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quinta-feira, 28 de maio de 2020
Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando (Elvira - Te Daría Mi Vida Pero la Estoy Usando)
"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (2014) dirigido por Manolo Caro - da série "A Casa das Flores" (2018) é um filme mexicano de dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido.
Cecilia Suárez abrilhanta o filme com uma maravilhosa personagem que vai de uma mulher cercada pelos afazeres domésticos e pela criação dos filhos para uma transformação avassaladora que a liberta e a faz se conhecer e se amar. Tudo acontece numa madrugada quando Gustavo decide dar a velha desculpa do ir comprar os cigarros e já volto e não retornar mais, desesperada Elvira começa buscar pistas e inventar coisas para que as pessoas ao redor não vejam que está abandonada e conta com a ajuda de uma vizinha carente que lhe auxilia com os dois filhos, ela precisa arranjar um emprego e sempre com a desculpa de que o dinheiro não está sendo suficiente, Gustavo trabalha numa companhia de seguros e emprego mais formal que esse não existe, o que desencadeia o espanto quando descobre o que de fato aconteceu, um turbilhão de sentimentos invade Elvira e dia após dia continua a esconder a ausência do marido e se empenha em descobrir seu paradeiro, angustiada recorre a uma amiga que possui uma funerária e pede um emprego, o fato é que ela não sabe fazer nada e ela própria diz que o que faz de melhor é chorar, portanto, ali seria uma maneira de ganhar dinheiro e colocar seus sentimentos para fora. Vamos juntos de Elvira, a cada passo e a cada escolha que faz para tentar achar soluções, também estamos bem perto dela quando inicia sua transformação ao cortar o cabelo, já de certa forma uma outra mulher pronta para encarar os obstáculos, entre tantas loucuras por quais passa, pois após descobrir que Gustavo fugiu com um amante que conheceu em seu trabalho ela pira e começa a enxergar o rapaz em Ricardo (Luis Gerardo Méndez), um dos funcionários da funerária, os dois começam a se envolver e Elvira o leva justamente para o local em que se encontra Gustavo e o amante.
O misto de sensações que a história provoca ganha nossa atenção e transforma a tensão de muitos momentos em alívio, a montanha russa de sentimentos por qual a protagonista atravessa é de enlouquecer, mas passa, e é bom ver sua transformação e libertação, aliás muito bem conduzida, sem pressa e de acordo com os acontecimentos, fica a reflexão de que precisamos nos escutar mais e aceitar quem somos, levar a sério nossos desejos e escolhas, pois as consequências delas podem ser amargas e traumáticas.
"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" é uma delícia e não bobeia na importância da mensagem, além do mais possui uma trilha sonora apaixonante que traz à tona canções regionais, vide a música tema "Suavecito", de Laura Léon, e também com a versão mais atual com a doce voz de Julieta Venegas. A melodia se encaixa perfeitamente à narrativa e não há melhor definição para o filme do que Suavecito, suavecito!
quarta-feira, 15 de maio de 2019
Mãos Sujas (Manos Sucias)
"Mãos Sujas" (2014) dirigido por Josef Kubota Wladyka é um filme que se assemelha muito a um documentário, tanto pelo tema abordado como pela naturalidade da obra, mas também funciona muito bem como um thriller, o tom aflitivo permeia todo o desenrolar e a carga dramática exibida pelos atores impressiona. Também é um filme-denúncia ao retratar a gigante discrepância socioeconômica da população local da Colômbia.
O pescador Jacobo (Jarlin Javier Martinez) e o jovem Delio (Cristian James Abvincula) embarcam em uma perigosa viagem pela costa do Pacífico transportando drogas. Escondidos sob as ondas, os dois rebocam um narcossubmarino cheio de milhões de dólares em cocaína vinda diretamente da Colômbia. Juntos, os dois devem enfrentar o mar aberto e regiões devastadas pelo tráfico e pela guerrilha. Jacobo já é um traficante experiente, enquanto que o jovem Delio não está preparado para a dura realidade ao seu redor, e a tensão entre os dois revela-se inevitável.
A luta pela sobrevivência dá o tom à história, vamos juntos de Jacobo e Delio, rapazes de origem humilde sem perspectivas que se submetem a cumprir missões para o narcotráfico, suas vidas são reduzidas a nada e para sair vivo dessas situações é preciso agir com violência, Delio é novato no ramo e no começo o vemos sempre sorrindo e cantarolando, já Jacobo possui cicatrizes de circunstâncias anteriores, juntos nessa perigosa jornada pelo mar aberto vão aprendendo a conviver e a se unir para saírem ilesos, ao longo conhecemos um pouco de cada e a extrema pobreza em que vivem, histórias doloridas e miseráveis e diante do cenário local o único caminho é sujar as mãos. Não demora para Delio entender o risco que corre e se deparar com ações violentas tanto de Jacobo quanto dele mesmo. O olhar de Delio ao longo vai ficando triste e nos atinge visualizar essa crítica situação.
As interpretações surpreendem justamente pelo tom genuíno do filme, os meninos dão verossimilhança e nos imerge na história que mescla ação, thriller, drama e crítica social, a aflição e o desespero domina as cenas, as coisas se complicam de fato quando o narcossubmarino é roubado e aí precisam lidar com instantes tensos e a necessidade de tomada de decisões ruins, que se não colocadas em prática certamente os mortos serão eles.
As interpretações surpreendem justamente pelo tom genuíno do filme, os meninos dão verossimilhança e nos imerge na história que mescla ação, thriller, drama e crítica social, a aflição e o desespero domina as cenas, as coisas se complicam de fato quando o narcossubmarino é roubado e aí precisam lidar com instantes tensos e a necessidade de tomada de decisões ruins, que se não colocadas em prática certamente os mortos serão eles.
Cinema latino com identidade própria e que conta as mazelas dessa sociedade tão corrompida e que relega seus locais a meras peças para seu benefício próprio, entre milícias, guerrilha, conflitos que parecem não ter fim se submetem a situações de risco para ganhar algum dinheiro, um povo castigado e massacrado, que não possuem lugar e que são vítimas de todo tipo de preconceito. O filme tem na produção executiva um nome de peso, Spike Lee, e a direção precisa de Josef Kubota Wladyka atordoa e emociona, também conta com uma bela trilha sonora que representa bem o país.
"Mãos Sujas" é uma pérola escondida na Netflix e merece muito ser descoberta, aborda o tema do narcotráfico com um viés realista e prioriza enfatizar os pequenos indivíduos e as motivações que os forçam a ir por esse caminho cruel e pesado. Uma forte reflexão sobre essa realidade triste e sem perspectivas, mas em meio a esse desespero há cenas para atenuar e que emanam alegria e esperança, como quando Delio canta a fim de animar Jacobo e este se impregna pela alegria e terminam dançando no barco em meio ao oceano, a amizade que se delineia entre os dois protagonistas transforma e é um apoio em meio ao caos.
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
O Tratamento (De Behandeling)
"O Tratamento" (2014) dirigido por Hans Herbots (Bo - 2010) é um filme apreensivo que aborda a pedofilia de uma maneira corajosa e cru, o drama muito bem mesclado ao suspense garante a atenção do espectador e somos absorvidos por uma atmosfera tensa ao testar até onde a sanidade do protagonista aguenta.
O inspetor Nick Cafmeyer (Geert Van Rampelberg) parece ter tudo, inteligência e uma carreira de sucesso. Mas uma nuvem negra paira sobre sua vida: desde criança, ele tem sido atormentado pelo desaparecimento de seu irmão mais novo Bjorn, nunca resolvido. Ivan Plettinckx, criminoso sexual conhecido, foi interrogado, mas rapidamente liberado. Plettinckx mora por perto e tem um prazer diabólico em assediar Nick. Então, quando um caso perturbador vem à tona envolvendo o desaparecimento de uma criança de nove anos, Nick lidera uma busca massiva que se transforma em uma perseguição implacável.
A pedofilia retratada é nojenta, literalmente, realmente causa repulsa, o filme faz questão de expor o lado podre do ser humano e seus desvios, as cenas com as crianças não são poupadas, é chocante e cruel.
No início acompanhamos a história do policial Nick e seu trauma de infância, enquanto brincava com seu irmão, o viu sendo levado embora por Plettinckx, ele tentou alcançá-los, mas em vão. Esse cara vive a atormentar Nick, tacando pedras em sua janela, aparecendo em seu quintal e por aí vai, nada aconteceu com ele, talvez, por ser considerado doente mental, mas a questão do seu irmão nunca foi resolvida, nunca foi encontrado. O fato é que essas lembranças se aguçam depois que entra num caso perturbador de um psicopata/pedófilo, que sorrateiramente entra nas casas, tortura os pais da criança e faz coisas horríveis e nojentas. O menino desse caso foi encontrado em cima de uma árvore com vários sinais de abuso, inclusive uma mordida nas costas. Nick e a equipe vai tentando juntar o quebra-cabeça com as pistas que encontra e vai mergulhando em algo totalmente bizarro e sombrio. A aflição vai tomando conta à medida que a história se desenrola mostrando com detalhes o como esse psicopata age, além de cruzar com a história de Nick e seu trauma de infância, ele cada vez mais acredita que esse caso tem a ver com o de Plettinckx, pois a pedofilia é uma rede e, portanto, liga-os.
No início acompanhamos a história do policial Nick e seu trauma de infância, enquanto brincava com seu irmão, o viu sendo levado embora por Plettinckx, ele tentou alcançá-los, mas em vão. Esse cara vive a atormentar Nick, tacando pedras em sua janela, aparecendo em seu quintal e por aí vai, nada aconteceu com ele, talvez, por ser considerado doente mental, mas a questão do seu irmão nunca foi resolvida, nunca foi encontrado. O fato é que essas lembranças se aguçam depois que entra num caso perturbador de um psicopata/pedófilo, que sorrateiramente entra nas casas, tortura os pais da criança e faz coisas horríveis e nojentas. O menino desse caso foi encontrado em cima de uma árvore com vários sinais de abuso, inclusive uma mordida nas costas. Nick e a equipe vai tentando juntar o quebra-cabeça com as pistas que encontra e vai mergulhando em algo totalmente bizarro e sombrio. A aflição vai tomando conta à medida que a história se desenrola mostrando com detalhes o como esse psicopata age, além de cruzar com a história de Nick e seu trauma de infância, ele cada vez mais acredita que esse caso tem a ver com o de Plettinckx, pois a pedofilia é uma rede e, portanto, liga-os.
É um ótimo exemplar de suspense, vai por caminhos não convencionais e deixa um gosto amargo, certamente pesado pela abordagem que faz da pedofilia e a maldade humana. Ele tem muito em comum com o excelente "Os Suspeitos" (2013), o clima e o desenrolar, porém mais incômodo, principalmente, pelo seu desfecho.
O personagem é bastante nervoso, age muitas vezes por impulso, se desestabiliza e tem uma ansiedade para encontrar soluções e também para se vingar, essa angústia misturada à eletricidade do desespero dele difere com o ritmo lento da narrativa, o que é um grande diferencial, além de não fornecer as respostas do jeito esperado, como em seu final dilacerante.
"O Tratamento" cumpre o papel de filme de suspense, mas sem deixar nunca o drama de lado e mostrar com realismo a monstruosidade de pessoas que sentem prazer em cometer atrocidades. O mistério é bem desenvolvido e a aflição se faz presente a cada passo do protagonista.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
O Incidente (El Incidente)
"...eu nunca aproveitei nenhuma fase da minha vida...e sempre estava pensando em querer chegar à fase seguinte, e quando chegava a ela me dava conta que a anterior era melhor...Aproveite tudo. A vida é uma baita estrada longa e o que passamos já não volta mais"
"O Incidente" (2014) dirigido por Isaac Ezban (Os Parecidos - 2015) é um filme mexicano de baixo orçamento no estilo "mindfuck", somos completamente absorvidos por uma trama de atmosfera intrincada em que personagens vivem um looping temporal, as escadas de um prédio que se repetem, o incansável percurso em uma estrada que acaba em si mesma, acontecimentos que foram concebidos através de um incidente e que nos leva a questionar sobre realidade paralela, mas também serve como metáfora para nossa existência, das repetições que fazemos ao longo da vida, dos momentos que se fixam e se refazem em nossa mente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
É uma ideia interessante e o desenvolvimento por mais que pareça arrastado se mostra curioso e confunde-nos totalmente e acerta em cheio ao retratar os personagens ao longo de muitos anos vivendo o mesmo, inclusive com objetos e comidas se acumulando, o como cada um reage a essa situação e ao final tentando se conectar com a única realidade existente, a explicação seria que eles ali seria uma espécie de motor gerando energia para a versão real deles, o que alivia um pouco a dor de cabeça de tentar entender, mas ao mesmo tempo essa explicação fica um tanto expositiva.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
Muitos incidentes grudam na nossa mente e volta e meia regressamos a eles, traumas, arrependimentos, escolhas, refazemos tudo de novo na nossa cabeça e às vezes incluindo alternativas, com diferentes possibilidades que alterariam a realidade presente, e sem dúvida, pensar por esse lado a história do filme deixa de incomodar tanto com suas teorias de looping, o cérebro para de coçar um pouco, a frase que o irmão diz pro outro no início exemplifica essa ideia, de que nunca estamos satisfeitos com o que temos no agora, sempre estamos ansiando pelo próximo dia que talvez nos dará mais do que hoje, porém quando se chega lá percebe-se que não vivemos o dia anterior e estamos reproduzindo este pensamento sem fim.
"O Incidente" é instigante, possui várias nuances dentro de sua proposta, não deixa a desejar em nenhum momento, é tenso e perturba, as coisas que acontecem durante todo o tempo em que estão presos, a acumulação, o desgaste, as tentativas de sair, tudo é executado brilhantemente e ao final deixa que cada espectador interprete de uma forma, a explicação é dada, mas mesmo assim cada um tem a sua experiência.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Mais Sombrio Que a Meia-Noite (Più Buio di Mezzanotte)
"Mais Sombrio Que a Meia-Noite" (2014) dirigido por Sebastiano Riso é uma cinebiografia da famosa Drag Queen Fuxia, que viveu períodos complicados nas ruas de Catânia, Sicília. Ambientado nos anos 80, o roteiro foca na adolescência, no período conturbado em que sufocado pela fúria do pai decide colocar seus discos numa mochila e se aventurar pelas ruas, começa aí uma série de descobertas em que ao mesmo tempo que vive a sua liberdade encontra um mundo de prostituição e exploração.
Davide (Davide Capone) é diferente dos outros adolescentes. Algo o faz parecer uma menina. Davide tem catorze anos quando foge de casa. Sua intuição o leva a escolher Villa Bellini, um parque na Catânia, como refúgio. O parque é um mundo em si mesmo, o mundo dos marginalizados, para o qual o resto da cidade fecha os olhos. Mas um dia o passado o alcança e Davide precisa enfrentar a escolha mais difícil, desta vez, sozinho.
No início o vemos escondido cantando no porão junto a um mundo que criou, colorido e que reflete realmente quem é, seu pai é uma figura autoritária e violenta que não aceita o jeito do filho, a aparência andrógina de Davide causa muitas desavenças dentro de sua própria casa, a mãe tenta protegê-lo, mas é tão frágil quanto, a sua cegueira não é apenas física, decidido a viver livre sai para as ruas, especificamente, a Villa Bellini, local de prostituição, onde é acolhido por um grupo com La Rettore (Giovanni Gulizia) sendo seu guardião.
Davide tem uma bela voz e sonha ser uma grande cantora, mas no decorrer acaba se introduzindo em um mundo sombrio, não há opções. Se apaixona, se desilude e se dá conta da exploração sexual, na noite são usados e na manhã seguinte invisíveis e propensos a sofrer alguma violência, a sociedade ignora e se nega a olhá-los, Davide vive esse dilema ao mesmo tempo em que pela primeira vez consegue viver a sua liberdade. São inúmeras as consequências que vêm com essa liberdade e sentimento de pertencimento, Davide se encontra com o preconceito, a prostituição, a violência, a solidão, a fome, o desamparo, propenso a exploração de cafetões e ao fetiche alheio.
Delicado, triste, reflexivo, uma amostra do como a família pode destruir ao invés de amparar pelo fato de não saber lidar com o diferente, a realidade é essa, jovens sendo expulsos de casa por serem homossexuais e expostos a um mundo sombrio, que moral que essas famílias pregam que não acolhem seus próprios filhos, desrespeitando e deixando-os à mercê da marginalidade? É um retrato honesto e a força imagética do filme é imensa, um belo trabalho do ator Davide Capone que nos faz mergulhar em sua confusão interior e experiências.
"Mais Sombrio Que a Meia-Noite" tem um tom firme e apesar de todas as dificuldades e empecilhos há um enfrentamento, a força está imprimida no longa mesmo nos momentos tensos e desesperançosos, Davide está sublime e a cena final coroa espetacularmente esta obra, em frente ao espelho grita, um grito de liberdade.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Svenskjävel + Yarden (Filmes Suecos)
No post anterior indiquei dois filmes suecos que tratam da hipocrisia, do machismo e da influência e interferência que o meio em que se vive tem sobre as pessoas, neste post são mais dois filmes suecos, eles retratam um outro lado da Suécia, um país considerado perfeito, nestas histórias podemos observar o outro lado da moeda, que nem os países de primeiro mundo estão isentos de crises e jogos de poder entre ricos e pobres.
"Svenskjävel" (2014) - seria algo como Suecos Bastardos, o título em inglês é "Underdog" - dirigido por Ronnie Sandahl é um drama sóbrio que retrata uma jovem sem perspectivas que sai da Suécia em busca de melhores condições na Noruega. Lá encontra apenas subempregos e discriminação. A sua classe social incomoda, a sua origem incomoda, as oportunidades são escassas e os outros se acham no direito de usá-la como querem. O filme não faz questão de explicar seu passado ou o porquê está nesta situação, há algumas pistas de vício em álcool, família disfuncional, então querendo fugir disso tudo migra para a Noruega com esperanças.
Como muitos jovens suecos, Dino (Bianka Kronlof) fugiu do desemprego em massa do seu país para tentar uma vida nova em Oslo, na Noruega. No entanto, logo ela se depara com uma espiral destrutiva, sobrevivendo com quase nenhum dinheiro, um trabalho irregular e noitadas. Dino é demitida após quebrar o braço e passa a trabalhar como empregada de uma casa de classe média, uma realidade muito distante dela. Durante algumas semanas do abafado verão, a garota se vê no centro de um estranho triângulo amoroso, em uma luta imprevisível de afeto e domínio.
Dino mora em uma espécie de república com inúmeros outros jovens que também se submetem a empregos que pagam pouco, vemos uma moça reclamando do como a chefe a explora e a humilha fazendo-a se sentir inútil no final do dia, Dino é quieta, solitária e gosta da noite, por causa de uma bebedeira e quebrar o braço perde seu emprego de garçonete e logo começa a trabalhar de babá na casa de Steffen (Henrik Rafaelsen), dono de um restaurante que vive um casamento conturbado, a esposa viaja a trabalho, faz grandes projetos e isso o faz se aproximar mais de Dino, que de repente se vê envolvida em uma relação amorosa e numa outra forma de vida. Ela é uma estranha ali, assim como a filha mais velha de Steffen, que aos poucos e silenciosamente cria um belo vínculo de amizade e admiração. Com o passar dos dias Dino sente-se à vontade na casa de Steffen e pela primeira vez experimenta o que é a liberdade, só que mais tarde isso se revelará num odioso jogo de poder. A discriminação é bastante evidenciada, a sua origem e a sua classe social em determinado momento são usadas de maneira jocosa pelos amigos de Steffen. Dentre todas essas questões de desigualdade e preconceito a história mesmo que sóbria e fria permite um olhar esperançoso, de que é possível encontrar seu lugar e dar vazão ao que se tem de melhor, Dino teve sua experiência e aprendeu, e isso é o que importa afinal.
"Yarden" (2016) dirigido por Måns Månsson retrata o fracasso e a dificuldade para sobreviver, a desumanização para garantir um pouco de dinheiro, a crise de desemprego é agravante e o personagem depois de sofrer por não conseguir sucesso e dinheiro com seu livro de poesias, decide abandonar essa carreira e se submeter a um emprego estafante em que pessoas são convertidas a números.
O sueco veterano do teatro Anders Mossling é identificado no filme como 11811, ele irradia melancolia e estoicismo, como o anti-herói sem nome, um pai solteiro de meia-idade, cujo trabalho como um poeta menor só o levou a pobreza e obscuridade. Após imprudentemente sabotar o que resta da carreira literária destruindo publicamente o seu próprio livro mais recente, ele é forçado a procurar emprego no The Yard (Yarden), um vasto armazém de alta tecnologia nas docas Malmö, onde 500.000 carros são enviados anualmente. Nesta visão duramente futurista do local de trabalho pós-industrial, os empregados são tratados como drones intercambiáveis com números em vez de nomes. O desvio menor do protocolo pode levar à demissão imediata por patrões sem rosto.
O personagem exibe uma faceta de cansaço e desesperança, a única coisa que deseja é poder sustentar seu filho adolescente, na fábrica em que a maior parte de trabalhadores são imigrantes existe uma lei da selva, há um bônus para dedurar colegas que roubam airbags e punições a qualquer deslize, cortes salariais por atrasos, sendo que o atraso provém da fila na entrada. A opressão patronal é exposta cruelmente retratando o tratamento insalubre que esses trabalhadores se submetem por não terem outras opções.
É um filme seco e que carrega uma aura pesada e triste, Anders Mossling é o retrato de uma imensidão de pessoas que perdem a dignidade e que tem como única esperança um emprego degradante, pois é só isso que resta. O mais forte que abusa do mais fraco, o jogo de poder utilizado pelos mais ricos para continuarem mais ricos, isso existe em todo o mundo, até nos modelos mais perfeitos de sociedade, como a Suécia.
É um filme seco e que carrega uma aura pesada e triste, Anders Mossling é o retrato de uma imensidão de pessoas que perdem a dignidade e que tem como única esperança um emprego degradante, pois é só isso que resta. O mais forte que abusa do mais fraco, o jogo de poder utilizado pelos mais ricos para continuarem mais ricos, isso existe em todo o mundo, até nos modelos mais perfeitos de sociedade, como a Suécia.
sábado, 18 de março de 2017
Tokyo Fiancée
"Tudo que a gente ama vira ficção."
"Tokyo Fiancée" (2014) dirigido por Stefan Liberski é uma adaptação do romance "Ni d'Ève ni d'Adam" de Amélie Nothomb, acompanhamos a trajetória de uma personagem encantada pelo Japão, cheia de expectativas ela ruma para o país e está decidida a se tornar parte de lá, tudo é muito mágico, mas conforme vive o seu dia a dia e por conta de aspectos culturais a realidade vem à tona, a viagem a torna mais madura e percebe que nem tudo é como criou em sua mente.
Amélie (Pauline Etienne) nasceu no Japão e aos cinco anos mudou-se para a Bélgica, suas lembranças são recheadas de fantasia e acredita que seu lugar é lá, sonhadora e apaixonada retorna à Tóquio a fim de se tornar uma verdadeira japonesa. Decide dar aulas de francês para ganhar algum dinheiro e consegue somente um aluno, Rinri (Taichi Inoue), com quem inicia um romance. Um conto encantador sobre amor, ternura e descobertas culturais.
Rinri é apaixonado pela França e até tem um grupo de meninos dedicados ao estudo da língua e cultura, Amélie descobre isso muito tempo depois, engraçado ela imaginar que Rinri faz parte da Yakuza, o choque cultural é bem grande, mas os jovens se apaixonam e levam a relação com muita naturalidade e espontaneidade, são momentos delicados e doces, Rinri apresenta alguns traços da cultura tanto tradicional, quanto moderna e até bizarras do Japão, aliás, é de encher os olhos todos os lugares por quais passam. Após a relação ganhar contornos de namoro tudo começa a se transformar na mente de Amélie, enquanto Rinri a apresenta para sua família, lhe presenteia com joias e a pede em casamento, ela apenas quer viver sem amarras e então cai a ficha de que nunca será de fato uma japonesa.
Os dois se apaixonam, são encantados um pela cultura do outro, portanto, usam isso para entender melhor a diversidade cultural, no caso de Rinri nem tanto, até porque ela é belga e não francesa, há uma estranha e engraçada situação em que Rinri prepara um jantar em que estão todos os seus amigos da sociedade secreta francófona e Amélie entende que está assumindo o papel de gueixa ali, onde precisa entreter enquanto todos comem, então, ela disserta sobre os tipos de cervejas belgas que existem.
Destaque para as cenas em que Rinri aprende francês com Amélie e sua obsessão em pedir desculpas a cada erro, realmente à medida que se tornam mais íntimos fica evidente a distância que há entre os mundos de cada um, interessantíssimo observar e poder viajar nesta questão, a ideia que ela tinha sobre o Japão e toda a magia acaba se desfazendo quando sozinha percorre um caminho tortuoso para subir ao Monte Fuji. Logo depois o Japão é assolado pelo terremoto que atingiu terrivelmente Fukushima, Rinri pede que ela vá embora, em um dos diálogos alguém diz que somente os japoneses têm que lidar com tal situação, é uma coisa entre eles, e assim sem ferir sentimentos Amélie parte.
"Aprendi que eu precisava me tornar todas as pessoas que eu era e todas que ainda não havia encontrado. Aprendi que eu era tão grande quanto a vida."
"Tokyo Fiancée" é um filme agridoce que passeia por vários gêneros e ganha pela naturalidade com que o romance é desenvolvido, mostra as expectativas fantasiosas quebradas quando de fato se vive no país e a beleza da diversidade cultural, que é singelamente exposta.
quarta-feira, 8 de março de 2017
Party Girl
"Party Girl" (2014) dirigido pelo trio Claire Burger, Marie Amachoukeli e Samuel Theis é um interessante filme feito em família, um retrato quase autobiográfico, Samuel Theis resolveu colocar na tela a vida de sua própria mãe e toda a sua melancólica trajetória que ousa quebrar paradigmas para vivenciar quem de fato é.
Angélique (Angélique Litzenburger), sessenta anos, trabalha em um bar noturno perto da fronteira franco-alemã, ela ainda gosta de festas e de homens, mas que, tendo-se tornado a pessoa mais velha do bar, sente que está próxima do fim. Repentinamente, aceita casar-se com Michel (Joseph Bour), um de seus clientes regulares. Angélique é mulher livre que escolheu uma vida à margem da boa sociedade, o filme mergulha no coração de uma França desconhecida com um realismo assumido.
A figura de Angélique nos captura, observamos bem de perto o seu rosto borrado de maquiagem, seu cabelo despenteado, as suas rugas, uma mulher que dentro do efervescente contexto da noite poderia destoar, já que as suas companheiras são mais novas, mas existe um desejo imenso dentro de Angélique, uma gana de vida. Vendo que está cada vez mais solitária decide aceitar o pedido de casamento que um antigo cliente propõe, é uma esperança de ter um lar, refazer os laços com os filhos e uma companhia. Michel é um homem carinhoso, porém com o passar dos dias Angélique percebe que está deixando de ser ela mesma, a sua essência está sendo aprisionada com toda a história do casamento. Seus filhos - que interpretam a si mesmos - veem tudo isso como uma boa oportunidade, só que em nenhum instante exigem ou julgam. Angélique parece querer algum tipo de redenção quando decide mudar de vida, recupera a convivência com os filhos, inclusive com uma da qual em sua juventude se separou, sai com os amigos de Michel, mas trava diante ao sexo, não consegue justamente por descobrir não estar inteira na relação, não está apaixonada, a mulher libidinosa despareceu.
As interpretações são excelentes, naturais e espontâneas, Angélique se doa completamente, uma atuação sincera que nos chama para perto, ela compartilha suas dúvidas, seus receios, sua melancolia e sua sede por viver e ser quem é sem estigmas e rótulos, desafia todos os estereótipos que rodeiam as mulheres sexagenárias. Com certeza uma mulher corajosa que prefere viver sua essência a sucumbir a um roteiro. Ela é livre, porém, claro, a liberdade tem em si boas doses de dor e solidão.
A trilha sonora conversa muito com a trama e causa inúmeros sentimentos, a melancolia, principalmente. A cena em que toca "Still loving you", do Scorpions é linda e memorável, e sem dúvidas, a canção final que batiza o filme, "Party Girl" de Chinawoman, pseudônimo da cantora canadense Michelle Gurevich, resume tudo. Angélique tem um estilo de vida que leva de modo natural, é a sua arte. Ao chegar numa nova etapa da vida em que o medo da solidão na velhice surge, aceita o pedido de casamento de Michel, mas ela começa a pensar se essa escolha a fará feliz e o principal, se sentirá como ela mesma? Essas dúvidas observamos bem de perto e mergulhamos no mundo dessa protagonista tão honesta consigo mesma.
"Party Girl" é um excelente drama que flerta com o documental e que nos deixa intrigados por querer saber o que de fato é real e o que é ficção, além de surpreender por sua naturalidade e sinceridade na condução da narrativa coroada com a brilhante atuação de Angélique Litzenburger, que nos permite adentrar em seus dilemas e decisões. E, enfatizando novamente a canção "Party Girl", que a exemplifica perfeitamente: "Não importa o que você cria se você não tem diversão."
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Fidelio - A Odisseia de Alice (Fidelio - L'Odyssée d'Alice)
"Fidelio - A Odisseia de Alice" (2014) dirigido por Lucie Borleteau é um filme que transgride a questão de gêneros, a imagem que se tem sobre o homem e a mulher, Alice é uma mulher bela e natural que trabalha em um ambiente povoado por homens, ela vive de acordo com as suas vontades e o seu comportamento poderia ser atribuído ao universo masculino, e várias vezes o comportamento dos homens no navio atribuídos ao universo feminino, esse é o ponto que o filme quer tocar, os padrões e as expectativas esperadas por conta do pensamento fechado do que é ser homem e ser mulher.
Alice (Ariane Labed) tem 30 anos e é marinheira. Ela deixa Félix (Anders Danielsen Lie), seu homem, em terra firme e embarca como mecânica em um velho navio de carga, o Fidelio. A bordo, ela descobre que está substituindo um homem que acaba de morrer, e que Gaël (Melvile Poupaud), seu primeiro grande amor, comanda o navio. Em seu camarote, Alice encontra um diário que pertencia a seu predecessor. Lendo suas notas, entre os problemas mecânicos, conquistas sexuais e melancolia amorosa, vê que tudo estranhamente ressoa no que se passa em sua vida.
Alice embarca no velho Fidelio, o primeiro que navegou em sua vida, deixa pra trás o namorado, uma paixão avassaladora, mas ao ver o comandante que foi o seu grande amor se sente atraída, mas essa não é uma narrativa comum sobre triângulos amorosos, a vida no mar é o foco, a solidão e o encantamento diante da imensidão azul e também o trabalho pesado, quando Alice começa a ler os relatos do marinheiro que faleceu sente uma espécie de cumplicidade, ao passo que lida com problemas e insatisfações no seu dia a dia, além dos desejos e a melancolia.
Alice é a única mulher na equipe e é respeitada profissionalmente, quando surge algo que a desmereça enfrenta, por exemplo, quando na noite em que um dos colegas tenta abusar sexualmente dela, a sua reação é firme. Ao longo observamos que ela é uma mulher que não tem receios, já que escolheu uma profissão que a deixa longe de casa quase o ano todo e basicamente composta por homens, é a liberdade de escolher o que lhe faz bem independente do que a família e os demais irão pensar, inclusive, os companheiros de trabalho. Quando em terra firme não se limita, também vai se divertir em festas e joga conversa fora sobre qualquer assunto.
"Fidelio - A Odisseia de Alice" é repleto de metáforas sutis, é uma obra linda que retrata uma mulher forte, independente e ao mesmo tempo delicada, triste, e principalmente, livre para realizar a procura de si mesma, está aí o mar simbolizando o seu ser: belo, imenso e também solitário e impreciso. A interpretação de Ariane Labed é sensível, está completamente à vontade com o seu corpo e o espaço do qual faz parte.
O sexo, o amor, a infidelidade são temas tratados com naturalidade e sinceridade, os desejos fazem parte do ser humano seja ele de qualquer gênero, o longa transgride com simplicidade os papéis que se associam aos homens e as mulheres.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Sinfonia da Necrópole
"Todas as pessoas morrerão sozinhas, infelizes como um cão sarnento. A vida é amargura, para quê tanto tormento para virar poeira ao vento e terminar na cova escura."
"Sinfonia da Necrópole" (2014) dirigido por Juliana Rojas (Trabalhar Cansa - 2011) traz uma proposta ousada e inovadora dentro da cinematografia brasileira, é um musical/romance com uma abordagem cômica e ainda assim crítica e reflexiva sobre a urbanização de um cemitério, além disso a trama conversa um pouco com o terror e a fantasia, mas toda a aura envolvendo o cemitério é natural e comum, não há aquela impressão de um local obscuro e que gera sentimentos ruins, vamos nos familiarizando com os personagens e entendendo a dinâmica que está acontecendo, mas também não deixa de dissertar sobre a finitude da vida.
O jovem aprendiz de coveiro Deodato (Eduardo Gomes) está com seu emprego em risco. Os outros coveiros duvidam de sua capacidade para o trabalho. Seu tio Jaca (Paulo Jordão) tenta sensibilizá-lo para a função, mas é inútil: o trabalho aflige a Deodato, que tem aspirações artísticas. Prefere tocar o órgão da igreja escondido e vagar pelo cemitério escrevendo poemas. Após desmaiar durante um dos enterros, ele é chamado à diretoria, onde é confrontado por Aloizio (Hugo de Villavicenzio), o administrador do cemitério.
Deodato é um cara sensível e medroso, não gosta do trabalho como coveiro, porém esforça-se para não desagradar o tio, que lhe arranjou o emprego, ele tem alma de poeta e se desarranja quando precisa lidar diretamente com os defuntos, essa realidade muda quando Jaqueline (Luciana Paes), uma funcionária do serviço funerário é contratada para verticalizar a necrópole a fim de modernizar e abrir mais espaço para novos túmulos, assim gerando mais dinheiro. Ela chama Deodato para ajudá-la, fazem um inventário sobre o estado dos túmulos e vão atrás dos familiares para realizarem o remanejamento. Jaqueline é firme e gosta do que faz, joga uma conversa sobre conforto e modernização, e por fim oferece dinheiro e os familiares acabam aceitando. Jaqueline lida com a situação de forma tão prática que assusta, mas isso parece não incomodar Deodato que se apaixona por ela. Os dois são opostos, mas se dão bem e convencem pela naturalidade, entre tudo isso os números musicais são encaixados perfeitamente com as cenas, as letras são elaboradas e inteligentes, tiram vários sorrisos e lágrimas ao decorrer. As interpretações têm tom teatral e evidenciam essa aura despojada, é uma mistura inusitada que deu certo.
Interessante a crítica que o longa faz à maneira como lidam com a ampliação do cemitério, a reforma e a sua verticalização devido o crescimento das cidades, isso perturba Deodato que sensível alucina com os mortos vindo lhe pedir ajuda para não mexerem em seus túmulos. Jaqueline representa toda a frieza que seu ofício precisa ter, o olhar analítico e preciso de mercado, para ela o cemitério está longe de ser um local assombrado, mas para Deodato remover os restos mortais de túmulos abandonados é um desrespeito. Com a grande demanda falta lugar para os mortos, a verticalização parece ser a grande solução e o grande negócio atual para o mercado funerário.
"Sinfonia da Necrópole" é um exemplar nacional inovador, equilibra humor negro e crítica social, tem leveza mesmo abordando temas pesados. Com personagens graciosos, como Deodato e seu tio e outras como a de um louco hipocondríaco que vive a procurar o padre, este que come as hóstias quando sente fome, além da mulher que vende coroas e o coveiro Humberto, eles dão ao filme um ar simpático e divertido. Os musicais, sem dúvida, são a grande atração, destaque para a "Canção dos Coveiros", "Canção dos Caixões" e "Canção da Metrópole", que com perspicácia e originalidade diz sobre o crescimento populacional das metrópoles e as mudanças e as adaptações que ocorrem por conta disso nas necrópoles.
sábado, 21 de janeiro de 2017
A Vida em um Aquário (Vonarstræti)
"A Vida em um Aquário" (2014) dirigido pelo islandês Baldvin Zophoníasson (Órói - 2010) é um bom drama que carrega várias histórias entrelaçadas, a trama é muito bem construída, porém não há nada que surpreenda, é simples e despretensiosa.
Inspirado em fatos reais na Islândia, descreve três mundos diferentes que colidem violentamente. Mori (Thorstein Bachmann), escritor com problemas com a bebida, Eik (Hera Hilmarsdóttir), uma jovem mãe solteira que trabalha em uma creche e Sölvi (Thorvald David), um ex-jogador de futebol que vê sua vida familiar desmoronar debaixo dele.
Os três protagonistas são interessantes e agregam para a história, Eik trabalha em uma creche, tem uma filha, mas também trabalha como prostituta de luxo para conseguir pagar dívidas, a vemos sempre com um semblante triste e preocupado, Mori é um escritor talentoso com um passado trágico que o atormenta, ele isolou-se e diariamente embebeda-se. Sölvi, depois de largar a profissão de jogador de futebol, se envereda no ramo de investimento bancário, ele é casado e tem uma filha. Ao longo vamos conhecendo-os melhor e em algum momento eles vão se cruzar, trazendo um ar de esperança à trama, especialmente, a relação de amizade que se inicia entre Mori e Eik, um poeta bêbado com uma jovem prostituta, existe uma carência paternal nela e nele um desejo de ser pai, pois Mori perdeu a filha de uma forma trágica, já a relação de Eik com a família é tensa e distante, tudo se explica ao final. Sölvi tem tudo para ser feliz, uma linda mulher, uma filhinha, bens materiais, fama e agora um emprego no banco, mas após saber que precisará viajar para Flórida, uma viagem de luxo num iate cheio de prostitutas e drogas, a relação com a família perde a força e Sölvi começa a repensar sua vida, ele é um ser humano honesto, mas que agora habita em um território permeado de fraudes. Neste meio tempo encontra com Eik que está trabalhando neste iate, entre eles dois a relação não é apenas sexo, há uma troca de afinidades instantânea e que balança a estabilidade de Sölvi.
O filme causa empatia e percebemos o quanto o acaso pode transformar nossas vidas, o encontro entre pessoas e o compartilhamento de sofrimentos que se transformam em instantes únicos e duradouros. Com ótimas interpretações, cenas belíssimas e diálogos marcantes, principalmente entre Mori e Eik, e mais ainda quando recita as suas poesias cheias de encanto, amargura e solidão.
"Estou dilacerado, caído no lado sombrio, na metade do caminho e a alma mergulhada no moleiro. As árvores vertem lágrimas, as pedras sangram, o frio morde as feridas. Mas o vento silva. Talvez o bloco de gelo seja reflexo do meu eu suspenso. Minhas mãos nunca tão vazias, minha língua nunca tão silenciosa. Eu fito ainda através do gelo e o verde está na raiz. E eu olho pra você, esperando o gelo partir."
"A Vida em um Aquário" é fascinante por colocar três personagens com problemas díspares que se colidem e que de alguma forma transformam seus destinos. Retrata a crise econômica, a ganância dos grandes, relações familiares conturbadas, segredos, hipocrisias e dolorosas feridas que precisam ser cicatrizadas para seguir adiante.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Incompreendida (Incompresa)
"Incompreendida" (2014), terceiro longa de Asia Argento (Transylvania - 2006) é um filme que retrata uma menina em fase de transição em meio a uma família disfuncional, escrito em parceria com Barbara Alberti, talvez o roteiro tenha algo de autobiográfico, já que Asia Argento é filha do mestre do terror Dario Argento e da atriz Daria Nicolodi, certamente algumas memórias inspiraram a sua doce protagonista, Aria. Demonstrando toda a difícil missão de crescer sendo rejeitada e incompreendida pelos próprios pais adentramos num universo perturbador e triste, mas que evoca sensações de ternura e carinho.
Roma, 1984, Aria é uma menina de nove anos de idade. À beira do divórcio, os pais infantis e egoístas de Aria estão muito preocupados com suas carreiras e assuntos extraconjugais para cuidar adequadamente de qualquer uma das necessidades da criança. Enquanto suas duas irmãs mais velhas Lucrezia (Carolina Poccioni) e Donatina (Anna Lou Castoldi) são mimadas, Aria é tratada com indiferença e frieza. Mesmo assim, ela anseia em amar e ser amada pela família. Na escola, a menina se destaca academicamente, mas é considerada desajustada por todos. Ela é incompreendida. Seu conforto resume-se em seu gato Dac e sua melhor amiga, Angelica. Ao ser expulsa da casa dos pais e abandonada por todos, até mesmo por Angelica, Aria finalmente chega ao limite do que pode suportar, e toma uma decisão inesperada em sua vida.
O pai (Gabriel Garko) é um ator narcisista cheio de superstições e que atua em filmes de gosto duvidoso, a mãe (Charlotte Gainsbourg) é uma pianista de sucesso que vive a vida sem limites. Aria (Giulia Salerno) fica entre as duas irmãs, ela diz, a mamãe tem Donatina, papai tem Lucrezia, entre idas e vindas da casa deles, pois diversas vezes é expulsa, sua única fonte de amor é o gato Dac. Aria é uma menina inteligente, esperta e que tenta de todas as maneiras conseguir ser notada por seus pais, ela é alvo dos colegas de escola, que não a identificam como uma garota, Angelica, sua melhor amiga, em determinado momento também a deixa de lado, existe uma inocência em Aria que faz com que ela se isole. Como toda pré-adolescente é apaixonada por um menino popular e rejeita o estranho que gosta dela de verdade. Ela se destaca na escrita, impossível não se emocionar quando ganha o prêmio de melhor redação e lê na frente de todos e imagina seus pais a ouvindo. "Não acho que o anjo da guarda seja um guardião invisível que nos espia. Isso me assustaria como um fantasma porque ele me vê, mas eu não o vejo. Acho que o anjo entra em alguém que está perto de nós e nos protege. O meu entrou num gato preto que se chama Dac. Quando ninguém percebe que quero um carinho, ele percebe. Todos os carinhos que não recebo, eu dou a ele. Um pequeno gesto de amor eu faço durar como um pirulito. Vocês sabem o que é um pirulito? É uma bala redonda que parece não acabar nunca. Mas acaba. É uma bala imaginária, como o amor".
Interessante em uma parte do filme que sua mãe está com um cara mais novo, rebelde e este diferente dos outros adora Aria, é lindo vê-la sentindo-se amada, dói ver o quanto necessita de gestos de carinho, toda vez que a mãe demonstra ela se entrega, mas da parte da mãe não significa nada, isso vai pesando em Aria, que cada vez mais se sente abandonada. Na casa do pai não há lugar para ela, a irmã sempre dá um jeito de colocar a culpa de algo nela, na casa da mãe também sempre diz ou faz coisas que vão contra o sistema caótico. Em muitos momentos vemos a vagar pelas ruas com sua pesada mochila e seu gato Dac.
O pai (Gabriel Garko) é um ator narcisista cheio de superstições e que atua em filmes de gosto duvidoso, a mãe (Charlotte Gainsbourg) é uma pianista de sucesso que vive a vida sem limites. Aria (Giulia Salerno) fica entre as duas irmãs, ela diz, a mamãe tem Donatina, papai tem Lucrezia, entre idas e vindas da casa deles, pois diversas vezes é expulsa, sua única fonte de amor é o gato Dac. Aria é uma menina inteligente, esperta e que tenta de todas as maneiras conseguir ser notada por seus pais, ela é alvo dos colegas de escola, que não a identificam como uma garota, Angelica, sua melhor amiga, em determinado momento também a deixa de lado, existe uma inocência em Aria que faz com que ela se isole. Como toda pré-adolescente é apaixonada por um menino popular e rejeita o estranho que gosta dela de verdade. Ela se destaca na escrita, impossível não se emocionar quando ganha o prêmio de melhor redação e lê na frente de todos e imagina seus pais a ouvindo. "Não acho que o anjo da guarda seja um guardião invisível que nos espia. Isso me assustaria como um fantasma porque ele me vê, mas eu não o vejo. Acho que o anjo entra em alguém que está perto de nós e nos protege. O meu entrou num gato preto que se chama Dac. Quando ninguém percebe que quero um carinho, ele percebe. Todos os carinhos que não recebo, eu dou a ele. Um pequeno gesto de amor eu faço durar como um pirulito. Vocês sabem o que é um pirulito? É uma bala redonda que parece não acabar nunca. Mas acaba. É uma bala imaginária, como o amor".
Interessante em uma parte do filme que sua mãe está com um cara mais novo, rebelde e este diferente dos outros adora Aria, é lindo vê-la sentindo-se amada, dói ver o quanto necessita de gestos de carinho, toda vez que a mãe demonstra ela se entrega, mas da parte da mãe não significa nada, isso vai pesando em Aria, que cada vez mais se sente abandonada. Na casa do pai não há lugar para ela, a irmã sempre dá um jeito de colocar a culpa de algo nela, na casa da mãe também sempre diz ou faz coisas que vão contra o sistema caótico. Em muitos momentos vemos a vagar pelas ruas com sua pesada mochila e seu gato Dac.
A estética do filme contribui para o sentimento de deslocamento, as cores, o estilo kitsch do ambiente traduz a confusão do lar e da falta de aconchego, outro ponto é a trilha sonora que complementa para aura dos anos 80.
Giulia Salerno se agiganta na tela, uma menina excêntrica e com fortes valores contrapondo com sua figura frágil, ela resiste em meio a tanto egoísmo e individualismo, ela floresce em meio a um ambiente hostil e decadente, sua inocência resplandece. É uma atuação delicada, mas com muito vigor. O filme é pessimista e coloca em questão toda a sordidez com personagens caricatos, aliás, é muito bem colocado este exagero para explicitar a tamanha vaidade da mãe e do pai de Aria.
"Incompreendida" é melancólico, excêntrico, doce e encantador ao expor a mais completa ausência de afeto, Aria é uma menina que lida com inúmeros fatores e descobertas, ela é ousada e está sempre em busca de um pouco de amor, como ela diz ao final, "não contei isso para me fazer de vítima, mas para que me conheçam melhor. E talvez, sejam um pouco mais gentis."
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
O Presidente (The President)
"O Presidente" (2014) do sublime diretor e ativista Mohsen Makhmalbaf (Gabbeh - 1996, O Silêncio - 1998) retrata com imensa sensibilidade uma fábula sobre a destituição de um ditador e a substituição de uma violência por outra gerada a partir do ódio, da desordem e do desejo de vingança. Mohsen com um olhar inteligente e amplo nos oferece um ponto de vista difícil, porém essencial de que a violência seja qual for nunca será o caminho, a vingança contra o seu opressor é tão cruel quanto aquela sofrida.
Numa aldeia fictícia do Cáucaso, o Presidente (Mikheil Gomiashvili) em fuga tem apenas a companhia do neto (Dachi Orvelashvili) de cinco anos. Um golpe de Estado aconteceu e o ditador agora circula pelas terras que um dia governou disfarçado de músico. Pela primeira vez ele se aproxima realmente da gente que por tanto tempo liderou, finalmente conhecendo aquele que era seu povo.
Numa aldeia fictícia do Cáucaso, o Presidente (Mikheil Gomiashvili) em fuga tem apenas a companhia do neto (Dachi Orvelashvili) de cinco anos. Um golpe de Estado aconteceu e o ditador agora circula pelas terras que um dia governou disfarçado de músico. Pela primeira vez ele se aproxima realmente da gente que por tanto tempo liderou, finalmente conhecendo aquele que era seu povo.
O filme é todo composto por belas cenas de imenso impacto, ele já se inicia mostrando o poder concentrado na figura de um homem cruel, mas que exibe carinho por seu neto, a humanização do personagem, com um simples telefonema ordena que as luzes da cidade se apaguem, o menino brinca com o poder que lhe é oferecido e a repete até que de repente a ordem de acender não seja concedida, é o início da revolução. A família do governante pega um avião para outro país e o menino aos prantos não deseja ir, como ainda o Presidente não tinha noção da proporção dos acontecimentos fica com o neto, a situação se agrava rapidamente com os cidadãos em fúria e é obrigado a fugir, se disfarçando de músico. A jornada é humanista, mas não permite a redenção ao tirano, ele se vê diante do povo que sofreu com a suas maldades, antes a opulência o afastava da realidade, apenas ordenava, não via o sofrimento, agora relegado à miséria sente medo rodeado por uma população com sangue nos olhos para matá-lo, sua sensibilidade é ativada, mas principalmente por conta da convivência com seu neto. O medo o domina, ele vai fugindo e cada canto que se esconde continua oprimindo as pessoas, por exemplo, na casa do senhor que corta sua barba e cabelo. Interessante observar a gradativa despersonalização do garoto, antes um menino mimado que se exibia com títulos e honras, em sua inocência vai deixando de lado esses costumes, por muitas vezes comete deslizes ao se dirigir ao avô com pompa e elegância e fazer continências.
Por se passar em um lugar fictício essa fábula pode ser encaixada em qualquer sociedade, a mensagem é de como o poder transforma os seres humanos, e que é preciso tomar cuidado com políticos que exibem falácias agradáveis, que dizem o que queremos ouvir diante de situações críticas, onde nada mais parece funcionar o desejo de um líder cresce, se a população der poder suficiente, é certo que não acabará bem.
Por se passar em um lugar fictício essa fábula pode ser encaixada em qualquer sociedade, a mensagem é de como o poder transforma os seres humanos, e que é preciso tomar cuidado com políticos que exibem falácias agradáveis, que dizem o que queremos ouvir diante de situações críticas, onde nada mais parece funcionar o desejo de um líder cresce, se a população der poder suficiente, é certo que não acabará bem.
A reflexão sobre o poder e a violência é pertinente e causa um mal-estar, apesar da sensibilidade que o diretor imprime, a história é pesada e os alívios cômicos que perpassam algumas cenas é algo como um riso desesperado. Lidar com um personagem mal que não poupa a população da fome, trabalhos infantis, estupros e muita violência enquanto esbanja em seu palácio e logo após a derrocada se infiltrar disfarçado e conviver com essas pessoas dilaceradas e ainda tentando salvar seu pequeno neto - a inocência em meio a tanta odiosidade, é deveras muito complexo. Aproximamo-nos dele e à medida que a história avança e as pessoas compartilham as suas misérias que foram causadas por esse ditador, gera estranheza perante essa situação de humanização, mas percebemos que o ódio nunca é o caminho, é preciso refletir para percorrer de outra maneira, a violência que essa população quer cometer contra ele é também perversa, é um ciclo interminável de crueldades, é necessário parar para questionar. O filme propõe que pensemos nestes limites.
"O Presidente" é uma obra impactante que prima pelo debate e consciência, o regime extremista é sempre uma má escolha, o diretor sabe do que está falando, viveu na pele torturas e atentados, os filmes de Mohsen Makhmalbaf precisam ser vistos, são essenciais.
Destaque para a emocionante interpretação do pequeno Dachi Orvelashvili, é pra aplaudir de pé, suas inocentes ações causam tensão e toda a sua composição, olhares e gestuais são incríveis. O filme gera angustia e é delicadamente aflitivo.
"Reações violentas geram violência e, portanto, paz gera paz. Nossa responsabilidade, como artistas, é difundir o conhecimento. Só a cultura nos salva." (Mohsen Makhmalbaf)
Destaque para a emocionante interpretação do pequeno Dachi Orvelashvili, é pra aplaudir de pé, suas inocentes ações causam tensão e toda a sua composição, olhares e gestuais são incríveis. O filme gera angustia e é delicadamente aflitivo.
"Reações violentas geram violência e, portanto, paz gera paz. Nossa responsabilidade, como artistas, é difundir o conhecimento. Só a cultura nos salva." (Mohsen Makhmalbaf)
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Modris
"Modris" (2014) dirigido pelo estreante Juris Kursietis é um filme da Letônia que retrata um adolescente apático, viciado em jogos de azar e que tem uma relação turbulenta com a mãe, seu único anseio é descobrir quem é seu pai, mas sua mãe diz que está preso e por alguma razão esconde seu verdadeiro paradeiro, o que o deixa revoltado. Modris não é melhor ou pior do que seus colegas. Ele vai à escola, tem uma namorada, alguns bons amigos. Seu vício em jogos de azar faz o seu relacionamento com a mãe ser difícil. Eles vivem sozinhos, e ela não perde a chance de lembrar-lhe que seu pai está na prisão e que possui um gene ruim. O relacionamento dos dois chega ao limite, quando Modris vende o aquecedor elétrico de sua mãe, ao tentar obter uma vitória em uma máquina de caça-níquel. Ela com raiva vai à polícia e Modris é condenado a dois anos de liberdade condicional. Isto é, quando as suas aventuras com o sistema de justiça começam, juntamente com a mudança de sua relação com o mundo exterior e sua nova meta: encontrar o pai que ele nunca conheceu.
Modris é um personagem interessante, ele não é mau, apenas distante, não tem ambições e tudo se resume a tentar se satisfazer jogando num bar perto de onde mora. Como não tem dinheiro, rouba de sua mãe e vende objetos de sua casa, cansada do comportamento do filho, ela resolve chamar a polícia e denunciá-lo. A situação então se complica, o garoto está sob fiscalização e qualquer deslize o fará ir para a cadeia.
O diretor faz questão que adentremos na história junto de seu protagonista, o estilo de filmagem é natural e quase documental, vamos acompanhando as atitudes e as consequências dos atos de Modris, não tem como ter raiva, ele está perdido, não sabe muito bem o que quer da vida, existe uma carência afetiva enorme, percebe-se isso por seus olhares, quase sempre à procura de alguma coisa. É um grande esforço do ator Kristers Piksa, que apesar de sua apatia exibe uma carga emocional em suas expressões faciais e linguagem corporal.
A mãe (Rezija Kalnina) não o ajuda, certo que está cansada, seu psicológico também precisa ser avaliado, sua atual atitude deve ser reflexo de várias decepções, e coloca toda a sua amargura de ter que se virar sozinha em cima do filho, que necessita de uma atenção mais carinhosa. Então vira um círculo vicioso, um atacando o outro, se aproximam de vez em quando numa tentativa de apaziguamento, mas logo surgem questões espinhosas, como o paradeiro do pai de Modris. Dói ver as ameaças da mãe dizendo que ele será como o pai, um bandido, é muito baixo da parte dela utilizar este artificio e depois reclamar das atitudes do filho.
"Modris" é um filme sólido, documenta perfeitamente a realidade social de jovens problemáticos, com consistência revela sobre relações familiares, numa tentativa de querer que o filho aprenda uma lição a duras penas o afasta mais ainda e o coloca numa posição frágil, a falta de percepção é enorme e os diálogos são inexistentes.
Algumas particularidades do sistema de justiça do país são abarcadas pela história, burocracias e punições que abrem vários questionamentos, Modris ao ser denunciado pela mãe tem a liberdade condicional, onde é fiscalizado e qualquer deslize, como beber cerveja em público e a perda de documentos são motivos para ser trancafiado na cadeia. Em muitos momentos percebemos que o garoto possui um coração bom e gentil, é realmente uma má sorte que o acompanha. As relações familiares em qualquer parte do mundo tem similaridades, "Modris" exemplifica isso e lembra que muitas mães e pais esquecem-se de cuidar e amar os filhos, preferindo deixar tudo nas mãos do Estado.
A fotografia do filme faz questão de exaltar o clima e o caminho melancólico e solitário do garoto, a cidade coberta de neve, com prédios em estilo bloco, a luz esquálida.
"Modris" é inspirado em uma história verídica, é um drama contemporâneo que traça o perfil de um jovem à deriva, relações familiares quebradas e que se vê cercado por um sistema que mais atrapalha do que ajuda. A interpretação é maravilhosa, sempre passivo e desconectado, o vemos sorrir apenas uma vez, mas habilmente consegue passar empatia, o estreante Kristers Piksa com seu semblante austero soube conduzir o personagem com maestria.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Xenia (Ξενία)
"Xenia" (2014) dirigido pelo grego Panos H. Koutras (Strella - 2009) é um filme alegre mesmo tratando de assuntos sérios, o título Xenia é um termo usado para estrangeiros, que significa hospitalidade e respeito, um nome comumente dado a hotéis, no filme os personagens se alojam em um completamente despedaçado, uma comparação com a situação mais que atual no país em relação aos imigrantes. Os irmãos Danny (Kostas Nikouli) de 16 anos e Odysseas (Nikos Gelia) de 18 anos foram abandonados pelo pai e criados por uma mãe viciada e completamente alheia, os dois colecionam traumas e sentem na pele o que é ser estrangeiros em sua própria terra, já que são filhos de uma mãe albanesa, cujo preconceito contra estes é gigantesco. Depois que a mãe morre, Danny vai à capital se encontrar com Ody a fim de procurar o pai para que reconheçam eles como filhos e garantir a cidadania grega evitando conflitos para o futuro e para acertar a situação financeira, nessa jornada enfrentarão obstáculos e reforçarão o laço afetivo.
Danny é gay assumidíssimo, seu comportamento é infantil e revela muita carência, mantém um coelhinho de estimação, está sempre a fantasiar e representa a imaturidade. Ody já é responsável, trabalhador e independente, porém guarda o sonho de ser cantor, e quando Danny aparece esse sonho se reacende e então ele vai em busca participando de um concurso de talentos, os dois são fãs da diva italiana Patty Pravo, influência da mãe que também adorava cantar, o filme é recheado de suas canções, e Ody interpreta uma de suas canções na audição. Uma belíssima cena!
"Xenia" é um aglomerado de tragédias, os personagens carregam diversos traumas e dificuldades, além do teor fantasioso e momentos inverossímeis. Há uma grande tensão homoerótica, pois eles demonstram intimidade em várias cenas, Ody é um homem bonito e atrai o olhar de Danny, mas o filme apenas insinua e vemos mais a amizade entre irmãos se construindo. O filme tem uma aura queer, subversiva, mas por outro lado também clichê, explora muitos assuntos e acaba se tornando confuso, há um desarranjo, talvez a ideia seja essa mesma, sendo assim o diretor foi corajoso ao utilizar o exagero.
A composição do personagem Danny é extremamente interessante, ele irrita com seus descontroles, mas é um adolescente cheio de conflitos, vulnerável e carente. Kostas Nikouli explorou todas a nuances de Danny e passa ao espectador todo o drama e a originalidade, a impulsividade é uma de suas características mais marcantes.
A busca pelo pai garante a Danny e Ody várias descobertas, no caminho encontram pessoas que o ajudam, como Tassos, amigo da mãe dos garotos, que incentiva Ody a participar do programa de talentos. O filme possui cenas super agradáveis, quando dançam e cantam, principalmente. A explosão de cores que compõe a estética do filme é outro ponto forte e que traduz essa aura de confusão. A trilha sonora é bastante peculiar, as canções italianas são em grande maioria de Patty Pravo, como "Bambola", "Sentimento" e "Tutt'al Piu", cuja Ody com sua bela voz interpreta no programa, "Rumore", de Raffaela Carra é outra música que os irmãos adoram, até fazem a exata coreografia.
"Xenia" aborda diversos assuntos, mas não se aprofunda, por exemplo, o preconceito em relação aos imigrantes, a Grécia tem uma forte repulsa e é um dos países mais intolerantes, porém o filme prefere mostrar as coisas por um viés de otimismo e que tudo depende da forma como se conduz os sofrimentos que inevitavelmente acontecem. A busca pelos sonhos traz a autodescoberta aos personagens e uma liberdade aconchegante, mesmo com a dura realidade, a tristeza e as fragilidades que os acometem.
É um filme exagerado, divertido, melodramático, tem estilo ousado, mescla fantasia, aventura, musical, drama, e ainda coloca crítica social em sua narrativa louca, é um filme aberto a várias leituras.
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