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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Meu Bolo Favorito (Keyke Mahboobe Man)

"Meu Bolo Favorito" (2024) dirigido por Maryam Moqadam e Behtash Sanaeeha (O Perdão - 2020) é um filme iraniano que aborda o romance na velhice de uma forma leve e sensível apesar do contexto repressor e violento do país. É daquelas histórias que nos arranca vários sorrisos sinceros tamanha delicadeza dos personagens. Acompanhamos a rotina tediosa de Mahin (Lili Farhadpour), uma senhora de 70 anos que adora cozinhar, cuidar de suas plantas e costuma desviar de suas vizinhas fofoqueiras, além de ter o hábito de passar noites em claro assistindo TV. De tempos em tempos organiza reuniões com amigas em que tomam chá e conversam sobre os mais variados assuntos, quase sempre de doenças ou elas influenciando-a fazer coisas novas, desde que seu marido morreu e sua filha se mudou para outro país sua vida tem sido sempre a mesma, completamente sozinha. Depois desse dia Mahin decide que precisa arranjar uma companhia. Ela se arruma, pega um táxi e sai para a cidade caminhar na praça na esperança de encontrar alguém, não demora muito e observa um senhor almoçando sozinho no restaurante dos aposentados, decidida vai atrás dele e pede exatamente o táxi em que Faramarz (Esmaeel Mehrabi) trabalha. Durante a corrida Mahin joga charme e é correspondida, ao final o convida para entrar em sua casa, claro que com muita descrição, o decorrer desse encontro se dá com muito vinho, comida, música e ótimas conversas. Mergulhamos nas angústias e lembranças de ambos que vivenciaram cenários diferentes e duas realidades no país, viram a revolução acontecer tornando-o numa teocracia, autoritarismo extremo em que qualquer deslize gera prisão, a polícia da moralidade vigia cada passo e para Mahin que se apresenta uma senhora comportada percebe-se que há uma mulher livre com muita sede de viver, a solidão tanto de um como de outro machuca, mas a alegria deles contemplando o jardim comendo e bebendo vinho (feito em casa, pois também é proibido), é uma das cenas mais lindas do filme entre tantas outras. Há um quê de ingenuidade na forma que se relacionam, não sabem muito bem o que fazer além de trocar conversas, à medida que o vinho faz efeito intimidades são reveladas com imensa sensibilidade, melancolia e esperança. 

É um filme de introspecção que caminha a lentos passos, como o caminhar de Mahin, que propõe o olhar para o outro, de parar e observar detalhes, o encontro deles é permeado de poesia e tranquilidade, mas também de angústia e um certo desespero, porém regado a momentos de alegrias sinceras, de compartilhamento genuíno e palavras que há muito estavam trancafiadas no peito. 
As atuações são belíssimas, o olhar e o corpo falam o tempo todo, a troca de roupas de Mahin, seu esmero em cozinhar e servir 
Faramarz, cujas feições tristes dão lugar a sorrisos duradouros.

"Meu Bolo Favorito" tem instantes grandiosos em suas sutilezas, é imersivo em demonstrar que apesar das limitações e restrições o desejo pelo compartilhamento da vida é uma chama que ainda arde dentro dos personagens. A solidão é aliviada, mas o gosto amargo não deixa de existir, pois apesar de ser ficção a realidade da situação no país está presente a todo momento lembrando o quão forte é a luta daqueles que querem celebrar a vida.

*Os diretores foram oficialmente condenados pela justiça iraniana, 14 meses de prisão discricionária (pena suspensa por 5 anos) mais multa por propaganda contra o regime iraniano, desrespeito às leis islâmicas e por propagar prostituição e libertinagem, além de distribuição ilegal do filme sem a autorização das autoridades iranianas. Tiveram seus passaportes confiscados. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

The Banshees of Inisherin

 

"The Banshees of Inisherin" (2022) dirigido por Martin McDonagh (Três Anúncios Para um Crime - 2017) é um filme que exala solidão e um existencialismo potente que nos faz rir de desespero, particularmente a narrativa me conduziu como se estivesse lendo um livro, devagar e com intervalos contemplativos belíssimos, quadros melancólicos e que evoluem à medida dos acontecimentos cotidianos e mal-entendidos risíveis. Apesar da erma ilha aparentar uma certa paz e o tédio controlar a vida de seus habitantes, do outro lado o estrondo da guerra civil está a todo vapor. Situado numa ilha remota na costa oeste da Irlanda nos idos dos anos 20, acompanhamos um impasse entre os amigos de longa data Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson). Inesperadamente Colm põe fim à amizade deles e Pádraic fica desesperado amparado pela sua irmã Siobhán (Kerry Condon) e pelo problemático jovem Dominic (Barry Keoghan), esforçando-se para recuperar o relacionamento e recusando-se a aceitar um não como resposta, os esforços repetidos de Pádraic apenas fortalecem a determinação de seu ex-amigo e, quando Colm entrega um ultimato, os eventos sucedem-se rapidamente com consequências inesperadas. O rompimento dessa amizade também atinge outros habitantes da ilha fazendo com que encarem o próprio abismo, como Dominic, um rapaz que sofre violências por parte do pai e que é esnobado pela irmã de Pádraic. Colm está cansado de tudo e diante da finitude da vida dedica seus dias a deixar um legado através da arte, já o ingênuo Pádraic se apega ao raso da vida, simples e gentil atravessa seus dias de puro nada, seu relacionamento com a irmã às vezes o traz para realidade, já que Siobhán quer sair da ilha por não aguentar mais o barulho que o silêncio faz. A situação simplesmente vai se transformando em algo desesperador para Pádraic, teimoso insiste em ir atrás de Colm e o segue pelos lugares e não aceita que o amigo tenha parado de gostar dele. A simplicidade desse personagem aos poucos vai sendo substituída por atitudes chatas e vergonhosas, até surgem sentimentos de pena ou graça, mas à medida que a narrativa transcorre também percebemos o endurecimento desse personagem, ele vai perdendo a ilusão e começa a articular maldades.

É um filme primoroso, os diálogos que proporcionam reflexões, a fotografia e o cenário imenso dessa ilha repleta de pedras confluindo com a solidão que cada personagem sente, a angústia nos olhos de Pádraic pelo fim da amizade, sua insistência chata, seu amor por Jenny, sua mini mula que também é afetada por essa guerra travada entre os dois. Pádraic é limitado e amarrado ao lugar que mora, sua ilusão de felicidade é quase ingênua pela falta de conhecimentos acerca de tudo, ele leva a vida de modo rudimentar, o que irrita Colm, que nessa fase de vida já não quer perder tempo com bobagens e até engraçado quando diz que Pádraic é mais interessante bêbado.
 
Há muitos aspectos e nuances que podemos trazer para nosso cotidiano, amizades desfeitas do nada, a falta de profundidade nas relações, a solidão mascarada por inúmeros artifícios/vícios, o tédio, angústias e ansiedades geradas a partir de expectativas que os outros depositam em nós, etc. A melhor personagem que encara com inteligência o meio em que vive e tem uma tomada de decisão perspicaz é Siobhán, ela é sincera ao dialogar, encara seus medos e suas peculiaridades e se move antes de ter seu ser corrompido ou destruído.
"The Banshees of Inisherin" é uma crônica excêntrica e por vezes absurda e apesar de ter um tom cômico, na verdade, é triste e desesperançosa, sua melancolia atinge em cheio ao nos colocar diante da solidão e das complexidades que abrangem a finitude da vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O Menu (The Menu)

"O Menu" (2022) dirigido por Mark Mylod é um filme ácido e crítico que caminha por um suspense nada convencional, repleto de reviravoltas acaba sendo gostoso de degustar, diferente dos pratos que são expostos ao longo da história. É sempre satisfatório assistir um longa cuja história expõe as breguices estrambólicas da burguesia que faz questão de pagar para ter exclusividade em experiências, o cerne da narrativa é basicamente a gourmetização que acaba destruindo o amor envolvido no ato de preparar um prato para um cliente.
Tyler (Nicholas Hoult) é um entusiasta da alta gastronomia que convida Margot (Anya Taylor-Joy) para uma experiência única em um restaurante disputadíssimo que se localiza em uma ilha onde cultivam seus próprios alimentos, absolutamente todos. A cozinha desse famoso restaurante é liderado pelo renomado chef Slowik (Ralph Fiennes). Junto deles estão também outros singulares clientes. Por exemplo, um astro de cinema e sua assistente, três funcionários do mercado financeiro, uma importante crítica gastronômica e seu editor, além de um casal milionário.
O fato é que esses clientes não estão lá à toa, a única que não deveria estar é Margot, ela foi chamada de última hora por Tyler, isso causa impaciência no chef e bagunça todo seu cronograma, os pratos começam a serem servidos e enquanto Tyler se delicia com porções ínfimas, Margot desdenha, ela não faz parte da elite e não consegue achar nada satisfatório nesse lugar. A cada prato do menu situações pessoais dos convidados são expostas, o jeito autoritário e estranho do chef só eleva o terror, são jogados no ventilador hipocrisias e vaidades, o ego e o poder adquirido pelo dinheiro, pouco a pouco as máscaras se desfazem e alcança a violência, que para alguns também não é considerada real. Todos nesse espaço são pessoas deploráveis, Tyler é puxa-saco, prepotente e quando seu ídolo o coloca à prova se mostra um verdadeiro farsante. Os três amigos do mercado financeiro são os clássicos ricos que dão carteirada, mas se olhar mais de perto se vê a fraude. O ator decadente que pensa que todos ao redor o conhece, os críticos gastronômicos cuja soberba exala a quilômetros de distância quando analisam um prato, e também o homem que trai a mulher e que possui um segredo horroroso. O desenrolar vai passeando por um humor sádico e quanto mais se adentra no menu pior fica.
 
Em dado momento o chef diz para Margot escolher um lado e nisso está embutido a luta de classes, de um lado a exausta classe trabalhadora e do outro a caricatura do rico esnobe que não valoriza o serviço que consome e insatisfeito não compreende aquilo que sua fortuna compra, o que transforma qualquer prazer em objeto de luxo. Tudo vira questão de status e exclusividade quanto mais exorbitante são os preços. É bem interessante traçar paralelos com a realidade e perceber lugares que se vendem para pessoas especiais.
 
"O Menu" traz uma atuação impecável de Ralph Fiennes, que interpreta com rigor e elegância um ser humano frustrado, ele não gosta das pessoas que consomem seus pratos e busca uma vingança incluindo a si mesmo. Só apenas quando Margot pede um X-burguer, Slowik quebra essa armadura e o faz relembrar de quando cozinhava com amor e o quanto os clientes saboreavam com prazer o lanche. É uma cena maravilhosa!
Mesmo não se aprofundando tanto em seus personagens faz um excelente retrato de uma burguesia cafona e, sobretudo, o filme concebe um suspense inventivo e que nos faz não desgrudar os olhos da tela.  
*Disponível no catálogo da Star+

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Melhores Séries Vistas de 2022

  

Segue uma singela lista das melhores séries vistas de 2022, são obras de imensa qualidade e com certeza inesquecíveis.

07- "Amor e Anarquia" (Kärlek & Anarki - Suécia) 2 Temporadas - 2020/2022

Amor e Anarquia conta a história de Sofie Rydman (Ida Engvoll), uma consultora bem-sucedida, casada e mãe de dois filhos. Quando Sofie é contratada para modernizar uma antiga editora, ela conhece o jovem técnico de TI Max Järvi (Björn Mosten), iniciando um arriscado jogo de flerte com ele. Secretamente, Sofie e Max se desafiam a tomar atitudes e decisões que contradigam as normas sociais. A brincadeira parece inofensiva, mas, à medida que os desafios aumentam, os dois precisam lidar com as perigosas consequências de sua relação. 

06- "Terra à Venda" (Grond - Bélgica) 1 Temporada - 2022

Em Soil, quando um imigrante muçulmano morre na Bélgica, a família enfrenta o dilema de enterrar o corpo no país em que se encontram, ou realizar o desejo do falecido e retornarem para sua terra natal. Isso desperta no jovem Ishmael “Smile” Boulasmoum o desejo de começar um novo empreendimento. Ele e sua irmã acabaram de herdar os negócios do pai, e Smile acredita que exista uma oportunidade incrível para eles se começarem a trazer terra do Marrocos para que os imigrantes possam enterrar seus familiares no solo de sua nação. A partir disso, a família começa um negócio funerário que, apesar de lucrativo, irá se mostrar cheio de obstáculos e imprevisibilidades no caminho ao sucesso. 

05- "As Vidas Secretas da Família Uysal" (Uysallar - Turquia) 1 temporada - 2022

Oktay Uysal (Öner Erkan), um arquiteto de 44 anos está passando por uma séria crise de meia-idade. Oktay está tentando superar a ansiedade desse momento importante vivendo uma vida dupla. A primeira vista, ele aparenta ser apenas mais um pai de família, com um carro, uma casa e um trabalho que paga as contas. Por trás dessa fachada condicionada, ele é um punk como sempre foi quando era jovem. Dessa forma, Oktay decide retornar às suas raízes: usar roupas rasgadas, moicano e ouvir música barulhenta. Contudo, Oktay não é o único passando por um momento difícil. Em casa, cada pessoa de sua família passa por suas próprias crises de identidade e, eventualmente, suas jornadas individuais irão se chocar com o lado punk escondido de Oktay. Só elogios para essa série que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.

04- "Ollie, o Coelhinho Perdido" (Lost Ollie - EUA) 1 Temporada - 2022


A minissérie mistura duas narrativas complementares para compor uma bonita história de amizade. De um lado, acompanhamos a épica jornada de um brinquedo, que precisa enfrentar alguns desafios para reencontrar o menino que o perdeu. Ao mesmo tempo, conhecemos também a história dessa criança, que no processo acabou perdendo muito mais do que seu melhor amigo. A produção nos convida a olhar para o passado e lembrar daqueles companheiros que já deixamos para trás, mas que foram tão importantes em nossas vidas.

03- "Dahmer: Um Canibal Americano" (Monster: The Jeffrey Dahmer Story - EUA) 1 Temporada - 2022

Dahmer: Um Canibal Americano, minissérie de Ryan Murphy, acompanha a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters). A produção explora a juventude do assassino até sua vida adulta e traz um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos. Nascido na cidade de Milwaukee, Dahmer aterrorizou o estado de Wisconsin na década de 1980. Além dos brutais assassinatos, Jeffrey também cometia violência sexual e tortura contra sua vítimas. Seus crimes hediondos o tornaram um dos serial killers mais conhecidos e temidos dos Estados Unidos. Mesmo sua vizinha, Glenda Cleveland (Niecy Nash), tentando de várias maneiras denunciar o comportamento suspeito de Dahmer durante anos, a polícia a ignorou, facilitando os atos do serial killer. Tendo como alvo principalmente homens gays negros, Dahmer saiu impune por anos pelo simples fato das autoridades ignorarem o desaparecimento da vítimas. 

02- "O Urso" (The Bear - EUA) 1 Temporada - 2022

Na série de comédia dramática The Bear, Carmen Berzatto (Jeremy Allen White) é um jovem chef que herda um restaurante e tenta transformar o lugar em um grande negócio. No entanto, Carmy enfrenta várias dificuldades e busca ajuda nos diversos funcionários para tentar melhorar e transformar o The Beef em um dos maiores e melhores restaurantes de Chicago. A trama explora como cada personagem lida com suas vidas pessoais enquanto tentam alavancar suas carreiras na indústria alimentícia. Além das ambições profissionais e a rotina estressante do restaurante, a relação de Carmy com a família é cheia de tensão, especialmente depois do suicídio do irmão que impactou a todos. A produção discute comida, família e a rotina insana dos restaurantes. Carmy batalha para elevar seu estabelecimento e a si mesmo ao lado da equipe de cozinha carrancuda que aos poucos se transforma em uma nova família. 

01- "Better Call Saul" (EUA) 6 Temporadas - 2015/2022

Gus Fring (Giancarlo Esposito) está firme em sua decisão de acabar com os Salamanca, o que deixa Nacho (Michael Mando) em uma posição cada vez mais desconfortável, trabalhando para os dois lados. Enquanto isso, Saul (Bob Odenkirk) e Kim (Rhea Seehorn) se esforçam para desacreditar Howard (Patrick Fabian) na tentativa de concluir o caso Sandpiper. Paralelamente, através de vislumbres do futuro, acompanhamos a nova vida de Saul e os percalços por ele enfrentados após seu envolvimento nos negócios de Walter White (Bryan Cranston). História fechada com chave de ouro, uma obra-prima e sem dúvida, a melhor spin-off da história das séries de TV. Personagens icônicos!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Melhores Filmes Vistos de 2022

Selecionei 13 filmes por puro gosto e experiência pessoal, ao longo do ano assisti poucos filmes, mas esses merecem muito entrar na lista.

13- "Lamb" (Cordeiro - 2021) Islândia

María (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), um casal que vive isolado em sua fazenda na Islândia, fazem o parto de um misterioso recém-nascido entre as ovelhas de seu celeiro. A inesperada perspectiva de uma vida familiar lhes traz muita alegria e eles resolvem criar o bebê como se fosse sua própria filha. "Lamb" (2021) dirigido por Valdimar Jóhannsson é um filme que mescla fantasia e horror a uma narrativa que convida o espectador a exercer sua reflexão e permite uma criatividade sem igual, o desenrolar vai no oposto das histórias imediatistas que não criam vínculos com suas personagens e não produzem sensações mais profundas e que apenas visam saciar a expectativa do público. Muito se compara "Lamb" ao longa de Robert Eggers, "A Bruxa" (2015), acredito que tenha algo em comum em seu cerne, como a ancestralidade que o ser humano é incapaz de entender, sobre sua relação de egocentrismo, desconhecimento e menosprezo com a natureza que acaba gerando atitudes de poder e que mais tarde serão cobradas.

12- "Os Inocentes" (The Innocents/De Uskyldige) 2021 - Dinamarca/Suécia/Finlândia/Noruega/França/Reino Unido

Acompanhamos Ida, uma menina de nove anos que se muda com a família para os arredores de Oslo, Noruega, durante o verão. Junto com sua irmã Anna, que possui autismo, a menina tenta se ajustar ao novo ambiente e faz amizade com duas outras crianças. Quando estão longe dos adultos, esses quatro amigos descobrem que possuem poderes sobrenaturais. O que começa como uma inocente brincadeira, logo se transforma em um jogo sombrio e perigoso. "The Innocents" (2021) dirigido por Eskil Vogt (Blind - 2014) é um filme profundo repleto de nuances que retrata a maldade entrando aos poucos na vida de algumas crianças, entre a ociosidade e a solidão do dia a dia, elas descobrem que possuem poderes e isso é retratado com potência e sem ponderações, não há limites quando o mal é permeado pela inocência, e por isso é tão assustador e perturbador. Vale ressaltar o brilhantismo do elenco infantil, os sentimentos estão à flor da pele, os olhares lançados, os silêncios, as descobertas. Visceral define. Também vale dizer que Eskil Vogt é um exímio roteirista, sua criatividade explode na tela, lembrando sua parceria com Joachim Trier, entre eles: "Oslo, 31 de Agosto" - 2011 e "Thelma" - 2017.

11- "Benedetta" (2022) França/Bélgica/Holanda

No século XVII, uma freira italiana faz parte de um convento na Toscana desde quando era criança. Ela sofre de um distúrbio e tem perturbações e visões religiosas e eróticas. Assistida por uma companheira, a relação entre as duas acabam se tornando um romance amoroso.

 10- "Red Rocket" (2021) EUA


Mikey é um astro decadente de filmes adultos cuja carreira terminou. Enfrentando problemas financeiros em Los Angeles, ele decide rastejar de volta para sua pequena cidade natal, no Texas, para viver com a ex-esposa e a sogra. Quando essa família disfuncional parece estar fazendo as coisas funcionarem, Mikey conhece uma jovem chamada Strawberry trabalhando na caixa registradora de uma loja de donuts local e imagina que a garota pode ser a solução para seus problemas – e a volta por cima em sua carreira.

09- "Men" (2022) Reino Unido 

Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios.

08- "Resurrection" (2022) EUA 

"Resurrection" (2022) dirigido por Andrew Semans é um filme magnético e desconfortante, a decaída psicológica da protagonista, sua paranoia persistente e o desenrolar surreal causam um misto de terror e ansiedade. Rebecca Hall (Christine - 2016, The Night House - 2020) está esplêndida ao ir de uma mulher altiva e segura para um total desequilíbrio que a alavanca para fora da realidade. Somos apresentados a Margaret, bem-sucedida, ocupada com sua carreira e maternidade, superprotetora com sua filha adolescente Abbie (Gracie Kaufman) que logo irá embora para a faculdade, sua rotina consiste nisso, além de se relacionar com um cara casado e dar conselhos sobre relacionamento tóxico a uma estagiária. O desencadear dos eventos acontecem sem mais nem menos, um sonho estranho em que ela encontra um bebê dentro do forno e em outro dia eventualmente numa palestra vislumbra um rosto que lhe causa pânico instantâneo. Ela sai correndo imediatamente do local e a partir disso sua derrocada psicológica acontece. David (Tim Roth), o homem que assombra Margaret faz parte de um passado traumático que descobrimos aos poucos e bizarramente ser bem profundo, as insanidades ditas por ele, o joguinho psicológico medonho que cresce à medida que os encontros ocasionais se dão, e isso é uma das coisas mais estranhas do filme, ele simplesmente aparece em todo canto, em um banco na praça, encostado em alguma parede, então não fica muito claro se isso é apenas algo da cabeça de Margaret, como um pesadelo horrível do qual não há como acordar, essa perturbação de não sabermos se é real ou não gera ansiedade e desconforto, ainda mais quando ela perde totalmente o equilíbrio e vive apenas em função de seguir David.

07- "Não Fale o Mal" (Speak No Evil - 2022) Dinamarca/Holanda 

Após conhecerem uma família holandesa durante suas férias na Tosca, uma família dinamarquesa recebe o convite de passar o fim de semana na casa de seus novos amigos. Mas não demora muito para que mal-entendidos revelem que a família holandesa não é quem diziam ser.

06- "Nada de Novo no Front" (Im Westen Nichts Neues - 2022) Alemanha/EUA

Paul Baumer e seus amigos Albert e Muller se alistam voluntariamente no exército alemão, movidos por uma onda de fervor patriótico. Mas isso é rapidamente dissipado quando enfrentam a realidade brutal da vida no front. Em meio à contagem regressiva, Paul deve continuar lutando até o fim, com nenhum objetivo além de satisfazer o desejo do alto escalão de acabar com a guerra com uma ofensiva alemã.

05- "Não! Não Olhe!" (Nope) 2022 - EUA

Na zona rural da Califórnia, os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer) administram uma grande fazenda de treinamento de cavalos. Mas tudo muda quando seu pai Otis (Keith David) morre de forma misteriosa sob uma nuvem sinistra. A partir desse momento, moradores de toda a vizinhança passam a testemunhar um mal terrível se aproximando pelo céu e deixando um rastro de morte e destruição.

04- "Pleasure" (2021) França/Holanda/Suécia

Uma garota sueca de 20 anos tenta ser uma estrela pornô em Los Angeles. Trabalhando na categoria "amador adolescente" e compartilhando um apartamento com outras atrizes, Jessica pretende escalar todos os degraus e se tornar uma verdadeira estrela pornô, tornando-se um mito e trabalhando seu corpo como uma atleta.

03- "O Milagre" (The Wonder - 2022) USA/Reino Unido/Irlanda

Em 1859 uma enfermeira inglesa é chamada a uma pequena vila na Irlanda para investigar o que alguns afirmam ser uma anomalia médica ou um milagre. Lá, ela encontra uma garota de 11 anos que parou de comer há meses e continua viva.

02- "Triângulo da Tristeza" (Triangle of Sadness - 2022) Suécia/Alemanha/Reino Unido/França 

Os modelos Carl e Yaya estão navegando pelo mundo da moda enquanto exploram os limites de seu relacionamento. O casal é convidado para um cruzeiro de luxo com uma galeria de passageiros milionários, um oligarca russo, traficantes de armas britânicos e um capitão de personalidade peculiar, alcoólatra e adorador de Marx. A princípio, tudo parece instagramável. Mas uma tempestade começa a se formar e o cruzeiro termina de forma catastrófica. Carl e Yaya se veem abandonados em uma ilha deserta com um grupo de bilionários e uma das faxineiras do navio. É então que a hierarquia entre eles subitamente se transforma. "Triângulo da Tristeza" (2022) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior, 2014 - The Square, 2017), ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano é um filme que expõe sem metáforas o privilégio da elite, daqueles que não aceitam não e cujo tédio é sanado por situações esdrúxulas. O longa abrange algumas temáticas interessantes que envolvem o capitalismo, como os influencers digitais e a maneira fácil de se ganhar montantes de dinheiro com publicidade, a imagem de perfeição e luxo atraem cada vez mais pessoas para esse mundo e no primeiro capitulo acompanhamos um casal de modelos que, por exemplo, brigam num restaurante sobre quem deveria pagar a conta. As situações exploradas no decorrer são permeadas por muito sarcasmo e o diretor faz questão de provocar o espectador, as pessoas são péssimas e o desenrolar dos acontecimentos só realçam o quão ridículos são.

01- "Pearl" (2022) Canadá/EUA

 
Aprisionada na fazenda isolada de sua família, Pearl (Mia Goth) deve cuidar de seu pai doente sob a vigilância amarga e autoritária de sua mãe devota. Desejando uma vida glamourosa como ela viu nos filmes, todas as ambições, tentações e repressões da personagem colidem, resultando na impressionante história de origem da icônica vilã de ‘X’.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness)

 *Contém Spoilers

"Triângulo da Tristeza" (2022) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior, 2014 - The Square, 2017), ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano é um filme que expõe sem metáforas o privilégio da elite, daqueles que não aceitam não e cujo tédio é sanado por situações esdrúxulas. O longa abrange algumas temáticas interessantes que envolvem o capitalismo, como os influencers digitais e a maneira fácil de se ganhar montantes de dinheiro com publicidade, a imagem de perfeição e luxo atraem cada vez mais pessoas para esse mundo e no primeiro capitulo acompanhamos um casal de modelos que, por exemplo, brigam num restaurante sobre quem deveria pagar a conta. As situações exploradas no decorrer são permeadas por muito sarcasmo e o diretor faz questão de provocar o espectador, as pessoas são péssimas e o desenrolar dos acontecimentos só realçam o quão ridículos são. Dividido em três capítulos acompanhamos no primeiro momento Carl (Harris Dickinson), um modelo que está numa espécie de entrevista onde é ordenado a sorrir e parar em segundos e depois desfilar com ritmo, no caso é especificado que modelos homens ganham menos e logo o vemos com sua namorada Yaya (Charlbi Dean), também modelo em um restaurante caríssimo cuja conta a ser paga é discutida por um interminável, cansativo e raso diálogo sobre ela ganhar mais. A cena corta e logo os vemos em um iate luxuosíssimo tomando banho de sol, Yaya ganhou a viagem em troca de publicidade e os dois desfrutam do melhor que há, cardápio refinado e experiência única. Nesse iate acontecem situações incômodas envolvendo funcionários e seus clientes, inclusive Carl numa cena patética de ciúme, na verdade seu ego fica mexido ao ver um funcionário sem camisa consertando algo enquanto Yaya olha, o cara é bonito e ele se aborrece, então vai reclamar, logo depois vemos o cara indo embora do navio. A relação da classe trabalhadora com esses milionários é escancarada sem dó e retrata a EXPLORAÇÃO - escrevi em caixa alta porque essa palavra precisa ser gritada, e é exatamente isso o que o filme faz, os coloca numa posição de arrogância espalhafatosa que gera ânsia, se revela de maneira explícita e desenha muito bem a hierarquia, inclusive entre os funcionários designando regras absurdas.

Dentre esses passageiros conhecemos com mais afinco Dimitry (Zlatko Buric), um milionário russo que se define "Rei da Merda", já que sua fortuna advém de fertilizantes e adubos, o casal britânico Winston (Oliver Ford Davies) e Clementine (Amanda Walker), que enriqueceu vendendo granadas, além de outros que no decorrer ganham cenas icônicas, como Vera (Sunnyi Melles) e sua polêmica cena de vômito e caganeira e Therese (Iris Berben), que vitimada por um acidente vascular cerebral depende da cadeira de rodas e da bondade dos outros, ela consegue pronunciar uma única frase que dependendo a situação muda de entonação. Sem deixar de evidenciar a maravilhosa participação de Woody Harrelson, como o capitão bêbado Thomas Smith, principalmente no "duelo" de citações que trava com o russo sobre capitalismo e comunismo. Enquanto o navio sofre com uma tempestade, acaba a luz e o trágico está por vir, situações das mais estranhas acontecem, primeiro que ninguém liga para a tempestade e comem iguarias e enchem a cara de champagne, até que alguns passageiros comecem a iniciar o show de horrores.
 
O corte para o terceiro capitulo se dá numa explosão e logo vemos alguns sobreviventes chegando a uma ilha, aí se dá uma inversão de poder já que os ricos não sabem fazer nada para além de suas breguices, sempre foram servidos e para sobreviver precisarão eleger como líder Abigail, a faxineira, interpretada magistralmente pela filipina Dolly De Leon. O jogo de poder começa e as relações vão sendo testadas, principalmente a do casal de modelos, que em troca de comida aceita-se de tudo. O território se torna habitável e Abigail se vê numa posição confortável da qual nunca experimentou. O final do filme também joga com o espectador e promove uma série de análises das quais passam por inúmeros possíveis desfechos, a moralidade e as sentenças não são dadas de bandeja, o prato é dado e nós o comemos, mas cada um o digere de uma forma. 
"Triângulo da Tristeza" não poupa ironia e cutuca estereótipos, hipocrisias, preconceitos, privilégios, a moralidade humana de forma crua e debulha os absurdos disso tudo com risibilidade e perspicácia. Grande filme!
 
Nota: A atriz sul-africana Charlbi Dean de 32 anos infelizmente faleceu em agosto desse ano de uma doença repentina, vinda de uma carreira longa de modelo estava se firmando como atriz na série "Raio Negro".

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Minha Vida Perfeita (Moje Wspaniale Zycie)

"Minha Vida Perfeita" (2021) dirigido por Lukasz Grzegorzek (A Filha de um Treinador - 2018) é um filme polonês que retrata as facetas de uma mulher que possui muitas responsabilidades e que diante da falta de afeto da família cria uma vida paralela da qual mais a frente acarretará uma série de paranoias e um amontoado de desentendimentos.
Joanna (Agata Buzek), de meia-idade, tenta incansavelmente conciliar ser mãe, filha, avó, esposa, amante, dona de casa e professora do ensino médio. Mas ela parece estar perdendo a paciência. Joanna é uma mulher que detém grandes responsabilidades, principalmente com a mãe que está perdendo a memória devido ao Alzheimer, além disso precisa lidar com a presença do filho mais velho que mora na casa com sua esposa e o bebê, não existe um tempo para si dentro dessa configuração que ainda inclui seu marido, o diretor da escola que leciona e o filho adolescente que parece não suportar o ambiente e se fecha em seu mundo. Ela só respira quando depois de suas aulas particulares na antiga casa de sua mãe coloca uma música alta e fuma um baseado, lá ela encontra sua feminilidade novamente e se encontra com um professor excêntrico, são momentos únicos e que servem para entendermos seu cansaço em relação a tudo. 
A história não está interessada no que é certo ou errado, simplesmente desenvolve a narrativa de maneira intimista e cadenciada a fim de expor a vida como ela é realmente, sem grandes acontecimentos, mas revela o quanto vale um diálogo na tomada de decisões importantes, porém nem sempre a vontade de conversar existe, o que torna algo que poderia ser resolvido facilmente em algo desconfortável. É interessante observar o cotidiano dessa família, não há floreios e nem força a barra criando situações para entreter o espectador, mas por muitas vezes a tensão cumpre seu papel nos dando a oportunidade de tentar deduzir quem estará por trás dos bilhetes deixados para Joanna em razão de sua infidelidade, a paranoia agrava quando acha que é algum de seus alunos e o segredo fica cada vez mais difícil de ser mantido. As maneiras que encontra para desvendar quem está por trás das mensagens são tão estranhas que por fim torna todos dessa trama em seres completamente egoístas e sem nenhum elo de afeto, todos ali estão convivendo sob o mesmo teto sem necessariamente se importar, o fato de Joanna não ceder a casa da mãe para o filho mais velho morar - sendo que isso tiraria um baita peso de suas costas - é que ela não quer ser invadida em mais outro espaço, necessita desse momento em que se torna ela mesma sem se importar com sua imagem de mulher perfeita.

É um filme para se assistir sem grandes expectativas, simplesmente é o retrato da vida de uma família que possui defeitos um tanto desagradáveis, e também veja sem julgamentos até porque nunca é por uma única razão que tais coisas acontecem, como a traição por exemplo, e o fato de suas tomadas de decisões ou a falta delas incomodam, mas claramente porque estamos de fora analisando, a complexidade norteia essas questões e o desfecho revela ainda mais essas camadas, como a que envolve o filho adolescente e suas motivações e o grand finale dela chorando com a mãe, os filhos e nora a abraçando, inclusive com o marido presente e logo após o amante chegando visualizando a cena.
 
"Minha Vida Perfeita" pode não agradar por não estar nos moldes convencionais de narrativa e pode parecer um tanto lento e sem foco, mas os personagens e suas ações desconfortáveis nos dizem muito sobre relações e sobre como a maioria lida com a imagem da família perfeita, e essencialmente do como a sociedade enxerga a mulher que é responsável por um conjunto de obrigações que acabam a anulando. Ainda que trate dessas complexidades do ser humano é um filme leve e até descontraído. É sempre vantajoso exercitar o diálogo, mas nem sempre é fácil e nem sempre se quer ter conversas, pois é muito mais fácil seguir com os segredos.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

As Vidas Secretas da Família Uysal (Uysallar)

"As Vidas Secretas da Família Uysal" (2022) dirigido por Onur Saylak é uma minissérie turca espetacular disponível no catálogo da Netflix, uma história repleta de camadas que vai desnudando os personagens pouco a pouco, que provoca o espectador fazendo oscilar nossos sentimentos diante às ações de cada um. Com 8 episódios acompanhamos a família Uysal, que passa por uma crise, todos sem exceção têm suas perturbações e estão à beira de um colapso. Oktay (Öner Erkan) é um arquiteto de 44 anos que se vê sufocado com a rotina, emprego e família, não suporta mais viver desse jeito e resolve escrever uma carta se despedindo, mas acaba que ele desiste e a esconde. No seu íntimo vive uma chama esquecida e a partir de uma visita que faz a sua antiga cidade decide reviver seu "verdadeiro" eu, e então uma vida dupla se inicia, de dia enfrenta os percalços do trabalho e seu chefe instável, Berhudar (Haluk Bilginer), tentando projetar uma prisão que nunca sai, e a noite coloca sua jaqueta cheia de spikes com a escrita "amante do caos" e seu enorme moicano colorido. Mas não é só Oktay que está enfrentando uma crise, sua esposa Nil (Songül Öden) que quer retornar ao mercado de trabalho não consegue por ser considerada velha e isso só faz aumentar sua obsessão com a aparência e sua ânsia por procedimentos estéticos, além de que se infiltra numa teia de mentiras que acarretará uma consequência inesperada. Os filhos também estão perdidos, o adolescente Ege (Umut Yesildag) que claramente possui traços psicopatas e a pequena Ece (Nilay Yeral), uma menina inteligente que não tem nenhuma atenção e que busca um pouco disso numa vizinha. Há também Olcay (Ugur Yucel), o pai tóxico de Oktay. A cada episódio o enredo nos arremessa diante das atitudes desses personagens que estão infelizes mesmo tendo uma condição financeira elevada, a distância só faz esses segredos se tornarem cada vez mais fortes e os sentimentos perante eles mudam a cada instante, ora sentimos empatia, ora asco, a complexidade e o caráter reflexivo dá um ar beirando o perturbador, pois são inúmeras as questões que surgem, como por exemplo, a hipocrisia, o egoísmo, o machismo, a indiferença, a máscara social, e com o passar dos episódios Oktay vai se tornando uma chacota, isso se concretiza ao final quando o amigo expõe a sua mediocridade e hipocrisia, que aquela fantasia nada tem a ver com ser punk, as relações que ele formou com os três desabrigados, esses sim lutando contra o sistema só aumenta as características de uma pessoa entediada e covarde.

Só elogios para essa minissérie que potencializa seu roteiro a cada episódio, que tem uma trilha sonora pontual, atores excepcionais e uma forma de filmar muito original, além dos cenários ao ar livre serem deslumbrantes. Não há desperdício de falas, de cenas, tudo tem uma função que ao final se integra perfeitamente. Esses são alguns pontos positivos apenas, pois a narrativa ainda contém altas doses de sarcasmo e críticas, como o machismo nas empresas denunciando casos de abuso e estupro, o encobrimento da mídia acerca da neblina que toma o país, mas que serve de metáfora para as vidas que são mascaradas diante a sociedade. O peso dessas situações são amenizadas com esperteza, mas não deixa de causar desconforto.
 
"As Vidas Secretas da Família Uysal" é uma minissérie que merece o reconhecimento, bem feita e que foge das produções turcas que se assemelham a dramalhões novelescos e que usam de artifícios básicos e comuns para fisgar o espectador, vale destacar o roteirista Hakan Gunday, que tem outras séries maravilhosas em seu currículo, como "Assassino sem Passado" e "Şahsiyet". Enfim, ainda vale enaltecer o trabalho dos atores e, principalmente, de Haluk Bilginer, como Berhudar, que compôs um personagem cheio de camadas que com o tempo só piorava. Sensacional!

terça-feira, 28 de julho de 2020

Arkansas / The Gentlemen (Magnatas do Crime)

Segue dois filmes que tratam de um tema em comum, o tráfico de drogas, mas que são construídos de forma única, os dois com seus diferenciais são sem dúvidas exemplares maravilhosos que merecem mais reconhecimento. Confira:

"Arkansas" (2020) marca a estreia na direção do comediante Clark Duke, que também corroteirizou e atuou no longa, é uma história que vai ligando os pontos aos poucos, dividida em cinco capítulos acompanhamos a ascensão dos personagens no tráfico de drogas no sul dos EUA, que assim como o narrador e protagonista do filme revela não é tão organizado e que não existe códigos de honra igual a mafia italiana e mexicana.
Kyle (Liam Hemsworth) e Swin (Clark Duke) entram por acaso no tráfico de drogas. Eles trabalham num esquema de sucesso no sul dos Estados Unidos, recebendo ordens de Frog (Vince Vaughn), um chefe que nunca encontraram pessoalmente. Quando uma das entregas leva a um assassinato involuntário, os dois precisam se proteger das represálias que virão.
Tudo começa quando a dupla conhece Bright (John Malkovich), o chefe deles em Arkansas, mas acaba acontecendo um mal-entendido e os dois decidem agir por conta própria alavancando o negócio, daí a trama vai nos colocando a par da vida de Frog, desde a sua entrada no tráfico até o momento em que se põe como o mandante de tudo, o interessante é a maneira que esses personagens se conectam em um emaranhado de situações perigosas, mas o que deixa ainda mais enérgico é o como cada um encara, Kyle, nosso narrador é um homem frio e que diz não ser ambicioso, no decorrer vemos ele lidar com uma possível transformação onde a falta de lealdade e a ganância são o caminho mais fácil, já Swim com seus trejeitos engraçados beirando ao caricato traz um certo respiro para a rotina deles que é permeada de tensão e violência. O humor cínico e as pequenas reviravoltas dão ao longa uma característica única e que surpreende muito em relação ao tema tráfico de drogas.
"Arkansas" é um exemplar que mescla cinismo, violência e apesar de ter bastante energia caminha num ritmo mais lento, seu clima introspectivo é justamente o que gera o magnetismo e aflição. Ótimo!

"Magnatas do Crime" (2019) escrito e dirigido por Guy Ritchie (Snatch: Porcos e Diamantes - 2000) é um filme que chama a atenção de primeira pelo elenco, um show de atuações que ganhamos enquanto viajamos pela ousada trama, o jeito enérgico e envolvente do diretor dá as caras novamente e que primor de narrativa que mescla sensações diversas em menos de um minuto. 
O norte-americano Mickey Pearson (Matthew McConaughey) chega a Londres decidido a vender o seu negócio milionário e viver despreocupadamente de rendimentos, ao lado de Rosalind (Michelle Dockery), a sua belíssima esposa. Contudo, por ser bastante cobiçado e estar relacionado com drogas ilegais, o negócio em questão vai envolver criminosos de toda a espécie e grau, desencadeando intrigas, chantagens, conspirações e assassinatos. 
É um filme de gângster estiloso, super elegante e recheado de tramas fascinantes, os personagens são excêntricos e geram antipatia, principalmente Mickey, desprezível até o âmago. Acompanhamos uma bela introdução que se revelará em determinado ponto em suas inúmeras reviravoltas doidas, mas temos como fio condutor Fletcher (Hugh Grant), um jornalista que deseja chantagear Mickey e seu capanga Ray (Charlie Hunnam), Mickey está vendendo sua secreta e moderna plantação a Matthew (Jeremy Strong), que não está satisfeito com o preço, nesse meio entra uma quadrilha de chineses e o jogo entre eles fica confuso, onde um tenta dar um passo a frente pensando estar dando uma jogada de mestre, só que este já pensou nesta cartada e está mais a frente ainda, além de que muitas situações são essencialmente sorte. Para completar Ray conta com a ajuda do treinador de boxe interpretado por Colin Farrell, que diz não se envolver em questões criminosas, porém executa os pedidos de Ray, aleatoriamente termina por completar esse time de malucos. Sarcástico, violento, repleto de viradas com diálogos inteligentes e sacadas diferenciadas, cenas de ações vibrantes, além da trilha sonora que é simplesmente a perfeição! 
"Magnatas do Crime" é uma obra estilosa, ácida e que trapaceia, feita com asseio em seus mínimos detalhes, como o figurino e acessórios dos personagens que ajudam a criar personalidades marcantes e delinear traços específicos, além dos prazerosos jogos de diálogos intricados e o desencadeamento das ações que é o que conduzem realmente a história. Baita filme, um dos melhores do ano!

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pequenos Delitos (Small Crimes) / Sem Perdão (Shot Caller)

Segue dois filmes disponíveis no catálogo da Netflix que retratam o mesmo tema com o mesmo ator e ambos produzidos no mesmo ano. São obras realistas, sombrias e que se debruçam no caráter de seus protagonistas. Confira:

"Pequenos Delitos" (2017) dirigido por E.L. Katz é um filme que possui uma narrativa interessante que avança com tons de humor ácido para uma violência gradativa, o protagonista carrega o caos para onde quer que vá, destrói tudo que o cerca. Uma composição maravilhosa de Nikolaj Coster-Waldau, intérprete do icônico Jaime Lannister.
Acompanhamos Joe Denton, um ex-policial corrupto que após cumprir seis anos de prisão volta para a casa dos pais a fim de reconstruir a vida, mas logo de cara percebemos que seu passado e sua personalidade intempestiva não o deixará atingir seus desejos. Ele quer se reconectar com a filha, assumir o controle da vida, mas aos poucos se dá conta que ninguém quer contato com ele e que nunca vai ser perdoado pelo crime cometido, as pessoas ao redor não admitirão a sua reintegração à sociedade e somado a isso tudo vem uma sucessão de problemas não resolvidos que acabam atingindo os mais próximos, o personagem se molda de uma maneira decadente, o desenrolar vai o desconstruindo e apesar de gerar empatia no início suas atitudes vão causando repulsa, uma incrível composição de Nicolaj que só pela sua postura já demonstra sua personalidade instável. O filme captura nossa atenção e mexe bastante com nossos nervos ao passar por tons de sarcasmo e obscuridade atingindo um ápice memorável! 

"Sem Perdão" (2017) dirigido por Ric Roman Waugh é um filme intenso que nos insere na vida de Jacob/Money, vivido magnificamente por Nikolaj Coster-Waldau, um empresário de colarinho branco que acaba se envolvendo em um acidente e vai parar na cadeia, lá desolado pela situação aprende a sobreviver e entra para uma gangue extremamente perigosa, a narrativa é pontuada por flashbacks que demonstram alguns motivos pelos quais entrou para o mundo do crime e sua ascensão através da violência.
Impressionante a construção do personagem, ele realmente muda muito durante o desenrolar, não só fisicamente, mas também sua postura e modo de enxergar a vida, na prisão cada vez mais se envolve em esquemas que o leva a se afundar e assim não o favorecendo a obter sua liberdade, mas em compensação sua fama e poder lhe fornece respeito de todos os detentos e de muitos agentes penitenciários. É uma onda que o engole e o joga para longe do que foi sua vida anterior, ele se insere até rapidamente na gangue e se alia aos mais fortes, incluindo Frank (Jon Bernthal) e Bottles (Jeffrey Donovan), mas seu processo de transformação é marcante pela aceitação da violência, e se tem uma coisa que esse filme faz é retratar as ações violentas de modo realista e seco, outro ponto é não entregar os possíveis desfechos, o que importa realmente é acompanhar a complexidade do personagem nessa trajetória pelo sistema penitenciário, onde ele experimenta altas doses de fúria e sofrimento.