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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Meu Bolo Favorito (Keyke Mahboobe Man)

"Meu Bolo Favorito" (2024) dirigido por Maryam Moqadam e Behtash Sanaeeha (O Perdão - 2020) é um filme iraniano que aborda o romance na velhice de uma forma leve e sensível apesar do contexto repressor e violento do país. É daquelas histórias que nos arranca vários sorrisos sinceros tamanha delicadeza dos personagens. Acompanhamos a rotina tediosa de Mahin (Lili Farhadpour), uma senhora de 70 anos que adora cozinhar, cuidar de suas plantas e costuma desviar de suas vizinhas fofoqueiras, além de ter o hábito de passar noites em claro assistindo TV. De tempos em tempos organiza reuniões com amigas em que tomam chá e conversam sobre os mais variados assuntos, quase sempre de doenças ou elas influenciando-a fazer coisas novas, desde que seu marido morreu e sua filha se mudou para outro país sua vida tem sido sempre a mesma, completamente sozinha. Depois desse dia Mahin decide que precisa arranjar uma companhia. Ela se arruma, pega um táxi e sai para a cidade caminhar na praça na esperança de encontrar alguém, não demora muito e observa um senhor almoçando sozinho no restaurante dos aposentados, decidida vai atrás dele e pede exatamente o táxi em que Faramarz (Esmaeel Mehrabi) trabalha. Durante a corrida Mahin joga charme e é correspondida, ao final o convida para entrar em sua casa, claro que com muita descrição, o decorrer desse encontro se dá com muito vinho, comida, música e ótimas conversas. Mergulhamos nas angústias e lembranças de ambos que vivenciaram cenários diferentes e duas realidades no país, viram a revolução acontecer tornando-o numa teocracia, autoritarismo extremo em que qualquer deslize gera prisão, a polícia da moralidade vigia cada passo e para Mahin que se apresenta uma senhora comportada percebe-se que há uma mulher livre com muita sede de viver, a solidão tanto de um como de outro machuca, mas a alegria deles contemplando o jardim comendo e bebendo vinho (feito em casa, pois também é proibido), é uma das cenas mais lindas do filme entre tantas outras. Há um quê de ingenuidade na forma que se relacionam, não sabem muito bem o que fazer além de trocar conversas, à medida que o vinho faz efeito intimidades são reveladas com imensa sensibilidade, melancolia e esperança. 

É um filme de introspecção que caminha a lentos passos, como o caminhar de Mahin, que propõe o olhar para o outro, de parar e observar detalhes, o encontro deles é permeado de poesia e tranquilidade, mas também de angústia e um certo desespero, porém regado a momentos de alegrias sinceras, de compartilhamento genuíno e palavras que há muito estavam trancafiadas no peito. 
As atuações são belíssimas, o olhar e o corpo falam o tempo todo, a troca de roupas de Mahin, seu esmero em cozinhar e servir 
Faramarz, cujas feições tristes dão lugar a sorrisos duradouros.

"Meu Bolo Favorito" tem instantes grandiosos em suas sutilezas, é imersivo em demonstrar que apesar das limitações e restrições o desejo pelo compartilhamento da vida é uma chama que ainda arde dentro dos personagens. A solidão é aliviada, mas o gosto amargo não deixa de existir, pois apesar de ser ficção a realidade da situação no país está presente a todo momento lembrando o quão forte é a luta daqueles que querem celebrar a vida.

*Os diretores foram oficialmente condenados pela justiça iraniana, 14 meses de prisão discricionária (pena suspensa por 5 anos) mais multa por propaganda contra o regime iraniano, desrespeito às leis islâmicas e por propagar prostituição e libertinagem, além de distribuição ilegal do filme sem a autorização das autoridades iranianas. Tiveram seus passaportes confiscados. 

sábado, 18 de abril de 2020

O Poço (El Hoyo) / A Casa (Hogar)

Segue a resenha de dois filmes espanhóis disponibilizados pela Netflix, inclusive os mais vistos do streaming, e não é à toa, já que tocam em temas essenciais, especialmente porque dialogam com a atualidade sombria e incerta em que estamos vivendo, desigualdade social, desemprego, isolamento, ambição desenfreada, conflitos sociais, etc, temas que valem a pena refletir e que fazem um paralelo profundo com a realidade.

"Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem."

"O Poço" (2020) dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia é um filme essencial, principalmente por causa da situação atual em que vivemos, ele retrata de forma cru e provocativa o quanto o ser humano se torna uma besta quando enclausurado necessitando sobreviver, repleto de metáforas e simbolismos, mas também direto em diversos momentos, não é fácil acompanhar o lado perverso e faminto da sociedade, a ambição desvairada e a falta de empatia e humanidade, o caos obviamente se instala usando artifícios que fazem o espectador refletir na sua própria condição, no meio em que está inserido e na sociedade em geral.  
Dentro de um sistema prisional vertical, os presos são designados para um determinado nível e forçados a racionar alimentos a partir de uma plataforma que se move entre os andares. Uma alegoria social sobre a humanidade em sua forma mais sombria e faminta.
Goreng (Ivan Massagué) acorda e depara-se com uma situação desconfortável, ele está preso numa espécie de prisão que possui um poço infindável, do qual uma plataforma se desloca levando comida entre os andares, sua companhia é o estranho e escroto Trimagasi (Zorion Eguileor), na parede o número é o 48 e segundo calcula vai até o 132, a dupla no início trava uma troca de diálogo interessante e aos poucos descobrimos mais sobre o lugar, o funcionamento acontece a partir do nível zero com a plataforma abarrotada de alimentos, ela vai descendo e os confinados comem o quanto querem até que ela vá para o próximo, sendo proibido guardar qualquer comida consigo, se isso ocorrer imediatamente o local esquenta ou esfria, Goreng escolheu entrar nesse experimento por vontade própria com a intenção de parar de fumar e levou consigo o livro "Dom Quixote", já seu companheiro escolheu levar uma faca auto-afiante, o que indica que se precisar sobreviver tem uma aliada. O banquete servido daria para todos se alimentarem, mas o que acontece é que dominados pela fúria, ambição e medo se empaturram fazendo com que não sobre absolutamente nada para os andares inferiores, o que gera violência, caos e morte. Goreng de tempos em tempos se muda de andar e experimenta tanto a tranquilidade de ter o que comer quanto a dor da fome, quando ele encontra Iomoguiri (Antonia San Juan), uma das administradoras do local ela lhe diz que a ideia do experimento era perfeita, mas que as pessoas estragaram tudo e tenta convencer os que estão no andar de baixo a racionar para que chegue alimento até o final do poço, mas obviamente cada um pensa somente em si e devora todas as comidas. Esse pensamento de dividir entra na mente de Goreng e obcecado com Miharu (Alexandra Masangkay), a estranha personagem que desce na plataforma em meio a comida para tentar encontrar sua filha e também por causa do próximo companheiro em outro andar, Baharat (Emilio Buale), que está a apenas seis andares do topo, se afia ao ideal de ir descendo nível por nível convencendo que comam somente o necessário, obviamente a violência entra em cena e traz à tona o animalesco no seu ponto mais alto. O filme é excelente em manter o espectador curioso e aflito, mas especialmente acerta ao incutir reflexões particulares a cada um, seja elas de cunho religioso, político-social, ou com mensagens de esperança e transformação em seu final, são simbolismos que afetam de maneiras diferentes e ganham camadas profundas. 
"O Poço" revela um sistema de isolamento em que é inviável a ação coletiva e quando essa regra é quebrada para acontecer uma possível transformação se dá através da violência e muito sangue, dai a frase: "a solidariedade nunca é espontânea". Uma potente crítica a diferença de classes, onde a ganância e a indiferença do topo prejudica quem está muito mais abaixo, por exemplo, ficamos sabendo do número real de andares lá pelo fim, ou seja, a invisibilidade da extrema miséria que acaba indo pelo único caminho, o da violência e morte. Sem dúvidas, uma obra para ser assistida outras vezes para captar ainda mais nuances que conversam com a realidade. Filmaço!

"A Casa" (2020) dirigido por Àlex Pastor e David Pastor (Vírus - 2009) é um suspense magnético que aborda de forma primorosa a obsessão e a paranoia pelo poder e sucesso. 
Javier Muñoz (Javier Gutiérrez) é um executivo desempregado que é forçado a vender seu apartamento. Quando ele descobrir que ainda tem as chaves, ficará obcecado pela família que agora mora lá e decidirá recuperar a vida que perdeu, a qualquer preço.
O protagonista é um homem que não se conforma com sua atual condição, antes um publicitário de respeito, agora um reles homem sujeito a qualquer tipo de trabalho, vide o momento em que ele não percebe estar sendo designado para um estágio não remunerado por um antigo colega, essas situações humilhantes vão se aglomerando e Javier vai as guardando de modo frio, principalmente quando é obrigado a se mudar por não poder bancar mais seu luxuoso apartamento, a sua esposa não vê problema em se mudar para um lugar mais humilde e seu filho é retratado como um menino retraído e isolado do resto. Acompanhamos então a recusa de Javier a seguir um outro tipo de vida, primeiro que ele mente em relação a vender seu precioso carro e começa a stalkear os novos moradores de seu adorado apartamento. Acontece que Javier ainda possui as chaves desse local, pois quando despediu em seu carro a empregada ela as jogou em cima dele, diante desse cenário não pensa duas vezes e espera toda a família sair e se infiltra na casa alheia. Começa a surgir sentimentos de inveja e obsessão, Javier se adapta a rotina da família e capta as fragilidades e começa a seguir Tomás (Mario Casas), se aproxima dele no grupo do AA e mente, se torna amigável e confiável, nesse meio tempo cada vez mais se familiariza e continua a adentrar o apartamento, arquiteta intrigas e deixa a sua própria família à mercê, sendo indiferente a sua esposa e filho. Ele cria seu roteiro e é fiel a suas paranoias, brinca com a vida do outro, seu desejo é a posição de poder e se aproxima do lado que está no topo. O desenrolar é permeado por cenas tensas e que incutem pensamentos acerca da moral, a não aceitação de um homem antes bem remunerado - talvez nem tenha sido grande em sua profissão, o que tudo indica é que teve sorte e boas relações - tendo que lidar com a realidade palpável de trabalhar para sobreviver. Ele não aceita esse cenário e diante das circunstâncias seu desejo é ascender e para isso pouco importa os entraves. É frio, hediondo e execrável, a pessoa que experimenta estar lá em cima e cultiva em si a ambição e cobiça ávida jamais aceitaria estar abaixo. Sua mente não trabalha nesse universo. O filme causa polêmica porque não tem um desfecho julgador e que dê lições, simplesmente esse tipo de pessoa existe aos montes e raramente se dá mal, acumula-se relações, troca de favores e permanece nesse lugar mesmo que dê sinais de sempre haver transtornos, como a ótima cena final da torneira pingando.
"A Casa" é uma obra que retrata o cerne da inescrupulosidade, e por isso que é tão incômodo e provocativo, nosso desejo de juiz vem à tona, mas claramente sabemos que a justiça não existe para essas pessoas. Sem dúvidas, um ótimo exemplar para evidenciar o quão doentio é a ânsia que domina a ganância e a sede do poder de estar acima sem se importar com quem está ao seu lado, mesmo que essa pessoa seja o seu próximo mais próximo. Para pensar e muito!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Zombi Child

"Zombi Child" (2019) dirigido por Bertrand Bonello (Nocturama - 2016) é baseado na história de Clairvius Narcisse, um haitiano que alega ter sido transformado em um morto-vivo por um feiticeiro vodu, a história assustadora e curiosa de Narcisse atraiu a atenção de cientistas do mundo todo que apresentaram diversas versões para a possível ressurreição. O filme é imensamente interessante e se desenvolve em duas linhas temporais, a primeira nos anos 60 mostrando um homem sendo ressuscitado, escravizado na colheita de cana-de-açúcar e zumbificado por alguma substância, e na segunda uma jovem tentando se adaptar a um colégio tradicional na França após perder os pais num terremoto que devastou o Haiti.
Haiti, 1962. Um homem é trazido de volta do mundo dos mortos apenas para ser enviado ao inferno do trabalho nos campos de cana. Em Paris, 55 anos depois, na conceituada escola da Legião de Honra, uma jovem aluna haitiana confessa um antigo segredo de família para o grupo de novas amigas - sem imaginar que sua estranha narrativa vai convencer uma colega de coração partido a fazer o inimaginável.
Longe da figura que conhecemos hoje como zumbi, entramos nas profundezas obscuras de sua mitologia, de origem africana e pagã, um terreno em que por vezes soa estereotipado demais, porém mesmo assim um ótimo filme sobre a herança cultural. Acompanhamos Mélissa, que apesar de ter crescido na França possui raízes haitianas, ela descende diretamente de um zumbi e mesmo sendo a única negra num colégio feminino de elite destinado somente a jovens filhas de pais condecorados com medalhas de honra não encontra tantos entraves, mas olhando com mais atenção a curiosidade que ela surte nas meninas lê-se como racismo, principalmente quando uma delas com o coração partido pelo namorado decide se enveredar pelo sobrenatural com a ajuda da tia de Mélissa.
O filme toca em pontos fortes da História da colonização do Haiti, da escravização, da miséria, da revolta dos escravos e a independência do país, a dor, os traumas, e assim pincela várias outras questões, como a má interpretação e caricatura do vodu, a apropriação cultural e a sua exotização, o maior exemplo disso é a utilização dos clichês utilizados por Hollywood, especialmente quando transformou o livro "A Serpente e o Arco-Íris", de Wade Davis no filme "A Maldição dos Mortos-Vivos". 

O ir e vir do tempo o torna um pouco arrastado e prejudica algumas ações, cortes bruscos também são um tanto utilizados, mas ao todo é uma obra que combina poeticamente o Haiti do passado com a França atual, um cinema que explora as raízes e reflete o quanto a apropriação e o uso de culturas afro-caribenhas são exploradas de modo banal.

"Zombi Child" é uma experiência intrigante e intensa, sem muito detalhar observamos as tradições culturais haitianas juntamente com questões sobre o colonialismo francês através das aulas na escola, narrativas que se complementam e dão substância e originalidade à trama, de certo modo chocante ao evidenciar o quanto as tradições são deturpadas e soterradas.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Bacurau

"Bacurau" (2019) dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho (Aquarius - 2016) é um filme instigante e essencial, sua mescla de gêneros aguça nossa curiosidade e imprime força a cada cena e diálogo, traz a representatividade nordestina, a cultura de um povo forte que jamais cede ou retrocede, a palavra que mais o resume é resistência. 
Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.
O filme aos poucos revela seus personagens, não há protagonismo, todos possuem seu espaço e importância, assim como o próprio lugar, Bacurau, cujo nome vem de um pássaro noturno, de repente, a cidade não se encontra mais no mapa e o único jeito de ensinar as crianças é utilizando um mapa confeccionado por eles próprios, algumas coisas estranhas vão acontecendo e a população já acostumada com a vida difícil como a questão da água acabam dando seu jeito, pois não há qualquer amparo do governo, unidas seguem suas vidas rejeitando o prefeito que quando aparece fazem questão de deixá-lo falando sozinho.
O clima do filme é de puro suspense e se desenvolve para um faroeste à la cangaço, além de flertar com a ficção científica, uma distopia nem tão distópica assim já que muito do que é mostrado revela não só da atualidade em que vivemos, mas sobre o como sempre foi com seu ciclo de injustiças, corrupção e violência, onde se aniquila o mais pobre e o considerado ignorante, as mazelas expostas são realistas e explícitas e, por isso, tão incômodas; o caos é familiar. Potente em sua mensagem e certeiro como entretenimento, um longa completo e brilhante em todos os sentidos, uma história que representa o país, há símbolos e metáforas pelo decorrer que vamos descobrindo juntamente com nuances de surrealismo, possui diálogos que enfrentam e marcam, certamente Bacurau veio na hora certa para nos fazer refletir o Brasil como um todo e tentar entendê-lo sem referências externas e preconceitos.

É um filme com um imenso poder de despertar pensamentos, mas isso não quer dizer que seja difícil de assistir, ao contrário, é um ótimo entretenimento, conversa e brinca conosco o tempo todo, os alívios cômicos são espontâneos e provocantes, inúmeras vezes se coloca em evidência clichês utilizados pelo brasileiro, por exemplo, que por morar em determinada parte do país se considere quase um europeu e despreza quem vive em regiões menos favorecidas, subestimam o diferente, uma clara falta de conhecimento em não saber da própria história, além de querer que o país copie o modelo estrangeiro enquanto eles riem, usufruem, apoderam-se e aniquilam.

O levante da população, a união em preservar a cultura e pelo embate começar de dentro da escola se faz intenso e impactante, quem não se arrepiar pela força e coragem dos habitantes de Bacurau está morto por dentro, é imensamente essencial para cada vez mais trabalharmos nossa lucidez nesses tempos tão obscuros e de estreitamento de ideias.
"Bacurau" pulsa resistência e representatividade, é força e emoção, uma obra bonita, provocante e alegórica. 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Dégradé

"Dégradé" (2015) escrito e dirigido pelos irmãos Arab Nasser e Tarzan Nasser é uma obra forte e eficaz em retratar a realidade de mulheres que vivem próximas a Faixa de Gaza, o ponto de vista feminino aumenta o terror de todas as consequências dos inúmeros conflitos e opressões diárias. É aflitivo, caótico e claustrofóbico.
Christine (Victoria Balitska), uma russa que vive em Gaza, gerencia um salão de beleza vizinho ao quartel-general de uma gangue. No pátio que separa os dois, Ahmed, um dos chefes locais, exibe com orgulho o leão que acaba de roubar do zoológico da cidade. Quando a polícia inicia uma operação para libertar o animal, o clima na região fica tenso, deixando Christine, sua filha, uma assistente e dez clientes sitiadas no salão. Em meio ao fogo cruzado, ela precisa preparar uma noiva e opinar sobre os problemas amorosos de suas clientes. Tudo isso enquanto o leão cochila logo ao lado.
Acompanhamos intimamente durante algumas horas várias mulheres em um salão de beleza localizado numa região perigosa e que é palco de muitos conflitos, enquanto esperam sua vez discutem, conversam e enfrentam os mais variados problemas, Christine se desdobra para atendê-las e tem a missão de preparar uma noiva que está sob os olhares atentos da sogra que dita o como deve ser o corte de seu cabelo, a opressão está por todas as partes, as conversas vão ganhando tons sombrios à medida que a confusão lá fora aumenta. São mulheres diferentes entre si, mas todas carregando pesos de suas histórias, Christine luta para manter seu salão, ela diz que ali é melhor que o lugar que veio, mesmo faltando energia dá um jeito e junto de sua assistente Wedad (Maisa Abd Elhadi), que sofre pelo romance com Ahmed e seus rompantes, lida com as clientes sem paciência, especialmente, Eftikhar (Hiam Abbass), seu comportamento antipático revela uma faceta de angústia por estar envelhecendo, a todo momento se olha no espelho e se compara com as mais novas. Dentre todas a que mais se sobressai é Safia (Manal Awad) e seus diálogos engraçados com a mais religiosa do grupo, ela toma um remédio à base de ópio e, claro, que essa sua forma de agir acaba revelando algo triste, entre essas mulheres há uma grávida que a qualquer momento pode dar à luz, só que não há como sair, estão confinadas nesse pequeno estabelecimento por conta do conflito que toma proporções caóticas onde grupos rivais se enfrentam, além da presença de um leão.

A história dá preferência aos diálogos e o ponto de vista que cada uma tem do entorno faz o espectador se aproximar da realidade da região de uma maneira única e verdadeira, as relações com os maridos, a beleza, a família, religião e política e seus diversos grupos armados nos dá uma abrangência para compreender a dificuldade de se viver nesse local opressivo. A tensão permeia todo o desenrolar, sempre se espera pelo pior e os nervos ficam à flor da pele, os cabelos que nunca são concluídos, as mulheres que impacientemente aguardam sua vez, a energia que cessa e os tiros e explosões lá fora, um verdadeiro inferno.

"Dégradé" é uma obra afitiva e que retrata com potência a tamanha instabilidade de se viver na Faixa de Gaza, os conflitos entre os grupos radicais e seus ataques levando qualquer um que esteja por perto, não vemos absolutamente nada do que acontece lá fora, sentimos o desespero junto dessas mulheres que confinadas tentam se controlar e continuar o processo de se arrumarem, algo tão corriqueiro em qualquer parte do mundo, mas que nesse local se transforma numa tour de force, deveras uma pequena e sincera amostra do quão opressiva é a vida da mulher palestina, seja diante dos grandes e inúmeros conflitos, nas relações amorosas e até mesmo nas pequenas atividades diárias. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

The Great Buddha+

"The Great Buddha+" (2017) dirigido por Hsin-yao Huang é um filme taiwanês simples que retrata o cotidiano de dois homens pobres que passam o tempo conversando e olhando as filmagens da câmera do carro do chefe, além de colocar a cultura desse pequeno país asiático em questão e explorá-la de maneira irônica. A fotografia em preto e branco garante seu tom poético e ressalta a crueza dessa realidade tão desvalida. 
Pepino (Cres Chuang) é vigia noturno numa fábrica de estátuas de bronze. Seu colega, Umbigo (Bamboo Chu-Sheng Chen), coleta material reciclável durante o dia. O maior prazer na vida de Pepino é folhear durante as madrugadas as revistas pornô coletadas por Umbigo. Lanches tarde da noite e assistir televisão são parte integral de suas vidas monótonas. A história envolve deuses, desejo sexual de homens de meia-idade e conversa entre fantasmas e humanos. Talvez a audiência a ache ridícula, mas a própria vida não é uma farsa?
Acompanhamos a vida tediosa e miserável de Pepino, um vigia noturno de uma fábrica de estátuas de bronze, há uma enorme expectativa no local de dia pela construção de um buda gigante, mas a noite o vazio toma conta e a única distração desse pobre homem é seu amigo Umbigo que anda pelas ruas recolhendo material reciclável, todas as noites ele vai visitá-lo e leva algumas revistas pornográficas e trocam ideias aleatórias. Umbigo entediado decide olhar as filmagens da câmera do carro do patrão de Pepino, uma medida de segurança que virou moda segundo eles, a maioria são imagens enfadonhas, porém existem várias que demonstram o quão mulherengo o patrão é, inclusive arranjando atritos entre as amantes, eles os escutam transando no carro, as discussões e até que desse passatempo sai algo pesado e do qual eles nunca esperariam ver, total comprometedor e que mexe com a moral de Umbigo.
O filme possui sacadas inteligentes e a maioria das imagens surgem como símbolos, discute a cultura religiosa e a hipocrisia das pessoas, a cena em que pedem a opinião sobre a estátua para os devotos é uma boa demonstração, repleta de acidez mas tudo com muita sutileza e destreza. Também coloca em evidência a grande discrepância social numa série de situações engraçadas, além dos ótimos diálogos que surgem de conversas que parecem não ter sentido, mas que acabam surtindo um efeito impactante.

Enquanto assistem as filmagens os dois confabulam e dizem frases com alto poder de reflexão de uma maneira simples, e analisando percebemos que toda a vida é uma farsa, principalmente a dos mais abastados que fingem a maioria das coisas, e constatamos mais uma vez que a corda sempre vai arrebentar do lado mais fraco. Um aspecto interessante da obra é a metalinguagem, como a intromissão do diretor narrando e explicando algumas partes e também colocando cor somente quando comentam o quanto a vida dos ricos é colorida, ou mencionando que ninguém verá a cor de tal coisa e, portanto, citá-la não faz sentido.

"The Great Buddha+" é um filme crítico e irônico e um belíssimo exemplar de cinema orgânico, não se prende a gêneros e flui de maneira particular, uma experiência fascinante, reflexiva e divertida a seu modo.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Filmes que Incentivaram Leis ou Abriram Discussões em seus Países

Segue uma lista de filmes que promoveram discussões, denunciaram e/ou incentivaram e até mudaram leis em seus países, são obras pertinentes e valiosas para obter conhecimento e expandir as ideias. 

12- "A Lei da Herodes" (La Ley de Herodes - 1999) México
"A Lei de Herodes" (1999) dirigido pelo mexicano Luis Estrada (A Ditadura Perfeita - 2014) é um filme de humor ácido que retrata todos os possíveis e impossíveis artifícios utilizados no meio da política para atingir o poder, expõe sarcasticamente a corrupção e o que o poderio faz com o ser humano. Carrega uma forte crítica social com personagens caricatos e inescrupulosos. Representa de forma mordaz o poder e a corrupção política no México durante o longo mandato do Partido Revolucionário Institucional (PRI). O longa foi produzido em 1999, portanto, o país ainda estava sob domínio do partido.
Uma importante obra para evidenciar e denunciar essa ditadura. Diante do sucesso e polêmica do filme, de certa forma, ajudou na queda do partido PRI em 2000, que estava há 70 anos no poder.

11- "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" (4 Luni, 3 Saptamâni Si 2 Zile - 2007) Romênia
Em 1987, nos últimos dias do comunismo, Otilia (Anamaria Marinca) e Gabita (Laura Vasiliu) dividem um quarto num dormitório estudantil. Elas são colegas de classe na universidade de uma pequena cidade romena. Gabita está grávida e o aborto é ilegal no país. Otilia aluga um quarto num hotel barato. Lá elas recebem um certo Sr. Bebe (Vlad Ivanov), chamado para resolver a questão. Mas, ao saber que Gabita está com a gravidez mais adiantada do que havia informado, Sr. Bebe aumenta as exigências para o serviço. Ele cobra um preço que as duas não estão preparadas para pagar.
A questão do aborto na Romênia foi revista após a estreia do filme e hoje consideram dentro da lei um aborto feito até a 14ª semana de gestação não importando o motivo.

10- "Kler" (2018) Polônia
O filme segue três padres que se encontram depois de anos. O caminho de cada um deles foi completamente diferente: o primeiro decidiu fazer carreira, o outro trabalha em uma paróquia rural, o terceiro, apesar de ser extremamente crente, perde a confiança de seus paroquianos. O que acontecerá quando os três se cruzarem novamente? 
O filme tem causado polêmica na Polônia, vários membros de um partido importante se colocaram contra o filme devido a abordagem que consideraram negativa, já por outro lado a discussão sobre pedofilia foi abastecida e também pela influência da igreja num dos países mais devotos do mundo. Vários casos foram e estão sendo julgados e reparados por todos os danos causados às vítimas.

09- "Que Horas Ela Volta?" (2015) Brasil


"Que Horas Ela Volta?" (2015) dirigido por Anna Muylaert (É Proibido Fumar - 2009) aborda de maneira simples uma questão bastante pertinente, a diferença entre classes sociais no Brasil, principalmente a relação entre patrões e empregados. A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.
O filme estreou quase junto com a "PEC das domésticas" que regulamenta e garante direitos trabalhistas às empregadas domésticas do país, o fato é que com certeza por conta do filme as pessoas passaram a pensar sobre a importância e o quão demorado foi o processo da aprovação da PEC, o olhar se expandiu em direção às domésticas e que mesmo a passos lentos algo está acontecendo.

08- "Ferrugem" (2018) Brasil
Assim como a maioria das meninas adolescentes Tati (Tiffanny Dopke) ama compartilhar sua vida nas redes sociais. Porém, quando menos espera, ela vai ter que amadurecer e lidar com as consequências de seus atos, depois que algo que ela não queria que se tornasse público é divulgado no grupo do WhatsApp de sua turma de colégio.
Outra coincidência de leis aprovadas no Brasil juntamente com a estreia de um filme, dessa vez foi da lei que criminaliza ações de divulgação de conteúdo sexual, fotos e vídeos vazados, a lei  ainda atribui à Polícia Federal a investigação de crimes praticados pela internet que difundam conteúdo misógino, de ódio ou de aversão às mulheres. O filme promoveu uma campanha de conscientização sobre machismo, misoginia, suicídio, bullying virtual, revenge porn, temas tão atuais e que mostram que as vítimas necessitam muito de um amparo da lei, portanto a aprovação da lei coincide com a estreia do filme e expõe a importância de retratar o assunto gerando assim debates e discussões importantes.

07- "Heli" (2013) México
Passado em uma cidade no interior do México, assolada pelo domínio do crime organizado, Heli acompanha a dura realidade de uma família que se vê tragicamente inserida em uma trama de corrupção e vingança, a partir do namoro de uma jovem garota, irmã do personagem que dá nome ao filme, com um cadete policial envolvido com os criminosos locais. Rapidamente é possível perceber que a real protagonista do filme é a violência que condiciona as ações dos personagens e determina as consequências. Para cada ato, existe uma reação e ela é necessariamente codificada como uma expressão violenta.
O filme promove com muita coragem uma denúncia em torno da violência e corrupção do narcotráfico no México, a vida de pessoas comuns sendo destruídas e ceifadas por essa realidade crua e torturante. É um filme que retrata o narcotráfico que domina várias regiões do México com realidade e uma violência explícita, assim como a polícia corrupta e o sofrimento de muitos mexicanos envoltos por esse terror. Uma importante obra que abre nossos olhos para esta cruel situação no país.

06- "Moolaadé" (2004) Burkina Faso
"Moolaadé" (2004) último filme dirigido por Ousmane Sembene (Faat Kiné - 2001) é um grito de liberdade contra uma suposta cultura religiosa, uma realidade cruel e bruta da qual meninas passam em prol da "purificação", a mutilação genital não é uma prática exclusiva do Islamismo, que aliás não está no Alcorão, é uma prática sem fundamento e selvagem que inferioriza a mulher. Em alguns lugares se a mulher não for circuncidada são excluídas da sociedade, este filme levanta questões importantes e impacta pela violência que essas mulheres passam, e certamente um meio de promover a rejeição a este ato.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
É um filme que denuncia essa prática cruel e que discute acerca sobre esses costumes religiosos cruéis e machistas, a prática foi abolida em diversos países da África, como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Gâmbia, Líbia, Malávi, Mali, Namíbia, Nigéria, Ruanda, Senegal, África do Sul, Angola. O filme teve grande importância para gerar debates em inúmeros países e a ilegalização e o restringimento está cada vez mais forte, além do reconhecimento como sendo uma violação dos direitos humanos.

05- "Uma Mulher Fantástica" (Una Mujer Fantástica - 2017) Chile
"Uma Mulher Fantástica" (2017) dirigido por Sebastián Lelio (Gloria - 2013) é um filme real e essencial que disserta sobre o preconceito e a discriminação intrínseca, comentários, olhares, curiosidade, e também explícitos, como na repulsa e suspeitas, é preciso muita força perante tanta ignorância, atitudes absurdas e julgamentos das pessoas. Com sutileza, coragem e muita determinação a personagem passa por diversas tristezas, privações, mas segue firme, ela precisa encontrar o seu caminho. Marina (Daniela Vega) é uma garçonete transexual que passa boa parte dos seus dias buscando seu sustento. Seu verdadeiro sonho é ser uma cantora de sucesso e, para isso, canta durante a noite em diversos clubes de sua cidade. O problema é que, após a inesperada morte de Orlando (Francisco Reyes), seu namorado e maior companheiro, sua vida dá uma guinada total.
Por conta do sucesso do filme ocorreu a aceleração do trâmite do projeto de lei para garantir o reconhecimento jurídico de pessoas trans, estabelecendo o direito à retificação do nome e do sexo no registro quando estes não coincidem com a identidade de gênero.

04- "Cafarnaum" (Capharnaüm - 2018) Líbano
"Cafarnaum" (2018) dirigido por Nadine Labaki (Caramelo - 2007, E Agora, Aonde Vamos? - 2011) é um drama pesado e ao mesmo tempo sensível que retrata a miséria e o caos moral e social, além disso um filme que se posiciona e denuncia questões primordiais, por exemplo, o casamento de meninas menores de idade e a consciência sobre colocar mais vidas neste mundo falido. A dor que envolve a história é enorme, certamente os olhos do protagonista ficarão cravados na memória do espectador, também causa espanto pelas atrocidades pelas quais passa para a sobrevivência e o seu incrível senso de responsabilidade moral e clareza diante deste núcleo caótico em que vive.
Aos doze anos, Zain (Zain Al Rafeea) carrega uma série de responsabilidades: é ele quem cuida de seus irmãos no cortiço em que vive junto com os pais e que leva o alimento trabalhando em uma mercearia. Quando sua irmã de onze anos é forçada a se casar com um homem mais velho, o menino fica extremamente revoltado e decide deixar a família. Ele passa a viver nas ruas junto aos refugiados e outras crianças que, diferentemente dele, não chegaram lá por conta própria.
É um filme altamente crítico e que contempla uma série de temas importantes, como miséria, taxa de natalidade e imigração, certamente faz a diferença promovendo sua visão real e incômoda e também oferecendo uma nova vida ao pequeno protagonista que conseguiu asilo na Noruega com sua família.

03- "Sombra Branca" (White Shadow - 2013) Alemanha/Itália/Tanzânia
Alias está crescendo na selva africana. Por ser albino, ele é vítima de insultos e precisa lidar com a crença de que os corpos dos albinos oferecem poderes mágicos, muito comum entre curandeiros e moradores da região. Os albinos são assassinados e mutilados para que se consiga uma parte encantada de seus corpos. Determinada a salvar Alias, sua mãe o confia a seu irmão, Kosmos, que dirige pequenas empresas na cidade.
Coprodução tanzaniana, francesa e alemã dirigida por Noaz Deshe, um filme que traz à tona a perseguição a albinos na Tanzânia. Além do preconceito, uma crença brutal ainda presente no país diz que partes dos corpos dos albinos podem trazer riquezas e boa sorte. Os produtores do filme dizem ter esperança de que a obra lance luz sobre o problema.

02- "Abutres" (Carancho - 2010) Argentina
"Abutres" (2010) de Pablo Trapero é um drama urbano, uma denúncia social, a inteligência do longa surpreende e demonstra mais uma vez que o cinema argentino esbanja vitalidade. Acompanhamos Sosa (Ricardo Darín), um advogado, cuja licença fora caçada, que vive de explorar a miséria dos outros. Sosa faz plantão em hospitais à espreita de potenciais processos e indenizações de seguradoras. É em uma dessas tocaias que conhece a médica Lújan (Martina Gúsman). Sosa se apaixona e, então, sua rotina passa a ser um obstáculo monstruoso.
Um filme que funciona como um ótimo thriller e que se tornou de uma relevância social gigante, pois devido o impacto da denúncia da máfia das seguradoras o congresso argentino mudou a legislação de seguros para acidentes automotivos.

01- "Rosetta" (1999) França/Bélgica
A jovem e impulsiva Rosetta (Emile Dequenne) vive num trailer, com sua mãe (Anne Yernaux), alcóolatra e agressiva. Sua vontade de mudar de vida é tanta que todos os dias ela luta muito por um emprego. Seu maior problema nem sempre é achá-lo, e sim manter-se nele. Ela sai à procura de trabalho como alguém que está indo para a guerra e, nesta sua luta cotidiana para sair da pobreza e levar uma vida "normal", vale tudo. 
Dirigido pelos irmãos Dardenne o filme possui um tom documental e demonstra com angústia o sofrimento cotidiano da protagonista que carrega um peso enorme para sua pouca idade, ela busca incessantemente trabalho estável, mas se depara com um sistema cruel e desesperançoso. O filme inspirou os legisladores da Bélgica a criarem a "Lei Rosetta", que protege os diretos trabalhistas dos adolescentes. 

terça-feira, 9 de abril de 2019

Cafarnaum (Capharnaüm)

"Cafarnaum" (2018) dirigido por Nadine Labaki (Caramelo - 2007, E Agora, Aonde Vamos? - 2011) é um drama pesado e ao mesmo tempo sensível que retrata a miséria e o caos moral e social, além disso um filme que se posiciona e denuncia questões primordiais, por exemplo, o casamento de meninas menores de idade e a consciência sobre colocar mais vidas neste mundo falido. A dor que envolve a história é enorme, certamente os olhos do protagonista ficarão cravados na memória do espectador, também causa espanto pelas atrocidades pelas quais passa para a sobrevivência e o seu incrível senso de responsabilidade moral e clareza diante deste núcleo caótico em que vive.
Aos doze anos, Zain (Zain Al Rafeea) carrega uma série de responsabilidades: é ele quem cuida de seus irmãos no cortiço em que vive junto com os pais e que leva o alimento trabalhando em uma mercearia. Quando sua irmã de onze anos é forçada a se casar com um homem mais velho, o menino fica extremamente revoltado e decide deixar a família. Ele passa a viver nas ruas junto aos refugiados e outras crianças que, diferentemente dele, não chegaram lá por conta própria.
Zain vive num ambiente bagunçado em todos os sentidos, os pais não têm noção de nada, o faz trabalhar na mercearia em troca de um pouco de comida para dar aos irmãos que vivem amontoados num pequeno espaço, quando os pais decidem casar a irmã de onze anos com o dono da mercearia por causa de dinheiro, Zain fica revoltado e enfrenta-os, ela é seu vínculo mais forte e até a ajudou a esconder a menstruação da mãe a fim de que essa situação não ocorresse. Ele não consegue deter o casamento e irritado foge, simplesmente pega um ônibus e vai parar no lado em que moram refugiados, ali ele percebe um outro universo, tão pobre e tão difícil quanto o seu, porém recebe acolhimento e carinho de Rahil (Yordanos Shiferaw), que vive de maneira ilegal e tenta criar seu filho pequeno sem maiores problemas, Zain cuida da criança enquanto Rahil vai trabalhar e passa vários dias assim, até que Rahil é presa e as duas crianças ficam à mercê da sorte, sem ter o que comer Zain articula meios para poder conseguir dinheiro e comprar o mínimo possível, as cenas em que sai puxando o bebê atrás de si pelas ruas é de cortar o coração, eles enfrentam a fome e a dor de estar numa situação que não há saída, não existe escolha, é dali para pior, o que destrói qualquer pensamento de que todos têm possibilidades de escolha na vida. O filme promove o olhar para com o outro, para além do próprio mundo, da realidade miserável e lamentável em que crianças precisam lidar com o sofrimento do abandono, da irresponsabilidade dos adultos e dos podres que rodeiam esse mundo, como o personagem de Aspro (Alaa Chouchnieh). 

Cafarnaum é traduzido como caos e também é o nome de uma cidade bíblica que ficou conhecida por uma série de milagres atribuídos a Jesus, a fé parece não ser de grande valia, apesar de alguns personagens tê-la, o que não é o caso de Zain, simplesmente pelo fato de que a estrutura social os relegam tanto que são invisíveis até para o divino. A saga de Zain e Jonas é calamitosa e nosso coração aperta e gela para os desfechos que poderiam ocorrer, quando se acha que não tem mais para onde cair, abandonado ele decide recorrer a Aspro e com uma enorme dor faz o que ele propôs várias vezes a Rahil, e aí então fica tentado pela travessia à Suécia e volta para casa na esperança de encontrar seus documentos, mas ali tem novas decepções, nenhum deles possui documentos, e o que mais corrói seu coração é saber o que ocorrera com a irmã o impulsionando a cometer um ato cheio de revolta e raiva. Zain vai preso e encontra Rahil em outra cela, que desesperada clama por seu pequeno Jonas.
Em determinado ponto Zain consegue por meio de um telefonema para um programa uma forma de poder acusar os próprios pais e o juiz o ouve. Dilacerante seu depoimento e seu olhar sobre o todo, a consciência que tem do meio e de suas impossibilidades toca e nos faz refletir no rumo que a humanidade está tomando, da questão da imensa pobreza, das crianças relegadas pelos próprios pais que continuam a procriar criando assim um círculo de sofrimento, da situação dos refugiados e da falta de opção e perspectiva vivendo à sombra e sendo menos que lixo. No tribunal Zain quer processar seus pais por tê-lo trazido ao mundo e em seguida diz: "Eu quero pedir que meus pais parem de ter filhos."

Nadine Labaki nos deu uma obra realista e arrebatadora, extraiu de Zain Al Rafeea uma potência no olhar que dificilmente será apagada de nossa memória, o personagem homônimo é um garoto sírio, mas a realidade é que Zain viveu vários anos como refugiado sírio no Líbano e enfrentou a dura pobreza e todas as consequências que a condição acarreta, a tristeza no seu olhar é verdadeira, assim como na boa parte do elenco, o que gera uma autenticidade que desperta a nossa consciência.
"Cafarnaum" é primoroso, necessário, uma extrema dose de realidade e um cinema que faz a diferença! 

*Após a filmagem, Zain e a família receberam asilo na Noruega.

sábado, 6 de abril de 2019

O Clube dos Canibais (The Cannibal Club)

"O Clube dos Canibais" (2018) dirigido por Guto Parente (Inferninho - 2018) é um ótimo exemplo de como o cinema nacional está produzindo obras cada vez mais pertinentes e ousadas, Guto Parente tem se destacando pelos festivais mundo afora e se sobressaindo como um dos diretores mais interessantes atualmente. O filme é uma sátira aterrorizante que mostra o absurdo, o cinismo e a hipocrisia da elite ao se alimentar literalmente dos mais pobres, recheado de cenas violentas e diálogos perversos coloca em evidência as fissuras da estrutura social do país.
Otavio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios) são da elite brasileira e membros do The Cannibal Club. Os dois têm como hábito, comer seus funcionários. Quando Gilda acidentalmente descobre um segredo de Borges (Pedro Domingues), um poderoso congressista e líder do clube, ela acaba colocando sua vida e a de seu marido em perigo.
A história escancara a diferença entre classes e a segregação racial, a elite que chega ao poder graças aos mais pobres para depois os usarem como querem e se alimentarem posteriormente, o horror não está necessariamente nas cenas que jorram sangue, mas na metáfora explícita que a acompanha, na realidade do cenário absurdo em que estamos vivendo e cuja onda só aumenta. Acompanhamos mais de perto o casal Otavio e Gilda que se diverte fazendo sexo com os empregados enquanto o marido se masturba para em seguida matá-los e enfim devorá-los, Otavio faz parte do Clube dos Canibais, grupo secreto onde diversos políticos se reúnem para ditar regras e se satisfazerem não só com o canibalismo, mas também na observação do ato sexual, o grupo não deixa que as mulheres entrem e por isso Gilda articula meios para tal com o marido na própria casa. Segue assim até que numa festa Gilda flagra Borges numa situação constrangedora e no dia seguinte vai até ele pedir desculpas e dizer que não se importa, mas o poderoso deixa claro que não sabe do que ela está falando e daí para frente a tensão do que pode acontecer só aumenta, Otavio já estava apreensivo pelo "sumiço" de um integrante do grupo e quando Gilda diz o que viu e o papo que teve com Borges então tem a certeza que suas vidas correm perigo.
O ritmo da história é boa e captura nossa atenção por conta de seus personagens execráveis que personificam perfeitamente a elite que usa e abusa dos mais pobres, que em sua grande maioria são negros, pois diante de um país racista e classista não possuem força para se sobressair, o tom sarcástico ajuda na composição e a violência utilizada não só está nas imagens, mas também em suas falas preconceituosas e cheias de si, discursos de ódio que envolvem patriotismo e discriminação.

Destaque para a trilha sonora opressiva composta por Fernando Catatau e os efeitos especiais concebidos por Rodrigo Aragão, outro expoente do cinema de gênero nacional. O filme é muito bem elaborado e garante um suspense pulsante e cenas violentas, angustiante acompanhar personagens cínicos que, na verdade, têm medo. Medo de perderem suas posições privilegiadas, medo que a classe mais baixa obtenha voz, força e ação para que nunca mais deixem serem abusados e devorados. Quando surge Jonas (Zé Maria), que é contratado pelo casal por causa de seu visual e claramente para servir de alimento depois, várias situações tensas o envolvem e que mais adiante o tornam numa espécie de vingador. 

"Brindemos a lealdade que nos une. Nós, homens distintos e devotos aos mais nobres e elevados valores universais, enquanto nos mantivermos leais uns aos outros e aos nossos ideais seremos eternamente merecedores da posição privilegiada que ocupamos neste mundo. Posição esta meus queridos que nos demanda cada vez mais atenção e responsabilidade, pois os nossos inimigos, aqueles que lutam pela degradação dos valores da família, da fé, do trabalho, aqueles que querem transformar o nosso país num país de miseráveis, de delinquentes, de pederastas e de toda a escória social que deveria se encontrar esmagados sob nossos pés, àqueles meus caros, são capazes de todo o tipo de vileza para nos derrubar, mas nós não vamos cair, nunca, jamais, porque somos muitos e somos fortes, enquanto nos mantivermos unidos, leais, fiéis aos nossos ideais nada e nem ninguém irá jamais nos destruir e destruir a nossa pátria. Viva o Brasil! E viva o povo brasileiro".

"O Clube dos Canibais" é um filme potente e mordaz, são cenas que causam asco, como a festa em que ricaços dizem odiar morar num país de terceiro mundo e riem dizendo querer a extinção dos flanelinhas, ou a pior de todas, na reunião, cujo líder Borges se eleva e discursa sobre os valores de família, fé e contra àqueles que querem degradá-los, mais atual que o cenário absurdo em que vivemos impossível, a crítica social e política é visceral e, sem dúvidas, se configura entre os exemplares mais interessantes e ousados do cinema nacional de gênero.  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A Festa (The Party)

"A Festa" (2017) dirigido por Sally Potter (Ginger & Rosa - 2012) é uma comédia dramática com aspecto teatral que disserta sobre infidelidade, visões políticas, ambição, inveja e preconceitos. É um jogo gradativo de intrigas entre os personagens que gera desconforto, o que remete muito ao filme de Polanski, "Deus da Carnificina" - 2011. A comemoração acaba por ser um palco de revelações de profundos segredos e troca de farpas, sentimentos como ansiedade e confusão predominam e segue assim até seu derradeiro fim.
Janet (Kristin Scott Thomas), uma política de esquerda, convida os amigos do partido para comemorar a sua escolha para o cargo de ministra da saúde britânica, coroando um objetivo que ela perseguia há anos. Os amigos também têm suas revelações, como uma gravidez inesperada. Mas é a surpresa revelada pelo marido de Janet, o intelectual Bill (Timothy Spall), que vai transformar completamente o evento. A festa logo se transforma em pesadelo.
Filmado em preto e branco e de curta duração (71 min.), captura a atenção desde seu início com Janet apontando uma arma para nós espectadores, logo somos tragados para dentro de seu apartamento para vivenciar os acontecimentos, feliz com seu novo cargo de ministra da saúde, um objetivo que alcançou com muito esforço e diante do atual momento político se faz uma enorme vitória. A primeira a chegar é sua amiga April (Patricia Clarkson) e o marido Gottfried (Bruno Ganz), Bill (Timothy Spall), o marido, parece deslocado e de antemão pensamos ser pela posição que a esposa se encontra, depois chega o casal Jinny (Emily Mortimer) e Martha (Cherry Jones) que não titubeia em tirar o foco de Janet e contar sobre a gravidez de trigêmeos, April, a sensata e radical não deixa de expor que o foco ali é a comemoração do cargo que Janet ocupará, daí para frente só aumenta as tiradas sarcásticas que April protagoniza, a festa ainda conta com a presença do atormentado Tom (Cillian Murphy), marido de uma colega de trabalho de Janet, ele já chega agitado e coloca muitas dúvidas na nossa cabeça por portar uma arma, quando finalmente brindam, Bill decide revelar um segredo que, por sua vez, termina sendo o estopim para ácidas revelações.

Os assuntos abordados parecem clichês, mas são extremamente atuais e pulsantes, seja no âmbito político ou social, as visões de cada um e suas personalidades prendem a nossa atenção, Gottfried se caracteriza como um life coaching, sempre com palavras aparentemente sábias, mas que não passam de baboseiras de autoajuda, April, a melhor amiga de Janet, manipula e ironiza tudo e todos, soa radical em muitas partes e sensata em muitas outras, Tom, especulador de mercado e cheirador de cocaína está incomodado e confuso, há Martha, amiga de Bill, uma lésbica feminista da terceira idade que é casada com Jinny, que está grávida de trigêmeos, e que no decorrer sofre com inúmeras revelações também. Bill, o marido, impressionantemente passa sua perturbação pelo olhar e detona não uma bomba, mas várias. E, Janet, que estava radiante com seu novo e importante cargo mesmo diante do momento político tenso (pós-Brexit) e tendo seu partido falido acaba por amargar toda a sua ascensão com os segredos que vêm à tona na festa.

É um amontoado de discussões que se desenrolam, como política, preconceitos, infidelidade, amor, feminismo, dinheiro, vaidade, segredos; as relações vão se desconstruindo à medida que as máscaras vão caindo e, justamente por isso, os diálogos vão ganhando tons mais sarcásticos, são atuações primorosas e realmente se assemelha a um espetáculo de teatro, mas sem nunca deixar de ser cinema, a direção precisa com tomadas claustrofóbicas e sua fotografia magnética feita pelo russo Aleksei Rodionov (Vá e Veja - 1985) só enaltecem a experiência do filme.
"A Festa" é um filme recheado de diálogos perspicazes e mordazes, atuações de primeira linha, desenvolvimento crescente e com um final de tirar o fôlego.