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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Genesis - Nacho Cerdá - Trilogia da Morte

Depois de ter assistido "Aftermath" surgiu a curiosidade sobre o diretor Nacho Cerdá, previamente senti apenas repulsa pelo curta dito acima, mas vendo a trilogia composta por "Awakening" (Despertar), "Aftermath" (Morrer) e "Genesis" (Renascer) pode-se concluir que é uma obra e tanto. Nacho utiliza da violência das imagens, mas não é à toa, a mensagem é clara e objetiva. A sua maneira de narrar as histórias são cruas, sem artifícios, não é hipócrita, ele fala sobre a degradação humana, a solidão, a morte, e é exatamente por isso que desagrada a maioria. Mesmo longe dos holofotes, ele tem admiradores de sua arte e muitos prêmios em seu currículo. Terror poético é o mais próximo de uma definição para seus trabalhos. Ele nos desperta para a realidade, mostrando sentimentos adormecidos como a violência e o como lidamos com ela. Os três curtas são marcados pelo suspense e a solidão que aponta a alma humana, e é por isso que o silêncio é tão bem trabalhado, a não ser pelas maravilhosas trilhas que compõem o clima melancólico e por vezes surreal.

"Awakening" (1990) é o primeiro curta e é simplista, nada especial aparentemente, ele mostra um estudante que acaba dormindo durante a aula. E quando acorda, o tempo e todos ao seu redor estão parados. É incrível a capacidade de provocação, não se espera que aconteça nada, porém o desfecho é super eficiente e manda a mensagem. Assista aqui!

"Aftermath" (1994), o segundo e, talvez, o mais polêmico se refere a morte e não poupa o espectador com imagens fortes. É um curta super bem feito, o visual impressiona e a interpretação é angustiante. Ele conta o fascínio de um legista ao manejar os corpos de vítimas que foram assassinadas. Retratando o quão pífia é a mente do ser humano, e também como somos frágeis em relação a vida. Ao final somos apenas um monte de carne em decomposição que fica à mercê de sei lá o quê. É claro que é perturbador, pois tudo que nos tira da nossa zona de conforto e faz pensar acaba provocando de certa forma. Assista: Parte 1, Parte 2.

"Genesis" (1998), o terceiro curta e o motivo desta postagem é uma obra impecável, sublime em termos técnicos e o que ele nos propõe a pensar.
A história conta sobre um escultor que perde sua mulher de forma trágica, desde então não consegue suportar a solidão que o culmina. Assim decide esculpir sua mulher nos mínimos detalhes, em toda a sua perfeição. Ele trabalha de forma minuciosa, esculpindo milimetricamente, e isso de alguma forma o preenche, ele coloca todo o seu amor e toda a sua alma em sua arte. Tornando-se divino. Apenas restando os retoques, ele percebe algo estranho, chegando perto descobre fios de sangue a sair da estátua. E com o tempo essas fissuras aumentam, tornando-se quase viva. Em contrapartida, o escultor faz o processo inverso, ele vai se tornando rígido. Cada fissura que se abre, ele vai sendo tomado por um aspecto enrijecido o fazendo estátua. E sua mulher esculpida com a perfeição se faz humana, renascendo.
A fotografia é imensamente bela e poética, assim como a trilha sonora e o clima, tudo é muito assustador, mas de uma beleza sem limites. Simplesmente paralisa-se diante do que está vendo. Não há uma linha de diálogo, tudo é exposto em forma de gestos e olhares profundos, expressões corporais, delicadeza, intensidade. Os closes nos presenteia com imagens extremamente sensoriais. Os simbolismos se dão nos pequenos detalhes. É preciso assistir mais de uma vez para poder captar o valor da obra. É uma metáfora do artista que se consome para dar vida a sua criação. O ator Pep Tosar é de uma sensibilidade impressionante, seus olhos dizem muito. Inclusive ele também atuou em "Aftermath" (o legista doentio). "Genesis" é um curta premiadíssimo. Vale a pena compartilhar conteúdos deste nível. O curta mescla grandeza poética com certo medo e terror interno. Fica-se atônito ao assisti-lo. Veja aqui!

Nacho Cerdá além desses curtas também dirigiu o filme "Os Abandonados" de 2006, que conta a história de uma mulher adotada por uma família norte-americana e que decide viajar para a Rússia com o objetivo de encontrar informações sobre seus pais biológicos. Chegando em uma área isolada do país, ela recebe a notícia de que sua família desapareceu há 40 anos, deixando apenas uma casa velha e abandonada como herança. No lar, encontra a estranha figura de seu irmão gêmeo e percebe os horrores que aquele lugar guarda.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Aftermath

O curta espanhol de 30 min dirigido por Nacho Cerdá superou todos os adjetivos nojentos e doentios que se possa imaginar. Deixando bem claro, o vídeo é para quem tem estômago forte e curte horror. O propósito é chocar. "Aftermath" é uma expressão que significa algo como "o que há depois de..." O estado do corpo depois da morte, sua desolação e o nada.
Necrofilia explícita num filme sem nenhum diálogo. O diretor Nacho Cerdá produziu uma trilogia que abrange o nascimento (The Awakening, 1990), a morte (Aftermath, 1994), e o renascimento (Genesis, 1998). O filme também foi vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem no Fant-Asia Film Festival. Este controverso curta mostra atividades secretas de um funcionário de necrotério. Ele retira os órgãos das pessoas mortas, provavelmente para transplantes, pois não ha um estudo ou uma perícia sobre o cadáver, que são visivelmente vítimas de acidentes ou assassinatos. O espetáculo é repulsivo e mórbido. O homem se masturba para o corpo aberto sobre a mesa e, em seguida sobe em cima do cadáver e pratica sexo. O olhar do personagem é frio e medonho, o close em seu rosto, nas suas ações detalhadas, todo o ritual da necrópsia é insano. A ideia é mostrar que após a morte somos apenas pedaços de carne em decomposição. O silêncio absoluto perturba e nos leva a reflexão. O fascínio que o legista revela com o seu olhar de psicopata é de dar arrepios.

A maquiagem é hiper realista, a fotografia escura e a trilha sonora só aumenta o clima sinistro. Imaginar o que acontece dentro de um necrotério não é muito agradável, por isso o curta conseguiu ganhar adjetivos, como perturbador, doentio, chocante, repulsivo, nojento, mórbido, entre tantos outros, mas dentro de seu propósito conseguiu realizar muito bem e com ótima qualidade.
Quero enfatizar mais uma vez o olhar do legista, que se intensifica por ele usar a máscara cirúrgica o tempo todo. A insanidade humana não tem limites realmente, é difícil e pesado observá-la. E pensar que a vida é tão frágil e que bambeia entre a poesia e a morbidez. Cerdá promove reflexão em alguns e asco em outros por promover uma sinceridade pouco vista.

Se deseja assistir o curta fique ciente que a história não é leve e contém cenas fortes, mas isso é de cada um, então fique à vontade para assistir algo que mesmo sendo doentio pode gerar reflexões sobre a nossa existência.