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sábado, 24 de fevereiro de 2018

15 Filmes sobre Sonhos (15 Dream Movies)

Segue uma lista que explora o universo dos sonhos, suas camadas, seus mistérios, suas belezas, o onírico se mesclando à realidade, são diversas as obras que passeiam por essas características, portanto, os listados são apenas uma pequena amostra do quão fascinante é quando inconsciente e consciente se unem. 

15- "Preso na Escuridão" (Abre los Ojos - 1997) de Alejandro Amenábar
Cesar (Eduardo Noriega) é jovem, rico e bonito. Em torno dele, duas mulheres (Penélope Cruz e Najwa Ninri), mas uma armadilha do destino vai fazer com que ele viva um pesadelo terrível. Tudo começa com um acidente, em que sua namorada morreu e seu rosto foi desfigurado e, para piorar as coisas, ele foi acusado de assassinato e condenado. Ainda na prisão, se submete a várias cirurgias e consegue recuperar seu belo rosto. Mas começa a apresentar um comportamento estranho, que intriga o psiquiatra local.

14- "Sonhando Acordado" (La Science des Rêves - 2006) de Michel Gondry
Stephane Miroux (Gael García Bernal) vê seus sonhos invadirem constantemente a vida real. Quando dorme, se transforma no carismático apresentador do programa "Stephane TV", explicando sua "ciência dos sonhos" na frente das câmeras de papelão. Na vida real, tem um trabalho chato numa editora de calendários em Paris. Ele flerta com a vizinha Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas a moça não está disposta a encarar alguém como ele. Guy (Alain Chabat), colega de trabalho de Stephane, até tenta ajudá-lo na conquista, mas nada funciona. Incapaz de chegar ao coração de Stephanie na vida real, Stephane procurará as respostas em seus sonhos.

13- "Ladrão de Sonhos" (La Cité des Enfants Perdus - 1995) de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro
Krank (Daniel Emilfork) envelhece numa nebulosa torre aquática por não poder sonhar e tenta resolver a sua limitação sequestrando as crianças das cidades vizinhas para lhes roubar os sonhos. One (Ron Perlman), um caçador de baleias, forte como um cavalo, sai em busca de Denree, seu irmão mais novo que fora sequestrado pelos homens de Krank. Com a ajuda da menina Miette (Judith Vittet), logo eles chegam na cidade das crianças perdidas.

12- "Rabbits" (2002) de David Lynch
É assustador, estranho e até mesmo engraçado. Rabbits é a mãe e o pai de todos os pesadelos. A atuação, os movimentos, as luzes e as câmeras nos levam ao pavoroso e indecifrável mundo do subconsciente, do qual nunca mais iremos querer acordar.

11- "Alice" (Neco z Alenky - 1988) de Jan Svankmajer


Quando Alice seguiu o Coelho Branco no País das Maravilhas, iniciou-se assim uma surpreendente e perigosa aventura onírica pelo mundo infanto-juvenil. O animador tcheco Jan Svankmajer criou uma obra-prima, interpretando de maneira mais surreal e absurda possível o clássico conto de Lewis Caroll. Combinando técnicas de animação e atores reais, ele deu uma nova e fascinante dimensão para uma das melhores fantasias já escritas.

10- "Dream" (Bi-Mong - 2008) de Ki-duk Kim
Jin acorda depois de ter sonhado com um acidente de trânsito ao estar seguindo sua ex-namorada. Guiado pelo sonho, chega até o lugar dos fatos e ali se encontra com o acidente, que realmente aconteceu, e que aconteceu exatamente igual ao seu sonho. Ele segue a polícia até a casa da suspeita, Ran, e alí é testemunha de como ela nega a acusação de atropelamento e fuga, já que declara ter dormindo toda a noite. Jin explica seu sonho aos policiais e pede que acusem ele no lugar dela. A polícia o vê como um louco e prende Ran. Jin logo percebe que, cada vez que ele sonha, Ran, sonâmbula, representa inconscientemente seu sonhos na vida real.

09- "O Congresso Futurista" (The Congress - 2013) de Ari Folman
Uma atriz em fim de carreira (Robin Wright) decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter melhores condições de cuidar de seu filho, portador de deficiência física. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando assim uma atriz virtual idêntica à ela mesma. Enquanto a empresa pode utilizar essa imagem virtual para os fins que desejar, a atriz real será proibida de atuar até o resto de sua vida. Aos poucos, ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.

08- "A História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien - 2003) de Jacques Rivette
Julien (Jerzy Radziwilowicz) é um relojoeiro frustrado de 40 anos, que está chantageando Madame X (Anne Brochet): ele sabe de coisas misteriosas que a envolvem no tráfico de objetos antigos, mas desconhece a ligação entre ela e a sublime Marie (Emmanuelle Béart), por quem Julien havia se apaixonado perdidamente cerca de um ano antes. Tendo reencontrado a amada, ele percebe que algo mudou no seu comportamento: apesar do seu crescente amor por Julien, Marie parece incapaz de encontrar a sensação das coisas. Julien fará o que puder para ajudar Marie a se liberar desse estado.

07- "Cidade dos Sonhos" (Mulholland Dr. - 2001) de David Lynch 
Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

06- "Corpo e Alma" (Testről és Lélekről - 2017) de Ildikó Enyedi
Uma história de amor que começou em sonho, literalmente. Numa dualidade entre o dormir e o acordar, duas pessoas que não se conhecem têm sonhos exatamente iguais, e acabam se encontrando diariamente todas as noites nesse mundo paralelo de fantasia. Quando chega a hora de se encontrarem de verdade, a situação se mostra ainda mais complexa. Saiba+

05- "Paprika" (Papurika - 2006) de Satoshi Kon
Num futuro próximo, o Dr. Tokita (Tôru Furuya) inventa um poderoso aparelho chamado DC-Mini, que torna possível o acesso aos sonhos das pessoas. Sua colega, a Dra. Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), psicoterapeuta e pesquisadora de ponta, desenvolve um tratamento psiquiátrico revolucionário a partir do aparelho. Mas, antes de seu uso ser sancionado pelo governo, o DC-Mini é roubado. Quando vários dos pesquisadores do laboratório começam a enlouquecer e a sonhar em estado de vigília, Atsuko assume seu alter-ego, Paprika, a bela "detetive de sonhos", para mergulhar no mundo do inconsciente e descobrir quem está por trás da tragédia.

04- "Sereia" (Rusalka - 2007) de Anna Melikyan
Era uma vez, uma garota chamada Alisa, que morava numa cidade litorânea, cantava no coral, sonhava em ser bailarina e tinha um dom: transformar desejos em realidade. Aos seis anos, ela parou subitamente de falar e passou a frequentar uma escola especial. Aos 17 anos, se mudou para Moscou e o destino a levou a conhecer um homem com um profundo desejo de ser salvo e protegido. Alisa decidiu ajudá-lo, sem saber que sua vida mudaria para sempre. Saiba+

03- "O Fantasma da Sícilia" (Sicilian Ghost Story - 2017) de Antonio Piazza e Fabio Grassadonia
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo. Saiba+

02- "Acordar para a Vida" (Waking Life - 2001) de Richard Linklater
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem têm longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.

01- "Sonhos" (Dreams - 1990) de Akira Kurosawa
"Sonhos" é uma obra baseada em sonhos verdadeiros que Kurosawa teve ao longo de sua vida, dividido em oito segmentos destaca-se alguns temas bem recorrentes, como a morte e a guerra. Somos contemplados por tradições e passeamos pela cultura japonesa. Por mais que se fale deste filme nunca será o suficiente, é daqueles que toda vez que é assistido tira-se algo de novo. Saiba+

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Crime e Castigo (Crime and Punishment)

Situado em São Petersburgo, na segunda metade do século XIX, o thriller psicológico conta a história de um jovem assassino desesperado, preso na teia de sua própria culpa. Ródia Raskólnikov é um estudante miserável que vive entre os cortiços fétidos e habitações em ruínas de São Petersburgo. Intenso e extremamente inteligente, Raskólnikov acredita que pertence a uma classe de homens destinada à grandeza e, como tal, é permitida violar os valores morais "normais". Ele decide testar a sua coragem e integridade, matando uma agiota, uma mulher de meia-idade, convicto de que ninguém sentirá falta. O assassinato, no entanto, serve apenas para atrair Raskólnikov a um mundo de pesadelo no qual ele é perseguido pela paranoia, culpa e alienação. Confrontado pelo astuto investigador Porfíri, que configura uma complexa série de armadilhas, encontros e conversas, conseguirá Raskólnikov escapar de sua própria consciência ou o castigo aparentemente é inevitável?
Adaptado da célebre obra homônima de Dostoiévski, esta minissérie produzida em 2002 pela BBC se faz muito fiel e perturbadora. Bem elaborada carrega perfeitamente o clima da história. John Simm dá vida a Raskólnikov, um jovem estudante inteligente que defende a ideia da divisão de classes entre pessoas extraordinárias e ordinárias, acreditando estar no primeiro grupo ele decide testar sua teoria de que se um crime for cometido em prol de algum bem, não existirá lei ou moralidade que o castigue. E é partindo disto que Ródia testa sua coragem. Ele visita incessantemente uma velha que trabalha com penhor, pois sempre está necessitando de dinheiro para pagar o aluguel. A ideia de assassinato começa o perseguir, afinal quem sentirá falta daquela velha ranzinza? Então acometido de coragem mata a senhora a machadadas, e a contragosto, levado apenas pela situação de surpresa, também assassina Lizavéta, irmã da velha agiota. Raskólnikov rouba joias, mas não chega a usufruir desse ganho e, sentindo-se arrependido, enterra-as sob uma pedra. Sua intenção era usar o dinheiro para boas causas e, claro para si próprio, mas o crime começa a perturbá-lo de tal maneira que toda a sua teoria vai por água abaixo.
Cada vez mais atormentado sofre alucinações que comprometem a sua saúde, além de ter que lidar com sua família e toda a situação que a cerca. A culpa vai consumindo a sua consciência.

O fato do crime o pressiona, mas o que mais lhe deixa mal é se descobrir não fazer parte do grupo dos realizadores dos grandes feitos, pois ao cometer o assassinato percebeu ser um ordinário, aquele que apenas recebe ordens e vive sua vida miserável. Ele não se inclui no grupo que consegue matar sem remorsos, e isso o persegue até a confissão.
A minissérie compõe muito bem o cenário de loucura que envolve o personagem, são momentos claustrofóbicos. Raskólnikov tem afeição por uma prostituta e acaba contando para ela o acontecido, ela o incentiva a confessar para a polícia para que seja perdoado, nesta parte a religião predomina, é o pensamento de que apenas com sofrimento é que se consegue atingir a salvação. Por fim, Raskólnikov é preso, porém, devido à confissão, arrependimento e falta de antecedentes criminais, sua pena acaba sendo reduzida a oito anos em uma cadeia na Sibéria.

John Simm encarnou Raskólnikov com maestria, suas feições e seus olhares transtornados, assustados. Seus gestos indicando impaciência, principalmente quando caminha a passos sempre rápidos. Raskólnikov acreditava que a responsabilidade era só dele e ninguém deveria se importar, ele achou que o relacionamento com os demais não mudaria, mas após o crime percebeu estar errado. Eis a frase: "Não foi uma criatura humana que matei, foi um princípio!".
Dostoiévski dizia que viver em sociedade é criar amarras, e se decidirmos arrancá-las é como suicidar-se, por isso o ato de confessar cresceu tanto dentro da mente do personagem. "Crime e Castigo" já foi adaptado por diversas vezes, mas nenhuma de fato conseguiu captar a essência do livro, mas esta minissérie traz exatamente o cenário de época de São Petersburgo junto ao clima sombrio da mente de um dos personagens mais perturbados da literatura universal. A minissérie é composta por dois episódios e vale muito o tempo dedicado a ela, especialmente para quem é apaixonado pelo universo de Dostoiévski.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Arca Russa (Russkiy Kovcheg)

"Arca Russa" (2002) é um filme magnífico, de uma beleza inqualificável, mas para entendê-lo é necessário saber um pouco da história da Rússia, ou pelo menos conhecer alguns personagens históricos, pois o filme no seu desenrolar passeia entre eles. Sem dúvidas "Arca Russa" é um marco do cinema, filmado em um único plano-sequência, sem cortes, que dura 97 minutos e atravessa 35 salas do museu, transformando a tela do cinema em um quadro vivo por onde desfilam personagens importantes da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II; Nicolau e Alexandra. O museu é como um ser vivo, uma entidade que respira e tem personalidade própria. Sokurov empresta alma ao colossal palacete do Hermitage, em São Petersburgo, um dos maiores museus do mundo. Simbiose perfeita de cinema, História e artes plásticas, "Arca Russa" é uma experiência visual única e inesquecível.
O cineasta Aleksandr Sokurov (Moloch - 1999, Taurus - 2001 e Solntse - 2005) é um dos diretores mais cultuados e sua "Arca Russa" é um filme erudito, para os mais desentendidos passará batido e até sem sentido, é uma viagem esplendorosa na história da Rússia dentro de um magnânimo museu. O Hermitage é o ex-palácio dos czares, onde os quadros e três décadas da história da Rússia convivem em melancólica harmonia. O todo é envolvido pela questão sobre a identidade russa. Seria um país oriental, eslavo, ou um país europeu?
Perfeccionista, o diretor exigiu que nenhum ruído fosse feito durante a gravação. Marcou as posições dos atores com o rigor de um coreógrafo de balé. Distorções sonorafs e visuais foram corrigidas por computador depois da filmagem e o material captado em vídeo foi transposto para película. A opção de um filme sem cortes é para manter um fluxo contínuo que permite a interação entre tempos distintos. São mais de 300 anos de Rússia sintetizados no Hermitage.

Há dois narradores, um é invisível e russo. O outro visível é europeu. Ambos andam diante dos quadros como se fossem fantasmas. O primeiro narrador, cuja única referência é a sua voz, parece defender a originalidade dos feitos russos, sempre contestando as afirmações do segundo narrador, este que tenta encontrar respostas sobre a sua própria história e o motivo para estarem no museu. Como não sou expert sobre a Rússia fiquei cansada em algumas partes, mas o filme é bem movimentado por personagens, então a monotonia é quebrada logo. Glorificar o filme apenas pelo fator plano-sequência e seu apuro técnico é errado, claro que é uma ousadia imensa e um trabalho otimamente executado, porém há diversas coisas que podem ser visualizadas além disso. Sokurov faz de sua "Arca Russa" um clássico que será lembrado eternamente.

Uma das cenas mais expressivas é a do baile, a nostalgia realmente acontece e a insegurança do futuro são reproduzidas. A identidade daquele país é repleto de dúvidas e ao final do longa vemos o horizonte sombrio, onde o filme volta para um futuro sem grandes expectativas, os fantasmas do palácio desaparecem e tudo silencia-se.
É um filme intelectual, com todos os aspectos políticos da Rússia. Impecável, pomposo e elegante. Para alguns soa pretensioso e soberbo, já para outros um deleite visual e uma obra única e refinada. "Arca Russa" é um filme audacioso e que só poderia ter saído da mente de Sokurov.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Distante (Uzak)

O fotógrafo Mahmut (Muzaffer Ozdemir) recebe em sua casa o primo Yusuf (Mehmet Emin Toprak), que vai tentar uma oportunidade de emprego na capital Istambul, pois a fábrica onde trabalhava em sua cidade natal acabou fechando. Seu sonho é tornar-se marinheiro e conhecer o mundo inteiro, mas ele vai se deparando com barreiras cada vez maiores, e o sonho interiorano vai ficando pra trás e sua presença torna-se um fardo para o primo, que é uma pessoa que se habituou a solidão e as suas manias.
Nuri Bilge Ceylan (Sono de Inverno - 2014) é um diretor fantástico, ele coloca o silêncio, a fotografia melancólica e pesada para evidenciar os sentimentos dos personagens. Dois homens vivendo num apartamento, se estranhando, um querendo sua vida novamente para voltar a monotonia da solidão e o outro se sentindo um estorvo, mas sem poder fazer algo para mudar isso. Os sonhos quebrados de Yusuf incomodam Mahmut numa camada mais profunda. Despertam nele a memória de projetos há muito abandonados. Anos atrás, o fotógrafo sonhava em fazer filmes como o russo Andrei Tarkovsky. Numa noite, Mahmut coloca no vídeo justamente uma obra do mestre russo, "Stalker", cujo ritmo lento tem o poder de afugentar rapidamente da sala o primo camponês. Na sequência, o dono da casa o substitui por uma fita erótica. Mahmut já não se sintoniza mais com a sua antiga sensibilidade e sente fundo a perda desses sonhos, e também da mulher (Zuhal Gencer erkaya) que o trocou por outro, depois de um divórcio complicado por um aborto no meio do caminho. São motivos demais para arrependimentos e amarguras que o filme desenrola de maneira sutil.
O inverno de Istambul parece dificultar mais ainda a aproximação com as pessoas. A neve cobre as árvores, os edifícios, os carros, os bancos da praça. A escolha em ambientar o filme nessa estação do ano não é aleatória. O clima gelado funciona como correlativo dos estados da alma dos protagonistas. Mesmo ao demonstrar simpatia e boa vontade, Yusuf esbarra na intolerância e introspecção de Mahmut. Ele passa os dias meditativo, ou sentado sozinho num café. Em casa implica com os pequenos desleixos do primo provinciano. Irrita-se com o cheiro de seus sapatos, de seu cigarro e até com suas demonstrações de afeto, e Yusuf continua sua empreitada em busca de trabalho para socorrer a família que passa por dificuldades financeiras.

Mahmut não tem nenhum resquício de sentimento, sua mãe está doente e ele a acompanha no hospital apenas por obrigação, sua ex-mulher, talvez o único elo afetivo, vai embora de Istambul, ou seja, esse homem é completamente vazio e amargurado, não há nada dentro de si que possa compartilhar com outros, portanto, é compreensível o tratamento que dá a seu primo, a única coisa que ele pode compartilhar é o vazio. Yusuf aos poucos perde sua esperança, em vários momentos o observamos pensativo, contemplando o horizonte gelado. Ele percebe que ali não há nada para ele. E o que sobra a Mahmut é a solidão que lhe é conveniente e o silêncio, este que faz do cinema de Ceylan algo grandioso, que fala mais do que qualquer diálogo, e a fotografia trabalha com esse silêncio, ela reflete sentimentos introspectivos, dando a entender o que o personagem sente.
Quando viver e se relacionar com os outros se torna pesado e a solidão é a única companhia que lhe faz bem, sentimentos que dilaceram por dentro, incomodar-se com o sonho do outro, não querer nada além do nada que tem. O filme traz essas questões e inevitavelmente nos leva a reflexão. O cinema turco sempre traz experiências e sensações significativas, é um grande deleite aos cinéfilos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Em Nome de Deus (The Magdalene Sisters)

"Em Nome de Deus" (2002) dirigido por Peter Mullan é baseado em fatos reais, a história se passa em um asilo, onde meninas eram enviadas para "lavar" seus pecados. Todo mundo conhece a história de Maria Madalena, aquela prostituta que se redimiu e foi pro céu, o nome do lugar era por conta disso. Os motivos de as meninas serem enviadas para lá variavam entre terem perdido a virgindade, terem filhos antes do casamento, ou mesmo aquela que chamava mais atenção dos garotos por ser bonita também era jogada no antro católico.
O filme é contado sob o ponto de vista dessas jovens, que de repente encontram-se num pesadelo interminável. São apresentadas três jovens mulheres que foram internadas numa destas casas no ano de 1964: Margaret (Anne-Marie Duff), Bernadette (Nora-Jane Noone) e Rose (Dorothy Duffy). Na introdução do filme descobrimos os crimes cometidos por elas: Margaret foi condenada por ter sido estuprada pelo primo e não guardar o fato dos pais e da sociedade, Bernadette, uma moça muito bonita que atrai os olhares masculinos, não se preocupou em esconder sua beleza e sensualidade; Rose contrariou os costumes conservadores e engravidou antes do casamento, sendo obrigada a entregar seu filho para adoção. A irmã Bridget punia as meninas por tudo, se falassem com alguém de fora, se tentassem fugir, se desobedecessem as irmãs e se conversassem entre si. Trabalhavam o dia inteiro e comiam uma comida bem inferior a das irmãs. Em uma tentativa de fuga, uma garota é submetida a maus tratos e raspam completamente a cabeça dela a fim de que sua vaidade suma e não tenha mais vontade de ir embora.

Observe, a igreja não tinha poder legal para trancafiar as meninas, mas os próprios pais as levavam lá, a sociedade fingia não ver e tão pouco desafiava a igreja. Outro ponto é o tanto de dinheiro que entrava, pois elas trabalhavam escravizadas, em uma cena vemos a freira guardando o dinheiro que arrecadava. O filme traz a visão de que a igreja católica sempre foi cruel e fundamentalista, escondendo fatos, mas a sociedade se acostumou a isso e nunca protestava. Muitas coisas se fazem em nome de Deus sem ao menos serem questionadas. O longa abre os olhos para aqueles que confiam cegamente em uma religião, seja ela o catolicismo ou não. 
Bernadette era a mais desafiadora, a cena em que decide fugir demonstra isso, ela leva Rose junto de si, as duas escapam daquele lugar e conseguem refazer suas vidas anos mais tarde, mas sempre com o fantasma desse passado cruel em suas mentes. Margaret, a que sofreu abuso do primo foi resgatada pelo irmão, que sempre acreditou nela, mas não podia fazer nada, pois era uma criança quando aconteceu, anos depois já adulto buscou-a. Uma outra personagem de grande valia é Crispina, aparentemente retardada, com o passar do tempo seu comportamento foi piorando, e acabou sendo enviada para um sanatório.

Os lares Madalena, na Irlanda, eram de responsabilidade das Irmãs da Misericórdia, em nome da Igreja Católica. Jovens mulheres eram mandadas por suas famílias ou pelos orfanatos e, uma vez lá, ficavam confinadas e obrigadas a trabalhar na lavagem de roupas, onde poderiam expiar seus pecados. Os pecados variavam entre ser mãe solteira, ser bonita ou feia demais, ter problemas psicológicos, ser ignorantes ou inteligentes, ou vítimas de estupro. E por seus pecados, elas trabalhavam 365 dias por ano, sem remuneração. Eram mal alimentadas, surradas, humilhadas, estupradas, e seus filhos levados à força. A sentença dessas moças era indefinida. Milhares de mulheres viveram e morreram nesses lares. O último Asilo Madalena na Irlanda foi fechado em 1996.
O longa foi criticado pelo Vaticano como "provocação cheia de ressentimento", o filme feito com orçamento pequeno foi premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2002.
A igreja católica tem diversos fatos escondidos e quando alguém decide retratá-los, ela vem alegando calúnia e provocação. Somos livres, escolhemos no que acreditar e como devemos viver a nossa vida, ninguém tem o direito de nos prostrar, religião nenhuma pode enclausurar-nos numa única forma de pensar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Homem que Mudou o Mundo (The Gathering Storm)

Dificilmente um outro período na História da humanidade será marcado por um personagem tão crucial como o século XX o foi por Winston Churchill. "The Gathering Storm" retrata o quão importante foi esta figura emblemática.
Chartwell, Inglaterra, 1934. Em sua casa Winston Churchill (Albert Finney), que agora tem 60 anos, está enfrentando problemas privados e públicos. No aspecto particular, a violenta queda da bolsa fez a fortuna de sua família ser severamente atingida e, no público, o político que foi o mais dinâmico membro do Parlamento, com um dom de oratória que manteve a Câmara dos Comuns sempre no centro das atenções, é visto agora como um alguém muito ultrapassado. Porém, o idoso estadista se recusa a parar, continuando a falar aquilo que pensa, apesar de receber críticas até mesmo do seu partido. Em relação à ascensão de Adolf Hitler e do nazismo, ele vê nisto uma ameça nova para a segurança da Europa e da Grã-Bretanha, mas como a grande maioria dos seus compatriotas concorda com o primeiro-ministro, Stanley Baldwin (Derek Jacobi), que abomina fazer qualquer coisa que poderia conduzir a outra Guerra Mundial, as advertências de Winston passam despercebidas. É quando Ralph Wigram (Linus Roache), um dos aliados políticos de Churchill, lhe mostra um documento ultrassecreto que diz que Hitler ordenara que os donos de aviões civis registrassem as aeronaves no Ministério da Aeronáutica. Winston Churchill vê que isto pode ser o que precisa para fazer seus críticos levarem Hitler seriamente.
Albert Finney encarnou perfeitamente o personagem, ele é o próprio Churchill, emocionante sua atuação, digna e esplendorosa. "The Gathering Storm" (2002) é um filme coproduzido pela BBC - HBO e retrata os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, e nos permite observar o quão grandioso era Winston Churchill, ele próprio sabia disso e fazia questão de lembrar as pessoas de seu convívio. Interessante também era a relação com a esposa Clementine, e o quanto esta o amava.
Conhecer um pouco mais da História sob olhares diferentes é sempre engrandecedor, assim como poder ver os anos que antecederam a atroz II Guerra. Notável era a personalidade de Churchill, arrogante, mau-humorado mesmo quando fazia piada e sempre impaciente, isso tudo por conta de sua depressão e o fato de não se sentir amado pela família.

Winston Churchill foi um estadista britânico, famoso principalmente por ser o primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. No período entre guerras se dedicou fundamentalmente à redação de diversos tratados. No entanto, a entrada de Grã-Bretanha na Segunda Guerra marcou sua hora decisiva, ao ser eleito primeiro-ministro em 1940, devido a desastrosa política levada ao cabo por seu predecessor Neville Chamberlain. O exemplo de Churchill e sua incendiária oratória lhe permitiram manter a coesão espiritual do povo britânico nas horas de prova suprema que significaram os bombardeios sistemáticos da Alemanha sobre Londres e outras cidades do Reino Unido. Em 1953, Churchill recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, por suas memórias de guerra e seu trabalho jornalístico. Foi o primeiro a cunhar o termo "cortina de ferro" para ilustrar a separação entre Europa comunista e a ocidental.
A sequência "Into the Storm" (Tempos de Tormenta) foi lançada em 2009, Churchill é interpretado por Brendan Gleeson e a história oferece um olhar íntimo sobre como nasce um herói, quando Churchill estava na plenitude do comando e da eficiência. O filme mostra o processo que o tornou um grande líder em tempos de guerra.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Lugares Comuns (Lugares Comunes)

"Lucidez é um dom e um castigo; lúcido vem de lúcifer, o arcanjo rebelde, o demônio. Mas também a estrela d'alva, a mais brilhante, a última a se apagar. Lúcifer quer dizer aquele que faz a luz, a luz que permite a visão interior, o bem e o mal, juntos o prazer e a dor. Lucidez é dor, e o único prazer que se pode conhecer, o único que vagamente se parecerá com a alegria, será o prazer da consciência da própria lucidez."

Fernando (Federico Luppi) é um professor de letras aposentado à força. Sem condições financeiras de viver sem trabalhar, ele tenta mudar de ramo e reinventar-se, deixando o ensino de literatura pela administração de uma fazenda, apoiado pela esposa, por quem nutre comovente devoção. Ao longo de sua mudança de vida, ele reafirma não sem ressentimento suas posturas inabaláveis sobre a necessidade da utopia como ferramenta, a qual se apega para sobreviver ao pragmatismo feroz da contemporaneidade, marcado pelos valores materiais. Isso o coloca em choque com o filho, cuja carreira literária foi encerrada em nome de uma profissão rentável. 
A realidade argentina carrega todo o peso da crise, da mesmice, da frustração, da falta de sentido. A ausência de pensamento do reitor ou a remuneração insuficiente para viajar até a Espanha confirma a névoa do neoliberalismo e do desmonte institucional que paira sob toda a América Latina. Fernando não é muito querido no meio acadêmico por conta de seu temperamento anárquico. Perguntado em que mundo o professor vive num jantar entre amigos, ele responde que antes de Fidel, Lenin ou Marx, ele ainda estava em 1789. A antessala da vitória burguesa é seu refúgio, o pós-revolução francesa, é o ciclo vicioso, gerador dos lugares comuns dos quais ele é vítima. Sua antessala é, portanto, o sítio. Espaço da possibilidade, da gênese, da tentativa da elaboração de respostas ao lugar comum virtuoso da filosofia e da poesia.
"Lugares Comuns" além de abordar a crise econômica do país, e a filosofia do ensino, inteligentemente fala da velhice, as maneiras de se lidar com ela, e o quanto é importante ter alguém com que possamos contar e amar, sim, é sobre o amor também e como ele sobrevive em meio a um mundo onde ninguém parece amar realmente. Fernando que se vê obrigado a se aposentar sente uma sensação de inutilidade, começa a repensar e acaba percebendo que precisa descansar, com a ideia de fabricar perfume de lavanda, vende o apartamento em que vivem e vão morar em uma chácara, onde o silêncio e a natureza respeita o desejo e o pensamento dos dois. A relação de Fernando com Lili é encantadora, nos deixa com uma sensação boa, pois eles são um casal unido que compartilha, se ajuda, se repeita e se aceita.

O roteiro é sensível e de imensa inteligência, nos mostra dor, morte, superação, mas principalmente, amor que cuida, liberta e conforta.
É um retrato intimista que tem como trilha sonora o cancioneiro popular, o que faz deixar o tão conhecido tango argentino de lado. Fernando e Liliana brilham em meio a tudo isso, mesmo que a situação seja difícil e a paciência seja a única alternativa, os dois resplandecem.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A Metamorfose (Prevrashchenie)

"A Metamorfose" (2002) é baseado no conto de Franz Kafka, publicado em 1915, esta obra ficou muito conhecida e é um dos textos mais estudados e citados. A adaptação para o cinema não ficou menos angustiante do que o livro e ao mesmo tempo de uma beleza fora do comum.
Antes de mais nada é bom salientar que este filme, talvez, agrade aos que leram o livro e entendem o estilo de Kafka, onde questiona-se a existência humana diante a acontecimentos negativos sem ao menos aproveitar a situação ou poder sair dela, então temas como a solidão, paranoia, perseguição, estão inseridas nas obras deste genial escritor. No fundo os protagonistas nada mais são do que a exteriorização do próprio Kafka, expondo seus medos diante ao mundo, sua solidão interior e a dificuldade de se relacionar com a família.
A história começa quando numa manhã, ao acordar para o trabalho, Gregor vê que se transformou num inseto horrível, com um dorso duro e inúmeras patas. A princípio, as suas preocupações passam por pensamentos práticos relacionados com sua metamorfose. Depois, as preocupações passam para um estado mais psicológico e até mesmo sentimental. Gregor sente-se magoado pela repulsa dos pais perante a sua situação. Apenas a irmã se digna a levar-lhe a alimentação, mas mesmo assim a repulsa e o medo também começam a se manifestar. A metamorfose de Gregor vai além da modificação física. É sobretudo, uma alteração de comportamentos, atitudes, sentimentos  e opiniões. Gregor passa a analisar as coisas que o rodeiam com muito mais atenção. Outra metamorfose ocorre no seio familiar: o pai volta a trabalhar, a irmã também arranja um trabalho e passam a alugar quartos na própria casa onde habitam. As atitudes dos pais diante ao filho retrata a ideia que este era apenas o sustento da casa.
A metamorfose de Kafka não conta apenas a história de um homem que se transformou num inseto. É um alerta à sociedade e aos comportamentos humanos, principalmente o desespero do homem perante o absurdo do mundo. Interessante perceber que em nenhum momento Gregor se dá conta realmente que se transformou, apenas observa seus novos membros, órgãos e hábitos, mas com o tempo se acomoda na nova condição sem efetivamente entender no que se tornara.

Valerin Folkin é um aclamado diretor de teatro russo, e nos oferece esta adaptação única do conto, o ator Yevgeni Mironov nos presenteia com uma interpretação magnífica, toda a transformação é colocada sobre sua expressão corporal e facial, sem utilizar efeitos, a mudança é inteiramente teatral. Não conseguimos tirar os olhos de Mironov. Muito minimalista em termos de gestuais, e devido os atores serem de teatro todas as expressões são expostas exageradamente, intencionalmente, claro.
A linguagem e a estética são o diferencial, e para quem gosta do universo kafkiano é obrigatório que se assista "A Metamorfose".