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sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Som do Ruído (Sound of Noise)

"O Som do Ruído" (2010) dirigido por Johannes Stjärne Nilsson e Ola Simonsson é um filme sueco singular que utiliza o som, a música que a cidade produz para protestar os padrões musicais, as imposições da indústria e irritar a sociedade. Os números musicais são o ponto forte do longa que prima por uma criatividade genial. 
Amadeus Warnebring (Bengt Nilsson), um policial sem o menor ouvido musical, vem de uma família respeitada no mundo da música clássica. Ele terá que perseguir e pegar um grupo de anarquistas que espalham o terror na cidade usando tons musicais. Sem um pingo de talento musical, Amadeus segue sua pacata vida como policial até que ele começa a ficar perturbado após encontrar um metrônomo em uma vã e logo descobrir que um bando de agitadores está dando concertos em meio a cidade de forma ilegal, utilizando, por exemplo, um hospital, um banco e até mesmo usando torres de alta tensão. 
A obra foi concebida por Magnus (Magnus Börjeson - o segundo compositor das músicas para o filme) e chama-se "Música para uma Cidade e Seis Bateristas", Sanna (Sanna Persson) dá vida às intervenções, os dois vão atrás de mais músicos, escolhem a dedo os bateristas, e claro, eles aceitam de imediato sem se incomodarem com as propostas, começam então a se apresentarem e Amadeus fica incumbido de prendê-los, mas conforme acontecem as apresentações ele se envolve com Sanna. O seu drama de ser o único da família a não desenvolver o ouvido musical o atormenta tanto que seu único desejo é o silêncio, ele odeia música. 
As partes em que esses músicos dão seguimento ao tirar som de absolutamente qualquer coisa são sensacionais, a música realmente pertence a todos os espaços, a música está em toda parte, basta ouvi-la. O que o filme propõe é repensar esse padrão que a indústria do entretenimento impõe como sendo música, o que acaba dando a sensação de conformismo e estreitando o ouvido diante do todo. 

A peça é composta por quatro criativos e inusitados movimentos, "Doctor, doctor, gimme gas in my ass", onde tiram ritmos de instrumentos cirúrgicos, além do próprio corpo de um homem que estava prestes a ser operado. "Money 4 U Honey", que consiste em invadir um banco e fazer os reféns de plateia e fazer música com moedas, carimbos e calculadoras. "Fuck the Music", neste britadeiras e escavadeiras dão o show em frente ao teatro em que Oscar (Sven Ahlström), o irmão de Amadeus, rege a sua orquestra. E, por último, "Eletric Love", que transformam torres de alta tensão em uma partitura musical, com certeza uma das passagens mais belas e estonteantes do filme.

Especialmente para os músicos é um deleite, pois traz a sensação de querer explorar novos sons, se libertar e procurar ritmos e harmonias no cotidiano, construir a sua própria música para além daquela imposta, e nisto o silêncio tem papel fundamental, pois só através dele pode-se ter a possibilidade de perceber esta música que emana do dia a dia. "O Som do Ruído" é um filme que desconstrói conceitos musicais e que expande a percepção diante do espaço urbano e o som que ele produz. Uma pérola cinematográfica que enaltece e entorpece por sua criatividade e por sua declaração de amor à musica.

terça-feira, 22 de março de 2016

Românticos Anônimos (Les Émotifs Anonymes)

"Românticos Anônimos" (2010) dirigido por Jean-Pierre Améris (A Linguagem do Coração - 2014) é uma comédia romântica divertida e deliciosa, retrata de maneira leve e descontraída dois personagens que sofrem de timidez crônica e a arte do preparo do chocolate. É um filme que nos traz bons sentimentos e uma vontade imensa de experimentar os mais variados tipos de chocolates.
Jean-René (Benoît Poelvoorde) é dono de uma pequena fábrica de chocolate, Angélique (Isabelle Carré) é uma talentosa chocolateira, os dois tem muito em comum, a timidez excessiva e o travamento social, a solidão acompanha a vida deles desde sempre. Angélique frequenta um grupo de ajuda que a impulsiona e a faz querer procurar um emprego, ela decide ir na fábrica de Jean-René, este que esconde sua ansiedade num semblante austero, que sem muita demora a contrata, mas devido a falta de diálogo, ela acaba como representante de vendas. A fábrica está à beira da falência pelo fato dos chocolates serem clássicos demais.
Jean-René faz terapia e sempre está colocando exercícios de socialização em prática, tem grande dificuldade em demonstrar sentimentos, especialmente para as mulheres, quando se apaixona por Angélique, o terapeuta vai lhe ajudando com a aproximação, primeiro a chama para jantar, mas termina fugindo do restaurante, sua ansiedade é extrema e não consegue parar sentado e a todo minuto vai ao banheiro trocar a camisa por causa do suor excessivo. O desenvolvimento da relação deles garante cenas hilárias e apaixonantes, Angélique parece avançar a partir do momento que tem a ideia de reerguer a fábrica, ela conta a história de um eremita que fazia chocolates para a chocolaterie mais famosa de lá, e então decide colocar em prática as receitas, na verdade, era ela que fazia os chocolates em casa e os levava à loja, a sua timidez não deixava que trabalhasse fora. Os chocolates fazem sucesso, até viajam para expô-los e com isso a relação vai se estreitando. Os funcionários da fábrica já sabiam que Angélique era o eremita e não vão permitir perdê-la, e para isso Jean-René precisa ir atrás dela e se declarar. Angélique fica em dúvida se eles darão certo por serem tão iguais e questiona se não se afundarão juntos. 

O filme é uma comédia romântica maravilhosa, cujo enredo é simples e até inocente, mas não deixa de ser inteligente refletindo sobre o como a timidez crônica é prejudicial. O elenco é sublime, Benoît Poelvoorde interpreta um sujeito sensível que se disfarça de durão, é cheio de tiques e manias e que vai superando aos poucos e tentando conviver com seus medos e dificuldades, percebe que acompanhado tudo pode ser mais fácil.
Isabelle Carré faz uma personagem doce, mas sem exageros, como a própria diz: o amargor disfarçado do chocolate é que o distingue dos outros doces, ela é exatamente assim. O preparo do chocolate, todo o carinho envolvido, desde a escolha dos ingredientes à degustação são cenas charmosas e que dão água na boca. Também tem partes musicais em que Angélique canta belamente, assim como Jean-René interpreta em francês a canção russa Ochi Chernye.

"Românticos Anônimos" é um filme saboroso, engraçado, sensível e fascinante. O roteiro delicado expõe o como é terrível ter que conviver com medo de tudo por causa da timidez. É possível escondê-la e até superá-la como demonstra os personagens, ajustando-se as asas o voo se concretiza. 

"... A cada passo me sinto mais segura.Tudo vai ficar bem tenho certeza o mundo é meu. Eles vão me ver brilhar eu realmente acredito em mim. Eu acredito em mim quando o sol brilha. Eu acredito em mim quando a chuva cai. Eu acredito no regresso da primavera. E, acima de todas as outras coisas eu acredito em mim..."

quarta-feira, 2 de março de 2016

Mamma Gógó

"Mamma Gógó" (2010) dirigido pelo islandês Friðrik Þór Friðriksson, um dos mais respeitados de seu país e responsável por colocar o cinema da Islândia em evidência. "Filhos da Natureza" (1991) foi o filme que abriu as portas e surpreendeu ao ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1992. Em "Mamma Gógó" o diretor não perde a oportunidade e brinca com o fato, diz que tal filme é um fiasco e os islandeses não ligam para a história, que reflete sobre a velhice. Existe uma discussão interessante sobre a paixão de fazer filmes.
Um cineasta (Hilmir Snær Guðnason) ambicioso torce por uma indicação ao Oscar apesar do fracasso absoluto de seu último filme na Islândia, sua terra natal. Ao mesmo tempo, sua mãe (Kristbjörg Kjeld), outrora enérgica e inteligente, é diagnosticada com Alzheimer. 
A história retratada é uma semi-autobiografia do diretor, que durante as filmagens de seu filme, sua mãe começa a sofrer cada vez mais pela perda de memória, diagnosticada com Alzheimer, ele passa a cuidar mais da mãe, que apesar de outras duas filhas, é sempre a ele que recorre. O filme não é somente sobre a dificuldade de se envelhecer, mas também sobre fazer cinema, a metalinguagem utilizada é sutil e fascina.
Gógó por conta de sua doença protagoniza situações cômicas, desde a deixar seu neto sozinho com uma garrafa de vodca na sala, a quase incendiar a casa, e a fuga pela descarga do banheiro quando já se encontra numa casa de repouso. Claro, refletimos muito sobre a dificuldade de se lidar com tal doença, o envelhecimento e a morte, mas é um filme leve e gostoso de assistir.
Destaque para a fotografia e a natureza majestosa em estado bruto da Islândia, e também os toques fantasiosos da trama que o tornam ainda mais sensível. Os diálogos alternam-se entre o drama e a comédia e fica impossível não se simpatizar com a Mamma Gógó, uma senhora que antes era uma mulher independente, e que de repente se vê necessitando de cuidados, é resistente diante a ir a uma casa de repouso, mas as filhas demonstram impaciência e o filho está numa fase complicada, mas ele acaba sendo o único a ajudá-la. 
O retrato do envelhecimento é dolorido, mas neste longa o diretor soube dar um tom agradável e até cômico.
"Mamma Gógó" é um exemplar brilhante vindo da Islândia. É um filme comovente, afável e que homenageia a velhice, o cinema, e acima de tudo, o amor.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Maioria Oprimida (Majorité Opprimée)

"Maioria Oprimida" (2010) dirigido por Eleonore Pourriat é um curta-metragem excepcional que retrata a vida de um homem que sofre de sexismo diariamente em um mundo dominado por mulheres. 
É incrível que o baque em algumas pessoas só aconteça quando há a inversão de papéis, colocando o homem na pele da mulher vivenciando o cotidiano, coisas que são vistas como normais, as tais 'cantadas' seguidas daqueles ruídos odiosos, ou mesmo aquela virada de cabeça. Infelizmente faz parte do dia a dia da mulher, e tudo isso acontece porque essas ações são aceitas e passadas ao longo do tempo. No curta observamos o contrário, as mulheres é que dominam a sociedade, o protagonista desde o momento que sai de sua casa começa a sofrer com assédio, seja por causa da roupa, por estar sozinho e etc. São olhares invasivos, palavrões, e por fim o estupro. Ao recorrer à delegacia a delegada desfaz do caso e ainda justifica a violência pela roupa que ele estava usando, e sua esposa ao invés de ajudá-lo fica impaciente e não dá o devido valor ao fato. Acontece muito isso, a mulher ser violentada e ainda a culpa cair sobre ela. A inversão de papéis foi uma maneira simples, mas genial para despertar a atenção à opressão que a mulher sofre todos os dias, a ideia é clara e objetiva e atinge perfeitamente a questão, a sociedade machista em que vivemos.
Sem dúvidas o machismo está incrustado na nossa sociedade, seja em homens ou mulheres, muitas situações retratadas necessitam ser repensadas, não é normal, não é gostoso receber comentários chulos, além de causar constrangimento e medo.
Ao assistir "Maioria Oprimida" vemos que há algo errado, a inversão de papéis promove esse olhar, e é preciso que todos percebam que essas atitudes tão cotidianas precisam parar.


Em menos de 11 min o curta satiriza e reflete sobre o quão nocivo é o sexismo, e mostra comportamentos que são repetidos e vistos como normais, algo que só aumenta mais o machismo na cabeça das pessoas. É uma importante questão que cada vez mais precisa ser discutida porque ninguém merece ser desrespeitado, constrangido ou diminuído pelo seu sexo.


Nota: No final o personagem diz a palavra Femista que é o inverso de machista e não Feminista que é o movimento pelo direito das mulheres.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Kosmos

"Kosmos" (2010) dirigido pelo turco Reha Erdem (Jîn - 2013) é um romance que mistura fantasia e o surreal, mas a sucessão de imagens e diálogos são marcantes e ao final nada se torna gratuito, a beleza está tanto em sua estética, como em sua abordagem poética e sábia.
Personagens misteriosos cativam de primeira, assim como nosso protagonista Kosmos, que não se sabe de onde vem e para quê vem, ele tem uma espécie de pureza em relação aos outros seres humanos. Ele chega à cidade vindo da floresta sob circunstâncias estranhas, e logo salva um menino de um afogamento e cria a fama de conseguir milagres. Kosmos e Neptün, a irmã adolescente do garoto resgatado, ficam amigos imitando pássaros e subindo em telhados. Mas, com a chegada de Kosmos, começa também uma leva de assaltos às pequenas lojas da cidade, ao mesmo tempo em que novos milagres acontecem. Kosmos é maravilhosamente bem interpretado pelo teatral Sermet Yesil, seu comportamento esquisito deixa a população da pequena cidade confusa, ao chegar todos dão as boas-vindas devido seu ato milagroso em devolver à vida ao garoto, mas conforme os dias passam acontecem roubos e logo são associados ao estranho visitante que incomoda com seus diálogos e seu comportamento de pássaro, do qual compartilha com Neptün (Türkü Turan).
"Kosmos" lida com algumas questões interessantes, mas é um filme subjetivo e que permite diversas leituras, e cada espectador capta aquilo que lhe convém. Pode ser interpretado como algo religioso, por exemplo, uma espécie de messias promovendo milagres, onde mostra a necessidade das pessoas acreditarem em algo maior, um herói, um Deus, etc... O mais legal é o como ele mexe com os valores que regem a sociedade, se você não se encaixa consequentemente não é visto com bons olhos, Kosmos é adorado e repudiado em pouco tempo, e também há o medo da comunidade pela invasão que traz novas culturas e pensamentos.
A fotografia do filme é exuberante, a beleza natural do local toda coberta de neve lembra bastante os longas de Nuri Bilge Ceylan, esse ambiente peculiar combina perfeitamente com a abordagem, que ora causa estranhamento, ora encantamento. É certo que por vezes pareça surreal, apenas imagens soltas criando uma atmosfera inquietante, mas sem dúvidas a reflexão toma conta de quem o assiste. Não é cinema convencional, tudo nele é diferente e demasiadamente místico. Bizarro, poético, fantástico, é mais um belo exemplar do cinema turco que vem nos presenteando cada vez mais com preciosidades.

O personagem cria um misto de sentimentos e é quase impossível não nos apegarmos a ele, seus diálogos sempre têm aspectos de sabedoria, nada do que diz é em vão, como por exemplo: "O homem não tem vantagem sobre os animais, porque tudo é vaidade, todos vão para o mesmo lugar", há inúmeras conversas das quais surgem ao acaso e a sua maneira de agir incomoda os demais, estando à margem da sociedade Kosmos é visto como um louco.
As imagens nos dá a possibilidade da imaginação, é um filme cheio de ideias e que mesmo sendo estranho tem uma graciosidade inexplicável.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Primeiro que Disse (Mine Vaganti)

"Amores impossíveis não acabam nunca, são os que duram para sempre"

"O Primeiro que Disse" (2010) dirigido por Ferzan Ozpetek é um filme italiano que reflete sobre preconceitos, é uma história linda, engraçada e real sobre o como é difícil se libertar e ser quem se é realmente.
Tommaso é o membro mais jovem de uma extensa família, donos de uma indústria de massas. A família Cantone é formada pela mãe Stefania, uma doce mulher que é sugada pelos hábitos da classe média, o pai Vincenzo, irritado e sempre preocupado com seus descendentes, a excêntrica tia Luciana, a avó rebelde, que ainda chora pelo amor que há muito se foi, a irmã Elena, dona de casa frustrada e o irmão Antônio, que trabalha na fábrica da família. No dia em que a família se reúne para celebrar a promoção que Antônio recebeu na fábrica, Tommaso decide aproveitar a situação para anunciar que é gay.
Vincenzo (Ennio Fantastichini) é o patriarca da família Cantone e está prestes a passar a fábrica para seus dois filhos, Tommaso (Riccardo Scamarcio) que saíra a algum tempo para estudar administração em Roma e Antonio (Alessandro Preziosi) que já toma conta dos negócios. Tommaso ao voltar para o seio de sua família decide contar que é gay e que na verdade estudou literatura e pretende se tornar escritor. Ele acaba contando o segredo antes para seu irmão que o questiona se isso é realmente necessário, mas Tommaso diz que não aguenta mais e precisa falar. No jantar enquanto todos tagarelam ele vai criando coragem, mas no exato momento que ia desabafar é interrompido por seu irmão que rouba totalmente a cena pra si. Eis que o título "O Primeiro que Disse" faz todo sentido, Antonio revela que é gay e que não deseja seguir o negócio da família. É um grande baque, o pai não acredita, diz para parar com a brincadeira, mas quando percebe que é sério o expulsa de casa, infarta e cai duro no chão. A oportunidade de Tommaso contar seu segredo vai por água abaixo e ele se vê precisando tomar conta da fábrica para não ver o pai piorar. Ele não entende nada de nada, pede conselhos a sua irmã que no fundo sabe que ele é gay e sua amiga e sócia da empresa Alba (Nicole Grimaudo), que mexe com seus sentimentos, ela se torna sua amiga, confidente e uma grande relação se forma. Ela é sozinha e é claramente frágil e ainda tem umas manias estranhas. E no meio desta história tem a avó de Tommaso, uma mulher que no passado sofrera por um amor impossível e que tenta salvar o caminho daqueles que ama.
Interessante a maneira que inseriram o tema homossexualidade na trama, leve e inteligente e por vezes até caricata, como quando os amigos de Tommaso junto a seu namorado vão à casa da família inesperadamente visitá-lo. Engraçado o como reagem, pois não sabem e não percebem os trejeitos, ou então preferem não ver.
O filme traz uma bela mensagem de amor e de respeito. A sensibilidade do protagonista e a sua preocupação são exprimidas com muito cuidado, há diálogos muito bons e cenas silenciosas maravilhosas.

"O Primeiro que Disse" utiliza várias características e costumes italianos, como a grande família sentada à mesa com o humor típico exagerado. A cena em que Antonio revela ser gay é memorável.
O mais legal do filme é que ele foge dos clichês que envolvem o tema e apesar da comédia sustenta bem o drama, além de retratar uma história paralela envolvendo a avó que com o seu bom senso sempre diz sábias palavras. Representando belamente o cinema italiano, o longa acrescenta muito sobre o como é importante respeitar as decisões das pessoas e seguir mais o coração ao invés da razão. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

José e Pilar

"Todos os tempos têm coisas boas, todos os tempos têm coisas más, mas como comunidade a espécie humana é um desastre."

"José e Pilar" (2010) é um documentário dirigido por Miguel Gonçalves Mendes que registra os últimos anos de vida do mestre José Saramago. A partir do registro do dia-a-dia da relação entre José Saramago e a jornalista espanhola Pilar Del Rio, acompanhamos de forma intimista o casal em sua casa nas Ilhas Canárias e em suas viagens pelo mundo. O ponto de partida é o processo de criação e promoção do romance "A Viagem do Elefante", desde o momento da construção da história em 2006 até o lançamento do livro no Brasil em 2008. A ficção do romance reflete no percurso do próprio autor sendo a dura e custosa viagem do elefante um espelho de seus desafios pessoais, entre a doença, o trabalho e o amor por sua esposa.
É um documentário que esbanja amor, respeito e dedicação, Pilar conheceu Saramago em 1986 e desde então ganhou todas as dedicatórias: "O Homem Duplicado" (A Pilar, até ao último instante), "Ensaio sobre a Lucidez" (A Pilar, os dias todos), "As Intermitências da Morte" (A Pilar, minha casa), "As Pequenas Memórias" (A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar), "A Viagem do Elefante" (A Pilar, que não deixou que eu morresse), "Caim" (A Pilar, como se dissesse água). Acompanhá-los é um imenso privilégio, uma experiência riquíssima, Pilar é uma mulher de fortes opiniões e é uma extensão de Saramago, este que é um ser melancólico e de extrema sensibilidade. Um relacionamento realmente encantador, inspirador e raro. Nada do que Saramago diz é à toa, a cada palavra, pensamento exposto podemos compreender o como ele vê o mundo. 
Sabe-se que Saramago começou a se dedicar à escrita tardiamente, aos 60 anos, e só em 1998 com o prêmio Nobel é que o escritor ganhou uma notoriedade maior e com isso veio viagens, palestras, sessões de autógrafos ao redor do mundo, essas coisas contribuíram imensamente para sua enfermidade. Em um momento em que estava bastante debilitado, Saramago diz: "Se todas as pessoas boas, se todas as pessoas amantes da beleza, se todas as pessoas amantes do justo e do honesto, pudessem reunir esforços e oporem-se contra a barbaridade do mundo, o mundo seria capaz de dignificar o Homem ao Ser Humano que somos. E o mundo, quiçá, poderia ter um futuro."
É de se questionar a rotina corrida do escritor e o como Pilar lidava com isso, "A palavra descanso não faz parte do nosso dicionário vital...Teremos toda a eternidade para descansar. Esta é a vida.", diz a jornalista. Pode parecer prepotência às vezes, mas Saramago apesar de sua avançada idade não desejava se prostrar numa cadeira. E ele enfatizava: "Se eu tivesse morrido antes de conhecer a Pilar tinha morrido muito mais velho do que eu sou". José e Pilar são opostos que se complementavam e que precisavam um do outro, "Eu tenho ideias para romances. Ela tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante."

Para além do romance que o documentário retrata, o dia a dia, discussões banais, políticas ou filosóficas, projetos, viagens, o que é mais interessante certamente, principalmente para os leitores é quando Saramago coloca suas ideias em voga.
O tema religião é abordado em alguns momentos e ele disserta que muitos pensam que estando velho ou doente mudou sua concepção de Deus, mas para ele Deus simplesmente não existe, este conceito está cravado na cabeça das pessoas por causa do medo de morrer. Claro, quem quiser acreditar, que acredite, mas a verdade é que nascemos, crescemos e morremos, só isso! "Deus não precisa do homem para nada, exceto para ser Deus. Cada homem que morre é uma morte de Deus. E quando o último homem morrer, Deus não ressuscitará."
Sem dúvidas um apanhado de reflexões surgem, um amontoado de ideias e uma vontade imensa de saber mais e mais sobre esse incrível escritor. Certas partes parecem forçadas, mas é preciso pegar o essencial do filme, os diálogos preciosos e passagens dotadas de muita sensibilidade.

"José e Pilar" traz uma figura sarcástica, polêmica, emblemática e questionadora, um homem capaz de nos inspirar. O romance retratado é deveras lindo e único, dois seres contrastantes que se complementam. A oportunidade de ver o processo criativo do escritor é maravilhoso, sua alma desassossegada, sempre com ideias. Algumas passagens são bem emocionantes, como quando chorou ao lado de Fernando Meirelles ao assistir a adaptação do livro "Ensaio sobre a Cegueira".
É uma bela obra que nos aproxima de Saramago, fazemos parte da rotina, do romance, de tudo, somos atingidos em cheio por essa história.

"Um dia desaparece o sol... e acabou. E o universo nem sequer se dará conta de que nós existimos. O universo não saberá que o Homero escreveu a Ilíada."

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Árvore do Amor (Shan Zha Shu Zhi Lian)

"A Árvore do Amor" (2010) é um romance inspirado no livro homônimo de Mi Ai, que teve sua primeira publicação pela internet em 2007, e conta uma história de amor que acontece em plena revolução cultural chinesa.
Dirigido por Zhang Yimou, conhecido por seus épicos de grande beleza, como "Herói" - 2002, "O Clã das Adagas Voadoras" - 2004, "A Maldição da Flor Dourada" - 2006, "Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão" - 2009, "Flores do Oriente" - 2011, confirma ainda mais sua maestria em compor um filme que apesar de retratar um período crítico de seu país, mostra de maneira refinada o amor em seu estágio mais puro. Zhang Yimou tem em sua filmografia obras de artes fascinantes tanto no apuro estético quanto a seu conteúdo crítico em relação a política chinesa.
Em "A Árvore do Amor" o período é o da revolução cultural chinesa, na década de 60, implantada pelo ditador Mao Tsé Tung, a qual impunha a perseguição a ideias capitalistas e "burguesas", muitos professores e intelectuais foram assassinados, e o ensino superior foi praticamente desativado do país. Uma jovem estudante é enviada para o campo para reeducação. Chegando lá, ela conhece um rapaz que trabalha na área de geologia na região. Aos poucos, eles se apaixonam. Ela é de família pobre (o pai foi preso acusado de ser burguês), e ele de família proeminente (a mãe se suicidou, era a favor do capitalismo). Eles passam anos se vendo as escondidas, até que a mãe dela descobre, e diz que eles só podem se ver quando ela completar 25 anos, porém o destino traz surpresas para os dois.
A lenda do espinheiro dá o tom do filme, afirmava-se que as flores não eram brancas e sim vermelhas, devido aos heróis mortos que ali foram enterrados. Logo no início somos apresentados a esta história que contavam aos jovens que iam a zonas rurais com a finalidade de serem reeducados. Jing tem 14 anos, é muito humilde e se esforça o máximo para conseguir ser professora, na aldeia Xiping conhece Lao Sun, filho de um militar, os dois se apaixonam perdidamente e o espinheiro se torna uma espécie de símbolo para ambos. A diferença social é grande, por causa do passado de Jing exige-se muito cuidado, pois o partido pode tomar como traição qualquer deslize. Lao Sun é respeitoso e a ajuda em tudo. Interessante observar que o foco é o romance, por mais que fique claro a rigidez do regime, as regras impostas e o medo na face da menina diante a seu futuro, o lado político nunca se sobressai, é algo orgânico.

Jing e Sun sempre dão um jeito de se encontrar, a delicadeza permeia todo o filme, o constrangimento da menina em certas cenas, como a dificuldade do toque, Sun muito gentil encontra meios de livrá-la dessa vergonha, aliás a gentileza e a decência é tão genuína no personagem que de modo algum soa clichê, emociona porque é de verdade e espontâneo, ele não faz isso como meio de conseguir algo em troca de Jing, mas sim por amá-la e querer vê-la feliz. Em um dos diálogos mais belos ele diz: "Você pode nunca ter se apaixonado antes e não acreditar no amor eterno, mas quando você se apaixona sabe que tem sempre alguém que prefere morrer do que trair você."
Após serem descobertos pela mãe de Jing, ficam proibidos de se ver, Jing corre o risco de colocar tudo a perder, e só aos 25 anos é que poderão então consumar o amor. Mas, a vida revela surpresas, nem sempre tão agradáveis. Nesse ponto as lágrimas são inevitáveis, cenas de partir o coração. Sem dúvidas, um romance maravilhoso, indispensável para quem gosta do gênero.
É um retrato de amor puro, coisa que não vemos mais e nem acreditamos, a alguns pode soar melodramático, pois Sun faz de tudo por sua amada, lava seus pés machucados, se corta para obrigá-la a se cuidar, e seus presentes, como a caneta, a bota, o pano para a confecção de um casaco e outras miudezas bem significativas.

Por mais ingênuas que algumas situações possam parecer, todo o devotamento de Sun a Jing demonstra a dignidade que envolve a relação e o sentimento que existe. A poesia que emana de seus atos, o deslumbramento, a gentileza e seus valores dão o sentido da palavra amor e o sentido de viver.
Os atores esbanjam graciosidade e a história se desenrola de modo natural, emociona o espectador ao ver tantas sutilezas. É uma ótima amostra da imensa capacidade deste grande diretor chamado Zhang Yimou.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Triângulo Amoroso (Drei)

"Drei" (três em alemão) conta sobre Hanna e Simon, um casal de meia idade que vive junto em Berlim. Sem querer os dois se envolvem com o mesmo homem sem que o outro saiba. Tom Tykwer (Perfume - 2006) nos traz a história do engenheiro de arte Simon (Sebastian Schipper), que acaba de perder a mãe para um câncer e que logo depois, descobre que também tem um tumor e precisa operá-lo imediatamente para a retirada de um testículo. Hanna (Sophie Rois) vive com Simon há 20 anos e acaba se envolvendo com outro homem, Adam (Devid Striesow), um cientista que conhece em um debate sobre bioética. Simon acaba por conhecer Adam também em um clube de natação, e fica muito confuso com os seus sentimentos, e questiona sobre sua sexualidade. Os encontros esporádicos e puramente sexuais de Adam com Hanna e Simon tornam-se mais frequentes e termina surgindo afeto e amor, e para complicar ainda mais as coisas, Hanna descobre que está grávida e não sabe quem é o pai. A culpa que Simon e Hanna sentem começa a dominá-los. A personalidade dos três se complementam nas diferenças, enquanto Hanna é extrovertida, Simon é introspectivo, já Adam é um homem aberto para novas experiências, atraente e culto.
O filme traz à tona um novo modelo de relacionamento, mais dinâmico e eficaz para que um casamento não se desgaste. Com um ótimo roteiro, o desenvolvimento dos personagens é agradável, e a maneira como tudo acontece soa natural. Algumas cenas são estranhas, como a aparição da mãe de Simon como um anjo, ou como aquela em preto e branco que mostra Simon caminhando atrás de uma carruagem. São imagens simbólicas que não seguem a linha da narrativa.

No entanto, tomando uma decisão bastante arriscada, o diretor acerta em cheio ao mudar o tom do filme quase no final, passando do melodrama à comédia de modo equilibrado, assim representando a positiva mudança na vida de Adam, Hanna e Simon. Sophie Rois no papel de Hanna é uma mulher de fortes opiniões, mas também é uma pessoa egoísta e desagradável. Adam aparenta ser um sujeito tranquilo e bem resolvido, mas com um sutil vazio interior. O filme evidencia em Simon e Adam o quão natural é a pluralidade sexual humana, mas os clichês sobre homossexualidade e bissexualidade passam longe. A terceira pessoa entra não para destruir o casal, mas sim, para dar um novo fôlego a algo que estava desmoronando. E o final mostra claramente isso.
O filme se desenvolve de forma bem suave e vai nos apresentando os personagens aos poucos, na verdade, o que importa não são os dramas de cada um, e sim, o relacionamento que se constrói entre eles. É mostrado todo o sentimento e o prazer que envolve cada um. O casal que no início estava distante, sem ritmo, quando se envolvem com Adam, lembrando que tanto um como o outro não sabia dessa relação, os dois acabam por se aproximar e retornam a se amar e sentir tesão um pelo outro.

O número três equivale a uma complementação, infelizmente o filme não desenvolve bem esses simbolismos, como a questão das células-tronco que permeia as cenas iniciais, inclusive o último plano termina dando alusão a isso, ou o simbolismo do número três, que é o título original e que é mostrado na hora em que a mãe de Simon morre, e o número começa a aparecer frequentemente. Nenhum dos três são iguais, mas são complementares, semelhantes e importantes. São três pessoas que se amam. Um amor livre de convenções, que aliás ao final das contas não servem de nada, porque cada um tem a sua própria maneira de amar e expor esse sentimento, não há classificações, simplesmente amam-se. O filme nos lembra o quanto somos amplos e que sempre estamos nos redescobrindo e aprendendo com nós mesmos.

O longa tem uma linguagem interessante e moderna, algumas cenas são tensas, como a que Hanna descobre que seu marido está se envolvendo com o mesmo homem que ela. A mudança vem no momento em que Hanna engravida. E a dúvida de quem é o pai surge. Adam ou Simon? Neste momento é Hanna quem deve decidir qual caminho deve trilhar, qual destes homens manter ao seu lado, ou nenhum deles, ou ambos. O que ela decide, de fato é transgressor e explora todas as formas de amar. Que aliás, vão muito além das convenções criadas.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Mágico (L'illusionniste)

"O Mágico" (2010) de Sylvain Chomet (As Bicicletas de Belleville - 2003, "Attila Marcel - 2013) resgata um roteiro escrito em 1956 por Jacques Tati, o Charlie Chaplin francês, e compõe uma obra de extrema beleza.
A história se passa no final dos anos 50 e segue um mágico decadente, um homem alto e desengonçado, um raro exemplar da arte que está dando lugar a outras formas de entretenimento, suas apresentações carecem de público, as pessoas já não se interessam por algo tão ingênuo. Sua carreira corre o risco de extinção se não adaptá-la ao gosto atual, ele segue se apresentando em teatros franceses e ingleses, infelizmente sem sucesso, até que vê uma possibilidade ao ser convidado por um bêbado escocês num casamento do qual fez uma breve apresentação. Então, ele parte para uma pequena cidade da Escócia e conhece Alice, uma doce menina que é a única a se encantar com a magia. Ele inicialmente a presenteia com um par de sapatos, a partir daí ela pensa que tudo na vida poderia ser mudado com um passe de mágica. Ao ir embora do local a garota o segue, o mágico não diz nada e cede a cada pedido de Alice, ela vai recebendo os presentes de forma lúdica e acaba não percebendo a melancolia e a decadência que toma o lugar em que eles moram. O hotel é repleto de tipos circenses, um ventríloquo, três equilibristas, e um palhaço, todos em total desespero pela falta de emprego.
É realmente triste pensar que a classe artística, aquela que buscava a alegria genuína de seu público se foi, pessoas simples que não se importavam com o quanto ganhavam, mas que tinham a necessidade de expor a arte da qual aperfeiçoavam com tanto carinho. Imensamente agradável assistir esta obra, a figura de Jacques Tati está presente a todo instante no personagem, seja nos trejeitos, na forma de lidar com as situações que vão aparecendo, e claro, na bela sequência do cinema, quando o mágico entra na sala e nos deparamos com um filme em imagem real de Tati.
Alice se transforma, sua inocência dá lugar à independência, torna-se consumista e deseja ser como as outras moças, enquanto o mágico lida com a dificuldade emocional e financeira, ela não para de pedir roupas e sapatos, para agradá-la ele se sujeita a empregos dos quais nada tem a ver com ele.

Os traços do desenho, as cores, o cenário e a história em si tem um ar nostálgico e melancólico. Essa é uma das melhores animações destinada ao mundo adulto, ela disserta sobre valores com uma sutileza ímpar, nos levando ao riso e ao choro. Quase sem falas "O Mágico" se baseia em expressões, gestuais, e também em incríveis piadinhas visuais.
O novo sempre surgirá, é natural, para Alice há lugar, porém para o mágico não. É bonito ver um artista do passado e é uma pena que não exista um encaixe, infelizmente torna-se fora de moda, pois já não atrai a atenção do público. O estopim acontece quando é contratado por uma loja para realizar truques diante de uma vitrine, onde consumidores aplaudem desenfreadamente, desmoralizado se sente incapaz de continuar em algo que já não lhe dá um retorno sincero. Ele decide partir, mas antes deixa um bilhete a Alice, que diz: "A mágica não existe". 
O mundo acaba engolindo tudo o que é bom e verdadeiro, não tem como recuperar o sentimento de deslumbramento perante a certas coisas, o mágico percebe isso e simplesmente aceita.

O filme é melancólico e traz muitas questões ao espectador, como o embate entre o velho e o novo, o consumismo, e os artistas genuínos. Sylvain Chomet nos encanta com um cinema charmoso e delicado, em meio a uma enxurrada de animações em 3D, "O Mágico" é um respiro maravilhoso e uma chance de contemplar o que essencialmente é belo.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Submarino

"Submarino" de Thomas Vinterberg (A Caça - 2012) é um filme denso e dolorido, retrata o fardo de uma família desajustada, uma mãe que não é capaz de absolutamente nada por estar afundada em seus vícios, é decadente a situação, o início já demonstra isso.
Dois meninos cuidam do irmão mais novo, um bebê, até batizam a criança e lhe dão um nome. Desprezados pela mãe alcoólatra os dias seguem de forma nada convencional, e é claro que não poderia acontecer boa coisa num ambiente desses, a cena que se sucede é chocante, algo que marcará principalmente Nick. A história avança e vemos Nick (Jakob Cedergren), um homem solitário e perceptivelmente marcado por seu passado, ele tem apenas contato com sua vizinha Sofie (Patricia Schumann), outro ser humano perdido, e Ivan (Morten Rose), do qual encontra caído na rua, um antigo amigo que tem problemas para se relacionar com mulheres.
A primeira parte foca em Nick, observamos que ele é bom apesar das circunstâncias que o rodeiam. A ocasião envolvendo sua vizinha e Ivan demostra bem o seu caráter, Nick tem o semblante cansado e parece não se importar com mais nada. Adiante o filme foca em seu irmão (Peter Plaugborg), cuja vida está pior, viúvo com um garoto para criar ele é viciado em drogas, e por mais que tente resistir aos poucos sua relação paternal vai se destruindo. Seu filho, o pequeno Martin é uma criança adorável, parte o coração pensar que a vida dele está sendo marcada por situações dolorosas que mais tarde pesará. Em uma das cenas o pai do menino rouba uma senhora, é impressionante, não dá nem para sentir raiva vendo a maneira que acontece. Ele simplesmente não vê alternativas, então desesperado acaba indo pro ramo do tráfico, mas a polícia não demora para descobrir, pois ele já estava na mira.

A história dos irmãos são contadas separadamente, mas elas se cruzam em determinados momentos, como no enterro da mãe, e na prisão. A narrativa é genialmente delineada, é impactante as consequências dos atos, Nick fica com todo o arco dramático, desde o início ele é responsabilizado, e por isso sempre o vemos de maneira mais íntima, como não se condoer com a cena em que olha pra câmera com os olhos cheios d'água? Já seu irmão, que em nenhum momento tem o nome revelado aparece mais como uma vítima, ele tem aspecto de uma pessoa doente, seus olhos demonstram vergonha. O que eles vivenciaram na infância não é superado, do mesmo jeito que a mãe buscava consolo no vício, assim é Nick que passa os dias bebendo por não conseguir encontrar nas pessoas o que necessita, e seu irmão, um viciado em drogas, que leva adiante o mesmo que passou para seu filho.

O filme tem personagens muito bem construídos e carrega uma aura de tristeza, a fotografia fechada e o clima frio só faz ressaltar esse vazio. Thomas Vinterberg é um diretor muito primoroso, e tem o dom de construir filmes com temas que retratam a desordem familiar. É um tipo de cinema mais reflexivo e que expõe dramas humanos reais. "Submarino" não dá trégua, é cruel, dilacera, e é exatamente por isso que merece todos os elogios.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Em um Mundo Melhor (Hævnen)

"Em um Mundo Melhor" (2010) dirigido pela dinamarquesa Susanne Bier (Brodre - 2004, Depois do Casamento - 2006), traz um drama denso que nos faz refletir sobre diversas coisas, entre elas o comportamento do ser humano em questões corriqueiras, e a conduta em relação ao próximo. O termo olho por olho é exposto de uma forma muito interessante e ainda retrata outras questões, como o bullying, perdas, violência e solidão.
Em uma nação africana devastada pela guerra, o médico cirurgião Anton enfrenta um fluxo constante de perda e tragédia. Enquanto isso, na Dinamarca, sua mulher está preocupada com seu filho mais velho, Elias, que é constantemente perseguido por Sofus, o valentão da classe. Quando Christian entra para a turma, ele e Elias se juntam no ódio a Sofus. Rude e cruel desde a morte de sua mãe, Christian passa por uma fase agressiva, enquanto seu pai Claus, devastado, não consegue lidar com seu comportamento. A partir da amizade conturbada dos dois garotos, as duas famílias criam um vínculo. Anton diariamente lida com pessoas que são vítimas da violência devido a grande pobreza que os rodeia na África, as mulheres e crianças são as que mais sofrem, o líder, Big Man, não poupa nem as grávidas. Seu filho Elias, que também é vítima de violência, apanha de um garoto maior na escola e volta para casa com os pneus da bicicleta furados, prefere omitir, já que a situação em sua casa não é das melhores, seu pai e sua mãe estão prestes a se divorciar. Quando Christian entra na vida de Elias as coisas começam a tomar um outro rumo, ele não se conforma em ter perdido a mãe e culpa seu pai, Claus não sabe o que fazer para amenizar o rancor que seu filho sente. Christian vendo que Elias não faz nada contra Sofus, vai e se vinga pelo amigo, ele bate tanto no garoto que o deixa quase cego.
Christian carrega um semblante fechado, está constantemente revoltado e distante dos outros. É um garoto que no fundo necessita de afeto, e que principalmente precisa descobrir que nem sempre a violência resolve, porém em certas ocasiões ela é necessária e o filme exemplifica isso na figura de Anton, ao ter que enfrentar Big Man, que invade o campo de refugiados procurando ajuda médica.
Os filmes de Susanne Bier são dramas intensos, é impossível não sentir a dor dos personagens, afinal as situações retratadas acontecem conosco. A violência está incutida no ser humano, e por bem pouco ela é despertada, no que se revela em algo grandioso e pode atingir outros que nada tem a ver.

O pensamento olho por olho, dente por dente dá certo para Christian, ele consegue intimidar Sofus e este não perturba mais Elias, isso se intensifica na sua cabeça e tudo para ele se resume a essa ideia. Um dia acontece algo muito trivial, o filho mais novo de Anton se envolve em uma briga no parquinho com outra criança, Anton imediatamente separa os dois e pergunta o que está acontecendo, nisso o pai do outro menino aparece e nervoso o insulta e diz para tirar as mãos de seu filho, não adianta conversar ou explicar que estava separando uma briga, Anton acaba levando um tapa na cara. É algo muito banal para ficar remoendo e o pai de Elias diz que o homem é estúpido e não conhece nada além daquele mundo que o rodeia, a ignorância. Seus filhos o escutam, mas Christian não absorve suas palavras e não se conforma que o pai de seu amigo queira esquecer tal episódio, então o garoto vai em busca de informações sobre o homem para que Anton o ensine de uma vez por todas que o que aconteceu não se faz. Mas o pior acontece, enquanto Anton tenta conversar, o outro homem apenas o xinga e bate em sua cara por mais de duas vezes. Para Christian isso é uma humilhação, pois ele pensa que para se ganhar respeito é preciso agir com violência. Mais tarde, ele começa a arquitetar um plano envolvendo bombas para vingar o pai de seu amigo. Elias de início não concorda, mas inevitavelmente segue seu amigo.
Todos os dramas explorados são consistentes e reais, por muitas vezes nos deparamos com situações que poderiam ser resolvidas à base de conversa ao invés da violência, claro, nem sempre devemos dar a outra face para que estapeiem, mas independente da escolha que fizer as consequências virão.

O filme gera discussões acerca de vários assuntos, mas não toma partido nenhum, apenas mostra que tanto um lado como outro tem os seus efeitos. O curioso dos filmes de Susanne Bier é que eles parecem convencionais em princípio, mas conforme o desenrolar percebemos que existe profundidade em suas narrativas e personagens, não ficamos imunes a eles após o término. Por essas e outras, vale a pena conferir "Em um Mundo Melhor".

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Ventre (Womb)

"Ventre" (2010) do diretor húngaro Benedek Fliegauf (Apenas o Vento - 2012) é um filme desconhecido que retrata um assunto polêmico, incômodo, e que assusta a maioria das pessoas.
A história segue Rebecca (Eva Green) que ao passar algumas semanas na casa de seu avô, num lugar estonteantemente lindo, se apaixona por Thomas (Matt Smith). As duas crianças parecem se encontrar uma na outra, entre brincadeiras e olhares criam um forte laço, mas Rebecca precisa ir embora, ela e sua mãe vão morar em Tóquio. Doze anos se passam, então ela retorna ao lugar em busca de Thomas, o reencontro é estranho e silencioso. Atualmente Rebecca trabalha com software e Thomas é um ativista ambiental, bem maluquinho, cheio de ideias e sonhador. Matt Smith caiu como uma luva para o seu personagem, assim como Eva Green para o seu, que já pende para um lado misterioso, quieto, mas que expressa pelo olhar sentimentos intensos e inquietantes. Nada acontece entre eles, apenas conversas, Thomas concorda em levar Rebecca a uma manifestação da qual ele é um dos líderes, porém na viagem ocorre um acidente indiretamente provocado por Rebecca, e ele morre.
Isso tudo pode parecer um spoiler imenso, mas é só o começo. Rebecca consumida pelo amor, pela culpa e por todos os fatores que permearam a sua relação com Thomas, tem a ideia de fazer uma fertilização a partir do DNA do seu amado, gerando um clone. Para isso ela precisa da autorização dos pais dele, a mãe é irredutível, já o pai é simpatizante. O fato é que ela faz essa fertilização e nove meses depois nasce o bebê, seu filho. É supostamente assim que deveria ser segundo a ética, a moral, e a religião. Mas para Rebecca...
O filme não discute sobre a clonagem, algumas coisas são jogadas, como as crianças da escola que têm preconceito de uma menina que é clone da mãe de sua mãe, mas não é explorado, apenas fatos são expostos, pois é um assunto delicado e tabu na sociedade. Thomas não sabe que é um clone, sua mãe conta sobre o acidente, sobre seu pai, mas nada além disso.
Já com doze anos, a situação vai ficando tensa e indecifrável. A relação mãe/filho começa a ser questionada por nós espectadores, brincadeiras, um banho, há algo embutido em Thomas, um sentimento por sua mãe que nem ele mesmo entende, e Rebecca demonstra em seu olhar, que o deseja. No início do filme, quando pequena ela tinha o hábito de olhar Thomas dormindo, passava os olhos pelo seu corpo, isso se repete quando ela olha seu filho na banheira, enquanto o garoto declama uma poesia.

O filme é muito complexo por não ser tão explícito em diálogos, ou se focar em algo fortemente, portanto pode se tornar chato e confuso, mas é preciso assisti-lo com atenção para ler nas entrelinhas os desejos de Rebecca, que desde o início demonstra sua obsessiva paixão por Thomas. Ela queria uma segunda chance, já que seu amor não foi consumado, o destino, ou seja lá o quê não deixou que acontecesse, e a medicina estando tão avançada em relação a clonagem, não pensou duas vezes em brincar de "Deus", e desse modo poder reviver algo tão latente quanto era o seu amor por Thomas.
O problema é quando Thomas se torna homem e começa a namorar, a situação vai ficando tensa ao extremo. Os olhares de Rebecca se tornam muito estranhos. Vale ressaltar que ela se isola com o filho ainda pequeno. O lugar é dominado pelo vento e a solidão. O intuito é ser apenas ela e ele no mundo.
A fotografia é outro ponto importante, toda trabalhada em tons de azul, ela entra completamente em harmonia com o roteiro e o ritmo da narrativa. Dá um clima de incertezas e cria uma agonia em quem o assiste. A única ressalva é que a personagem não envelhece na história, passam-se os anos e continua a mesma.

Thomas vai percebendo algo diferente na relação, pois nunca existiu sentimentos maternos ali, por exemplo, quando chega perto de Rebecca sente que ela fica estremecida, e ele também sente desejos, a confusão o toma já que não sabe que é uma cópia. Um dos momentos mais polêmicos é quando acontece o que Rebecca sempre quis, acredito que a maioria que o assiste se perde e não consegue analisar que quando eles se unem, se amam, ela perde a virgindade. Por fim, Thomas vai embora, afinal lidar com tais circunstâncias seria enlouquecedor.
Apesar de toda a loucura envolvida em relação ao amor que Rebecca sente, o filme nos propõe a pensar até que ponto existe o parentesco, gerar uma criança não significa ser mãe desta. É isso que está em pauta. Ela não se sentia mãe dele, apenas emprestou seu ventre para saciar seus desejos. E, então o que aconteceu entre eles pode ser considerado incesto? Também coloca em xeque o sentimento amor, que no caso dela era puro egoísmo.
É aflitivo, angustiante, incômodo, é filme para quem gosta de um cinema mais diferenciado, assista de mente aberta e se inebrie com uma fotografia arrebatadora.

"Acabou. Eu sempre vou falar com você. Não importa se você não diga nada. O fato de você já ter ido não significa que não esteja aqui."

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Vênus Negra (Vénus Noire)

Abdellatif Kechiche é um diretor primoroso, recentemente seu nome ganhou notoriedade com o "Azul é a Cor Mais Quente", mas seus filmes anteriores são tão bons quanto.
"Vênus Negra" (2010) baseado em fatos reais retrata a sordidez humana. Saartjie, a Vênus Hotentote, nascida em 1789 às margens do Rio Gamtoos, no atual Cabo Oriental, na África do Sul, é pertencente à família Khoisan, mais conhecida como bosquímanos. Uma das características das mulheres bosquímanas era a protuberância das nádegas, por excesso de gordura, fenômeno conhecido como esteatopigia. Ela foi serva da família Baartman, agricultores holandeses que moravam nas proximidades da Cidade do Cabo. Convidada e iludida para se apresentar em espetáculos em Londres a fim de adquirir dinheiro acaba sendo humilhada de diversas maneiras.
A atriz cubana Yahima Torres deu vida a inocente Saartjie, seus olhares e silêncios nos dizem e emocionam muito, descobrimos um pouco dessa mulher que era doce, e que principalmente necessitava de afeto. Saartjie era exibida como um animal, uma aberração selvagem vinda da África, um lugar considerado extremamente exótico para os padrões europeus da época. As cenas são exibidas em longos planos, mostrando cada detalhe da apresentação, onde a mulher é tirada de uma jaula e exposta ao público curioso. Ela dança, toca e é apalpada, fato que entristece muito Saartjie. Por causa de suas características físicas avantajadas e o tal "avental hotentote" (pequenos lábios vaginais muito desenvolvidos) foi obrigada a submeter-se em terríveis situações.
A cena inicial já revela o racismo mascarado sob a forma de ciência. Uma aula de anatomia que acontece na Paris do começo do século XIX. Na ocasião, são comparados atributos físicos de uma mulher negra com macacos. O médico enfatiza: "Eu nunca vi a cabeça de um ser humano tão parecida com a de um macaco". Estudiosos acreditavam que os hotentote estavam muito próximos da raiz da espécie humana. E quando ficam sabendo das apresentações em Paris foram oferecer dinheiro em troca dela ser objeto de estudos durante o dia todo, mas Saartjie tinha vergonha de se despir completamente por conta de suas partes íntimas, e era exatamente isso que os estudiosos precisavam para saber se ela era uma hotentote legítima. Muito humilhante e desumano a forma como a tratam. É a perversidade humana em seu mais alto grau. Nesse momento ela já estava com outro explorador, pois Caezar irritado com Saartjie a vendeu para Réaux, que por sua vez era muito mais agressivo e não a poupava nas apresentações, sendo tocada com muita violência.

Muitas vezes Saartjie dizia que não era escrava, que recebia salário e que o que fazia era uma representação, como no teatro, fora dali era livre. Sua submissão era demais, dizia ser burra, mas a verdade é que ela não tinha para onde correr, e por isso aceitava sua bizarra situação. O homem em quem confiou a colocou para fora de sua vida em razão do dinheiro que foi perdido por ela não querer mostrar os lábios vaginais. Posta em outras mãos foi violentamente agredida, tanto fisicamente como moralmente, sua imagem de mulher se destruiu por completo.
Os olhos de Saartjie demonstram uma tristeza e um vazio imensurável, além de fragilidade e impotência diante aqueles ao seu redor. O filme faz questão de mostrar suas apresentações por inteiro a fim de que retrate a desumanidade na espécie humana. E quando se pensa que nada poderia piorar Saartjie é deixada a mercê da vida, acaba se prostituindo, adoece e mais uma vez é jogada na rua, sem ter mais forças para ir adiante, falece, mas nem assim consegue ter paz. Réaux a encontra e a vende para os estudiosos de Paris, que fazem um modelo a partir de seu corpo. Seus restos mortais (esqueleto, órgãos genitais e cérebro) ficaram expostos no Museu do Homem da França, até 1985. Houve apelos esporádicos pela devolução dos seus restos mortais, e só em 2002 foram entregues à África do Sul.
"Vênus Negra" mostra de forma contundente o racismo científico, um exemplo é a ideia de que o crânio se assemelhava com o do macaco, e de que vários aspectos da fisionomia eram "inferiores". Os europeus se achavam e desejavam expor suas teorias. No século XIX o racismo e a eugenia eram muito explícitas e ganharam força. A exotização da mulher negra nasceu daí.

Muito se diz que os tempos são outros, mas querendo ou não o exótico hoje em dia é vendido sob formas que aguçam a curiosidade. Uma amostra são os pacotes turísticos vendidos mundo afora para se conhecer as favelas do Brasil, ou as mulatas do carnaval que se exibem sem pudor algum, e cuja imagem é vendida como o símbolo do país.
Os períodos históricos servem para analisarmos o racismo, no século XIX era mascarado pela ciência, muitas ideias se difundiram e viraram verdades que predominam até hoje. Na atualidade é algo velado, mas a marginalização permanece, assim como o desprezo e a luta pela igualdade.
"Vênus Negra" é um filme chocante que mostra até onde vai a ignorância do ser humano em explorar outro ser humano que foge dos padrões ditos perfeitos.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

No Espaço Não Existem Sentimentos (I Rymden Finns Inga Känslor)

"No Espaço Não Existem Sentimentos" (2010) é um filme sueco bem leve do diretor Andreas Öhman. É daqueles filmes que inevitavelmente nos fazem sorrir e do qual guardamos com carinho na memória. Não havia me deparado com um filme sueco de comédia até então, mas foi uma grande surpresa. Bill Skarsgard (Hemlock Grove), filho do fantástico Stellan Skarsgard, faz um personagem apaixonante, sua vida é complicada pois sofre da Síndrome de Asperger, que faz com que não se aproxime das pessoas, não crie laços, porque sentimentos geram o caos dentro de sua cabeça. Mas quando a namorada de seu irmão Sam, rompe o relacionamento, ele fica absolutamente deprimido. Para animá-lo e fazer com que volte à sua vida normal, Simon decide ajudar a encontrar uma nova e perfeita namorada. Porém, a busca é muito mais complicada do que poderia imaginar e fica em dúvida se realmente poderá ajudar Sam. O único que consegue se comunicar com Simon é seu irmão, por isso ele o leva para morar em sua casa juntamente com sua namorada, as coisas inicialmente se estabelecem, criam uma rotina perfeita, mas tudo muda quando Frida não consegue suportar as manias e os ciclos repetitivos de Simon.
Sam é um irmão muito paciente e carinhoso, toda vez que algo se quebra dentro da rotina de Simon, e este se esconde na sua "nave espacial", ele é o único capaz de se comunicar com o garoto. Inicialmente a busca por uma namorada para Sam é simplesmente para completar o ciclo quebrado de sua vida certinha, ele não entende que para isso necessita se apaixonar, criar laços. Sua cabeça pensa em círculos e quando algo se rompe, não consegue processar uma saída, é o caos realmente. Há cenas muito criativas e divertidas por Simon interpretar tudo literalmente, não diferenciar emoções e tão pouco demonstrá-las, mas as coisas vão mudando quando Jennifer, uma excêntrica garota entra na vida dele. O momento do encontro é sensacional, como sua rotina é sempre a mesma, passa pelos lugares no mesmo horário, então esbarra em Jennifer e seus livros caem todos no chão, ela querendo ajudar e se desculpar toca nele, o que o faz bater nela. É nesse momento que começa a acontecer algo interessante, pois quando vai procurar uma namorada para seu irmão ele tenta encontrá-la da mesma maneira, com um esbarrão cronometrado.
É um filme de comédia muito inteligente e criativo, ele se livra de todas aquelas balelas que circulam quando se fala de personagens com algum tipo de dificuldade. O romance que acontece é de uma sensibilidade única. Tudo isso graças as interpretações de Bill Skarsgard, Martin Wallström e Cecilia Forss.

Jennifer é uma garota encantadora que aos poucos consegue conquistar Simon, mesmo ele não percebendo, pois há essa dificuldade em entender emoções. Ao tentar arranjar uma namorada para seu irmão, ele na verdade se ajuda, e enfrenta vários obstáculos. A cena em que entrevista as meninas na rua para buscar o par ideal, e as perguntas diretas ditas de forma tão natural por Simon é hilário. Jennifer vai inserindo aos poucos um outro mundo a Simon, como quando coloca o fone nos ouvidos dele passando assim a enxergar as cenas cotidianas conforme a música tocada. É um despertar simples, mas imenso.
Sou a favor de que todo mundo tenha uma "Jennifer" em sua vida, mas infelizmente esse tipo de pessoa é rara, é daquelas que nos transformam e nos mostram o valor de coisas pequenas, porém as que mais fazem sentido. Vendo o filme me veio o pensamento de que dificilmente vejo pessoas se gostarem realmente, sem reparar ou colocar defeito, de algum modo as pessoas não sabem mais lidar com sentimentos. Nada mais me parece ser natural.

"No Espaço Não Existem Sentimentos" é um filme que faz bem para o coração, para dar leveza diante a tanta automaticidade da vida, onde tudo é cronometrado e o tempo para se relacionar verdadeiramente é praticamente nulo.
A fotografia muito colorida enche nossos olhos, e a trilha sonora deliciosa compõe perfeitamente. É uma pena que filmes assim não entrem no circuito comercial, e poucas pessoas tomem conhecimento. É um tipo de cinema para quem deseja se deslumbrar com uma história divertida, inteligente e criativa. A sensação que o filme nos causa é a mesma de quando estamos apaixonados, e ao final até o sorriso bobo aparece.