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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Meu Bolo Favorito (Keyke Mahboobe Man)

"Meu Bolo Favorito" (2024) dirigido por Maryam Moqadam e Behtash Sanaeeha (O Perdão - 2020) é um filme iraniano que aborda o romance na velhice de uma forma leve e sensível apesar do contexto repressor e violento do país. É daquelas histórias que nos arranca vários sorrisos sinceros tamanha delicadeza dos personagens. Acompanhamos a rotina tediosa de Mahin (Lili Farhadpour), uma senhora de 70 anos que adora cozinhar, cuidar de suas plantas e costuma desviar de suas vizinhas fofoqueiras, além de ter o hábito de passar noites em claro assistindo TV. De tempos em tempos organiza reuniões com amigas em que tomam chá e conversam sobre os mais variados assuntos, quase sempre de doenças ou elas influenciando-a fazer coisas novas, desde que seu marido morreu e sua filha se mudou para outro país sua vida tem sido sempre a mesma, completamente sozinha. Depois desse dia Mahin decide que precisa arranjar uma companhia. Ela se arruma, pega um táxi e sai para a cidade caminhar na praça na esperança de encontrar alguém, não demora muito e observa um senhor almoçando sozinho no restaurante dos aposentados, decidida vai atrás dele e pede exatamente o táxi em que Faramarz (Esmaeel Mehrabi) trabalha. Durante a corrida Mahin joga charme e é correspondida, ao final o convida para entrar em sua casa, claro que com muita descrição, o decorrer desse encontro se dá com muito vinho, comida, música e ótimas conversas. Mergulhamos nas angústias e lembranças de ambos que vivenciaram cenários diferentes e duas realidades no país, viram a revolução acontecer tornando-o numa teocracia, autoritarismo extremo em que qualquer deslize gera prisão, a polícia da moralidade vigia cada passo e para Mahin que se apresenta uma senhora comportada percebe-se que há uma mulher livre com muita sede de viver, a solidão tanto de um como de outro machuca, mas a alegria deles contemplando o jardim comendo e bebendo vinho (feito em casa, pois também é proibido), é uma das cenas mais lindas do filme entre tantas outras. Há um quê de ingenuidade na forma que se relacionam, não sabem muito bem o que fazer além de trocar conversas, à medida que o vinho faz efeito intimidades são reveladas com imensa sensibilidade, melancolia e esperança. 

É um filme de introspecção que caminha a lentos passos, como o caminhar de Mahin, que propõe o olhar para o outro, de parar e observar detalhes, o encontro deles é permeado de poesia e tranquilidade, mas também de angústia e um certo desespero, porém regado a momentos de alegrias sinceras, de compartilhamento genuíno e palavras que há muito estavam trancafiadas no peito. 
As atuações são belíssimas, o olhar e o corpo falam o tempo todo, a troca de roupas de Mahin, seu esmero em cozinhar e servir 
Faramarz, cujas feições tristes dão lugar a sorrisos duradouros.

"Meu Bolo Favorito" tem instantes grandiosos em suas sutilezas, é imersivo em demonstrar que apesar das limitações e restrições o desejo pelo compartilhamento da vida é uma chama que ainda arde dentro dos personagens. A solidão é aliviada, mas o gosto amargo não deixa de existir, pois apesar de ser ficção a realidade da situação no país está presente a todo momento lembrando o quão forte é a luta daqueles que querem celebrar a vida.

*Os diretores foram oficialmente condenados pela justiça iraniana, 14 meses de prisão discricionária (pena suspensa por 5 anos) mais multa por propaganda contra o regime iraniano, desrespeito às leis islâmicas e por propagar prostituição e libertinagem, além de distribuição ilegal do filme sem a autorização das autoridades iranianas. Tiveram seus passaportes confiscados. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

A Pior Pessoa do Mundo (Verdens Verste Menneske)

  

"A Pior Pessoa do Mundo" (2021) dirigido por Joachim Trier (Thelma - 2017) é um filme repleto de questões, induz o espectador a pensar sobre si mesmo e o estar no mundo, a confusão da protagonista gera antipatia, mas ela representa a maioria das pessoas, pois a indecisão e o estar perdido diante de tantas possibilidades e probabilidades gera ansiedade e muitas vezes prostração, quem diz que sabe o que está fazendo e para onde está indo está fingindo muito bem porque a vida é instável e nada objetiva, se considerar a pior pessoa por não saber se uma escolha é melhor que outra, ou optar por coisas que não condizem com expectativas alheias, na verdade, lhe faz mais sensível e consciente.
Julie (Renate Reinsve) é jovem, bonita, inteligente e não sabe exatamente o que deseja em uma carreira ou parceiro. Uma noite ela conhece Aksel (Anders Danielsen Lie), um conhecido romancista gráfico 15 anos mais velho, e eles rapidamente se apaixonam. Ela também conhece um barista de café, Eivind (Herbert Nordrum), que também está em um relacionamento. Julie tem que decidir, não apenas entre dois homens, mas também quem ela é e quem ela quer ser. Entre idas e vindas, Julie escolhe com quem ficar e mais problemas surgem em sua vida. Com prólogo, 12 capítulos e epílogo acompanhamos Julie se mover pela vida sem muita convicção, age conforme seus desejos e encara os momentos com intensidade, mas as escolhas que faz a atingem mais para frente sempre colocando em xeque se é realmente o que quer. Sua relação com Aksel é profunda em afinidades e amor, mas Julie se vê diante da impossibilidade de seguir, anseia experiências e ao contrário de Aksel não pensa firmar a relação e nem quer ter filhos, dessas suas contradições e vulnerabilidades acaba se apaixonando por Eivind em circunstâncias de impulso e que abrangem gostosas descobertas que dura por um tempo e só aumentam suas angústias.
É interessante que aborda a vida adulta de forma realista e mostra que estar perdido e frágil aos 30 é mais comum do que se pensa. São muitas visões e experiências que se quer agarrar e nem sempre o óbvio é o caminho. Estar à deriva sem convicções onde se realiza e se desconstrói facilmente algo faz parte dessa geração que de certa maneira está mais livre de convenções impostas, mais solitárias e com estímulos a mil. Em dado momento Julie diz ser espectadora da sua própria vida, se autodeprecia por abraçar seus desejos e encarar suas escolhas com intensidade, mas isso a faz ser a pior pessoa do mundo?

Aksel tem estabilidade financeira e é bem-sucedido como quadrinista, tem uma relação de afinidade intelectual com Julie e aos poucos vai sentindo vontade de ser pai, mas Julie não está pronta para esse passo e conforme ele mergulha mais e mais em seu trabalho ela sente vontade de se libertar. O término é sofrido, eles se amam, mas cada um está em um ponto da vida, a partir desse momento as coisas começam a soar melancólicas e as escolham tomam um peso absurdo. E Aksel apesar de ter tudo certo em sua vida é surpreendido pelo inevitável, colocando tudo que construiu e se tornou em observação.
 
"A Pior Pessoa do Mundo" faz parte de uma trilogia composta por "Começar de Novo" - 2006 e "Oslo, 31 de Agosto" - 2011, que abordam conflitos existenciais com potência e sensibilidade, são obras melancólicas e que desnudam a existência humana. É preciso olhar para dentro e aprender a aceitar que a vida não pode ser controlada, há instabilidades, angústias, caminhos inesperados, surpresas e renúncias.
Vale ressaltar o incrível corroteirista Eskil Vogt que possui obras maravilhosas em parceria com Joaquin Trier e também como diretor, vide o filme "Blind" - 2014.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Melhores Séries Vistas de 2022

  

Segue uma singela lista das melhores séries vistas de 2022, são obras de imensa qualidade e com certeza inesquecíveis.

07- "Amor e Anarquia" (Kärlek & Anarki - Suécia) 2 Temporadas - 2020/2022

Amor e Anarquia conta a história de Sofie Rydman (Ida Engvoll), uma consultora bem-sucedida, casada e mãe de dois filhos. Quando Sofie é contratada para modernizar uma antiga editora, ela conhece o jovem técnico de TI Max Järvi (Björn Mosten), iniciando um arriscado jogo de flerte com ele. Secretamente, Sofie e Max se desafiam a tomar atitudes e decisões que contradigam as normas sociais. A brincadeira parece inofensiva, mas, à medida que os desafios aumentam, os dois precisam lidar com as perigosas consequências de sua relação. 

06- "Terra à Venda" (Grond - Bélgica) 1 Temporada - 2022

Em Soil, quando um imigrante muçulmano morre na Bélgica, a família enfrenta o dilema de enterrar o corpo no país em que se encontram, ou realizar o desejo do falecido e retornarem para sua terra natal. Isso desperta no jovem Ishmael “Smile” Boulasmoum o desejo de começar um novo empreendimento. Ele e sua irmã acabaram de herdar os negócios do pai, e Smile acredita que exista uma oportunidade incrível para eles se começarem a trazer terra do Marrocos para que os imigrantes possam enterrar seus familiares no solo de sua nação. A partir disso, a família começa um negócio funerário que, apesar de lucrativo, irá se mostrar cheio de obstáculos e imprevisibilidades no caminho ao sucesso. 

05- "As Vidas Secretas da Família Uysal" (Uysallar - Turquia) 1 temporada - 2022

Oktay Uysal (Öner Erkan), um arquiteto de 44 anos está passando por uma séria crise de meia-idade. Oktay está tentando superar a ansiedade desse momento importante vivendo uma vida dupla. A primeira vista, ele aparenta ser apenas mais um pai de família, com um carro, uma casa e um trabalho que paga as contas. Por trás dessa fachada condicionada, ele é um punk como sempre foi quando era jovem. Dessa forma, Oktay decide retornar às suas raízes: usar roupas rasgadas, moicano e ouvir música barulhenta. Contudo, Oktay não é o único passando por um momento difícil. Em casa, cada pessoa de sua família passa por suas próprias crises de identidade e, eventualmente, suas jornadas individuais irão se chocar com o lado punk escondido de Oktay. Só elogios para essa série que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.

04- "Ollie, o Coelhinho Perdido" (Lost Ollie - EUA) 1 Temporada - 2022


A minissérie mistura duas narrativas complementares para compor uma bonita história de amizade. De um lado, acompanhamos a épica jornada de um brinquedo, que precisa enfrentar alguns desafios para reencontrar o menino que o perdeu. Ao mesmo tempo, conhecemos também a história dessa criança, que no processo acabou perdendo muito mais do que seu melhor amigo. A produção nos convida a olhar para o passado e lembrar daqueles companheiros que já deixamos para trás, mas que foram tão importantes em nossas vidas.

03- "Dahmer: Um Canibal Americano" (Monster: The Jeffrey Dahmer Story - EUA) 1 Temporada - 2022

Dahmer: Um Canibal Americano, minissérie de Ryan Murphy, acompanha a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters). A produção explora a juventude do assassino até sua vida adulta e traz um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos. Nascido na cidade de Milwaukee, Dahmer aterrorizou o estado de Wisconsin na década de 1980. Além dos brutais assassinatos, Jeffrey também cometia violência sexual e tortura contra sua vítimas. Seus crimes hediondos o tornaram um dos serial killers mais conhecidos e temidos dos Estados Unidos. Mesmo sua vizinha, Glenda Cleveland (Niecy Nash), tentando de várias maneiras denunciar o comportamento suspeito de Dahmer durante anos, a polícia a ignorou, facilitando os atos do serial killer. Tendo como alvo principalmente homens gays negros, Dahmer saiu impune por anos pelo simples fato das autoridades ignorarem o desaparecimento da vítimas. 

02- "O Urso" (The Bear - EUA) 1 Temporada - 2022

Na série de comédia dramática The Bear, Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem chef que herda um restaurante e tenta transformar o lugar em um grande negócio. No entanto, Carmy enfrenta várias dificuldades e busca ajuda nos diversos funcionários para tentar melhorar e transformar o The Beef em um dos maiores e melhores restaurantes de Chicago. A trama explora como cada personagem lida com suas vidas pessoais enquanto tentam alavancar suas carreiras na indústria alimentícia. Além das ambições profissionais e a rotina estressante do restaurante, a relação de Carmy com a família é cheia de tensão, especialmente depois do suicídio do irmão que impactou a todos. A produção discute comida, família e a rotina insana dos restaurantes. Carmy batalha para elevar seu estabelecimento e a si mesmo ao lado da equipe de cozinha carrancuda que aos poucos se transforma em uma nova família. 

01- "Better Call Saul" (EUA) 6 Temporadas - 2015/2022

Gus Fring (Giancarlo Esposito) está firme em sua decisão de acabar com os Salamanca, o que deixa Nacho (Michael Mando) em uma posição cada vez mais desconfortável, trabalhando para os dois lados. Enquanto isso, Saul (Bob Odenkirk) e Kim (Rhea Seehorn) se esforçam para desacreditar Howard (Patrick Fabian) na tentativa de concluir o caso Sandpiper. Paralelamente, através de vislumbres do futuro, acompanhamos a nova vida de Saul e os percalços por ele enfrentados após seu envolvimento nos negócios de Walter White (Bryan Cranston). História fechada com chave de ouro, uma obra-prima e sem dúvida, a melhor spin-off da história das séries de TV. Personagens icônicos!

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Minha Vida Perfeita (Moje Wspaniale Zycie)

"Minha Vida Perfeita" (2021) dirigido por Lukasz Grzegorzek (A Filha de um Treinador - 2018) é um filme polonês que retrata as facetas de uma mulher que possui muitas responsabilidades e que diante da falta de afeto da família cria uma vida paralela da qual mais a frente acarretará uma série de paranoias e um amontoado de desentendimentos.
Joanna (Agata Buzek), de meia-idade, tenta incansavelmente conciliar ser mãe, filha, avó, esposa, amante, dona de casa e professora do ensino médio. Mas ela parece estar perdendo a paciência. Joanna é uma mulher que detém grandes responsabilidades, principalmente com a mãe que está perdendo a memória devido ao Alzheimer, além disso precisa lidar com a presença do filho mais velho que mora na casa com sua esposa e o bebê, não existe um tempo para si dentro dessa configuração que ainda inclui seu marido, o diretor da escola que leciona e o filho adolescente que parece não suportar o ambiente e se fecha em seu mundo. Ela só respira quando depois de suas aulas particulares na antiga casa de sua mãe coloca uma música alta e fuma um baseado, lá ela encontra sua feminilidade novamente e se encontra com um professor excêntrico, são momentos únicos e que servem para entendermos seu cansaço em relação a tudo. 
A história não está interessada no que é certo ou errado, simplesmente desenvolve a narrativa de maneira intimista e cadenciada a fim de expor a vida como ela é realmente, sem grandes acontecimentos, mas revela o quanto vale um diálogo na tomada de decisões importantes, porém nem sempre a vontade de conversar existe, o que torna algo que poderia ser resolvido facilmente em algo desconfortável. É interessante observar o cotidiano dessa família, não há floreios e nem força a barra criando situações para entreter o espectador, mas por muitas vezes a tensão cumpre seu papel nos dando a oportunidade de tentar deduzir quem estará por trás dos bilhetes deixados para Joanna em razão de sua infidelidade, a paranoia agrava quando acha que é algum de seus alunos e o segredo fica cada vez mais difícil de ser mantido. As maneiras que encontra para desvendar quem está por trás das mensagens são tão estranhas que por fim torna todos dessa trama em seres completamente egoístas e sem nenhum elo de afeto, todos ali estão convivendo sob o mesmo teto sem necessariamente se importar, o fato de Joanna não ceder a casa da mãe para o filho mais velho morar - sendo que isso tiraria um baita peso de suas costas - é que ela não quer ser invadida em mais outro espaço, necessita desse momento em que se torna ela mesma sem se importar com sua imagem de mulher perfeita.

É um filme para se assistir sem grandes expectativas, simplesmente é o retrato da vida de uma família que possui defeitos um tanto desagradáveis, e também veja sem julgamentos até porque nunca é por uma única razão que tais coisas acontecem, como a traição por exemplo, e o fato de suas tomadas de decisões ou a falta delas incomodam, mas claramente porque estamos de fora analisando, a complexidade norteia essas questões e o desfecho revela ainda mais essas camadas, como a que envolve o filho adolescente e suas motivações e o grand finale dela chorando com a mãe, os filhos e nora a abraçando, inclusive com o marido presente e logo após o amante chegando visualizando a cena.
 
"Minha Vida Perfeita" pode não agradar por não estar nos moldes convencionais de narrativa e pode parecer um tanto lento e sem foco, mas os personagens e suas ações desconfortáveis nos dizem muito sobre relações e sobre como a maioria lida com a imagem da família perfeita, e essencialmente do como a sociedade enxerga a mulher que é responsável por um conjunto de obrigações que acabam a anulando. Ainda que trate dessas complexidades do ser humano é um filme leve e até descontraído. É sempre vantajoso exercitar o diálogo, mas nem sempre é fácil e nem sempre se quer ter conversas, pois é muito mais fácil seguir com os segredos.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Perdrix / Aurora / Microhabitat

Segue a resenha de três filmes numa única postagem por eles terem características bem parecidas e também porque particularmente foram muito especiais e merecem um lugar no blog. Ultimamente por tantas coisas acontecendo me falta ânimo para atualizar esse espaço, mas espero que aquela vontade e empenho que tinha volte. Confira:

"Perdrix" (2019) dirigido por Erwan Le Duc é uma comédia dramática francesa peculiar que flerta com absurdos, mas que também consegue despertar emoções vívidas e graciosas, tem aquele elemento especial que nos faz ficar de coração preenchido e sorrir. 
Desde que a enigmática Juliette Webb (Maud Wyler) entrou em sua vida, Pierre Perdrix (Swann Arlaud) não tem sido mais o mesmo. Atingindo a sua rotina e modificando os seus dias como um meteorito emocional, a presença da moça fez com que, indiretamente, toda a família Perdrix repensasse suas vidas.
Acompanhamos a pacata e disciplinada rotina do policial Pierre na cidadezinha na belíssima região montanhosa dos Vosges, ele mora com sua mãe (Fanny Ardant), que possui um programa de rádio que fala sobre amor, seu irmão (Nicolas Maury), que ensina a importância das minhocas a um grupo de crianças, e sua sobrinha (Patience Munchenbach), isolada e sempre desejando ir embora do local, essa família um tanto estranha é repleta de coisas não resolvidas e preferem não expô-las e continuar vivendo sob um véu de ilusão confortável, Pierre literalmente cuida de todos e segue a risca sua rotina, até que Juliette aparece quando seu carro é roubado por nudistas anarquistas que vivem em meio a floresta, impaciente com os protocolos decide agir e gruda em Pierre desnorteando toda a sua maneira de pensar. Essa mulher peculiar não pensa para falar e ao se inserir na vida da família de Pierre balança a frágil estrutura, mas ela também tem seus medos e vemos isso através da angústia em perder suas lembranças, que estão todas anotadas em cadernos, dos quais se encontram no carro roubado, são dois opostos, enquanto um não quer experimentar e viver, como diz: "O cotidiano é a única coisa que não decepciona", já ela por sua vez, prova a si mesma que viveu anotando tudo como se assim tivesse a certeza de que não perderia nada da vida. O relacionamento cresce de uma forma orgânica e muito poética, lentamente os dois terminam se complementando. 
"Perdrix" é um longa aconchegante e interessante, além de seus cenários naturais serem um encanto, e também os atores que elevam o nível de peculiaridade, Swann Arlaud e Maud Wyler garantem momentos curiosos e bonitos. 

"Aurora" (2019) dirigido por Miia Tervo é um drama finlandês sensível, bonito e que possui passagens memoráveis e uma protagonista que brilha aos nossos olhos, nos encantamos por Aurora e torcemos para que ela supere os problemas, a empatia e identificação é inevitável. 
Sempre com medo de se comprometer seriamente a qualquer pessoa, Aurora (Mimosa Willamo) é fanática por festas, mas percebe que essa prática está desgastando-a com o tempo. Depois de esbarrar com um rapaz que tem fobia da morte, ela percebe que eles dois podem aprender a superar seus traumas juntos de maneiras diferentes.
Aurora segue sua vida de maneira incerta, trabalha como manicure e vive em festas, tem sérios problemas com álcool e tudo se agrava quando é despejada e seu pai alcoólatra é internado, ela sonha em se mudar da Finlândia, mas a falta de dinheiro e oportunidade a afasta desse sonho, tentando se virar arranja um emprego cuidando de uma senhora bem engraçada e de mente aberta, desse modo vamos juntos de Aurora que se afunda cada vez mais e não enxergando de fato seu problema com a bebida, seu escape é um grande monstro a engoli-la. Nesse entremeio há o personagem Darian (Amir Escandari) e sua filha de nove anos que sonham em poder morar legalmente no país, eles moram numa casa que acolhe temporariamente imigrantes, numa noite Darian conhece Aurora numa lanchonete, ela lhe paga o restante que faltava para o lanche e numa conversa aleatória a pede em casamento para obter o visto, mas obviamente recusa, só que mais tarde ela oferece uma outra ideia, que por três mil euros arranjaria uma esposa finlandesa. A vemos muito perambular pelas ruas, no frio congelante, bebendo e cambaleando de salto alto na neve, dando festa na casa da senhora que cuida, se expondo a situações perigosas e travando meios que talvez a tirem desse buraco, Darian surge como um alívio em sua vida, mas é lentamente que essa relação toma forma e Aurora se dá conta da paixão, é realmente muito orgânico e sensível. O filme mesmo carregando momentos pesados tem uma leveza especial, terna e empática, não é difícil se identificar em muitas partes e torcer pela personagem, aliás uma composição linda e potente de Mimosa Willamo, uma tour de force que destrói o psicológico, mas também possui tons de humor que são um tanto curiosos, talvez pela expressão cultural do país.
"Aurora" é um filme apaixonante, carregado de questões interessantes, como os estereótipos que se cria em cima de imigrantes, o alcoolismo e o processo do entendimento desse problema, a sensação de inquietação pela falta de oportunidades, perdas e a solidão.

"Microhabitat" (2017) dirigido por Jeon Go-Woon é um filme sul-coreano simples, mas imenso, retrata pequenas grandes paixões que nos movem, no cotidiano chato e cada vez mais competitivo encontrar alívio nessas coisas que amamos, sem dúvidas, é o que dá sentido à vida. São coisas particulares a cada um e que podem parecer errado e desprezível a muitos. A protagonista é gigante em cena, aliás o filme propõe o exercício da quebra de julgamentos, até porque todos temos nossos pequenos vícios, esses que somente a nós cabe decidir se nos faz bem. Mais uma vez uma personagem de fácil identificação e que amplia nossos horizontes de pensamentos. Melancólico e extremamente sensível acompanhamos a rotina de Mi-So (Esom), que trabalhou como doméstica nos últimos 3 anos e ganhou 45 mil won (US$ 40) por dia. Mi-So adora beber Whisky e fumar cigarros. Seu namorado é Han-Sol (Ahn Jae-Hong) e ele quer se tornar um escritor de webtoons. Mesmo que Mi-So seja pobre, ela está feliz enquanto tem Whisky, cigarros e seu namorado. Infelizmente, os preços dos cigarros aumentam no primeiro dia do novo ano. Mi-So tem que dar algo e ela decide desistir de seu apartamento. Então, inicia-se uma peregrinação, ela contata antigos amigos, dos quais formavam uma banda, ela dorme um tempo na casa de cada um, mas aos poucos percebe que é um incômodo e que todos mudaram sua personalidade, aderiram ao sistema e estão infelizes, a cada porta que bate tem uma surpresa e é tratada de variadas formas, desde desprezo, julgamentos e falsa simpatia. Mi-So dispõe ainda de uns trocados e tenta arranjar uma casa bem longe da cidade, mas o preço exorbitante a desanima e mesmo os piores lugares, como cubículos sujos são caros, desse modo decide gastar com o que faz sentido para si, mas com o aumento do cigarro e Whisky e a partida do seu namorado em busca de uma melhoria financeira se entristece e se torna ainda mais marginalizada, vemos que ela seguiu pelo caminho que lhe falava o coração e foi fiel a sua personalidade, não se vendeu e modificou para agradar e se inserir num processo que capitaliza absolutamente tudo. É muito fácil julgar o caminho dos outros, especialmente àquele que se torna à margem de tudo, mas se faz sentido para si é o que importa, afinal o que resta a cada um é esses pequenos prazeres, como no caso de Mi-So, cigarro e Whisky.
"Microhabitat" é uma obra singela que mostra uma personagem que não tem vergonha de seus vícios e de suas escolhas, que segue ignorando o julgamento alheio até porque entende que a pessoa que julga decepou inúmeras particularidades para se tornar algo que quase sempre não escolheu. É o retrato da desigualdade e o impacto da cultura do consumo, da naturalização do ter e não do ser. Filme simples, mas que carrega em si um gigantesco significado. Lindo!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la Jeune Fille en Feu)

"Retrato de uma Jovem em Chamas" (2019) dirigido por Céline Sciamma (Tomboy - 2011) é um filme extremamente belo e sedutor visualmente e narrativamente arrebatador. Uma obra-prima delicada repleta de sutilezas.
Na França do século XVIII, Marianne (Noémie Merlant) é uma jovem pintora que recebe a tarefa de pintar um retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para seu casamento sem que ela saiba. Passando seus dias observando Héloïse e as noites pintando, Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo conforme os últimos dias de liberdade dela antes do iminente casamento se veem prestes a acabar.
Ambientado na França do século XVIII acompanhamos a história da pintora Marienne que é contratada para realizar o retrato da jovem Héloïse, prometida em casamento a um italiano, contrariada se recusa a posar a qualquer pintor que se aproxime, o fato é que a obrigação do casamento a perturba demasiadamente, pois a noiva seria sua irmã, mas devido um "acidente" ela precisou ocupar este lugar. A condessa, mãe de Héloïse diz a Marianne para se aproximar de forma cautelosa e a princípio como uma dama de companhia para assim conseguir captar os traços e conseguir pintá-la. É montado um improvisado estúdio num salão que disfarçou como um quarto e entre os lençóis pendurados coloca seus materiais. Nesses passeios a observação e os olhares ganham uma força primorosa, o filme nos arrebata pelas sensações dos pequenos gestos, pelos detalhes de cada cena, tudo quer dizer algo e faz diferença para o desenrolar. Marianne se esforça para capturar e imaginá-la posando em sua frente, mas após o quadro finalizado ela decide dizer o real motivo de sua estadia ali, a condessa concorda e Héloïse ao ver seu retrato não gosta por não ter verdade. Decidida a posar para Marianne, a relação vai ganhando camadas e mais íntimas se tornam quando se veem sozinhas nesse local tão remoto, também nesse tempo estreitam o laço com a empregada Sophie (Luàna Bajrami), que se vê precisando de ajuda num determinado ponto.
Um filme marcante, silencioso e muito imersivo, seja pelos olhares sutis, o desejo aflorando, as pinceladas e a arte nascendo, assim como a  intensidade da intimidade, as conversas que iluminam, a cumplicidade entre elas, sequências que enchem os olhos tamanha a beleza, como os poderosos cenários naturais destacando a melancolia. O romance foge completamente das fórmulas e entrega com verdade a situação, pois o amor entre duas mulheres nesta época é algo que jamais seria aceito. 

Apesar de ser um filme quieto, seus símbolos no decorrer acendem nossa atenção e nos faz entrar na história, as camadas de sentimentos, o desenvolvimento e o seu poético fim tão cheio de significados e intensamente apaixonado. As protagonistas são mulheres corajosas e resistentes mesmo tendo a consciência de seus destinos, não só Marianne e Héloïse, mas Sophie também, há importantes momentos em que a irmandade entre elas são evidenciadas e mostram o quão fortes são.

"Retrato de uma Jovem em Chamas" se inspirou no mito de Orfeu, possui a aura dos clássicos da literatura e a trama é pontuada por um concerto de Vivaldi, "Verão" de "As Quatro Estações", fascinante como deu completude à essa obra tão intensa e apaixonada.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

303

"303" (2018) dirigido por Hans Weingartner (A Cabana - 2011, Edukators - 2004) é um road movie fascinante que nos leva junto de seus dois protagonistas a cantos da Europa a bordo do trailer que dá título ao filme, acompanhamos o nascer de um romance com naturalidade e sensibilidade, além de boas doses de conversas filosóficas. O filme tem um clima adorável, pois capta toda a beleza dos lugares por quais passam e o modo como os personagens se encontram e se descobrem é muito bonito, não é um típico romance, ele se constrói lentamente à medida que vão se revelando, existem barreiras e cada um está a caminho do seu destino. 
A caminho de Portugal para ter uma importante conversa com o namorado, Jule (Mala Emde) aceita dar carona para Jan (Anton Spieker), que vai visitar na Espanha o pai que jamais conheceu. O começo é difícil, mas quando finalmente se entendem eles engatam uma série de debates intensos sobre os mais diversos assuntos ao longo da estrada, adiando a despedida e se conhecendo cada vez melhor.
Jule e Jan estão perdidos em suas vidas, ela grávida e sem cabeça para os estudos decide ir para Portugal conversar com o namorado, ele perde a bolsa de estudos e descobre que o seu pai biológico que nunca conheceu mora na Espanha, num posto de gasolina Jan pede carona a Jule e assim iniciam o trajeto, esse começo é bastante tenso, a conversa não flui e após vários desentendimentos se unem novamente. A cada parada passeiam e dialogam sobre variados assuntos e mostram suas visões diferentes sobre capitalismo versus socialismo, relacionamentos, sexo, sociedade, entre tantos outros, e nisso acabam não só conhecendo um ao outro, mas como também a si mesmos. A história se torna adorável pela fluidez de suas discussões e suas diferentes formas de pensar se complementam inteligentemente, não há espaço para melodramas, a realidade se sobressai e as dificuldades que cada um enfrenta são de fato complexas. O filme fica ainda mais charmoso por causa dos lugares que percorrem, o longo e lento trajeto traz uma porção de paisagens belíssimas, seja em seus cantinhos ou em lugares mais turísticos. 

A melancolia está presente e até um tanto de niilismo, as discussões intermináveis carregam esse ar, os gestos e olhares no desenrolar também são marcantes e desenvolvem bem o sentimento que aflora em cada um, as diferenças se complementam e certamente para quem curte uma boa e inteligente conversa vai adorar, já para alguns pode soar prolixo e que a história se alonga demais. Os dois saem da vida acadêmica para vivenciar experiências que só podem ser adquiridas saindo da zona de conforto, discutindo suas ideias em movimento faz com que o aprendizado seja mais orgânico e importante, as coisas simples revelam o seu valor. A companhia, a amizade e o carinho se moldam tão lindamente que chega a emocionar. 

"303" carrega uma leveza maravilhosa, mas sem nunca deixar de nos fazer questionar e refletir, os assuntos são dos mais variados e jamais se perde em obviedades, os atores elevam essa sensação, perfeitos em cena e criam uma forte química, realmente um romance fora do comum aliado a um filme de estrada encantador. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Rei (The King)

"O Rei" (2019) dirigido por David Michôd (Reino Animal - 2010, Flesh and Bone - 2015) é um drama épico livremente baseado em eventos históricos e adaptado da peça Henrique V, de Shakespeare. Uma produção poderosa que passa por intrigas de poder políticas e familiares com violência, beleza e questionamentos. 
Após a morte de seu pai, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, obrigado a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França.
Uma ótima surpresa, tanto em seu visual como na condução, é um filme que enche os olhos, mas que também promove reflexões acerca de todo o emaranhado provocado pela ânsia de poder. Acompanhamos a decadência do rei (Ben Mendelsohn), uma figura cruel e do qual o filho que o sucederá rejeita, então o rei deixa claro que a coroa será do outro filho que possui o desejo de ascender de maneiras não tão inteligentes, mas acaba que depois da morte do rei e do filho mais novo Henry é coroado, este que antes vivia uma vida simples de boêmio junto de seu fiel amigo e antigo cavaleiro Falstaff (Joel Edgerton). Todos os personagens possuem características marcantes e se entrelaçam numa trama permeada de intrigas, negociações e artimanhas, Henry é completamente avesso aos planos de guerra e se distancia do pai justamente por isso, mas quando se torna rei se depara e é obrigado a pensar nessas questões e fica de frente a difíceis decisões e cujas pessoas que o rodeiam não são confiáveis, o jogo de poder vai acontecendo e seu processo de amadurecimento é confuso e solitário, sua posição não lhe permite amizades sinceras, em meio a tantas desconfianças ele nomeia Falstaff como seu marechal e na decorrência dos fatos vai se tornando numa pessoa dura e amarga, tão próximo da figura do pai que tanto detestava. O magnetismo de Chalamet impressiona e a ótima interação entre os personagens o torna um épico diferente em que o peso das escolhas tem muito mais ênfase do que qualquer ação e violência, apesar de que as sequências de embates são incríveis e denotam também grande carga dramática, não só a estética prevalece, há uma gama de questões envoltas.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.

O roteiro escrito pelo próprio diretor David Michôd em parceria com Joel Edgerton é bem estruturado e se revela como um poderoso thriller político juntamente com o amadurecimento de um jovem de ideais pacifistas que se vê obrigado a assumir a coroa e aconselhado a não se mostrar fraco inicia uma guerra desnecessária.

"O Rei" é um filme solene, retrata os bastidores do reino, as tramas, estratégias e negociações, a solidão e o tédio; a transformação. Todos os sentimentos são transmitidos pelo olhar de Henry, sempre pensativo e angustiado, as poucas cenas de embate são impecáveis e dolorosas, é rico na ambientação e inteligente no desenrolar. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Verão (Leto)

"Verão" (2018) dirigido por Kirill Serebrennikov (O Estudante - 2016) é um filme interessante e original sobre o cenário efervescente do Rock and Roll nos anos 80 em plena União Soviética, os artistas celebravam a cultura considerada inimiga e adaptavam canções clássicas para um formato aceito pela censura, assim acontecia também com as originais que precisavam passar por um crivo rígido, a juventude apesar de rebelde possuía cautela na hora de compor e com inteligência inseriam metáforas para dizer o que queriam, o tom se encaixava na comédia e dessa maneira se livravam da terrível censura que julgava tudo ofensivo ou até traição à pátria.
No verão de 1981, o rock underground chegava na Rússia Soviética, mais precisamente em Leningrado, onde hoje localiza-se a cidade de St. Petersburg. Sob a influência de artistas internacionais, como Led Zeppelin e David Bowie, o rock vibrava na cidade, marcando o nascimento de uma nova geração de artistas independentes. O jovem Viktor Tsoi (Teo Yoo) ganhou fama internacional e tornou-se o primeiro grande representante russo do gênero, foi o fundador e líder da banda Kino. Além da música, ele também ficou conhecido pelas polêmicas relacionadas a sua vida pessoal, como o triângulo amoroso que viveu junto com o seu mentor musical, Mike (Roman Bilyk), vocalista da banda Zoopark e a esposa dele, Natasha (Irina Starshenbaum).  
Somos absorvidos por uma realidade contagiante e por vezes fantasiosa, a imersão nesse passado não muito distante é repleto de estilo e captura com excelência toda a aura opressiva e ao mesmo tempo borbulhante dessa época, certamente o que mais chama a atenção são as inserções musicais que possuem humor e excentricidade, nesses momentos surge uma espécie de narrador que com placas indica: "isto não aconteceu", são devaneios que contrastam com o quanto os artistas eram podados e que para criar era necessário moldar ou esconder muitas coisas, os ídolos do ocidente, David Bowie, Iggy Pop, Talking Heads, Lou Reed faziam a cabeça da juventude, mas as versões das músicas famosas e as composições não pareciam rock e a necessidade de mudar era cada vez mais intensa, porém a realidade não permitia e tudo o que tinham era a amizade e o mesmo sonho que os unia, assim foi com Viktor e Mike, personagens centrais da trama, e tantos outros que  se destacaram na cena do rock soviético. Em meio a isso ainda acontece um triângulo amoroso vivido por Natasha, Mike e Viktor, uma intensa e complexa relação, eram unidos pela admiração e os desejos em comum.

É um filme cheio de ironias e provocações, um ótimo exemplar para conhecer artistas que driblaram o regime autoritário e conseguiram se inspirar em grandes músicos, como Lou Reed, e mesmo com tantas restrições compunham e se apresentavam, a busca pela liberdade nesse ambiente tão castrador só acontecia por conta da união deles e na maioria das cenas é destacado essa integração e o desejo de fazer acontecer, era a necessidade de dar voz mesmo que em formas adaptadas.

"Verão" é surpreendente, belo visualmente e imersivo em sua ambientação, traz com humor e acidez perspectivas interessantes da realidade musical na Rússia do período do regime comunista, por exemplo, ao retratar o como a plateia deveria se comportar durante um show ou as inúmeras restrições que os músicos deveriam seguir para subir ao palco, e certamente o ponto de mais destaque são as intervenções musicais que têm o propósito de quebrar a rigidez e lançar um pouco de cor à história. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Lámen Shop (Ramen Teh)

"Lámen Shop" (2018) dirigido por Eric Khoo (Be With Me -2005) é um filme delicioso e emocionante que retrata através de receitas culinárias laços e traumas familiares juntamente com suas tradições, é uma jornada gastronômica rica em sabores, sentimentos e aprendizados.
Masato (Takumi Saitoh) trabalha no restaurante da família, um dos estabelecimentos de lámen mais reputados em todo o Japão. Quando ele perde o pai, o jovem chef decide buscar as raízes culinárias e históricas do pai e da mãe, também falecida. Através de um diário e de cartas, Masato faz um caminho através de China, Japão e Singapura, confrontando-se com seus próprios traumas e os caminhos pelos quais seus pais passaram. Ele decide então acertar as contas com o passado.
Masato tem uma relação distante com o pai e seu único elo afetivo é o tio que também ajuda no restaurante de lámen, o motivo de seu pai estar afogado na bebida e ser tão fechado é por conta da morte de sua esposa e tantas coisas do passado, o filho não consegue compreender exatamente o comportamento do pai e somente quando este falece que Masato decide se enveredar pela história dos pais e a sua própria já que ele não se lembra de muita coisa, Masato então parte para Singapura, local onde tudo aconteceu. Somos contemplados por alguns flashes do passado em que seu pai vai para Singapura se especializar em culinária Kaiseki, tida como uma filosofia, apaixonado pelo tradicional prato Bak Kut Teh conhece num restaurante o amor da sua vida, mas esse relacionamento vai ser marcado por inúmeros contratempos e decisões importantes e derradeiras. Diante de todos os lugares por quais seus pais passaram Masato vai resgatando memórias e com a ajuda de uma amiga descobrindo através do diário de sua mãe pontos de vista diferentes sobre sua família, enquanto isso comidas tradicionais apetitosas fazem um elo sensível com valores familiares.
A relação com a comida é bela e encanta, desde a escolha dos ingredientes e o cuidado com o preparo até o momento de servir e comer, tudo é retratado com delicadeza para que nunca se rompa as camadas de afeto que unem esses pratos com a história de Masato e sua família, a união da cultura e o entrelaçamento das tradições culinárias, como o surgimento do lámen e sua difusão no Japão, o pai de Masato se dedicava de alma no preparo, uma forma de reavivar a memória da esposa, e quando ele morre Masato sente que necessita aprender o Bak Kut Teh para assim também reavivá-lo toda vez que preparar o prato. A receita, uma espécie de sopa de costela de porco era a especialidade do restaurante da mãe de Masato, e seu desejo na verdade é unir a tradicional sopa de lámen com o Bak Kut Teh, são diversas as tentativas, na sua caminhada encontra o tio que o ensina a se aprofundar na receita e a avó que o rejeita, ela nunca aceitou o casamento devido as mágoas antepassadas por conta da guerra, o maldito japonês, assim como dizia, fez a sua filha viver em profunda tristeza, principalmente quando teve que escolher ir para o Japão. Tempos depois ela adoeceu e faleceu transformando o pai de Masato em um alguém completamente diferente.

O filme é uma experiência fascinante, a culinária é a principal protagonista, a relação com os pratos apresentados são sempre relacionados com as emoções dos personagens, inevitável não dar água na boca e querer experimentá-los, também nos traz perspectivas sobre o amor, traumas e mágoas familiares, acompanhamos Masato em sua jornada e nos deslumbramos a cada nova descoberta, seja nas raízes de seu passado ou com os seus desejos de unir as culturas através da comida e dessa forma reavivar a memória dos pais.

"Lamen Shop" é leve, calmo e contemplativo, a comida é algo que dá o poder de aconchego passando até pelo processo de perdão, a cena final em que a avó sorri ao comer o que o neto preparou diz muito sobre essa reflexão, toda a gama de emoções que um prato pode evocar é simplesmente incrível, e a viagem proporcionada para conhecer o como as culturas se entrelaçam através desses pratos é outro ponto realmente bonito do longa, sem dúvidas, um filme para não se assistir de barriga vazia. 

"Aprendi que quando a vida se torna difícil, a beleza da natureza é o melhor dos remédios. Ela nos alivia e nos protege da dura realidade, porque nada dura para sempre. A fragilidade da natureza demonstra que a vida é delicada. A vida é efêmera."

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Khadak

"Khadak" (2006) dirigido por Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens (A Quinta Estação - 2012, O Rei dos Belgas - 2016) é um filme singular, um drama místico hipnotizante e que possui uma boa dose de crítica, esplêndido em suas imagens, magnânimo em sua estrutura, ambientado nas estepes da Mongólia a história gira em torno do conflito do mundo globalizado versus a cultura ancestral, a beleza de repente dá lugar a um cenário devastador e observamos a paisagem sendo agredida e os nômades sendo iludidos e engolidos pelo sistema. Em meio a isso ainda há espaço para tomadas de sonhos e delírios que se misturam a uma revolução juvenil.
Esta é a mística história de Bagi(Batzul Khayankhyarvaa), um jovem de 17 anos que cuida de um rebanho na Mongólia. Ele possui um dom, e seu destino é ser um sacerdote. Quando uma praga ataca sua região, todos os animais são mortos, e os nômades são obrigados a viver em pequenas escavações. Mas Bagi descobre que a praga é uma mentira para erradicar os nômades. Com a ajuda de Zotzaya (Tsetsegee Byamba), uma bonita ladra de carvão, ele provoca uma revolução. 
O filme é poético e detalhista em suas imagens, deslumbrante o cenário desértico e o mistério que carrega, acompanhamos Bagi, um jovem que possui seu destino traçado, um dia será um xamã, ele tem ataques que o deixam desacordado e por isso acreditam que tem um dom, num dia chegam dizendo que existe uma praga que está matando as ovelhas e por isso precisam deixar o local, os animais são confiscados e eles levados para uma vila operária, onde funciona uma terrível mina de carvão. Todos são usados como peões e quem se mete a roubar é castigado, entre visões que dão lucidez ao garoto ele conhece Zotzaya, uma ladra que sabe que a história da praga é mentira e que planejam exterminar os nômades, junto dela Bagi tenta alertar as pessoas, mas ninguém lhe dá ouvidos e é internado em um espaço para loucos, lá a médica diz que tem epilepsia.
Com uma aura enigmática e fascinante vemos tanto a beleza do vasto cenário das estepes com um ou outro objeto solto, como o lenço azul, e por outro lado a destruidora mina de carvão agredindo a paisagem e escravizando os nômades que acreditaram na história da praga e um possível apocalipse, há diálogos que refletem o passado e que premeditam um futuro, reflexões interessantes que acontecem em sonhos e que se misturam à realidade. 

"Houve uma época, quando o homem queria demais, o deserto se moveu e extinguiu a vida. O deserto sempre irá vencer."

A peculiaridade do longa é chamativa e em nenhum momento perde-se o interesse, o mistério envolto e sua narrativa instiga, nos leva para um universo diferente. Impressiona pela poesia das cenas e destaque também para a trilha sonora que denota a cultura, há uma lindíssima cena lá pelo final onde acontece um número musical, uma espécie de manifestação poderosa que antecede a revolução.

"Khadak" é um drama étnico, retrata os nômades da Mongólia e os conflitos entre mundo moderno e cultura ancestral, o despojamento de suas raízes e então o retorno ao espírito impetuoso, a conexão com a terra é realmente algo intenso. O filme abraça questões socioambientais importantes em uma trama carregada de espiritualidade.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Por Trás das Nuvens (Achter de Wolken)

"Por Trás das Nuvens" (2016) dirigido por Cecilia Verheyden é um filme apaixonante que retrata o amor na maturidade, as descobertas, as indecisões, os tabus e as delícias, o romance na velhice é um assunto pouco explorado no cinema e este ganha força pela abordagem aberta e sincera.
Emma (Chris Lomme), após a morte do marido, continua sua vida com a filha e a neta. Logo reencontra um amor antigo, o escritor Gerard (Jo De Meyere), de quem não tinha notícias há 50 anos e volta a se apaixonar. Ela tem que enfrentar a aceitação da filha e da neta, e até dela mesma, se deve ou não, amar novamente.
Acompanhamos Emma, uma senhora que acabara de perder o marido, ela tem a companhia da filha e da neta adolescente, já no velório se depara com um antigo conhecido, o escritor Gerard, passa-se os dias e recebe uma mensagem via Facebook, ele a quer ver, Emma fica um pouco ansiosa, mas termina aceitando. O reencontro não é fácil, eles não se veem há pelo menos 50 anos, porém a chama da paixão continua acesa e agora libertos podem usufruir desse desejo. Surge uma gama confusa de sentimentos em Emma, as incertezas por conta da idade e de se deixar levar pelo amor a essa altura da vida, o que para sua filha seria um absurdo por causa de ter sido recente a morte do pai e por não ver a mãe como uma mulher que tem desejos e que merece ser feliz, mas ela não tem moral para ditar qualquer regra, já que sua vida amorosa segue por um caminho triste e incerto, já a neta se assusta no início, porém segue sendo carinhosa ajudando e trocando ideias maravilhosas com Emma.
O filme toca em assuntos interessantes e aborda pontos de vista abertos, mostra os julgamentos, seja os próprios ou dos outros, ao longo viajamos pela história de Emma, o que Gerard significou e significa para ela, a amizade deles na juventude e sua escolha pelo casamento com outro na época. São camadas fluidas e sinceras de se acompanhar, toda a trajetória da aceitação de seu sentimento por Gerard e de encarar a filha e dizer que tem a chance de amar e ser amada.

Chris Lomme como Emma é esplêndida, tem uma presença fascinante e dá credibilidade, quando começa a se encontrar com Gerard, interpretado por Jo De Meyere, também ótimo em cena, garante sensibilidade e bom humor em suas descobertas como casal. É uma história simples, um romance repleto de problemas e incertezas, e assim o amor é em qualquer fase, o interessante é poder compreender que sempre há tempo para o desejo e não importa a idade, pode ser um pouco mais confuso e desconfortável, mas isso não quer dizer que seja tão diferente de quando se é jovem.

"Por Trás das Nuvens" é um ótimo romance para quem quer sair da zona de clichês e histórias juvenis, todo o processo que Emma passa para entender o que sente e resolver deixar-se levar é bonito e encorajador, além que o filme possui cenas que quebram tabus.

terça-feira, 19 de março de 2019

Fronteira/Border (Gräns)

"Border" (2018) dirigido por Ali Abbasi (Shelley - 2016) é um filme bizarro e surpreendente adaptado de um conto homônimo do autor sueco John Ajvide Lindqvist (Deixe Ela Entrar), na trama há uma fusão de gêneros interessantes, como romance, fantasia, suspense investigativo e toques de humor, também envolve temas polêmicos e autodescoberta, o estranhamento é algo contínuo e desabrocha para uma certa fascinação em torno da personagem e suas experiências. Um exemplar único que garante sensações e reflexões diversas. 
Tina (Eva Melander) é uma policial que trabalha na alfândega de um porto fiscalizando bagagens e passageiros. Depois de ser atingida por um raio na infância, ela desenvolveu uma espécie de sexto sentido, fazendo com que seja capaz de "ler as pessoas". Isso sempre representou uma vantagem na sua profissão, mas tudo muda quando ela identifica um criminoso em potencial e não consegue achar provas para justificar sua intuição. Após o episódio, ela passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada em descobrir qual o verdadeiro segredo de Vore (Eero Milonoff), seu único suspeito não legitimado, essa relação a força a confrontar revelações terríveis sobre si mesma e sobre a humanidade.
A trama começa tranquila e acompanhamos a rotina de Tina, em seu trabalho dispensa o uso de detectores de metal e confia plenamente em seu faro, ela sente o cheiro da raiva, da culpa e do medo nas pessoas e assim executa seu trabalho com todo o rigor, fora do expediente gosta de andar descalça pela floresta, ela mora distante e mantém proximidade com raposas e alces, diferentemente dos cães de seu companheiro que latem incessantemente toda vez que chega, seu aspecto gera curiosidade e por conta de ser diferente acaba se fechando, seu único parente é o pai que está internado numa clínica por estar perdendo a memória. Tina segue seus dias normalmente até que ao parar um homem na alfândega encontra com ele arquivos contendo pornografia infantil, logo por conta de seu dom é convidada a auxiliar na investigação de uma possível rede de pedofilia, a partir daí algo muda nela e se sente útil, mas o ponto que dará a virada em sua vida é quando para o estranho Vore e não consegue identificar exatamente o quê procura, sua aparência semelhante a dela chama a atenção e quando voltam a se encontrar inicia-se uma aproximação que fará Tina se descobrir e experimentar o mundo de outra forma, além de decidir aonde se encaixa nisto tudo. 

Tina e Vore acabam criando um vínculo curioso, pela primeira vez ela se sente bem com alguém e escuta com afinco tudo que seu misterioso amigo lhe conta sobre a natureza deles, a aceitação de si mesma e o enlace com sua essência vai acontecendo sob formas bizarras e sensíveis, Vore a ajuda nesse quesito, lhe dá a direção e a faz acreditar em sua força, só que aos poucos seu personagem vai se revelando e o que não tinha identificado no começo enfim se mostra, ela percebe que o mundo que quer viver não é o mesmo de Vore, ainda que sejam parecidos seus princípios são outros, daí surgem reflexões agudas sobre o que significa ser ou não ser humano e nossa tendência para a destruição, a fantasia se mescla com a realidade e exibe com dor e esperança a dificuldade em se autoaceitar diante um mundo repleto de expectativas sociais, se achar dentro desse contexto é difícil e o filme o faz de maneira bonita, porém estranha, em vários momentos causa repulsa, toda a caracterização dos atores e o trabalho primoroso de maquiagem ajuda a conferir esse enjeitamento e mostra o como nosso olhar é programado para ver beleza somente em padrões preestabelecidos. 

"Humanos são parasitas que usam tudo na Terra para sua própria diversão. Mesmo as próprias crias. Estou dizendo, a raça humana é uma doença."

"Border" é uma obra original e abrange assuntos diversos que eclodem em camadas e mais camadas, reflete sobre a monstruosidade que habita nos seres humanos, mas sem perder a esperança; o medo do diferente, a solidão em estar à margem, a dificuldade da autoaceitação numa sociedade que seleciona, e, principalmente, sobre empatia, de desprender-se do olhar comum e destruir as fronteiras que nos separam, o diretor soube com maestria mesclar os gêneros e instigar o espectador, além de incluir pitadas da cultura nórdica. Um exemplar rico em todos os sentidos. Filmaço!