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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

303

"303" (2018) dirigido por Hans Weingartner (A Cabana - 2011, Edukators - 2004) é um road movie fascinante que nos leva junto de seus dois protagonistas a cantos da Europa a bordo do trailer que dá título ao filme, acompanhamos o nascer de um romance com naturalidade e sensibilidade, além de boas doses de conversas filosóficas. O filme tem um clima adorável, pois capta toda a beleza dos lugares por quais passam e o modo como os personagens se encontram e se descobrem é muito bonito, não é um típico romance, ele se constrói lentamente à medida que vão se revelando, existem barreiras e cada um está a caminho do seu destino. 
A caminho de Portugal para ter uma importante conversa com o namorado, Jule (Mala Emde) aceita dar carona para Jan (Anton Spieker), que vai visitar na Espanha o pai que jamais conheceu. O começo é difícil, mas quando finalmente se entendem eles engatam uma série de debates intensos sobre os mais diversos assuntos ao longo da estrada, adiando a despedida e se conhecendo cada vez melhor.
Jule e Jan estão perdidos em suas vidas, ela grávida e sem cabeça para os estudos decide ir para Portugal conversar com o namorado, ele perde a bolsa de estudos e descobre que o seu pai biológico que nunca conheceu mora na Espanha, num posto de gasolina Jan pede carona a Jule e assim iniciam o trajeto, esse começo é bastante tenso, a conversa não flui e após vários desentendimentos se unem novamente. A cada parada passeiam e dialogam sobre variados assuntos e mostram suas visões diferentes sobre capitalismo versus socialismo, relacionamentos, sexo, sociedade, entre tantos outros, e nisso acabam não só conhecendo um ao outro, mas como também a si mesmos. A história se torna adorável pela fluidez de suas discussões e suas diferentes formas de pensar se complementam inteligentemente, não há espaço para melodramas, a realidade se sobressai e as dificuldades que cada um enfrenta são de fato complexas. O filme fica ainda mais charmoso por causa dos lugares que percorrem, o longo e lento trajeto traz uma porção de paisagens belíssimas, seja em seus cantinhos ou em lugares mais turísticos. 

A melancolia está presente e até um tanto de niilismo, as discussões intermináveis carregam esse ar, os gestos e olhares no desenrolar também são marcantes e desenvolvem bem o sentimento que aflora em cada um, as diferenças se complementam e certamente para quem curte uma boa e inteligente conversa vai adorar, já para alguns pode soar prolixo e que a história se alonga demais. Os dois saem da vida acadêmica para vivenciar experiências que só podem ser adquiridas saindo da zona de conforto, discutindo suas ideias em movimento faz com que o aprendizado seja mais orgânico e importante, as coisas simples revelam o seu valor. A companhia, a amizade e o carinho se moldam tão lindamente que chega a emocionar. 

"303" carrega uma leveza maravilhosa, mas sem nunca deixar de nos fazer questionar e refletir, os assuntos são dos mais variados e jamais se perde em obviedades, os atores elevam essa sensação, perfeitos em cena e criam uma forte química, realmente um romance fora do comum aliado a um filme de estrada encantador. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Nightingale

"The Nightingale" (2018) dirigido por Jennifer Kent (O Babadook - 2014) é um drama pesado, violento e muito emocional, carregado em cenas chocantes e transformadoras o terror real chega com brutalidade, mas também com sensibilidade e poesia, uma produção de ambientação sufocante acompanhada por uma narrativa silenciosa e repleta de sentimentos. 
Na Tasmânia de 1825, Clare (Aisling Franciosi) uma condenada irlandesa testemunha o assassinato brutal de seu marido e seu bebê por seu mestre soldado (Sam Claflin) e seus amigos. Incapaz de encontrar justiça, leva um rastreador aborígene com ela através do deserto infernal em busca de vingança.
Não é um filme convencional de vingança, existem questões profundas e dolorosas envoltas e que se mostram no decorrer da jornada entre uma mulher despedaçada e pelo seu guia aborígene também despedaçado. Claire cometeu um crime na Inglaterra e foi levada como prisoneira para a Tasmânia, ela está nas mãos de um tenente que pagou suas dívidas e por esse motivo está em dívida com ele, ela sonha poder se desprender desse carrasco e refazer sua vida ao lado do marido e seu bebê, mas depois de desentendimentos seu marido é morto juntamente com o seu filho numa cena perturbadora e imensamente cruel. Devastada, encolerizada e solitária decide pegar seu cavalo e ir atrás dos assassinos, mas o lugar inóspito e estranho só é amplamente conhecido pelos seus nativos que foram massacrados pelos ingleses e os que restaram tiveram que se tornar escravos e se adaptar aos costumes, e é com a ajuda de Billy (Baykali Ganambarr) que a contragosto inicialmente decide guiá-la, claro que ela não diz o verdadeiro propósito de sua busca e os dois partem em meio a natureza selvagem e encontram diversos obstáculos, especialmente na alimentação e nos preconceitos que um tem pelo outro.
A raiva de Claire é expelida por todos os seus poros, sua dor é tanta que não consegue pensar no que realmente acontecerá se encontrar os militares, Billy por sua vez se limita apenas a mostrar os atalhos, porém à medida que essa claustrofóbica viagem avança suas dores se unem e se transformam, ele a protege e cuida para que se alimente, começa a caçar e a roubar, conta sobre sua família e seu povo assassinado e tantos outros submetidos a maus-tratos, Billy percebe que Claire na verdade busca vingança e se interessa a conhecer seu passado cujos algozes são os mesmos que lhe tiraram tudo e a partir daí compreende seu objetivo. Diferentes entre si, porém semelhantes na dor da perda e é diante desse entendimento um do outro que nasce a cumplicidade, lealdade e respeito. 

O fundo histórico da trama destaca quando a Inglaterra no início do século XIX começou a explorar e colonizar a Tasmânia deportando uma imensa população carcerária de ingleses, galeses e irlandeses a fim de que após a sentença cumprida trabalhassem pesado e, obviamente, retratando todo o horror do genocídio cometido contra os aborígenes. Claire era uma prisioneira e foi "ajudada" por um militar, só que permaneceu como escrava trabalhando, cantando para os soldados no bar e constantemente sendo estuprada. O ponto histórico aterrador dá ao filme uma outra forma ao gênero vingança, ganha outros tons e camadas e ao final se transforma, Claire resiste o quanto pode e sua raiva é alimentada por um longo período da jornada, mas acontecem tantos infortúnios que a deixam à beira da loucura e minguam toda a sua força, e então Billy encontra em Claire uma forma de libertar também a sua necessidade de vingança. 

"The Nightingale" é um filme forte, sua abordagem é brutal, mas também possui seus momentos belos e poéticos, as interpretações crescentes e viscerais ajudam neste contexto junto de sua ambientação opressiva e violenta, além da paisagem selvagem que preenche a tela.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Yomeddine - Em Busca de um Lar (Yomeddine)

"Yomeddine" (2018) dirigido pelo egípcio A.B. Shawky é um filme sutil, emocionante e humano, retrata com espirituosidade a vida de um homem simples que vive à margem por conta de sua aparência, pois durante a infância sofreu de lepra/hanseníase, vivendo em uma comunidade excluída do resto da sociedade passa seus dias coletando lixo e conversando com um menino órfão que sofre bullying dos demais. O ator Rady Gamal realmente sofreu com a doença e lida com as consequências, ele interpreta a si mesmo e por isso a naturalidade faz parte da narrativa, a vida real é exposta com sensibilidade e muita esperança apesar de toda as enormes dificuldades, preconceitos e julgamentos, é uma jornada de descoberta e de afirmação.
Beshay (Rady Gamal) é um coletor de lixo que decide sair do confinamento de uma colônia de leprosos pela primeira vez e embarca em uma jornada ao Egito para procurar sua família. Ele viaja com seu burro e seu aprendiz órfão ao longo do Nilo e, pela primeira vez, fica cara a cara com a maldição de ser um estranho.
Beshay foi deixado pelo pai ainda criança numa instituição que tratava a doença e os separavam do restante da sociedade, muitos desses pais, assim como o de Beshay nunca mais apareceram e essa comunidade se transformou numa família de isolados para sempre marcados pela doença, apesar de não transmitir mais a infecção as limitações e marcas  de Beshay são profundas, nessa colônia também existe um manicômio do qual sua mulher está internada e um orfanato que se encontra o seu fiel amigo Obama (Ahmed Abdelhafiz), rejeitado pelos outros meninos, parte dessa rejeição de Obama é por ser Núbio, o filme esbarra sutilmente nessa problemática de preconceito no país.
Tudo realmente começa quando Beshay resolve sair em busca de suas raízes apenas com algumas trouxas e seu burrinho, o garoto vai atrás mesmo contra a vontade de Beshay, nesse momento acompanhamos a estafante jornada de duas pessoas marginalizadas e absolutamente invisíveis à sociedade, eles buscam um pouco sobre si mesmos e nessa caminhada vão se deparando com muito preconceito, fome, miséria e descaso, só encontram acolhimento e empatia daqueles que também estão à margem e que partilham do sofrimento de não serem vistos como seres humanos. O sentimento amargo de que são considerados lixos ultrapassa a tela e promove um olhar empático para com essas pessoas e nos faz refletir no quanto se julga apenas pela aparência, numa sociedade hipócrita, individualista e arrivista são incômodos e tratados com nojo. O filme possui um tom alegre na maioria do tempo, afinal retratar com peso seria arriscado a cair num melodrama ou de incutir sentimentos de comiseração. 

Uma das partes mais chocantes é quando ele está no trem e por não ter o bilhete é chacoalhado como se fosse um saco de lixo e indignado grita: "eu sou um ser humano", essa viagem é permeada de obstáculos cruéis, se submetem a muitas coisas e perdem muito pelo caminho, mas claro que também ganham, o amor um pelo outro, o carinho e a proteção. Beshay chega ao lugar que quis e percebe que a sua família é estar junto de Obama, pois esse nunca o abandonou. Há outra questão importante na história que é sobre a crença religiosa, o título mesmo em árabe se refere ao dia do julgamento, Beshay faz parte de uma minoria da população egípcia que pertence à Igreja Ortodoxa Copta da Alexandria, uma ramificação do Cristianismo, o personagem é resistente as adversidades por conta disso e coloca toda a sua esperança no dia do julgamento.

"Yomeddine" é uma bonita jornada de pessoas marginalizadas que buscam poder ser, ao ir à procura de sua família e obter uma sensação de pertencimento Beshay e Obama encontram um no outro todo o amor que necessitavam, a aceitação e o entendimento do que realmente importa. 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Heavy Trip (Hevi Reissu)

"Heavy Trip" (2018) dirigido por Jukka Vidgren e Juuso Laatio é um filme que traz o que mais representa a Finlândia, o metal, e o que se destaca são as variáveis de humor que vai desde o absurdo e seco ao bobo e surreal, além da trilha sonora que é um deleite e traz canções originais concebidas pelo diretor Juuso e o integrante da banda Mors Subita, conta também com outras bandas finlandesas, como Mokoma e Diablo. O filme traz a aura musical do país e coloca de forma divertida todas as características e estereótipos envolvendo o gênero.
Um jovem está tentando superar seus medos liderando a banda de heavy metal mais desconhecida para o festival de metal mais famoso da Noruega. A jornada inclui heavy metal, roubo de túmulos, um paraíso viking e um conflito armado entre a Finlândia e a Noruega.
Numa pacata cidadezinha rural no norte da Finlândia acompanhamos o jovem desajustado Turo (Johannes Holopainen) que trabalha em um hospital psiquiátrico como faxineiro, ele e seus três amigos Pasi (Max Ovaska), Lotvonen (Samuli Jaskio) e Jyrki (Antti Heikkinen) cansados de tocar covers decidem compôr algo original, mas não é algo simples e fácil, já que tudo que começam a fazer se parece com outras coisas, ainda mais que Pasi é uma enciclopédia do metal e reconhece riffs sem esforço, aliás esse personagem encarna perfeitamente o estereótipo envolvendo o metal, desde o codinome, o corpse paint e a vibe melancólica e trevosa, já o baterista Jyrki é animado e sempre encara as situações como oportunidade, ele dá a maioria das ideias, mas é o baixista Lotvonen que tem o insight da música quando no matadouro de renas de seu pai escuta o estraçalhar do animal passando pela máquina. A obra-prima então é composta, "Flooding Secrations", aí gravam uma demo e numa chance que aparece do nada e muito loucamente a dão para Frank (Rune Temte), o organizador de um festival na Noruega, o sonho de tocar lá parece que irá se realizar e a fofoca se espalha pela cidadezinha e todos começam a bajulá-los, os meninos ficam famosos entre os habitantes e até desbancam o cantor pop mais famoso do local, Jouni Tulkku (Ville Tiihonen), eles são convidados a abrir o show para ele, só que Turo é muito inseguro e vomita, o que acaba sendo depois sua marca registrada. A banda é nomeada "Impaled Rektum" e o estilo é denominado como "metal sinfônico pós-apocalíptico de trituração de renas e guerra pagã extrema abusadora de Cristo", uma clara sátira aos tantos subgêneros dentro do metal, e é isso o tempo todo, uma história divertida e movimentada sobre uma banda de uma cidade caipira que sonha tocar num festival na Noruega e para isso enfrentam as mais absurdas situações.

Chega um ponto em que eles precisam pegar a estrada e tentar de todas as maneiras chegar à Noruega mesmo não sabendo se poderão tocar, depois de muitas loucuras e inesperados acontecimentos, como o maluco do hospital psiquiátrico que Turo trabalha no lugar de Jyrki, eles roubam a van de Jouni e partem, no caminho passam por episódios absurdos incluindo explosões e terminam a viagem num barco viking. Claro que o grand finale é o show e a surpreendente apresentação. É uma viagem em todos os sentidos e a história garante ação, diversão e uma enorme dose de metal, para apreciação do todo com certeza é necessário ter o gosto pela cultura do heavy metal.

"Heavy Trip" tem um enredo divertido e todos os personagens possuem características simpáticas e até ingênuas, e o lado maldito que acompanha o metal se torna engraçado, uma surpresa agradável vinda da Finlândia, país famoso pela exportação de inúmeras bandas e também pelo grande apoio e amor à música pesada. Que venham mais filmes destinados ao metal! 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Garotos de Programa (My Own Private Idaho)

"Garotos de Programa" (1991) dirigido por Gus Van Sant (Inquietos - 2011, O Mar de Árvores - 2015) retrata de maneira dura, porém sensível a marginalização da juventude do final dos anos 80, o abandono e a carência de garotos que se prostituem, usam drogas e contestam às normas da sociedade. Terceiro longa de Gus Van Sant, que mais tarde viria a se tornar um colecionador de sucessos, já aponta neste suas fortes características com temas polêmicos abrangendo o universo da juventude atrelados a uma inteligente carga emotiva, a energia desse longa é especialmente única, dado o que se sucedeu ao ator River Phoenix anos depois, é uma experiência amarga e afetuosa acompanhar a jornada de seu personagem, ao final só desejamos abraçá-lo e acolhê-lo.
Mike (River Phoenix) e Scott (Keanu Reeves) são dois jovens garotos de programa que moram nas ruas de Portland, Oregon. Os dois fazem parte de um grupo de libidinosos excluídos sociais, que se juntam num prédio condenado para fazer tumulto e se venderem a quem esteja disposto a pagar por eles. Apesar de ambos serem insatisfeitos e perturbados, os dois garotos têm a personalidade bem diferente: Scott é rebelde e se prostitui para humilhar sua família, já Mike é um sonhador, um rapaz gentil que está apaixonado pelo seu melhor amigo, e quer encontrar a mãe. Juntos os dois se metem em diversas encrencas em viagens que vão do Idaho até a Itália para encontrar a mãe de Mike.
É impressionante que o que poderia soar algo vazio, graças a sincera composição de personagem de River Phoenix o roteiro ganha tons profundos e ternos, acompanhamos especialmente dois desses garotos que vivem à margem da sociedade, habitam prédios abandonados, colecionam histórias bizarras de programas sexuais, famílias disfuncionais e perdidos se apegam uns aos outros, Mike e Scott são dois amigos completamente diferentes um do outro, Scott é filho de um milionário e para contestá-lo se une aos mais pobres, se prostitui, arranja encrencas e apenas espera sua herança, Mike foi abandonado pela mãe, vaga de uma cidade à outra e se vira como pode, além de possuir narcolepsia, um distúrbio que o faz de repente cair no sono, seu desejo é reencontrar a mãe e para isso não mede esforços. Por ele ter esses surtos de sono somos inseridos a seus sonhos/memórias de forma lúdica, sequências que ajudam a criar empatia com o personagem. Com o passar percebemos sua paixão por Scott e numa das cenas mais sensíveis ele diz gaguejando e timidamente que o ama: "Eu consigo amar sem as pessoas me pagarem". Essa cena foi reescrita por River Phoenix com o apoio do diretor e é com certeza a passagem mais bonita e dotada de emoção. Há tanta fragilidade em seu personagem.

A história retrata jovens abandonados, a maioria de famílias disfuncionais, que desamparados se tornam rebeldes e não possuem opções na vida além da prostituição, se submetem à fetiches bizarros e situações de violência, não há saída a não ser sair por aí e vandalizar, gritar e procurar um pouco de afeto, Scott poderia ter amor se quisesse, mas seu único desejo é humilhar o pai milionário, por pura diversão se alia a esses garotos, enquanto Mike procura pela mãe, cujo passado ele mesmo molda, quando encontra o irmão podemos ter a certeza disso, seu anseio em encontrá-la é tão grande que ele vai de cidade em cidade com as pistas que acha aleatoriamente, inclusive chegando ir à Itália, local do qual Scott se apaixona e por consequência o faz retornar ao lar. O semblante de Mike se torna cada vez mais triste, se decepciona por Scott o abandonar e mais uma vez sozinho retorna às ruas. É cruel o que Scott faz, ele volta ao seu habitat e despreza os amigos de outrora, a rejeição é palpável em Mike, machuca vê-lo jogado sem perspectiva, sem afeto, sem absolutamente nada. A cena final é dilacerante!

"Garotos de Programa" é um filme cru e que tem na interpretação de River Phoenix seu maior triunfo, sua delicadeza tira muito do peso da história, mas a melancolia está presente mesmo nas partes mais leves, a sensação do se sentir abandonado é imensa nesse filme, uma obra memorável e, que infelizmente, foi a última de River Phoenix.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pela Janela

"Pela Janela" (2017) dirigido por Caroline Leone é um road movie simples, bonito e delicado, o cotidiano comum e tedioso é retratado com zelo e a naturalidade do desenvolvimento e a mudança nas emoções da protagonista preenchem a tela e nos arrebata sem artifícios e grandes acontecimentos. É a vida acontecendo...
Rosália (Magali Biff) é uma dedicada operária de 65 anos que dedicou a vida ao trabalho em uma fábrica de reatores da periferia de São Paulo. Certo dia acaba demitida e é consolada pelo irmão José (Cacá Amaral), com quem vive. Ele resolve levá-la em uma viagem de carro até Buenos Aires com o objetivo de distraí-la e no país vizinho Rosália vê pela primeira vez um mundo desconhecido e distante de sua vida cotidiana.
No início acompanhamos a rotina de Rosália, desde o despertar, o preparo do café, a ida ao trabalho, seu empenho e responsabilidade na fábrica e novamente retornando à casa e seus afazeres domésticos, ela vive com o irmão José, que está indo para Buenos Aires entregar um carro para a filha de seu patrão, nesse meio tempo Rosália é demitida após a empresa se fundir a novos sócios e com isso novas regras, Rosália é despedida sem rodeios, mas ela ainda tenta no outro dia ser útil ao voltar lá, e é aí que ela sente o baque, sozinha e sem saber o que fazer se aquieta e chora em seu quarto, toda a sua vida era baseada na rotina do trabalho, ela foi moldada a partir disso. Então, o irmão muito preocupado acaba levando-a junto em sua viagem, ele também é devotado ao trabalho e se presta a mando do patrão a uma viagem exaustiva para levar um carro até a Argentina.
Rosália não fala nada sobre o assunto da demissão e José tenta distraí-la, mas as mudanças emocionais de sua irmã são sutis e expressadas em pequeníssimas doses, algo começa a mudar em seu interior quando em um hotel visualiza um simples quadro das cataratas do Iguaçu, e principalmente quando José decide levá-la para conhecer as imensas quedas d'água. Nesse momento o filme atinge uma sensibilidade grandiosa, a cena em que Rosália vai se entregando à força da natureza e deixando-se sentir as emoções que há tempos não sentia ou talvez nunca havia sentido carrega tanta beleza e significado que impressiona o espectador.

Rosália vai aos poucos adentrando e a câmera nos leva junto, sentimos o mesmo que a protagonista, somos tocados pela potência das águas, o som ensurdecedor e as nuvens de vapor que se formam, um espetáculo visual que marca o início da mudança de Rosália, depois disso ela está mais aberta e aproveita a viagem, José lhe diz sobre o como a Argentina e o Brasil apesar de estarem bem pertinhos são diferentes, a língua, por exemplo, e ela acha engraçado e sorri. Vai se deixando levar pelas novidades, pelas pessoas por quais passa e por consequência se renovando. A relação de Rosália com o ambiente é interessante e a incomunicabilidade com os locais rende bons momentos, como o diálogo entre ela e uma moradora de um prédio onde está hospedada, elas não se entendem na totalidade, mas existe uma troca importante e que ajuda na abertura de Rosália para a vida.

"Pela Janela" é um retrato sensível de uma mulher já madura que toma consciência de si própria após muitos anos atrelada e moldada apenas a seu trabalho, é uma história introspectiva e sensível que tem em sua protagonista, Magali Biff, a força maior, seu olhar diante os acontecimentos nos faz ter afeto e sorrir a cada pequena descoberta e olhar seu para com o novo, são momentos sutis, mas imensamente preciosos, como quando ensina bordado para uma moça e seu filho e, especialmente, quando canta a canção "Anahi" junto de seu irmão. Envolve por seus personagens reais e situações cotidianas, é simples e direto, mas ainda assim possui uma intensidade em toda a lenta transformação de Rosália.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Direções (Posoki)

 "A Bulgária é o país dos otimistas. Todos os realistas e pessimistas já foram embora"

"Direções" (2017) dirigido por Stephan Komandarev (O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina - 2008) é um filme excelente que retrata com peso as mazelas que assolam a Bulgária, corrupção, desemprego, injustiças, violência, uma crítica sócio-política pungente e humana, somos inseridos em um cenário desesperançoso e doloroso que inevitavelmente conversa com problemas que fazem parte de tantos outros lugares do mundo.
Durante uma reunião com o gerente de seu banco, um taxista descobre que a taxa que deveria pagar para obter um empréstimo dobrou. Ele quer preservar sua honestidade, mas não vê saída para sua situação. Desesperado, atira no gerente e depois em si próprio, desencadeando um grande debate nacional sobre como o desespero tomou conta da sociedade civil. Enquanto isso, cinco outros motoristas de táxi e seus respectivos passageiros se movem pela noite na esperança de encontrar um caminho mais claro. Um road movie sobre a despótica Bulgária contemporânea. 
A crise econômica agravante gera o declínio de valores, o prólogo nos apresenta uma inquietante história que repercutirá e fará com que as pessoas reflitam os seus modos de vida, Mihail (Vassil Vassilev) trabalha como taxista para complementar a renda e conseguir pagar as suas dívidas, mas cada vez mais ele se vê esmagado pelo sistema, confrontado por um agente que pretende penhorar seus bens decide recorrer a um empréstimo, porém o banqueiro exige o dobro da quantia inicialmente pedida como suborno e em um momento de desespero Mihail mata o banqueiro e logo após atira em sua cabeça, essa ação desencadeia debates nas rádios e enquanto isso vemos outros cinco taxistas, que se desdobram para complementar a renda ou mesmo por não ter emprego em suas áreas, passamos por diversas pessoas, a maioria desiludida e insatisfeita, alguns clientes mal-educados, já outros precisando de afeto e ajuda, dos taxistas o que mais se destaca é o professor de educação física que salva um homem do suicídio por achar que sua vida é uma vergonha, outro ainda, o corrupto, que ao ver um passageiro rico adultera o taxímetro e quando lhe diz o valor, o homem enraivecido o ataca e acaba transformando a situação num risível desastre. Há ainda o velhinho que acabara de perder seu filho e sofre por ninguém se importar, uma taxista que encontra um ex-colega que destruiu sua vida e deseja vingança e um padre que ao levar um homem até o hospital para receber um novo coração tenta lhe incutir esperança. 

O filme contém cenas e diálogos memoráveis, retrata com precisão a situação do país e o declínio dos valores, as pessoas sofrem e se viram como podem, as dívidas, a vergonha e a revolta ocasionadas pela crise dá espaço também para a intolerância e infelizmente atinge parte da grande população, a sensação de desilusão é o que impera e poucas são às vezes que a sensibilidade aparece, em alguns personagens ela está mais evidente, já em outros as decepções trataram de acobertá-la. 

"Direções" retrata uma Bulgária falida, mas muitos dos problemas retratados assolam inúmeros países do mundo, a partir do ato de Mihail a população começou a repensar a desigualdade e o como as leis que por mais que mudem nunca os beneficia, só ocasiona dor, raiva e momentos de desespero. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Caminho a La Paz (Camino a La Paz)

"Caminho a La Paz" (2015) dirigido por Francisco Varone é um road movie simpático que retrata uma amizade inesperada, duas pessoas completamente diferentes, mas com o convívio do atordoante e longo trajeto até La Paz firmam um elo engrandecedor e belíssimo. 
Sebastián (Rodrigo De la Serna), 35 anos, é um homem que tem como grandes paixões a banda Vox Dei e seu antigo Peugeot 505. Recém-casado com Jazmín (Elisa Carricajo) e precisando de dinheiro, ele começa a trabalhar como motorista particular. Entre os passageiros está Jalil (Ernesto Suárez), um idoso muçulmano que o chama com frequência e que, certa manhã, lhe faz uma curiosa proposta: em troca de uma quantia muito alta de dinheiro, Sebastián precisa levar o passageiro de Buenos Aires, na Argentina, a La Paz, na Bolívia. Relutante e com dúvidas, ele aceita a viagem, que teve cada detalhe planejado pelo velho Jalil.
Sebas tenta ajeitar a vida com sua esposa, que com a crise também acaba sem emprego, por um acaso encontra a alternativa de trabalhar como motorista, ele é um homem um pouco acomodado e com uma visão de vida estreita, tem receio do futuro e é preso ao passado pela memória do pai, seu Peugeot 505 lhe conecta com a lembrança e o têm em grande estima, então dia após dia Sebas leva os passageiros ao destino ouvindo sua banda favorita, Vox Dei, até que Jalil, um senhor muito doente pede para que ele faça o favor de levá-lo até La Paz para que encontre seu irmão. Precisando de dinheiro aceita, mas jamais imaginaria que ele passaria por uma espécie de peregrinação e modificaria seu olhar para com a vida. Jalil articulou muito bem a viagem, todas as paradas e etc, sua intenção é encontrar seu irmão em La Paz e depois prosseguir em um navio até Mecca, um trajeto complicado e longo, mas visando o dinheiro Sebas aceita, ele sofrerá provações durante o caminho, no início soa até engraçado, mas a situação de Jalil é grave e requer cuidados, a todo momento precisa urinar e depende de uma máquina para fazer hemodiálise toda noite, vai surgindo em Sebas um sentimento de responsabilidade e de empatia, quanto mais o conhece e o percebe mais cresce a admiração e o desejo de chegar até o destino. 
Muitas coisas acontecem, como o atropelamento de um cachorro que Jalil obriga Sebas a levar em seu carro e que é o começo dessa sutil mudança do motorista, o seu semblante no decorrer vai se abrindo e seu desenvolvimento é brilhante. Uma atuação encantadora de Rodrigo De la Serna. 

Somos conquistados pela naturalidade, a simplicidade e o modo intimista com que tudo se desenrola, é abordado o fator do desemprego que assola não só a Argentina, mas os países vizinhos, além de retratar a paisagem sem qualquer artifício, todo o trajeto é penoso e contém perigos, a amizade vai sendo aos poucos firmada através de diálogos reflexivos e espontâneos, a questão da cultura e a religião também fazem parte da trama, Jalil é muçulmano e em um momento específico retrata um ritual auto-hipnótico que leva a Sebas admirar apesar de não ter conhecimento e intimidade com a religião, esse é um ponto importante da trama em que cresce ainda mais o respeito entre os personagens, e há também outra parte significativa em que Sebas renasce a partir de um acontecimento terrível que tem a ver com seu carro, é o ponto crucial de seu recomeço e de certa forma aliviante.  

"Caminho a La Paz" ainda conta com uma ótima trilha sonora que acompanha toda a peregrinação dos personagens, há momentos cômicos, mas sem deixar de ser terno, a transformação de Sebas atinge o espectador de forma gentil e espontânea. É um filme que provoca sentimentos agradáveis. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

10 Filmes de Estrada (10 Road Movies)

Segue uma lista de filmes de estrada: liberdade, buscas, autoconhecimento, amizade e amores, seja de carro, caminhão, ônibus, bicicleta ou a pé, esse gênero é sempre inspirador e satisfatório. Selecionei dez obras apaixonantes e inesquecíveis.

10- "Zurique" (Zurich - 2015) Alemanha/Bélgica/Holanda
Um roadmovie musical sobre Nina, que descobre após a morte de seu grande amor Boris, um caminhoneiro carismático, que mantinha uma vida dupla. Tentando lidar com seus sentimentos, ela comete um ato quase imperdoável e foge, adentrando a cena caminhoneira - incapaz de se expressar, a não ser cantando.
"Zurique" é uma história densa e que ao final deixa uma sensação desoladora, mas é bonito, requintado e maravilhosamente bem atuado por Wende Snijders, que além de ser uma excelente cantora se mostra uma atriz surpreendente. Saiba+

09- "Neste Mundo" (In This World - 2002) UK
Jamal (Jamal Udin Torabi) e Enayat (Enayatullah) são dois primos que vivem na cidade de Peshawar, na fronteira do Paquistão, e que são enviados à Inglaterra para ter uma vida melhor. O roteiro da viagem é feito por traficantes de ópio, cigarros e peças de carro roubadas, sendo longo e perigoso. Eles entram no Irã escondidos em caminhões e vão a pé pelas montanhas do Curdistão até chegarem à Turquia. Em Istambul a dupla consegue emprego, com o objetivo de conseguir dinheiro para pagar a próxima etapa da viagem: uma viagem de navio até a Itália.

08- "O Rei dos Belgas" (King of the Belgians - 2016) Bélgica/Bulgária/Holanda

Nicolas III está em uma visita de estado a Istambul quando Valônia, a metade do sul da Bélgica declara a sua independência. O rei deve retornar para salvar o seu reino. Mas uma poderosa tempestade solar bloqueia todo o tráfego de telecomunicações e do ar. O rei e sua comitiva estão agora presos em Istambul. Com a ajuda de um cineasta britânico eles conseguem escapar da Turquia, incógnitos entre um grupo de cantores búlgaros. Assim começa uma odisseia através dos Bálcãs em que o rei descobre vida real e ele próprio.
"O Rei dos Belgas" é uma sátira poética em forma de mockumentary sobre o despir da nobreza, um conto divertido, reflexivo e imensamente lindo. Saiba+

07- "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005) Brasil
Em 1942, no meio do sertão nordestino, dois homens vindos de mundos diferentes se encontram. Um deles é Johann (Peter Ketnath), alemão fugido da 2ª Guerra Mundial, que dirige um caminhão e vende aspirinas pelo interior do país. O outro é Ranulpho (João Miguel), um homem simples que sempre viveu no sertão e que, após ganhar uma carona de Johann, passa a trabalhar para ele como ajudante. Viajando de povoado em povoado, a dupla exibe filmes promocionais sobre o remédio "milagroso" para pessoas que jamais tiveram a oportunidade de ir ao cinema. Aos poucos surge entre eles uma forte amizade.

06- "A Deusa de 1967" (The Goddess of 1967) Austrália
Tóquio. J.M. (Rikiya Kurokawa) leva uma vida de consumo, tendo como grande sonho a compra de um Citroën DS 1967. O carro é popularmente conhecido como "deusa". Ele fecha a compra através da internet, com um australiano, e ao chegar para pegá-lo apenas encontra B.G. (Rose Byrne), uma jovem cega. Ela lhe conta que o dono do carro atirou na esposa e, em seguida, se matou. Como J.M. ainda está interessado em fechar negócio, B.G. o convida para dirigir o carro até seu verdadeiro dono, que está a cinco dias do local. 
Um road movie excêntrico que mistura vários elementos e que tem como fio condutor o carro-fetiche da Citröen, o modelo Déesse. Alternando entre cenas delicadas, poéticas, simbólicas e outras difíceis e tristes de encarar somos completamente absorvidos por uma oscilante e cativante trama. Saiba+

05- "A Coleção Invisível" (2012) Brasil
Para resolver a crise financeira da loja de antiguidades de sua família, Beto se aventura ao interior da Bahia em busca de uma coleção de gravuras raras. Lá ele encontra Samir, o colecionador, e a sua família arruinada pela decadência das plantações de cacau. Este encontro o fará mergulhar na sua própria história familiar e mudar sua visão do mundo.
"A Coleção invisível" é daqueles filmes memoráveis, pois tudo nele é agradável, mesmo com toda a dor e devastação. Beto conseguiu extrair beleza e pureza em meio a destruição e ao final saiu renovado e quem sabe pronto para continuar. Saiba+

04- "Viver é Fácil com os Olhos Fechados" (Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados - 2013) Espanha
Em plena década de 60, Antonio (Javier Cámara), um modesto professor de inglês, é fã incondicional dos Beatles e sonha em conhecer seu ídolo, John Lennon. Para encontrar o seu "herói", o professor irá viajar até Almeria e no meio do caminho irá esbarrar com dois jovens: Belén (Natalia de Molina), uma moça de vinte anos e Juanjo (Francesc Colomer), um garoto de dezesseis que está fugindo de seu pai autoritário. O encontro destas três pessoas fará a vida de cada uma tomar rumos imprevisíveis.
"Viver é Fácil Com os Olhos Fechados" tem uma história agradável e você nem sente o tempo passar. É uma linda surpresa coroada pela atuação singela de Javier Cámara. É uma viagem sonhadora que faz florescer a alegria. Saiba+

03- "Limonata" (2015) Turquia
Sakip (Ertan Saban) atende o último pedido de seu pai moribundo ao mesmo tempo que recebe uma revelação, ele tem um irmão e precisa encontrá-lo e trazê-lo para que seu pai morra em paz. Assim começa uma história divertida na estrada onde nós testemunhamos dois irmãos com diferentes origens culturais, que nem sequer se conhecem, têm semelhanças, diferenças e até mesmo suas lutas.
"Limonata" encanta pela naturalidade da narrativa e pelos personagens diferentes entre si, além das situações inesperadas que acontecem e o modo desajeitado que cada um lida, tem ótimos diálogos e reflexões sobre a diversidade cultural de países tão próximos, família e guerra, temas complexos, mas expostos com gentileza e humanidade. Saiba+

02- "Indo para Casa" (Luo Ye Gui Gen - 2007) China/Hong Kong
A história segue Zhao (Benshan Zhao), um operário que decide levar o corpo do amigo que morre repentinamente numa mesa de bar de volta à sua terra natal, para que assim ele seja enterrado segundo as tradições do local. Sem dinheiro para transporta-lo da forma devida, tenta conduzi-lo até a cidadezinha, ele percorre quilômetros e mais quilômetros com seu amigo nas costas, no caminho passa por varias cidades do interior da China e acompanhamos diversas situações engraçadas e cheias de detalhes.
O filme reaviva em nós o sentimento de compaixão e solidariedade. Assim como Zhao também aprendemos, e essa lição é daquelas que jamais esqueceremos. Assistir "Indo Para Casa" é um bem que fazemos a nós mesmos! Saiba+

01- "As Viagens do Vento" (Los Viajes del Viento - 2009) Colômbia
Após a morte da mulher, o ex-menestrel Ignacio Carrillo decide viajar para o norte da Colômbia uma última vez para devolver o acordeão que lhe foi dado pelo seu antigo mentor, e nunca mais tocá-lo. No caminho conhece Fermín, menino que sonha em rodar o país tocando acordeão como fez Ignacio um dia. O velho músico aceita sua companhia, mas tenta convencê-lo a escolher outra coisa, pois a vida de menestrel é marcada pela solidão. Juntos, os dois cruzam a região norte da Colômbia, atravessando o deserto e encontrando a diversidade da cultura caribenha.
É lindo ver a cultura, os ritos e tradições por cada lugar que passam, as músicas, as festas, tudo muito cativante. Um filme com identidade. É minucioso, detalhista, e é muito gratificante poder contemplar cinema de qualidade. A magnitude das imagens, a procura de si mesmo sem saber o que vai encontrar. Saiba+

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)

"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.

É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões. 

O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Limonata

"Limonata" (2015) dirigido por Ali Atay é um filme turco que revela angústia e muitas dores, mas segue com espontaneidade e traz em seus personagens belas características, como coragem e persistência, o humor está presente em boa parte da trama e funciona tanto para evidenciar os defeitos como as qualidades dos personagens. Um emaranhado de situações se desencadeiam e a partir delas novos e antigos sentimentos vêm à tona, assim como instantes absurdos repletos de sarcasmo. Um achado no catálogo da Netflix!
Sakip (Ertan Saban) atende o último pedido de seu pai moribundo ao mesmo tempo que recebe uma revelação, ele tem um irmão e precisa encontrá-lo e trazê-lo para que seu pai morra em paz. Assim começa uma história divertida na estrada onde nós testemunhamos dois irmãos com diferentes origens culturais, que nem sequer se conhecem, têm semelhanças, diferenças e até mesmo suas lutas.
Sakip sai da Macedônia e vai para Istambul, segue as poucas pistas que lhe deram e finalmente encontra Selim (Serkan Keskin), que inicialmente reluta em ir com o irmão, diz não ter pai e que sua vida é toda ali. Mas Sakip quer muito realizar o desejo do pai e encontra um jeito maluco para que Selim entre no carro e então dê prosseguimento a viagem. O encontro deles é marcado por diálogos engraçados, pois são personalidades totalmente díspares, enquanto Selim é um homem solitário que enche a cara de bebida e ainda busca conseguir se dar bem no futebol, Sakip é voltado para a família e as tradições de sua cultura. A bordo de um velho carro os dois seguem rumo a Macedônia, aos poucos Selim aceita ir, já que não tem como voltar para Istambul a pé quando acorda dentro do carro no meio do nada, eles passam por lugares remotos e as situações que se desencadeiam liberam tanto de um como do outro defeitos e qualidades, mas que ao final se revelam num sentimento de humanidade para com o outro independente de qualquer coisa. Interessante observar a reação que eles têm ao passar por outros países, como a Bulgária onde precisam consertar o pneu e acabam festejando um casamento local. O resultado é hilário.
O filme possui elementos cativantes, como a trilha sonora que remete por muitas vezes ao western, a bela fotografia iluminada e o humor diferenciado do roteiro que alterna entre doce e amargo, a trama é concentrada nestes dois personagens e em todo o trajeto difícil que fazem, nas dores passadas que são postas pra fora, no sofrimento, na angústia, mas mesmo assim traz uma dose boa de humanidade, como a limonada mescla perfeitamente o azedo e o doce.

"Limonata" encanta pela naturalidade da narrativa e pelos personagens diferentes entre si, além das situações inesperadas que acontecem e o modo desajeitado que cada um lida, tem ótimos diálogos e reflexões sobre a diversidade cultural de países tão próximos, família e guerra, temas complexos, mas expostos com gentileza e humanidade.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A Incrível Jornada de Jacqueline (La Vache)

"A Incrível Jornada de Jacqueline" (2016) dirigido por Mohamed Hamidi (De Qualquer Lugar - 2013) é um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.
Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
De natureza simples e pura Fatah é um homem casado, pai de duas meninas, mas que tem esse sonho e com a sua persistência consegue enfim ser atendido pela organização da feira, mas sem a verba para viajar até lá precisa se virar e para isso os moradores da aldeia dão um jeito, Fatah faz a travessia de balsa e de lá o jeito é pegar a estrada, no cansativo trajeto se depara com pessoas que se encantam por sua simpatia e seu jeito desastrado, como a senhora que lhe dá abrigo e comida e cujo nome é o mesmo de sua vaca e Philippe (Lambert Wilson), um rico em decadência que apenas carrega o título de conde, ele se afeiçoa a Fatah e no decorrer o salva de inúmeros obstáculos, também tem a figura de seu cunhado, que saiu da Argélia há tempos e formou uma família, da qual esconde por receio, no início bate a porta na cara de Fatah, depois se mostra interesseiro, mas ao final se rende. É assim, Fatah modifica as pessoas. Certamente o diretor Mohamed Hamidi se inspirou no filme "A Vaca e o Prisioneiro" (1959), que inclusive Philippe mostra para Fatah, que inevitavelmente se emociona muito.
Tem uma cena muito boa em que o cunhado fala com o rico decadente e lhe pergunta por que ajuda tanto Fatah, o questiona se é gay, ele fica confuso e não passa pela sua cabeça que seja algo de coração, sem interesse, apenas pelo fato de querer o bem do outro. Esse tipo de mensagem acompanha todo o filme, são óbvias, claro, mas parecem pertencer a um universo distante, existente apenas nas fábulas, na vida real não há essa energia, tudo está às voltas de interesses pessoais, preconceitos e sentimentos mesquinhos.

O filme trata de assuntos importantes e atuais com bom humor e um olhar positivo, a imigração, o choque cultural e a quebra de estereótipos em relação ao povo muçulmano. A ingenuidade do protagonista causa empatia, seu deslumbramento diante da cidade, pelas ruas movimentadas, por onde passa causa furor e logo é comentado tanto pelas redes sociais quanto pela TV, mas ele nem tem ideia disso e continua sua saga até a feira com sua dócil Jacqueline passando até por manifestações políticas. As pessoas o seguem no facebook, criam uma movimentação em torno, mas ele segue seu caminho sempre sorrindo e contando suas histórias, a cena em que ele se embriaga com licor de pera numa festa, beija a ajudante do mágico e acaba no palco cantando a versão francesa de "I Will Survive" é das mais engraçadas, tudo isso é filmado e vai parar lá na aldeia de Fatah, onde todos veem com espanto por um velho computador comunitário. Desesperado, pois ele é um homem correto que preza pelos valores dá uma desculpa ainda mais hilária: foi tudo culpa da pera! 

"A Incrível Jornada de Jacqueline" é simples e traz elementos óbvios, mas isso não o diminui, ao contrário, engrandece por retratar a busca pelo sonho independente de qual for, a luta, a superação, as amizades improváveis, a troca de afetos e de cultura. 
Fatsah Bouyahmed, que tem participação no roteiro compõe um personagem adorável que com certeza adoraríamos encontrar por aí com a sua estimada vaca Jacqueline. Um filme singelo que faz bem para o coração e nos faz resgatar sentimentos puros.

terça-feira, 7 de março de 2017

Micróbio & Gasolina (Microbe et Gasoil)

"Micróbio e Gasolina" (2015) dirigido por Michel Gondry (A Espuma dos Dias - 2013) é um filme simples e bonito que retrata a amizade entre dois garotos que não se encaixam nos padrões adolescentes, Daniel (Ange Dargent) por conta de seu tamanho recebeu o apelido de Micróbio, já Théo (Théophile Baquet) é chamado de Gasolina devido a sua paixão por tudo que é mecânico. Jovens e desajustados, os dois logo ficam amigos. A fim de fugir de seus problemas em casa, eles decidem construir um lar sobre rodas e seguir juntos para um acampamento onde Gasolina esteve quando era criança e que desde então tem papel fundamental em sua memória afetiva. No meio do caminho, a dupla também fará uma breve visita ao grande amor de Micróbio.
Os meninos criam um grande vínculo e compartilham os problemas familiares, os gostos em comum, as descobertas e colocam em prática as suas ideias, com a criatividade de Micróbio e os conhecimentos mecânicos de Gasolina constroem uma espécie de carro/casa e entram em ação com o plano de cruzar a França. Essa viagem proporcionará uma série de aventuras que fará com que os meninos criem responsabilidades e amadureçam.
É um longa imensamente agradável, pois traz a ingenuidade de personagens deslocados de maneira sutil e engraçada, em meio a problemas familiares e escolares eles se unem e atravessam essa fase da pré-adolescência com muita imaginação e ousadia. O grande destaque são os diálogos e a naturalidade dos personagens, Gasolina mesmo não sendo muito mais velho que Micróbio ocasionalmente é como se fosse um irmão mais velho lhe ensinando algumas artimanhas em relação à vida, talvez por ter uma família mais pobre e disfuncional tenha mais marcas do que Micróbio que sofre com uma mãe pegajosa e depressiva. Gasolina é o típico personagem que não deixa transparecer sua tristeza, ele está sempre com um sorriso no rosto, incentivando e ajudando na transformação do outro.
Há um quê de saudosismo na história e na maneira como se comportam não dando atenção para as tecnologias, na sede por aventuras, de colocar a mão na massa, no laço de amizade que querendo ou não acrescenta aprendizados importantes e que certamente ajuda a suportar fardos e complexos. O filme demonstra com muito amor que as amizades feitas nesta época são as mais verdadeiras.

"Micróbio e Gasolina" é despretensioso e com bom humor une o lúdico com a realidade, é singelo ao exibir esta bela fase repleta de dúvidas, medos e descobertas, uma etapa da vida de extrema importância para criar experiências, especialmente quando  compartilhada com um amigo especial.