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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Lámen Shop (Ramen Teh)

"Lámen Shop" (2018) dirigido por Eric Khoo (Be With Me -2005) é um filme delicioso e emocionante que retrata através de receitas culinárias laços e traumas familiares juntamente com suas tradições, é uma jornada gastronômica rica em sabores, sentimentos e aprendizados.
Masato (Takumi Saitoh) trabalha no restaurante da família, um dos estabelecimentos de lámen mais reputados em todo o Japão. Quando ele perde o pai, o jovem chef decide buscar as raízes culinárias e históricas do pai e da mãe, também falecida. Através de um diário e de cartas, Masato faz um caminho através de China, Japão e Singapura, confrontando-se com seus próprios traumas e os caminhos pelos quais seus pais passaram. Ele decide então acertar as contas com o passado.
Masato tem uma relação distante com o pai e seu único elo afetivo é o tio que também ajuda no restaurante de lámen, o motivo de seu pai estar afogado na bebida e ser tão fechado é por conta da morte de sua esposa e tantas coisas do passado, o filho não consegue compreender exatamente o comportamento do pai e somente quando este falece que Masato decide se enveredar pela história dos pais e a sua própria já que ele não se lembra de muita coisa, Masato então parte para Singapura, local onde tudo aconteceu. Somos contemplados por alguns flashes do passado em que seu pai vai para Singapura se especializar em culinária Kaiseki, tida como uma filosofia, apaixonado pelo tradicional prato Bak Kut Teh conhece num restaurante o amor da sua vida, mas esse relacionamento vai ser marcado por inúmeros contratempos e decisões importantes e derradeiras. Diante de todos os lugares por quais seus pais passaram Masato vai resgatando memórias e com a ajuda de uma amiga descobrindo através do diário de sua mãe pontos de vista diferentes sobre sua família, enquanto isso comidas tradicionais apetitosas fazem um elo sensível com valores familiares.
A relação com a comida é bela e encanta, desde a escolha dos ingredientes e o cuidado com o preparo até o momento de servir e comer, tudo é retratado com delicadeza para que nunca se rompa as camadas de afeto que unem esses pratos com a história de Masato e sua família, a união da cultura e o entrelaçamento das tradições culinárias, como o surgimento do lámen e sua difusão no Japão, o pai de Masato se dedicava de alma no preparo, uma forma de reavivar a memória da esposa, e quando ele morre Masato sente que necessita aprender o Bak Kut Teh para assim também reavivá-lo toda vez que preparar o prato. A receita, uma espécie de sopa de costela de porco era a especialidade do restaurante da mãe de Masato, e seu desejo na verdade é unir a tradicional sopa de lámen com o Bak Kut Teh, são diversas as tentativas, na sua caminhada encontra o tio que o ensina a se aprofundar na receita e a avó que o rejeita, ela nunca aceitou o casamento devido as mágoas antepassadas por conta da guerra, o maldito japonês, assim como dizia, fez a sua filha viver em profunda tristeza, principalmente quando teve que escolher ir para o Japão. Tempos depois ela adoeceu e faleceu transformando o pai de Masato em um alguém completamente diferente.

O filme é uma experiência fascinante, a culinária é a principal protagonista, a relação com os pratos apresentados são sempre relacionados com as emoções dos personagens, inevitável não dar água na boca e querer experimentá-los, também nos traz perspectivas sobre o amor, traumas e mágoas familiares, acompanhamos Masato em sua jornada e nos deslumbramos a cada nova descoberta, seja nas raízes de seu passado ou com os seus desejos de unir as culturas através da comida e dessa forma reavivar a memória dos pais.

"Lamen Shop" é leve, calmo e contemplativo, a comida é algo que dá o poder de aconchego passando até pelo processo de perdão, a cena final em que a avó sorri ao comer o que o neto preparou diz muito sobre essa reflexão, toda a gama de emoções que um prato pode evocar é simplesmente incrível, e a viagem proporcionada para conhecer o como as culturas se entrelaçam através desses pratos é outro ponto realmente bonito do longa, sem dúvidas, um filme para não se assistir de barriga vazia. 

"Aprendi que quando a vida se torna difícil, a beleza da natureza é o melhor dos remédios. Ela nos alivia e nos protege da dura realidade, porque nada dura para sempre. A fragilidade da natureza demonstra que a vida é delicada. A vida é efêmera."

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Uma Terra Imaginada (A Land Imagined)

"Uma Terra Imaginada" (2018) dirigido por Yeo Siew Hua (A Casa de Palha - 2009) é um filme com uma narrativa alegórica, sensorial e enigmática, retrata a vida castigada de imigrantes que labutam e sonham em ter um lar, o sofrimento, a solidão e uma ponta de esperança marcam essa interessante obra que está disponível no catálogo da Netflix.
Em Singapura, um detetive investiga o desaparecimento do imigrante chinês, Wang (Liu Xiaoyi). Aos poucos, o oficial descobre que o homem tinha uma rotina de tensão e ansiedade, preocupado com a possibilidade de ser deportado enquanto aguentava a árdua jornada de trabalho como funcionário de uma construção civil. O detetive decide ir até uma lan house que Wang frequentava toda noite, e lá encontra Mindy (Yue Guo), anfitriã do estabelecimento. 
É necessário imergir na história para captar todos seus detalhes, pois sua narrativa não é direta e são os detalhes que fazem a diferença, as imagens nos dizem muito mais que os diálogos, assim como o olhar e o comportamento dos personagens. Adentramos na vida de um imigrante chinês, Wang, que trabalha em Singapura numa empresa de aterramento marítimo, o trabalho é pesado e as condições precárias, um dia ele se machuca e acaba sendo remanejado para dirigir um caminhão levando outros trabalhadores, sempre recluso e calado sua única distração é ir em uma lan house e conversar com a moça que trabalha lá. Em paralelo vemos um detetive refazendo todos os passos de Wang, que desapareceu misteriosamente, ele sente alguma identificação, principalmente por ambos sofrerem de insônia e a solidão que permeiam suas vidas. São essas duas linhas narrativas, ora mostrando Wang, ora o detetive, que cada vez mais se afunda nas possíveis pistas e intrigado chega num ponto em que tudo se mistura como num sonho. 
Com estilo noir e ritmo pacato embarcamos em uma história com boas doses de realismo e camadas de críticas sociais envolvendo as condições de trabalho dos imigrantes em Singapura, a solidão que os atinge e a sensação de não pertencimento, além de expor um lado caótico desse local considerado super desenvolvido e moderno tudo por conta da expansão agressiva e massiva do aterro marítimo, que mesmo com todos os possíveis danos climáticos e ambientais o governo pretende expandir ainda mais. Seu maior triunfo é fugir completamente do estereótipo vendido nos panfletos de turismo, por trás de toda a riqueza existe um universo miserável cujas pessoas exploradas sonham um dia poder ter espaço em algum canto, e é por conta dessa ambientação sombria nesses locais de aterramento marítimo que o longa consegue passar uma sensação de incômodo e tristeza. A realidade esmaga assim como as toneladas de areia que fazem o mar desaparecer.

O filme pode entediar em várias partes e causar sentimentos de incompreensão, mas a importância do cenário e o que ele representa faz a diferença para captar o personagem, veja que quanto mais o detetive busca informações e visita o local mais angustiado fica, existe um abismo entre a imagem turística da ilha para o que é a realidade por trás disso tudo, em prol do desenvolvimento esses trabalhadores são expostos a condições horríveis e opressivas, o patrão chega a confiscar os passaportes para que não tenham a liberdade de ir e vir, e enquanto ao redor tudo muda e se expande para um suposto melhoramento eles se apequenam diante o poder e a grandeza que tudo isso emana.

"Uma Terra Imaginada" retrata a vida miserável dos imigrantes em Singapura, que é conhecida pelo seu alto desenvolvimento e riqueza, mas em contrapartida a desumanidade, a solidão, a angústia, a sensação de não pertencer a nenhum lugar e a falta de perspectiva é o que resta a estas pessoas que se desdobram em serviços escravizantes e que acabam esmagadas pelas gigantescas obras que levantam. Por mais que seja uma história confusa e seus personagens por vezes se embaralhem numa aura de sonho o seu teor duro e real permanece.