filme introspectivo e lento também é exuberante e potente, tanto na incrível presença de Olívia Colman que nos remexe por dentro ao observamos seus medos e desejos enquanto exerce a maternidade, quanto na sensação que causa durante a sua estadia no litoral em que fica obcecada por Nina (Dakota Johnson) e sua filhinha. Leda é uma mulher elegante, erudita, que decide passar as férias à beira-mar, um local idílico inicialmente, onde busca calma, mas esse cenário é quebrado quando surge uma grande e barulhenta família que praticamente toma conta da praia. Ela observa cada passo e ato de Nina e sua filha, relembra seu passado e realmente não dá para perceber claramente o interesse dela nas duas, memórias afetivas, compadecimento ou apenas diversão em ver as birras da menina, tudo fica ainda mais estranho, principalmente, quando a garotinha "perde" a boneca. O episódio em que a menina se perde e Leda a encontra acaba aproximando essa família dela e daí surge um cenário nebuloso.
É mostrado nos entremeios o passado de Leda, que não consegue conciliar sua carreira e a maternidade, ela almeja conquistar sucesso, menospreza o marido e não pensa duas vezes ao abandonar as duas filhas com ele. Segue seu caminho na universidade, aproveita sua vida e então volta para as meninas, e isso é dito por ela sem um pingo de arrependimento, não há nada que a faça sentir remorso, suas lembranças são apenas lembranças. Ela possui angústias, mas é de cunho egoísta, age de maneira impulsiva e até grosseira, quando observa Nina e sua filhinha relembra dos perrengues vividos no passado, no peso da responsabilidade e na inabilidade em ser mãe. Essas questões são muito exploradas e garante ao espectador repensar na pressão que acompanha a maternidade, o quanto a mulher é julgada por seus atos e escolhas e o como não há a compreensão de que esta continua sendo mulher com desejos e anseios para além de ter que criar os filhos. O abandono e a infidelidade quando vem do lado da mulher pesa imensamente mais e ao ver Leda tão dona de si e agindo deliberadamente causa impacto.

Uma excelente obra que mostra que a maternidade não é plenitude e sim um misto de sentimentos e tomadas de decisões que causam uma série de traumas, claro que também é mostrado o lado bom e simples, como a repetida cena das meninas pedindo para a mãe descascar a laranja sem que quebre a casca. A sinceridade e a contemplação marcam a história que possui simbolismos e questões pertinentes, além de um elenco maravilhoso, cujo protagonismo de Olivia Colman, que apesar de silenciosa possui rompantes que perturbam.
 
"A Filha Perdida" é uma adaptação do romance da escritora Elena Ferrante e marca a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal que com perspicácia e franqueza coloca as aflições, a ansiedade, o medo e a dificuldade da mulher em ser muitas, pode até ser chocante porque esse lado quase nunca é discutido, mas na verdade é aliviante e abre novas perspectivas sobre a tão idealizada maternidade.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Anistia (Amnistia)

"Anistia" (2011) dirigido por Bujar Alimani (Chromium - 2015) é um filme melancólico que retrata as deficiências que assolam a Albânia, o desemprego, o machismo, as burocracias, a violência, entre tantas outras coisas. A narrativa tem um ritmo lento e poucos são os diálogos, a protagonista exibe pelo olhar toda a sua tristeza, medo e desesperança. O tom escuro do longa amplia a sensação de desalento e questões existenciais são desencadeadas a partir dos dilemas vividos. 
A visita íntima é finalmente legalizada na capital da Albânia, Tirana, e uma vez por mês Elsa (Luli Bitri) desloca-se por vários quilômetros para passar alguns momentos com o marido encarcerado por conta de alugueis não pagos. Essa jornada permite que ela se aproxime de Shpetim (Karafil Shena), marido de uma detenta, presa por falsidade ideológica, mas uma anistia aos presidiários atrapalha o nascimento deste novo amor.
Visualizamos os trâmites e o modelo prisional no início e a visita íntima sendo legalizada no país, que acaba sendo uma obrigação, Elsa se desloca do interior para a capital afim de visitar seu marido e consumar o ato, que em nenhum momento é visto como algo bom, ao contrário, seus olhar sempre está vazio e seu corpo inerte, há inúmeras questões que permeiam o sofrimento de Elsa, nada é expressado e por isso exige sensibilidade do espectador para compreender a protagonista, a desestrutura familiar, a falta de dinheiro para criar os filhos, o sogro extremamente machista, a rotina obrigatória de se deslocar até Tirana, as mentiras que conta para ocultar a prisão do pai para os filhos, as consequências emocionais são fortes e não parece haver sentido em sua vida. As coisas tomam outro rumo quando ela conhece Shpetim, que também prova do sofrimento da perda de sentido, a mulher presa e as visitas íntimas preestabelecidas, as burocracias do sistema, quando eles se conhecem ao acaso a paixão timidamente se aproxima, as cenas de Elsa e Shpetim se amando nunca são mostradas e os rostos de seus respectivos cônjuges também não, pois a história quer nos mostrar que não importa o desejo pessoal, sem autonomia um recomeço com um novo marido é impossível e perigoso, como bem retratado pela figura do sogro. Com essa impossibilidade de prosseguir seus sentimentos tornam-se culpa e vergonha, uma nova carga de sofrimento pende sobre suas costas e a desesperança surge ainda mais forte quando o governo declara anistia e tanto o marido de Elsa como a esposa de Shpetim retornam ao lar.

"Anistia" é introspectivo e denso, causa aflição observar a vontade de Elsa em tentar ter sua liberdade e sempre encontrar alguma barreira social, quando ela resolve ir morar em Tirana na casa de uma colega e consegue um emprego há um lampejo de confiança, a parte que ela diz que precisa resolver algumas coisas para a colega demonstra o quanto está se sentindo segura, pois ela se mostra almejando o futuro, o que infelizmente logo se desfaz, seu sogro a obriga a voltar com os filhos para casa, seu marido retorna e desiste do amor. Apesar do filme ser cadenciado e não revelar quase nada com palavras, a angústia da personagem transpassa a tela e a compreendemos, seu final seco impacta e permanece conosco por um bom tempo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Chevalier

"Chevalier" (2015) dirigido por Athina Rachel Tsangari (Attenberg - 2010) é uma sátira eficaz ao desconstruir a masculinidade, a trama envolvida num universo totalmente permeado pelo ego viril é ainda mais interessante por ser dirigido e escrito - em parceria com Efthymis Filippou - por uma mulher, o ridículo é exposto, o jogo que se faz para mostrar quem é o melhor transforma esses homens em animais vaidosos cheios de convicção e desperta o pior em cada um deles. 
No meio do Mar Egeu, seis homens viajando num iate luxuoso decidem jogar um jogo. Durante este jogo, coisas serão comparadas. Coisas serão medidas. Canções serão destruídas e sangues serão testados. Amigos se tornarão rivais e rivais ficarão furiosos. Mas no fim da jornada, quando o jogo acabar, o homem que ganhar será o melhor homem. E ele colocará no seu dedinho o anel da vitória: o Chevalier.
A história é envolta por um humor seco, é preciso compreender a profundidade, pois existe uma sensibilidade peculiar ao retratar todo esse cenário masculino, seis homens ricos pescam e mergulham num iate luxuoso, o tédio os assola e logo vem a ideia de um jogo que consiste em fazer comparações para saber quem é o melhor, comparar tudo mesmo, qualquer bobagem, desde o modo como dorme, executa tarefas, a relações familiares e o como se comporta com os adversários, analisam-se e marcam em seus cadernos os erros e pontos.
Claro que ninguém vai ser sincero neste jogo, não demora a aparecer hipocrisias, falsidades e artimanhas para ganharem pontos , ninguém mais se relaciona, apenas joga, aliás, antes mesmo de começarem a jogar pode-se notar o jogo. É uma ironia pungente sobre as disputas entre homens, é o machismo puro, veja que os momentos de mais tensão são quando surgem perguntas envolvendo o âmbito sexual. Tem um personagem que fica obcecado em ter uma ereção matutina para desmenti-los ao dizerem que ele é impotente. Porém, existe um personagem que destoa, Dimitris, talvez, seja o único nesse ambiente que seja sincero, e, por conseguinte, o mais distante de ganhar o Chevalier.

O filme escarnece ao colocar em evidência a questão de se sentir macho, ainda mais por serem homens ricos e que vivem numa bolha longe da realidade.
"Chevalier" tem características particulares que conferem estranheza, é subjetivo e com um humor bastante duro, mas é criativo e proporciona um olhar a este aspecto da masculinidade e o quão patética é.  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Achados Musicais

Segue mais uma lista de indicações musicais (outras listas aquiaqui e aqui) que vão na contramão de tudo, músicos originais, inusitados e que fazem uma mistura vibrante de gêneros e vozes capazes de penetrarem a nossa alma. 
Música boa para revitalizar!

Caravan Palace - França
Caravan Palace é um grupo francês que mistura jazz com música eletrônica, a raiz do swing jazz, trompete, clarinete e contrabaixo com a atual música eletrônica e seus sintetizadores, além da uma pegada cigana. Tem ar de belle époque e rave ao mesmo tempo. Um som surpreendente, delicioso e super animado. Confira aqui.

Papooz - França
Papooz é um duo francês bem peculiar e ao mesmo tempo fácil de assimilar, tem um estilo definido como tropical garage, são canções pop com uma pegada de bossa nova e ares de anos 70, tem leveza e as vozes criam uma harmonia incrível. Recentemente lançaram o álbum intitulado "Green Juice". Confira aqui.

Milky Chance - Alemanha
Milky Chance é um duo alemão que mescla pop alternativo, folk, reggae e música eletrônica, tendo a voz de Clemens Rehbein como a principal característica. O álbum "Sadnecessary", lançado em 2013, é aparentemente simples, mas surpreende e cativa a cada música. Confira aqui.

Deluxe - França
Deluxe é um sexteto francês que esbanja espontaneidade, essa característica é algo marcante nos chamados músicos de rua devido o improviso, eles originalmente tocavam em praças, estações de metrô na cidade de Aix-en-Provence. Com influências de jazz, funk e hip hop a uma mistura de pop eletrônico, surge um clima contagiante que é impossível ficar parado. Tem uma mescla do folclórico com o moderno, são músicos abertos a possibilidades. Lançaram nesse ano o segundo álbum intitulado "Stachelight". Confira aqui.

King Krule - Reino Unido


Archy Marshall é King Krule, com apenas 21 anos e dois álbuns lançados "6 Feet Beneath the Moon" (2013) e "A New Place 2 Drown" (2015) se sobressai com a sua melancolia e sua potente voz, é um cantor com uma forte carga emocional, letras depressivas e muitas influências, desde o jazz, trip hop até o pós-punk depressivo dos anos 80, seu estilo beira o darkwave, mas defini-lo é impossível. Com certeza uma figura que chama a atenção e que surpreende com sua vigorosa voz. Confira aqui.

Lou Doillon - França
Filha da atriz e cantora Jane Birkin com o cineasta Jacques Doillon, portanto meia-irmã da também atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, Lou Doillon é atriz e modelo, estreou no cenário musical com o álbum "Places" em 2012, suas canções são profundas e atraentes, sua voz singular e sensual passa por várias nuances de grave e confere um ar de elegância. Há uma sensação de solidão, mas é agradável. Seu segundo álbum lançado em 2015 chama-se "Lay Low". Confira aqui.

Devil Doll - EUA
Devil Doll é uma banda de rockabilly americana comandada por Colleen Duffy, com dois álbuns lançados "Queen of Pain" (2002) e "The Return of Eve" (2007), além do rockabilly, o som também passeia pelo psychobilly. Infelizmente, Colleen Duffy recentemente foi diagnosticada com a Síndrome de Ehlers-Danlos e está com a carreira paralisada.

Fantastic Negrito - EUA
Xavier Dphrepaulezz é Fantastic Negrito, cantor e multi-instrumentista americano que tem em seu som uma poderosa mistura de black music, blues, jazz e uma atitude punk à la Oakland. Sua vida marcada por intensas e difíceis experiências só o conduziram para a sua fase de agora, como ele mesmo diz, precisou nascer três vezes, suas canções retratam essas vivências e por isso chegam tão intensas e viscerais. Seu último álbum lançado é "The Last Days of Oakland" (2016). Confira aqui.

Filipe Catto - Brasil
O brasileiro Filipe Catto é cantor, compositor e violonista, sua singular voz aguda e afinadíssima chega suave aos ouvidos, a comparação ao timbre de Ney Matogrosso é inevitável, mas suas referências vão de Elis Regina, Cassia Eller a Jeff Buckley, certamente um novo respiro para a MPB, ele tem uma dramaticidade e um apuro ímpar. Tem dois álbuns lançados, "Fôlego" (2011) e "Tomada" (2015). Confira aqui.

Monika - Grécia
Monika Christodoulou ou apenas Monika, é uma cantora e compositora grega, também toca vários instrumentos, incluindo piano, guitarra, saxofone, acordeão e tambores. Tem três álbuns lançados, sendo que só o terceiro "Secret in the Dark" (2015) alcançou sucesso fora de seu país, também marca seu novo estilo, com uma mistura de funk e disco music, sua voz desprendida e andrógina ajuda bastante no clima dançante. Confira aqui.

Menção Honrosa

Buena Vista Social Club - Cuba
Buena Vista Social Club era um clube de dança e atividades musicais de Havana, Cuba, onde os músicos se encontravam e tocavam na década de 1940, entre eles Manuel "Puntillita" Licea, Compay Segundo, Rubén González, Ibrahim Ferrer, Pío Leyva, Anga Díaz e Omara Portuondo. Ao longo dos anos novos membros entraram no grupo. Foi fechado na década de 1950.
Na década de 1990, aproximadamente 40 anos após o fechamento do clube, inspirou uma gravação do músico cubano Juan de Marcos González e o guitarrista americano Ry Cooder com os músicos tradicionais, o disco, chamado Buena Vista Social Club tornou-se um sucesso internacional. Foi quando então o diretor alemão Wim Wenders filmou a apresentação do grupo na Holanda, e uma segunda apresentação no famoso Carnegie Hall em Nova York, transformando num documentário, acompanhado de entrevistas feitas em Havana com os músicos. Em 2006 foi lançado "Rhythms del Mundo", um álbum com as estrelas do Buena Vista e da música cubana Ibrahim Ferrer (sua última gravação antes de morrer em 2005) e Omara Portuondo com artistas como U2, Coldplay, Sting, Jack Johnson, Maroon 5, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, entre outros. As apresentações do grupo terminaram em 2015.
É um mergulho delicioso na cultura cubana, uma sonoridade vigorosa e elegante que prima pela identidade e, claro, jamais pode ser esquecida. Viva Buena Vista! Ouça aqui.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Modris

"Modris" (2014) dirigido pelo estreante Juris Kursietis é um filme da Letônia que retrata um adolescente apático, viciado em jogos de azar e que tem uma relação turbulenta com a mãe, seu único anseio é descobrir quem é seu pai, mas sua mãe diz que está preso e por alguma razão esconde seu verdadeiro paradeiro, o que o deixa revoltado. Modris não é melhor ou pior do que seus colegas. Ele vai à escola, tem uma namorada, alguns bons amigos. Seu vício em jogos de azar faz o seu relacionamento com a mãe ser difícil. Eles vivem sozinhos, e ela não perde a chance de lembrar-lhe que seu pai está na prisão e que possui um gene ruim. O relacionamento dos dois chega ao limite, quando Modris vende o aquecedor elétrico de sua mãe, ao tentar obter uma vitória em uma máquina de caça-níquel. Ela com raiva vai à polícia e Modris é condenado a dois anos de liberdade condicional. Isto é, quando as suas aventuras com o sistema de justiça começam, juntamente com a mudança de sua relação com o mundo exterior e sua nova meta: encontrar o pai que ele nunca conheceu.
Modris é um personagem interessante, ele não é mau, apenas distante, não tem ambições e tudo se resume a tentar se satisfazer jogando num bar perto de onde mora. Como não tem dinheiro, rouba de sua mãe e vende objetos de sua casa, cansada do comportamento do filho, ela resolve chamar a polícia e denunciá-lo. A situação então se complica, o garoto está sob fiscalização e qualquer deslize o fará ir para a cadeia.
O diretor faz questão que adentremos na história junto de seu protagonista, o estilo de filmagem é natural e quase documental, vamos acompanhando as atitudes e as consequências dos atos de Modris, não tem como ter raiva, ele está perdido, não sabe muito bem o que quer da vida, existe uma carência afetiva enorme, percebe-se isso por seus olhares, quase sempre à procura de alguma coisa. É um grande esforço do ator Kristers Piksa, que apesar de sua apatia exibe uma carga emocional em suas expressões faciais e linguagem corporal.
A mãe (Rezija Kalnina) não o ajuda, certo que está cansada, seu psicológico também precisa ser avaliado, sua atual atitude deve ser reflexo de várias decepções, e coloca toda a sua amargura de ter que se virar sozinha em cima do filho, que necessita de uma atenção mais carinhosa. Então vira um círculo vicioso, um atacando o outro, se aproximam de vez em quando numa tentativa de apaziguamento, mas logo surgem questões espinhosas, como o paradeiro do pai de Modris. Dói ver as ameaças da mãe dizendo que ele será como o pai, um bandido, é muito baixo da parte dela utilizar este artificio e depois reclamar das atitudes do filho.

"Modris" é um filme sólido, documenta perfeitamente a realidade social de jovens problemáticos, com consistência revela sobre relações familiares, numa tentativa de querer que o filho aprenda uma lição a duras penas o afasta mais ainda e o coloca numa posição frágil, a falta de percepção é enorme e os diálogos são inexistentes. 
Algumas particularidades do sistema de justiça do país são abarcadas pela história, burocracias e punições que abrem vários questionamentos, Modris ao ser denunciado pela mãe tem a liberdade condicional, onde é fiscalizado e qualquer deslize, como beber cerveja em público e a perda de documentos são motivos para ser trancafiado na cadeia. Em muitos momentos percebemos que o garoto possui um coração bom e gentil, é realmente uma má sorte que o acompanha. As relações familiares em qualquer parte do mundo tem similaridades, "Modris" exemplifica isso e lembra que muitas mães e pais esquecem-se de cuidar e amar os filhos, preferindo deixar tudo nas mãos do Estado.

A fotografia do filme faz questão de exaltar o clima e o caminho melancólico e solitário do garoto, a cidade coberta de neve, com prédios em estilo bloco, a luz esquálida.
"Modris" é inspirado em uma história verídica, é um drama contemporâneo que traça o perfil de um jovem à deriva, relações familiares quebradas e que se vê cercado por um sistema que mais atrapalha do que ajuda. A interpretação é maravilhosa, sempre passivo e desconectado, o vemos sorrir apenas uma vez, mas habilmente consegue passar empatia, o estreante Kristers Piksa com seu semblante austero soube conduzir o personagem com maestria. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Xenia (Ξενία)

"Xenia" (2014) dirigido pelo grego Panos H. Koutras (Strella - 2009) é um filme alegre mesmo tratando de assuntos sérios, o título Xenia é um termo usado para estrangeiros, que significa hospitalidade e respeito, um nome comumente dado a hotéis, no filme os personagens se alojam em um completamente despedaçado, uma comparação com a situação mais que atual no país em relação aos imigrantes. Os irmãos Danny (Kostas Nikouli) de 16 anos e Odysseas (Nikos Gelia) de 18 anos foram abandonados pelo pai e criados por uma mãe viciada e completamente alheia, os dois colecionam traumas e sentem na pele o que é ser estrangeiros em sua própria terra, já que são filhos de uma mãe albanesa, cujo preconceito contra estes é gigantesco. Depois que a mãe morre, Danny vai à capital se encontrar com Ody a fim de procurar o pai para que reconheçam eles como filhos e garantir a cidadania grega evitando conflitos para o futuro e para acertar a situação financeira, nessa jornada enfrentarão obstáculos e reforçarão o laço afetivo. 
Danny é gay assumidíssimo, seu comportamento é infantil e revela muita carência, mantém um coelhinho de estimação, está sempre a fantasiar e representa a imaturidade. Ody já é responsável, trabalhador e independente, porém guarda o sonho de ser cantor, e quando Danny aparece esse sonho se reacende e então ele vai em busca participando de um concurso de talentos, os dois são fãs da diva italiana Patty Pravo, influência da mãe que também adorava cantar, o filme é recheado de suas canções, e Ody interpreta uma de suas canções na audição. Uma belíssima cena!
"Xenia" é um aglomerado de tragédias, os personagens carregam diversos traumas e dificuldades, além do teor fantasioso e momentos inverossímeis. Há uma grande tensão homoerótica, pois eles demonstram intimidade em várias cenas, Ody é um homem bonito e atrai o olhar de Danny, mas o filme apenas insinua e vemos mais a amizade entre irmãos se construindo. O filme tem uma aura queer, subversiva, mas por outro lado também clichê, explora muitos assuntos e acaba se tornando confuso, há um desarranjo, talvez a ideia seja essa mesma, sendo assim o diretor foi corajoso ao utilizar o exagero.
A composição do personagem Danny é extremamente interessante, ele irrita com seus descontroles, mas é um adolescente cheio de conflitos, vulnerável e carente. Kostas Nikouli explorou todas a nuances de Danny e passa ao espectador todo o drama e a originalidade, a impulsividade é uma de suas características mais marcantes. 

A busca pelo pai garante a Danny e Ody várias descobertas, no caminho encontram pessoas que o ajudam, como Tassos, amigo da mãe dos garotos, que incentiva Ody a participar do programa de talentos. O filme possui cenas super agradáveis, quando dançam e cantam, principalmente. A explosão de cores que compõe a estética do filme é outro ponto forte e que traduz essa aura de confusão. A trilha sonora é bastante peculiar, as canções italianas são em grande maioria de Patty Pravo, como "Bambola", "Sentimento" e "Tutt'al Piu", cuja Ody com sua bela voz interpreta no programa, "Rumore", de Raffaela Carra é outra música que os irmãos adoram, até fazem a exata coreografia. 

"Xenia" aborda diversos assuntos, mas não se aprofunda, por exemplo, o preconceito em relação aos imigrantes, a Grécia tem uma forte repulsa e é um dos países mais intolerantes, porém o filme prefere mostrar as coisas por um viés de otimismo e que tudo depende da forma como se conduz os sofrimentos que inevitavelmente acontecem. A busca pelos sonhos traz a autodescoberta aos personagens e uma liberdade aconchegante, mesmo com a dura realidade, a tristeza e as fragilidades que os acometem.
É um filme exagerado, divertido, melodramático, tem estilo ousado, mescla fantasia, aventura, musical, drama, e ainda coloca crítica social em sua narrativa louca, é um filme aberto a várias leituras.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

The Lobster

"The Lobster" (2015) dirigido por Yorgos Lanthimos é original, curioso, estranho e repleto de metáforas, é o primeiro filme em língua inglesa do diretor grego, e mais uma vez ele nos apresenta uma obra inusitada, mas muito interessante.
A história se passa num futuro próximo, onde uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta. 
David (Colin Farrell) recentemente foi deixado pela mulher, e portanto se tornou um hóspede do hotel, que mantém regras diárias para que as pessoas possam encontrar o par perfeito, os gostos precisam ser iguais, os defeitos, e tudo é comprovado em um teste depois. David optou por se tornar uma lagosta caso não conseguir uma parceira, mas com o passar dos dias percebe que o melhor é escolher alguém. O tom de absurdo e o humor negro faz parte de todo o filme, umas das passagens mais bizarras é a da caçada humana para conseguirem dias extras no local. 
Depois de não suportar a parceira que escolheu, David foge do hotel e se junta com os rebeldes na floresta, que fizeram um pacto de serem solteiros, qualquer deslize entre eles punições severas são aplicadas, liderado pela personagem de Léa Seydoux, o grupo é o oposto do hotel, porém com a mesma opressão. É nesse ambiente que David se apaixona, e então descobre que o pior não é ter que fingir sentimentos quando não os têm, mas fingir que não tem sentimentos quando os têm.
O longa critica o como as relações amorosas estão cada vez mais condenadas ao fracasso, já que geralmente as escolhas se dão por padrões. Também o medo de ser só faz com que muitos se relacionem para se sentirem completos, mas a verdade, claro, é que esse vazio vai aumentar, daí surge a alternativa de ter um filho, o que faz piorar tudo de vez. 
O roteiro é sutil e faz crítica de forma cômica, tanto do mundo dos solteiros, como dos relacionamentos, não aponta o dedo e condena, mas expõe o como o ser humano está se comportando.

Muitos ao entrarem em um relacionamento se anulam e começam a se portar como sendo parte da pessoa, se submetem aos gostos e decisões do outro sem pensar em si, tudo isso para fugir da solidão e se sentir no todo por conta das normas da sociedade que pressiona para que encontremos um alguém. Quando uma pessoa diz que não quer casar, a simples ideia de querer viver só não é bem vista, mas do que adianta construir um lar se não há afeto, no filme não existem emoções, as preocupações passam longe da esfera de sentimentos. Quantos casais por aí estão juntos por estar e se apegam a coisas ínfimas, mas que julgam serem essenciais?
O filme reflete de maneira estranha o tema, porém de modo eficaz. Ficamos atordoados com o surrealismo da história, e a aura melancólica permeia toda a trama sem deixar o humor de lado. Parece não haver vida, os personagens são mecânicos, não sabem como se dirigirem uns aos outros. Colin Farrell está surpreendente, uma atuação peculiar e com certeza única em sua carreira, a sua feição caracteriza bem toda a estranheza que o longa possui, aliás todo o elenco está magnífico, Rachel Weisz, Aggeliki Papoulia, Ben Whishaw, John C. Reilly, Léa Seydoux, Olivia Colman...

Yorgos Lanthimos é um exímio diretor, todas as suas obras têm características que beiram o bizarro, vide "Alpes" (2011), e retratam o absurdo e a artificialidade da sociedade, e cada vez que se pensa sobre esses filmes mais reflexões surgem. "The Lobster" é um longa criativo, brilhante, genial, aberto a conclusões e impactante em sua abordagem. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Pequena Inglaterra (Mikra Anglia)

"Na vida, parece que as coisas que se perde são mais valiosas do que as coisas que se encontra. As coisas que se encontra perdem-se novamente. As coisas que se perde, existem para sempre."

"Pequena Inglaterra" dirigido pelo grego Pantelis Voulgaris (Noivas - 2004) é um drama emocional que retrata os percalços do amor. 
Durante a década de 1930, na Grécia, em uma cultura profundamente patriarcalista, mulheres, em seus lares, esperavam os maridos marinheiros retornarem de suas longas viagens, com a chance de eles não voltarem. Savvas Saltaferos (Vasilis Vasilakis) é um marinheiro que tem vida dupla. Além de sua família na Grécia, ele tem laços na América do Sul. As filhas deste marinheiro já estão na idade de casar e quem fica com o encargo de dizer sim ou não para os pretendentes é a rígida mãe que sempre cuidou das meninas sozinha. É uma vida difícil para as mulheres, elas estão constantemente na espera.
Orsa (Pinelopi Tsilika) e Spyros (Andreas Konstantinou) se amam desde criança, fazem juras de amor enquanto ele vai e volta de suas viagens, o sonho dele é ser capitão para poder dar uma vida melhor a ela, que por sua vez promete o esperar. Mas, a mãe acaba rejeitando o pedido de casamento justamente por ser pobre e rapidamente a casa com um um homem rico. Moscha (Sofia Kokkali), irmã de Orsa é mais expansiva e apaixonada por um estrangeiro, só que a mãe descobre e mexe os pauzinhos para que nada aconteça entre eles. Spyros sabendo do casamento de Orsa fica com muita raiva por ela não ter cumprindo a palavra de esperá-lo, então o tempo passa e ele consegue se tornar capitão e por vingança pede a mão de Moscha, a mãe aceita, pois agora ele é rico. As coisas ficam tensas quando Orsa descobre, mas não tem o que fazer, tanto ele como ela reprimem o sentimento, passam anos guardando para não magoar ninguém e acabam sofrendo demais. As cenas em que Orsa escuta os dois fazendo amor por conta do frágil teto da casa é realmente doloroso.
É um filme muito bonito, tanto pela trama que envolve, como pela fotografia, a paisagem é lindíssima. Acompanhamos essas histórias de amor, tanto Orsa como Moscha amam Spyros, e ele sem dúvidas ama as duas também, mas de jeitos diferentes.
O interessante é que as mulheres dessa ilha na Grécia passam a maior parte do tempo sozinhas, seus maridos viajam sempre a trabalho e ficam por um longo período afastados, inclusive Savvas, o pai das meninas que chegou a constituir uma família na Argentina. Vemos os anos passarem e elas lá esperando com medo de que nunca retornem, afinal o mar é perigoso e a guerra bate à porta. 

"Pequena Inglaterra" tem um roteiro primoroso, atuações comoventes e é tecnicamente perfeito, tem aspecto novelesco, porém com um ritmo mais cadenciado, para quem gosta de dramas com muitas revelações é uma ótima indicação. Frustrações, traições e amores impossíveis compõem essa intensa trama. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Noivas - Nyfes - Νύφες

"Noivas" (2004) de Pantelis Voulgaris (Mikra Anglia - 2013) é um filme grego baseado em fatos reais que fala sobre o amor proibido.
Estamos em 1922. Niki é uma das 700 noivas encomendadas pelo correio, que navegam da Grécia para Nova Iorque a bordo de um navio para se juntar aos seus pré-arranjados imigrantes maridos. Um fotógrafo americano também está no navio. Ela encontrará seu novo marido em Chicago; ele está indo de volta para casa e de volta para seu casamento fracassado. Essas jovens gregas, búlgaras, romenas, armênias e turcas veem no casamento uma maneira de fugir da guerra greco-turca e começar uma nova vida, a maioria conhece seus noivos apenas por fotografias. O fotógrafo americano Norman Harris (Damian Lewis) está triste, pois suas fotos da guerra foram rejeitadas pelo jornal. Niki (Victoria Haralabidou) em última hora substituiu a irmã mais velha que rejeitou a ideia do casamento arranjado. Ele está na primeira classe, ela na terceira, mas no desenrolar os dois se conhecem e de imediato surge um encantamento. Niki é uma ótima costureira e por intermédio de Norman arranja trabalho na primeira classe. A paixão que acontece é forte, porém proibida. Niki defende a honra de sua família e não permitirá que o que sente estrague tudo. A honra ao nome da família é um valor bastante explorado no filme. 
A história é muito bem contada e é impossível não se prender a ela, a cada cena nos apaixonamos mais por Niki, uma mulher de semblante duro, mas de extrema delicadeza. Histórias de amor proibido sempre rendem algumas lágrimas e nesse não é diferente, as personagens são perfeitamente delineadas, observamos o drama de cada uma, o medo, a angústia, o sofrimento, e a esperança. Algumas são feitas de boba e acabam caindo em mãos erradas, são exploradas e infelizmente não têm o que fazer. São perdas, decepções, amores, incertezas, uma avalanche de sentimentos.

A trilha sonora é um primor, carregada de emoção. O roteiro se desenrola de maneira agradável e acabamos nos envolvendo demais, e esteticamente é impecável, tanto a ambientação como a fotografia é de encher os olhos, um dos momentos mais marcantes é quando Norman dá a ideia de fotografar todas as noivas.
É uma imensidão de sonhos e desespero. Os olhares de cada uma dizem tanto! Um lindo retrato sobre tradições, honra, paixões e perdas. É um filme delicado, sensível e muito bem produzido, aliás Martin Scorsese foi um dos produtores. Vale a pena descobrir essa joia rara do cinema grego, um romance bonito e capaz de deixar qualquer um com os olhos marejados.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Meteora

"O único pecado sem perdão é o desespero"

"Meteora" (2012) de Spiros Stathoulopoulos é uma história minimalista e silenciosa sobre o amor proibido. É a devoção versus o desejo.
Nas planícies aquecidas da Grécia central, monastérios ortodoxos elevam-se acima de pilares de arenito, suspensos entre o céu e a terra. O jovem monge Theodoros e a freira Urania dedicaram suas vidas aos estritos rituais e costumes de sua comunidade. Um afeto que cresce entre eles coloca suas vidas monásticas em risco. Divididos entre a devoção espiritual e o desejo humano, eles devem decidir que caminho seguir.
Meteora é daqueles lugares únicos no mundo, onde no topo de picos rochosos esculpidos pelo tempo existe um complexo de monastérios da igreja ortodoxa, cujo acesso é muito difícil, inclusive vemos no longa que a freira é içada por uma rede até o topo, já no do monge é uma escadaria gigantesca. Uma paisagem bem particular e que contribui imensamente para a história contada. O diretor optou por algo diferente do que se anda fazendo no cinema grego, filmes críticos sobre a crise que cada vez mais se agrava no país, o romance retratado é de um silêncio profundo e desesperador, a freira Urania (Tamila Koulieva-Karantinaki) e o monge Theodoros (Theo Alexander) vivem em mosteiros diferentes, um de frente pro outro, mas separados pelo abismo que divide as montanhas, no entanto a paixão entre eles acontece, a cena do piquenique por exemplo é uma das mais bonitas, onde riem das diferenças e do sotaque russo de Urania ao pronunciar palavras como, mar, liberdade e desespero.
Entre rituais religiosos e a natureza encantadora, o amor vai acontecendo em silêncio. Simbolismos são inseridos em forma de animação, é o divino e o humano se entrelaçando, além de ser muito bem feita, a estética e os traços da animação remetem a este universo religioso, alguns são muito difíceis de decifrar, outros curiosos, mas nada mais é do que a libertação do desespero que tanto um como o outro sente. É preciso saber apreciar esta obra, pois além de ter uma cadência lenta, as cenas são demasiadamente estáticas, mas é poético em relação ao tema do desejo carnal.

O filme reflete bastante o sentimento de desespero e culpa, toda vez que os dois descem lá de cima é para se amar, se tornam humanos e se despem de dogmas, apenas o amor é que rege os seus caminhos, mas após voltarem se devoram pela culpa. De clima austero, o arrebatamento é interno e se esconde nos silêncios, uma luta entre seguir os caminhos de Deus, ou se deixar levar pelos instintos carnais, por isso é um romance peculiar dotado de delicadeza.

Vale ressaltar os cânticos bizantinos inseridos à trama que auxiliam nessa aura de retidão em que emoções não são demonstradas. E claro, os atores estão maravilhosos e passam os sentimentos de angústia e desespero com muita clareza, apesar dos diálogos escassos. E também a fotografia, que é esplêndida e a animação que entra para dar mais subjetividade. Esse atípico romance é de uma beleza rara e merece ser descoberto.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Tango With Lions

"Tango With Lions" é uma banda grega formada em 2007 por Katerina Papachristou. Atualmente fazem parte do grupo Kat (voz, piano, guitarra, harpa e baixo), Yannos (guitarras e vocais), Stravos (cello e bandolim), Nikos V (bateria, percussão e vocais) e Jimmy Estrela (trombone). O álbum de estreia "Verba Time" (2010), foi bem recebido e o single "In a Bar" obteve grande sucesso. O segundo álbum "A Long Walk" foi lançado em 2013.
O gênero é um folk rock hipnótico e as músicas carregam uma certa melancolia, mas sem soar tristes, elas nos ativam a imaginação e por isso se fazem uma ótima companhia. É pra divagar sem medo. O mistério é algo que permeia muitas das canções, e ao mesmo tempo que soa particular e característico é também muito fácil de gostar. É deliciosamente encantador o vocal feminino.
"Tango With Lions" é para aqueles momentos em que queira relaxar apenas com você mesmo. Encontrei a banda já algum tempo e só agora senti a necessidade de compartilhar, pois é um som que é necessário se ouvir em pequenas doses, música por música, sem pressa. É ir se fascinando aos poucos, como uma paixão inesperada. O nome da banda traz um aspecto sonhador e letras que inevitavelmente te levam.

"Verba Time" (2010)
"Verba Time" é um álbum de estilo acústico, muito atmosférico, canções que revelam segredos em um vocal sedutor, são composições pessoais e emocionais. A arte que enfeita a capa foi inspirada pela pintura de Nick Gentry. O álbum conta com doze faixas: "House On Fire", "In A Bar", "Pilgrim Said", "Policeman", "On The Floor", "Right From The Start", "Black", "Red And Yellow Rooms", "Underskin", "Sad Big Blue Eyes", "Angel's Arms", e "Prayers".

O cheiro de madeira, a pose, a piada.


"A Long Walk" (2013)
"A Long Walk" alterna com momentos mais otimistas, porém a maioria das melodias contém uma sombria beleza, o piano e a guitarra são bem marcantes. Dramático e quente, o álbum conta com dez canções, sendo elas: "Slippery Roads", "A Long Walk", "News", "Rainy Fall", "Kite", "People Stare", "Obituary", "Where Heroes Die", "Over The Neon Lights", e "Playground".

Porque você não vem comigo esta noite?

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Garoto que Come Alpiste (To Agori Troei To Fagito Tou Pouliou)

"O Garoto que Come Alpiste" (2012) do diretor grego estreante Ektoras Lygizos é baseado livremente na obra-prima de Knut Hamsun, "Fome", que retrata a história de um jovem escritor sem teto que mesmo tendo dificuldades de arranjar emprego, andar em farrapos e passar muita fome consegue manter sua dignidade e altivez, é um livro que gera bastante desconforto, é caótico e por vezes confuso, o personagem alucina mas mantém a sua consciência, claustrofóbico é a palavra que o define.
O filme de Ektoras é também uma obra-prima, o diretor consegue já em sua estreia compor algo de imensa valia. Yorgos é um jovem artista, cantor lírico, de 22 anos, mora num apartamento no subúrbio de Atenas, desempregado e sem muitas oportunidades vive de forma miserável, passando fome ele encontra como fonte de alimento o alpiste do qual dá a seu passarinho e única companhia.
O interessante é que Yorgos não é um mendigo, mas uma pessoa como qualquer outra em busca de suas vontades, a cena em que ele fracassa por não saber cantar alemão direito, ou as tentativas de emprego comuns demonstram a sua dificuldade de se integrar. É impactante por ele ser um jovem que tem todos os quesitos para se estabelecer na sociedade, mas o que vemos é a decadência e a fome que cada vez mais aumenta. Não há diferença entre ele com as pessoas que cruzam seu caminho, é como se qualquer um pudesse estar passando por isso, a dignidade é a única que resta.
Mais uma vez o cinema grego acerta em cheio ao expor o drama que a crise da Grécia provocou nas pessoas deixando-as na miséria, há vários filmes com esse enfoque, como o perturbador "Miss Violence", de Alexandros Avranas.
O longa causa muito desconforto, a câmera é praticamente colada ao personagem, o que nos faz chegar bem perto de sua sufocante situação. Yiannis Papadopoulos se entregou a um personagem difícil com maestria, ele passa sentimentos intensos para quem assiste a sua trajetória. Em certo momento ele prova de seu próprio sêmen, a cena é considerada polêmica, mas não foge do contexto, é um ato desesperado, assim como ao entrar no apartamento de um senhor já à beira da morte e comer açúcar, o único alimento da casa. Qualquer coisa se torna comestível quando se está com o estômago vazio, no livro de Hamsun o protagonista vive a mastigar pedaços de madeira.
As coisas só pioram para Yorgos, despejado ele se refugia em uma construção da qual esconde seu passarinho a fim de ir procurar alimento, há também uma moça que ele se interessa, espia ela quase sempre e até chegam a se aproximar, não há diálogos, ela o leva até sua casa, oferece comida e começam a se beijar, mas a cena que se segue é assustadora, ao passar a mão nos cabelos de Yorgos sai um tufo, a garota questiona o que acontece, daí ele fala sobre o quanto tempo está sem comer e as sensações que sente. Entristece vê-lo saindo com uma marmita a ponto de chorar, então ele se senta em um local cheio de jovens e come, grita, come e grita...

"O Garoto que Come Alpiste" é filme para poucos, retrata a miséria e a busca pelo último resquício de dignidade, apesar de se passar na Grécia com toda a crise que a cerca, essa história pode acontecer em qualquer parte do mundo, existem muitas pessoas assim como Yorgos que estão sofrendo com a fome e a decadência, e elas podem estar bem perto de nós sem ao menos nos darmos conta.
É uma obra reflexiva, o sistema aprisiona os nossos anseios, quem fica alheio a "realidade" para tentar vivenciar o seu sonho tende a sofrer as duras consequências, pois a fome não é somente saciar as lamúrias do estômago, mas também as da alma.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Miss Violence

"Miss Violence" (2013) filme de estreia do diretor grego Alexandros Avranas é um drama familiar que choca o espectador, impossível ficar imune à história que vai se desvendando aos poucos.
No dia de seu aniversário de 11 anos, Angeliki pula da sacada e morre com um sorriso no rosto. Enquanto a polícia e o serviço social tentam descobrir a razão para o aparente suicídio, a família da menina insiste que foi tudo um acidente. Qual é o segredo que Angeliki guardou com ela? Por que a família insiste em tentar esquecê-la e seguir em frente?
O filme claramente deseja colocar o dedo na ferida e perturbar os espíritos mais fracos, mas nada se faz impossível, pois é algo que poderia acontecer em qualquer família em qualquer lugar do mundo. A morte de Angeliki (Chloe Bolota) acontece logo no início do filme, na festa enquanto todos estão conversando, dançando e tirando fotos, ela se afasta e com um sorriso no rosto simplesmente pula da janela. A causa é um mistério, nós juntamente com a assistência social ficamos atordoados sem saber o porquê a família reage de forma muito apática ao suicídio.
A maneira que a narrativa se desenrola é interessante, claro que desconfiamos que há alguma coisa errada ali, nossa atenção perante todos os membros dessa família ficam alertas, o patriarca (Themis Panou) é um homem rude que decide tudo na casa, a sua mulher (Reni Pittaki) carrega um semblante desolador, só come e assiste TV, a filha Myrto (Sissy Toumasi) se rebela algumas vezes e sofre duras consequências, e a mais velha Eleni (Eleni Roussinou), parece não suportar mais o ambiente, mas acaba sempre obedecendo o pai, ela tem dois filhos pequenos, cuja paternidade também é um outro mistério.
"Miss Violence" é um filme de pouquíssimos diálogos, as imagens dão o tom à história e com muita calma os segredos são revelados e, talvez, por serem mostrados com total parcimônia é que acabam por nos chocar mais ainda. O cinema grego contemporâneo é algo que está beirando o genial, a estranheza que permeia os longas sempre colocando dramas que impressionam tornam esse cinema único e indispensável.

Inicialmente ficamos bastante confusos em relação a parentescos dentro daquela casa, aos poucos vemos quem é o que de quem, mas ao fim as certezas se vão novamente. Não há rodeios em mostrar cenas fortes de modo natural, a agressão é inserida em todas as tomadas mesmo que sugerida. Quando descobrimos de fato o que o patriarca é e faz com as filhas o sentimento é de nojo, só que ao mesmo tempo tudo aquilo ali apresentado por mais bizarro que seja, acontece.
O cinema grego contemporâneo é uma denúncia à crise econômica da Grécia que começou anos atrás e ainda permanece destruindo diversas famílias, sem pretexto comercial os cineastas vêm mostrando nada mais que a realidade e por serem tão autênticos se destacam mundo afora. "Miss Violence", assim como "Dente Canino" e "Alpes" de Yorgos Lanthimos, e o recente "O Garoto que Come Alpiste" do também diretor estreante Ektoras Lygizos, são uma alegoria dessa sociedade atual.

Alexandros Avranas concebeu uma obra-prima pungente já em sua estreia. "Miss Violence" é aquele tipo de verdade que descobrimos aos poucos e que mesmo depois de revelada decidimos escondê-la de tão grotesca e cruel. 
Com ritmo lento e cenas estáticas, o diretor faz questão de mostrar devagarinho que a violência, seja ela física ou psicológica, pode ser uma constante nos lares em que qualquer tipo de medo domina.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Alpes (Alpeis)

"Alpes" (2011) do diretor Yorgos Lanthimos (Dente Canino - 2009) é um filme fora do comum, excêntrico mas hiper interessante, como sempre ele insere um tema forte e passa a mensagem de uma maneira estranha. Lanthimos entrou para minha lista de diretores geniais, ao lado de Lars Von Trier e Michael Haneke. Ele é muito criativo na elaboração e no desenvolvimento de seus filmes.
A história é sobre um grupo de pessoas que se encontram regularmente em um ginásio esportivo para discutirem e ensaiarem, denominados como Alpes, cada um escolhe o nome de uma montanha, o nome do grupo é porque cada montanha é insubstituível, mas muito semelhantes, de forma que a substituição de uma por outra se torna imperceptível, eles são substitutos de pessoas que faleceram, muitos os contratam para preencher o vazio que fica após perder um ente querido. A enfermeira vivida pela ótima Aggeliki Papoulia é o foco do filme, ela fica obcecada por uma jovem tenista que sofre um acidente, logo entra pro grupo com o codinome Monte Rosa, mas quando a menina morre não conta a eles, pois uma outra estava escalada para substituí-la. Ela vai por conta própria se oferecer à família, então recebe a missão de interpretar a jovem para os pais que sofrem pela perda. Com o tempo ela acaba se confundindo e as personalidades se misturam, talvez a solidão que sente seja preenchida pelo que faz, se apega naquelas pessoas, o que a fará ter grandes problemas no grupo, e consequentemente ser expulsa. Desesperada não sabe como agir diante a realidade que a cerca.
É complicado se habituar com a forma que o filme se desenrola, mas quando nossa ficha cai é impressionante a densidade que está contida ali. A identidade é a grande questão, os personagens são carentes e têm características bem peculiares. Não dá para negar as semelhanças com os personagens de "Dente Canino", até a forma de andar da personagem central nos remete a ele.
O início do filme é muito bonito, uma ginasta executa com destreza a coreografia, são movimentos precisos, porém ela deseja uma música mais pop e faz o pedido ao treinador, ele nega e diz que não está preparada para algo assim, é uma rigidez que se explica mais ao longo do filme. Eles treinam as personalidades dos falecidos, absorvem trejeitos, gostos, frases, costumes, é uma preparação para que a família realmente ache que a pessoa continua entre eles. Veja o absurdo disso tudo, quem em sã consciência substituiria um ente querido? Eles usam a desculpa que é para amenizar a dor, mas a verdade é que ninguém está afim de sofrer, desejam preencher egoisticamente o buraco que existe dentro deles. Não admitem o período do luto, é como se a pessoa que morreu tivesse culpa pelo sofrimento que eles irão passar, e então contratam os substitutos com o intuito de neutralizar a dor.

O cinema de Lanthimos é autoral, tem seu jeito próprio, consegue atingir um público diferenciado e seleto, nem todos são capazes de se habituar ao seu estilo, sempre há questões morais envolvidas, porém a estranheza da narrativa faz com que afastem os espectadores. Chega um ponto do filme que a interpretação domina, a realidade se dissipa, ninguém tem identidade própria. A ginasta parece encenar para seu treinador, e será que o pai da enfermeira é realmente seu pai? Essas questões vão dando um nó na nossa cabeça.
Muitos desejam ser outros, viver uma vida que não é sua, a sociedade traz essa insatisfação pessoal, absorvemos influências externas o tempo todo e desse modo fica difícil saber o que é inerente ao nosso ser. Se for analisar friamente interpretamos no dia a dia, somos pessoas diferentes dependendo de quem está ao nosso lado. Os comportamentos mudam, tudo muda, e isso sem ao menos percebermos. Essa confusão acontece no filme, a personagem Monte Rosa ao ser afastada por quebrar as regras se sente perdida e angustiada, não sabe o que fazer com sua vida, desesperada ainda tenta adentrar na casa dos pais da tenista, mas é expulsa. Ela se habituou a não ser ela mesma.
Interessante quando os filmes conseguem abranger uma amplidão de reflexões, dá para analisar diversos aspectos da nossa sociedade diante deste longa. É considerado bizarro, mas há diversas coisas no nosso cotidiano que são estranhas, só que por serem executadas pela maioria se tornam normais.

O grande ponto é a carência e o egoísmo. As pessoas têm pressa em preencher o vazio, e principalmente por medo do sofrimento substituem, no filme por pessoas, mas na realidade há vários métodos de substituição.
Yorgos Lanthimos faz parte do cinema grego contemporâneo, cada vez mais os títulos são ousados e de uma técnica impecável, como os recentes: "O Garoto que Come Alpiste" - 2012 de Ektoras Lygizos e "Miss Violence" - 2013 de Alexandros Avranas. É a prova de que a estranheza não está só em Lanthimos, mas sim no cinema grego, e isso é uma grande qualidade. Assistir a estes filmes é um exercício maravilhoso que nos dá a chance de absorver o máximo da história.