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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Amor em Dobro (Twin Falls Idaho)

"Twin Falls Idaho" (1999) dirigido por Michael Polish (For Lovers Only - 2010) é um filme peculiar que retrata com sensibilidade o relacionamento dos reclusos irmãos siameses Blake e Francis, o compartilhamento tanto físico como emocional, as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas completamente diferentes, e a chegada de uma garota que muda não só a rotina mas também os sentimentos.
Escrito pelos cineastas irmãos Michael Polish e Mark Polish, "Twin Falls Idaho" é uma pérola indie delicada, certamente o fato de na vida real os cineastas serem irmãos gêmeos contribuiu para o tom natural da história, aliás, a interpretação melancólica e reflexiva deles é sublime, todo o contexto é belo e inúmeras questões surgem a partir do momento que os conhecemos e observamos tanto as dificuldades de se viver num mesmo corpo sendo duas pessoas opostas e também o compartilhamento e a generosidade entre eles. O título em português "Amor em Dobro" não reflete absolutamente nada da história, é pobre e aparenta ser um romance comum água com açúcar, portanto, não utilizarei no texto.
Blake (Mark Polish) e Francis Falls (Michael Polish) são literalmente grudados, tímidos moram em um hotel decadente e sonham reunir-se com sua mãe biológica, que os abandonou. Eles encontram sua porta de entrada para o mundo exterior através de uma excêntrica jovem prostituta chamada Penny (Michele Hicks). Eles concordam em participar de uma festa de Halloween com Penny e fingir estar vestindo uma fantasia de irmãos siameses. O filme ainda trata sobre seus problemas de saúde, a evolução da relação entre os irmãos e a relação de amizade com Penny.
De convencional o filme não tem nada, a espécie de triângulo amoroso exibe várias nuances e passa longe da estética freak, ao contrário, os irmãos são elegantes, gentis e carregam uma melancolia sedutora, as manobras cotidianas são feitas com graciosidade apesar das complicações, e adquiriram o hábito de sussurrar um para o outro quando algo os incomoda, Penny também é uma figura interessante e chega na vida deles após ser contratada para comemorar o aniversário de 25 anos dos dois, mas toma um susto ao se deparar com a situação, sai correndo embora, porém volta para buscar sua bolsa e acaba fazendo amizade com eles, Francis está fraco e doente e com o passar do tempo se sente enciumado com a relação de Penny e Blake, que está apaixonado. Não há garantias de que um sobreviva sem o outro, Blake é forte fisicamente, mas o preço pela liberdade e individualidade é alto e quase imperdoável. Francis adoece cada vez mais e a opção pela separação se torna cada vez mais real para Blake.

"Twin Falls Idaho" é fascinante, sua aura de mistério absorve, exibe sutilezas e uma melancolia arrebatadora, além de ser extremamente empático.
Francis em dado momento diz a Penny: "A história continua, e se está triste hoje, isso pode mudar amanhã", essa frase traduz muito bem a atmosfera do filme. Certamente um exemplar peculiar e digno de aplausos por seu esmero, há cenas belíssimas carregadas de emoção e detalhes que marcam. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Lei de Herodes (La Ley de Herodes)

"A Lei de Herodes" (1999) dirigido pelo mexicano Luis Estrada (A Ditadura Perfeita - 2014) é um filme de humor ácido que retrata todos os possíveis e impossíveis artifícios utilizados no meio da política para atingir o poder, expõe sarcasticamente a corrupção e o que o poderio faz com o ser humano. Carrega uma forte crítica social com personagens caricatos e inescrupulosos. Representa de forma mordaz o poder e a corrupção política no México durante o longo mandato do Partido Revolucionário Institucional (PRI). O longa foi produzido em 1999, portanto, o país ainda estava sob domínio do partido. Uma importante obra para evidenciar e denunciar essa ditadura. 
A história se passa durante o mandato de Miguel Alemán Valdés, em 1949, e conta a história dos habitantes da localidade mexicana de San Pedro de los Saguaros, um povoado rural habitado por nativos indígenas, que lincham e decapitam o prefeito local com um facão quando na tentativa deste fugir do povoado com o dinheiro público. O período eleitoral se aproxima e o governador Sánchez (Ernesto Gómez Cruz), não disposto a ver arruinada sua posição por um escândalo político, ordena que Fidel López (Pedro Armendáriz Jr.) o secretário de governo, nomeie um novo prefeito para San Pedro. López decide que o mais indicado até que se realizem as próximas eleições é Juan Vargas (Damián Alcázar), um inofensivo funcionário da limpeza e antigo militante do PRI, que seguramente não será tão corrupto como seu antecessor. Juan chega à aldeia sem lei, ou melhor, apenas com a lei da corrupção. Vários métodos são experimentados e o crime parece o único a resultar. O outrora simples e honesto Juan transforma-se no mais abominável político pronto para fazer de tudo e conseguir extorquir dinheiro do povo.
Juan tem ideias para fazer crescer o povoado, mas sem verbas fica difícil e vendo a situação piorar decide pedir dinheiro ao governador, que recusa as propostas, então Juan quer renunciar, mas é aconselhado e ainda ganha uma pistola e a Constituição, onde há tudo que precisa saber, nessa parte o diálogo é primoroso e reflete muito bem o momento em que Juan começa a ser corrompido. A lei de Herodes o toca, pois como se diz: "Ou te calas ou te prejudicas". Ao voltar Juan já não é mais o mesmo, a partir do momento que descobre os benefícios que tem ao cobrar impostos abusivos se transforma num tirano, a pistola serve para amedrontar a população e a Constituição permite que ele crie mais impostos e aplique multas. As situações que se desencadeiam são hilárias e cada vez mais Juan ultrapassa os limites da moral, a interpretação de Damían Alcázar é magistral, antes um homem de coração puro que segue a boa conduta, se envolve nas teias da corrupção e a ganância o torna violento, passando por cima de qualquer um. Os impostos do povoado aumentam e novos são criados, até o bordel é tomado para si, quando promete eletricidade no local, vemos que somente o poste é erguido, as farsas, as mentiras, todos os podres que permeiam o antro político são explicitados sem receio algum.

Satisfatório assistir um filme inteligente e com humor certeiro, parece ser atemporal também, já que passa-se os anos e o cenário continua praticamente igual. São filmes como esse que elucidam que quem tem o poder nas mãos nunca vai ser um alguém bom. O ser humano apodrece-se em vida pela ganância, atropela os demais para atingir seu objetivo, mesmo que para isso precise utilizar a violência. Juan percebeu que era fácil se dar bem ali no povoado, mas quando alguém tentava atrapalhar seus planos não pensava duas vezes, arquitetava um meio de colocar a culpa em outro e até matava se fosse preciso. 

"A Lei de Herodes" é um filme que demonstra as manobras da corrupção no México, mas que acaba se tornando universal. Com um humor cortante, personagens desprezíveis e um roteiro envolvente consegue retratar a realidade das falcatruas políticas. Luis Estrada se configura como um dos cineastas contemporâneos mais interessantes, ele é um exímio diretor, suas obras contêm uma enorme força e são essenciais, pois tratam de temas pertinentes, principalmente envolvendo política e sociedade com um tom satírico. Grande filme, grande diretor!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Retorno do Idiota (Návrat Idiota)

"O Retorno do Idiota" (1999) dirigido por Sasa Gedeon é um filme tcheco inspirado livremente na personagem da obra "O Idiota" de Fiódor Dostoiévski.
Olga (Tatiana Vilhelmová) ama Emil (Jirí Langmajer), que ama Anna (Anna Geislerová), que ama Robert (Jirí Machácek). O Idiota ama todo mundo. E esse é o seu problema. Ele ama a todos, na mesma proporção. Frantisek (Pavel Liska), o Idiota, não conhece quase nada e nunca experimentou muita coisa. Ele passou grande parte de sua vida em um hospital psiquiátrico, assim tem uma visão muito simples do mundo. Agora está de volta para seus parentes, embora eles não saibam de sua existência. São pessoas que só conhecem sua própria vida e suas relações, que são tão complicadas e enredadas que acabam por afetar Frantisek. Conflitos entre irmãos, amantes e casais são presenciados por ele, em situações estranhas mas às vezes cômicas. Com seu olhar ingênuo, ele é o único a entender essas pessoas, que aparentemente se importam apenas com sua própria felicidade. Apesar de ver de perto as manobras, traições e revelações dolorosas que envolvem a família, ele não julga as atitudes e sentimentos de cada um deles. Porém, somente aquele que for capaz de compreendê-lo, poderá ser capaz de ajudá-lo a... retornar.
O filme é uma comédia reflexiva sobre os problemas humanos, as relações, as hipocrisias, as infelicidades, a perda de sentido na existência. Frantisek por sempre ter vivido afastado da sociedade se deslumbra com pouco, e por inspirar inocência e bondade gera esperança, mas provoca também irritação e piedade. Mas ao observar as situações que se desenrolam, pensamos seriamente quem é realmente o louco.
A fragilidade das relações humanas e os vínculos familiares são vistos sob um ponto de vista ameno e generoso. Sua família praticamente desconhece a sua pessoa, aliás nem nos damos conta de que ele faz parte dela, a história vai nos tragando pelo enredo que entrelaça amorosamente os personagens e ao fim todos são enredados pela confusão, sobrando, claro, para o idiota. A surrealidade faz parte de muitos momentos e os elementos cômicos só enfatizam sentimentos pequenos e mesquinhos que o ser humano se acostumou a sentir. 
O filme demonstra o desespero sob uma ótica mais leve, o personagem dotado de bondade e pureza vai experimentando a vida em sociedade, trata todos com compreensão e jamais julga-os, e é exatamente por esse seu comportamento que é chamado de idiota.

Raro é encontrar pessoas como Frantisek, que não se deixam corromper, geralmente não as encontramos, pois estão muito bem escondidas em seus hospícios.
Loucura é viver em meio a hipocrisias, círculos viciosos, aparências, ganâncias, a existência se torna pesada e esquece-se das coisas simples, de se satisfazer com o que somos, de ser gentis e ampliar o olhar perante a vida. 
"O Retorno do Idiota" exibe uma linguagem interessante, traz sentimentos densos mas alivia com a comicidade, assim refletindo sobre os males da existência.

"No amor abstrato para com a humanidade, não se ama a ninguém, e sim a si próprio."
                                                                                           - O Idiota, Dostoiévski

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Carteiros nas Montanhas (Nashan Naren Nagou)

"Carteiros nas Montanhas" (1999) dirigido pelo chinês Jianqi Huo é um lindo filme sobre a difícil relação entre pai e filho. Baseado no conto homônimo de Peng Jianming, a história retratada é sutil, simples e encantadora, uma obra de arte delicada e deveras preciosa. 
Quando um velho carteiro (Ten Rujun), que passou anos entregando cartas nas comunidades rurais da montanha de Hunan, está para se aposentar, começa a treinar seu jovem filho (Ye Liu) para substitui-lo em sua função. O pai o acompanha então na primeira viagem de trabalho deste, que é também sua última. É a primeira vez que passam tanto tempo juntos, não separados pelas longas viagens do pai, e têm tempo de reforçar seus laços afetivos, pensar em suas relações familiares, e no passado.
O pai trabalhou a vida toda entregando cartas às pessoas, uma profissão exaustiva, mas que dava a ele uma imensa alegria, todos têm muito carinho e sempre o recebe como se fosse da família, porém nesses anos deixou de estar presente em sua própria família, não viu seu filho crescer e agora precisa passar todo seu conhecimento para alguém de confiança, está doente e não mais consegue trabalhar, o escolhido é o filho, este que ao decorrer vai se aproximando do pai e entendendo as circunstâncias da vida. O orgulho pelo pai e a admiração pelo filho vai crescendo e nós ao mesmo tempo que sorrimos derramamos também lágrimas.
São cenas dotadas de sensibilidade a fim de nos emocionar e capazes de fazer com que olhemos para dentro de nós e percebamos a nossa própria relação com nossos pais. O filho julgou muito o pai por sempre ter sido distante, mas durante a viagem que dura três dias passando pelos povoados compreende o quanto esse pai foi esforçado ao se sacrificar para dar uma vida digna para a família. Somos presenteados por vezes pelos pensamentos dos dois, o filho pensando sobre sua infância e o pai lembrando de como doía a saudade que sentia toda vez que partia.
O filme passa uma mensagem muito significativa, nos permite olhar por ângulos diferentes dessa relação, e o mais lindo é saber que ao final, a gratidão, um do mais nobres sentimentos vem à tona. Nesta viagem não só a relação se faz difícil, mas também o caminho, são obstáculos complicados e o jovem ainda não sabe lidar com a situação, ele não conhece e não se dá bem com a solidão, já o pai se sente confortável com sua solidão, sendo sua única companhia seu cachorro, um pastor inteligentíssimo que o ajuda muito.

A paisagem deste filme é algo divino, filmado no sudoeste e sul de Hunan, uma parte se passa numa aldeia do povo Dong, incluindo um festival à noite com uma dança lusheng. As belezas estão em todos detalhes, principalmente nos olhares e silêncios, não tem como não mencionar a cena no rio em que o filho carrega o pai nas costas e lembra que quando era criança pensava que ele era grande, mas que agora que cresceu e seu pai envelheceu percebe o quão pequeno é. E enquanto está sendo carregado relembra de quando ele carregava o filho.
São pequenas reflexões que portam uma força e tanto, repensamos na relação de pais e filhos e na distância que existe, sempre é bom lembrar que os filhos demoram olhar para os pais como seres humanos cheios de defeitos e qualidades, e que a vida os obrigou a fazer escolhas como qualquer outra pessoa. Quando o filho senta e conversa com seu pai, e este lhe confidencia momentos importantes de sua vida, ele acaba se tornando um alguém melhor, ele deixa de ser um menino para se tornar um homem.

Exercer a profissão de carteiro naquela região é muito mais do que somente entregar cartas, é criar relações próximas de afeto. A cena em que o pai o faz ler uma carta para uma senhora cega, compreende-se a importância de seu trabalho.

"Carteiros nas Montanhas" é primoroso, sua trilha sonora transcendental cria uma atmosfera de calmaria propícia à reflexão. Um filme encantador e enriquecedor, uma poesia audiovisual.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Banhos (Xizao)

"Banhos" (1999) de Zhang Yang (Indo para Casa - 2007) é um filme extremamente belo que retrata valores dos quais estão se perdendo, como o contato e o amor pelo próximo.
Numa antiga e tradicional casa de banhos, um homem simples e seu filho deficiente mental passam os dias a atender seus clientes que relaxam em banhos quentes, massagens e afins, num ambiente harmonioso e amistoso. Lá, os homens em sua maioria mais velhos jogam conversa fora, desabafam, e acontece até a tal luta de grilos. Da Ming, o outro filho do senhor da casa de banhos retorna para verificar se o pai está bem, pois recebeu um desenho estranho de seu irmão, Da Ming não gosta da maneira como vivem e ainda nutre preconceito por seu irmão deficiente. Ele é completamente diferente, possui outros valores, dos quais não cabem naquele lugar, mas aos poucos vai percebendo a importância de tudo aquilo para seu pai.
Fica claro que Da Ming só apareceu lá porque achou que seu pai tinha morrido, e isso entristece Mestre Liu, que a princípio se mantém distanciado do filho, e este distanciado do que acontece no local, para ele que vive em ritmo acelerado, os banhos que parecem nunca terminar é algo incompreensível. O irmão deficiente Er Ming é um personagem que nos fisga pela sua simpatia, apego emocional com o pai, e habilidade em lidar com a casa de banhos. Vemos sua simplicidade e compaixão pelas pessoas, e algumas cenas se destacam, como quando ele fascinado observa um jovem tímido cantando ópera no chuveiro enquanto o restante não o tolera, ou suas corridas com o pai ao fim do expediente.
Da Ming com o passar dos dias contempla essa rotina e começa a se envolver com o pai e o irmão, ele vai aceitando e por conseguinte não sente mais vergonha. Gostando de permanecer do lado de sua família, ele acaba por adiar a sua partida, ainda mais quando seu pai adoece e fica responsável por ajudar na casa de banhos. Ao assumir o lugar do pai redescobre suas origens e resgata valores. 

O prédio se situa em uma região que irá ser construído um shopping e não demorará para tudo ali ser demolido, mas mestre Liu morre antes. Da Ming permanece no local até o fim, ele vacila em alguns momentos e chega até a deixar seu irmão num local especializado em doentes mentais, mas se arrepende e o busca para morar junto de si, só que ele não disse para a esposa sobre sua existência, o que complica seu relacionamento, ao falar no telefone sobre o assunto, ela simplesmente desliga. Portanto, Da Ming estreita mais a sua relação com Er Ming e percebe o amor verdadeiro.

Há cenas memoráveis, sutis, e até inocentes, Er Ming nos ensina que a simplicidade é o maior valor que o ser humano pode ter, sua generosidade em relação ao jovem cantor de chuveiro emociona.
Vivemos na era do individualismo, onde não há espaço para gentilezas, julgamos o que é diferente por falta de compreensão e por consequência excluímos, todos têm suas certezas absolutas e por isso deixam de aprender a ter olhares diversos. Em "Banhos" vemos a tradição versus modernidade, mas também o como é importante manter laços, seja familiares, ou de amizade. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

A Cor do Paraíso (Rang-E Khoda)

Majid Majidi é um diretor de extrema sensibilidade, para quem ainda não embarcou nas sutilezas de suas histórias indico além de "A Cor do Paraíso" (1999), "Os Filhos do Paraíso" (1997), "Baran" (2001) e "A Canção dos Pardais" (2008). São filmes que retratam a simplicidade, detalhes da vida, coisas que realmente valem a pena. O cinema de Majid Majidi educa e nos dá a oportunidade de refletir o quanto damos valor para superficialidades. É uma singela poesia sobre pequenas grandes coisas.
Mohammad é um jovem estudante de oito anos que frequenta uma escola para cegos em Teerã. Sua impossibilidade de ver o mundo reforça mais ainda sua habilidade em sentir suas poderosas forças. Depois de um ano, ele volta à sua terra natal, um vilarejo no norte montanhoso do Irã, junto com seu pai, um carvoeiro viúvo. Ao chegar no vilarejo vemos a alegria de encontrar a avó e as irmãs. São muitos sorrisos e toques.
O pai deseja recomeçar a vida, quer se casar, e para isso necessita se apresentar a família de sua pretendida com todos os costumes e rituais da religião. Mohammad é um empecilho na vida deste homem, mas não o julgamos, ele tem os seus motivos e a todo instante vemos o desespero e a tristeza nos seus olhos; em contrapartida, o garoto é muito amado e querido pela avó e as irmãs. Muito inteligente ele possui uma grande sensibilidade, a cegueira o fez enxergar muito mais do que podemos imaginar. O pai não quer que ele seja exposto, é um homem rude que já viveu muitos apuros, agora deseja ser feliz, constituir uma nova família, tem medo do seu futuro e seu egoísmo chega a ser compreensível. São dilemas de um ser humano comum, ele não é totalmente mau e nem bom. Um dia Mohammad vai escondido à escola com suas irmãs, inclusive mostra mais conhecimento e desenvolvimento de leitura que os outros. Seu pai descobre e antes que todos saibam do filho cego, o leva para ser aprendiz de carpinteiro com a desculpa de que ele precisa aprender uma profissão. É claro, ele estava se livrando do menino, mas a vida a todo momento surpreende e reviravoltas acontecem para que pensemos na situação e aprendamos com tais circunstâncias. Depois da partida do garoto a avó ficou muito triste e doente, e não demora para que faleça, essa morte faz com que a família da noiva desista do casamento, pois foi considerado mau agouro.
O longa tem cenas dotadas de uma beleza imensurável, assim como os diálogos, um dos mais lindos é com o carpinteiro que o ensina, e que também é cego. É de cortar o coração. Mas, a maioria das cenas não precisam de falas, elas fluem calmamente e delicadamente.

Mergulhado em tristezas, culpas e desesperanças depois de tudo o que lhe sucedeu, o pai vai buscar o menino, no caminho de volta acontece um acidente na ponte, entre tantas tentativas de se livrar de seu filho ao fim ele resolve ir atrás, então se joga na correnteza a fim de salvá-lo, esses momentos finais são tensos e angustiantes. O que vem a seguir é de uma sutileza maior que tudo.
"A Cor do Paraíso" é uma história de complexidades humanas, pessoas normais que às vezes não conseguem ter uma visão mais sensibilizada da vida, assim como o pai de Mohammad, que não via no filho o quanto era especial. Emoldurado por uma linda fotografia, o filme é para aqueles que desejam acrescentar dentro de si valores simples, mas que fazem toda a diferença.

Muito premiado mundo afora, "A Cor do Paraíso" é impecável, os personagens, o vilarejo, as plantações, é tudo muito belo. É um filme singelo, mas com uma grande sabedoria.
Eis o momento mais emocionante do filme, Mohammad conversando com o carpinteiro sobre Deus: "Nosso professor diz que Deus ama os cegos porque nós não podemos ver. Mas eu disse para ele que se isto fosse verdade, Deus não nos faria cegos para que não pudéssemos ver. Ele então disse: 'Deus não é visível! Ele está em todo o lugar. Você pode sentir. Você pode vê-lo através de seus dedos'. Agora eu o procuro em todo o lugar até o dia em que minhas mãos possam tocar Ele, e então eu vou contar todos os segredos de meu coração."

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Sonhos (Dreams)

Akira Kurosawa é um dos melhores diretores de todos os tempos, levou o cinema japonês para um patamar elevado e desde então tem inspirado diretores do mundo todo, e enriquecido os espectadores com suas belíssimas histórias. "Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo.
"Uma vez eu tive um sonho..." Esse é o começo desta obra que abrange diversos aspectos de maneira singela e sublime. No primeiro retrata uma criança que desobedece a mãe e vai para a floresta espiar a dança do acasalamento das raposas, ao voltar sua mãe não lhe deixa entrar, pois ele havia desrespeitado sua ordem e invadido o ritual das raposas, assim coloca um punhal em sua mão afim de que por honra pratique o haraquiri - o suicídio. Porém há um meio de se redimir, voltando à floresta e pedindo desculpas à elas. É uma amostra do quão rígida é a educação dos japoneses, e que honra e respeito é ensinado desde pequeno.
No segundo conta sobre o jardim de pessegueiros, um garoto ao servir chá para suas irmãs repara que uma menina foge, indo ao seu encontro vê apenas tocos do que um dia foi um imenso jardim de árvores frondosas, percebe que a garota que fugiu é uma boneca, o símbolo do festejo da florada dos pessegueiros, mas como ali já não existe mais nada, não faz sentido haver mais bonecas. Com uma dança melancólica vemos os espíritos dos pessegueiros, que por fim entende que o garoto nunca quis que as árvores fossem arrancadas. É um belo retrato de uma tradição que cultua a natureza como forma e espírito. Esse sonho tem um poder hipnotizante.

O terceiro sonho é de três homens que enfrentam com muito esforço uma nevasca, mas em determinado momento acabam sucumbindo, daí surge uma mulher que envolve o líder com um manto prata, ela pode ser considerada a morte, mas de repente ele reage e consegue visualizar o acampamento. É a luta contra a morte e o quanto somos impotentes perante a natureza.
O quarto sonho mostra um capitão andando por um túnel e ao passá-lo escuta passos atrás de si, quando vira é um soldado morto em combate, mas que não acredita estar. O capitão acaba o convencendo, mas de repente aparece o pelotão inteiro. Uma clara mensagem sobre a estupidez da guerra. O capitão se sente envergonhado por continuar vivo, e diante dos soldados tenta expiar sua culpa pelas atrocidades da guerra.
O quinto sonho representa a arte e a poesia. Um jovem pintor entra nos quadros de Van Gogh e encontra-se com o próprio, interpretado por Martin Scorcese. O personagem anda pelas pinturas do artista, como a "Campo de Trigo com Corvos", talvez a mais famosa. Ele diz ao jovem rapaz de como as paisagens o fazem pintar freneticamente. Van Gogh necessita pintar enquanto há luz, pois sabe da efemeridade. Emergimos em seus quadros em uma viagem onírica repleta de significados.

No sexto sonho o monte Fuji entra em erupção ao mesmo tempo em que ocorre um incêndio numa usina nuclear, provocado por falha humana. Enquanto a radiação toma o ar, as pessoas fogem descontroladamente. Vemos isolados uma mãe com seus dois filhos e dois homens tentando fugir das fumaças coloridas que representam determinadas substâncias. De repente um dos homens diz ter sido um dos responsáveis pela tragédia, sendo assim prefere morrer logo do que sofrer as consequências lentamente. A radiação não tem cor na vida real, ela é invisível e o povo sente os efeitos nocivos com o tempo. Esse sonho/pesadelo é o grande fantasma que acompanha os japoneses, é a estupidez do homem em prol do conforto, e sua tecnologia antiecológica. Isto reflete no próximo sonho/pesadelo, com o demônio chorão. É retratado o pós tragédia, onde há muitas cinzas, mutações ambientais e humanas. Um viajante do tempo encontra um ogro, assim por ele designado, e lhe conta como tudo ocorreu. Mostra o meio ambiente deformado, a hierarquia dos ogros que se alimentam deles mesmos quanto menor o chifre, e os que têm muitos chifres sofrem de uma dor terrível e estão condenados a imortalidade. Cada um sofre um tipo de punição, a natureza se organiza diante o que cada um fez. O ogro diz ao viajante que se lamenta por ter sido tão egoísta e ganancioso.

No último sonho, o povoado dos moinhos, esbanja um ritmo de vida da qual faria o ser humano dar valor ao que realmente interessa, buscando na natureza o básico para viver. O velhinho de 103 anos propõe um retorno às origens e tradições. O mesmo viajante se deslumbra ao chegar na aldeia repleta de moinhos, e ao encontrar com o velho indaga porque não há eletricidade no local, ele responde: "Não precisa, pois assim é a noite, por que ela deveria ser clara como o dia? Eu não ia querer noites claras, que não deixassem ver as estrelas."
Esse utópico sonho nos diz que ser humano e natureza são uma coisa só. Não há distinção entre um e outro, somos parte dela. Uma bela mensagem, já que atualmente pouco nos importamos com o meio, somos movidos pelo egoísmo e ambição visando apenas o conforto do presente. Sabe-se que os recursos da natureza um dia acabarão, mas claro, não pensamos nisso, está tão distante. Somos pobres, limitados e estúpidos. Escravos de apetrechos tecnológicos que cada vez mais nos fazem infelizes, pois nunca serão o suficiente. O ser humano esqueceu que faz parte da natureza, destruindo-a consequentemente destruímos a nós também. De forma bem singela o velhinho disserta sobre uma verdade, o homem cria coisas das quais não precisa, mas que julga ser indispensáveis. O que na verdade necessitamos não cuidamos. Parece clichê, mas é fato que caminhamos para um futuro não muito generoso.

"Sonhos" é um filme como poucos, consegue nos inebriar diante as imagens abrindo portas da nossa mente, cada sonho contém suas particularidades, uma explosão visual e emocional que traz críticas à sociedade em relação ao modo que vivemos.
É arte pura, um deslumbre visual e uma avalanche reflexiva. Cada vez que se pensa a respeito mais e mais pensamentos vêm à tona. Kurosawa nos deu uma linda obra-prima que deve ser vista por todos, e principalmente passada adiante.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Marina - Carlos Ruiz Zafón

"O tempo faz com o corpo o que a estupidez faz com a alma: Apodrece."

Na Barcelona dos 80, o menino Oscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 40. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Óscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças - a macabra aventura que marcou sua juventude e também o terror e a loucura que cercaram a sua história de amor.
A literatura de Zafón é repleta de mistérios e obscuridades, "Marina" tem uma aura gótica, podemos passear pelas ruas da Barcelona antiga em meio à chuva e vislumbrar arquiteturas antiquadas, e é num velho casarão que Óscar decide se aventurar, impressionado por uma bela voz vinda de um gramofone entra na casa e se depara com vários objetos, e um deles é um relógio de bolso quebrado, de repente aparece alguém, se assusta e sai correndo. Ao chegar ao internato percebe que está com o relógio no bolso, e então resolve devolvê-lo no dia seguinte. No caminho conhece Marina, filha de Germán a quem pertence o relógio quebrado, daí por diante uma bela amizade acontece. Num outro dia Marina leva Óscar a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre a mesma data, a mesma hora. Curiosos passam a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra marionetes vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona.
A história é sob a ótica de Óscar, um menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade no casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. Em "Marina", o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo a cada capítulo novas pistas e personagens de uma intricada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Óscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é a mulher que vai ao encontro deles. Essa estranha faz com que desenterrem o curioso caso do cientista Mijail Kolvenik.

Óscar é um personagem cativante, quem leu "A Sombra do Vento" com certeza o assimilará a Daniel Sempere, mas para deixar claro "Marina" veio antes, é o quarto livro de Zafón, porém chegou depois devido ao grande sucesso de "A Sombra do Vento". E segundo o próprio autor "Marina" é uma leitura que agrada tanto aos mais novos, como também os adultos. Com 189 páginas é de fácil absorção e muito intrigante, já que seus mistérios se misturam a personagens interessantes e sombrios. Óscar e Marina tentam decifrar o mistério da mulher de negro, e por conta disso se aventuram em situações surreais.
O universo de Zafón é bem particular e muito encantador, abrange a fantasia, o romance, o suspense, ele perpassa por vários gêneros e mesmo assim nenhum o define. Sua escrita é linda, nos deixa apreensivos, aterrorizados e deslumbrados. Esse é o tipo de literatura atual que vale a pena, entretém, mas sempre ficará em um lugar especial de nossa memória.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Mundo de Sofia (Sofies Verden)

"O Mundo de Sofia" (1999) é uma adaptação da famosa obra literária homônima do norueguês Jostein Gaarder, que já vendeu mais de 20 milhões de livros ao redor do mundo e foi traduzido para mais de 50 idiomas. Assim como no livro, o filme pode muito bem servir de iniciação à filosofia.
Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos, e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo em que vivemos. Os postais foram mandados do Líbano, por um desconhecido chamado Albert Knag, para uma tal de Hilde Knag, jovem que Sofia igualmente desconhece. A partir dessas mensagens, ela se torna aluna do misterioso Alberto Knox, que a acompanha em uma fascinante jornada pela história da filosofia. Ele começa totalmente anônimo, mas conforme a história desenrola ele revela cada vez mais sobre si mesmo. Juntos, os dois percorrem o desenvolvimento do pensamento filosófico, desde Sócrates até os filósofos dos dias atuais, passando pela Idade Média, Iluminismo, Revolução Francesa e pela Revolução Russa. E enquanto percorrem esta caminhada, eles descobrem que são apenas personagens fictícios criados pela imaginação de um escritor, e começam a elaborar um plano para escapar para a realidade.
Quando estudamos o nascimento da filosofia na Grécia, vemos que os primeiros filósofos, os pré-socráticos, se dedicavam a um conjunto de indagações principais: Por que e como as coisas existem? Qual foi a origem da natureza e quais as causas de sua transformação? Essas indagações colocavam no centro a pergunta: O que é o Ser? Por esse mesmo motivo, considera-se que os primeiros filósofos não tinham uma preocupação principal com o conhecimento, isto é, não indagavam se poderíamos ou não conhecer o Ser, mas partiam da pressuposição de que o podemos conhecer, pois ele é a presença e manifestação das coisas para os nossos sentidos.
Geralmente buscamos conhecer coisas sem importância, mas será que somos os artistas principais dessa história? Sempre perguntamos quem somos? De onde viemos? Para onde iremos? Isso faz parte da nossa vida, mas devemos exercitar nossa consciência crítica e aguçada para buscarmos sempre o conhecimento que podem nos mudar, e transformar a sociedade e a realidade que nos cerca. Obviamente mudando-a para melhor.
"O Mundo de Sofia" é uma introdução à filosofia, de forma simples nos é explicado o quanto é importante nos perguntarmos sobre a vida em si. A adaptação é um tanto quanto cansativa, pois pula-se partes, ou melhor, filósofos interessantes, e aplicam-se as teorias mais básicas, dando foco mais na Sofia adolescente, mostrando assim seu relacionamento com a mãe e seus amigos. Se for procurar profundidade filosófica neste filme, não encontrará, ele serve mais como curiosidade para quem leu o livro e se apaixonou pelo seu conteúdo que vai da fantasia à filosofia num piscar de olhos.

Dividido em duas partes de 1h e 30min cada, já que originalmente foi lançado como minissérie, "O Mundo de Sofia" é um convite fabuloso a este universo complexo, que nos faz abrir os olhos diante as pequenas coisas que julgamos não ser de grande valia, e principalmente, nos ensina que as perguntas são mais importantes do que as respostas.

"Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de forma consciente."