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terça-feira, 13 de agosto de 2019
Minha Filha (Figlia Mia)
"Minha Filha" (2018) escrito e dirigido por Laura Bispuri (Virgem Juramentada - 2015) é um filme de mulheres fortes, aborda de maneira realista e cru uma situação complexa em que uma menina de 10 anos se vê dividida entre suas duas mães, a construção das personagens é seu maior triunfo e sua sensibilidade em torno do crescimento de cada uma é emocionante.
A guarda de uma menina está sob disputa de duas mães, a de criação Tina (Valeria Golino) e a biológica Angelica (Alba Rohrwacher) que almeja tê-la de volta. No centro do conflito, Vittoria (Sara Casu) se vê obrigada a lidar com questões existenciais muito acima do seu nível de maturidade, prestes a fazer uma escolha que a afetará a sua vida para sempre.
Acompanhamos Vittoria, uma garota retraída e excluída pelos colegas da escola, ela vive com Tina, sua mãe de criação e não lhe falta afeto e cuidados, Tina prometeu a Angelica que a ajudaria em qualquer situação, as duas são amigas de infância e vizinhas desde sempre, acontece que Angelica está sendo despejada e pretende ir embora, então Tina decide junto ao marido que Vittoria deveria vê-la, porém antes desse encontro a garota já tinha se deparado com essa mulher num rodeio em uma situação constrangedora, quando fica cara a cara com Angelica a menina percebe as semelhanças e a partir daí uma transformação se inicia. Vittoria todos os dias caminha até o sítio de Angelica e juntas conversam e passeiam pelos arredores, conhecemos um pouco mais dessa mulher tão perdida, alcoólatra vive no único bar do local se prostituindo e repleta de dívidas necessita vender seus animais e talvez ir para bem longe, só que as constantes visitas de Vittoria adia essa partida e algo nela também começa a mudar. A relação é descoberta por Tina que fica irritada e com medo de perder sua filha, a disputa é complexa, pois cada uma é de um jeito e Vittoria se sente mais solta com Angelica, se diverte e aprende coisas novas, Tina fica com os nervos à flor da pele, entra numa espiral de angústia e não sabe mais o que fazer para recuperar a atenção da menina.
O maior ponto do filme é retratar o triângulo sem apelar para melodramas, a construção das personagens e o modo fluído que se entrelaçam dão seriedade à história e comove, é forte na exaltação das mulheres, nas suas diferenças e que apesar delas ninguém precisa sair perdendo, o amor acolhe a todas. Gravado na ilha de Sardenha, a paisagem arenosa e desolada com suas ruínas em pedra e as diversas trilhas em meio as montanhas só intensifica os sentimentos evidenciados.
O maior ponto do filme é retratar o triângulo sem apelar para melodramas, a construção das personagens e o modo fluído que se entrelaçam dão seriedade à história e comove, é forte na exaltação das mulheres, nas suas diferenças e que apesar delas ninguém precisa sair perdendo, o amor acolhe a todas. Gravado na ilha de Sardenha, a paisagem arenosa e desolada com suas ruínas em pedra e as diversas trilhas em meio as montanhas só intensifica os sentimentos evidenciados.
É interessante observar o amadurecimento de Vittoria, sua jornada para o autoconhecimento e entender que tanto Tina como Angelica são importantes para si, Tina a protege e supre suas necessidades, já Angelica com seu jeito expansivo a motiva, essa combinação complementa uma à outra e mais adiante fortalecerá ainda mais a personalidade da menina, a cena final exemplifica que sem dúvidas Vittoria não é mais a mesma.
"Minha Filha" é um filme que quebra alguns pensamentos sobre o amor materno e mostra que padrões e fórmulas não existem, a visão de que não há necessidade de escolher entre uma ou outra é bela e sensível, a convivência entre elas mesmo sendo frágil e complexa certamente será um alicerce para Vittoria.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
A Bela e os Cães (Aala Kaf Ifrit)
"A Bela e os Cães" (2017) dirigido por Kaouther Ben Hania (O Navalha de Tunis - 2013) toca em um tema pertinente e necessário ainda que seja difícil assisti-lo, o sentimento de revolta cresce à medida que acompanhamos a saga da protagonista por justiça, em um meio totalmente machista, fechado e insensível ficamos paralisados diante o horror do sistema que possui prioridades voltadas a si próprios e atitudes que deslegitimam a vítima.
Durante uma festa, Mariam (Mariam Alferjani) conhece um estranho chamado Youssef (Ghanem Zrelli) e sai com ele dali. Ela é estuprada e tentará provar o crime. Mas o problema é que os criminosos trabalham na polícia.
Filmado em nove tomadas ininterruptas a ação predomina enervando e revoltando, pois as tentativas de conseguir ser consultada e provar o estupro retratam o quão boçal e despreparado é o sistema sempre colocando a vítima numa situação constrangedora, seja com olhares reprovadores, frases desnecessárias, medidas ineficazes e nesse caso dando privilégio à instituição policial. A jornada da protagonista durante a madrugada é incessante e a cada nova tentativa e desenrolar só fazem a destruir mais e mais. Cruel e real, um importante retrato do como a mulher é desrespeitada e humilhada, e é escabroso ainda perceber que por mais que se passe na Tunísia, um país muçulmano em que a honra é de importância extrema e o machismo é gritante, não difere de nenhum outro local, os procedimentos, as burocracias e o despreparo são semelhantes.
Os minutos iniciais do filme são os únicos leves e descontraídos, onde mostra Mariam, uma jovem estudante que se produz para curtir uma festa fechada da faculdade, a amiga lhe empresta um vestido que não faz seu estilo, mas entra na vibe e prontamente saem tirando fotos e dançando, logo seus olhos encontram Youssef, um desconhecido que é apresentado por uma amiga, não escutamos a conversa deles e somente os acompanhamos saindo da festa, no ato seguinte Mariam corre desesperadamente pela rua e Youssef vem atrás, ele tenta acalmá-la e diz que precisa ir ao médico, então entram numa clínica particular que se recusa, pois Mariam perdeu os documentos no carro dos policiais que a estupraram, aconselhados vão para um hospital público abarrotado de pessoas e que também se recusa a fazer qualquer exame nela, a médica quando a atende a trata rispidamente e só fala para tomar a pílula do dia seguinte, inconformado Youssef diz que precisa ter esse atestado para provar que Mariam foi estuprada e muito vagamente eles são auxiliados por uma enfermeira curiosa, que diz que somente um médico forense pode fornecer um atestado, este se recusa antes da polícia começar uma investigação, mas como o abuso foi cometido por policiais abrir um boletim de ocorrência sem uma prova é praticamente inútil. Mariam sob olhares de reprovação por causa de seu vestido é submetida a uma série de observações escrotas, ela vai de uma estação policial a outra sem nenhum tipo de auxílio digno, é alvo de piadas e intimidação ao dar seu depoimento que se torna uma acusação, e por isso tentam silenciá-la sob grave pressão psicológica. Articulam meios para que isso não se prolongue e não venha a se tornar público.
Em determinado ponto Youssef é afastado de Mariam, tido como suspeito e também por ser conhecido por participar das manifestações é preso, sozinha e assustada segue sendo coagida e humilhada, chega um ponto que os policiais começam a apelar para seu patriotismo e como o ocorrido poderia desonrar sua família, Mariam tenta apelar para a policial feminina, mas não escapa da dureza e da incapacidade dela ajudar além do que pode, seu desespero também não compadece e a deixa sozinha em meio a policiais que estão dispostos a tudo para limpar a reputação.
"A Bela e os Cães" tem um ritmo movimentado e sua estrutura em nove capítulos sequenciais capturam nossa atenção, descarrega muita adrenalina e possui uma mensagem política importante para as mulheres, nunca se deixe abater e defenda sempre seus direitos, e ao fim mesmo quebrada em mil pedaços ela se ergue e decide prosseguir com o processo. Realista e angustiante é um filme que sufoca, mas necessário em retratar o quão cruel é o tratamento que uma mulher vítima de violação sofre quando procura ajuda, e não é porque se passa na Tunísia que é diferente, o machismo e a indiferença seja no âmbito da saúde, da segurança e das leis ineficazes que priorizam somente suas instituições são vistos em casos diariamente ao redor de todo o mundo.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Faca no Coração (Un Couteau Dans le Coeur)
"Faca no Coração" (2018) dirigido por Yann Gonzalez (Os Encontros da Meia-Noite - 2013) é uma produção francesa um tanto inusitada e original, chama bastante a atenção seu estilo kitsch, há muito mistério, erotismo e pitadas de slasher, para os fãs de cinema cheio de cores e que ressalta a fotografia sem dúvidas é um exemplar irresistível.
Final da década de 1970, em Paris. Anne (Vanessa Paradis) é uma produtora de filmes pornográficos que sofre com o término de seu relacionamento com a montadora Lois (Kate Moran). Os negócios não andam bem, e são ainda mais prejudicados quando um estranho assassino mascarado começa a atacar seus principais atores. Revoltada com a passividade da polícia, Anne começa a sua própria investigação, e tem uma ideia genial: reencenar as mortes em versão pornô.
Anne, vivida pela fascinante Vanessa Paradis - ícone pop da França, produz filmes pornográficos super criativos com ajuda do seu braço direito Archie (Nicolas Maury), mas as coisas vão de mal a pior, além de estar passando por uma fase complicada em seu relacionamento amoroso com Lois, sua montadora, um misterioso assassino mata um dos seus atores mais queridos, só que ao invés de se preocupar seu processo criativo se reacende e imagina as histórias com base nisso, a atmosfera fetichista domina a trama e tem até um quê de conto de fadas em muitos momentos. O assassino se torna uma espécie de especialista em matar atores pornôs, a dúvida permanece conosco o tempo todo e nada do que se deduz acontece, a explicação final é elaborada, assim como os filmes que Anne produz. As mortes são belamente filmadas e a figura do assassino gera bastante desconforto, seus ruídos e a maneira que crava a faca nas suas vítimas. Anne segue não se importando, fala com a polícia, que também não investiga de acordo e assim o serial killer tem espaço para agir. Ela está interessada na sua obra que reproduzirá os assassinatos e acredita que será o seu melhor trabalho, inclusive acompanhamos todo o processo de "Homocida", que diga-se de passagem são cenas hilárias e também sensuais, não há pudor em exibir os corpos e o sexo, sem ser claramente explícito, mas estimulante ao colocar os sons para ativar a nossa imaginação. A ambientação da época é primorosa e faz referência a clássicos, como Dario Argento, o figurino, as cores e a trilha sonora cósmica também são pontos de destaque e criam um todo singular e interessante.
A história vai te levando para lugares incomuns e surpreendentes, quando Anne decide iniciar uma investigação por conta própria surgem elementos fantásticos e então há uma mudança e uma virada, as descobertas aparecem e finalmente o todo se amarra na estreia do seu filme dentro de um cinema num clube gay.
O universo LGBT é maravilhosamente bem representado, sua diversidade e nuances, os elementos, nada fica de fora, um retrato diferente do usado em tantos filmes, tudo isso misturado a uma trama que envolve amor, sexo, traumas e morte, um obra livre que homenageia e faz diversas referências, como ao gênero Giallo.
"Faca no Coração" tem uma estética primorosa com roupas coloridas e ambientes com luzes néon, sua trilha composta por M83 é bastante magnética e pontual, seu mistério permanece e só descobrimos a face do assassino e sua motivação realmente no fim. Um suspense erótico underground e fetichista com pitadas de slasher, humor negro e até fantasia. Uma experiência pulsante e ousada!
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Feliz como Lázaro (Lazzaro Felice)
"Lazzaro Felice" (2018) dirigido por Alice Rohrwacher (As Maravilhas - 2014) é uma espécie de fábula inspirada como o título sugere na história bíblica de Lázaro, porém as camadas que o filme propõe são amplas e deixa em cada espectador um sentimento, a linguagem é simples, mas há metáforas e uma enorme carga reflexiva, com certeza é uma obra para revisitar e tentar compreender e absorver o máximo possível das ideias expostas.
Nesta leitura livre da história bíblica, Lázaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado pelos familiares, fazendo trabalhos forçados diariamente, além de colaborar com a marquesa, proprietária das terras onde vivem. No entanto, após uma tragédia, Lázaro retorna à vida no século XXI. Ele não compreende mais a lógica deste mundo, mas pretende reencontrar a sua família e viver como antigamente.
Nos deparamos com uma comunidade de camponeses, que mais adiante percebemos serem explorados por uma marquesa, dona das terras e conhecida como "a senhora do tabaco", cuja fortuna advém desse trabalho escravo, dentro dessa engrenagem de exploração, Lázaro, um garoto ingênuo e prestativo, bondoso por essência jamais se enraivece ao ser sempre chamado pelos seus companheiros para realizar o trabalho duro, ele parece olhar o mundo sob uma perspectiva da pureza, a marquesa em determinada parte diz: "Eu os exploro e eles exploram aquele pobre homem. É uma reação em cadeia e não pode ser parada". Quando questionada pelo próprio filho se não tem medo que descubram a verdade, já que vivem sob um véu de ignorância, ela diz: "Humanos são como animais, liberte-os e só aí eles se darão conta da própria condição de escravos, condenando-os ao próprio sofrimento. Agora eles sofrem, mas não sabem disso". Os camponeses não sabem nada, o isolamento geográfico, o pensamento restrito, o fato de conhecerem somente aquele mundo e que não há outro meio a não ser se submeter à marquesa o fazem continuar nesse ciclo, enriquecendo-a e mantendo-se na extrema pobreza. Lázaro acaba por se aproximar do filho da marquesa, o rebelde Tancredi, que abomina a maldade da mãe, só que nada faz, na verdade utiliza a inocência de Lázaro também a favor de sua revolta, forja o próprio sequestro, o faz acreditar que é seu meio-irmão e toma para si o refúgio de Lázaro nas montanhas. Essa relação com Tancredi desperta em Lázaro coisas que não havia sentido antes, uma conexão em que se doa ainda mais, ele faz tudo pelo amigo e mesmo quando adoece se lembra que Tancredi está sozinho nas montanhas e vai atrás do amigo, seu medo é que Tancredi pense que ele o abandonou.
Nesse trajeto Lázaro sofre uma queda e morre, mas ele revive décadas depois por meio de uma dádiva e quando vai procurar pelas pessoas não há mais nada no local, tudo está abandonado e ladrões estão saqueando a grande casa, ele segue a pé o caminho até a cidade apontado pelos ladrões e, por ocasião, reencontra alguns rostos conhecidos, dos quais momentaneamente se chocam por reencontrá-lo e por permanecer com a mesma aparência, seria ele um santo ou um fantasma? Com o desenrolar percebe-se que pouco importa e Lázaro neste século também não tem chance, a bondade simples e pura não existe nesse mundo repleto de interesses. A exploração do outro é novamente exposta, só que com novas roupagens, as pessoas antes exploradas agora precisam encontrar maneiras de se sustentar e o que resta a eles é enganar e roubar. Lázaro reencontra Tancredi e reaviva o amor pelo amigo e sem entender e sem se contaminar pelo meio o tenta ajudar indo a um banco para pedir que devolva os bens dele, que claro foram tirados por conta da situação que a mãe o colocou, o escândalo da marquesa do tabaco que mantinha uma comunidade feito escravos.
"Lazzaro Felice" é um filme que trabalha com elementos do realismo fantástico que ora fascinam, ora entristecem, revela que na sociedade seja em qualquer época nunca a bondade irá resplandecer, alguém dotado desse nobre sentimento sempre é visto como um idiota ou doente mental, e que por nunca pensar mal de ninguém e querer sempre fazer o outro feliz é explorado das mais diferentes formas, a diretora Alice Rohrwacher disse: "A história é de uma menor santidade, sem milagres, poderes ou superpoderes, sem efeitos especiais. É a santidade de viver neste mundo sem pensar mal de ninguém e simplesmente acreditar em seres humanos". É um filme diferente que ecoa dentro de nós por algum tempo, são camadas preciosas para explorar e que deixa uma reflexão contundente sobre a humanidade e sua falta de ternura.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
A Próxima Pele (La Propera Pell)
"A Próxima Pele" (2016) dirigido pela dupla Isa Campo e Isaki Lacuesta é um filme envolto por um clima de mistério, instigante retrata conflitos de relação, questões psicológicas advindas de traumas, as pistas são dadas no decorrer da trama, mas no final não importa muito a revelação e sim todas as situações que envolvem o protagonista.
Por muitos anos, ninguém sabia o que havia acontecido com Gabriel (Àlex Monner), um garoto de nove anos que sofreu um acidente nas montanhas que deixou seu pai morto. Anna, a mãe (Emma Suárez) e outras pessoas suspeitavam que ele estivesse morto, porém, oito anos depois, ele retorna para casa alegando ter amnésia. Retendo apenas memórias básicas, ele busca restabelecer sua conexão perdida com a mãe, mas suspeitas de que ele seja apenas um impostor começam a surgir.
Gabriel foi reconhecido pela mãe após oito anos desaparecido, ele estava morando em um abrigo com o nome de Leo, todas as esperanças estavam praticamente anuladas devido a complexidade do acidente, os habitantes o recebem bem, mas ficam desconfiados, principalmente o tio Enric, que diz na cara dele que sabe que é um impostor, Anna não quer nem saber de exames para comprovar de fato se é seu filho, seu coração lhe dá a certeza, aos poucos ele se acostuma à rotina e o tédio do local, por ele ser diagnosticado com amnésia seletiva, lembrar de algumas coisas e outras não, as pessoas o olham com certo receio, quando vê seu amigo Joan (Igor Szpakowski) lembra dele, mas de outras mais próximas, como o tio não, o que será que acontece com Gabriel? Seria porque bloqueou momentos ruins envolvendo essas pessoas, ou simplesmente é um impostor, um garoto carente e sem perspectivas que encontra em Anna um porto seguro e amor? Essas perguntas ficam martelando o tempo todo e ora temos certeza que ele é Gabriel e ora temos absoluta certeza que não. E isso se deve a maravilhosa interpretação de Àlex Monner, multifacetado e sedutor, que sofre em muitos momentos ataques de ansiedade e outras sofre por se sentir perdido, ele é uma mistura de carência e fúria. Um jovem atraente que coleciona histórias de lugares por quais passou enquanto estava desaparecido, seu amigo Joan o admira e se mostra seguro sobre ele ser realmente Gabriel. Já o tio o quer fora dali, ele não admite que o garoto mude toda a rotina de Anna e, que principalmente, roube o amor, que antes não era dividido com ninguém, ao saber do caso de sua mãe com ele Gabriel se torna mais ríspido e diz que não contará nada se Enric não contar sobre ele, novamente a dúvida e questões sobre os conflitos de relação do passado se tornam mais pungentes, como sobre o pai de Gabriel não ser uma boa pessoa.
É um drama que proporciona refletir sobre relações familiares, traumas e suas consequências, o título "A Próxima Pele" já nos diz muito sobre o protagonista, Leo/Gabriel. Acompanhar o processo dele é doloroso e o final se torna ainda mais tenso, quando confrontado pelo seu tio ele parece relembrar do dia em que desapareceu e os motivos. Mas nada é claro, as respostas não são explícitas, para o espectador cabe pensar em tudo que viu, o comportamento dos personagens, nas situações que desencadearam, nos segredos, nas mentiras, e assim vamos montando um quebra-cabeça.
"A Próxima Pele" é um filme lento e fechado, é todo permeado por dúvidas e muitas coisas não são aprofundadas, mas segue cativante e instigante em todo o seu desenrolar, é um drama denso e que permite ao espectador tirar suas próprias conclusões.
Está presente no catálogo da Netflix!
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
A Região Selvagem (La Región Salvaje)
"A Região Selvagem" (2016) dirigido por Amat Escalante (Heli - 2013) é um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção.
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre.
Após a queda do meteorito somos inseridos na cena em que Veronica (Simone Bucio) se satisfaz sexualmente com os tentáculos do alienígena, o casal que detém o extraterrestre teme por ela, pois nessa "sessão" saiu machucada, Veronica carrega um semblante pesaroso, pois sabe que não poderá mais vê-lo e o prazer jamais vai ser sentido novamente, no hospital quem cuida da ferida dela é o enfermeiro Fabian (Eden Villavicencio), muito simpático o moço chama ela pra sair junto de sua irmã Alejandra (Ruth Ramos) e o cunhado Ángel (Jesús Meza), do qual mantém uma relação escondida, um hipócrita que cospe preconceitos e evita falar com Fabian perto da esposa pelo fato de ser gay, mas escondido manda mensagens e sai com ele. Há uma tensão sexual entre Veronica e Fabian, partindo mais do lado dela, e Ángel fica enciumado e desconta sua raiva das formas mais machistas e preconceituosas possíveis, começa a ameaçar Fabian e então este decide romper com a relação abusiva. Nisso, Veronica o insere no mistério envolvendo o alienígena que desperta grandes prazeres nas pessoas, só que no dia seguinte ele é encontrado pelado inconsciente num lago, a irmã desesperada tenta entender o porquê e ao entrar na casa do irmão encontra o celular e visualiza as mensagens entre ele e seu marido, algumas de cunho ameaçador, logo a suspeita cai toda em cima de Ángel, atormentada pela traição de ambos denuncia o marido e Veronica a acolhe e lhe mostra o caminho para o alienígena, e é nesta relação que encontra alívio e satisfação. A cena que se sucede é estranha, o casal de idosos lhe dá um chá que a droga e depois a coloca no celeiro, de início se assusta com o que vê e aos poucos a câmera revela o ser que habita ali e emana tanta excitação. As cenas são altamente eróticas, tentáculos que passam e adentram o corpo, uma carga sexual libertadora.
Mas o que será que o alienígena realmente quer das pessoas, ele simplesmente precisa se saciar sexualmente e quando cansa torna-se perigoso, ou poderia ter algo haver com a tendência, que ao entrar no local com o caráter totalmente exposto transfigurava-se em prazer sexual ou violência? Várias questões surgem e a subjetividade é imensa, e é por isso que a obra se torna grande, por exemplo, sobre o desejo feminino, a cena em que Ángel faz sexo com Alejandra demonstra essencialmente o egoísmo machista, ela ali é apenas um objeto, logo a vemos no banho se masturbando, mas os filhos a interrompem, parece não haver espaço para o prazer feminino, como se não existisse, e ao final Veronica até tenta transar com um homem, mas não consegue sentir nada, uma pequena amostra do quanto o ato sexual é ainda repleto de tabus e permeado de preconceitos.
"A Região Selvagem" acerta em cheio na atmosfera criada, provoca o espectador com a quebra dos estereótipos e ideias arcaicas, tabus religiosos que reprimem e tantos preconceitos que envolvem as relações, a cabana com o extraterrestre representa a libertação de todos os paradigmas e desnuda quem está ali, mostrando o seu lado primitivo onde convenções sociais não interferem no desejo. Um filme libidinoso, pulsante e que abre um leque de ideias interessantes e primordiais.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
O Fantasma da Sicília (Sicilian Ghost Story)
"O Fantasma da Sicília" (2017) dirigido e roteirizado por Antonio Piazza e Fabio Grassadonia (Salvo - 2013) é um filme belíssimo em que imagens traduzem sentimentos, extremamente poético se desenrola de forma sutil, porém avassaladora, trata com cuidado um tema tão pesado e nos leva para uma atmosfera tensa e imaginativa, sua aura de sonho contamina e impregna na pele, totalmente imersivo!
Giuseppe (Gaetano Fernandez) é um corajoso garoto de 13 anos de idade, que desapareceu nas mediações de uma misteriosa floresta localizada na pequena aldeia em que vivia. A única pessoa que parece não se conformar com o sumiço dele é a pequena Luna (Julia Jedlikowska), que está disposta a enfrentar todos os perigos para resgatar seu amigo.
Luna e Giuseppe são colegas de escola e estão apaixonados um pelo outro, o início reflete toda a magia da paixão, depois da escola Luna segue Giuseppe pela floresta e o observa, ela é encantada pelo jeito charmoso e corajoso dele, nesse dia os dois passeiam pela floresta, Giuseppe salva Luna de um cachorro, saem de lambreta e se beijam, Luna entrega uma carta a Giuseppe e ele se exibe ao montar seu cavalo com imensa destreza. Enquanto ela o espera sentada sozinha olhando o horizonte ao pensar no momento pelo qual está passando, a cena acontece atrás de si, um carro estaciona e homens vestindo roupas policiais pegam o menino e se vão. Luna ao ver que Giuseppe sumiu se desespera e começa a questionar todos, vai a casa do amado todos os dias, encontra a mãe aos pedaços e confusa, o pai irritado, e na escola ninguém se importa. O fato é que Giuseppe desapareceu e tudo continua da mesma forma, menos para Luna que irá fazer o impossível para encontrá-lo, e é aí que a fantasia entra em cena amainando um pouco o peso da história, mas mesmo assim a fábula é sombria e nada tem de sobrenatural, é a partir de sonhos que tudo se dá e se encaixa de forma bela e melancólica. Luna fica muito incomodada por ninguém fazer nada, então sozinha vai em busca, dentro dela acaba achando respostas e caminha por lugares tenebrosos.
O suspense dá o tom à história, porém o fantástico predomina e invade com imagens hipnotizantes revelando grande parte da trama, momentos surreais e dolorosos se misturam. Os espaços antigos da região são explorados com maestria ajudando a criar o clima de imersão, a natureza ganha uma enorme significação, a floresta de cores vivas que foi o cenário de amor dá lugar a tons escuros que refletem o pesadelo e agonia de Luna.
O filme baseia-se na história real de Giuseppe di Matteo, um garoto de 13 anos que foi sequestrado pela máfia e mantido em cativeiro por 779 dias, numa tentativa da máfia para calar seu pai, que entrara num programa de delação premiada e estava entregando antigos companheiros no crime. Este horror foi contado de um jeito fantasioso, mas sem nunca perder a força, Luna é um alívio e é através dos olhos dela que os dias no cativeiro são recriados, sua imaginação, seus sonhos a levam até Giuseppe garantindo à narrativa poesia e delicadeza. Ela tem a ajuda de sua amiga Loredana (Corinne Musalian) para encontrar Giuseppe, a única que a ouve e que acredita nela, o resto é silêncio e medo. Os diretores conseguiram enlaçar o lúdico e o real perfeitamente, encanta ao mesmo tempo que sufoca, o que lembra os filmes "O Espiríto da Colméia" - 1973 , cujos disseram ser a bússola deles na hora de criar o tom, e "O Labirinto do Fauno" - 2006, que também utiliza o fantástico para amenizar o real horror. A linha tênue entre realidade, sonhos e delírios alimenta o mistério e aguça nossos sentidos.
"O Fantasma da Sicília" é uma obra primorosa seja em sua lenta e calada narrativa, como na estética com imagens de tirar o fôlego, a conexão entre os personagens tanto mostrado no início na floresta, como a força intuitiva e dedicação de Luna ao contrário de todos que fingem indiferença, é belo, romântico, denso e trágico, os momentos em que sentimos o sofrimento de Giuseppe que através da carta de Luna encontra a vida em meio a tanta violência dá um nó na garganta, são cenas pesadas transformadas em metáforas visuais incríveis, detalhes lapidados com delicadeza, um sonho melancólico inesquecível. Ainda conta com a linda canção "Safe with Me", de Soap & Skin.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)
"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.
É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões.
O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Toni Erdmann
"Toni Erdmann" (2016) dirigido por Maren Ade (Todos os Outros - 2009) é um filme de diversas camadas psicológicas, o que parece ser apenas sobre a reconexão entre pai e filha, uma espécie de redenção, na verdade, trata de tantas outras coisas cotidianas, tristezas, além de pensamentos sobre a vida, há muitas abordagens e é preciso estar atento para se dar conta delas, as situações e as decisões dos personagens acontecem do nada e também vão para o nada.
Winfried (Peter Simonischek) é um senhor que gosta de levar a vida com bom humor, fazendo brincadeiras que proporcionem o riso nas pessoas. Seu jeito extrovertido fez com que se afastasse de sua filha, Ines (Sandra Hüller), sempre sisuda e extremamente dedicada ao trabalho. Percebendo o afastamento, Winfried decide visitar a filha na cidade em que ela mora, Bucareste. A iniciativa não dá certo, resultando em vários enfrentamentos entre pai e filha, o que faz com que ele volte para casa. Tempos depois, Winfried ressurge na vida de Ines sob o alter ego de Toni Erdmann, especialista em contar mentiras bem-intencionadas a todos que ela conhece.
Winfried é um homem que gosta de fazer graça, é a sua maneira de escapar da dura realidade, do caos interno que o devora, ele é professor de música e no início o vemos fantasiado de zumbi cantando com crianças, ele encontra a filha na casa da ex-mulher, aparentemente uma relação amistosa, o conflito está mais na relação com a filha, um ser humano que parece não ter sentimentos, ela é totalmente focada no trabalho, afogada pela competição e a pressão de vencer. Atualmente vive na Romênia e tem uma relação absurdamente distante da família. Isso tudo muda após Winfried perder seu cão, então ele decide viajar até onde está sua filha e tentar uma reconexão.
É um drama disfarçado de comédia, o humor acompanha basicamente toda a trama e traz uma sensação de constrangimento à medida que Toni Erdmann entra em cena e começa a seguir sua filha e mentir sobre sua vida à inúmeras pessoas. É engraçado que em nenhum momento acredita-se nas bobagens ditas por aquele ser que usa uma peruca e uma dentadura escrota, ele incomoda e é de propósito, talvez, para dar um pouco de humanidade a todo o contexto de competição, dinheiro e poder em que a filha está inserida. O que faz deste filme algo original é a maneira com que as situações se desenrolam, o como este personagem surreal se encaixa na realidade da filha, desconcertando todos ao redor com suas piadas e mentiras.
É deveras impressionante a qualidade da narrativa que se desenvolve praticamente aleatoriamente com suas estranhas e constrangedoras situações, o como o realismo se encaixa no contexto de devaneio dominado pela figura de Toni Erdmann, e também a relação que temos com os personagens no decorrer, a percepção muda praticamente a cada cena, ora sentimos tristeza, vergonha alheia, raiva e empatia, certamente uma obra complexa que trabalha com camadas, são muitos os temas abordados, em cada momento retratado há uma gama de ideias.
"Toni Erdmann" é um grande filme que passeia pelo existencialismo, sobre o que é estar vivo e para quê, para exemplificar essas questões carrega uma infinidade de cenas peculiares, o humor funciona como válvula de escape para o personagem e também para colidir com o mundo cheio de regras e, principalmente, hipócrita e injusto que a sua filha habita.
A desconstrução dos personagens acontece aos poucos, mas o momento crucial é na festa que Ines dá em sua casa com o dilema de fechar o vestido sozinha e logo depois o tirar e decidir que só entra quem estiver pelado, uma cena repleta de significados e que demonstra a ruptura, a remoção da casca dura de Ines para enxergar seu pai, que se dá curiosamente quando está completamente fantasiado de um gigante todo peludo. É um indício para um recomeço com certeza mais leve e um resgate de sentimentos e valores.
quinta-feira, 23 de março de 2017
Virgem Juramentada (Vergine Giurata)
"Virgem Juramentada" (2015) dirigido pela estreante Laura Bispuri traz à tona um tema interessante e curioso, estrelado magistralmente pela italiana Alba Rohrwacher (Corações Famintos - 2014), acompanhamos uma história calcada numa tradição albanesa que de acordo com as regras do Kanun - um código de conduta que foi passado verbalmente entre os clãs do norte da Albânia durante mais de cinco séculos - a personagem promete a virgindade eterna e se transforma num homem para garantir mais direitos e mais liberdade em sua aldeia. Só que anos mais tarde confusa com a sua sexualidade decide partir para Milão e se lançar às redescobertas de si mesma.
Hana é uma órfã que foi encontrada e adotada por uma família nas montanhas albanesas, ao crescer ela sente a rigidez desses códigos patriarcais, não se encaixa no contexto e deseja ter mais liberdade, então para poder caçar, beber, fumar, conversar em público, coisas consideradas masculinas toma a decisão de se tornar uma burnesha, diante de alguns homens mais velhos acontece o ritual, Hana corta seus cabelos, coloca suas vestes masculinas, recebe seu rifle e se batiza de Mark. Ela vive mais de 10 anos em plena solidão nas montanhas, rejeitando toda forma de amor. Mas algo ainda irá despertar sua vontade de mudar de vida.
Pode parecer absurdo, mas foi uma necessidade social, a localidade foi assolada pela guerra e muitas mulheres tiveram que tomar a frente para sobreviver e como elas não tinham direito algum recorriam ao Kanun, em outros casos para não serem obrigadas a se casarem escolhiam essa alternativa, que se trata de um conjunto de códigos determinados e que nada tem a ver com religião.
A trama começa de fato quando Hana vai embora e se encontra com Lila (Flonja Kodheli), sua irmã, que fugiu para se casar com o homem que amava, o encontro se dá de maneira silenciosa e a protagonista vai ganhando profundidade à medida que a descobrimos, o desenvolvimento do filme ajuda neste ponto, pois se alterna entre presente e passado vagarosamente, colocando em evidência os contrastes entre o mundo moderno e o arcaico. A interpretação de Alba é melancólica e silenciosa, sua postura corporal arqueada traduz seu deslocamento, está magnífica em cena e tem o poder de nos fazer imergir em seu drama.
A chegada de Hana/Mark à casa da irmã não é bem vista por Jonida (Emily Ferratello), a filha adolescente, que é totalmente solta em dizer o que pensa e confrontar os pais, eles dizem que Mark é um primo distante, mas a garota começa a questionar e é ela que a ajuda nesta jornada de descobertas sexuais, diariamente Hana acompanha Jonida aos treinos de nado sincronizado, o que a possibilita observar as variedades de corpos e se permitir a se olhar e a desejar. São momentos importantes para a desconstrução da personagem, a menina dá acesso para que Hana se abra para si e para o mundo.
"- Uma vez me disseram que somos mais livres do que pensamos.
- Livres de quê?
- Livres de sermos forçadas a fazer algo."
O filme é contemplativo, rico em detalhes e é neles que contém as maiores belezas, a redescoberta da protagonista é lenta e com a alternância de passado e presente compreendemos totalmente essa confusão vivida por Hana.
"Virgem Juramentada" é um filme interessante que traz questionamentos sobre gêneros, desconstrução e construção de identidade e evidencia uma tradição que está morrendo, hoje em dia existem cerca de 40 burneshas na Albânia.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Minha Irmã (L'enfant d'en Haut)
"Minha Irmã" (2012) dirigido por Ursula Meier (Home -2008) conta a história de Simon (Kacey Mottet Klein), um garoto de 12 anos que aproveita a alta temporada de esqui nos alpes suíços para furtar equipamentos e revendê-los. A única renda em sua casa é essa, já que sua irmã Louise (Léa Seydoux) vive de maneira irresponsável, pulando de emprego em emprego e preocupada apenas em sair com homens e beber. A situação em que vive é cômoda, pois ela não vive o dia a dia com Simon, só vê o dinheiro entrando, e então acaba dependendo cada vez mais do irmão. Louise é uma pessoa perdida que não enxerga alternativas para sua vida, e conforme o filme desenrola segredos do passado são revelados.
O ambiente frio só intensifica o clima pesado em que vive Simon e Louise, aparentemente os dois vivem uma relação saudável, mas percebe-se que Simon é quem cuida de tudo, desde a comida que entra na casa, a roupa a ser lavada e o dinheiro que a irmã gasta. Ele é um garoto esperto, pega o teleférico todos os dias para roubar esquis, luvas, óculos e até comida. Um dia, ele é pego por Mike (Martin Compston), um funcionário do restaurante, mas este ao invés de expulsá-lo, fica comovido com a situação do garoto e acaba ajudando-o com os roubos de esqui. Isso dura algum tempo, até ser pego por outro homem e ser definitivamente proibido de entrar lá. A partir daí fica difícil para Simon vender os objetos e o dinheiro consequentemente logo vai acabando.
O segredo que se revela tornam as coisas mais melancólicas ainda. Louise rejeita ao máximo Simon, ela não sente vontade de ter responsabilidades, ele é um fardo na vida dela. Interessante que não o julgamos em nenhum momento, ele rouba para comprar comida, coisas para casa, e lá em cima todos têm muito dinheiro e esbanjam, se ele rouba um esqui, a pessoa pode comprar outro, não que seja certo, mas sua atitude é compreensível.
Simon busca um lugar para si, ele mente para cada pessoa que encontra, diz que seus pais moram longe, que morreram em um acidente, ou que são ocupados demais com os negócios, a mentira é uma forma dele se integrar e as pessoas olharem para ele.
Simon é apenas um menino carente que necessita de cuidados, a cena final demonstra bem isso, é de uma força extrema e que resume todo o drama, sozinho ele sobe nos Alpes depois da temporada e chora desenfreadamente.
As interpretações são perfeitas, o ar cansado de Léa Seydoux e sua expressão de indiferença só realça os pontos fortes do filme, assim como o menino que interpreta Simon, Kacey Mottet Klein é apaixonante, seu único objetivo é ser amado.
Ainda há a participação de Gillian Anderson que simboliza a figura da mãe que Simon imagina ter. Muitas cenas comovem, mas não de maneira manipuladora, especialmente a que Simon oferece dinheiro a irmã para poder dormir ao seu lado e ser abraçado.
"Minha Irmã" retrata a relação de dependência que um tem para com o outro, mesmo com as estruturas abaladas Simon tem apenas Louise e vice-versa, além disso foca na diferença social que existe em país de primeiro mundo como a Suíça.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
As Quatro Voltas (Le Quattro Volte)
"As Quatro Voltas" (2010) dirigido por Michelangelo Frammartino é um filme sem diálogos, há apenas ruídos e murmúrios, o que importa é a força da imagem. Assim como o título sugere é um filme que evidencia os ciclos.
Um velho pastor vive seus últimos dias em uma quieta vila medieval no meio das montanhas da Calábria, no sul da Itália. Ele pastoreia suas cabras sob um céu que a maioria dos moradores abandonaram há muito tempo. Está doente e acredita que o melhor remédio para seu problema está na poeira que se acumula no chão da igreja, que ele coleta, mistura à sua água e bebe todos os dias. Um novo cabrito nasce. Ele tenta dar seus primeiros passos e lentamente se fortalece até poder acompanhar o rebanho. Ali perto, uma árvore magnífica chacoalha com a brisa da montanha e muda vagarosamente com as estações. O natural e o aparentemente banal é filmado e é incrível como insignificâncias ganham magnitude, são tomadas longas em que a câmera observa o ritmo tedioso daquela vila. O homem que pastoreia suas cabras e que a cada dia definha mais e mais tem fé que a poeira da igreja de algum modo irá salvá-lo, pobre mortal, ninguém pode ir contra a natureza, eis o ciclo da vida.
A procissão que perambula nas ruas é vista de longe, a câmera prima por outros ângulos, como o cão que os atrapalha, o personagem mais importante é o animal que anuncia que seu dono morreu. Esse instante do filme retrata de maneira natural o quanto somos irrelevantes, atribuímos valores em certas coisas da vida e esquecemos da efemeridade de nossa existência. Nos iludimos em pensar no depois da morte, mas a questão é que a vida não para porque morremos, ela segue com seu ciclo, e no filme ela continua com o nascimento de um cabritinho, vemos ele nascer, dar seus primeiros passos, até que pode se juntar aos outros animais para o pastoreio, mas um dia ele acaba se perdendo dos outros e desesperado se junta a uma imensa árvore, a próxima protagonista do filme.
A suntuosa árvore é filmada em todo seu esplendor, são ângulos impecáveis, desde seu tronco a seus galhos chacoalhando ao vento, é realmente lindo. E quando acontece sua derrubada ficamos atônitos, simplesmente a cortam, a escalpelam para ter um divertimento instantâneo absurdo. A comunidade se junta para ver quem é capaz de subir até o alto e depois disso é cortada em pedaços para virar carvão. É bonito como o diretor conseguiu transpor o simples, que, na verdade, são detalhes riquíssimos, e mostrar a transformação que ocorre com todos os seres vivos.
"As Quatro Voltas" é um respiro profundo, é cinema contemplativo, mas não chato, é inteligente, mas não presunçoso, sua simplicidade está além de qualquer rótulo, é delicado e exuberante ao mesmo tempo, também original e fascinante.
Não é necessário ter crenças, aliás visões religiosas reduzem a percepção do viver e morrer, a grandeza reside na natureza, ela dita as regras das quais não podemos controlar, e a vida continua, tudo continua... Toda essa amplitude encanta e assusta.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Vitus
Vitus é um garoto superdotado que parece vindo de outro planeta. Ele tem o ouvido muito apurado, toca piano como um virtuoso e estuda enciclopédias desde os cinco anos de idade. Seus pais antecipam um futuro brilhante para ele. Esperam que ele se torne um exímio pianista. Mas o pequeno gênio prefere brincar com seu excêntrico avô na oficina dele, construindo planadores. Ao fazer um voo numa das engenhocas, um dramático salto dará a Vitus o controle da própria vida.
Aos seis anos, ele já carrega enormes responsabilidades, como as exaustivas horas de prática diária, a tentativa de adequação, a exigência da mãe obsessiva (Julika Jenkins) e a ausência do pai workaholic (Urs Jucker). Seu único alívio são os fins de semana ao lado do avô (Bruno Ganz), homem simples que partilha com o neto a paixão pela aviação e o único que o trata como uma pessoa normal. Vitus é interpretado por dois atores mirins: Fabrizio Borsani, que o faz aos seis anos, e Teo Gheorghiu, que o vive já com 12 anos de idade. O primeiro é curioso e adorável, o segundo, assombroso em talento e interpretação, especialmente ao piano, já que ele é uma criança prodígio de verdade e foi selecionado para o papel entre alunos de uma famosa escola londrina de música.
O filme de Fredi M. Murer tem vários ingredientes interessantes, protagonista criança, um avô amoroso, os sonhos, o egoísmo dos pais, a crise de identidade do garoto que após a queda com o planador do avô decide fingir não saber mais tocar piano, e assim viver como um pré-adolescente normal. Depois da metade do filme o clima ganha uma certa fantasia infantil e a genialidade do menino é tratada de forma exagerada, ao mexer na bolsa de valores e fazer com que seu avô ganhe uma fortuna, e conseguir que seu pai se reerga na empresa, as dissertações sobre a bolsa de valores são incríveis. O garoto tem seu próprio apartamento, onde pode tocar piano sossegadamente, também tenta conquistar uma moça sete anos mais velha, que coincidentemente foi sua babá quando mais novo. Há toques de humor nessa fase, principalmente quando seu avô decide comprar um avião e se aventurar nele.
O filme levanta diversas questões, como educar uma criança, respeitar seus limites, deixá-las que descubram do que gostam realmente, claro sempre incentivando, como no caso de Vitus, o piano. A mãe ficou muito orgulhosa o vendo ainda criança tocar como gente grande e acabou colocando expectativas demais, cansado Vitus esquece de ser uma criança. Com ótimas passagens ele questiona os professores e diz que é normal que saibam mais que seus alunos, e pergunta quem inventou a máquina a vapor, a professora lhe responde, e então Vitus acrescenta: "Se você é tão capaz porque não inventou a máquina você mesma?".
Interessante também a parte em que a mãe de Vitus o leva na casa de uma grande e respeitada pianista e ele se recusa a tocar e mostrar seu talento, quanta ousadia! Mas a mulher de certa forma o entende, pois os gênios são assim, imprevisíveis.
É um filme emocionante e alegre que nos tira sorrisos pela trama inocente. Toda vez que seus dedos encontram as teclas do piano, inevitavelmente ficamos estupefatos.
Vitus em um determinado momento sente-se estranho, seu desejo é fazer parte e se tornar apenas mais um na multidão, não é fácil entender-se nesta fase, o que realmente importa, o que sente e deseja. Nas aulas o tédio invade, pois tudo o que o professor fala ele já sabe, responde as perguntas de pronta e os questiona de maneira incisiva. No início quando pequeno é especialmente encantador. Que mãe não se sentiria orgulhosa? É compreensível as atitudes apesar de nos irritar com suas exigências. Uma criança superdotada não precisa deixar de ser criança e é isso que o filme mostra. Há clichês, fantasias, mas faz parte do contexto e nos maravilha a cada cena, principalmente ao final, onde Vitus toca juntamente com a orquestra, que inclusive foi gravada durante um concerto de verdade. É de tirar o fôlego!
sexta-feira, 30 de março de 2012
Histeria (Hysteria)
Em 1880, a Inglaterra ainda tem dificuldade em abandonar velhos hábitos, em especial na medicina. Nessa época, que não se acredita na existência de germes e bactérias, ainda são usados métodos iguais para qualquer tipo de doença. Mortimer Granville (Hugh Dancy) é um jovem médico de pensamentos modernos que sofre para conseguir ajudar as pessoas ao seu redor, e para manter um emprego fixo, já que ninguém gosta de suas inovações. Quando começa a trabalhar com o Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), Mortimer conhece a "doença" chamada Histeria, que estaria afetando metade das mulheres de Londres. O jovem também conhece as duas filhas do velho doutor, a comportada Emily (Felicity Jones) e a revoltada Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Ao mesmo tempo que os tratamentos para a Histeria evoluem, Mortimer começa a ver com outros olhos o papel das mulheres na sociedade em que vive e a duvidar se a Histeria realmente é uma doença.
A tal da Histeria era um termo médico para a "doença" que as mulheres tinham na época, quando elas ficavam agitadas, emocionalmente abaladas e agressivas (efeitos normais de ciclos menstruais ou apenas desejo sexual, já que era uma época de muita repressão às mulheres). O tratamento era um estímulo sexual com os dedos ou com jatos d'água, feitos claro, por um profissional.
"Histeria" conta de modo muito leve e com o tão conhecido humor inglês a história do primeiro vibrador numa sociedade completamente machista, onde as mulheres não tinham espaço, eram reprimidas, insatisfeitas e quando alguma se sobressaía como foi o caso de Charlotte, era vista como uma mulher voluntariosa, histérica, e que jamais se casaria, pois nenhum homem se atreveria a domar uma mulher assim. A ideia do vibrador, ou massageador, veio porque as mulheres cada vez mais procuravam o tratamento manual, e assim as mãos dos médicos ficavam dormentes. O filme revela o assunto de forma superficial, colocando ênfase também no começo da mudança em relação de como as mulheres eram vistas no século passado.
Apesar do filme ser classificado como comédia romântica, ele não se encaixa perfeitamente no gênero, tem toda a história de romance e de opostos que se atraem, mas o foco está no interessante retrato desse pedaço da História em que ocorreram grandes mudanças.
O filme retrata uma sociedade diferente, cheia de elegância e pomposidade, mas que na verdade era dominada pelo machismo. As várias cenas em que as mulheres estão no consultório com as pernas abertas, porém cobertas com descrição são um tanto engraçadas, os orgasmos são dos mais variados, e os médicos ao final dizendo que a consulta foi satisfatória e aliviou a paciente da histeria são momentos pitorescos. A ideia era de que a mulher não tinha prazer sexual como o homem, portanto, logo era diagnosticada histérica, mas graças a invenção do vibrador, novas descobertas foram feitas e a mulher avançou grandes passos na sociedade.
Outro ponto muito bom do filme é Edmund, amigo de Mortimer, um homem de fortuna que esbanja com as novidades tecnológicas da época, inclusive ele foi um dos que ajudaram a criar o tão adorado vibrador, aparece também o telefone, super novidade na época e que só pessoas abastadas podiam ter.
O ritmo é ótimo, o conteúdo interessante, divertido sem ser debochado. É um tanto quanto estranho e curioso, digamos que é uma versão romanceada sobre o primeiro vibrador, e isso já vale a pena para querer conferi-lo.
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