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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Mimosas
"Mimosas" (2016) do diretor franco-espanhol Oliver Laxe (Todos São Capitães - 2010) é um épico místico impressionante, mesmo não o compreendendo por inteiro exerce um fascínio inexplicável, é difícil colocar em palavras a sensação causada.
Acompanhamos a jornada de um Sheikh idoso e moribundo que viaja através do Atlas marroquino em uma caravana, escoltado por dois bandidos, para cumprir o último desejo de sua vida. O caminho é tortuoso, pedregoso e no meio da caminhada o mestre sufi Sheikh acaba falecendo. Ahmed (Ahmes Hammoud) e seu amigo Said (Said Aagli) se oferecem para levar o corpo à cidade de Sijilmasa, claro que com intenções de tirar algo de valor. Em outro mundo além do espaço-tempo, Shakib (Shakib Ben Omar) recebe a missão para que encontre Ahmed e seu amigo com o corpo do Sheikh e os conduzir até o destino previsto, além de tentar restabelecer a fé de Ahmed. Mas, inúmeros contratempos surgem nesta empreitada e Shakib se vê desesperado e precisando tomar decisões.
O filme é dividido em três episódios intitulados com rituais de oração: Reverência, Elevação e Prostração. Shakib é uma espécie de anjo enviado do futuro para auxiliar a caravana a seguir sua jornada e chegar a seu destino, Ahmed estava acompanhando o Sheikh com intenções de roubar, porém com o passar dos dias entre tantas adversidades seus sentimentos são testados, ele é um homem sem fé que necessita de algum modo ultrapassar as barreiras do caminho, a força da natureza é filmada magistralmente.
O caminho é traiçoeiro e praticamente intransitável, entre terrenos montanhosos, desfiladeiros, muita neve e cursos de água torrenciais testam a todo o tempo a força desses homens, além disso, aparecem uns fanáticos atirando, uma mistura de situações que acabam resultando no processo místico de se restabelecer a fé, o que nada tem a ver com religião, pois é preciso ter fé para conseguir obter coragem e transpor seus limites, Shakib não esperava encontrar tantas dificuldades e por isso fica perdido, porém sempre se volta para sua fé e enxerga dentro de si o que precisa ser feito. Este é um personagem confuso, tem um quê de enigmático e pueril, a cena em que é apresentado ele está a falar sobre um conto curioso sobre Deus e o Diabo, deveras interessante observá-lo em toda a peregrinação e sua interação com os outros, principalmente com Ahmed.
É um filme intenso com muitas camadas e interpretações, talvez pela distância cultural o exotismo produza a fascinação, a paisagem é deslumbrante, o trabalho de fotografia de Mauro Herce é belíssimo e hipnotizante, o desenvolvimento é lento e por vezes embaralhado, mas é uma experiência cinematográfica única.
Os personagens enfrentam em meio a jornada dilemas morais, perguntas são feitas, vida e morte, fé e destino, porém nenhuma delas são respondidas. Imergimos dentro deste cenário, observamos os rostos cheios de dúvidas, ações estranhas advindas de situações inesperadas, outros personagens surgem dando mais significado à trama. O épico místico de Oliver Laxe tem um quê de faroeste, é um filme com uma narrativa sinuosa, cenas suntuosas e atores amadores com um desempenho surpreendente.
"Mimosas" é daquelas raras produções que conseguem causar efeitos duradouros, impossível não se encantar de algum modo, seja pela história, paisagem, personagens, ou a aventura mística pela cordilheira do Atlas marroquino.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Moolaadé
"Nenhuma menina será mais cortada!"
"Moolaadé" (2004) último filme dirigido por Ousmane Sembene (Faat Kiné - 2001) é um grito de liberdade contra uma suposta cultura religiosa, uma realidade cruel e bruta da qual meninas passam em prol da "purificação", a mutilação genital não é uma prática exclusiva do Islamismo, que aliás não está no Alcorão, é uma prática sem fundamento e selvagem que inferioriza a mulher. Em alguns lugares se a mulher não for circuncidada são excluídas da sociedade, este filme levanta questões importantes e impacta pela violência que essas mulheres passam, e certamente um meio de promover a rejeição a este ato.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
Nesta aldeia a única que enfrenta fortemente as Salindana, as mulheres que cortam as meninas, é Collé, tanto que não permitiu que sua filha passasse por isso, com a ajuda das outras duas esposas de seu marido, principalmente a mais velha, acolhe quatro meninas em sua casa e invoca o moolaadé, onde uma fita colocada no portão impede a entrada. A cada dia a situação se complica, os homens do vilarejo não aceitam que desmereçam o poder deles e mandam que o marido de Collé a chicoteie a fim de proferir as palavras que quebrem o moolaadé, mas ela aguenta firme e permanece lutando. A união das mulheres se intensifica quando a morte de uma criança se dá durante essa prática, da qual a própria mãe a sequestrou durante o açoite e a levou. Usando qualquer tipo de faca e feito no meio do mato, sem nenhum tipo de assepsia muitas não suportam e morrem, as outras sobrevivem com traumas físicos e psicológicos horrorosos. São cortados os pequenos e grandes lábios, além do clitóris em alguns casos, por estética e também por acreditarem que assim a gravidez será mais fácil. A cena em que Collé morde o dedo de tanta dor durante a relação sexual com o marido, devido as consequências da violência sofrida quando pequena é uma das mais fortes, juntamente com a que é açoitada.
É o retrato de tradições misóginas que vão sendo perpetradas por ignorância, mas graças a mulheres como Collé estão aos poucos sendo extintas. Em vários países em que esta prática é comum está sendo ilegalizada. É complicado redefinir uma cultura, há o embate entre direitos humanos e o valor antropológico, quando mulheres se opõem a este ritual são excluídas pelos homens por não terem sido purificadas, são rejeitadas pelo fato de rejeitarem um costume ancestral. Sem informação dificilmente se toma consciência, como demonstrado no filme o rádio foi um grande aliado, os homens até tentaram impedi-las, mas com o companheirismo e a busca por maior expressividade acabou se formando uma aliança capaz de resultados significativos. A cena final exemplifica um começo da liberdade feminina com o canto e a coragem.
"Moolaadé" é um levante feminista, a personagem Collé tão resistente e consciente é uma figura para se inspirar.
Ousmane Sembene compôs uma narrativa bela, envolvente, direta, prioriza o discutir de ideias, um filme político rico, lúcido e necessário.
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