Mostrando postagens com marcador 2017. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2017. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Desaparecimento (Napadid Shodan)
"Desaparecimento" (2017) dirigido por Ali Asgari é uma obra que exibe uma pulsante e tensa realidade, acompanhamos atordoados a jornada angustiante de um jovem casal em busca de socorro médico pela madrugada fria e vazia em Teerã, são diversos os questionamentos e as dúvidas que perpassam na mente deles, retrata a repressão e o medo ultrapassando os limites chegando ao ponto de colocar a própria vida em risco. É uma experiência desesperadora e segue-se dessa forma até o último segundo do filme.
Em uma noite fria de inverno em Teerã, dois jovens amantes se deparam com um problema sério, e eles têm apenas algumas horas para encontrar uma solução. Eles vão de hospital em hospital buscando ajuda, mas nenhuma das autoridades do hospital admitirá a jovem para lhe fornecer a atenção médica que ela precisa desesperadamente. Enquanto eles tentam encontrar uma maneira de parar a hemorragia da mulher, eles devem ocultar o que está acontecendo com seus pais. Além disso, seu relacionamento enfrenta uma crise.
Sara (Sadaf Asgari) e Hamed (Amirreza Ranjbaran), são um casal recentemente formado, porém já passam por uma crise agravante, ela sofre uma hemorragia após a relação sexual, os dois então vão em alguns hospitais em busca de assistência, mas se deparam com uma série de burocracias e em todos a ajuda é negada. Sara não quer envolver os pais porque sabe do pensamento conservador deles e seria uma vergonha avassaladora, o casal inventa vários meios para que sejam atendidos, dizem ser casados, só que lhe faltam documentos, são aconselhados a irem a um hospital particular, a procurar médicos em clínicas particulares e nem sequer a examinam direito, Sara a cada hora que passa se sente mais e mais fraca e só é medicada quando a amiga de uma amiga que estuda medicina lhe aplica um anticoagulante, seguindo de um lado para o outro esperam uma clínica indicada pela amiga abrir, sem qualquer burocracia o médico realiza o procedimento por uma quantia exorbitante e os jovens desesperados abrem mão de todo o dinheiro que possuem sem analisar que mais cedo ou mais tarde os pais descobrirão. Quando Sara sai da sala de cirurgia está diferente e extremamente calada, o alívio que buscava vem em forma de desalento.
O filme prende a atenção mesmo mantendo um ritmo lento e isso se deve a situação inquietante, os dois seguem percorrendo a cidade mesmo sem saber o que fazer, há momentos que rodam sem necessariamente um destino, somente esperando alguma ligação ou na esperança de encontrar um hospital.
O filme prende a atenção mesmo mantendo um ritmo lento e isso se deve a situação inquietante, os dois seguem percorrendo a cidade mesmo sem saber o que fazer, há momentos que rodam sem necessariamente um destino, somente esperando alguma ligação ou na esperança de encontrar um hospital.
"Desaparecimento" é um filme angustiante e possui uma estética realista primorosa, a atuação dos jovens não forçam dramaticidade e exibem o medo e a angústia de forma natural, além de que retrata por um lado a repressão que fez Sara agir impulsivamente, e por outro a liberdade, principalmente na personagem da amiga de faculdade que fala com a mãe ao telefone abertamente, o que reflete o conflito entre o antigo e o moderno no país. Sem dúvidas, uma obra que mexe com nossos sentimentos e incomoda até o último segundo. Maravilhoso!
terça-feira, 23 de junho de 2020
Pequenos Delitos (Small Crimes) / Sem Perdão (Shot Caller)
Segue dois filmes disponíveis no catálogo da Netflix que retratam o mesmo tema com o mesmo ator e ambos produzidos no mesmo ano. São obras realistas, sombrias e que se debruçam no caráter de seus protagonistas. Confira:
"Pequenos Delitos" (2017) dirigido por E.L. Katz é um filme que possui uma narrativa interessante que avança com tons de humor ácido para uma violência gradativa, o protagonista carrega o caos para onde quer que vá, destrói tudo que o cerca. Uma composição maravilhosa de Nikolaj Coster-Waldau, intérprete do icônico Jaime Lannister.
Acompanhamos Joe Denton, um ex-policial corrupto que após cumprir seis anos de prisão volta para a casa dos pais a fim de reconstruir a vida, mas logo de cara percebemos que seu passado e sua personalidade intempestiva não o deixará atingir seus desejos. Ele quer se reconectar com a filha, assumir o controle da vida, mas aos poucos se dá conta que ninguém quer contato com ele e que nunca vai ser perdoado pelo crime cometido, as pessoas ao redor não admitirão a sua reintegração à sociedade e somado a isso tudo vem uma sucessão de problemas não resolvidos que acabam atingindo os mais próximos, o personagem se molda de uma maneira decadente, o desenrolar vai o desconstruindo e apesar de gerar empatia no início suas atitudes vão causando repulsa, uma incrível composição de Nicolaj que só pela sua postura já demonstra sua personalidade instável. O filme captura nossa atenção e mexe bastante com nossos nervos ao passar por tons de sarcasmo e obscuridade atingindo um ápice memorável!
"Sem Perdão" (2017) dirigido por Ric Roman Waugh é um filme intenso que nos insere na vida de Jacob/Money, vivido magnificamente por Nikolaj Coster-Waldau, um empresário de colarinho branco que acaba se envolvendo em um acidente e vai parar na cadeia, lá desolado pela situação aprende a sobreviver e entra para uma gangue extremamente perigosa, a narrativa é pontuada por flashbacks que demonstram alguns motivos pelos quais entrou para o mundo do crime e sua ascensão através da violência.
Impressionante a construção do personagem, ele realmente muda muito durante o desenrolar, não só fisicamente, mas também sua postura e modo de enxergar a vida, na prisão cada vez mais se envolve em esquemas que o leva a se afundar e assim não o favorecendo a obter sua liberdade, mas em compensação sua fama e poder lhe fornece respeito de todos os detentos e de muitos agentes penitenciários. É uma onda que o engole e o joga para longe do que foi sua vida anterior, ele se insere até rapidamente na gangue e se alia aos mais fortes, incluindo Frank (Jon Bernthal) e Bottles (Jeffrey Donovan), mas seu processo de transformação é marcante pela aceitação da violência, e se tem uma coisa que esse filme faz é retratar as ações violentas de modo realista e seco, outro ponto é não entregar os possíveis desfechos, o que importa realmente é acompanhar a complexidade do personagem nessa trajetória pelo sistema penitenciário, onde ele experimenta altas doses de fúria e sofrimento.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Perdrix / Aurora / Microhabitat
Segue a resenha de três filmes numa única postagem por eles terem características bem parecidas e também porque particularmente foram muito especiais e merecem um lugar no blog. Ultimamente por tantas coisas acontecendo me falta ânimo para atualizar esse espaço, mas espero que aquela vontade e empenho que tinha volte. Confira:
"Perdrix" (2019) dirigido por Erwan Le Duc é uma comédia dramática francesa peculiar que flerta com absurdos, mas que também consegue despertar emoções vívidas e graciosas, tem aquele elemento especial que nos faz ficar de coração preenchido e sorrir.
Desde que a enigmática Juliette Webb (Maud Wyler) entrou em sua vida, Pierre Perdrix (Swann Arlaud) não tem sido mais o mesmo. Atingindo a sua rotina e modificando os seus dias como um meteorito emocional, a presença da moça fez com que, indiretamente, toda a família Perdrix repensasse suas vidas.
Acompanhamos a pacata e disciplinada rotina do policial Pierre na cidadezinha na belíssima região montanhosa dos Vosges, ele mora com sua mãe (Fanny Ardant), que possui um programa de rádio que fala sobre amor, seu irmão (Nicolas Maury), que ensina a importância das minhocas a um grupo de crianças, e sua sobrinha (Patience Munchenbach), isolada e sempre desejando ir embora do local, essa família um tanto estranha é repleta de coisas não resolvidas e preferem não expô-las e continuar vivendo sob um véu de ilusão confortável, Pierre literalmente cuida de todos e segue a risca sua rotina, até que Juliette aparece quando seu carro é roubado por nudistas anarquistas que vivem em meio a floresta, impaciente com os protocolos decide agir e gruda em Pierre desnorteando toda a sua maneira de pensar. Essa mulher peculiar não pensa para falar e ao se inserir na vida da família de Pierre balança a frágil estrutura, mas ela também tem seus medos e vemos isso através da angústia em perder suas lembranças, que estão todas anotadas em cadernos, dos quais se encontram no carro roubado, são dois opostos, enquanto um não quer experimentar e viver, como diz: "O cotidiano é a única coisa que não decepciona", já ela por sua vez, prova a si mesma que viveu anotando tudo como se assim tivesse a certeza de que não perderia nada da vida. O relacionamento cresce de uma forma orgânica e muito poética, lentamente os dois terminam se complementando.
"Perdrix" é um longa aconchegante e interessante, além de seus cenários naturais serem um encanto, e também os atores que elevam o nível de peculiaridade, Swann Arlaud e Maud Wyler garantem momentos curiosos e bonitos.
"Aurora" (2019) dirigido por Miia Tervo é um drama finlandês sensível, bonito e que possui passagens memoráveis e uma protagonista que brilha aos nossos olhos, nos encantamos por Aurora e torcemos para que ela supere os problemas, a empatia e identificação é inevitável.
Sempre com medo de se comprometer seriamente a qualquer pessoa, Aurora (Mimosa Willamo) é fanática por festas, mas percebe que essa prática está desgastando-a com o tempo. Depois de esbarrar com um rapaz que tem fobia da morte, ela percebe que eles dois podem aprender a superar seus traumas juntos de maneiras diferentes.
Aurora segue sua vida de maneira incerta, trabalha como manicure e vive em festas, tem sérios problemas com álcool e tudo se agrava quando é despejada e seu pai alcoólatra é internado, ela sonha em se mudar da Finlândia, mas a falta de dinheiro e oportunidade a afasta desse sonho, tentando se virar arranja um emprego cuidando de uma senhora bem engraçada e de mente aberta, desse modo vamos juntos de Aurora que se afunda cada vez mais e não enxergando de fato seu problema com a bebida, seu escape é um grande monstro a engoli-la. Nesse entremeio há o personagem Darian (Amir Escandari) e sua filha de nove anos que sonham em poder morar legalmente no país, eles moram numa casa que acolhe temporariamente imigrantes, numa noite Darian conhece Aurora numa lanchonete, ela lhe paga o restante que faltava para o lanche e numa conversa aleatória a pede em casamento para obter o visto, mas obviamente recusa, só que mais tarde ela oferece uma outra ideia, que por três mil euros arranjaria uma esposa finlandesa. A vemos muito perambular pelas ruas, no frio congelante, bebendo e cambaleando de salto alto na neve, dando festa na casa da senhora que cuida, se expondo a situações perigosas e travando meios que talvez a tirem desse buraco, Darian surge como um alívio em sua vida, mas é lentamente que essa relação toma forma e Aurora se dá conta da paixão, é realmente muito orgânico e sensível. O filme mesmo carregando momentos pesados tem uma leveza especial, terna e empática, não é difícil se identificar em muitas partes e torcer pela personagem, aliás uma composição linda e potente de Mimosa Willamo, uma tour de force que destrói o psicológico, mas também possui tons de humor que são um tanto curiosos, talvez pela expressão cultural do país.
"Aurora" é um filme apaixonante, carregado de questões interessantes, como os estereótipos que se cria em cima de imigrantes, o alcoolismo e o processo do entendimento desse problema, a sensação de inquietação pela falta de oportunidades, perdas e a solidão.
"Microhabitat" (2017) dirigido por Jeon Go-Woon é um filme sul-coreano simples, mas imenso, retrata pequenas grandes paixões que nos movem, no cotidiano chato e cada vez mais competitivo encontrar alívio nessas coisas que amamos, sem dúvidas, é o que dá sentido à vida. São coisas particulares a cada um e que podem parecer errado e desprezível a muitos. A protagonista é gigante em cena, aliás o filme propõe o exercício da quebra de julgamentos, até porque todos temos nossos pequenos vícios, esses que somente a nós cabe decidir se nos faz bem. Mais uma vez uma personagem de fácil identificação e que amplia nossos horizontes de pensamentos. Melancólico e extremamente sensível acompanhamos a rotina de Mi-So (Esom), que trabalhou como doméstica nos últimos 3 anos e ganhou 45 mil won (US$ 40) por dia. Mi-So adora beber Whisky e fumar cigarros. Seu namorado é Han-Sol (Ahn Jae-Hong) e ele quer se tornar um escritor de webtoons. Mesmo que Mi-So seja pobre, ela está feliz enquanto tem Whisky, cigarros e seu namorado. Infelizmente, os preços dos cigarros aumentam no primeiro dia do novo ano. Mi-So tem que dar algo e ela decide desistir de seu apartamento. Então, inicia-se uma peregrinação, ela contata antigos amigos, dos quais formavam uma banda, ela dorme um tempo na casa de cada um, mas aos poucos percebe que é um incômodo e que todos mudaram sua personalidade, aderiram ao sistema e estão infelizes, a cada porta que bate tem uma surpresa e é tratada de variadas formas, desde desprezo, julgamentos e falsa simpatia. Mi-So dispõe ainda de uns trocados e tenta arranjar uma casa bem longe da cidade, mas o preço exorbitante a desanima e mesmo os piores lugares, como cubículos sujos são caros, desse modo decide gastar com o que faz sentido para si, mas com o aumento do cigarro e Whisky e a partida do seu namorado em busca de uma melhoria financeira se entristece e se torna ainda mais marginalizada, vemos que ela seguiu pelo caminho que lhe falava o coração e foi fiel a sua personalidade, não se vendeu e modificou para agradar e se inserir num processo que capitaliza absolutamente tudo. É muito fácil julgar o caminho dos outros, especialmente àquele que se torna à margem de tudo, mas se faz sentido para si é o que importa, afinal o que resta a cada um é esses pequenos prazeres, como no caso de Mi-So, cigarro e Whisky.
"Microhabitat" é uma obra singela que mostra uma personagem que não tem vergonha de seus vícios e de suas escolhas, que segue ignorando o julgamento alheio até porque entende que a pessoa que julga decepou inúmeras particularidades para se tornar algo que quase sempre não escolheu. É o retrato da desigualdade e o impacto da cultura do consumo, da naturalização do ter e não do ser. Filme simples, mas que carrega em si um gigantesco significado. Lindo!
sábado, 7 de setembro de 2019
Em Pedaços/In the Fade (Aus dem Nichts)
"Em Pedaços" (2017) dirigido por Fatih Akin (The Cut - 2014) é um drama pesado e triste que retrata o preconceito, a violência e a injustiça, forte e intenso somos absorvidos em uma trama que mergulha na dor da perda e no processo de transformação da protagonista.
Após cumprir pena por tráfico de drogas, o turco Nuri Sekerci (Numan Acar) leva uma vida amorosa e tranquila com a esposa Katja Sekerci (Diane Kruger) e o filho Rocco de 6 anos na Alemanha. Certo dia ele e o menino estão no escritório e morrem vítimas de uma explosão criminosa, tragédia que deixa Katja sem chão. Ela batalha na justiça pela punição dos culpados, um casal neonazista, e, insatisfeita com o desenrolar do caso, decide pela vingança com as próprias mãos.
A história se desenrola de maneira muito sensível apesar de seu peso e tensão, certamente Diane Kruger é o grande ponto a se destacar, uma verdadeira tour de force, sua entrega é intensa e seu sofrimento transpõe a tela. Seu mundo se transforma quando perde o marido e o filho por um ato terrorista, em um minuto estava contente ao lado de seus amores e no minuto seguinte está desolada e perdida com a notícia da morte deles. Acompanhamos de perto a sua lenta e dolorosa transformação, ela passa por todas as fases do luto e ao mesmo tempo precisa ter força para ir as audiências.
No começo há dúvidas sobre quem teria colocado a bomba e os motivos, pois Nuri já tinha sido preso, tudo parece ir contra e todos a sua volta começam a produzir dúvidas sobre o caráter de seu marido, Katja então coloca a mãe e os sogros para fora de sua casa e agradece a amiga pelo apoio, ela deseja ficar sozinha com sua dor, são momentos difíceis e as certezas vão se escoando até que o advogado e também grande amigo lhe dá a notícia de que encontraram os autores da explosão e que ela estava correta ao afirmar que eram neonazistas. Agora seu objetivo e motivação é vê-los na cadeia e para isso seu advogado fará o melhor, é bastante óbvio a culpa do casal, porém existem álibis plantados e brechas que gerarão dúvidas, se trata de uma rede de neonazistas, mas a lei é deveras complexa e Katja vai ao chão com a decisão do juiz.
No começo há dúvidas sobre quem teria colocado a bomba e os motivos, pois Nuri já tinha sido preso, tudo parece ir contra e todos a sua volta começam a produzir dúvidas sobre o caráter de seu marido, Katja então coloca a mãe e os sogros para fora de sua casa e agradece a amiga pelo apoio, ela deseja ficar sozinha com sua dor, são momentos difíceis e as certezas vão se escoando até que o advogado e também grande amigo lhe dá a notícia de que encontraram os autores da explosão e que ela estava correta ao afirmar que eram neonazistas. Agora seu objetivo e motivação é vê-los na cadeia e para isso seu advogado fará o melhor, é bastante óbvio a culpa do casal, porém existem álibis plantados e brechas que gerarão dúvidas, se trata de uma rede de neonazistas, mas a lei é deveras complexa e Katja vai ao chão com a decisão do juiz.
A história seca e incômoda revela muito da atualidade, mas em momento algum discorre sobre política e se aprofunda nas questões, mas vemos que a intolerância e o ódio são construídos em formas circulares e por isso nunca terminará e a injustiça permanecerá; o desespero de Katja se acelera a cada nova audiência, esses instantes possuem diálogos potentes, principalmente, quando o pai do acusado depõe. A sensação de falta de ar é constante, permanecer junto da protagonista produz sentimentos de tristeza, raiva e angústia, e a sua vingança ao final destrói.
"Em Pedaços" é um filme que nos absorve por completo, coloca em cena a injustiça de atos de terrorismo por xenofobia, a violência perpetrada por ideologias extremamente conservadoras e ignorantes, reflete a dor e as fases do luto de maneira orgânica, forte e sensível, e ainda possui uma atuação grandiosa de Diane Kruger, impossível sair ileso.
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Labirinto Verde (Zone Blanche)
"Labirinto Verde" é uma série francesa de suspense e investigação policial disponível no catálogo da Netflix desde junho de 2019, dirigida por Julien Despaux e Thierry Poiraud conta com 8 episódios recheados de mistério envolvendo mitos celtas e assassinatos. Ótima produção, seu diferencial está no clima, lenta e melancólica prima por explorar a natureza e seus segredos. A história se passa em uma cidadezinha belga, Villefranche, um local isolado em meio a uma labiríntica floresta bucólica, mas algo incomum está acontecendo, pois apesar de aparentar ser pacata a cidade está tomada por assassinatos e desparecimentos, a major Laurène (Suliane Brahim) e o recém-chegado promotor Franck Siriani (Laurent Capelluto) precisam desvendar um novo crime: uma mulher apareceu pendurada em uma árvore na floresta.
Com o desenrolar entendemos que essa cidade está sob o poderio da família do pai do prefeito Bertrand (Samuel Jouy), que possui um negócio local e que está sendo investigado pelo promotor, Bertrand tem um passado com a Major e sua filha também está desaparecida, a ligação que a maioria dos habitantes possuem com a floresta vai sendo revelada aos poucos, incluindo um grupo rebelde denominados Filhos de Arduina, a filha de Laurène explora esse plot e vemos o desenrolar disso muito mais na segunda temporada, os personagens não cativam, mas isso não é problema e certamente a grande protagonista é a floresta e seus mistérios, aliás a ambientação é seu maior ponto, enche os olhos com tanta beleza, o lugar é maravilhoso e o clima frio e escuro só realça a sensação de que ali realmente existe algo sinistro. Aos poucos somos inseridos na história de Laurène e entendemos sua obsessão com a floresta, seu passado é bizarro e todos os crimes parecem ter relação com algo que vive entre as árvores. São muitas cenas em que ela adentra o labirinto verde e tenta buscar pistas. A cada episódio novos crimes são cometidos, mas não se estendem e logo são concluídos, tudo com o intuito de alimentar o mistério maior. É bastante enigmática e calma mesmo com toda a criminalidade que a envolve.
Um thriller sombrio que te suga para uma imensidão verde e que explora a mitologia celta, a apreciação das imagens garantem a tensão, o que predomina é o clima escuro e melancólico e todos os personagens possuem dramas separados, alguns mais desenvolvidos, outros nem tanto, mas surpreende pelas camadas e as dúvidas que geram, a primeira temporada é ótima, desenreda e fecha perfeitamente para a segunda temporada que surge desvendando mais mistérios e nos envolvendo em outros mais elaborados e interessantes. Outros personagens aparecem e outros são mais explorados.
"Labirinto Verde" agrada a audiência que busca por séries de investigação mais calmas em que o ambiente faz parte do enredo, a floresta é a protagonista e a verdadeira resposta está contida nela, os personagens estão à disposição dela e, por isso, mesmo sendo chatos ou apáticos não faz diferença, somos absorvidos pela atmosfera e seus segredos obscuros. Por enquanto possui duas ótimas temporadas disponíveis na Netflix!
quinta-feira, 18 de julho de 2019
As Duas Irenes
"As Duas Irenes" (2017) escrito e dirigido por Fabio Meira é um filme nacional delicado e extremamente caprichado, um drama familiar curioso que se desnovela pouco a pouco e que nos ganha pela abordagem belamente simples.
Irene (Priscila Bittencourt) é a filha do meio de uma família tradicional do interior, que um dia descobre que o pai (Marco Ricca) tem uma filha fora do casamento, também chamada Irene (Isabela Torres) e da mesma idade que ela. Revoltada com a descoberta, Irene passa a se aproximar de sua meio-irmã e da mãe dela, sem revelar sua identidade. É o início de uma cumplicidade entre elas, que passa também pela descoberta da sexualidade.
Acompanhamos tudo pelo olhar de Irene, que está desabrochando e esperta percebe coisas que ninguém parece querer enxergar, sua mãe é rígida e não demonstra qualquer afeto por ela, já para a irmã mais velha vemos o contrário, sua relação com o pai é boa e da parte dele sentimos um carinho, só que Irene acabou de descobrir que ele tem outra família e uma filha também chamada Irene e de sua mesma idade. Suas atitudes se tornam rebeldes e começa a afrontar os pais, ela decide se aproximar da outra Irene sem revelar a verdade. A mãe da outra Irene é costureira e a trata com muita simpatia, nas idas para que lhe faça uma blusinha conhece a meia-irmã e aos poucos fazem amizade, ela diz que se chama Madalena e a partir dessa relação um novo mundo se abre, elas saem, conversam e não se desgrudam, criam uma proximidade que exala curiosidade por parte das duas, pois elas são diferentes entre si, a outra Irene é mais aberta e já fica com meninos e usa roupas provocantes, isso tudo vai afetando a personalidade da menina que vive com uma família conservadora. O fato é que Irene vai comparando a maneira díspar que seu pai conduz as famílias e volta e meia faz perguntas do tipo: "Pai, você gosta de morar com a gente?", e dentro dessa confusão seu comportamento vai se modificando.
Essa história de filhos fora do casamento e de possuir mais de uma família sem que nenhuma saiba da outra ou até mesmo com conhecimento é algo comum e existe aos montes, mas pouco se discute sobre isso e a maneira que o filme explora o tema é deveras interessante e curioso, a Irene que descobre e vai atrás para conhecer sua meia-irmã também chamada Irene sem revelar a verdade instiga o espectador, suas escolhas são bastante pertinentes, além de que no meio disso tudo ela desabrocha e se liberta. A decisão final é certeira, sagaz, e fecha com brilhantismo.
As atrizes Priscila Bittencourt e Isabela Torres preenchem as cenas, são perfis diferentes, mas que se complementam, sempre com olhares curiosos uma para com a outra, acontece um bonito jogo de espelhos, a fotografia é também uma aliada com sua iluminação natural e a paisagem da cidadezinha interiorana de Goiás esbanja simplicidade e beleza. Tudo tem muito significado e importância, além de que o filme se faz atemporal.
"As Duas Irenes" encanta e gera reflexões acerca de questões familiares, como segredos e traições, mas sem nunca revelar demais, aborda em meio a isso o amadurecimento, as descobertas que a puberdade traz e a construção da personalidade. Um belo filme nacional que com uma abordagem minimalista e singela ganha nossa atenção e arrebata pelo seu visual primoroso.
terça-feira, 16 de julho de 2019
Plano-Sequência dos Mortos (Kamera o Tomeru Na!)
"Plano-Sequência dos Mortos" (2017) dirigido por Shin'ichirô Ueda é um filme de terror zumbi japonês original e criativo que quebra barreiras narrativas e surpreende por sua metalinguagem, é o tipo de filme que vale a pena ver sem saber absolutamente nada, pois a experiência pode ser prejudicada por qualquer informação, então se ainda não assistiu é melhor voltar para ler depois.
Um grupo de cineastas amadores decide usar um prédio abandonado para filmar um grande plano-sequência envolvendo mortos-vivos e experimentos científicos para que possam usar em um filme de terror com baixo orçamento. A gravação se complica quando eles são atacados por zumbis de verdade, mas a equipe decide aproveitar o momento para deixar tudo registrado. O que aparentemente é uma obra clichê como tantas outras se tornará algo inusitadamente diferente. Aviso: Haverá Spoiler.
O filme é completamente independente e toda a filmagem ocorreu em apenas oito dias, incluindo o plano-sequência de 37 minutos no início em que mostra uma equipe rodando um filme de zumbi numa locação abandonada e de repente são realmente atacados, é um tanto inusitado a reação que causa, mas certamente a mais genial dentre tantas obras do tema lançadas. Acompanhamos essa equipe tentando gravar, o diretor enlouquecido querendo uma atuação de verdade da garota sendo atacada e quando acontece a invasão zumbi os dois atores e a maquiadora tentam sobreviver. Clichê como a maioria dos filmes de mortos-vivos, mas as surpresas em torno são espetaculares, basicamente a trama é dividida em dois arcos narrativos, a primeira sendo a gravação de um filme de baixíssimo orçamento e a segunda mostrando o diretor sendo contratado para fazer um episódio de um programa na TV com o tema zumbi, só que tudo ao vivo, vamos juntos do diretor em sua empreitada dificílima em criar, produzir, reunir elenco, planejar e ensaiar para que tudo ocorra perfeitamente já que não irá ter cortes. Nessa confusão criativa acontecem inúmeros imprevistos e daí somos brindados com cenas contendo todas as manobras e improvisos para sair alguma coisa enquanto o diretor está sendo pressionado pela emissora. A metalinguagem é excepcionalmente bem trabalhada, são diversas camadas narrativas que exalam amor ao cinema e garante além de um entretenimento uma aula esclarecedora dos perrengues e artimanhas nos sets de filmagem, é hilário, irônico e inteligente.
Os atores são muito engraçados, especialmente o diretor vivido por Takayuki Hamatsu, que impressiona por sua habilidade na hora das cenas ao fazer o diretor descontrolado, e sua mulher (Harumi Shuhama) que também acaba sendo colocada de última hora para fazer a maquiadora, ela tem um problema que a fez no passado ficar longe das câmeras, que é entrar no personagem e levá-lo a sério demais, o que carreta em alguns problemas no filme, mas nele pronto não nos damos conta, só quando visualizamos os bastidores e o que foi feito para que tudo desse certo ao final. O filme brinca com o gênero e homenageia o cinema e ainda nos presenteia com as curiosidades por trás das câmeras.
"Plano-Sequência dos Mortos" é uma obra inusitada e surpreendente, sua metalinguagem é fascinante e trabalha com a comédia de forma inteligente, os clichês e as bobagens são colocadas de um jeito criativo e não tem como não se apaixonar pela concepção do todo, fazer cinema é um processo difícil, mas imensamente satisfatório e o público percebe quando a arte foi feita com paixão. Filmaço!
*Apesar de grande sucesso em festivais, o filme teve um lançamento limitado fora do Japão e, claro, os Estados Unidos já planeja um remake.
quinta-feira, 4 de julho de 2019
Mal Nosso
"Mal Nosso" (2017) escrito, produzido e dirigido por Samuel Galli é um filme de terror brasileiro muito bem realizado, tem um roteiro instigante com reviravoltas inteligentes, referências deliciosas e uma trilha sonora impecável, com certeza uma baita opção para quem adora o gênero, não deixa nada a desejar a produções americanas, inclusive sendo melhor que algumas que passeiam pelos temas de exorcismo/sobrenatural. Também conta com a mágica mão de Rodrigo Aragão para todo o trabalho de maquiagem.
Arthur (Ademir Esteves) é um pai zeloso, preocupado com sua filha única (Luara Pepita), prestes a entrar na faculdade. Ele esconde um segredo desde sua juventude sobre algo que pode ser prejudicial ao futuro da jovem, e para isso contrata os serviços de um serial killer (Ricardo Casella) na deep web. Após fazer um acordo com o assassino, Arthur abre as portas para uma jornada mortal envolvendo psicopatas, maldições e demônios.
Somos absorvidos por uma atmosfera sinistra, a história é ambientada nas profundezas de São Paulo e acompanhamos Arthur, um homem preocupado com sua filha e que está atrás de um assassino em série na deep web, ele então contrata Charles e marcam um encontro. Esse início trabalha com elementos violentos e impactantes, todo o desenrolar caminha lentamente a fim de explorar alguns subgêneros e surpreende pela sua mescla interessante e inventiva. O gore se faz presente e as cenas de violência explícita acabam deixando o filme com um tom sério, a estética é outra aliada e preenche a atmosfera enigmática e cada vez mais perturbadora, o único porém são algumas atuações, mas não diminui a obra e termina não importando tanto. Por volta dos 40 minutos é que adentramos na história de fato e conhecemos os porquês de Arthur ter contratado Charles, depois do cumprimento do acordo Charles abre a terceira pasta que estava fechada no pen drive deixado por Arthur, lá ele encontra um vídeo em que Arthur conta uma história sobre ter relação com o mundo dos espíritos desde garoto e que de algum modo foi avisado que um demônio chegaria e que sua filha seria possuída. Passeamos pelo passado de Arthur e observamos todo o medo que sentia quando as aparições ocorriam, demorou a entender que ele podia ajudar as almas boas, as conversas que aconteciam em seus sonhos com um palhaço é o que o auxiliaram nessa jornada, e é incrível como tudo se conecta ao final de forma criativa.
O lado sobrenatural do filme é maravilhoso, mexe com nossa imaginação e surpreende pela estética e composição, são tomadas sinistras, destaque para a cena de Arthur jovem na banheira, as aparições do demônio, que confere um estilo mais à moda antiga e sem dúvidas um dos pontos a se elogiar e, claro, a do exorcismo que desencadeia uma sensação aflitiva. A trilha sonora composta por Guilherme Garbato e Gustavo Garbato é imersiva e coroa de forma esplêndida, e sem deixar de dizer que a mescla de drama, thriller psicológico, terror sobrenatural e o flerte com o slasher traz novos ares para o clássico terror, a história tem uma narrativa diferente e conquista por costurar a trama perfeitamente e entregar um ápice sensacional.
"Mal Nosso" é um filme completamente independente, feito com recursos próprios, gravado em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o longa percorreu por mais de 30 festivais no exterior e conquistou a crítica, um feito e tanto para um filme de terror independente nacional, já no Brasil a coisa é mais devagar e a divulgação ficou por conta dos serviços de streaming, aliás, dia 08 de julho estará na Netflix. Valorize o cinema nacional e ainda mais o de gênero!
quinta-feira, 27 de junho de 2019
Arábia
"Arábia" (2017) dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans (A Vizinhança do Tigre - 2014) é um filme nacional impressionante e impactante por abordar com realidade e imenso naturalismo a vida difícil de um homem à margem da sociedade que se desloca pelo interior de Minas Gerais em busca de empregos, todos eles sempre braçais e extremamente pesados e nocivos à saúde, o protagonista narra sua história e com bastante atenção acompanhamos sua trajetória simples e melancólica, preso a uma bolha social não há nenhum indício de que sua vida irá de alguma maneira mudar, não existe sequer um fio de esperança, é um retrato contundente de um operário engolido pelo sistema de trabalho opressivo cuja falta de humanização é destruidora.
Em Ouro Preto, Minas Gerais, um jovem (Murilo Caliari) encontra por acaso o diário de um operário metalúrgico que sofreu um acidente e por suas memórias embarca numa jornada pelas condições de vida de trabalhadores marginalizados. Há um prólogo que nos faz conhecer o local, a vila operária de uma fábrica siderúrgica, lá encontramos um adolescente e seu irmão mais novo, sozinhos sobrevivem em meio a fumaça, a solidão, ao alheamento e a ausência de um adulto incomoda, não se sabe onde está a mãe desses meninos, apenas a tia os visita. Depois que Cristiano se "acidenta" na fábrica esse jovem a pedido da tia vai na casa dele e lá encontra um diário, aí então embarcamos numa jornada penosa e claustrofóbica.
A trama nos conduz em uma espécie de road movie ao longo de dez anos da vida de Cristiano, que segue sua vida buscando empregos após sair da prisão, primeiro embarca para o interior a fim de trabalhar colhendo mexericas, o que acaba não rendendo absolutamente nada, praticamente é uma troca por um alojamento medíocre em que dorme no chão, a demanda pela fruta está baixa e o patrão diz que não tem dinheiro para pagá-lo e o manda embora. Depois pega a estrada e começa a trabalhar na duplicação da BR-381, lá faz alguns amigos e contemplamos momentos simplórios, mas muito significantes na maneira em que Cristiano os narra, ele diz sobre suas andanças, suas diversas cansativas funções, lugares onde dormiu, as pessoas que conheceu e também a sua sensação de perda de tempo quando não está trabalhando e, por fim, a solidão, sua fiel companheira, os laços que forma nesses trabalhos logo são perdidos e o que resta são apenas memórias. Aristides de Souza brilha em cena e se revela um grande talento, ele possui semelhanças com seu personagem, já que passou por alguns empregos parecidos e também é ex-presidiário.
A trama nos conduz em uma espécie de road movie ao longo de dez anos da vida de Cristiano, que segue sua vida buscando empregos após sair da prisão, primeiro embarca para o interior a fim de trabalhar colhendo mexericas, o que acaba não rendendo absolutamente nada, praticamente é uma troca por um alojamento medíocre em que dorme no chão, a demanda pela fruta está baixa e o patrão diz que não tem dinheiro para pagá-lo e o manda embora. Depois pega a estrada e começa a trabalhar na duplicação da BR-381, lá faz alguns amigos e contemplamos momentos simplórios, mas muito significantes na maneira em que Cristiano os narra, ele diz sobre suas andanças, suas diversas cansativas funções, lugares onde dormiu, as pessoas que conheceu e também a sua sensação de perda de tempo quando não está trabalhando e, por fim, a solidão, sua fiel companheira, os laços que forma nesses trabalhos logo são perdidos e o que resta são apenas memórias. Aristides de Souza brilha em cena e se revela um grande talento, ele possui semelhanças com seu personagem, já que passou por alguns empregos parecidos e também é ex-presidiário.
O filme retrata com potência as consequências de se viver em função do trabalho, a dura realidade que mecaniza seres humanos e que diminui a expectativa de vida, por falta de opções e presos a uma condição social miserável aceitam por não conseguirem enxergar além, Cristiano aos poucos encontra a lucidez e entende o que esse tipo de trabalho ocasiona, é destruidor seus pensamentos ao fim do filme.
"A nossa vida é um engano, a gente sempre vai ser isso e tudo o que a gente tem é esse braço forte e a nossa vontade de acordar cedo".
A fotografia é um ponto de destaque, assim como a trilha sonora com canções como "Raízes", de Renato Teixeira, "Três Apitos", de Maria Bethânia, a linda "Blues Run the Game", de Jackson C. Frank, além de quando Cristiano canta "Homem na Estrada", de Mano Brown, são músicas que representam perfeitamente a aura da história.
"Arábia" possui um ponto de vista que mescla crueza e sutileza para retratar o cenário de um trabalhador que nunca descansa, que sempre está em movimento, que pauta sua vida em razão do trabalho, que pensa somente em sua sobrevivência e que vive de incertezas alheio a outras esferas da vida. O semblante e a fraqueza de Cristiano ao final juntamente com seu momento de lucidez, como ele próprio descreve: "foi como acordar de um pesadelo", fica cravado na nossa mente e traz um sentimento de tristeza e desesperança. Uma obra-prima nacional que tem um grande valor político-social.
sexta-feira, 7 de junho de 2019
Kyrsyä - Tuftland
"Kyrsyä - Tuftland" (2017) dirigido por Roope Olenius é um filme de terror finlandês que trabalha o mistério e o bizarro de forma primorosa, sua atmosfera estranha e enigmática segue por todo o desenrolar e não tem como reclamar de clichês, visto que a cada instante há novas camadas sinistras e desdobramentos perturbadores.
Irina (Veera W. Vilo), uma estudante teimosa tenta superar seus problemas aceitando um emprego de verão em um estranho e isolado vilarejo chamado Kyrsyä. Acompanhamos a angústia de Irina em sua rotina, na faculdade está sempre insatisfeita e seu único desejo é sair de sua cidade para esquecer os problemas, ela tenta se inscrever em trabalhos de verão, mas nada dá certo, até que inesperadamente recebe uma carta indicando um trabalho numa distante aldeia, Kyrsyä, na área têxtil de uma fábrica, que é o que Irina está estudando. Sem pensar muito o como a carta foi parar lá decide embarcar, em paralelo vemos um esquisito a seguir ela, morador da aldeia e que enviou a tal carta, Perti (Miikka J. Anttila), em determinado ponto ele a acompanha até o local inóspito rodeado somente pela natureza, chegando ela se depara com pessoas muito simples e que dão valor a outras coisas, o mundo moderno não os interessa e fazem tudo manualmente auxiliados pela natureza, o respeito e a devoção é aos poucos delineada e Irina se encanta de início, aproveita seus dias olhando ao redor e passeando pelas trilhas na floresta, mas sem nunca deixar também de se sentir deslocada e impressionada com as ações dessa "família". A forma simples e naturalista acaba tornando-se numa espécie de adoração à natureza e os laços que os unem se revelam abomináveis. Irina começa a questionar sobre a produção que nunca começa e sobre outras coisas, especula com Maaria (Saara Elina), a mais jovem dessa aldeia, ela possui características peculiares e insanas. Então começam a produzir manualmente pompons, o que deixa Irina muito brava e daí decide ir embora, mas os habitantes a seguram e a querem lá para sempre, inclusive arranjando-lhe um marido, a ideia de procriação é o que domina e ainda há um humano selvagem que fica preso o tempo todo pela sua alta libido, a surrealidade também dás as caras com o aparecimento de uma menina fantasma, e o enigma paira no ar, qual a utilidade da confecção de pompons?
Inicialmente Irina abraça a vida simples e rústica e releva os comentários severos, como os da avó, mas com o passar do tempo o ar sinistro toma conta, eles agem de forma estranha, os homens caçando entoando vocalizações, as mulheres e seus afazeres domésticos, os urros que ouve, sinais da natureza, Perti e suas visões, e então um possível culto. É bastante particular a narrativa e em nenhum momento podemos imaginar seu desfecho.
Inicialmente Irina abraça a vida simples e rústica e releva os comentários severos, como os da avó, mas com o passar do tempo o ar sinistro toma conta, eles agem de forma estranha, os homens caçando entoando vocalizações, as mulheres e seus afazeres domésticos, os urros que ouve, sinais da natureza, Perti e suas visões, e então um possível culto. É bastante particular a narrativa e em nenhum momento podemos imaginar seu desfecho.
Vale ressaltar a maravilhosa atmosfera criada principalmente nas locações naturais, os caminhos da floresta, as pistas espalhadas pelo solo, os ruídos. O mistério envolvendo a coexistência dessas pessoas e a natureza intriga bastante, e outro ponto que ajuda criar tensão é sua trilha sonora que gera a sensação de uma fábula sombria, além também de seu humor nada convencional e bizarro.
"Kyrsyä - Tuftland" levá-nos para um lugar rústico e assombroso, onde o que predomina são pensamentos e atitudes ultrapassadas e que unem à selvageria de um culto pela vida simples sem a intromissão do mundo industrializado e moderno. Um conto de terror escandinavo interessante e que surpreende pela beleza e, principalmente, pela excentricidade.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
The Great Buddha+
"The Great Buddha+" (2017) dirigido por Hsin-yao Huang é um filme taiwanês simples que retrata o cotidiano de dois homens pobres que passam o tempo conversando e olhando as filmagens da câmera do carro do chefe, além de colocar a cultura desse pequeno país asiático em questão e explorá-la de maneira irônica. A fotografia em preto e branco garante seu tom poético e ressalta a crueza dessa realidade tão desvalida.
Pepino (Cres Chuang) é vigia noturno numa fábrica de estátuas de bronze. Seu colega, Umbigo (Bamboo Chu-Sheng Chen), coleta material reciclável durante o dia. O maior prazer na vida de Pepino é folhear durante as madrugadas as revistas pornô coletadas por Umbigo. Lanches tarde da noite e assistir televisão são parte integral de suas vidas monótonas. A história envolve deuses, desejo sexual de homens de meia-idade e conversa entre fantasmas e humanos. Talvez a audiência a ache ridícula, mas a própria vida não é uma farsa?
Acompanhamos a vida tediosa e miserável de Pepino, um vigia noturno de uma fábrica de estátuas de bronze, há uma enorme expectativa no local de dia pela construção de um buda gigante, mas a noite o vazio toma conta e a única distração desse pobre homem é seu amigo Umbigo que anda pelas ruas recolhendo material reciclável, todas as noites ele vai visitá-lo e leva algumas revistas pornográficas e trocam ideias aleatórias. Umbigo entediado decide olhar as filmagens da câmera do carro do patrão de Pepino, uma medida de segurança que virou moda segundo eles, a maioria são imagens enfadonhas, porém existem várias que demonstram o quão mulherengo o patrão é, inclusive arranjando atritos entre as amantes, eles os escutam transando no carro, as discussões e até que desse passatempo sai algo pesado e do qual eles nunca esperariam ver, total comprometedor e que mexe com a moral de Umbigo.
O filme possui sacadas inteligentes e a maioria das imagens surgem como símbolos, discute a cultura religiosa e a hipocrisia das pessoas, a cena em que pedem a opinião sobre a estátua para os devotos é uma boa demonstração, repleta de acidez mas tudo com muita sutileza e destreza. Também coloca em evidência a grande discrepância social numa série de situações engraçadas, além dos ótimos diálogos que surgem de conversas que parecem não ter sentido, mas que acabam surtindo um efeito impactante.
Enquanto assistem as filmagens os dois confabulam e dizem frases com alto poder de reflexão de uma maneira simples, e analisando percebemos que toda a vida é uma farsa, principalmente a dos mais abastados que fingem a maioria das coisas, e constatamos mais uma vez que a corda sempre vai arrebentar do lado mais fraco. Um aspecto interessante da obra é a metalinguagem, como a intromissão do diretor narrando e explicando algumas partes e também colocando cor somente quando comentam o quanto a vida dos ricos é colorida, ou mencionando que ninguém verá a cor de tal coisa e, portanto, citá-la não faz sentido.
"The Great Buddha+" é um filme crítico e irônico e um belíssimo exemplar de cinema orgânico, não se prende a gêneros e flui de maneira particular, uma experiência fascinante, reflexiva e divertida a seu modo.
quarta-feira, 10 de abril de 2019
Os Garotos Selvagens (Les Garçons Sauvages)
"Os Garotos Selvagens" (2017) dirigido pelo estreante em longas-metragens Bertrand Mandico (Ultra Pulpe - 2018) é um filme surpreendente, original e inebriante, uma viagem surreal que vai do sinistro à fascinação e que incorpora elementos experimentais, uma produção desprendida que traz à tona temáticas interessantes em torno da sexualidade com boas dosagens de símbolos eróticos em tom de fábula.
Início do século XX, cinco adolescentes de boas famílias que amam a liberdade cometem um crime brutal. Eles são dominados por um capitão de um veleiro, que os leva para um cruzeiro repressivo. Os jovens fazem um motim e acabam em uma ilha selvagem que combina diversão e vegetação exuberante. A transformação pode começar...
Com uma estética aprimorada e livre remetendo por vezes os filmes dos anos 50 e por vezes dos anos 70/80, utiliza-se recursos narrativos imaginativos e hipnotizantes capazes de gerar tanto a sensação de estranheza como a de encantamento, há um teor sexual forte, pois trata-se do despertar sexual de cinco garotos, dentro desse universo onírico existem temas que envolvem gênero, sexualidade e violência, no início acompanhamos um jovem perdido e alucinado e ouvimos vozes o chamando, logo é pego por marinheiros que o atacam sexualmente e aí percebemos que o garoto possui um único seio, a história volta no tempo e conhecemos o grupo de cinco meninos, todos bem ricos e que vivem a espalhar maldades, apaixonados pela professora de literatura combinam um ensaio teatral e no meio a atacam e a amarram nua num cavalo, todos se masturbam à sua frente fazendo com que o cavalo dispare e caia provocando a morte da professora. Esse episódio grotesco vai para o tribunal numa cena estonteante em que os garotos selvagens tentam ludibriar para se saírem ilesos, todos são mentirosos, cínicos e essencialmente malvados, porém não conseguem se livrar da punição e para isso é contratado um capitão (Sam Louwyck) que os levará para uma ilha e cujas experiências vivenciadas no trajeto e nessa ilha estranha os transformarão e aprenderão enfim a ter respeito, empatia e, principalmente, a sentir na própria pele o abuso.
Os cinco meninos Tanguy (Anaël Snoek), Sloan (Mathilde Warnier), Romuald (Pauline Lorillard), Hubert (Diane Rouxel) e Jean-Louis (Vimala Pons) são interpretados na verdade por atrizes e a composição de cada é maravilhosa e tanto a feição como a postura enganam quase totalmente, especialmente Vimala que faz o terrível Jean-Louis e Anaël como Tanguy, a transformação que a ilha produz vai mudando as expressões e os trejeitos, a ilha é repleta de mistérios e coisas prazerosas e fascinam os meninos que se soltam e experimentam, há os frutos cabeludos, o leite que escorre por plantas fálicas e outras que propiciam o ato sexual, e aos poucos vão os modificando e o primeiro indício é o seio nascendo, logo o pênis cai e se abre o horizonte, o entendimento sobre o novo corpo juntamente com os receios, as ameaças e os desejos, o roteiro joga com questões de gênero o tempo todo e desconstrói absolutamente tudo.
Os cinco meninos Tanguy (Anaël Snoek), Sloan (Mathilde Warnier), Romuald (Pauline Lorillard), Hubert (Diane Rouxel) e Jean-Louis (Vimala Pons) são interpretados na verdade por atrizes e a composição de cada é maravilhosa e tanto a feição como a postura enganam quase totalmente, especialmente Vimala que faz o terrível Jean-Louis e Anaël como Tanguy, a transformação que a ilha produz vai mudando as expressões e os trejeitos, a ilha é repleta de mistérios e coisas prazerosas e fascinam os meninos que se soltam e experimentam, há os frutos cabeludos, o leite que escorre por plantas fálicas e outras que propiciam o ato sexual, e aos poucos vão os modificando e o primeiro indício é o seio nascendo, logo o pênis cai e se abre o horizonte, o entendimento sobre o novo corpo juntamente com os receios, as ameaças e os desejos, o roteiro joga com questões de gênero o tempo todo e desconstrói absolutamente tudo.
Um grupo de meninos burgueses com os hormônios à flor da pele que praticam barbaridades e que se acham estar acima pelos privilégios vão conhecer na própria pele o que é o medo do abuso e da violência, nesse entremeio experimentam sensações diversas que ultrapassam barreiras. Mais adiante encontramos Séverine (Elina Löwensohn), que descobriu a ilha e que colocou em prática seus estudos acerca das plantas hormonais, conta o como convenceu o capitão a aperfeiçoar um método de domar garotos selvagens, pois ela acreditava que um mundo feminizado acabaria com a violência e os conflitos.
O filme é uma experiência maravilhosa que não se apega a convencionalidades e experimenta com imensa criatividade e imaginação um universo que joga com questões de gênero e sexualidade, é uma mistura hipnotizante de estilos que aguçam nossos sentidos e surpreende pelo desenrolar que vai quebrando todas as definições.
O filme é uma experiência maravilhosa que não se apega a convencionalidades e experimenta com imensa criatividade e imaginação um universo que joga com questões de gênero e sexualidade, é uma mistura hipnotizante de estilos que aguçam nossos sentidos e surpreende pelo desenrolar que vai quebrando todas as definições.
"Os Garotos Selvagens" é misterioso, psicodélico e erótico, um exemplar que aborda de forma liberta a questão da masculinidade atrelada à violência e o entendimento e a comunhão dos corpos através de uma experiência de metamorfose proporcionando assim uma visão ampla dos receios e desejos femininos. Original e imersivo certamente uma obra contestadora e que reúne símbolos pertinentes. Filmaço!
sábado, 30 de março de 2019
Café com Canela
"Café com Canela" (2017) dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio (Ilha - 2018) é uma preciosidade do cinema nacional, um filme que acalanta e que desperta sentimentos bons, há choro e sorrisos, dilemas, dores e muito amor, disserta sobre a perda, a empatia, o cotidiano e encontros afetuosos regados a boas xícaras de café.
Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
É puramente o cotidiano comum que acompanhamos, a vida de pessoas que se encontram e se reencontram, mas o filme possui linguagens interessantes, dinâmicas e até inusitadas, além de fazer com que o espectador se sinta parte da obra. A história se passa em Salvador e é protagonizado por duas mulheres negras de diferentes gerações, vemos em duas linhas temporais um churrasco entre amigos e uma festa de aniversário infantil simulando uma gravação de fita VHS, nos introduz dessa maneira no presente em que Margarida devastada pela morte do filho se vê inerte diante a vida, sua rotina é totalmente baseada na tristeza desde o momento em que acorda ao momento em que se deita para dormir, vive a tomar cafés requentados e mal se alimenta, sofre de surtos psicológicos e não consegue de forma alguma superar a morte do pequeno. Já Violeta é uma jovem vivaz que possui sua família e se divide em diversas tarefas, vende coxinhas, cuida de sua avó, vai de lá para cá sempre com um sorriso no rosto cumprimentando as pessoas e se mantendo firme quando surgem adversidades, sua generosidade é genuína e encantadora, quando reencontra Margarida, que foi sua professora e da qual teve uma importância imensa na construção de sua identidade, resolve que não irá deixá-la se afundar e persiste nos encontros mesmo sendo expulsa da casa, segue todos os dias enviando uma rosa vermelha e também a conquista pelo seu delicioso café com canela. Outro personagem que lida com a dor do luto é Ivan (Babu Santana), que se vê sozinho e perdido quando perde seu marido. Cada um tem seu desenvolvimento próprio e lida com suas dores de maneira própria, mas em determinado momento se entrelaçam transformando seus mundos interiores e assim fazendo do mundo exterior um lugar mais afetuoso.
É um filme primoroso nas imagens, nos seus movimentos, na força da cultura afro-brasileira, nas sequências surreais simbolizando o luto e a dor, na beleza dos pequenos gestos cotidianos, dos diálogos íntimos e da sua proximidade sincera conosco.
É um filme primoroso nas imagens, nos seus movimentos, na força da cultura afro-brasileira, nas sequências surreais simbolizando o luto e a dor, na beleza dos pequenos gestos cotidianos, dos diálogos íntimos e da sua proximidade sincera conosco.
"Um brinde à vida que mesmo toda desencontrada e cheia de loucura oferece pra gente os mais lindos encontros e inacreditáveis reencontros, saúde."
"Café com Canela" apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.
quarta-feira, 13 de março de 2019
O Confeiteiro (The Cakemaker)
"O Confeiteiro" (2017) dirigido pelo estreante em longas-metragens israelense Ofir Raul Graizer é um filme delicado recheado de sutilezas emocionais, personagens que descobrem novas sensações e caminhos ao ter de lidar com a dor do luto e a solidão, além de nos presentear com belas imagens de doces e bolos, a paixão pela confeitaria transborda da tela e enche nossos olhos.
Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Com belas cenas contemplamos o confeiteiro Thomas e sua habilidade na produção de maravilhosos bolos, sua aconchegante confeitaria atiça os paladares e fascina pela paixão que emprega em suas receitas, em um dia um executivo israelense que está prestando serviço numa empresa de Berlim se encanta por Thomas e logo os dois iniciam um romance, entre idas e vindas a relação secreta se molda e Thomas sempre pede para que Oren conte sobre sua família e o como foi a última vez que fez amor com a esposa, passam-se meses e novamente Oren retorna para Israel com a pretensão de voltar para Thomas rapidamente, mas acontece algo inesperado, Thomas não recebe mais notícias de Oren e depois de muito relutar em silencio decide ir procurá-lo na empresa, e então obtém a notícia de seu falecimento, silencioso ele sofre, em nenhum momento seus sentimentos são expostos, toda a sua dor e solidão desencadeia na decisão de ir até Israel e encontrar a família de Oren, a situação é estranha e delicada, mas aos poucos vamos entendendo sua personalidade e o afeto que nasce da relação entre Anat (Sarah Adler), esposa de Oren e o filho, é surpreendente e nos coloca para refletir na abrangência de sentimentos, da complexidade de sensações quando se está vivendo o luto e o como o amor pode vir sob diversas maneiras.
Thomas é contido, organizado e prestativo, Anat deixa ele tomando conta do seu singelo estabelecimento, um café kosher, e enquanto planeja a festa de aniversário do filho ele decide fazer uma surpresa e prepara cookies, porém há bastante restrições por ele ser alemão e não poder tocar no forno, há uma série de regras que se quebradas o café pode fechar, mas aos poucos suas receitas vão ganhando vida e fascinando Anat e até o irmão de Oren, que segundo a tradição acaba tomando conta da família do falecido, termina aceitando sob algumas condições e de acordo com as regras ele prepara suas delícias para vender no café e de pronta faz sucesso, Anat começa a se alegrar com a esperança que surge, a relação entre eles se estreita e novos tons surgem surpreendendo e confundindo ainda mais os sentimentos de Thomas, a descoberta de novas possibilidades afetivas juntamente com o aconchego que recebeu ao estar tão próximo das coisas e pessoas de seu amado.
Anat se apaixona pelo amante do marido, sentimentos dúbios e dilemas morais ditam as cenas, Thomas parece não querer mais ir embora, aquele mundo tão diferente do seu o acalenta diante da dor que o corrói tão silenciosamente, Anat também sofre, mas Thomas lhe deu esperança, uma inesperada relação se forma e ao mesmo tempo coincidências vêm à tona, Anat ao olhar a caixa com os pertences do marido se depara com inúmeras notas de uma confeitaria em Berlim, ela sabia que o marido tinha outra pessoa, mas jamais imaginaria que poderia ser Thomas, entre conversas ela acaba revelando algo que o dilacera, só que ele se segura e chora por dentro. A solidão e a dor do luto é enorme, sua decisão de ir para a terra do amado e encontrar a família inicialmente causa estranheza e o desenrolar causa agonia, mas a delicadeza e o inesperado transforma em compreensão.
"O Confeiteiro" é um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
A Festa (The Party)
"A Festa" (2017) dirigido por Sally Potter (Ginger & Rosa - 2012) é uma comédia dramática com aspecto teatral que disserta sobre infidelidade, visões políticas, ambição, inveja e preconceitos. É um jogo gradativo de intrigas entre os personagens que gera desconforto, o que remete muito ao filme de Polanski, "Deus da Carnificina" - 2011. A comemoração acaba por ser um palco de revelações de profundos segredos e troca de farpas, sentimentos como ansiedade e confusão predominam e segue assim até seu derradeiro fim.
Janet (Kristin Scott Thomas), uma política de esquerda, convida os amigos do partido para comemorar a sua escolha para o cargo de ministra da saúde britânica, coroando um objetivo que ela perseguia há anos. Os amigos também têm suas revelações, como uma gravidez inesperada. Mas é a surpresa revelada pelo marido de Janet, o intelectual Bill (Timothy Spall), que vai transformar completamente o evento. A festa logo se transforma em pesadelo.
Filmado em preto e branco e de curta duração (71 min.), captura a atenção desde seu início com Janet apontando uma arma para nós espectadores, logo somos tragados para dentro de seu apartamento para vivenciar os acontecimentos, feliz com seu novo cargo de ministra da saúde, um objetivo que alcançou com muito esforço e diante do atual momento político se faz uma enorme vitória. A primeira a chegar é sua amiga April (Patricia Clarkson) e o marido Gottfried (Bruno Ganz), Bill (Timothy Spall), o marido, parece deslocado e de antemão pensamos ser pela posição que a esposa se encontra, depois chega o casal Jinny (Emily Mortimer) e Martha (Cherry Jones) que não titubeia em tirar o foco de Janet e contar sobre a gravidez de trigêmeos, April, a sensata e radical não deixa de expor que o foco ali é a comemoração do cargo que Janet ocupará, daí para frente só aumenta as tiradas sarcásticas que April protagoniza, a festa ainda conta com a presença do atormentado Tom (Cillian Murphy), marido de uma colega de trabalho de Janet, ele já chega agitado e coloca muitas dúvidas na nossa cabeça por portar uma arma, quando finalmente brindam, Bill decide revelar um segredo que, por sua vez, termina sendo o estopim para ácidas revelações.
Filmado em preto e branco e de curta duração (71 min.), captura a atenção desde seu início com Janet apontando uma arma para nós espectadores, logo somos tragados para dentro de seu apartamento para vivenciar os acontecimentos, feliz com seu novo cargo de ministra da saúde, um objetivo que alcançou com muito esforço e diante do atual momento político se faz uma enorme vitória. A primeira a chegar é sua amiga April (Patricia Clarkson) e o marido Gottfried (Bruno Ganz), Bill (Timothy Spall), o marido, parece deslocado e de antemão pensamos ser pela posição que a esposa se encontra, depois chega o casal Jinny (Emily Mortimer) e Martha (Cherry Jones) que não titubeia em tirar o foco de Janet e contar sobre a gravidez de trigêmeos, April, a sensata e radical não deixa de expor que o foco ali é a comemoração do cargo que Janet ocupará, daí para frente só aumenta as tiradas sarcásticas que April protagoniza, a festa ainda conta com a presença do atormentado Tom (Cillian Murphy), marido de uma colega de trabalho de Janet, ele já chega agitado e coloca muitas dúvidas na nossa cabeça por portar uma arma, quando finalmente brindam, Bill decide revelar um segredo que, por sua vez, termina sendo o estopim para ácidas revelações.
Os assuntos abordados parecem clichês, mas são extremamente atuais e pulsantes, seja no âmbito político ou social, as visões de cada um e suas personalidades prendem a nossa atenção, Gottfried se caracteriza como um life coaching, sempre com palavras aparentemente sábias, mas que não passam de baboseiras de autoajuda, April, a melhor amiga de Janet, manipula e ironiza tudo e todos, soa radical em muitas partes e sensata em muitas outras, Tom, especulador de mercado e cheirador de cocaína está incomodado e confuso, há Martha, amiga de Bill, uma lésbica feminista da terceira idade que é casada com Jinny, que está grávida de trigêmeos, e que no decorrer sofre com inúmeras revelações também. Bill, o marido, impressionantemente passa sua perturbação pelo olhar e detona não uma bomba, mas várias. E, Janet, que estava radiante com seu novo e importante cargo mesmo diante do momento político tenso (pós-Brexit) e tendo seu partido falido acaba por amargar toda a sua ascensão com os segredos que vêm à tona na festa.
É um amontoado de discussões que se desenrolam, como política, preconceitos, infidelidade, amor, feminismo, dinheiro, vaidade, segredos; as relações vão se desconstruindo à medida que as máscaras vão caindo e, justamente por isso, os diálogos vão ganhando tons mais sarcásticos, são atuações primorosas e realmente se assemelha a um espetáculo de teatro, mas sem nunca deixar de ser cinema, a direção precisa com tomadas claustrofóbicas e sua fotografia magnética feita pelo russo Aleksei Rodionov (Vá e Veja - 1985) só enaltecem a experiência do filme.
"A Festa" é um filme recheado de diálogos perspicazes e mordazes, atuações de primeira linha, desenvolvimento crescente e com um final de tirar o fôlego.
Assinar:
Postagens (Atom)











































