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terça-feira, 28 de março de 2023

Copenhagen Cowboy (Série)

"Copenhagen Cowboy" (2022) dirigido por Nicolas Winding Refn (Drive - 2011, O Demônio de Neon - 2016) tem a assinatura do diretor, estilosa, soturna e bizarra, mistura diferentes elementos e gêneros e traz uma originalidade incomum, é um espetáculo misterioso, minucioso e hipnotizante.
Acompanhamos a jornada de Miu (Angela Bundalovic), uma jovem enigmática e lacônica que é comprada por Rosella (Dragana Milutinovic), uma mulher obscura que junto de seu irmão possui um bordel e está inserida no submundo do tráfico de mulheres, ela acredita que Miu tem poderes mágicos que a ajudará engravidar, a sequência de fatos muda a percepção de Rosella e Miu entra numa espiral de vingança pela imundice humana levando de certa forma a justiça. Entre os personagens há Nicklas (Andreas Lykke Jørgensen), metade humano, metade vampiro que cruza o caminho de Miu e que travará um conflito monumental, no caminho ela encontra uma série de pessoas que vivem nesse submundo de crimes, incluindo gangues, tráfico de drogas, esquemas ilegais de todos os tipos e níveis, em meio a essa loucura Miu permanece intacta, seu semblante sempre calmo e direta em suas palavras provoca diversas emoções nesses indivíduos, ela ajuda alguns nesse entremeio com seus poderes, mas parece que tudo que toca inevitavelmente sofre consequências. É bastante intrigante o modo como age, na maior parte do tempo muito lentamente, sua postura estoica e movimentações certeiras nas cenas de ação, além da forma que encontra essas pessoas pelo caminho, parece-se muito com um sonho sombrio. Há uma imensidão peculiar nessa história que mistura elementos de fantasia que passeia pelo sobrenatural e que se mistura aos podres do mundo real. 
O ritmo da série é lenta e hipnotiza tanto pelo modo de filmagem em que a câmera gira sem parar em várias ocasiões, quanto pela estética neon/noir e trilha sonora eletropop/synthpop, além dos enquadramentos perfeitos e que várias vezes remetem a videoclipes,  muitas passagens surrealistas lembram as obras de David Lynch, as respostas dos mistérios por muitas vezes vêm de forma subjetiva e metafórica, ou simplesmente não são respondidas, a narrativa transcorre em moldes próprios e talvez essa dinâmica não agrade tanto, principalmente em seu desfecho.

O apuro estético é um deleite e a maneira incomum que se desenrola a história com personagens excêntricos que vagam pela madrugada de Copenhagen enrolados em maldade e violência e uma heroína aparentemente frágil que não sabe de onde veio para buscar vingança é um tanto inusitado. O sobrenatural se mistura a podridão do mundo real e somos absorvidos por simbologias provocantes e perturbadoras.
 
"Copenhagen Cowboy" é uma série diferenciada dentro do catálogo da Netflix e espero que tenha uma segunda temporada, apesar de achar pouco provável. Vale muito a pena assistir algo que foge das narrativas tão batidas e rasas que séries mais tradicionais trazem, sempre é bom se encantar com perspectivas diversificadas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Ruído Branco (White Noise)

"Ruído Branco" (2022) dirigido por Noah Baumbach (Mistress America - 2015), adaptação da obra-prima de Don DeLillo é um filme ousado que acaba soando estranho e caótico, mas é um estilo de história que agrada um público voraz que não se importa com narrativas difusas e divagações filosóficas acerca do entorno, uma mistura ácida, absurda por vezes, mas que traz um conjunto de ideias maravilhosas para debater após a sessão.
Difícil traçar uma sinopse, pois é uma obra em movimento, pode parecer que não vai para lugar algum, só que ela norteia o assunto e o restante o espectador decide o que fazer com a informação. Jack Gladney (Adam Driver) é um professor universitário de meia-idade especialista em Hitler que se sente frustrado por não saber alemão, ele vive com sua quarta esposa Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos, alguns de casamentos anteriores, é uma família comum que de repente é abalada por um "evento tóxico", uma nuvem de fumaça no horizonte transforma a vida da família que inicialmente se recusa a acreditar na veracidade dos fatos, mas a história não se prende nessa catástrofe, se passa algumas situações engraçadas ou absurdas e logo os vemos novamente vivendo como antes, certamente o paralelo com a pandemia é óbvio e daí pode-se viajar nas ideias, como o negacionismo e o autoengano, e é a partir dessa quebra de normalidade que começamos a perceber o drama existencial de cada um na tela, mas de maneira conturbada e até incômoda, gera ansiedade, pois nem tudo está conectado, são assuntos diferentes que não são aprimorados, tem que isolá-los ou focar naquele que mais te contamine. 
A trama se passa na década de 80 e é extremamente atual todos os pontos exibidos, como o academicismo com sua verborragia e altivez, além da frustração e autodepreciação, o tédio do privilégio, a depressão e a consciência dramática da própria finitude, o encucamento com coisas abstratas que levam à obsessão, o espetáculo do consumismo com o supermercado sendo uma distração com suas paletas de cores, o vício em ansiolíticos, o fetiche em desastres, teorias da conspiração, entre tantas outras.

 "A família é o berço da desinformação do mundo."
 
"Ruído Branco" é provocador, irônico, exagerado, esquisito, mas em alguma questão certamente o filme vai alfinetar o espectador, a espiral que o roteiro faz é uma experiência que atordoa, são situações cotidianas evidenciadas com a lupa do absurdo. 
 
O humor do longa de Baumbach é controverso e vem acompanhado de desespero, a realidade é assustadora e o autoengano faz parte do mecanismo para a sobrevivência das avalanches ocasionadas dia a dia, daí também parte para os vícios, sejam eles dos mais variados para estar num lugar mais confortável.
Filosofia afiada com altas doses de humor por vezes irritante e ridículo e outras sombrio e sarcástico, encarar a realidade e o entorno é um exercício cruel e indigesto, o filme faz isso muito bem e talvez não agrade exatamente por esse motivo, o som que vem dele é desarmônico e bastante desagradável.
*Disponível no catálogo da Netflix!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Melhores Séries Vistas de 2022

  

Segue uma singela lista das melhores séries vistas de 2022, são obras de imensa qualidade e com certeza inesquecíveis.

07- "Amor e Anarquia" (Kärlek & Anarki - Suécia) 2 Temporadas - 2020/2022

Amor e Anarquia conta a história de Sofie Rydman (Ida Engvoll), uma consultora bem-sucedida, casada e mãe de dois filhos. Quando Sofie é contratada para modernizar uma antiga editora, ela conhece o jovem técnico de TI Max Järvi (Björn Mosten), iniciando um arriscado jogo de flerte com ele. Secretamente, Sofie e Max se desafiam a tomar atitudes e decisões que contradigam as normas sociais. A brincadeira parece inofensiva, mas, à medida que os desafios aumentam, os dois precisam lidar com as perigosas consequências de sua relação. 

06- "Terra à Venda" (Grond - Bélgica) 1 Temporada - 2022

Em Soil, quando um imigrante muçulmano morre na Bélgica, a família enfrenta o dilema de enterrar o corpo no país em que se encontram, ou realizar o desejo do falecido e retornarem para sua terra natal. Isso desperta no jovem Ishmael “Smile” Boulasmoum o desejo de começar um novo empreendimento. Ele e sua irmã acabaram de herdar os negócios do pai, e Smile acredita que exista uma oportunidade incrível para eles se começarem a trazer terra do Marrocos para que os imigrantes possam enterrar seus familiares no solo de sua nação. A partir disso, a família começa um negócio funerário que, apesar de lucrativo, irá se mostrar cheio de obstáculos e imprevisibilidades no caminho ao sucesso. 

05- "As Vidas Secretas da Família Uysal" (Uysallar - Turquia) 1 temporada - 2022

Oktay Uysal (Öner Erkan), um arquiteto de 44 anos está passando por uma séria crise de meia-idade. Oktay está tentando superar a ansiedade desse momento importante vivendo uma vida dupla. A primeira vista, ele aparenta ser apenas mais um pai de família, com um carro, uma casa e um trabalho que paga as contas. Por trás dessa fachada condicionada, ele é um punk como sempre foi quando era jovem. Dessa forma, Oktay decide retornar às suas raízes: usar roupas rasgadas, moicano e ouvir música barulhenta. Contudo, Oktay não é o único passando por um momento difícil. Em casa, cada pessoa de sua família passa por suas próprias crises de identidade e, eventualmente, suas jornadas individuais irão se chocar com o lado punk escondido de Oktay. Só elogios para essa série que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.

04- "Ollie, o Coelhinho Perdido" (Lost Ollie - EUA) 1 Temporada - 2022


A minissérie mistura duas narrativas complementares para compor uma bonita história de amizade. De um lado, acompanhamos a épica jornada de um brinquedo, que precisa enfrentar alguns desafios para reencontrar o menino que o perdeu. Ao mesmo tempo, conhecemos também a história dessa criança, que no processo acabou perdendo muito mais do que seu melhor amigo. A produção nos convida a olhar para o passado e lembrar daqueles companheiros que já deixamos para trás, mas que foram tão importantes em nossas vidas.

03- "Dahmer: Um Canibal Americano" (Monster: The Jeffrey Dahmer Story - EUA) 1 Temporada - 2022

Dahmer: Um Canibal Americano, minissérie de Ryan Murphy, acompanha a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters). A produção explora a juventude do assassino até sua vida adulta e traz um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos. Nascido na cidade de Milwaukee, Dahmer aterrorizou o estado de Wisconsin na década de 1980. Além dos brutais assassinatos, Jeffrey também cometia violência sexual e tortura contra sua vítimas. Seus crimes hediondos o tornaram um dos serial killers mais conhecidos e temidos dos Estados Unidos. Mesmo sua vizinha, Glenda Cleveland (Niecy Nash), tentando de várias maneiras denunciar o comportamento suspeito de Dahmer durante anos, a polícia a ignorou, facilitando os atos do serial killer. Tendo como alvo principalmente homens gays negros, Dahmer saiu impune por anos pelo simples fato das autoridades ignorarem o desaparecimento da vítimas. 

02- "O Urso" (The Bear - EUA) 1 Temporada - 2022

Na série de comédia dramática The Bear, Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem chef que herda um restaurante e tenta transformar o lugar em um grande negócio. No entanto, Carmy enfrenta várias dificuldades e busca ajuda nos diversos funcionários para tentar melhorar e transformar o The Beef em um dos maiores e melhores restaurantes de Chicago. A trama explora como cada personagem lida com suas vidas pessoais enquanto tentam alavancar suas carreiras na indústria alimentícia. Além das ambições profissionais e a rotina estressante do restaurante, a relação de Carmy com a família é cheia de tensão, especialmente depois do suicídio do irmão que impactou a todos. A produção discute comida, família e a rotina insana dos restaurantes. Carmy batalha para elevar seu estabelecimento e a si mesmo ao lado da equipe de cozinha carrancuda que aos poucos se transforma em uma nova família. 

01- "Better Call Saul" (EUA) 6 Temporadas - 2015/2022

Gus Fring (Giancarlo Esposito) está firme em sua decisão de acabar com os Salamanca, o que deixa Nacho (Michael Mando) em uma posição cada vez mais desconfortável, trabalhando para os dois lados. Enquanto isso, Saul (Bob Odenkirk) e Kim (Rhea Seehorn) se esforçam para desacreditar Howard (Patrick Fabian) na tentativa de concluir o caso Sandpiper. Paralelamente, através de vislumbres do futuro, acompanhamos a nova vida de Saul e os percalços por ele enfrentados após seu envolvimento nos negócios de Walter White (Bryan Cranston). História fechada com chave de ouro, uma obra-prima e sem dúvida, a melhor spin-off da história das séries de TV. Personagens icônicos!

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Minha Vida Perfeita (Moje Wspaniale Zycie)

"Minha Vida Perfeita" (2021) dirigido por Lukasz Grzegorzek (A Filha de um Treinador - 2018) é um filme polonês que retrata as facetas de uma mulher que possui muitas responsabilidades e que diante da falta de afeto da família cria uma vida paralela da qual mais a frente acarretará uma série de paranoias e um amontoado de desentendimentos.
Joanna (Agata Buzek), de meia-idade, tenta incansavelmente conciliar ser mãe, filha, avó, esposa, amante, dona de casa e professora do ensino médio. Mas ela parece estar perdendo a paciência. Joanna é uma mulher que detém grandes responsabilidades, principalmente com a mãe que está perdendo a memória devido ao Alzheimer, além disso precisa lidar com a presença do filho mais velho que mora na casa com sua esposa e o bebê, não existe um tempo para si dentro dessa configuração que ainda inclui seu marido, o diretor da escola que leciona e o filho adolescente que parece não suportar o ambiente e se fecha em seu mundo. Ela só respira quando depois de suas aulas particulares na antiga casa de sua mãe coloca uma música alta e fuma um baseado, lá ela encontra sua feminilidade novamente e se encontra com um professor excêntrico, são momentos únicos e que servem para entendermos seu cansaço em relação a tudo. 
A história não está interessada no que é certo ou errado, simplesmente desenvolve a narrativa de maneira intimista e cadenciada a fim de expor a vida como ela é realmente, sem grandes acontecimentos, mas revela o quanto vale um diálogo na tomada de decisões importantes, porém nem sempre a vontade de conversar existe, o que torna algo que poderia ser resolvido facilmente em algo desconfortável. É interessante observar o cotidiano dessa família, não há floreios e nem força a barra criando situações para entreter o espectador, mas por muitas vezes a tensão cumpre seu papel nos dando a oportunidade de tentar deduzir quem estará por trás dos bilhetes deixados para Joanna em razão de sua infidelidade, a paranoia agrava quando acha que é algum de seus alunos e o segredo fica cada vez mais difícil de ser mantido. As maneiras que encontra para desvendar quem está por trás das mensagens são tão estranhas que por fim torna todos dessa trama em seres completamente egoístas e sem nenhum elo de afeto, todos ali estão convivendo sob o mesmo teto sem necessariamente se importar, o fato de Joanna não ceder a casa da mãe para o filho mais velho morar - sendo que isso tiraria um baita peso de suas costas - é que ela não quer ser invadida em mais outro espaço, necessita desse momento em que se torna ela mesma sem se importar com sua imagem de mulher perfeita.

É um filme para se assistir sem grandes expectativas, simplesmente é o retrato da vida de uma família que possui defeitos um tanto desagradáveis, e também veja sem julgamentos até porque nunca é por uma única razão que tais coisas acontecem, como a traição por exemplo, e o fato de suas tomadas de decisões ou a falta delas incomodam, mas claramente porque estamos de fora analisando, a complexidade norteia essas questões e o desfecho revela ainda mais essas camadas, como a que envolve o filho adolescente e suas motivações e o grand finale dela chorando com a mãe, os filhos e nora a abraçando, inclusive com o marido presente e logo após o amante chegando visualizando a cena.
 
"Minha Vida Perfeita" pode não agradar por não estar nos moldes convencionais de narrativa e pode parecer um tanto lento e sem foco, mas os personagens e suas ações desconfortáveis nos dizem muito sobre relações e sobre como a maioria lida com a imagem da família perfeita, e essencialmente do como a sociedade enxerga a mulher que é responsável por um conjunto de obrigações que acabam a anulando. Ainda que trate dessas complexidades do ser humano é um filme leve e até descontraído. É sempre vantajoso exercitar o diálogo, mas nem sempre é fácil e nem sempre se quer ter conversas, pois é muito mais fácil seguir com os segredos.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

10 Filmes Agradáveis (Para Ver Quando o Coração Pesar)

Segue uma lista feita com carinho para os corações afogados, seja por qualquer motivo, eu mesma estou numa fase de não conseguir ver filmes com temas pesados e muito reflexivos, mas também isso não significa que as histórias precisam ser bobas e efêmeras. Os selecionados aqui servem para aquecer como um abraço, espairecer a mente, chorar sorrindo e despertar desejos.

10- "Prazer, Kalinda" (Bo We Mnie Jest Seks - 2022) Polônia

Kalina Jędrusik, a maior estrela da Polônia nos anos 60, está no auge da fama, mas precisa enfrentar um oficial desprezado que ameaça destruir sua carreira. Maria Dębska estrela a biografia musical de Katarzyna Klimkiewicz sobre a diva rebelde da Polônia dos anos 60 e 70. Um filme que retrata um ícone feminino da Polônia, uma mulher deslumbrante com uma personalidade livre, que resistiu ao machismo e ao assédio. Um filme que inspira o despertar de sentimentos de autonomia feminino.

09- "Dry Martina" (2018) Argentina/Chile

Martina (Antonella Costa) é uma ex-estrela pop que fez muito sucesso na Argentina durante os anos 90. Agora, sem fama ou qualquer tipo de relacionamento, ela não sabe que direção tomar na vida. Mas a chegada de uma irmã desaparecida com um namorado atraente chama a atenção de Martina e mexe em seu desejo adormecido. Um filme leve que se dobra a sua protagonista decadente, mas com anseios e intenções intensas, as relações que se formam durante a história só provam a sua necessidade de calor humano, um filme que vibra na feminilidade e desejos, sobretudo a afabilidade.

08- "Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (Elvira - Te Daría Mi Vida, pero la Estoy Usando - 2014) México

Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido. Uma dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.

07- "Granizo" (2022) Argentina

Miguel Flores é um famoso meteorologista que é tão famoso que tem seu próprio programa de televisão que é conhecido por nunca errar a previsão do tempo no país. Tendo estudado na disciplina por seis anos e, trabalhando na área há anos, se Miguel garante, deve acontecer do jeito que ele previu. Um filme para amainar a vida, cheio de conflitos que se desenrolam de maneira eficaz e deliciosa, um protagonista carismático que com bom humor norteia várias nuances da vida.

06- "O Confeiteiro" (The Cakemaker - 2017) Alemanha/Israel

Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.

05- "Hanami - Cerejeiras em Flor" (Kirschblüten: Hanami - 2008) Alemanha

Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner) é um lindo casal da terceira idade que leva uma vida rotineira e tranquila. Porém, ao receber a notícia de que seu marido está com uma doença que lhe dá poucos meses de vida, os médicos aconselham a Trudi que tenha cuidado ao contar sobre a enfermidade e sugere que o casal aproveite os últimos momentos para viajar ou realizar alguns de seus sonhos. Sem contar ao marido da doença, Trudi o convence a saírem do interior da Alemanha e irem a Berlim visitarem os filhos. Sem tempo para os pais, o casal vê o quanto eles se transformaram a ponto de considerar a breve visita um verdadeiro incômodo. A situação se agrava quando, ironicamente, Trudi morre, deixando seu marido sozinho em meio ao desprezo dos filhos. Ao voltar para sua cidade, Rudi decide se aprofundar nos pertences de sua mulher, e assim descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o Monte Fuji, no Japão.

04- "Ninguém Sabe que Estou Aqui" (Nadie Sabe que Estoy Aquí - 2020) Chile

Memo (Jorge Garcia), mora em uma remota fazenda de ovelhas no Chile e esconde sua linda voz do mundo. Traumatizado por acontecimentos do passado, ele vive de maneira solitária, até que uma mulher lhe oferece a chance de encontrar a paz que tanto procura. Belíssimo filme que mexe bastante com nossa sensibilidade, contém cenas poéticas e memoráveis, além da interpretação visceral de maneira contida de Jorge Garcia. Um filme extremamente bonito que enche o coração de emoção.

 03- "A Incrível Jornada de Jacqueline" (La Vache - 2016) França

Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
Um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.

 
02- "A Costureira dos Sonhos" (Sir - 2018) Índia

Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos. Um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.

01- "Café com Canela" (2017) Brasil

Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
Apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

As Vidas Secretas da Família Uysal (Uysallar)

"As Vidas Secretas da Família Uysal" (2022) dirigido por Onur Saylak é uma minissérie turca espetacular disponível no catálogo da Netflix, uma história repleta de camadas que vai desnudando os personagens pouco a pouco, que provoca o espectador fazendo oscilar nossos sentimentos diante às ações de cada um. Com 8 episódios acompanhamos a família Uysal, que passa por uma crise, todos sem exceção têm suas perturbações e estão à beira de um colapso. Oktay (Öner Erkan) é um arquiteto de 44 anos que se vê sufocado com a rotina, emprego e família, não suporta mais viver desse jeito e resolve escrever uma carta se despedindo, mas acaba que ele desiste e a esconde. No seu íntimo vive uma chama esquecida e a partir de uma visita que faz a sua antiga cidade decide reviver seu "verdadeiro" eu, e então uma vida dupla se inicia, de dia enfrenta os percalços do trabalho e seu chefe instável, Berhudar (Haluk Bilginer), tentando projetar uma prisão que nunca sai, e a noite coloca sua jaqueta cheia de spikes com a escrita "amante do caos" e seu enorme moicano colorido. Mas não é só Oktay que está enfrentando uma crise, sua esposa Nil (Songül Öden) que quer retornar ao mercado de trabalho não consegue por ser considerada velha e isso só faz aumentar sua obsessão com a aparência e sua ânsia por procedimentos estéticos, além de que se infiltra numa teia de mentiras que acarretará uma consequência inesperada. Os filhos também estão perdidos, o adolescente Ege (Umut Yesildag) que claramente possui traços psicopatas e a pequena Ece (Nilay Yeral), uma menina inteligente que não tem nenhuma atenção e que busca um pouco disso numa vizinha. Há também Olcay (Ugur Yucel), o pai tóxico de Oktay. A cada episódio o enredo nos arremessa diante das atitudes desses personagens que estão infelizes mesmo tendo uma condição financeira elevada, a distância só faz esses segredos se tornarem cada vez mais fortes e os sentimentos perante eles mudam a cada instante, ora sentimos empatia, ora asco, a complexidade e o caráter reflexivo dá um ar beirando o perturbador, pois são inúmeras as questões que surgem, como por exemplo, a hipocrisia, o egoísmo, o machismo, a indiferença, a máscara social, e com o passar dos episódios Oktay vai se tornando uma chacota, isso se concretiza ao final quando o amigo expõe a sua mediocridade e hipocrisia, que aquela fantasia nada tem a ver com ser punk, as relações que ele formou com os três desabrigados, esses sim lutando contra o sistema só aumenta as características de uma pessoa entediada e covarde.

Só elogios para essa minissérie que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.
 
"As Vidas Secretas da Família Uysal" é uma minissérie que merece o reconhecimento, bem feita e que foge das produções turcas que se assemelham a dramalhões novelescos e que usam de artifícios básicos e comuns para fisgar o espectador, vale destacar o roteirista Hakan Gunday, que tem outras séries maravilhosas em seu currículo, como "Assassino sem Passado" e "Şahsiyet". Enfim, ainda vale enaltecer o trabalho dos atores e, principalmente, de Haluk Bilginer, como Berhudar, que compôs um personagem cheio de camadas que com o tempo só piorava. Sensacional!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

The Eddy (Minissérie)

 
"The Eddy" (2020) minissérie disponível no catálogo da Netflix é um achado maravilhoso que cativa com toda sua musicalidade e sentimentos complexos, com personagens apaixonantes somos absorvidos por uma aura de melancolia numa Paris pulsante onde predominantemente o que se sobressai é a veneração pelo jazz e os laços afetivos que são construídos a partir dele.
Dirigido por Damien Chazelle (Whiplash - 2014, La La Land - 2016) acompanhamos em oito episódios a história de Elliot (André Holland), um exímio pianista que abandonou a carreira após uma tragédia familiar e partiu sozinho para Paris onde abriu uma casa de show especializada em jazz junto de seu melhor amigo Farid (Tahar Rahim). Elliot não é uma pessoa fácil de lidar, é extremamente perfeccionista e a banda intitulada The Eddy composta pelos melhores músicos é a sua vida, conhecemos alguns integrantes mais de perto em episódios dedicados a eles, como Maya (Joanna Kulig) que precisa lidar com frustrações na carreira e sua relação conturbada com Elliot e Jude (Damian Nueva), que esbanja autenticidade e afeto. Elliot precisa dar um jeito em sua vida, há muitas pontas soltas e depois da morte misteriosa de seu sócio e amigo sua vida vai ladeira abaixo, são muitas coisas para resolver, problemas com o clube, coisas ocultas que Farid fazia e além disso, sua filha Julie (Amandla Stenberg) vem morar em Paris e tentar criar laços com o pai, mas é uma tarefa muito difícil e nenhum dos dois estão preparados, ela acaba indo morar na casa da viúva de Farid, Amira (Leïla Bekhti).
A trama policial acaba desviando muito o tom da série, é uma lástima infelizmente, acaba perdendo muito o contexto dramático dos personagens que são ricos e densos em suas mais diversas camadas, isso se deve a excelência das interpretações, inclusive os integrantes da banda são músicos na vida real que nunca interpretaram. A parte musical é linda e empolgante e por isso nem importa tanto as decaídas que o roteiro dá. Outro ponto positivo é que a história é repleta de diversidade, a Paris retratada é recheada de culturas, onde imigrantes lutam pelo seu espaço ao lidar com preconceito e desigualdade. 
 
A minissérie tem episódios marcantes, vibrantes, melancólicos e apesar da trama escorregar no lado policial tem fascinantes cenas em que a música impera nos proporcionando beleza ao ver a paixão que exala dos músicos, mais orgânico impossível. As histórias se desenrolam de maneira contida e por mais que soe arrastada em alguns pontos vale muito assisti-la.
 
"The Eddy" é uma minissérie vibrante pelo jazz e tocante pelas histórias que acompanhamos, até poderia se aprofundar em mais personagens, as diversas personalidades são apaixonantes, mas também complexas e caóticas, e mesmo que hajam desentendimentos e conflitos o afeto sempre norteia essas relações. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Filha Perdida (The Lost Daughter)

"A Filha Perdida" (2021) dirigido por Maggie Gyllenhaal e estrelado por Olivia Colman exibe as complexidades do feminino entre simbolismos e passagens que nos faz refletir sobre a maternidade e a enorme responsabilidade que cai sobre a mulher, tanto no quesito de estar fisicamente presente suprindo as necessidades do filho, como nas emoções tendo que até muitas vezes fingir e suprimir seus próprios anseios. É a tal da romantização da maternidade. O fato é que sentimentos são complexos e cada um tem seus próprios meios de lidar com eles. Mergulhamos junto a Leda em suas lembranças, um recorte verdadeiro e sem floreios de uma mãe.
Ao mesmo tempo que é um filme introspectivo e lento também é exuberante e potente, tanto na incrível presença de Olívia Colman que nos remexe por dentro ao observamos seus medos e desejos enquanto exerce a maternidade, quanto na sensação que causa durante a sua estadia no litoral em que fica obcecada por Nina (Dakota Johnson) e sua filhinha. Leda é uma mulher elegante, erudita, que decide passar as férias à beira-mar, um local idílico inicialmente, onde busca calma, mas esse cenário é quebrado quando surge uma grande e barulhenta família que praticamente toma conta da praia. Ela observa cada passo e ato de Nina e sua filha, relembra seu passado e realmente não dá para perceber claramente o interesse dela nas duas, memórias afetivas, compadecimento ou apenas diversão em ver as birras da menina, tudo fica ainda mais estranho, principalmente, quando a garotinha "perde" a boneca. O episódio em que a menina se perde e Leda a encontra acaba aproximando essa família dela e daí surge um cenário nebuloso.
É mostrado nos entremeios o passado de Leda, que não consegue conciliar sua carreira e a maternidade, ela almeja conquistar sucesso, menospreza o marido e não pensa duas vezes ao abandonar as duas filhas com ele. Segue seu caminho na universidade, aproveita sua vida e então volta para as meninas, e isso é dito por ela sem um pingo de arrependimento, não há nada que a faça sentir remorso, suas lembranças são apenas lembranças. Ela possui angústias, mas é de cunho egoísta, age de maneira impulsiva e até grosseira, quando observa Nina e sua filhinha relembra dos perrengues vividos no passado, no peso da responsabilidade e na inabilidade em ser mãe. Essas questões são muito exploradas e garante ao espectador repensar na pressão que acompanha a maternidade, o quanto a mulher é julgada por seus atos e escolhas e o como não há a compreensão de que esta continua sendo mulher com desejos e anseios para além de ter que criar os filhos. O abandono e a infidelidade quando vem do lado da mulher pesa imensamente mais e ao ver Leda tão dona de si e agindo deliberadamente causa impacto.

Uma excelente obra que mostra que a maternidade não é plenitude e sim um misto de sentimentos e tomadas de decisões que causam uma série de traumas, claro que também é mostrado o lado bom e simples, como a repetida cena das meninas pedindo para a mãe descascar a laranja sem que quebre a casca. A sinceridade e a contemplação marcam a história que possui simbolismos e questões pertinentes, além de um elenco maravilhoso, cujo protagonismo de Olivia Colman, que apesar de silenciosa possui rompantes que perturbam.
 
"A Filha Perdida" é uma adaptação do romance da escritora Elena Ferrante e marca a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal que com perspicácia e franqueza coloca as aflições, a ansiedade, o medo e a dificuldade da mulher em ser muitas, pode até ser chocante porque esse lado quase nunca é discutido, mas na verdade é aliviante e abre novas perspectivas sobre a tão idealizada maternidade.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pequenos Delitos (Small Crimes) / Sem Perdão (Shot Caller)

Segue dois filmes disponíveis no catálogo da Netflix que retratam o mesmo tema com o mesmo ator e ambos produzidos no mesmo ano. São obras realistas, sombrias e que se debruçam no caráter de seus protagonistas. Confira:

"Pequenos Delitos" (2017) dirigido por E.L. Katz é um filme que possui uma narrativa interessante que avança com tons de humor ácido para uma violência gradativa, o protagonista carrega o caos para onde quer que vá, destrói tudo que o cerca. Uma composição maravilhosa de Nikolaj Coster-Waldau, intérprete do icônico Jaime Lannister.
Acompanhamos Joe Denton, um ex-policial corrupto que após cumprir seis anos de prisão volta para a casa dos pais a fim de reconstruir a vida, mas logo de cara percebemos que seu passado e sua personalidade intempestiva não o deixará atingir seus desejos. Ele quer se reconectar com a filha, assumir o controle da vida, mas aos poucos se dá conta que ninguém quer contato com ele e que nunca vai ser perdoado pelo crime cometido, as pessoas ao redor não admitirão a sua reintegração à sociedade e somado a isso tudo vem uma sucessão de problemas não resolvidos que acabam atingindo os mais próximos, o personagem se molda de uma maneira decadente, o desenrolar vai o desconstruindo e apesar de gerar empatia no início suas atitudes vão causando repulsa, uma incrível composição de Nicolaj que só pela sua postura já demonstra sua personalidade instável. O filme captura nossa atenção e mexe bastante com nossos nervos ao passar por tons de sarcasmo e obscuridade atingindo um ápice memorável! 

"Sem Perdão" (2017) dirigido por Ric Roman Waugh é um filme intenso que nos insere na vida de Jacob/Money, vivido magnificamente por Nikolaj Coster-Waldau, um empresário de colarinho branco que acaba se envolvendo em um acidente e vai parar na cadeia, lá desolado pela situação aprende a sobreviver e entra para uma gangue extremamente perigosa, a narrativa é pontuada por flashbacks que demonstram alguns motivos pelos quais entrou para o mundo do crime e sua ascensão através da violência.
Impressionante a construção do personagem, ele realmente muda muito durante o desenrolar, não só fisicamente, mas também sua postura e modo de enxergar a vida, na prisão cada vez mais se envolve em esquemas que o leva a se afundar e assim não o favorecendo a obter sua liberdade, mas em compensação sua fama e poder lhe fornece respeito de todos os detentos e de muitos agentes penitenciários. É uma onda que o engole e o joga para longe do que foi sua vida anterior, ele se insere até rapidamente na gangue e se alia aos mais fortes, incluindo Frank (Jon Bernthal) e Bottles (Jeffrey Donovan), mas seu processo de transformação é marcante pela aceitação da violência, e se tem uma coisa que esse filme faz é retratar as ações violentas de modo realista e seco, outro ponto é não entregar os possíveis desfechos, o que importa realmente é acompanhar a complexidade do personagem nessa trajetória pelo sistema penitenciário, onde ele experimenta altas doses de fúria e sofrimento. 

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando (Elvira - Te Daría Mi Vida Pero la Estoy Usando)

"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (2014) dirigido por Manolo Caro - da série "A Casa das Flores" (2018) é um filme mexicano de dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido.
Cecilia Suárez abrilhanta o filme com uma maravilhosa personagem que vai de uma mulher cercada pelos afazeres domésticos e pela criação dos filhos para uma transformação avassaladora que a liberta e a faz se conhecer e se amar. Tudo acontece numa madrugada quando Gustavo decide dar a velha desculpa do ir comprar os cigarros e já volto e não retornar mais, desesperada Elvira começa buscar pistas e inventar coisas para que as pessoas ao redor não vejam que está abandonada e conta com a ajuda de uma vizinha carente que lhe auxilia com os dois filhos, ela precisa arranjar um emprego e sempre com a desculpa de que o dinheiro não está sendo suficiente, Gustavo trabalha numa companhia de seguros e emprego mais formal que esse não existe, o que desencadeia o espanto quando descobre o que de fato aconteceu, um turbilhão de sentimentos invade Elvira e dia após dia continua a esconder a ausência do marido e se empenha em descobrir seu paradeiro, angustiada recorre a uma amiga que possui uma funerária e pede um emprego, o fato é que ela não sabe fazer nada e ela própria diz que o que faz de melhor é chorar, portanto, ali seria uma maneira de ganhar dinheiro e colocar seus sentimentos para fora. Vamos juntos de Elvira, a cada passo e a cada escolha que faz para tentar achar soluções, também estamos bem perto dela quando inicia sua transformação ao cortar o cabelo, já de certa forma uma outra mulher pronta para encarar os obstáculos, entre tantas loucuras por quais passa, pois após descobrir que Gustavo fugiu com um amante que conheceu em seu trabalho ela pira e começa a enxergar o rapaz em Ricardo (Luis Gerardo Méndez), um dos funcionários da funerária, os dois começam a se envolver e Elvira o leva justamente para o local em que se encontra Gustavo e o amante.

O misto de sensações que a história provoca ganha nossa atenção e transforma a tensão de muitos momentos em alívio, a montanha russa de sentimentos por qual a protagonista atravessa é de enlouquecer, mas passa, e é bom ver sua transformação e libertação, aliás muito bem conduzida, sem pressa e de acordo com os acontecimentos, fica a reflexão de que precisamos nos escutar mais e aceitar quem somos, levar a sério nossos desejos e escolhas, pois as consequências delas podem ser amargas e traumáticas. 

"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" é uma delícia e não bobeia na importância da mensagem, além do mais possui uma trilha sonora apaixonante que traz à tona canções regionais, vide a música tema "Suavecito", de Laura Léon, e também com a versão mais atual com a doce voz de Julieta Venegas. A melodia se encaixa perfeitamente à narrativa e não há melhor definição para o filme do que Suavecito, suavecito!

terça-feira, 5 de maio de 2020

11 Filmes Sobre Alienígenas / Terror Cósmico

Segue a lista de filmes que abordam a vida extraterrestre, alienígenas e criaturas estranhas vindas das profundidades do universo, alguns flertam com o terror cósmico, outros já assumem uma postura mais dramática e que refletem a nossa sociedade, todos muito intrigantes e que merecem destaque dentro dessa temática. Confira:

11- "Terra para Echo" (2014) EUA
Depois que uma construção começa a escavar em sua vizinhança , os amigos Tuck, Munch e Alex inexplicavelmente começam a receber estranhas mensagens codificadas em seus celulares. Convencidos de que algo está acontecendo, eles procuram seus pais e as autoridades. Quando todos ao seu redor se recusam a levar a sério as mensagens, os três embarcam em uma aventura secreta para decifrar o código e segui-lo até sua fonte. Mas cuidar do assunto por conta própria coloca o trio diante de algo além da sua imaginação quando se deparam com um misterioso ser de outro mundo precisando de ajuda.

10- "The Hole in the Ground" (2019) Irlanda
Enquanto tenta escapar de um passado conturbado, a jovem Sarah (Seána Kerslake) luta para reconstruir sua vida em uma cidade no interior da Irlanda com seu filho, Chris (James Quinn Markey). Tudo vai bem, até que um encontro misterioso com um novo vizinho faz com que Sarah entre em uma onda crescente de medo e perseguição, fazendo-a duvidar a respeito do que é real e o que não é.

09- "Contato Visceral" (Wounds - 2019) EUA/UK
Depois que um cliente do bar onde Will (Armie Hammer) trabalha esquece o seu celular no balcão devido a um incidente atípico, ele decide levar o aparelho para casa. No dia seguinte, Will começa a receber estranhas mensagens ameaçadoras e tenta não se envolver em nada, mas rapidamente eventos bizarros e aterrorizantes tomam conta da situação.

08- "Spring" (2014) EUA
Após a morte de sua mãe, o inconsolável Evan vai afogar as mágoas com seus amigos no bar onde trabalha. No entanto, ele se envolve numa briga que acaba fazendo com que seu chefe o demita. Sem rumo e com a possibilidade de ser perseguido por seu novo desafeto, Evan decide viajar para fugir de seus problemas. Numa pequena e turística cidade costeira na Itália, ele conhece e se interessa por uma linda e misteriosa mulher. Logo se torna claro que ela possui segredos obscuros que podem destruí-los. Uma produção de baixo orçamento que passeia por alguns gêneros, como romance, horror e ficção científica, no próprio cartaz do filme está escrito: "Um híbrido entre Richard Linklater e H.P. Lovecraft". Saiba+

07- "A Região Selvagem" (La Región Salvaje - 2016) México
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre. Um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção. Saiba+

06- "A Chegada" (Arrival - 2016) Canadá/EUA
Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade.

05- "Sob a Pele" (Under the Skin - 2013) UK
Um alienígena (Scarlett Johansson) chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade voraz... Mas ao longo do processo, ela descobre uma inesperada porção de humanidade em si mesma.

04- "Vivarium" (2019) EUA
Quando o casal de noivos Tom (Jesse Eisenberg) e Gemma (Imogen Poots), à procura da casa perfeita para começar a vida juntos, conhecem um estranho corretor imobiliário, eles não pensam duas vezes quando são apresentados à Yonder, uma misteriosa vizinhança suburbana de casas idênticas. No entanto, logo eles vão perceber que estão presos em um pesadelo - tendo que criar uma criança de outro mundo. Um filme que aborda de maneira peculiar a vida doméstica, os papéis e estereótipos que cada um carrega dentro desse modelo, as responsabilidades da maternidade, os compromissos da paternidade e o truque do tempo que absorve o cotidiano e faz envelhecer. É uma proposta criativa que prende o espectador junto da armadilha montada. Saiba+

03- "A Cor que Caiu do Espaço" (Colour Out of Space - 2020) EUA
Os Gardners são uma família que se muda para uma fazenda remota na zona rural da Nova Inglaterra para escapar da agitação do século XXI. Eles estão ocupados se adaptando à sua nova vida quando um meteorito cai no seu quintal da frente. O misterioso aerólito parece fundir-se com a terra, infectando tanto a terra quanto as propriedades do espaço-tempo com uma estranha cor sobrenatural. Para seu horror, a família Gardner descobre que essa força alienígena está gradualmente transformando todas as formas de vida que ela toca… incluindo-as.

02- "O Culto" (The Endless - 2018) EUA
Dois irmãos, Justin e Aaron, foram criados num culto religioso do qual fugiram quando Justin percebeu a possibilidade da ocorrência de um suicídio em massa. Dez anos depois, eles, recebem uma mensagem em vídeo bastante enigmática. Nela, um membro do culto fala de uma ‘ascensão’ iminente e então resolvem regressar ao local aonde eram realizados os cultos em busca de respostas. Mas, ao chegarem, descobrem que o ‘culto’ pode afinal não ser o que pensavam e começam a duvidar, inclusive, se serão bem-vindos. "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido", e é na atmosfera de criaturas lovecraftianas que o filme se inicia, mas não se engane com o que parece ser simplesmente uma seita de adoração a seres extraterrestres, pois a história é uma reflexão contundente sobre a existência, as repetições, a rotina e o conformismo, de maneira intrigante o roteiro vai se desnovelando, porém sem dar respostas concretas, a percepção é individual. Saiba+

01- "Distrito 9" (District 9 - 2009) África do Sul/EUA/Canadá
Há 20 anos uma gigantesca nave espacial pairou sobre Joanesburgo, capital da África do Sul. Como estava defeituosa, milhões de seres alienígenas foram obrigados a descer à Terra. Eles foram confinados no Distrito 9, um local com péssimas condições e onde são constantemente maltratados pelo governo. Pressionado por problemas políticos e financeiros, o governo local deseja transferir os alienígenas para outra área. Para tanto é preciso realizar um despejo geral, o que cria atritos com os extra-terrestres. Durante este processo Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), um funcionário do governo, é contaminado por um fluido alienígena. A partir de então ele se torna um simbionte, já que seu organismo gera algumas partes extraterrestres. Com o governo desejando usá-lo como arma política, Wikus conta apenas com a ajuda do extraterrestre Christopher para escapar.