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quinta-feira, 4 de julho de 2019
Mal Nosso
"Mal Nosso" (2017) escrito, produzido e dirigido por Samuel Galli é um filme de terror brasileiro muito bem realizado, tem um roteiro instigante com reviravoltas inteligentes, referências deliciosas e uma trilha sonora impecável, com certeza uma baita opção para quem adora o gênero, não deixa nada a desejar a produções americanas, inclusive sendo melhor que algumas que passeiam pelos temas de exorcismo/sobrenatural. Também conta com a mágica mão de Rodrigo Aragão para todo o trabalho de maquiagem.
Arthur (Ademir Esteves) é um pai zeloso, preocupado com sua filha única (Luara Pepita), prestes a entrar na faculdade. Ele esconde um segredo desde sua juventude sobre algo que pode ser prejudicial ao futuro da jovem, e para isso contrata os serviços de um serial killer (Ricardo Casella) na deep web. Após fazer um acordo com o assassino, Arthur abre as portas para uma jornada mortal envolvendo psicopatas, maldições e demônios.
Somos absorvidos por uma atmosfera sinistra, a história é ambientada nas profundezas de São Paulo e acompanhamos Arthur, um homem preocupado com sua filha e que está atrás de um assassino em série na deep web, ele então contrata Charles e marcam um encontro. Esse início trabalha com elementos violentos e impactantes, todo o desenrolar caminha lentamente a fim de explorar alguns subgêneros e surpreende pela sua mescla interessante e inventiva. O gore se faz presente e as cenas de violência explícita acabam deixando o filme com um tom sério, a estética é outra aliada e preenche a atmosfera enigmática e cada vez mais perturbadora, o único porém são algumas atuações, mas não diminui a obra e termina não importando tanto. Por volta dos 40 minutos é que adentramos na história de fato e conhecemos os porquês de Arthur ter contratado Charles, depois do cumprimento do acordo Charles abre a terceira pasta que estava fechada no pen drive deixado por Arthur, lá ele encontra um vídeo em que Arthur conta uma história sobre ter relação com o mundo dos espíritos desde garoto e que de algum modo foi avisado que um demônio chegaria e que sua filha seria possuída. Passeamos pelo passado de Arthur e observamos todo o medo que sentia quando as aparições ocorriam, demorou a entender que ele podia ajudar as almas boas, as conversas que aconteciam em seus sonhos com um palhaço é o que o auxiliaram nessa jornada, e é incrível como tudo se conecta ao final de forma criativa.
O lado sobrenatural do filme é maravilhoso, mexe com nossa imaginação e surpreende pela estética e composição, são tomadas sinistras, destaque para a cena de Arthur jovem na banheira, as aparições do demônio, que confere um estilo mais à moda antiga e sem dúvidas um dos pontos a se elogiar e, claro, a do exorcismo que desencadeia uma sensação aflitiva. A trilha sonora composta por Guilherme Garbato e Gustavo Garbato é imersiva e coroa de forma esplêndida, e sem deixar de dizer que a mescla de drama, thriller psicológico, terror sobrenatural e o flerte com o slasher traz novos ares para o clássico terror, a história tem uma narrativa diferente e conquista por costurar a trama perfeitamente e entregar um ápice sensacional.
"Mal Nosso" é um filme completamente independente, feito com recursos próprios, gravado em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o longa percorreu por mais de 30 festivais no exterior e conquistou a crítica, um feito e tanto para um filme de terror independente nacional, já no Brasil a coisa é mais devagar e a divulgação ficou por conta dos serviços de streaming, aliás, dia 08 de julho estará na Netflix. Valorize o cinema nacional e ainda mais o de gênero!
sábado, 6 de abril de 2019
O Clube dos Canibais (The Cannibal Club)
"O Clube dos Canibais" (2018) dirigido por Guto Parente (Inferninho - 2018) é um ótimo exemplo de como o cinema nacional está produzindo obras cada vez mais pertinentes e ousadas, Guto Parente tem se destacando pelos festivais mundo afora e se sobressaindo como um dos diretores mais interessantes atualmente. O filme é uma sátira aterrorizante que mostra o absurdo, o cinismo e a hipocrisia da elite ao se alimentar literalmente dos mais pobres, recheado de cenas violentas e diálogos perversos coloca em evidência as fissuras da estrutura social do país.
Otavio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios) são da elite brasileira e membros do The Cannibal Club. Os dois têm como hábito, comer seus funcionários. Quando Gilda acidentalmente descobre um segredo de Borges (Pedro Domingues), um poderoso congressista e líder do clube, ela acaba colocando sua vida e a de seu marido em perigo.
A história escancara a diferença entre classes e a segregação racial, a elite que chega ao poder graças aos mais pobres para depois os usarem como querem e se alimentarem posteriormente, o horror não está necessariamente nas cenas que jorram sangue, mas na metáfora explícita que a acompanha, na realidade do cenário absurdo em que estamos vivendo e cuja onda só aumenta. Acompanhamos mais de perto o casal Otavio e Gilda que se diverte fazendo sexo com os empregados enquanto o marido se masturba para em seguida matá-los e enfim devorá-los, Otavio faz parte do Clube dos Canibais, grupo secreto onde diversos políticos se reúnem para ditar regras e se satisfazerem não só com o canibalismo, mas também na observação do ato sexual, o grupo não deixa que as mulheres entrem e por isso Gilda articula meios para tal com o marido na própria casa. Segue assim até que numa festa Gilda flagra Borges numa situação constrangedora e no dia seguinte vai até ele pedir desculpas e dizer que não se importa, mas o poderoso deixa claro que não sabe do que ela está falando e daí para frente a tensão do que pode acontecer só aumenta, Otavio já estava apreensivo pelo "sumiço" de um integrante do grupo e quando Gilda diz o que viu e o papo que teve com Borges então tem a certeza que suas vidas correm perigo.
O ritmo da história é boa e captura nossa atenção por conta de seus personagens execráveis que personificam perfeitamente a elite que usa e abusa dos mais pobres, que em sua grande maioria são negros, pois diante de um país racista e classista não possuem força para se sobressair, o tom sarcástico ajuda na composição e a violência utilizada não só está nas imagens, mas também em suas falas preconceituosas e cheias de si, discursos de ódio que envolvem patriotismo e discriminação.
Destaque para a trilha sonora opressiva composta por Fernando Catatau e os efeitos especiais concebidos por Rodrigo Aragão, outro expoente do cinema de gênero nacional. O filme é muito bem elaborado e garante um suspense pulsante e cenas violentas, angustiante acompanhar personagens cínicos que, na verdade, têm medo. Medo de perderem suas posições privilegiadas, medo que a classe mais baixa obtenha voz, força e ação para que nunca mais deixem serem abusados e devorados. Quando surge Jonas (Zé Maria), que é contratado pelo casal por causa de seu visual e claramente para servir de alimento depois, várias situações tensas o envolvem e que mais adiante o tornam numa espécie de vingador.
"Brindemos a lealdade que nos une. Nós, homens distintos e devotos aos mais nobres e elevados valores universais, enquanto nos mantivermos leais uns aos outros e aos nossos ideais seremos eternamente merecedores da posição privilegiada que ocupamos neste mundo. Posição esta meus queridos que nos demanda cada vez mais atenção e responsabilidade, pois os nossos inimigos, aqueles que lutam pela degradação dos valores da família, da fé, do trabalho, aqueles que querem transformar o nosso país num país de miseráveis, de delinquentes, de pederastas e de toda a escória social que deveria se encontrar esmagados sob nossos pés, àqueles meus caros, são capazes de todo o tipo de vileza para nos derrubar, mas nós não vamos cair, nunca, jamais, porque somos muitos e somos fortes, enquanto nos mantivermos unidos, leais, fiéis aos nossos ideais nada e nem ninguém irá jamais nos destruir e destruir a nossa pátria. Viva o Brasil! E viva o povo brasileiro".
"O Clube dos Canibais" é um filme potente e mordaz, são cenas que causam asco, como a festa em que ricaços dizem odiar morar num país de terceiro mundo e riem dizendo querer a extinção dos flanelinhas, ou a pior de todas, na reunião, cujo líder Borges se eleva e discursa sobre os valores de família, fé e contra àqueles que querem degradá-los, mais atual que o cenário absurdo em que vivemos impossível, a crítica social e política é visceral e, sem dúvidas, se configura entre os exemplares mais interessantes e ousados do cinema nacional de gênero.
quarta-feira, 27 de março de 2019
Lords of Chaos
"Este filme é baseado em verdades, mentiras, e no que realmente aconteceu."
"Lords of Chaos" (2018) dirigido por Jonas Åkerlund (Polar - 2019) é um filme baseado no livro "Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Underground" e inspirado numa história real em torno do surgimento do cenário black metal norueguês, Euronymous motivado pela banda Venom acaba criando sua própria banda com um som único e morbidamente fascinante, entre um curto período segue-se diversos conflitos e a obscuridade vai tomando conta da vida real, como a queima de igrejas e assassinatos, como descrito em seu início há verdades, mentiras e fatos que realmente ocorreram, mas que não se prendem à seriedade, pois é um filme de ficção e não um documentário, e propõe apenas um recorte da história e um olhar de desconstrução em torno dessas figuras e os demonstra como simplesmente adolescentes problemáticos e maldosos dominados pelo tédio e com uma criatividade pulsante e extrema, o sarcasmo é muito bem-vindo, assim como a caracterização dos principais personagens e a questão de ser poser ou true ganha tons de deboche. Jonas Åkerlund, conhecido pela direção de clipes musicais tem propriedade para falar do assunto, viveu na época, inclusive sendo um dos bateristas da banda Bathory. Então para os fãs mais ardorosos acalmem esses nervos e curtam o filme e agradeçam que alguém teve a ousadia de colocar um pouco da história desse gênero tão infame e tão arrebatador em um filme de ficção, aliás deixo como dica o islandês "Metalhead" (2014). Para quem quiser conhecer mais a fundo e ir de encontro com a ascensão da cultura do gênero na Noruega com toda a violência, profanação e a mística do mal existem documentários, tal como, "True Norwegian Black Metal" (2007), "Once Upon a Time in Norway - The History of Mayhem" (2007), "Black Metal Satanica" (2008) e "Until the Light Takes Us" (2008).
Noruega, anos 90. Euronymous (Rory Culkin), um adolescente precoce, pretende espalhar o mal, caos e black metal de verdade com sua banda, Mayhem. Quando ele convida Varg (Emory Cohen), um misterioso solitário, a participar de seu "Círculo Negro", uma rivalidade se dá início, levando a inesperadas consequências.
Acompanhamos o jovem Euronymous com todos os seus ideais em torno da sonoridade agressiva, procurando um novo vocalista para sua banda Mayhem, surge "Dead", Per Yngve Ohlin (Jack Kilmer) vindo da Suécia, depressivo mutilava-se nos shows e apreciava a atmosfera da morte, enterrava suas roupas e depois as usava e inalava o cheiro putrefato de corvos mortos, também foi quem difundiu a utilização do corpse paint, inspiração vinda da banda brasileira "Sarcófago". Sua morte precoce cometida através de um suicídio brutal, pulsos cortados e um tiro de espingarda na cabeça resultou na capa do álbum "Dawn of the Black Hearts", de 1995, Euronymous ao encontrá-lo correu para comprar uma câmera e alterou um pouco a cena a fim de a tornar mais chocante, além de ter criado lendas, como ter comido uma parte de seu cérebro e conceber colares a partir de seu crânio, o que fazia parte de um marketing e acabava gerando curiosidade não só entre os adoradores. Vale ressaltar que Jack Kilmer como Dead está incrível e particularmente encarei como a melhor caracterização, absorveu com excelência a atmosfera e sua performance é brilhante.
Euronymous abre uma loja de discos e também gravadora e é líder de um grupo chamado "Inner Circle", onde somente os verdadeiros apreciadores do som poderiam entrar, além de ter toda uma aura de maldade, acaba que toda essa contestação contra o cristianismo, ideias de propagar o mal ganha formas reais quando um jovem tímido se aproxima de Euronymous e lhe apresenta sua banda, o Burzum, um som caótico, agressivo e hipnotizante concebido por apenas uma pessoa, o extremista e talentoso Varg Virkenes, esse jovem decide colocar em prática seus ideais e começa a queimar igrejas se sobressaindo no círculo e deflagrando uma onda satanista, surge aí conflitos de poder entre os jovens e atitudes cada vez mais violentas para se afirmarem no grupo, ou somente por pura maldade, como o caso de Faust (Valter Skarsgård), ao assassinar brutalmente um gay dando 37 facadas para sentir como era. Euronymous é retratado como um adolescente que dissipava ideias e usava essas polêmicas como marketing, Varg, um imbecil, inclusive rendeu altas críticas pelo próprio, reclamando da interpretação "daquele ator gordo judeu", então o filme promove não a humanização destas figuras, mas uma demonstração de adolescentes que tinham absolutamente tudo, mas mergulhados no tédio e prontos para confrontar e conceber algo novo. Por conta dessas atrocidades e polêmicas e a grande expressividade do gênero a Noruega acabou ganhando o título do berço do black metal.
O filme tem uma ótima ambientação e faz recriações excelentes, como das fotografias, as cenas violentas e o gore são muito bem feitas, os esfaqueamentos são perturbadores e toda a atmosfera pesada se faz presente apesar do tom de sarcasmo que permeia a obra, a trilha sonora além das músicas do estilo ousou na criatividade colocando algo oposto, como Dead Can Dance e Sigur Rós.
"Lords of Chaos" cumpre com a proposta de apresentar uma parte do cenário do black metal norueguês e mostrar os acontecimentos sórdidos que se mesclaram ao gênero, mas tudo sob um viés descompromissado; as polêmicas, a associação ao satanismo, a valorização da cultura escandinava e a quebra do mito ao retratar adolescentes idiotas em estado de ebulição que queriam fazer a diferença de qualquer jeito num ambiente frio, cinza e sem maiores problemas. Os truezão podem contestar a vontade, mas o filme é eficiente e empolga!
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| Na foto: O Mayhem original e abaixo o Mayhem do filme |
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
O Animal Cordial
"O Animal Cordial" (2017) dirigido pela estreante em longas-metragens Gabriela Amaral Almeida é o primeiro slasher feito por uma mulher no Brasil e, sem dúvidas, um exemplar potente para indicar sem medo àqueles que ainda acham que o cinema brasileiro carece de criatividade e ousadia. A atmosfera tensa coroada por brilhantes interpretações garantem um arrepio na espinha diante do quão fácil é o ser humano se tornar um animal selvagem.
São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado). Entre a cruz e a espada, Inácio - o homem pacato, o chefe amistoso e cordial – precisa agir para defender seu restaurante e seus clientes dos assaltantes.
Percebe-se algo pulsante desde o início, a relação entre patrão e empregados, há algo querendo se libertar, principalmente de Inácio e da personagem Sara, que puxa o saco de Inácio e o olha com desejo, já Djair não aguenta mais as condições em que trabalha, sem hora pra ir embora, o patrão dizendo que as receitas são deles e também o preconceito. Inácio é um ser aparentemente tranquilo apesar de conduzir o restaurante com pulso firme, mas conforme a noite avança o percebemos estranho, a cena em que ele se olha no espelho é poderosa e aí parece despertar algo diferente. Enquanto os empregados estão doidos para ir pra casa, com exceção de Sara, há um cliente comendo um coelho e um casal tomando vinho e reclamando do ambiente. O tempo vai passando e eles continuam sentados, até que dois dos empregados saem com um saco de lixo pela frente irritando Inácio, logo Djair sai também da cozinha e senta no balcão, os ânimos estão exaltados até que tudo culmina num assalto, Inácio por impulso tenta desarmá-los e logo sugere amarrá-los, desesperados alguns pedem para chamar a polícia, só que o dono do restaurante se recusa, ele quer dar uma lição nos meliantes. Como nem todos cooperam com Inácio ele decide amarrá-los com a ajuda de Sara e daí pra frente observamos o como os personagens se comportam, mudando conforme o rumo dos eventos.
Djair é justo e lidera a cozinha com as receitas de sua família, por isso Inácio de certa forma é dependente dele, o funcionamento do restaurante se dá pela capacidade e talento de Djair, isso o irrita e até parece invejá-lo, mas ele também não gosta de sua forma de ser, os seus cabelos compridos o enoja profundamente, mas no cotidiano tudo é velado e as relações seguem cordialmente, até que a noite do assalto muda tudo e o que estava adormecido levanta-se e se mostra da pior maneira. Sara fantasia a oportunidade do seu chefe a enxergar e faz o que ele pede e se torna tão selvagem quanto, Inácio e Sara deixam de lado todas as regras sociais e morais e mergulham no desespero de suas infelicidades.
Murilo Benício neste filme mostrou uma faceta que até então, particularmente, não havia visto ainda, está perfeito na pele de Inácio, suas feições e olhares antes de acontecer o assalto o traduzem para nós, aliás todos estão espetaculares, Irandhir Santos e Luciana Paes também se destacam poderosamente.
"O Animal Cordial" não é somente um slasher ou um thriller, também carrega uma boa dose de crítica social, as relações entre patrão e empregados, a angústia gerada entre classes sociais, como a cena do casal rico no restaurante debochando de Sara, esta que se submete a Inácio sem ser vista, já Inácio dependente de Djair, o responsável pelo restaurante ir pra frente, e este mesmo com condições de trabalho ruins e todos os olhares reprovadores por conta de sua figura se mantém no emprego. Essa tensão entre eles é o que faz o desabrochar de cada um ser ainda mais perturbador e suas ações cada vez mais perversas, cujas cenas maravilhosas são regadas a muito sangue, erotismo e pitadas de ironia.
O medo, a infelicidade e o desespero quando instalados no ser humano o leva em momentos cruciais a realmente revelar um lado do qual se mascara no cotiano devido as regras sociais e morais, o obscuro vêm à tona e aí a violência domina por completo. Um surpreendente filme que nos brinda com um terror bem feito e ainda consegue dialogar sobre as aflições que atingem os brasileiros.
*Murilo Benício recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio, em 2017. No FantasPoa 2018, o filme foi premiado nas categorias Melhor Direção e Melhor Atriz, para Luciana Paes.
O medo, a infelicidade e o desespero quando instalados no ser humano o leva em momentos cruciais a realmente revelar um lado do qual se mascara no cotiano devido as regras sociais e morais, o obscuro vêm à tona e aí a violência domina por completo. Um surpreendente filme que nos brinda com um terror bem feito e ainda consegue dialogar sobre as aflições que atingem os brasileiros.
*Murilo Benício recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio, em 2017. No FantasPoa 2018, o filme foi premiado nas categorias Melhor Direção e Melhor Atriz, para Luciana Paes.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Vingança (Revenge)
"Vingança" (2017) dirigido e roteirizado pela estreante Coralie Fargeat é um thriller sangrento que evoca o clássico "A Vingança de Jennifer" (1978), o renascimento e o acerto de contas da protagonista é estonteante e imensamente satisfatório, traz com muito pulso firme a discussão da cultura do estupro, só que abordado pelo viés exploitation, o que é algo arriscado e subversivo, mas acaba acertando em cheio e é impossível não se conectar com o rumo que a história toma, a tensão e a vibração seguem por todo o desenvolvimento e o espectador se deleita com a enxurrada de sangue exibida.
Jen (Matilda Lutz) chega de helicóptero com seu amante bem-sucedido Richard (Kevin Janssens) em uma região desértica para um final de semana, a sensual Jen é o desejo de qualquer hétero, corpo escultural e imensamente provocante, ela está ali para curtir e se esbaldar, no dia seguinte chega dois amigos de caça de Richard, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchede), logo de cara começam a comer a garota com os olhos, o pensamento que ela seja uma puta pela situação em que se encontra é nítido, a noite todos bebem e se divertem, Jen dança com Stan e isso dá impulso para ele chegar nela sem nenhum escrúpulo, na manhã enquanto Richard vai resolver problemas dos passaportes, Stan chega nela e investe, quando a moça o repele fica nervoso e termina a estuprando, Dimitri chega no quarto e consente e simplesmente aumenta o volume da TV para abafar os gritos e vai nadar. Quando Richard volta eles contam o acontecido e Jen está devastada, só que aí Richard preocupado que Jen conte algo e desmanche sua imagem e casamento decide se livrar dela, Jen desesperada começa a correr pelo deserto e para diante de um penhasco, Richard tenta convencê-la de que tudo se ajeitará e quando chega próximo a empurra e ela cai espetada em um galho, antes deles chegarem no local para se desfazer do corpo, Jen consegue escapar, se rasteja deixando um grande rastro de sangue, é aflitivo acompanhar o seu renascimento, mas vai ficando maravilhoso à medida que ela ganha forças para se vingar de seus agressores.
Jen é vista apenas como um objeto sexual, é caracterizada como uma puta que com certeza está a mercê de qualquer um, para Stan é incompreensível ela não querê-lo, é inadmissível uma mulher linda e exuberante recusar um homem, uma mulher não pode querer se divertir com seu amante do mesmo modo que ele se diverte com ela, pois é considerada vadia ao modo que o homem é considerado pegador. Ela é tão descartável que depois que a violentam a jogam penhasco abaixo, mas eles não contavam que ela sobreviveria e que muito menos ainda provocasse a morte deles de maneira tão brutal. Jen renasce e adquire instinto de sobrevivência, por conta do estilo do filme joga-se qualquer tipo de explicação ou se seria possível isso ou aquilo, o interessante aqui é a inversão que ocorre quando Jen começa a persegui-los, de predadores se tornam presas, os machões se desfazem e expelem medo por todos os poros, e como é gratificante vê-los nesta situação. O sangue é jorrado em demasia e a dor no rosto é sempre evidenciada, a cena em que Jen se recupera numa caverna é altamente alucinante e tantas outras causam desassossego, como a do vidro sendo retirado do pé de um deles.
"Vingança" é um filme estilizado e promove um acerto de contas catártico, Matilda Lutz está impecável em sua transformação, o foco do filme está em colocar os homens numa posição de fragilidade e objetificação, inverte-se os papéis quando Jen os persegue e os expõe de maneira constrangedora, a violência e o sangue é o que impera. Um ótimo exemplar de cinema exploitation moderno!
terça-feira, 4 de julho de 2017
Raw (Grave)
"Raw" (2016) escrito e dirigido pela estreante Julia Ducournau é um filme francês que traz como tema o canibalismo, ele gerou várias polêmicas e ficou famoso por revirar estômagos em festivais mundo afora. É assim, toda vez que algum filme, principalmente de "terror" tem esse marketing a expectativa se torna alta e acaba estragando muito a experiência do espectador, vide "A Bruxa", de Robert Eggers e agora com o mais recente "O Cair da Noite", de Trey Edward Shults, então fica a dica para não se apegarem a isso porque sempre é exagerado e não expressa a verdadeira essência dos filmes, que certamente caminham não só na direção do gênero terror, mas do drama, mistério, suspense, thriller psicológico, etc. Claro, não duvido que aos mais sensíveis algumas cenas de "Raw" causem desconforto, mas não é tão repulsivo assim, o canibalismo é uma ótima e inteligente metáfora para as mudanças que vão ocorrendo na vida da protagonista.
Justine (Garance Marillier) é uma jovem introspectiva que acaba de ingressar para a universidade de medicina veterinária, área da qual sua família toda atua, inclusive lá estuda também sua irmã mais velha Alexia (Ella Rumpf), cuja não mantém mais o hábito de ser vegetariana, algo que também veio da família, Justine logo ao chegar participa de um trote, os veteranos além de banharem os calouros em sangue impõem que comam fígado de coelho, Justine não quer de forma alguma, mas sua irmã a obriga e a partir daí as consequências disso serão de fato animalescas. Ao experimentar o gosto da carne Justine começa a querer mais e então se transforma, aos poucos ela vai se libertando de sua inocência para a busca de prazeres. A faculdade é realmente um marco para muitos jovens, é o período em que uma baita transformação acontece, autoaceitação, responsabilidades, competição, amadurecimento e outras séries de questões difíceis, logo após que Justine ingere o fígado de coelho sente sua pele pinicar e ficar extremamente irritada, um anúncio de que ela não será mais a mesma.
Garance Marillier é perfeita ao passar de uma menina frágil para um animal insaciável, sua postura muda, evocando mesmo o lado selvagem, assim como o olhar felino e sorriso malicioso, e ela vai gostando dessa nova fase, se entrega.
O filme para explicitar toda a mudança se apoia no gore, há cenas sangrentas e outras muito angustiantes que focam detalhadamente em machucados, a cena dela vomitando cabelo ou a do dedo, por exemplo, incomodam bastante pelo visual. Mas, o filme não é apenas isso, nada é gratuito, o clima de tensão, o ritmo lento e o desencadeamento das situações juntamente com a trilha sonora são os maiores responsáveis por gerar desconforto.
"Raw" é um filme cru e visceral que inteligentemente une o canibalismo aos problemas vividos por qualquer adolescente, como bullying, sexualidade, identidade, relações familiares e a nada fácil transição para a vida adulta.
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Baskin
"Baskin" (2015) dirigido pelo estreante em longas-metragens Can Evrenol é um filme de horror turco baseado no seu curta homônimo produzido em 2013. O filme possui elementos perturbadores e cenas sangrentas em que o estilo gore predomina, a atmosfera é podre, hipnotizante e a câmera em nenhum momento vacila. É um pesadelo sádico, uma verdadeira descida ao inferno.
Um grupo de policiais é chamado para atender um pedido de reforço após um jantar, onde já havia acontecido alguns estranhos eventos. Ao chegar ao local, eles se veem em meio a um bizarro e sádico ritual, que se torna literalmente uma viagem ao inferno.
O filme se inicia com um prólogo que mostra um garotinho assustado por ter visto algo sobrenatural, logo somos absorvidos pela trama que coloca alguns policiais num restaurante jogando conversa fora até que numa chamada de reforço um emaranhado pesadelo cheio de criaturas estranhas e rituais satânicos é desencadeado por um acontecimento na estrada.
É preciso ter um pouco de paciência para que a história engrene e nos atormente com tais cenas com teor primitivo, os atores conseguem nos segurar, especialmente Gorkem Kasal como Arda e Ergun Kuyucu como Remzi, que possuem uma sensibilidade extra para captar o sobrenatural. É no terceiro ato que tudo se desenrola, apesar de que nada nos é explicado, as dúvidas permanecem conosco até seu término fazendo que nossa mente entre num processo de dedução, o que seria essa loucura vivida pelos policiais naquele antro maligno? O fato é que o horror entra em cena e não alivia em momento algum, são rituais abomináveis que são conduzidos por uma figura bizarra, protagonizada por Mehmet Cerrahoglu - que possui uma doença rara que lhe deu esta aparência - que domina todo o contexto de forma sinistra e violenta envolvendo mutilações e com uma conotação sexual selvagem.
O filme aborda vários conceitos, como paranormalidade, realidade paralela e hipóteses diversas, como loop temporal, também há simbolismos que passeiam pelo ocultismo e paganismo, os sapos no início, por exemplo, anunciando o mal. Toda a ritualística demoníaca é repulsiva, suja, mas ao mesmo tempo hipnótica.
O filme aborda vários conceitos, como paranormalidade, realidade paralela e hipóteses diversas, como loop temporal, também há simbolismos que passeiam pelo ocultismo e paganismo, os sapos no início, por exemplo, anunciando o mal. Toda a ritualística demoníaca é repulsiva, suja, mas ao mesmo tempo hipnótica.
Diante do desconhecido os policiais todos cheios de si no início se desmontam e de nada vale a fé que cada um carrega, ali são frágeis e são meras peças para o anfitrião que tem um exército de escravos horripilantes.
Destaque para a trilha sonora tensa de Ulas Pakkan e a ótima fotografia em tons escuros de azul e vermelho que remetem muito ao cinema de Dario Argento, aliás, as referências são inúmeras, as mais perceptíveis são "Hellraiser" (1987), e quando toca a música "Adulteress Punishment" do polêmico "Holocausto Canibal" (1980), entre tantas outras que os mais apaixonados pelo estilo detectarão.
"Baskin" é um filme que não soluciona nada, as questões ficam pairando no ar, assim como o clima pesado e o cheiro de enxofre, é um gore excelente que traz criaturas horrendas em um ambiente sujo e nojento. O que fica é a sensação de estar dentro de um pesadelo que se repetirá eternamente.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Angústia Alemã (German Angst)
Três contos repletos de amor, sexo e morte em Berlim, surgidos das mentes de três dos mais chocantes diretores alemães de todos os tempos: Andreas Marschall (Máscaras - 2011), Jörg Buttgereit (Schramm - 1994) e Michal Kosakowski (Zero Killed - 2012).
"Angústia Alemã" é um filme diferenciado dentro do segmento terror/horror, ele carrega uma solidez impecável e desagradável conversando com a identidade do país, sobra desconforto ao visualizar cenas de violência.
O primeiro é do notável Jörg Buttgereit, o conto se chama "Final Girl" e acompanha minuciosamente uma adolescente psicopata, sem diálogos a câmera é muito curiosa e minimalista, envolve automutilação e tortura de maneira bem desconectada, mas explícita e com um clima pesado, este é o segmento mais simples dos três e contém uma extrema frieza.
O segundo pertence a Michal Kosakowski, chama-se "Make a Wish", é sobre um casal de surdos que entram num prédio abandonado num canto sombrio de Berlim e encontram uma galera, uma espécie de neo-nazistas que começam a fazer joguinhos sádicos com os dois, paralelamente narra uma fábula sobre um amuleto que é capaz de trocar a alma das pessoas, no passado foi usado por uma menina polaca, agora este amuleto está nas mãos da moça que espancada vê seu namorado sofrer inúmeras torturas, sem dúvidas, este é o segmento mais poderoso em questão de reflexão, traz uma abordagem política e disserta sobre preconceito, o ar é carregado e possui um ranço que não se dissipa depois de visto. Destaque para um perturbador discurso que é proferido lá pelo final, realmente este conto faz jus ao título do longa.
O último da trinca é "Alraune", de Andreas Marschall, onde um homem é sugado para dentro de uma sociedade secreta de fetiche que promete o melhor sexo de sua vida – através da magia da planta Mandrágora. Mas a experiência transgressora tem efeitos colaterais horríveis: ele é confrontado com uma manifestação monstruosa e mortal de suas próprias obsessões sexuais. Uma história que retrata o percurso sombrio do desejo humano, a fascinação pelo desconhecido, a libido desenfreada com um clima sexy e sombrio, o título significa mandrágora em alemão à qual atribuem a uma série de lendas e forte conotação sexual.
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| "Final Girl" |
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| "Make a Wish" |
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| "Alraune" |
"Angústia Alemã" é uma antologia de terror repleta de violência, dor, prazer e que faz jus ao título. Particularmente, o segundo segmento "Make a Wish" é o que mais senti incômodo, é visceral e traz toda a questão do nazismo, uma ferida ainda não cicatrizada no país. O terceiro, "Alraune" também é ótimo por misturar sexo, obsessão, delírios e mística.
É uma boa dica para quem curte o estilo e também para prestigiar esses três poderosos e polêmicos diretores.
É uma boa dica para quem curte o estilo e também para prestigiar esses três poderosos e polêmicos diretores.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Maníaco (Maniac)
"Maníaco" (2012) é remake de um clássico slasher (sub-gênero do terror) dos anos 80. Ambos retratam de maneira crua a perturbação na mente de um psicopata, mas há muito mais elementos positivos no remake, como a ambientação, a trilha sonora e a câmera em primeira pessoa, onde vemos os acontecimentos sob o olhar do maníaco, tudo isso contribui para um clima sufocante e doentio. Frank Zito possui uma loja de manequins femininos, da qual restaura antigos modelos, ele é um verdadeiro psicopata que ataca em uma pequena cidade norte-americana. O principal foco deste assassino frio são as garotas, as quais são encontradas pela internet e posteriormente brutalmente assassinadas. Após acabar com suas vítimas o serial killer ainda retira seus escalpos para que adornem seus inúmeros manequins.
Elijah Wood faz de seu maníaco memorável, uma atuação incrível da qual mostra uma perturbação latente, o vemos sofrer de dores de cabeça insuportáveis, falando e alucinando com sua mãe, principal motivo por ele distorcer a imagem das mulheres. Sem dúvida ele coloca seu psicopata ao lado dos melhores do cinema. O personagem fisicamente aparece pouco por conta do estilo de filmagem, mas é possível ver seu rosto nos espelhos ou quando interage com alguém.
Quando conhece Anna, uma fotógrafa que pede emprestado alguns de seus manequins para uma exposição, sua perturbação aumenta, pois de início a enxergava de um modo puro, seus impulsos estavam controlados, mas conforme a história avança as coisas se complicam e ele não consegue segurar seus instintos.
É uma bela homenagem ao Maníaco original, que nos faz lembrar destes clássicos cults dos anos 80. O remake nos presenteia com cenas assustadoras, especialmente a dos escalpelamentos, há a frieza de um psicopata, sangue, violência e a atmosfera sombria, podemos sentir de perto a respiração ofegante de Frank enquanto ele pega suas vítimas, somos conduzidos pela história sob seu olhar e percebemos como a sua mente é frágil e inconstante. Interessante como ele é inserido na sociedade com sua solidão e insanidade, sua busca por mocinhas bonitas, seu trabalho na loja de manequins e suas mãos sempre tão machucadas. Anna aparece como um respiro para Frank, mas o que inicialmente parecia beneficiá-lo a se manter são, se revela muito mais perturbador e opressivo.
Dirigido por Franck Khalfoun (P2- Sem Saída - 2007), o filme respeita o original, mas sobretudo, homenageia, é válido para quem curte o estilo denominado gore. Tudo no longa foi bem acertado e caprichado, enfim, é um ótimo remake.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
3 Extremos (Saam Gaang Yi)
"Três Extremos" (2004) é um filme que reúne três histórias distintas, a primeira é do diretor japonês Takashi Miike, "Box" fala sobre uma mulher (Mitsuru Akaboshi) assombrada por pensamentos constantes sobre a morte da irmã gêmea. A segunda é do diretor chinês Fruit Chan, "Dumplings" narra a busca eterna da juventude, uma atriz (Miriam Yeung) que, desesperada para rejuvenescer e atrair de novo a atenção do marido ausente, contrata uma cozinheira (Bai Ling), que lhe promete preparar uma iguaria não apenas deliciosa, mas que tem o dom mágico do rejuvenescimento. E a terceira é do coreano Park Chan-Wook, "Cut" é sobre um diretor de cinema (Lee Byung-Hun), feito refém por um homem misterioso, que lhe põe em uma sinuca de bico: se quiser evitar que a esposa pianista (Kang Hye-Jeong) perca os dedos, precisa estrangular uma criança, presa no mesmo quarto. As histórias mostram as misérias humanas e o quão longe chegamos para obter aquilo que desejamos.
"Três Extremos" dá sequência ao filme "Três" (2002) também seguindo a mesma linha, porém lançado ao grande público bem depois, devido ao sucesso de "Três Extremos". Os temas são perturbadores e qualquer um fugiria deles, mas os realizadores os colocam bem na nossa frente, mostrando o lado mais pérfido do ser humano, o ultrapassar da barreira, a loucura que o toma quando algo lhe invade a mente. Seja remorso, inveja, ou vingança.
É interessante notar as diferenças entre eles, na história japonesa há aquele terror melancólico, puxado para o sobrenatural, na chinesa se observa o apreço das imagens, as cores, as expressões, a protagonista ao mastigar sua refeição da beleza, e no coreano, para quem conhece Park Chan-Wook sabe de sua capacidade para criar histórias de vingança e violência, e mesmo assim conseguir colocar humor na trama.
"Box" é uma história surreal marcada por um momento de inveja e traição, protagonizada por uma jovem tradutora, que tem pesadelos constantes devido a uma situação trágica de sua infância. A força da culpa é expressada da forma mais dolorida. É recheado de simbolismos, de ritmo lento às vezes não sabemos se ela sonha ou vive a realidade, o remorso é por um acontecimento no circo onde ela e sua irmã se apresentavam, sentindo inveja do carinho que sua irmã recebia do pai, ela reagiu impulsivamente causando um acidente, este que a perseguirá pelo resto da vida. Estranhamente seus sonhos e sua realidade podem estar conectados. Imagens de culpa são expostas na tela, há momentos de claustrofobia e muita melancolia. "Box" é um delírio real.
"Dumplings" é para mexer com nosso psicológico e nosso estômago. Uma atriz rica e balzaquiana preocupa-se com a sua vaidade. Sabe que seu marido já não sente mais atração por ela, então decide recorrer a um método um tanto quanto excêntrico. Ela procura uma famosa cozinheira de bolinhos que promete trazer o viço da juventude novamente, mas para isso é preciso aceitar as suas condições, é necessário que ela saiba que o ingrediente principal são fetos, considerados altamente nutritivos. Até onde você iria para ter sua juventude de volta? Uma crítica explícita sobre os limites da vaidade, e a loucura que muitos se submetem em nome dela. "Dumplings" virou um longa-metragem chamado "Escravas da Vaidade" (2004).
"Cut" é sobre um diretor famoso, rico e bonito que é feito de refém por um de seus figurantes, este revoltado por sempre fazer papéis que nunca são vistos, declara que não gosta da cara de bonzinho do diretor. O figurante arquiteta um plano do qual inclui a mulher do diretor amarrada com os dedos presos nas teclas do piano, tudo que o refém tem que fazer é estrangular uma criança sentada no sofá para salvá-la, claro que nem tudo é simples assim, o diretor tenta convencê-lo que não é perfeito, seus valores são colocados em xeque, mas não adianta muito, alguns dos dedos da mulher já foram cortados. É uma trama bem elaborada com reviravoltas espetaculares. Com muito humor negro, a inveja, o ódio, a vingança e a violência se faz presente.
"Três Extremos" serve, sobretudo, para conhecermos três tipos de técnicas de direção, onde todos desconstroem seus personagens a fim de mostrar suas loucuras ocultas, o lado do qual evitamos pensar que existe em cada um de nós. Mesmo que as histórias pareçam bizarras, é inevitável não pensar sobre. O fato de fazer alguém sofrer para obter o que se quer, viver com a culpa, o preço pago para ser bonita e admirada, lidar com a inveja, esconder seus medos, viver de acordo com a imagem criada para si. É uma sucessão de pensamentos que esses três curtas apresentam. É cinema da melhor qualidade!
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Eu Vi o Diabo (I Saw The Devil)
O cinema sul-coreano indiscutivelmente sabe produzir filmes para mexer com nosso psicológico. A história de vingança é brutal, sangrenta, mas completamente justa. O diretor Jee-woon Kim (Medo - 2003) nos dá duas longas horas e meia de cenas impressionantes e avassaladoras.
Kyung-chul (Min-sik Choi) é um perigoso psicopata. Mata apenas pelo prazer do sofrimento que causa nas suas vítimas. Essas são sempre mulheres. A polícia anda no seu encalço há muito tempo, sem nunca o conseguir apanhar. Uma noite, a filha de um chefe da polícia reformado é encontrada morta e brutalmente desfigurada. O noivo dela, Kim Soo-hyeon (Byung-hun Lee) é um agente secreto, e vendo a incapacidade da polícia em agir e resolver os homicídios, decide ele mesmo perseguir e capturar o assassino.
Soo-hyeon só tem um objetivo, que é fazer Kyung-chul sentir o mesmo horror e sofrimento das suas vítimas. Assim começa um jogo macabro em que caçador e presa trocam de papéis, o psicopata assassino é convertido em vítima e o caçador em monstro, igual aquele que deseja destruir. Nas primeiras cenas percebemos quem é o diabo, só que nossa opinião vai mudando conforme o desenrolar. Kyung-chul furioso por conta do que seu caçador anda fazendo, deseja vingar-se dele, é um jogo de gato e rato muito original e sangrento. A mistura de ação, suspense, drama e thriller aumenta a tensão a cada cena.
Parece que a Coréia do Sul se especializou em inventar histórias de vingança sem cair nas próprias armadilhas, nada se compara com as cenas de sadismo, o clima é intenso e totalmente eficaz para quem o assiste.
Em determinados momentos personagens secundários alertam Soo-hyeon sobre o caminho que ele está seguindo, mais especificamente sobre seus resultados, perseguir, torturar e matar Kyung-chul não traria Joo-yeon de volta. Ele, porém, não dá ouvidos a ninguém. Soo-hyeon prolonga ao máximo o término de sua vingança, porque sabe que o que virá depois será três mil vezes pior. Suportar o vazio depois de tudo e ter que lidar com o monstro que criou internamente. Diferente do maluco que assassinou sua amada, que tinha prazer em matar, não pensava nas consequências e também tão pouco se importava em morrer.
A linha entre o bem e o mal se desfaz com o fim do longa, percebemos que o justiceiro se transformou num monstro tanto quanto Kyung-chul. É indescritível as cenas finais. A personificação do mal acontece em um diálogo de estremecer, onde o assassino diz não conhecer a dor e o medo.
O ator Byung-hun Lee tem uma performance magistral, uma transformação inimaginável e realmente intensa. E Min-sik Choi em um personagem sádico, cruel e manipulador, encarna a verdadeira expressão diabólica. Juntos fazem uma dupla implacável.
Para quem curte o estilo é obrigatório que veja "Eu Vi o Diabo", e esse é apenas uma amostra do que os sul-coreanos são capazes. Um filme sem meio-termo, que não desperdiça tempo, é cru e os dois personagens não dão trégua um para o outro. Quando se pensa que já acabou, é aí que surge uma reviravolta e muda completamente o rumo da história.
"Impossível ter uma vingança absoluta contra o verdadeiro mal."
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Aftermath
O curta espanhol de 30 min dirigido por Nacho Cerdá superou todos os adjetivos nojentos e doentios que se possa imaginar. Deixando bem claro, o vídeo é para quem tem estômago forte e curte horror. O propósito é chocar. "Aftermath" é uma expressão que significa algo como "o que há depois de..." O estado do corpo depois da morte, sua desolação e o nada.
Necrofilia explícita num filme sem nenhum diálogo. O diretor Nacho Cerdá produziu uma trilogia que abrange o nascimento (The Awakening, 1990), a morte (Aftermath, 1994), e o renascimento (Genesis, 1998). O filme também foi vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem no Fant-Asia Film Festival. Este controverso curta mostra atividades secretas de um funcionário de necrotério. Ele retira os órgãos das pessoas mortas, provavelmente para transplantes, pois não ha um estudo ou uma perícia sobre o cadáver, que são visivelmente vítimas de acidentes ou assassinatos. O espetáculo é repulsivo e mórbido. O homem se masturba para o corpo aberto sobre a mesa e, em seguida sobe em cima do cadáver e pratica sexo. O olhar do personagem é frio e medonho, o close em seu rosto, nas suas ações detalhadas, todo o ritual da necrópsia é insano. A ideia é mostrar que após a morte somos apenas pedaços de carne em decomposição. O silêncio absoluto perturba e nos leva a reflexão. O fascínio que o legista revela com o seu olhar de psicopata é de dar arrepios.
A maquiagem é hiper realista, a fotografia escura e a trilha sonora só aumenta o clima sinistro. Imaginar o que acontece dentro de um necrotério não é muito agradável, por isso o curta conseguiu ganhar adjetivos, como perturbador, doentio, chocante, repulsivo, nojento, mórbido, entre tantos outros, mas dentro de seu propósito conseguiu realizar muito bem e com ótima qualidade.
Quero enfatizar mais uma vez o olhar do legista, que se intensifica por ele usar a máscara cirúrgica o tempo todo. A insanidade humana não tem limites realmente, é difícil e pesado observá-la. E pensar que a vida é tão frágil e que bambeia entre a poesia e a morbidez. Cerdá promove reflexão em alguns e asco em outros por promover uma sinceridade pouco vista.
Se deseja assistir o curta fique ciente que a história não é leve e contém cenas fortes, mas isso é de cada um, então fique à vontade para assistir algo que mesmo sendo doentio pode gerar reflexões sobre a nossa existência.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Mártires (Martyrs)
Mártires, ou seja, testemunhas na tradução, nos revela uma história chocante e difícil de esquecer. Com muitas cenas de tortura e sofrimento, torna-se um filme pesado e de difícil absorção, para quem tem estômago e a mente frágil não é recomendado.
A história se passa na França dos anos 70, Lucie (Mylène Jamponoï) uma garota de dez anos foge de um cativeiro e é resgatada e levada a um abrigo, onde conhece Ana (Morjana Alaoui), que se torna sua melhor amiga. Quinze anos depois, Lucie atormentada pelas lembranças do passado só pensa em se vingar das pessoas que a fizeram sofrer, e envolve Ana nessa sua obsessão.
O filme mostra o quão longe o homem é capaz de ir para obter as respostas que deseja e que busca em toda a sua existência. Sem medo de mostrar o que é mais aterrador, as cenas são cruas e bem realistas, lidando com a vida e a morte, Lucie é atormentada pelo espírito da mulher que não conseguiu salvar, deixando ela cada vez mais perturbada.
Enquanto os vilões anseiam conhecer o segredo que vem após a morte, Ana tenta sobreviver as insanidades de seres humanos sem qualquer escrúpulos. A principal, mais conhecida por Mademoiselle (Catherine Bégin), acredita que atos sistemáticos de tortura, infligidos em mulheres jovens, ajudam a obter uma visão transcendental do que está por vir, o final abrupto surpreende e nos deixa em silêncio por vários minutos.
É um filmaço, gostei muito, diferente de tudo que já vi em questão de horror e perturbação, para quem gosta do gênero inspirado nos filmes japoneses de horror, é uma boa dica!
Perturbador e aterrador, "Mártires" tem todos os quesitos para quem curte um bom terror psicológico. É um filme surpreendente!
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