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terça-feira, 19 de novembro de 2019
Graças a Deus (Grâce à Dieu)
"Graças a Deus" (2018) dirigido por François Ozon (Uma Nova Amiga - 2014) é um drama potente que faz questão de colocar o dedo na ferida, o tema é delicado e espinhoso: a pedofilia na Igreja Católica, mas é retratado com cuidado e com muita importância, observamos a história de três homens que foram vítimas e o como cada um lida com o trauma e o quanto é desgastante a busca pela justiça num sistema que se protege e mascara a verdade. Tenso e enfadonho por vezes, mas imensamente essencial.
Um dia, Alexandre (Melvil Poupaud) toma coragem para escrever uma carta à Igreja Católica, revelando um segredo: quando era criança, foi abusado sexualmente pelo padre Preynat (Bernard Verley). Os psicólogos da Igreja tentam ajudar, mas não conseguem ocultar o fato de que o criminoso jamais foi afastado do cargo, pelo contrário: ele continua atuando junto às crianças. Alexandre toma coragem e publica a sua carta, o que logo faz aparecerem muitas outras denúncias de abuso, feitas pelo mesmo padre, além da conivência do cardeal Barbarin (François Marthouret), que sempre soube dos crimes, mas nunca tomou providências. Juntos, Alexandre, François (Denis Ménochet) e Emmanuel (Swann Arlaud) criam um grupo de apoio para aumentar a pressão na justiça por providências. Mas eles terão que enfrentar todo o poder da cúpula da Igreja.
Tudo se inicia com Alexandre, um homem de 40 anos, católico fervoroso e pai de cinco filhos, sua fé é posta em xeque quando recebe a notícia de que o padre Preynat ainda atua na Igreja e com crianças, indignado decide romper o silêncio e buscar mais pessoas que tenham sofrido o abuso, ele denuncia o caso à Igreja, mas enfrenta uma série de situações estranhas por parte da alta cúpula. O cardeal Barbarin sempre acobertou esses casos e até diz numa coletiva de imprensa que graças a Deus que a maioria dos casos já prescreveu. Decidido a encontrar o máximo de pessoas que sofreram abuso Alexandre inicia uma angustiante jornada e encontra uma grande parcela ainda bastante traumatizada que não consegue nem falar sobre, porém a coragem vem à tona quando François cria um movimento e decide expor tudo na mídia. É interessante ver o como cada um lida à sua maneira com o fardo, Alexandre continuou seguindo a religião e constituiu família, François renunciou a fé completamente e também constituiu família, já Emmanuel vive relacionamentos tóxicos e o abuso foi algo que deixou marcas tanto no seu ser quanto em seu corpo. É realmente triste acompanhar o quanto isso acabou o levando para caminhos violentos. A família de François é bastante presente na associação que criou e a mãe de Emmanuel ajuda com as ligações, certamente a culpa de não ter feito nada no passado, Alexandre aos poucos vai sentindo sua fé sendo murchada, uma decepção e uma tristeza o invade, pois talvez não havia pensado tão claramente sobre o abuso. O padre em momento algum nega, ele é protegido pela instituição e se declara doente, nunca foi afastado e ainda continuou perto das crianças.
O silêncio que corrói enfim é quebrado e a denúncia é amplamente feita, não é um filme fácil de assistir, mas é importante ver que tantos casos de pedofilia cometidos pela Igreja estão sendo expostos e julgados, uma instituição poderosa que dita dogmas e que comete abusos horríveis e esconde e se protege mascarando a verdade, atualmente esse quadro está mudando e sendo muito mais observado. "Graças a Deus" é um filme que denuncia e que retrata a podridão escondida nos meandros da Igreja Católica, baseado em fatos reais Ozon direciona seu longa com uma relevância séria e também delicada provocando reflexões acerca do poder da Igreja.
O Arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin, de 68 anos, foi condenado a seis meses de prisão em 7 de março de 2019 culpado por não denunciar os casos de pedofilia, o filme em 16 de fevereiro ganhou o prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim, ou seja, um filme que cumpre um papel político-social importante ao denunciar e promover a quebra de tabus em relação aos casos de pedofilia cometidos pelos representantes da igreja.
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
O Tradutor (Un Traductor)
"O Tradutor" (2018) dirigido por Sebastián Barriuso e Rodrigo Barriuso conta a história real do professor universitário cubano Malin, na verdade, Manuel Barriuso Andino, que vê sua vida transformada quando é designado para ser o tradutor numa ala infantil de um hospital destinado às vitimas do desastre nuclear de Chernobyl. Ambientado em 1989, as primeiras imagens são de Fidel Castro recebendo Gorbachev, Cuba necessita muito da ajuda da URSS, mas devido ao colapso e, por conseguinte, à sua ruína, as coisas começam a mudar no país, inicialmente as aulas de literatura russa são canceladas e novas funções são designadas aos professores, Malin vivido visceralmente por Rodrigo Santoro se vê obrigado a trabalhar num hospital que recebe vítimas do desastre de Chernobyl, especificamente a ala infantil, o sofrimento acaba sendo uma constante em sua vida ao ponto de sugar toda a sua energia, o sistema de saúde de Cuba reconhecido como um dos melhores do mundo recebia essas crianças para o tratamento, mas a comunicação era difícil e, portanto, Malin com ordem do governo inicia esse trabalho.
Acompanhamos todo o cenário político da época e as suas transformações juntamente com as transformações pessoais do protagonista, sua vida até então boa e sem preocupações passa a ser um fardo, pois o peso de conviver com crianças em estados críticos e terminais deprime e o significado das coisas se modificam, por conta desse dia a dia o casamento se desfaz, não há diálogos e tudo parece pequeno para Malin, sua esposa é curadora de uma galeria de arte e por causa de sua experiência com as crianças que lutam pela vida não consegue entender os problemas dela em relação ao trabalho e as responsabilidades de resolver sozinha as situações cotidianas, grávida do segundo filho resolve deixar a casa e ir morar por uns tempos com seus pais, Malin também se distancia da vida do filho e vemos o como o pequeno é afetado por essa ausência, não é fácil a rotina no hospital, ter que ser o interlocutor de notícias desagradáveis aos pais das crianças, nesse ambiente sufocante ele então inicia formas de suavizar, ou seja, introduz histórias e interação uns com os outros, ouve e percebe o como cada um se sente, o carinho e a compreensão faz total diferença e é aí que o filme nos toca profundamente, é bonito ver o como Malin se dedica a amenizar o sofrimento promovendo leitura, aprendizado e diálogo, o completo oposto em sua casa, mas ali ele faz o possível para o lugar ser menos pesado. A enfermeira Gladys (Maricel Álvarez), ajuda nesse processo, pois possui empatia e sua dedicação também impressiona.
O filme não se aprofunda nas questões políticas, mas a realidade do país socialista é retratada de acordo com as vivências de Malin, observamos vários eventos importantes, como a queda do muro de Berlim e a crise econômica que assolou Cuba devido o colapso da União Soviética, são cenas marcantes e em sua maioria emocionantes, destaque para a ambientação com todos os detalhes que nos transportam para a época. E, claro, a linda dedicação de Rodrigo Santoro ao personagem, percebe-se que deu alma e muita vida para interpretá-lo, brilhante execução.
"O Tradutor" é uma obra que emociona, mas não apela em momento algum para excessos, o desenvolvimento e a transformação vem de forma natural, as vivências do protagonista inspiram muitas reflexões sobre as alternativas de se ajudar os outros em situações críticas, diz como a educação sempre é o melhor caminho fortalecendo assim a empatia, o afeto e olhares diversos, além de colocar tudo em paralelo com o conturbado cenário político.
*O filme foi dirigido pelos filhos de Malin, que na realidade se chama Manuel Barriuso Andino.
*O russo impecável de Santoro se deu por uma imersão na língua durante quatro semanas, estudou e tomou aulas para acertar o ritmo e trabalhou na memorização não apenas de suas falas, mas na de seus colegas de elenco também.
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
O Bar Luva Dourada (Der Goldene Handschuh)
"O Bar Luva Dourada" (2019) dirigido por Fatih Akin (Atravessando a Ponte: O Som de Istambul - 2005, Em Pedaços - 2017) baseia-se na história real do serial killer alemão Fritz Honka que escolhia suas vítimas em um bar e as matava brutalmente em seu apartamento, sua feição asquerosa juntamente com seu estilo de vida degradante surte um efeito repulsivo no espectador e consegue emanar com potência seu cheiro putrefato.
A trama se passa em Hamburgo, 1970. Fritz Honka (Jonas Dassler) é um homem fracassado com o rosto deformado, que vagueia pelas noites de um bairro boêmio ao redor de outras almas perdidas. Ninguém desconfia que, na verdade, Fritz é um serial killer. Ele persegue mulheres mais velhas e solitárias que conhece no Luva Dourada, seu bar favorito, e as esquarteja em seu apartamento. Quando os jornais começam a noticiar o desaparecimento sucessivo de várias mulheres, o medo e o caos se instalam na cidade.
Acompanhamos a rotina de Fritz, que se resume em trabalhar e gastar seu dinheiro em bebida no bar Luva Dourada, um local cujos frequentadores são em sua maioria velhos briguentos e prostitutas idosas, o dono do bar faz questão de tampar as janelas para que os fregueses não enxerguem a luz do sol para não irem embora e encherem a cara de Schnapps, uma espécie de água ardente, todos possuem apelidos curiosos e é nesse ambiente que Fritz escolhe suas vítimas, sempre prostitutas velhas que não titubeiam em aceitar bebidas, algumas recusam por não suportar olhar no rosto de Fritz, mas a maioria por estarem em estados lamentáveis aceitam e acabam parando em seu apartamento, Honka é extremamente violento e possui uma raiva especial para com as mulheres, a brutalidade é exposta principalmente através dos barulhos, a respiração e os sons que produz são horrorosos, todo o processo em separar as partes do corpo e depois locomovê-los, a sujeira faz parte desse cenário e não nos poupa em nada, o fedor atravessa a tela. Fritz se desfaz de algumas partes, mas guarda em seu apartamento outras e isso faz com que o lugar já sujo se torne repulsivo, todos que entram reclamam do fedor, ele responde que o cheiro é da sopa que os gregos cozinham no andar de baixo, e como sempre a maioria das mulheres estão em níveis de embriaguez extrema não se importam, aliás a bebida é um gatilho para Honka, há um momento que ele decide parar e iniciar um novo trabalho, existe um controle por estar consciente, mas logo isso se quebra e sua misoginia novamente grita. O filme não faz questão de explicar ou de dar detalhes sobre a vida anterior ou as causas de sua personalidade violenta, as curiosidades também foram deixadas de lado e a história se preocupa em colocar em cena de forma perturbadora a degradação do ser humano.
É incrível a ambientação e todo o design de produção, seja no pequeno apartamento atulhado de sujeira com fotos de mulheres nuas grudadas na parede, restos de comida, bitucas de cigarro e garrafas e mais garrafas de bebidas, ou o bar que assim como seus fregueses se encontram numa situação deplorável, o asco permeia desde as mais pequenas situações, a violência é chocante e incômoda, mas sem dúvidas o que mais promove os sentimentos de repulsa é sua estética, o retrato da degradação dos personagens, a parte em que Fritz vomita ao abrir o local onde amontoa os pedaços dos corpos causa ânsia, a podridão ultrapassa a tela.
Obviamente o trabalho de maquiagem feito no ator Jonas Dassler de apenas 23 anos é primoroso, e sua performance ganha todos os méritos possíveis, desde seu modo de andar ao seu sorriso deforme, todos os outros impressionam também, estão sempre com fraturas e feridas, dentes saltando pela boca, pele gordurosa e alterados pela bebida.
"O Bar Luva Dourada" perturba pela estética e pela forma que filma as ações, a degradação humana nesse longa é brutal, deplorável e, principalmente, fétida.
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Verão (Leto)
"Verão" (2018) dirigido por Kirill Serebrennikov (O Estudante - 2016) é um filme interessante e original sobre o cenário efervescente do Rock and Roll nos anos 80 em plena União Soviética, os artistas celebravam a cultura considerada inimiga e adaptavam canções clássicas para um formato aceito pela censura, assim acontecia também com as originais que precisavam passar por um crivo rígido, a juventude apesar de rebelde possuía cautela na hora de compor e com inteligência inseriam metáforas para dizer o que queriam, o tom se encaixava na comédia e dessa maneira se livravam da terrível censura que julgava tudo ofensivo ou até traição à pátria.
No verão de 1981, o rock underground chegava na Rússia Soviética, mais precisamente em Leningrado, onde hoje localiza-se a cidade de St. Petersburg. Sob a influência de artistas internacionais, como Led Zeppelin e David Bowie, o rock vibrava na cidade, marcando o nascimento de uma nova geração de artistas independentes. O jovem Viktor Tsoi (Teo Yoo) ganhou fama internacional e tornou-se o primeiro grande representante russo do gênero, foi o fundador e líder da banda Kino. Além da música, ele também ficou conhecido pelas polêmicas relacionadas a sua vida pessoal, como o triângulo amoroso que viveu junto com o seu mentor musical, Mike (Roman Bilyk), vocalista da banda Zoopark e a esposa dele, Natasha (Irina Starshenbaum).
Somos absorvidos por uma realidade contagiante e por vezes fantasiosa, a imersão nesse passado não muito distante é repleto de estilo e captura com excelência toda a aura opressiva e ao mesmo tempo borbulhante dessa época, certamente o que mais chama a atenção são as inserções musicais que possuem humor e excentricidade, nesses momentos surge uma espécie de narrador que com placas indica: "isto não aconteceu", são devaneios que contrastam com o quanto os artistas eram podados e que para criar era necessário moldar ou esconder muitas coisas, os ídolos do ocidente, David Bowie, Iggy Pop, Talking Heads, Lou Reed faziam a cabeça da juventude, mas as versões das músicas famosas e as composições não pareciam rock e a necessidade de mudar era cada vez mais intensa, porém a realidade não permitia e tudo o que tinham era a amizade e o mesmo sonho que os unia, assim foi com Viktor e Mike, personagens centrais da trama, e tantos outros que se destacaram na cena do rock soviético. Em meio a isso ainda acontece um triângulo amoroso vivido por Natasha, Mike e Viktor, uma intensa e complexa relação, eram unidos pela admiração e os desejos em comum.
É um filme cheio de ironias e provocações, um ótimo exemplar para conhecer artistas que driblaram o regime autoritário e conseguiram se inspirar em grandes músicos, como Lou Reed, e mesmo com tantas restrições compunham e se apresentavam, a busca pela liberdade nesse ambiente tão castrador só acontecia por conta da união deles e na maioria das cenas é destacado essa integração e o desejo de fazer acontecer, era a necessidade de dar voz mesmo que em formas adaptadas.
"Verão" é surpreendente, belo visualmente e imersivo em sua ambientação, traz com humor e acidez perspectivas interessantes da realidade musical na Rússia do período do regime comunista, por exemplo, ao retratar o como a plateia deveria se comportar durante um show ou as inúmeras restrições que os músicos deveriam seguir para subir ao palco, e certamente o ponto de mais destaque são as intervenções musicais que têm o propósito de quebrar a rigidez e lançar um pouco de cor à história.
quarta-feira, 29 de maio de 2019
O Anjo (El Ángel)
"O Anjo" (2018) dirigido por Luis Ortega e produzido por Pedro Almodóvar é baseado na história real de Carlos Robledo Puch, que assassinou 11 pessoas e ficou conhecido como "o anjo da morte" na década de 70 - atualmente ele ainda está preso, sendo o encarcerado mais longo da Argentina. O filme retrata a adolescência do rebelde Carlitos que tem a mania de roubar objetos e levar para casa dando a desculpa de que são emprestados por amigos, os pais se fingem de bobos e assim levam a vida até que ele encontra Ramón e se apaixona tanto por ele quanto pela vida criminosa.
Desde a adolescência, Carlos (Lorenzo Ferro) tem o hábito de invadir casas alheias, pelo simples prazer que o ato lhe dá. Às vezes ele leva algo para casa mas jamais para ganhar dinheiro, apenas para curtir o momento. Ao conhecer Ramón (Chino Darín - filho de Ricardo Darín) em sua nova escola, ele logo é apresentado a um universo mais profissional de crimes, já que o pai de Ramón é veterano da área. Carlos logo se destaca pela ousadia nos crimes que comete, impulsionado pela atração que sente por Ramón. Com o tempo, a displicência com os demais faz com que cometa onze assassinatos e se torne um dos criminosos mais procurados da Argentina.
Cheio de cores e estilo a história fisga pelo charme envolvendo o personagem e sua personalidade fria que ao longo vai se tornando perturbadora, o pai de Ramón, ladrão profissional que já foi preso vê nesse garoto potencial e o aproveitam ao máximo, quando decidem roubar uma loja de armas surpreendem-se e aí inicia-se uma série de outros roubos em que Carlitos nunca satisfeito sempre pretende mais, quando experimenta atirar e matar sua frieza e audácia se eleva. Ele é um garoto bonito e que jamais seria visto como um bandido, portanto se beneficia dessa situação e comete as piores atrocidades. Em dado momento Carlitos e Ramón se autodenominam como "Eva e Perón" e o tempo todo existe uma enorme tensão sexual entre eles, Carlitos está se descobrindo sexualmente e a liberdade que existe na casa de Ramón o deixa confortável, Ramón claramente é próximo dele por ambição, mas há uma química perfeita entre eles, o modo que Carlitos busca sua liberdade é desumana e distorcida, quando ele diz sobre o porquê rouba e a maneira que lida com as mortes é dissimulada e debochada.
"Eu sou um ladrão de nascença. Eu não acredito em isso é seu, e isso é meu".
A reprodução da época é genuína, a fotografia é deslumbrante, sua trilha sonora é cheia de movimento, vide a cena de Carlitos dançando ao som de "El Extraño Del Pelo Largo", da La Joven Guardia, e a narrativa cativa e é bem fechada, além das incríveis atuações, o jovem Lorenzo Ferro faz sua estreia com espontaneidade e firmeza, a dupla que faz com Chino enriquece bastante a obra, existe uma gama de sentimentos entre eles, a paixão que pulsa, o encantamento com a liberdade de ser do outro, a ambição desenfreada e os desejos que se confrontam. Carlitos entra numa espiral de violência e ele ama essa sua loucura. Seus pais não sabem o que fazer, ele aparece quando quer e até o último momento fecham os olhos para a realidade, só no último instante é que encaram, pois a mídia sensacionalista entra em cena e a polícia está a sua procura, então a mãe resolve agir e denunciar o filho. A história não tem surpresas, até porque é baseada em fatos e o que puxa mesmo a atenção é sua beleza estética e charme nas tomadas e seus close-ups.
"O Anjo" traz um personagem cínico e com uma frieza que seduz e até cria-se uma empatia, o que incomoda, o filme segue pela direção do entretenimento e há muita jocosidade na maneira que os crimes são encenados, no final mesmo gostando do longa, pois é inegável suas qualidades, acaba promovendo uma culpa e surge a reflexão sobre a necessidade dessas cinebiografias que transformam assassinos em atração cinematográfica. É um ótimo filme, mas a romantização e a caricatura em torno é de se questionar.
quarta-feira, 27 de março de 2019
Lords of Chaos
"Este filme é baseado em verdades, mentiras, e no que realmente aconteceu."
"Lords of Chaos" (2018) dirigido por Jonas Åkerlund (Polar - 2019) é um filme baseado no livro "Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Underground" e inspirado numa história real em torno do surgimento do cenário black metal norueguês, Euronymous motivado pela banda Venom acaba criando sua própria banda com um som único e morbidamente fascinante, entre um curto período segue-se diversos conflitos e a obscuridade vai tomando conta da vida real, como a queima de igrejas e assassinatos, como descrito em seu início há verdades, mentiras e fatos que realmente ocorreram, mas que não se prendem à seriedade, pois é um filme de ficção e não um documentário, e propõe apenas um recorte da história e um olhar de desconstrução em torno dessas figuras e os demonstra como simplesmente adolescentes problemáticos e maldosos dominados pelo tédio e com uma criatividade pulsante e extrema, o sarcasmo é muito bem-vindo, assim como a caracterização dos principais personagens e a questão de ser poser ou true ganha tons de deboche. Jonas Åkerlund, conhecido pela direção de clipes musicais tem propriedade para falar do assunto, viveu na época, inclusive sendo um dos bateristas da banda Bathory. Então para os fãs mais ardorosos acalmem esses nervos e curtam o filme e agradeçam que alguém teve a ousadia de colocar um pouco da história desse gênero tão infame e tão arrebatador em um filme de ficção, aliás deixo como dica o islandês "Metalhead" (2014). Para quem quiser conhecer mais a fundo e ir de encontro com a ascensão da cultura do gênero na Noruega com toda a violência, profanação e a mística do mal existem documentários, tal como, "True Norwegian Black Metal" (2007), "Once Upon a Time in Norway - The History of Mayhem" (2007), "Black Metal Satanica" (2008) e "Until the Light Takes Us" (2008).
Noruega, anos 90. Euronymous (Rory Culkin), um adolescente precoce, pretende espalhar o mal, caos e black metal de verdade com sua banda, Mayhem. Quando ele convida Varg (Emory Cohen), um misterioso solitário, a participar de seu "Círculo Negro", uma rivalidade se dá início, levando a inesperadas consequências.
Acompanhamos o jovem Euronymous com todos os seus ideais em torno da sonoridade agressiva, procurando um novo vocalista para sua banda Mayhem, surge "Dead", Per Yngve Ohlin (Jack Kilmer) vindo da Suécia, depressivo mutilava-se nos shows e apreciava a atmosfera da morte, enterrava suas roupas e depois as usava e inalava o cheiro putrefato de corvos mortos, também foi quem difundiu a utilização do corpse paint, inspiração vinda da banda brasileira "Sarcófago". Sua morte precoce cometida através de um suicídio brutal, pulsos cortados e um tiro de espingarda na cabeça resultou na capa do álbum "Dawn of the Black Hearts", de 1995, Euronymous ao encontrá-lo correu para comprar uma câmera e alterou um pouco a cena a fim de a tornar mais chocante, além de ter criado lendas, como ter comido uma parte de seu cérebro e conceber colares a partir de seu crânio, o que fazia parte de um marketing e acabava gerando curiosidade não só entre os adoradores. Vale ressaltar que Jack Kilmer como Dead está incrível e particularmente encarei como a melhor caracterização, absorveu com excelência a atmosfera e sua performance é brilhante.
Euronymous abre uma loja de discos e também gravadora e é líder de um grupo chamado "Inner Circle", onde somente os verdadeiros apreciadores do som poderiam entrar, além de ter toda uma aura de maldade, acaba que toda essa contestação contra o cristianismo, ideias de propagar o mal ganha formas reais quando um jovem tímido se aproxima de Euronymous e lhe apresenta sua banda, o Burzum, um som caótico, agressivo e hipnotizante concebido por apenas uma pessoa, o extremista e talentoso Varg Virkenes, esse jovem decide colocar em prática seus ideais e começa a queimar igrejas se sobressaindo no círculo e deflagrando uma onda satanista, surge aí conflitos de poder entre os jovens e atitudes cada vez mais violentas para se afirmarem no grupo, ou somente por pura maldade, como o caso de Faust (Valter Skarsgård), ao assassinar brutalmente um gay dando 37 facadas para sentir como era. Euronymous é retratado como um adolescente que dissipava ideias e usava essas polêmicas como marketing, Varg, um imbecil, inclusive rendeu altas críticas pelo próprio, reclamando da interpretação "daquele ator gordo judeu", então o filme promove não a humanização destas figuras, mas uma demonstração de adolescentes que tinham absolutamente tudo, mas mergulhados no tédio e prontos para confrontar e conceber algo novo. Por conta dessas atrocidades e polêmicas e a grande expressividade do gênero a Noruega acabou ganhando o título do berço do black metal.
O filme tem uma ótima ambientação e faz recriações excelentes, como das fotografias, as cenas violentas e o gore são muito bem feitas, os esfaqueamentos são perturbadores e toda a atmosfera pesada se faz presente apesar do tom de sarcasmo que permeia a obra, a trilha sonora além das músicas do estilo ousou na criatividade colocando algo oposto, como Dead Can Dance e Sigur Rós.
"Lords of Chaos" cumpre com a proposta de apresentar uma parte do cenário do black metal norueguês e mostrar os acontecimentos sórdidos que se mesclaram ao gênero, mas tudo sob um viés descompromissado; as polêmicas, a associação ao satanismo, a valorização da cultura escandinava e a quebra do mito ao retratar adolescentes idiotas em estado de ebulição que queriam fazer a diferença de qualquer jeito num ambiente frio, cinza e sem maiores problemas. Os truezão podem contestar a vontade, mas o filme é eficiente e empolga!
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| Na foto: O Mayhem original e abaixo o Mayhem do filme |
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
O Velho e a Arma (The Old Man & the Gun)
"O Velho e a Arma" (2018) dirigido pelo proeminente David Lowery (A Ghost Story - 2017) é o filme de despedida do ícone Robert Redford, com uma leve e carismática atuação cumpre sua missão com estilo e nostalgia.
Preciso, gentil e carismático, Forrest Tucker (Robert Redford) domina com maestria a arte de assaltar bancos. Aos 70 anos de idade, o senhor conseguiu a façanha de escapar da prisão de San Quentin e de tantas outras, e agora segue conduzindo uma série de roubos que intriga a polícia e fascina os espectadores. No entanto, o detetive John Hunt (Casey Affleck) está na sua cola, e Tucker precisará elaborar ainda mais suas artimanhas para ter sucesso no seu último grande ato.
Aos 82 anos Redford fecha a sua carreira numa simpática atuação em que sua presença enche a tela com charme e elegância, baseado no artigo "The Old Man and The Gun", de autoria de David Grann e publicado em 2003 na revista New Yorker, o ladrão idoso Forrest Tucker chama a atenção pelos métodos utilizados nos assaltos a bancos, sempre gentil e com um belo sorriso no rosto e acompanhado por seus dois companheiros, Teddy (Danny Glover) e Waller (Tom Waits), ele vai ganhando fama na mídia e o desiludido John Hunt (Casey Affleck) vai descobrindo que os roubos realizados em diversos estados em pequenas quantias é feito pela mesma pessoa justamente pelos depoimentos de que o senhor era muito educado e que até elogiava os funcionários, ele inicia sua intensa caçada, que apesar do seu temperamento lacônico possui muita destreza em seu trabalho, e ele o faz com instinto e nunca visando dinheiro ou fama.
Tucker possui bastante habilidade nas fugas dos assaltos e numa delas acaba conhecendo a viúva Jewel (Sissy Spacek), não demora para que ambos se reencontrem e inicie um romance, ele chega a contar sua verdadeira profissão, mas dado seu jeito simpático Jewel não acredita, os encontros são dotados de doçura e rendem ótimos diálogos, aliás o filme todo apresenta grandes diálogos, inclusive um com Tom Waits ganhando a cena. E também é cheio de referências aos diversos personagens da carreira de Redford, a sua performance agradável e divertida dada ao fora-da-lei nada mais é que uma homenagem a sua trajetória e a afeição por esses tipos, como o bandido Sundance Kid do faroeste "Butch Cassidy" (1969) e o vigarista Johnny Hooker de "Golpe de Mestre" (1973).
Tucker possui bastante habilidade nas fugas dos assaltos e numa delas acaba conhecendo a viúva Jewel (Sissy Spacek), não demora para que ambos se reencontrem e inicie um romance, ele chega a contar sua verdadeira profissão, mas dado seu jeito simpático Jewel não acredita, os encontros são dotados de doçura e rendem ótimos diálogos, aliás o filme todo apresenta grandes diálogos, inclusive um com Tom Waits ganhando a cena. E também é cheio de referências aos diversos personagens da carreira de Redford, a sua performance agradável e divertida dada ao fora-da-lei nada mais é que uma homenagem a sua trajetória e a afeição por esses tipos, como o bandido Sundance Kid do faroeste "Butch Cassidy" (1969) e o vigarista Johnny Hooker de "Golpe de Mestre" (1973).
Em dado momento volta-se ao passado do criminoso e retrata as suas mais elaboradas fugas em diversas prisões ao longo de sua vida, uma sequência de imagens nostálgicas que nos leva a querer rever os tantos filmes de Redford, uma homenagem luminosa. Toda a vivacidade e o vício na vida criminosa do personagem é retratada com um ritmo charmoso, assim como a sua maneira de lidar com os assaltos e as pessoas ao redor, a câmera vangloria a sua figura com grande entusiasmo.
"O Velho e a Arma" nos fisga pela abordagem extrovertida em torno da figura de Tucker, há sempre um sorriso em seu rosto e jamais perde a energia, os roubos e as fugas são suas paixões e o filme consegue transpor exatamente esse sentimento ao espectador. Agradável, elegante e uma bela homenagem a um dos grandes ícones do cinema!
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Meu Amigo Dahmer (My Friend Dahmer)
"Meu Amigo Dahmer" (2017) dirigido por Marc Meyers (How He Fell in Love - 2015) é um filme com uma abordagem diferente dentro da temática de serial killers, traça seu psicológico durante a adolescência, um período confuso para qualquer um, mas somado a uma personalidade perturbada revela o quão agravante pode ser quando se vive em meio a tantas experiências traumáticas, seu processo até se transformar em um assassino é marcado por situações estranhas dentro da família, com os colegas da escola, sua curiosidade mórbida em querer saber o que há por dentro dos animais e o medo sobre sua sexualidade. Um fascinante e melancólico retrato sobre o desbrochar da maldade.
Adaptado da graphic novel homônima escrita e desenhada pelo artista Derf Backderf - amigo de Dahmer no colégio - acompanhamos o jovem Jeffrey Dahmer (Ross Lynch), que luta com uma vida familiar difícil e a vontade e os pensamentos de querer matar. Dahmer é considerado um dos serial killers mais famosos do mundo, que estuprou e assassinou 17 homens e meninos entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1990. Os contos sangrentos de seus assassinatos muitas vezes envolveram desmembramento e canibalismo. Dahmer, que foi diagnosticado com transtorno de personalidade borderline e um transtorno psicótico, foi morto na prisão por um companheiro preso em 1994.
Dahmer passa seus dias numa cabana dissecando animais que ele próprio recolhe das estradas e bosques com o objetivo de preservar os ossos, seu pai o aconselha a se enturmar com os colegas e fazer outros tipos de coisas, mas ele só começa a mudar de atitude quando o pai destrói sua cabana e sua coleção, melancólico decide chamar a atenção dos meninos populares fingindo ter ataques epilépticos, o que de início dá certo e faz com que Derf (Alex Wolff) se interesse por sua peculiaridade e o desenhe constantemente. Então esses ataques se tornam frequentes em diferentes locais promovendo confusão e medo nas pessoas, enquanto isso a mãe de Dahmer depois de muito humilhar o marido decide se separar, sua instabilidade emocional e indiferença é gritante e o pai se torna distante também e Dahmer fica à mercê da sorte. Suas descobertas, conflitos internos e seus desejos assassinos começam aflorar à medida que a amizade com os meninos na escola esmorece, seu teatro de ataques epilépticos perdem a graça e percebe o quanto foi usado, do quanto destoa de todo o meio e a incapacidade de compreender seus impulsos sexuais faz crescer a raiva, o alcoolismo surge e ideias cruéis vão se desnovelando em sua mente. O recorte psicológico que o filme promove é muito interessante e coloca em questão o quão frágil emocionalmente ele era devido o ambiente familiar desestruturado e o bullying constante na escola, o fazendo criar ilusões para sobreviver somado a sua curiosidade sobre o que havia por dentro dos corpos.
O jovem Ross Lynch conhecido por papéis teen, inclusive em várias produções da Disney, faz aqui seu verdadeiro début como ator, sua composição é minuciosa e colocou todas as camadas do personagem na tela, o controle de seus impulsos, a manipulação, o sofrimento, a introversão, a carência, a raiva, o deslocamento, suas atitudes e feições claramente davam indícios de problemas, mas ninguém realmente prestava atenção.
"Meu Amigo Dahmer" aborda o início da vida de Dahmer e o como o ambiente adverso em que vivia contribuiu para sua obscuridade vir à tona, um intrigante estudo da mente de um dos psicopatas mais sanguinários de todos os tempos. Por ser baseado no quadrinho de Derf e sua vivência com Dahmer na fase do colégio traz veracidade ao documentar o processo que o fez se tornar um monstro, o fascínio não está nos assassinatos e sim nas nuances que pôde captar de Dahmer na época.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
Predadores do Amor (Hounds of Love)
"Predadores do Amor" (2016) dirigido por Ben Young (Extinção - 2018) é um drama perturbador ao retratar a maldade humana e por a violência ser sugestiva o incômodo aumenta, o que sobressai é sua atmosfera pesada marcada por personalidades doentias. Ambientado na Austrália dos anos 80 e inspirado no caso de assassinatos de Moorhouse cometidos pelo casal David e Catherine Birnie, o horror da história é concentrado na maneira como esse casal age, o ritmo lento amplifica a tensão e as interpretações são minuciosas, todo e qualquer detalhe impressiona, assim como o denso jogo psicológico.
No meio da década de 1980, Vicki Maloney (Ashleigh Cummings) está com 17 anos de idade e é aleatoriamente sequestrada em uma rua do subúrbio por um casal problemático. A medida que ela observa a dinâmica entre os seus sequestradores, ela logo percebe que precisa criar uma barreira entre os dois se quiser sobreviver.
Somos introduzidos de maneira crua em uma cena em slow motion, eles visualizam meninas praticando esporte e depois oferecem carona para uma delas que vai a pé embora, o calor é demais e o casal parece inofensivo, depois dessa introdução segue a vida de Vicki, uma adolescente que não se dá bem com a mãe e quando é impedida de ir a uma festa foge de casa e é abordada pelo casal na rodovia, do mesmo modo parecendo inofensivos e legais aceita e acaba dentro da casa deles. Vicki visualiza o casal se beijando, bebendo e estranha algumas coisas, só que é tarde demais e se sente mal, colocaram algo em sua bebida e, de repente, se vê acorrentada em uma cama.
As sequências de tortura e estupro não são explícitas e isso torna o filme sério e não descamba para o exploitation e serve como um alerta para o quão doentio o ser humano pode ser, que por trás de faces aparentemente amigáveis podem existir perversidades. Vicki sofre nas mãos tanto de um como de outro e conforme o tempo passa percebe a relação instável deles, John é cruel e extremamente abusivo em relação a Evelyn, temos a exata noção da crueldade desse homem, mas Evelyn não possui personalidade própria, é obcecada pelo companheiro e faz tudo o que ele pede, mas não tolera que aproveite das meninas sozinho, e com Vicki esse sentimento se agrava, se sente menos bonita e Vicki acompanhando esses episódios tenta de alguma forma incutir pensamentos negativos sobre John para que talvez ela comece a pensar no domínio que exerce em sua vida, as situações vão se intensificando, ciúmes, obsessão e muita violência, Vicki sofre inúmeros traumas e chega um determinado ponto que não vê saída, mas Evelyn é uma incógnita e suas atitudes imprevisíveis. Emma Booth é sublime e incorpora uma psicopata com maestria, sua performance assusta e sua instabilidade hipnotiza, são olhares e trejeitos assombrosos e marca como uma das melhores dentro desse gênero.
As sequências de tortura e estupro não são explícitas e isso torna o filme sério e não descamba para o exploitation e serve como um alerta para o quão doentio o ser humano pode ser, que por trás de faces aparentemente amigáveis podem existir perversidades. Vicki sofre nas mãos tanto de um como de outro e conforme o tempo passa percebe a relação instável deles, John é cruel e extremamente abusivo em relação a Evelyn, temos a exata noção da crueldade desse homem, mas Evelyn não possui personalidade própria, é obcecada pelo companheiro e faz tudo o que ele pede, mas não tolera que aproveite das meninas sozinho, e com Vicki esse sentimento se agrava, se sente menos bonita e Vicki acompanhando esses episódios tenta de alguma forma incutir pensamentos negativos sobre John para que talvez ela comece a pensar no domínio que exerce em sua vida, as situações vão se intensificando, ciúmes, obsessão e muita violência, Vicki sofre inúmeros traumas e chega um determinado ponto que não vê saída, mas Evelyn é uma incógnita e suas atitudes imprevisíveis. Emma Booth é sublime e incorpora uma psicopata com maestria, sua performance assusta e sua instabilidade hipnotiza, são olhares e trejeitos assombrosos e marca como uma das melhores dentro desse gênero.
Ashleigh Cummings como Vicki angustia por seu sofrimento, pelas crueldades cometidas contra ela e a câmera jamais evidencia esses momentos, fica por conta da nossa imaginação construir essas cenas violentas, e é justamente por isso que o repúdio contra John é enorme, retrata uma mente perversa que provoca dor, seja física ou psicológica, que reduz, humilha e faz um jogo psicológico nojento que deixa Evelyn à mercê acreditando que tudo gira em torno dele e que sempre estará em dívida, ele representa um tipo de salvador e entendemos sua submissão nos instantes em que conta algumas coisas de sua história e, Vicki, por sua vez, tenta fazer ela perceber que sofre de abuso psicológico. Stephen Curry encarna com soberba esse ser desprezível, um trabalho excepcional que mistura sentimentos distorcidos e doentios.
"Predadores do Amor" é uma história pesada e que foge do fetichismo em torno das cenas de violência, coloca a frieza e a psicopatia em primeiro plano, é um estudo de personagens que desestabiliza o espectador tamanha confusão de sentimentos.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega (Utøya 22. Juli)
"Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega" (2018) dirigido por Erik Poppe (The King's Choice - 2016) reconta o massacre em um acampamento da ala jovem do Partido Trabalhista, na ilha de Utoya, promovido pelo extremista de direita Anders Behring Breivik em 22 de Julho de 2011 após ter matado oito pessoas em um atentado a bomba em Oslo, o filme segue em uma única sequência, câmera na mão e recria intermináveis 72 minutos (tempo exato da carnificina) com extrema tensão, o tiroteio é sob o ponto de vista das vítimas, especialmente, Kaja, que em meio ao inferno busca por sua irmã. É um excelente trabalho em que a veracidade dos acontecimentos machuca o espectador, o desespero domina a cada som de tiro juntamente com o semblante apavorado dos jovens.
No pior dia da história norueguesa moderna, Kaja (Andrea Berntzen) ao mesmo tempo que se preocupa com o comportamento da sua irmã mais nova Emilie (Elli Rhiannon Müller Osbourne), tenta compreender e buscar nos noticiários sobre o que ocorreu em Oslo. Em menos de duas horas Breivik consegue fazer seu segundo ato terrorista entrando disfarçado na ilha e antes que alguém percebesse as suas intenções começou a disparar. Kaja representa o pânico, medo e desespero dos 500 jovens enquanto busca sua irmã na floresta.
A notícia do atentado a Oslo chega à ilha e preocupa os jovens, não há muita informação, tudo acontece rápido e apenas algumas horas depois o atirador entra em Utoya e começa o massacre, completamente isolados e desprevenidos tentam sobreviver diante o terror de não saberem o que está acontecendo, pois o cara estava disfarçado de policial, alguns tentam pedir ajuda mas as chamadas eram rejeitadas devido o ocorrido em Oslo, a todo instante estamos junto de Kaja que ao mesmo tempo tenta se proteger e procura por sua irmã em meio ao caos, o atirador não é mostrado, somos guiados pelos sons dos tiros, ora perto, ora longe, e todo o pânico causado. O desespero é imenso, segue correria pelo bosque, tentativas de se esconder no camping, entre as árvores, entre as rochas, fugas a nado enquanto se deparam com inúmeras pessoas mortas pelo caminho e também ao enfrentar recusas de abrigo em prol da própria sobrevivência.
É um filme de horror, o horror real das consequências do ódio disseminado pelo mundo, a maneira que o diretor resolveu retratar esse ato cruel longe do viés político e mais próximo do humano foi um acerto e deixa-o forte, ao contrário de somente expor e fazer desse horrível episódio entretenimento preferiu dar ênfase no sofrimento humano como meio de compartilhar os sentimentos vividos pelos jovens.
Apesar da temática forte e traumática, existe um lado sensível por parte dos realizadores em respeito as vítimas, baseado em relatos dos sobreviventes ao ataque confere bastante autenticidade e nos faz imergir de forma intensa, são minutos inquietantes da mais pura agonia e o nó na garganta permanece mesmo após seu término.
"Utoya 22 de Julho" é um importante filme para se refletir na onda crescente de ódio e a problemática em que o continente europeu e o mundo está passando com movimentos de extrema direita ganhando cada vez mais adeptos, desse modo essa obra serve como um alerta e demonstra com propriedade o estrago desses ideais distorcidos, mais uma vez a escolha de focar no sofrimento, na tensão dos jovens e não no atirador só aumenta seu valor por expor exatamente o sentimento causado e não gerando publicidade em cima de sua figura, o que aconteceu e muito na época do massacre e como fez o filme "22 de Julho", disponível na Netflix, que trata o fato de forma mais didática.
É um longa necessário que trabalha nossa humanidade ao retratar o quão intolerante e violento o mundo está e que coisas desse tipo não podem se repetir, com certeza uma ferida que nunca será cicatrizada num país dito tão pacífico.
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Dogman
"Dogman" (2018) dirigido por Matteo Garrone (Reality - 2012, O Conto dos Contos - 2015) é uma história que retrata que não se pode ter tudo, o protagonista tenta agradar a todos, mas isso acarretará em consequências cada vez mais difíceis, o fazendo ruir e perder toda a sua dignidade. Todo o tempo nos perguntamos o porquê dele sempre ceder, as respostas surgem com o desenrolar ao entendermos sua personalidade canina, onde deseja tanto estar entre os cidadãos de bem, como também estar perto daqueles não tão bem vistos como forma de sobreviver e não se tornar vítima, mas essa maneira dele se comportar não dá certo e faz com que nem um lado nem o outro lhe dê atenção.
Marcello (Marcello Fonte), simpático funcionário do Pet Shop Dogman, na periferia de Roma, vive uma relação de amizade e ao mesmo tempo de humilhação com Simone (Edoardo Pesce), um ex-boxeador que aterroriza a todos no bairro em que vivem. Depois de uma humilhação que Simone pratica contra ele, Marcello comete um crime bárbaro.
Inspirado em um caso real que aconteceu nos anos 80 na Itália, Garrone nos presenteia com uma história naturalista sobre a violência, por um lado está Simone, um brutamontes que causa medo e revolta entre os habitantes do bairro, sua presença sempre é sinal de confusão e Marcello é uma espécie de brinquedo para ele, já que é dócil e leal, há um misto de adoração e medo em seu relacionamento com Simone, ele não consegue dizer não e sempre está à disposição seja para arranjar cocaína e se meter em roubos, claro que na maior parte das vezes é coagido simplesmente pela figura de Simone, mas Marcello também usa de sua figura franzina para ganhar a atenção dos demais e de algum modo ser protegido por Simone, que no caso não está interessado nisso, não tem nenhuma troca por parte dele e, por isso, Marcello acaba sendo sempre humilhado, o que dá a impressão que gosta de sofrer, é puramente masoquista. Ele dá e faz tudo o que tem e pode para o suposto amigo achando que ele irá dar algo em troca quando precisar, mesmo sabendo inconscientemente que não terá retorno, mas mesmo assim se submete. Por incrível que pareça muitas pessoas fazem isso e o filme exemplifica de uma maneira cru e revoltante. O título é explícito, Marcello realmente tem a personalidade de um cão amistoso, leal e que se dobra ao seu dono, o outro, Simone, um cão raivoso que sai mordendo a torto e a direito, talvez pelo modo como foi criado e as circunstâncias do ambiente o fizeram se proteger dessa forma, mas o que os dois querem se resume em uma única e igual coisa: atenção.
É incômodo visualizar a submissão de Marcello, ele está sempre no meio dos homens no bar escutando o quanto Simone enche o saco arrumando confusão e não pagando suas dívidas, até discutem um meio para sumir com ele, Marcello escuta calado a ideia e segue sua vida, que se resume a lavar os cachorros em seu surrado pet shop e agradar a filha com mergulhos, sua frustração em não poder levá-la em viagens melhores o faz tentar ganhar dinheiro vendendo cocaína, o que o aproxima também da parte não tão bem vista do bairro. Simone vive pegando a cocaína e não o paga, além de colocá-lo em situações perigosas de roubo, só que Marcello parece não se importar na maior parte do tempo, pois para ele estar inserido é um meio de não se tornar vítima, só que as coisas mudam de figura quando Simone articula um plano de roubo e Marcello termina preso.
A decisão que Marcello toma é estranha, será que ele tem tanto medo de Simone ao ponto de se sujeitar à prisão, ou quer mostrar que ele também é forte em não dar o braço a torcer e colocar o amigo na cadeia? Sua lealdade é tão forte assim para que estrague a própria vida? O fato é que depois disso o bairro vira às costas pra ele, pois foi considerado traidor e Simone é indiferente, Marcello quer metade do dinheiro do roubo, mas vendo que o amigo não tem intenção nenhuma em lhe dar dinheiro ou algum tipo de agradecimento por ficar na prisão no lugar dele, segue-se uma espiral de violência em que Marcello se enfurece ao ver sua reputação ir pro ralo com os demais e com a filha, sua última escolha é mostrar para todos ali que é capaz de consertar as coisas, mas termina como um cachorro que late, late e late pedindo inutilmente atenção.
"Dogman" traz uma interpretação impressionante de Marcello Fonte, sua figura franzina, suas atitudes e seus olhares nos conduzem desde o primeiro momento, sua voz terna para falar com os cachorros, sua submissão aos demais, e então a fase final em que sua visceralidade vem à tona, um poderoso retrato de um lugar em que a lei que impera é a do mais forte, o local decadente, o clima nublado e a pobreza só acentua para a atmosfera fria e pesada. É um filme marcante que demonstra o ser humano tentando sobreviver em um ambiente pobre em todos os sentidos.
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi (Sulla Mia Pelle)
"Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi" (2018) dirigido por Alessio Cremonini (Short Night - 2006) é um filme baseado num dos mais chocantes e controversos casos judiciais da história da Itália, muitas dúvidas surgem em relação ao protagonista, mas a dor e o medo salta da tela e é impossível não sentir revolta ou pelo menos questionar e refletir acerca do sistema judiciário, as falhas, as burocracias, a falta de humanidade, o abuso de poder, é insano a medida que tomam e ainda mais estranha é a forma que conduzem o caso, extremamente desumano.
Stefano Cucchi (Alessandro Borghi) foi o protagonista de um dos mais inquietantes casos judiciais da história da Itália. Stefano foi detido pela polícia em 2009, suspeito de atividades criminosas e acusado de posse ilegal de drogas. Dias depois, ele foi encontrado morto em sua cela preventiva, em estado de desnutrição e com diversos hematomas. As investigações do caso reverberam até hoje e evidenciam um lado sombrio do sistema judicial italiano.
De modo imparcial acompanhamos a história de Stefano, que numa noite depois de jantar na casa dos pais sai de carro com um amigo e é abordado por policiais e preso acusado por posse ilegal de drogas, a polícia já o trata como se fosse um criminoso e revista até a casa dos pais no meio da noite, sem muito o que fazer é colocado atrás das grades, antes disso alguns policiais entram numa sala com Stefano e o espancam, seu histórico como dependente só piora as coisas e a juíza decide pela prisão, no depoimento por receio ele não diz sobre a violência cometida contra ele e inventa que caiu da escada, a falta de confiança nos agentes de saúde ou em qualquer outra pessoa vinculada ao poder o fez ficar calado, o espancamento foi pesado e com o passar das horas sua situação foi piorando muito, Cucchi é passado nas mãos de várias autoridades e sem nenhum tipo de auxílio médico, além de ignorarem o fato de que foi espancado, ele conta a história da escada e todos fingem acreditar, alguns agentes de saúde até perguntam, mas ele não sente que isso o ajudará. Tudo está contra ele, o veredito já aconteceu e nem seu próprio advogado foi chamado, são falhas do sistema que geram revolta, principalmente aos pais que nem notícias puderam ter, pois foi trancafiado em uma ala protegida e Cucchi não recebia nenhum tipo de visita. Em determinado ponto, já imensamente debilitado ele se recusa a receber tratamento, um modo de conseguir apelar e receber notícias de fora, ou que os médicos abrissem os olhos para a situação real.
Impressionante a interpretação de Alessandro Borghi, sua caracterização é perfeita e está completamente entregue, sua dor transpassa a tela, incomoda e pesa, isso tudo devido a sua brilhante performance física, torturado e espancado Cucchi precisou aguentar uma dor lancinante e durante um período curto e devastador passou de mãos em mãos e acabou morrendo por várias falhas, desde o abuso de poder, a violência policial, calúnias, negligência médica, entre outras. Esse é um caso que ecoa até hoje e que possui muitas reviravoltas, entre acusações, absolvições e reabertura de processos contra os policiais e médicos. A irmã de Cucchi, Ilaria Cucchi empreendeu uma dura batalha para a verdade vir à tona e para que os responsáveis respondessem ao crime, entre eles cinco policiais, seis médicos e três enfermeiros.
"Na Própria Pele - O Caso Stefano Cucchi" retrata que os direitos humanos estão cada vez mais sendo pisoteados e isso é no mundo todo, caminha-se para algo pior, infelizmente, o abuso de poder, a violência, a ignorância em lidar com as pessoas dependentes ou ex-dependentes, as falhas da lei, as burocracias, a falta de recursos em saber como se lidar com essas pessoas causam tragédias, a família de Cucchi teve força e ajuda, mas quantos e quantos outros casos semelhantes acontecem e não se tem conhecimento? É um misto de indignação e tristeza que esse filme provoca ao expor as mazelas da justiça.
Disponível no catálogo da Netflix!
terça-feira, 24 de abril de 2018
O Monstro de Martfüi/Estrangulado (A Martfüi Rém)
"O Monstro de Martfüi" (2016) dirigido por Árpád Sopsits (Torzók - 2001) é um filme inspirado em uma história real perturbadora e indigesta sobre um serial killer de uma pequena cidade da Hungria, no período socialista entre 1957 a 1964. A atmosfera sombria e a abordagem crua cria sensações angustiantes e o desenvolvimento por mais que não crie tensão causa mal-estar, pois não esconde a violência e a agonia vivenciada.
Hungria, 1960. A pequena cidade de Martfü está sofrendo com os horrores que tomaram conta da região: um assassino sanguinário está à solta tirando a vida de várias mulheres. Obcecado em encontrar o culpado, o detetive designado para o caso está sendo fortemente pressionado pelo promotor a condenar alguém e, isso fará com que um homem que nunca poderia ter cometido tais crimes seja acusado.
Logo de cara conhecemos o local onde tudo acontece, uma fábrica de sapatos da qual muitas mulheres trabalham, numa noite Réti (Gábor Jászberényi) vai lá encontrar a mulher que gosta e acompanhá-la até sua casa, porém durante este trajeto ela é atacada e assassinada e Réti termina sendo acusado e sentenciado à prisão perpétua. Passa-se sete anos e os crimes continuam acontecendo e a polícia abafando, mas quando um jovem policial Szirmai (Péter Bárnai) é designado para investigar ele liga os novos assassinatos com o caso Réti. A história segue três linhas narrativas: o inocente sofrendo na cadeia e suas apelações sendo negadas, o real assassino em ação e a investigação que se torna pontual quando Szirmai assume, como filme policial carece de suspense e tensão, as tramas não se conectam e quebram a apreensão, mas como filme de serial killer é impressionante por focar na frieza e crueldade de Bognár Pál (Károly Hajduk), que escolhe as mulheres aleatoriamente, as estrangula e depois as estupra largando-as nuas e machucadas no lago ou nos trilhos de trem, ele é doentio e realmente causa asco.
A fotografia escura ajuda na inserção do thriller mesmo que o mistério seja pouco trabalhado, o estuprador assassino é revelado logo e acompanhamos uma série de mortes provocadas de forma brutal, enquanto isso a polícia se desdobra para esclarecer o caso e reverter a situação de Réti com alguma desculpa plausível. A correria da polícia contrasta com o ritmo vagaroso do maníaco e as partes na prisão retratando Réti na maioria das vezes é depressiva e inerte. Por mais que as partes não se conectem perfeitamente é um filme que não segue um caminho óbvio e comum do gênero policial, ele prefere ser fiel ao horror que foi o caso real e o quanto a polícia foi relapsa ao encontrar um culpado rapidamente para mostrar competência ao Estado. O principal era manter a segurança mesmo que fosse tudo uma mentira.
"O Monstro de Martfüi" é pesado e se mantém firme nas cenas em que retrata o assassino em ação, vemos seu semblante, o seu modo de agir, toda a sua obsessão depravada em possuir essas mulheres mortas, e no fim quando é pego e interrogado nos causa um gelo na espinha, é terrivelmente cruel e vazio. Apesar de arrastado e quebrar a tensão em muitos momentos é um noir elegante que choca e ainda critica com peso o quanto a incompetência da polícia juntamente com as burocracias do Estado podem acabar gerando histórias terríveis a fim de mascarar a realidade.
terça-feira, 10 de abril de 2018
Terra Selvagem (Wind River)
"Aqui, ou você sobrevive… ou você se rende".
"Terra Selvagem" (2017) dirigido pelo excelente roteirista Taylor Sheridan é um filme tenso e pesado, somos inseridos no oeste norte-americano, especificamente no estado de Wyoming, um local que possui suas próprias regras e características extremas.
Cory (Jeremy Renner), caçador de coiotes e predadores traumatizado pela morte da filha adolescente, encontra o corpo congelado de uma menina em meio ao nada e decide iniciar uma investigação sobre o crime. Ao lado dele está uma agente novata do FBI (Elizabeth Olsen) que desconhece a região.
Cory é marcado por uma tragédia familiar, quieto e solitário passa os dias tentando lidar com a dor, caçador habilidoso é contratado pelo ex-sogro para matar leões, ao chegar no local se depara com um corpo no meio da neve, ele reconhece a menina, Natalie, filha de um amigo que habita a remota área de preservação indígena americana Wind River, o FBI é contatado e Jane (Elizabeth Olsen) é enviada para investigar o assassinato. Jane é inexperiente, mas precisa se manter forte diante a um ambiente machista e hostil, porém logo entende que Cory pode ser um aliado para desvendar o mistério. São inúmeros empecilhos, desde conversar com as pessoas certas e driblar burocracias, ela tem senso de justiça acima de tudo e Cory é fundamental para que tudo caminhe para isso.
Em nenhum momento o longa cai em soluções fáceis, o roteiro é bem-estruturado e apesar de ser uma trama simples em sua essência mantém tensão o tempo todo, os personagens são interessantes, Cory é um homem silencioso e gentil, ele vê a possibilidade de vingança neste assassinato, uma maneira de amainar tanto os seus sentimentos como de seu amigo. Jane vai aos poucos se enredando na vida dele e dos demais habitantes, de início deslocada é alvo de olhares e comentários atravessados, mas se mantém firme e como única autoridade no local, e assim se desenrola até que tudo se resolva. O ambiente é de fato um personagem e uma enorme barreira para as investigações, as montanhas cobertas de neve, o clima instável, os predadores, tudo contribui para despertar a sensação de entrave.
Baseado em fatos reais o filme toca no assunto para elucidar sobre a falta de reconhecimento ao desaparecimento de mulheres indígenas em suas reservas. "Enquanto estatísticas para desaparecidos são compilados para as outras minorias, elas não existem para as mulheres índias. Ninguém sabe quantas estão desaparecidas". Não existe segurança e nem cuidado a essas reservas, nem estadual ou federal, ou seja, nada tem punição, nada se resolve e a terra se torna um local com suas próprias leis e que acoberta tragédias. Além de toda a gravidade em torno do tema, temos o embate entre homem e natureza, a sobrevivência, o senso de justiça, o desejo de vingança e o como tragédias não solucionadas afetam o ser humano, por isso quando o flashback nos revela o que aconteceu a Natalie desejamos intensamente que tudo se solucione, a dor não será eliminada, mas ameniza o sentimento de impunidade.
"Terra Selvagem" é uma obra que mexe com os sentimentos, é incisivo na mensagem e cru na abordagem, o misto entre investigação policial, denúncia e algo de western dá o diferencial. É cruel e devastador, mas ainda possui sua camada de sensibilidade. Filmaço!
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