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terça-feira, 23 de julho de 2019
Borgman
"Borgman" (2013) dirigido por Alex van Warmerdam (Schneider vs. Bax - 2015) é um filme que passeia pela surrealidade, pelo sobrenatural, pelo humor negro e pelo mistério, a abordagem dá abertura para várias leituras e a experiência é única a cada um. É um filme que incomoda e que gera agonia, pois disserta sobre o mal, sobre o decair do ser humano.
Certo dia, Camiel Borgman (Jan Bijvoet) anda pelas ruas de um tranquilo bairro burguês, e toca a campainha de uma das casas. Quem é este homem? O que ele quer? Aos poucos, Borgman consegue se introduzir nesta família, transformando para sempre a vida de todos.
No início acompanhamos um padre e mais alguns caçadores indo atrás de algo tido por eles como o mal, então vemos Borgman saindo de um esconderijo debaixo da terra da floresta, também mais outros dois são alertados e fogem, há uma frase bíblica mostrada anteriormente que é importante para entendermos um pouco o contexto: "E eles desceram sobre a terra para fortalecer suas fileiras". As perguntas sobre quem é esse homem martelam o tempo todo, dá a entender que ele é um sem-teto que vaga e de tempos em tempos para em algum local, mas então porquê estão caçando-o? Borgman bate numa porta e pede para que possa tomar um banho, mas é negado, ele vai seguindo observando as grandes mansões e escolhe uma toda branca e enorme, bate e faz o mesmo, também é negado, mas novamente tenta e Richard (Jeroen Perceval), o dono da casa, fica nervoso pela história que Borgman conta sobre sua mulher ter sido sua enfermeira, e pronto, a semente do mal foi plantada, Borgman é agredido e fica desacordado no quintal, Marina (Hadewych Minis) vai socorrê-lo e deixa-o ficar numa casinha aos fundos escondido do marido. Borgman é tratado como um rei, banho, roupão, comida e vinho da melhor qualidade, passa uma noite e ele diz que quer ficar mais alguns dias, quando Marina nega ele diz que é o mínimo já que foi espancado.
Borgman fica espreitando e passeia pela casa sem ser visto, os três filhos do casal o vê, mas nunca dizem nada, aliás uma parte interessante a se notar, as crianças são apáticas, uma questão que o filme aborda com eficácia é essa relação familiar fria e a ambição desmedida de Richard ao se importar somente com a sua ascensão na empresa. A família aparenta ser perfeita e sem maiores problemas, Marina passa os dias no mais completo tédio e de vez em quando pinta quadros, quem cuida das crianças é a babá, uma moça que acena para tudo que lhe dizem. Borgman entra nessa casa e começa desestruturá-la sem de fato tocar em nada, apenas a presença dele acende o mal que já havia dentro desse casal, mas não é tão simples captar as nuances dessa história, ela diz sobre o mal e sobre a pulsante hipocrisia da burguesia que se sente culpada pelo que possuem, mas também há seu lado sobrenatural, como podemos ver na imagem em que Borgman está sentado nu em cima das pernas de Marina enquanto ela dorme, ele parece vigiar ou influenciar os sonhos dela, uma clara referência ao demônio Íncubo. Borgman em dado momento decide deixar a casa, mas Marina não deixa, só que ele não quer ficar mais escondido e para isso articulam um meio para que entre pela porta da frente, o desenrolar é extremamente sinistro e violento.
Borgman fica espreitando e passeia pela casa sem ser visto, os três filhos do casal o vê, mas nunca dizem nada, aliás uma parte interessante a se notar, as crianças são apáticas, uma questão que o filme aborda com eficácia é essa relação familiar fria e a ambição desmedida de Richard ao se importar somente com a sua ascensão na empresa. A família aparenta ser perfeita e sem maiores problemas, Marina passa os dias no mais completo tédio e de vez em quando pinta quadros, quem cuida das crianças é a babá, uma moça que acena para tudo que lhe dizem. Borgman entra nessa casa e começa desestruturá-la sem de fato tocar em nada, apenas a presença dele acende o mal que já havia dentro desse casal, mas não é tão simples captar as nuances dessa história, ela diz sobre o mal e sobre a pulsante hipocrisia da burguesia que se sente culpada pelo que possuem, mas também há seu lado sobrenatural, como podemos ver na imagem em que Borgman está sentado nu em cima das pernas de Marina enquanto ela dorme, ele parece vigiar ou influenciar os sonhos dela, uma clara referência ao demônio Íncubo. Borgman em dado momento decide deixar a casa, mas Marina não deixa, só que ele não quer ficar mais escondido e para isso articulam um meio para que entre pela porta da frente, o desenrolar é extremamente sinistro e violento.
Borgman é admitido como jardineiro por Richard, que não o reconhece, ele fez a barba e cortou o cabelo, mais adiante chama seus amigos da floresta para ajudá-lo, há um plano macabro sendo colocado em prática, o casal está em extrema crise, as crianças relegadas aos cuidados da babá, tudo está desmoronando e Borgman aproveita para se infiltrar de um jeito sorrateiro com seus colegas e tanto as crianças como a babá são de certo modo protegidas desse meio, fazem um tipo de incisão cirúrgica em suas costas e bebem um liquido estranho, o jardim está um caos e as ações já não são controladas. Vale ressaltar que nenhum deles vibra ou se delicia com as atrocidades, há um ar melancólico e monótono, mas incrivelmente hipnotizante. Marina se apaixona por Borgman, ela não suporta mais o marido e então decide acabar com tudo. A entrada de Borgman alterou a rotina e deu início a essa onda, todos possuem tanto o bem como o mal dentro de si, dependendo das circunstâncias ora aparece um, ora o outro, em cena não há somente o maligno.
"Borgman" é um conto perturbador, intrigante e permeado por uma atmosfera sombria capaz de produzir reflexões diversas e garantir uma experiência memorável, é daqueles que é necessário revisões, pois certamente a cada assistida agregará mais e mais, a leitura que eu tive o outro pode não ter tido e quanto mais se pensa mais interpretações surgem. Filmaço indigesto que propõe mostrar o mal sem estereótipos e de maneira nada convencional.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
15 Filmes sobre Sonhos (15 Dream Movies)
Segue uma lista que explora o universo dos sonhos, suas camadas, seus mistérios, suas belezas, o onírico se mesclando à realidade, são diversas as obras que passeiam por essas características, portanto, os listados são apenas uma pequena amostra do quão fascinante é quando inconsciente e consciente se unem.
Cesar (Eduardo Noriega) é jovem, rico e bonito. Em torno dele, duas mulheres (Penélope Cruz e Najwa Ninri), mas uma armadilha do destino vai fazer com que ele viva um pesadelo terrível. Tudo começa com um acidente, em que sua namorada morreu e seu rosto foi desfigurado e, para piorar as coisas, ele foi acusado de assassinato e condenado. Ainda na prisão, se submete a várias cirurgias e consegue recuperar seu belo rosto. Mas começa a apresentar um comportamento estranho, que intriga o psiquiatra local.
14- "Sonhando Acordado" (La Science des Rêves - 2006) de Michel Gondry
Stephane Miroux (Gael García Bernal) vê seus sonhos invadirem constantemente a vida real. Quando dorme, se transforma no carismático apresentador do programa "Stephane TV", explicando sua "ciência dos sonhos" na frente das câmeras de papelão. Na vida real, tem um trabalho chato numa editora de calendários em Paris. Ele flerta com a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas a moça não está disposta a encarar alguém como ele. Guy (Alain Chabat), colega de trabalho de Stephane, até tenta ajudá-lo na conquista, mas nada funciona. Incapaz de chegar ao coração de Stephanie na vida real, Stephane procurará as respostas em seus sonhos.
13- "Ladrão de Sonhos" (La Cité des Enfants Perdus - 1995) de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Krank (Daniel Emilfork) envelhece numa nebulosa torre aquática por não poder sonhar e tenta resolver a sua limitação sequestrando as crianças das cidades vizinhas para lhes roubar os sonhos. One (Ron Perlman), um caçador de baleias, forte como um cavalo, sai em busca de Denree, seu irmão mais novo que fora sequestrado pelos homens de Krank. Com a ajuda da menina Miette (Judith Vittet), logo eles chegam na cidade das crianças perdidas.
12- "Rabbits" (2002) de David Lynch
É assustador, estranho e até mesmo engraçado. Rabbits é a mãe e o pai de todos os pesadelos. A atuação, os movimentos, as luzes e as câmeras nos levam ao pavoroso e indecifrável mundo do subconsciente, do qual nunca mais iremos querer acordar.
11- "Alice" (Neco z Alenky - 1988) de Jan Svankmajer
Quando Alice seguiu o Coelho Branco no País das Maravilhas, iniciou-se assim uma surpreendente e perigosa aventura onírica pelo mundo infanto-juvenil. O animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.
10- "Dream" (Bi-Mong - 2008) de Ki-duk Kim
Jin acorda depois de ter sonhado com um acidente de trânsito ao estar seguindo sua ex-namorada. Guiado pelo sonho, chega até o lugar dos fatos e ali se encontra com o acidente, que realmente aconteceu, e que aconteceu exatamente igual ao seu sonho. Ele segue a polícia até a casa da suspeita, Ran, e alí é testemunha de como ela nega a acusação de atropelamento e fuga, já que declara ter dormindo toda a noite. Jin explica seu sonho aos policiais e pede que acusem ele no lugar dela. A polícia o vê como um louco e prende Ran. Jin logo percebe que, cada vez que ele sonha, Ran, sonâmbula, representa inconscientemente seu sonhos na vida real.
09- "O Congresso Futurista" (The Congress - 2013) de Ari Folman
Uma atriz em fim de carreira (Robin Wright) decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter melhores condições de cuidar de seu filho, portador de deficiência física. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando assim uma atriz virtual idêntica à ela mesma. Enquanto a empresa pode utilizar essa imagem virtual para os fins que desejar, a atriz real será proibida de atuar até o resto de sua vida. Aos poucos, ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.
08- "A História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien - 2003) de Jacques Rivette
Julien (Jerzy Radziwilowicz) é um relojoeiro frustrado de 40 anos, que está chantageando Madame X (Anne Brochet): ele sabe de coisas misteriosas que a envolvem no tráfico de objetos antigos, mas desconhece a ligação entre ela e a sublime Marie (Emmanuelle Béart), por quem Julien havia se apaixonado perdidamente cerca de um ano antes. Tendo reencontrado a amada, ele percebe que algo mudou no seu comportamento: apesar do seu crescente amor por Julien, Marie parece incapaz de encontrar a sensação das coisas. Julien fará o que puder para ajudar Marie a se liberar desse estado.
07- "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Dr. - 2001) de David Lynch
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.
06- "Corpo e Alma" (Testről és Lélekről - 2017) de Ildikó Enyedi
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa. Saiba+
05- "Paprika" (Papurika - 2006) de Satoshi Kon
Num futuro próximo, o Dr. Tokita (Tôru Furuya) inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Sua colega, a Dra. Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), psicoterapeuta e pesquisadora de ponta, desenvolve um tratamento psiquiátrico revolucionário a partir do aparelho. Mas, antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o DC-Mini é roubado. Quando vários dos pesquisadores do laboratório começam a enlouquecer e a sonhar em estado de vigília, Atsuko assume seu alter-ego, Paprika, a bela "detetive de sonhos", para mergulhar no mundo do inconsciente e descobrir quem está por trás da tragédia.
04- "Sereia" (Rusalka - 2007) de Anna Melikyan
Era uma vez, uma garota chamada Alisa, que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre. Saiba+
03- "O Fantasma da Sícilia" (Sicilian Ghost Story - 2017) de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo. Saiba+
02- "Acordar para a Vida" (Waking Life - 2001) de Richard Linklater
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem têm longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.
01- "Sonhos" (Dreams - 1990) de Akira Kurosawa
"Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo. Saiba+
terça-feira, 28 de março de 2017
Us (Vi)
"Us" (2013) é um drama sueco dirigido por Mani Maserrat Agah que retrata com maestria um claro exemplo de relacionamento abusivo, a anulação da mulher diante de um homem passivo-agressivo; expõe o como é tênue a linha que separa o amor da possessividade e todo o estrago psicológico que esse tipo de relação causa.
Ida (Anna Astrom) é a nova professora da escola onde Krister (Gustaf Skarsgård) trabalha, logo que entra na sala de professores ela chama sua atenção, quando Ida tem dificuldade em controlar seus alunos adolescentes Krister entra em cena e coloca ordem, é o início de um tórrido romance. Os dois embriagados de paixão decidem morar juntos mesmo sem se conhecerem muito bem, mas Krister dá segurança e amor para Ida, que aparentemente é mais frágil e insegura. Algumas situações embaraçosas começam a aparecer e depois que Ida sai com Linda (Rebecca Ferguson) e passa a noite bebendo, as coisas começam a desmoronar, porém Krister exibe uma faceta preocupada e diz que Linda não é o tipo de amizade certa para Ida, daí pra frente tudo piora e vira um inferno, ao mesmo tempo que são loucos de amor se sufocam nesta luta de poder um sobre o outro.
Ida (Anna Astrom) é a nova professora da escola onde Krister (Gustaf Skarsgård) trabalha, logo que entra na sala de professores ela chama sua atenção, quando Ida tem dificuldade em controlar seus alunos adolescentes Krister entra em cena e coloca ordem, é o início de um tórrido romance. Os dois embriagados de paixão decidem morar juntos mesmo sem se conhecerem muito bem, mas Krister dá segurança e amor para Ida, que aparentemente é mais frágil e insegura. Algumas situações embaraçosas começam a aparecer e depois que Ida sai com Linda (Rebecca Ferguson) e passa a noite bebendo, as coisas começam a desmoronar, porém Krister exibe uma faceta preocupada e diz que Linda não é o tipo de amizade certa para Ida, daí pra frente tudo piora e vira um inferno, ao mesmo tempo que são loucos de amor se sufocam nesta luta de poder um sobre o outro.
Krister é sério e mantém uma postura de protetor, Ida é linda, jovem e repleta de oportunidades, mas a sua insegurança acaba deixando que a pressão psicológica que ele faz a domine, a moça se torna completamente infantilizada, se torna confusa não sabendo seu lugar na relação. É o tempo todo Krister tendo ataques de ciúmes, dizendo que isso ou aquilo não serve para ela e Ida se deixando consumir pelo fato de amá-lo. É impressionante o tanto que se pede perdão entre eles. Angustiante observar a construção de um relacionamento abusivo, o elogio camuflado, as atitudes "amáveis" que acabam direcionando o outro a fazer escolhas conforme o desejo do parceiro, tudo em "prol" da relação, deixar de ver amigos porque não prestam, e daí para a anulação é apenas um passo. Ida se transforma conforme a manipulação psicológica aumenta, ela se anula e entra num processo de caos interno.
O roteiro é incrível e nos faz mergulhar nesta intensa relação, há cenas visualmente muito bonitas, as de sexo no início do longa, por exemplo. Os atores se entregam e passam toda a verossimilhança necessária, Gustaf Skarsgård (o Flóki, de Vikings), incorpora exatamente a personalidade de um passivo-agressivo, suas reações, olhares, comportamento e diálogos exprimem com perfeição.
O roteiro é incrível e nos faz mergulhar nesta intensa relação, há cenas visualmente muito bonitas, as de sexo no início do longa, por exemplo. Os atores se entregam e passam toda a verossimilhança necessária, Gustaf Skarsgård (o Flóki, de Vikings), incorpora exatamente a personalidade de um passivo-agressivo, suas reações, olhares, comportamento e diálogos exprimem com perfeição.
Anna Astrom dá vida a uma moça doce que tem tudo para ter um futuro promissor, machuca ver ela se encolhendo diante a tanto sofrimento impingido, ela vai aceitando tudo por causa do amor, mas chega um momento que não aguenta mais, não tem como suportar e então uma atitude precisa ser tomada.
"Us" é um longa que incomoda e traz um tema pertinente que demonstra com toda a eficácia o que é um relacionamento abusivo. A pessoa que está vivenciando esse tipo de relacionamento quase nunca percebe que está dentro de um, pois crê que está retribuindo amor cedendo as vontades do parceiro. Cria-se uma dependência extrema, por isso é tão difícil identificar e tão mais complicado sair.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Eu Sou Sua (Jeg Er Din)
"Eu Sou Sua" (2013) dirigido por Iram Haq é um filme que coloca em foco uma personagem feminina que busca constantemente ser amada e que se permite viver de acordo com a sua vontade apesar de ter uma família religiosa e conservadora. A história é contada de maneira fria justamente para evidenciar essa falta de amor que conduz a vida da protagonista.
Mina (Amrita Acharia) é uma jovem mãe solteira que vive em Oslo e passa parte da semana com Felix, seu filho de seis anos. Ela tem dupla nacionalidade, norueguesa e paquistanesa, e uma relação conturbada com sua família. Mina está constantemente procurando por amor e tem relações com diversos homens, mas nenhum de seus relacionamentos traz qualquer esperança de durar por muito tempo.
O longa disserta sobre escolhas e as suas consequências. Mina escolheu ter uma vida mais liberal independente de sua família tradicional, que a repudia em todos os momentos em que os visita, ela tem um filho de seis anos do qual tem a guarda compartilhada com o ex-marido, mas não fica presa apenas ao papel de mãe, corre atrás de seu sonho que é ser atriz e se apaixona facilmente, porém não cria vínculos devido o tratamento dos homens com quem se relaciona, eles não a levam a sério por se tratar de uma mulher livre. Em dado momento larga sua vida na Noruega para viver uma forte paixão com um roteirista sueco, no início ele encara o fato dela ter um filho e o acolhe em sua casa, mas o relacionamento ganha aspecto de rotina e seu namorado Jesper (Ola Rapace) não quer ter esse tipo de relação. Só que mesmo depois de dizer isso e ela ter ido embora a manuseia como bem quer. Quanta decepção para Mina, ela escolheu trilhar caminhos diferentes, deixando de lado crenças, tradições para viver livremente e buscar a sua felicidade, mas suas tentativas caem sempre na solidão.
O tom do filme é realista e cru, mostra todo o machismo entranhado na sociedade, as cenas em que a família a repudia por não seguir suas regras é de chorar ao ver tanta ignorância, seus encontros casuais com homens também conferem ao longa uma carga dramática, são situações que não agregam, apenas aumentam o vazio. Mina faz suas escolhas sem medo, mas o que volta para ela é incompreensão e desamor. Mina não deseja grandes coisas, ela quer ser respeitada e amada.
O longa disserta sobre escolhas e as suas consequências. Mina escolheu ter uma vida mais liberal independente de sua família tradicional, que a repudia em todos os momentos em que os visita, ela tem um filho de seis anos do qual tem a guarda compartilhada com o ex-marido, mas não fica presa apenas ao papel de mãe, corre atrás de seu sonho que é ser atriz e se apaixona facilmente, porém não cria vínculos devido o tratamento dos homens com quem se relaciona, eles não a levam a sério por se tratar de uma mulher livre. Em dado momento larga sua vida na Noruega para viver uma forte paixão com um roteirista sueco, no início ele encara o fato dela ter um filho e o acolhe em sua casa, mas o relacionamento ganha aspecto de rotina e seu namorado Jesper (Ola Rapace) não quer ter esse tipo de relação. Só que mesmo depois de dizer isso e ela ter ido embora a manuseia como bem quer. Quanta decepção para Mina, ela escolheu trilhar caminhos diferentes, deixando de lado crenças, tradições para viver livremente e buscar a sua felicidade, mas suas tentativas caem sempre na solidão.
O tom do filme é realista e cru, mostra todo o machismo entranhado na sociedade, as cenas em que a família a repudia por não seguir suas regras é de chorar ao ver tanta ignorância, seus encontros casuais com homens também conferem ao longa uma carga dramática, são situações que não agregam, apenas aumentam o vazio. Mina faz suas escolhas sem medo, mas o que volta para ela é incompreensão e desamor. Mina não deseja grandes coisas, ela quer ser respeitada e amada.
O preço que se paga para viver livremente e não de acordo como querem é alto, é saber que essa escolha é um caminhar solitário e geralmente repleto de tentativas falhas, pois existem uma porção de empecilhos, como o longa exemplifica, o machismo, o conservadorismo religioso, os papéis sociais destinados à mulher, é quase impossível ultrapassar essas barreiras. Mina é uma mulher carente que está em busca, qualquer demonstração de afeto a atinge fazendo-a acreditar e depois sofrer as consequências. É o retrato de uma vida excruciante.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Amor, Plástico e Barulho
"Amor, Plástico e Barulho" (2013) dirigido por Renata Pinheiro (Estradeiros - 2011) é um filme pernambucano que traça um recorte cultural do efervescente e descartável cenário musical, especificamente, o brega. É também uma ótima amostra do quão difícil é percorrer esse caminho artístico com tanta competição e variedade, onde hoje é sucesso e amanhã já está velho, os sonhos e a esperança pelo glamour conduzem duas mulheres a diversos sentimentos.
Shelly (Nash Laila), uma jovem que sonha em se tornar cantora de brega, inicia sua carreira como dançarina de uma banda se apresentando em casas noturnas e programas de TV locais do Recife. Jaqueline (Maeve Jinkings), a cantora veterana da banda Amor com Veneno, é a sua inspiração e um possível espelho do seu destino. Inseridas em um mundo onde tudo é descartável, como o sucesso, o amor e a própria cidade na qual habitam, elas vivem a difícil trajetória em busca da sobrevivência pela arte que parece ser seu último recurso na vida.
Shelly (Nash Laila), uma jovem que sonha em se tornar cantora de brega, inicia sua carreira como dançarina de uma banda se apresentando em casas noturnas e programas de TV locais do Recife. Jaqueline (Maeve Jinkings), a cantora veterana da banda Amor com Veneno, é a sua inspiração e um possível espelho do seu destino. Inseridas em um mundo onde tudo é descartável, como o sucesso, o amor e a própria cidade na qual habitam, elas vivem a difícil trajetória em busca da sobrevivência pela arte que parece ser seu último recurso na vida.
O relacionamento entre Shelly e Jaqueline vai da admiração à rivalidade, pois a carreira de Jaqueline está em decadência, como ela própria diz: "O sucesso é um copinho de plástico bem vagabundo", e o dela está todo rasgado e prestes a ser jogado fora, já Shelly vislumbra um futuro promissor, empolgada tenta mostrar o seu talento em toda e qualquer oportunidade, o que irrita Jaqueline e a afasta da menina. Ela descolore o cabelo, se insinua mais nos shows e ao achar que é musa de um cantor em ascensão cria a ilusão que seu momento pode estar próximo, mas existem tantos empecilhos que as dificuldades aparecem logo no começo. Jaqueline é sensual, intensa e sofre com o seu declínio, ela vive dizendo que faz o que bem quer e que é louca mesmo, isso é porque preferiu seguir seu sonho e deixou a filha aos cuidados da mãe. O mercado fonográfico quer rostos novos e para ela resta apenas se apresentar em lugares deprimentes. A cena em que testa o som cantando "Chupa que é de uva" é extremamente melancólica e uma das melhores do filme. Ela se afoga na bebida e dificilmente a vemos sem um copinho na mão.
O longa é realista, insere um cotidiano comum e a simplicidade de artistas que tentam se manter na ativa com hits grudentos e danças envolventes. O cenário brega é mostrado com naturalidade, é verdadeiro e sem pudor, mas o roteiro não deixa de fazer crítica à obsessão pela fama e a conquista de um espaço por mais mínimo que seja, também ao mercado que promete mundos num dia e os descarta no outro, e assim promovendo o mesmo ciclo.
O longa é realista, insere um cotidiano comum e a simplicidade de artistas que tentam se manter na ativa com hits grudentos e danças envolventes. O cenário brega é mostrado com naturalidade, é verdadeiro e sem pudor, mas o roteiro não deixa de fazer crítica à obsessão pela fama e a conquista de um espaço por mais mínimo que seja, também ao mercado que promete mundos num dia e os descarta no outro, e assim promovendo o mesmo ciclo.
A entrega das atrizes a suas personagens impressiona, Maeve Jinkings brilha, traz garra, personalidade e ao mesmo tempo desgosto por saber que perderá seu lugar, já Nash Laila é sonhadora e apesar dos percalços certamente persistirá por ser jovem, a cena final retrata essa questão. As cores excessivas, o figurino, a linguagem, tudo é bem trabalhado e conquista por capturar exatamente essa realidade. É um filme com identidade, a sua alma é brega.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Michael Kohlhaas - Justiça e Honra (Michael Kohlhaas)
"Michael Kohlhaas" (2013) dirigido por Arnaud des Pallières (Parc - 2007) é uma adaptação da obra homônima, lançada em 1810, de Heinrich Von Kleist, onde aborda questões políticas da época, as injustiças cometidas pela nobreza e também pela igreja. O tema é a honra e retrata que a linha que separa a justiça da vingança é muito tênue, o bom cidadão na ânsia de reparar a sua dignidade não demora a ser corrompido pela maldade.
No século XVI, na região de Cévennes, no centro-sul da França, vive o vendedor de cavalos Michael Kohlhaas (Mads Mikkelsen). Ele tem uma vida tranquila e próspera, até sofrer uma grande injustiça de um nobre poderoso. Michael, homem religioso e íntegro, não vai medir esforços para conquistar novamente sua honra, mesmo que seja preciso iniciar uma guerra por todo o país.
O barão (Swann Arlaud) que diz ter permissão da rainha quer que Kohlhaas entregue a seus homens dois de seus melhores cavalos como garantia, já que ele não tem documentação para entrar nas terras, logo fica sabendo que foi enganado e que seu amigo Cesar (David Bennent) foi atacado pelos cães do barão, ao reaver seus animais os encontra em um estado deplorável, indignado recorre à justiça, mas o barão usa de sua influência e vence o caso, Kohlhaas sente a necessidade de ter sua honra restaurada e quando decide apelar para a rainha, sua esposa dá a ideia de que ela vá e peça, já que diante de uma outra mulher, talvez compreenderia a situação. Mas dá tudo errado e sua esposa é assassinada, aí Kohlhaas cego por todas as injustiças monta um exército e vai à guerra.
Por onde ele passa deixa rastros de morte, o que era para ser apenas a recuperação de seu sustento, desencadeia numa luta de classes. Em dado momento os homens de Kohlhaas não sabem mais porquê estão lutando, fica evidente que a exagerada vontade dele vencer é algo pessoal e não necessariamente tratar das representações de poder.
A violência chama a atenção da princesa que propõe anistia, mas com a condição de que cessem o caos. Desfaz o exército, porém o descontrole já havia sido instaurado e mais uma vez se vê envolto em intrigas e traições, quando menos espera é preso e o desfecho surge de maneira dúbia, conseguindo a tão almejada justiça para si e sua filha, a devolução de seus cavalos em estado impecável, mas ao mesmo tempo condenado à morte.
"Você vive tanto pelo amor como pelo medo que você inspira. Se inspirar apenas medo todo mundo despreza você. Só o amor, é sinal de fraqueza."
Mads Mikkelsen como Kohlhaas é magnífico, contido e ambíguo, uma figura imponente que desperta sentimentos variados. Friamente observamos as suas ações, honra e justiça acaba se tornando apenas vaidade.
A narrativa é lenta e tensa, as cenas enfatizam a beleza do local e mesmo sendo uma obra simples tem um quê de épico. Kohlhaas coloca tudo a perder em busca de vingança, um meio de acabar com as injustiças do império. O protagonista se vê em dúvida em muitos momentos sobre suas decisões e segue até o fim nessa dualidade.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Nenette, a Meia-Irmã (Demi-Soeur)
"Nenette, a Meia-Irmã" (2013) dirigido e protagonizado pela excepcional Josiane Balasko (O Porco Espinho - 2009) é um filme divertido, leve, delicado e encantador. Nenette (Josiane Balasko) é uma senhora que tem a idade mental de uma criança de oito anos. Após a morte de sua mãe, ela parte em uma busca do seu pai, mas acaba conhecendo seu meio-irmão Paul (Michel Blanc), um farmacêutico ranzinza. O roteiro é simples e brinca com situações surreais, mas o desenvolvimento é tão gracioso que fica impossível não se deixar levar pela pureza de Nenette.
Após perder a mãe, Nenette é levada para uma casa de repouso, mas como não aceitam a sua tartaruga de estimação, Totoche, sai em busca de seu pai, porém termina encontrando seu meio-irmão Paul, um homem ríspido que encontrou conforto em sua própria solidão, dono de uma farmácia, leva seus dias numa rotina que consiste sempre em fazer as mesmas coisas, Nenette chega para colocar tudo de pernas pro ar, inclusive sua personalidade, a senhorinha é cheia de amores pra dar, vive dando beijinhos e abraços, tem uma aura de inocência e mais parece uma criança. Paul não a quer em sua casa, ela o incomoda profundamente, ele é um chato que se esqueceu do amor, a atuação de Michel Blanc junto de Josiane Balasko é de uma perfeita sintonia, dois exímios atores, quando a personalidade de Paul é alterada por conta das drogas que por acaso Nenette coloca em seu café pensando ser açúcar, acompanhamos inúmeros momentos engraçados, ele começa a tratar bem as pessoas, inclusive seu filho e sua neta que não via muito, mostra a casa do pai para Nenette, onde encontra sua ex-mulher que toma um susto e logo pensa em perder a mordomia, faz as pazes com o piano, sua antiga paixão, se desfaz de sua coleção de crustáceos, enfim, é um aglomerado de situações que Paul vivencia, uma alegria o toma e o faz adorar Nenette, que quando volta a seu normal percebe o como afastou as pessoas de si pelo seu jeito rabugento.
O filme traz um amontoado de acontecimentos inverossímeis, mas os desenvolve com delicadeza e simplicidade, demonstra que nada como um pouco de amor para a vida se tornar mais gostosa.
Após perder a mãe, Nenette é levada para uma casa de repouso, mas como não aceitam a sua tartaruga de estimação, Totoche, sai em busca de seu pai, porém termina encontrando seu meio-irmão Paul, um homem ríspido que encontrou conforto em sua própria solidão, dono de uma farmácia, leva seus dias numa rotina que consiste sempre em fazer as mesmas coisas, Nenette chega para colocar tudo de pernas pro ar, inclusive sua personalidade, a senhorinha é cheia de amores pra dar, vive dando beijinhos e abraços, tem uma aura de inocência e mais parece uma criança. Paul não a quer em sua casa, ela o incomoda profundamente, ele é um chato que se esqueceu do amor, a atuação de Michel Blanc junto de Josiane Balasko é de uma perfeita sintonia, dois exímios atores, quando a personalidade de Paul é alterada por conta das drogas que por acaso Nenette coloca em seu café pensando ser açúcar, acompanhamos inúmeros momentos engraçados, ele começa a tratar bem as pessoas, inclusive seu filho e sua neta que não via muito, mostra a casa do pai para Nenette, onde encontra sua ex-mulher que toma um susto e logo pensa em perder a mordomia, faz as pazes com o piano, sua antiga paixão, se desfaz de sua coleção de crustáceos, enfim, é um aglomerado de situações que Paul vivencia, uma alegria o toma e o faz adorar Nenette, que quando volta a seu normal percebe o como afastou as pessoas de si pelo seu jeito rabugento.
O filme traz um amontoado de acontecimentos inverossímeis, mas os desenvolve com delicadeza e simplicidade, demonstra que nada como um pouco de amor para a vida se tornar mais gostosa.
Nenette é daquelas personagens para guardar com carinho na memória, ela nos tira sorrisos e passa uma sensação de bem-estar, nos faz lembrar de que quando se há afeto tudo toma outra forma, eliminando-se sentimentos pequenos a vida fica mais bela, e consequentemente, os outros mais alegres também.
É um filme que disserta sobre o amor, a solidariedade e a humanidade, que infelizmente está em falta no cotidiano, seja entre familiares, amigos e desconhecidos, na maior parte as brigas são em função de dinheiro e o cansaço também é outro fator, a paciência é artigo de luxo e a intolerância é expressada sem piedade, julgamentos, preconceitos, deixam nossa vida com gosto amargo, e no fim acabamos sozinhos e insatisfeitos.
Tudo é exposto com delicadeza, e por mais que pareça clichê, o cinema francês tem um charme todo especial em retratar o tema com inteligência e humor.
"Nenette, a Meia-Irmã" é uma joia rara que merece ser descoberta, é um filme satisfatório que só não agradará pessoas pequenas de alma.
Está disponível na Netflix!
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Sanctuary (Faro)
"Faro" (2013) dirigido por Fredrik Edfeldt (Flickan - 2009) é um filme sueco que retrata a monotonia junto de sentimentos de culpa, a angústia de um pai por tentar salvar a si e a filha e ter momentos de paz, a floresta é a morada escolhida, mas as circunstâncias, os tormentos rondam o protagonista, por causa do ato cometido no passado sua vida seguirá outros rumos. O filme tem um ritmo calmo e um ar contemplativo, tendo alguns episódios de desespero, a história segue o relacionamento de pai e filha, a fuga dos dois e a vivência deles no meio da floresta, enquanto isso os policiais o procuram, acusado de assassinato, ele jura para a filha que foi em legítima defesa, a menina com medo de ficar só ou ser levada pelo serviço social acaba incentivando o pai a fugir com ela.
O pai (Jakob Cedergren) e a filha Hella (Clara Christiansson) vivem numa casinha longe de tudo e aparentemente levam uma vida idílica. O início do filme dá essa sensação, porém essa ideia é quebrada quando Hella avista um carro vindo em direção a casa e ao avisar o pai, ele se esconde e ela atende a porta dizendo que ele voltará em breve. Logo surge a decisão de fugirem e então se embrenham no meio da floresta e montam uma barraca, com o passar dos dias a relação deles vai se estreitando e a convivência marca muito bem a personalidade de cada um, Hella é inteligente, questionadora, mas aceita tudo com passividade, o pai é quieto e distante ao mesmo tempo amoroso e preocupado com a filha.
Em alguns pontos do filme dá a entender que a mãe de Hella se suicidou, há uma carência e inocência em Hella, e nesses dias de verão ao lado do pai, o amadurecimento vai surgindo, selvagemente. Nada especial acontece, mas o desenvolvimento é tão lindamente retratado que cativa, a força que a menina precisa para enfrentar seu futuro vem aos poucos, dia após dia, é imensamente importante as experiências que ela experimenta na floresta. Quando fica sozinha por uma noite porque o pai vai em busca de comida, ela encontra uma casa e deixa-se levar por uma mulher louca que por pouco não a aprisiona, vemos o quão frágil é Hella, mas por outro lado não titubeia em tomar decisões.
A natureza é o terceiro personagem desta história que apesar de conter alguns instantes tensos, prima pela suavidade e contemplação. É um filme que exige paciência do espectador, pois as respostas vem com o tempo e ao acaso. O título do longa é por conta da reminiscência afetiva da viagem feita pelo pai de Hella na cidade portuguesa de Faro. Seu sonho era construir uma casa à beira-mar e viver com a família no mais completo sossego. A narrativa segue sem pressa, envolve e é muito eficaz ao passar a mensagem, a estética do filme é muito bonita, são tomadas belíssimas retratando a natureza e o passar dos dias de pai e filha, os closes são outro ponto forte e garantem a dramaticidade.
"Faro" é um filme convincente e melancólico ao retratar o amadurecimento de Hella, o vínculo entre os personagens e o otimismo do pai ao tentar escapar e dar a filha momentos de paz. É emocionante sem usar grandes artifícios, é na sua tranquilidade e naturalidade que o filme nos fisga.
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Violette
"Meu lugar é dentro de mim mesma. O resto é vaidade."
"Violette" (2013) dirigido por Martin Provost (Séraphine - 2008) se concentra na vida da escritora Violette Leduc, que com incentivo externou suas dores e angústias através da escrita. Uma importante figura da literatura, porém desconhecida, sua obra revela temas tabus para sua época e assim como Simone de Beauvoir contribuiu para o avanço do feminismo.
No início dos anos XX, a escritora Violette Leduc (Emmanuelle Devos) encontra a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). Nasce entre as duas uma intensa amizade que dura toda a vida, ao mesmo tempo que Simone encoraja Violette a escrever mais, expondo as suas dúvidas e medos, abordando todos os detalhes da intimidade feminina.
No início dos anos XX, a escritora Violette Leduc (Emmanuelle Devos) encontra a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). Nasce entre as duas uma intensa amizade que dura toda a vida, ao mesmo tempo que Simone encoraja Violette a escrever mais, expondo as suas dúvidas e medos, abordando todos os detalhes da intimidade feminina.
Violette, filha ilegítima de uma empregada, passou sua juventude em um internato e lá teve suas primeiras experiências sexuais, quando mais velha se casou com o escritor homossexual Maurice Sachs (Olivier Py), um casamento fictício para fugir da Segunda Guerra, Sachs incentivava Violette a colocar no papel o que a afligia, e então num pequeno caderno começou a escrever as primeiras frases do que viria ser o seu primeiro romance chamado "A Asfixia". Sachs mais tarde abandona Violette e volta à Alemanha, onde acaba sendo morto. Sozinha e desamparada, Violette vai tentar se virar em Paris, ela sobrevivia do mercado negro, mas quando a guerra termina os negócios caem por terra, então ao acaso se depara com um livro de Simone de Beauvoir, após lê-lo inebriada procura se encontrar com a autora e deixar seus manuscritos para que ela analise. A escrita de Violette a empolga, afinal ela falava sobre o que ninguém ousava falar na época. A relação entre as duas se estreita, Simone a incentiva muito, dá suas opiniões, mas se mantém distante quando Violette se apaixona, e é por meio das palavras que Violette expõe as suas angústias e desejos, a personagem sente-se inferiorizada, rejeitada, feia, inadequada, todos esses sentimentos são passados perfeitamente pela maravilhosa interpretação de Emmanuelle Devos.
A escrita de Violette era carregada de erotismo, o que desagradava bastante o conservadorismo machista da época, o primeiro livro é lançado pela Gallimard na Coleção Espoir, recém-criada por Albert Camus, mas com tiragem pequena, Violette chegou a relatar em "A Faminta", a sua paixão avassaladora por Simone, seu quarto era permeado de fotos da escritora, uma admiração masoquista. Enquanto Simone ficava cada vez mais reconhecida, Violette se encolhia, inclusive os cortes em "Destroços", quase desencorajou a continuar, mas sempre influenciada por Simone buscava nas palavras a sua salvação. Violette ousou escrever sobre experiências sexuais, o aborto e seu impacto sobre as mulheres, o incesto e a bissexualidade. Sua linguagem direta escandalizou a sociedade puritana. Mas foi acolhida pelos intelectuais, um círculo de grandes nomes da literatura, como Jean Cocteau, Jean Genet, e também o perfumista e entusiasta das artes Jacques Guérin. Violette alcança seu público com o livro "A Bastarda" com prefácio de Simone de Beauvoir.
"O meu caso não é único, tenho medo de morrer mas lamento estar no mundo. Nunca trabalhei, nunca estudei. Só chorei e gritei. Lágrimas e gritos, levaram muito de meu tempo. Partirei da mesma forma que cheguei. Intacta. Carregada com meus defeitos que me torturaram. Eu queria ter nascido estátua, sou uma lesma no meu estrume. As virtudes, as qualidades, a coragem, a meditação, a cultura, de braços cruzados briguei com essas palavras.”
Um dos traços mais marcantes de Violette é a sua dependência emocional, a sua ânsia de ser correspondida amorosamente por aqueles que a rodeiam, Simone faz o contraponto sendo segura e distante, apesar de proteger e incentivar Violette. Os traumas vividos na infância e juventude surgem como fantasmas na sua vida, mas ela transporta tudo para o papel e com a ajuda de Simone pôde explorar seus sentimentos, escrever tudo o que era proibido dizer, os desejos, a quebra de padrões e a autodescoberta feminina, sem dúvida Violette foi peça fundamental para o começo da libertação feminina. O nome dela é pouco conhecido e suas obras são difíceis de encontrar, os poucos livros que foram traduzidos para o português, como "A Bastarda", seu maior sucesso, está fora de catálogo, sendo com sorte achado apenas em sebos.
Além de refletir sobre o feminismo, é um grande estudo de personagem, o diferencial de "Violette" é que ele não é um filme biográfico comum, é cru, poético, desesperador, apaixonante, um turbilhão. A interessante narrativa do filme nos faz refletir em diversas questões, uma delas é acerca da literatura e a sua função transformadora, tanto para quem escreve, como para quem lê. Afinal, o que define um bom escritor? Como acontece o processo de escrita, e de onde vem as inspirações? Também coloca o desejo de reconhecimento, além de nos fazer pensar sobre o mercado que existe em torno, na escassa distribuição de livros com potencial, por exemplo, a escrita de Violette era considerada inapropriada por inúmeros motivos, por ser escandalosa, uma escrita sobre fatos densos, emoções confusas, fortes paixões, e portanto, chocante. Ela foi colocada de lado, mas como vivia num período de grande efervescência literária foi enaltecida por seus contemporâneos intelectuais. A literatura sempre foi e sempre será um meio para expandir ideias, uma forma de criticar, denunciar e se expressar sobre a sociedade e tudo o que nos aflige. Viva os escritores que como Violette Leduc compreendeu que a literatura a salvaria!
Trecho do prefácio de Simone de Beauvoir para o livro "A Bastarda", de Violette Leduc.
"Dizem que não existe mais autor desconhecido. Qualquer um ou quase isso consegue editar. Pudera, a mediocridade pulula. A boa semente é abafada pelo joio. O êxito depende, na maior parte do tempo, de um golpe de sorte. Entretanto, a própria má sorte tem as suas razões. Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L’ Asphyxie (A Asfixia), L’Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. 'Sou um deserto que monologa', me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la."
terça-feira, 5 de abril de 2016
Solidões
"Solidões" (2013) dirigido por Oswaldo Montenegro (Léo e Bia - 2010) é um filme que desperta emoções e demonstra variados lados da solidão. Realizado com recursos próprios e a Coprodução do Canal Brasil, o roteiro, a direção e a trilha são assinadas pelo artista. "Solidões" vai do riso ao drama, do musical ao documentário, da comédia romântica à sátira cruel, em várias histórias que se ligam, se encontram. Vanessa Giácomo, além de narrar o filme, interpreta uma mulher que perde a memória e rejeita sua vida anterior se recusando, a partir daí, a ter contato físico ou emocional com qualquer ser humano. Oswaldo Montenegro, no papel do "Demônio", enfrenta sua solidão andando pelo mundo, morrendo de saudade de Deus. Um diabo sádico, divertido, que sai por aí oferecendo infinitas possibilidades aos solitários, caso aceitem suas inusitadas condições e exigências. É um filme extremamente emocional e que ficará para sempre guardado na memória. O seu grande diferencial é misturar artes, gêneros e visões. A narração de Vanessa Giácomo é belíssima e nos toca profundamente, fazendo com que olhemos para dentro e percebamos que todos nós somos uma ilha. "Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo que mataram, é uma ilha."
O filme é permeado por personagens interessantes, como o homem (Pedro Nercessian) que encontra com o seu próprio eu, Ronaldo (Eduardo Canto), um garçom colecionador de frases, precisa aguentar uma cliente embriagada (Kamila Pistori). Um músico do interior de Minas Gerais que vai tentar a sorte no Rio de Janeiro, o deficiente físico que tem o apelido de Chico Atrasado e sempre exagera as histórias que ouve, e a diretora de elenco (Madalena Salles), que fez o teste de seleção dos atores, passa por um curioso exercício de metalinguagem. Entre tantos outros e suas solidões.
O roteiro é delicioso, inteligente, filosófico, intimista e todo recheado de metáforas, algumas frases ficam gravadas, são verdadeiras pérolas de poesia, outras são irônicas e divertidas, como quando Oswaldo Montenegro aparece interpretando uma espécie de ladrão, conhecido como Demônio, e começa a dialogar com a personagem Mariana. Em dado momento ele diz: "Chocolate quente, licor e charuto. Essa sim é a santíssima trindade". Há muita ironia envolvendo a religião, tanto em diálogos como na trilha sonora.
Do drama existencial ao humor inteligente, essa obra equilibra perfeitamente todos os gêneros que possui, todas as artes que apresenta, é uma mistura maravilhosa que só poderia ter saído da mente brilhante de Oswaldo Montenegro, ele é um virtuose em tudo que se propõe.
O filme desnuda a solidão, a expõe de todas as maneiras possíveis, reflete-se o que é a solidão para cada individuo, as partes em que há os depoimentos de pessoas comuns fica bem explícito o como cada um carrega a sua, umas com bom humor, outras com dor e pesar. A trilha sonora é linda e às vezes o filme até parece um grande clipe, mas nada que retire a sua beleza, aliás o que o torna tão especial é essa mistura, esse não se enquadrar em nenhum estilo. É sempre bom se deparar com filmes que fogem do mais do mesmo, de artistas que se arriscam, que trazem temas pertinentes e ousam em sua carreira.
"Solidões" é envolvente, inteligente e poético, é filme para almas sensíveis, para pessoas que não sentem medo de mergulhar profundo em si mesmas.
"A solidão é como um nome que se esquece, como um homem que envelhece, sem viver o que sonhou, é como um trânsito em plena madrugada, é o poeta na calçada que ninguém, nunca, escutou."
O filme está disponível no canal do Youtube de Oswaldo Montenegro. Clique aqui.
"Solidões" é envolvente, inteligente e poético, é filme para almas sensíveis, para pessoas que não sentem medo de mergulhar profundo em si mesmas.
"A solidão é como um nome que se esquece, como um homem que envelhece, sem viver o que sonhou, é como um trânsito em plena madrugada, é o poeta na calçada que ninguém, nunca, escutou."
O filme está disponível no canal do Youtube de Oswaldo Montenegro. Clique aqui.
terça-feira, 29 de março de 2016
Príncipes da Estrada (Prince Avalanche)
"Príncipes da Estrada" (2013) dirigido por David Gordon Green (Joe - 2015) é uma refilmagem do filme islandês "Á Annan Veg" (2011), e de forma despretensiosa conta a história de dois trabalhadores da rodovia que vão passar o verão de 1988 longe da cidade em que vivem. A paisagem isolada torna-se um lugar de desgraça, já que os homens encontram-se em desacordo um com o outro e com as mulheres que deixaram para trás.
Alvin (Paul Rudd) é um homem que aprecia a solidão e seu trabalho reflete em sua personalidade, ele passa longos períodos nas rodovias, pintando faixas, colocando placas, etc. Em um desses serviços Alvin decide contratar Lance (Emile Hirsch), irmão de sua namorada, o rapaz tem dificuldades em se posicionar na vida e não parece ter muitas ambições. O local em que estão foi atingido por um misterioso incêndio, onde grande parte da floresta foi destruída, assim como algumas casas e famílias. O lugar tem uma aura melancólica e fantasmagórica, os personagens secundários que por vezes dão as caras intensificam este clima.
Juntos eles vivem momentos de tédio, descontração e de muita solidão. Alvin é um cara tranquilo que não vê o silêncio e a solidão como algo ruim, já Lance é impaciente e custa para se adaptar ao trabalho. Pouca coisa acontece, mas acompanhamos uma evolução importante na vida dos dois, tanto na amizade que se forma, como na mudança que se faz interiormente nos dois. Paul Rudd está surpreendente, um homem sério, delicado e que não tem medo de expor seus sentimentos. Emile Hirsch também está ótimo e proporciona momentos que vão da monotonia à intensidade.
O filme é marcado por diálogos interessantes, mesmo que seja por vezes regado a filosofia barata, traz a questão de que não há fórmulas para uma relação dar certo, seja ela de romance, amizade, ou qualquer outra. Alvin, por exemplo, trabalha duro, se distancia da mulher que ama, tudo em prol do bem-estar deles, mas o que recebe em troca é egoísmo e desamor. Lance é um menino perdido que nem sabe onde está, vai para onde o vento o levar, o trabalho e a convivência com Alvin ao final dá uma certa direção, a amizade que se constrói aos poucos faz com que ele tenha com quem compartilhar suas aflições, e de certo modo crescer interiormente, assim como Alvin que chora pelo amor, mas sabe que é uma pessoa que merece o melhor.
"Príncipes da Estrada" tem um clima melancólico, o ambiente aumenta essa sensação, não se passa carros por lá e o serviço se torna em vão, isso serve como uma metáfora para a vida, onde você se esforça, se quebra, e que mesmo assim parece que nada acontece, porém sem perceber a transformação está se realizando.
David Gordon Green sem dúvida é um cineasta que sabe percorrer por caminhos diversificados, de comédias escrachadas, como "Pineapple Express" (2010) a filmes independentes, como "Joe" (2015). É sempre satisfatório acompanhar diretores que se arriscam e que dão a chance a atores já tão estereotipados no gênero comédia, no caso, Paul Rudd. Ele é a maravilha do filme, se destaca e nos apaixonamos completamente por sua personalidade, claro, inquestionável a complementação de Emile Hirsch na trama também. Outro ponto a acrescentar é a trilha sonora, a canção "Bad Connection" foi composta por Emile Hirsch e Paul Rudd e é ela que dita o tom do filme.
"Príncipes da Estrada" é um filme simples e que não tem pretensão nenhuma, é delicioso acompanhar a evolução da amizade dos personagens.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Os Lobos Maus (Big Bad Wolves)
"Os Lobos Maus" (2013) dirigido por Aharon Keshales e Navot Papushado (Kalevet - 2010) é um filme de suspense israelense caprichado que satisfaz o espectador. O filme acerta principalmente pelo seu excelente humor negro.
Uma série de assassinatos brutais coloca as vidas de três homens em rota de colisão: O pai da vítima mais recente agora em busca de vingança, um detetive da polícia que trabalha fora dos limites da lei, e o principal suspeito dos assassinatos - um professor de estudos religiosos preso e liberado devido a um erro técnico da polícia.
O início se dá com um crime, onde uma criança de dez anos é sequestrada e aparece violentada e decapitada no meio da floresta, o suspeito é Dror (Rotem Keinan), um pacato professor, que lida com crianças todos os dias, mas devido a falta de provas ele não vai preso. Gidi (Tzahi Grad), o pai inconformado decide fazer justiça com as próprias mãos, a mesma ideia teve Micki (Lior Ashkenazi), o policial, eles acabam por se colidir, e então os três vão parar em um porão de uma casa bem afastada, rodeada por uma aldeia árabe, uma sacada fenomenal do diretor.
O filme tem um humor negro latente e por vezes parece satirizar o tão famoso gênero thriller, os personagens são caricatos, mas isso não prejudica, tudo se encaixa na atmosfera criada, e as características violentas de cada um deles só vão aumentando. Ninguém ali é bonzinho, o filme não confirma se o assassino é o professor, eis a dúvida, tanto que o policial em dado momento até pensa em ajudá-lo. Dror e Micki estão sob o domínio do pai da menina, que tortura o suposto assassino da mesma maneira que ele fazia com as meninas. O filme não poupa dor e sangue.
A dúvida corrói Micki, mas Gidi não titubeia em nenhum momento, é tanta dor provocada que desencadeia uma onda frenética em que o assiste, o absurdo vai crescendo e Dror não confessa, persiste dizendo que é inocente. Nos perguntamos o filme todo como é que chegaram a conclusão de que é o professor o assassino e se não estão torturando a pessoa errada, é isso que o filme quer, e desse modo talvez o fim tenha desapontado um pouco, mas também nada que retire a criatividade da obra.
"Os Lobos Maus" ficou conhecido após o diretor Quentin Tarantino elegê-lo o melhor filme de 2013, e não é à toa, assim como nos seus próprios filmes, a violência está presente. É interessante observar até que ponto chega o ser humano para conseguir o que quer, e dessa maneira ver a sua maldade se revelando.
"Os Lobos Maus" cumpre o papel de ser um thriller e alivia dando o tom de humor negro, a vingança vai desde a marteladas nos dedos, unhas dos pés arrancadas e queimaduras de maçarico. Vai-se intercalando cenas desconfortáveis com doses engraçadas e absurdas, e outro ponto a se destacar é a trilha sonora composta por Frank Ilfman que pontua fortemente a narrativa, além de uma cena hilária ao som de "Everyday", de Buddy Holly. É uma produção curiosa e vale muito a pena conhecer!
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Lições de Harmonia (Uroki Garmonii)
"Lições de Harmonia" (2013) dirigido pelo cazaque Emir Baigazin é uma pancada, é um filme que se utiliza da violência, o título é uma ironia e uma crítica às instituições de ensino e todos os segmentos rígidos que ao invés de educar promovem revolta.
Aslan (Timur Aidarbekov) tem 13 anos, é criado por sua avó e faz as vezes de pastor, a cena inicial já choca, certo dia durante um exame médico na escola é humilhado por seus colegas, isso gera um transtorno no garoto que atormentado pela dúvida, se esforça para ficar limpo, além de sua obsessão pela perfeição, ele controla tudo ao seu redor. Essa compulsão lhe trará situações cada vez mais difíceis. É um longa primoroso, a sua fotografia é austera, e o desenrolar dessa história desencadeará na destruição do ser humano. A marginalização e a violência é muito bem delineada.
Aslan vive num povoado em algum lugar do Cazaquistão, um ambiente inóspito que provoca ainda mais a sensação de solidão, excluído do convívio dos outros alunos depois do episódio do bullying, Aslan passa seus dias a torturar baratas em sua casa, a estripar ovelhas e manter um ritual de limpeza. Na escola, o domínio de uma gangue liderado por Bolat (Aslan Anarbayev), que por sua vez, segue ordens de um pessoal mais velho para arrancar dinheiro dos meninos, faz da rotina um martírio. A crueldade é a lição e Aslan aos poucos começa a entrar em harmonia com ela.
É uma obra interessante, repleta de metáforas, mas por vários momentos o diretor parece esconder informações importantes do espectador, mas mesmo assim não deixa de ter sua força e proporcionar o desconforto em relação a violência institucionalizada, o que acaba moldando a personalidade do jovem e o transformando por completo.
Com a chegada de Mirsain (Mukhtar Andassov), vindo da cidade, após o divórcio dos pais, percebemos as destoantes culturas num mesmo país, um retrato social curioso, mas pouco explorado, infelizmente. O fato é que com esse novo colega, a situação se agrava, ele ao contrário dos outros encara Bolat, o que acarreta muitas complicações. A violência segue, tanto Aslan como seu amigo são torturados pelos policiais, enquanto sem nenhum esforço eles deduzem qual é a verdade. Um descaso total e de uma brutalidade física e psicológica sem limites.
O filme tem uma estética incrível, o interessante posicionamento das câmeras e a fotografia se sobressaem. O desenrolar vai demonstrando o como o ser humano se transforma, Aslan é introspectivo, e talvez por este motivo os garotos cometeram tal barbaridade. Ele impressiona por sua frieza, suas atitudes se tornam cruéis também e acaba entrando em sintonia com o todo.
Timur Aidarbekov como Aslan está maravilhoso, seu semblante, seu silêncio, sua personalidade e sua evolução. É assustador ver tanta violência, mesmo que às vezes ela seja implícita.
Aslan para sobreviver em meio à opressão precisa se defender, e nisso a violência que existe em si dá as caras, o mal que há no seu ser se apresenta. E é sobre isso que o filme disserta, a perversidade que há em cada um de nós, a maldade inerente. São diversas formas de violência e muitas aceitáveis de acordo com a sociedade.
O desfecho carrega um tom surreal e até poético. A crueza do longa é impactante e refletimos a cada cena. "Lições de Harmonia" é uma obra esteticamente impecável e com uma narrativa perturbadora.
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