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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Última Vida no Universo (Ruang Rak Noi Nid Mahasan)

"A Última Vida no Universo" (2003) dirigido por Pen-Ek Ratanaruang (Ninfa - 2009) causa estranhamento, mas tem imensa sutileza ao tratar da solidão, os simbolismos e metáforas também fazem parte da trama, o que dá um tom por vezes de fantasia.
Kenji (Tadanobu Asano) é um jovem bibliotecário japonês que mora em Bangkok, na Tailândia. Extremamente tímido, é obcecado por organização e pela morte (especialmente a dele mesmo e não necessariamente nessa ordem). De repente, uma tragédia coloca à sua frente Noi (Sinitta Boonyasak), uma garota que é o seu oposto: desencanada, expansiva e que vive em uma casa que parece ter brigado definitivamente com a vassoura e com o detergente há décadas. Depois de um início cheio de estranhezas, os dois vão se entendendo. Ok, pode parecer mais uma dessas histórias em que os opostos se atraem, onde a maluquinha conquista e é conquistada pelo cara tímido e estranho, mas não é bem assim…
Kenji é meticuloso e pensa na morte como uma espécie de purificação, seu apartamento reflete seu estado de espírito, a cor branca, a decoração e suas roupas denotam uma grande melancolia. Passa seus dias trabalhando na biblioteca, mas quando seu irmão, o Yakuza Yukio (Yutaka Matsushige) chega fugido do Japão, tudo se complica e uma série de encontros e desencontros acontecem entre ele e Nid (Laila Boonyasak), irmã de Noi, que trabalha como hostess vestida de colegial japonesa numa casa noturna que Yukio frequenta. Num momento em que Kenji simula seu suicídio em cima de uma ponte, as irmãs brigam dentro do carro, Nid sai e o vê, ao ir até ele um carro a atropela e a mata. A partir daí Kenji e Noi passam a viver juntos, e ao contrário de Kenji, a moça é completamente desorganizada, sua casa está virada do avesso, louças sujas por toda a parte, tudo jogado pelo chão. Interessante que Kenji sinta aconchego no caos. A relação deles segue de forma nada convencional, a língua é uma barreira. Há muita angústia, tristeza e solidão.  
Difícil descrever "A Última Vida no Universo", é preciso assisti-lo sabendo que não é um filme comum e que ele vai exercer fascínio mesmo não o entendendo por completo, cada um o absorverá de uma maneira. Há pitadas de humor, romance, fantasia, mas a melancolia se sobressaí, ele não segue uma linha, alterna entre passado, presente e até futuro, passagens em que o sonho se mistura à realidade, está tudo ali, vida/morte, ordem/caos. 
Tadanobu Asano tem delicadeza ao atuar, um personagem cativante e soturno, outro destaque é a participação do diretor Takashi Miike como o mafioso da Yakuza. Numa das cenas acontece uma referência a "Ichi, o Assassino" (2001), um filme dirigido por Miike e estrelado por Asano.

A morte, as relações que se constroem a partir do acaso, a incomunicabilidade, a necessidade do afeto, a vida. Esse são alguns temas refletidos na trama, mas há tanto para se explorar, emoções provocadas que não entendemos. 
O poster do filme, por exemplo, diz muito: dois corpos desarticulados, unidos e desunidos, uma possibilidade de afeto, mesmo que não haja uma comunicação. Eles vão se descobrindo no decorrer e enxergam similaridades.

"A Última Vida no Universo" é um exemplar fascinante do cinema asiático, uma poesia a se decifrar, uma relação que nasce por algo em comum, a dor e a ausência os fazem construir um novo universo, estranho e silencioso, ela encontra a ordem para refazer seu caos, e ele o caos, a centelha de vida para sua ordem.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Cemitério do Esplendor (Rak ti Khon Kaen)

"Cemitério do Esplendor" (2015) dirigido pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul (Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas - 2010) é um filme contemplativo que nos transporta para uma atmosfera espiritualista e que faz crítica ao sistema com belas metáforas. É uma obra artística profunda, sensível e ampla. A vida é muito mais do que podemos ver, e conforme vivemos muitos muros são construídos nos levando à cegueira, porém as possibilidades de derrubá-los existem e quando isso ocorre, a visão com certeza é surpreendente. A compreensão se dá pela nossa imaginação, o esplendor consiste não no concreto, mas nas inúmeras experimentações, sensações do que não se pode enxergar. A filosofia de vida dos tailandeses está presente, a concepção budista, porém vai além de crenças em outras vidas, é algo inominável que só se completa na imaginação. 
Soldados com uma misteriosa doença do sono são transferidos para uma clínica temporária em uma antiga escola. O espaço repleto de memórias se torna um mundo revelador para a dona de casa e voluntária Jenjira (Jenjira Pongpas) enquanto ela cuida de Itt (Banlop Lomnoi), um belo soldado que não recebe visitas. Jen torna-se amiga da jovem médium Keng (Jarinpattra Rueangram), que usa seus poderes psíquicos para ajudar entes queridos a se comunicarem com os homens em coma. Os médicos exploram diferentes maneiras, incluindo terapia de luz colorida, para aliviar os sonhos perturbados dos doentes. Jen descobre um caderno de Itt, cheio de desenhos e escritos estranhos. Pode haver uma ligação entre a enigmática síndrome dos soldados e o antigo local mítico que se encontra abaixo da clínica. Mágica, cura, romance e sonhos são parte do tenro caminho de Jen para uma consciência mais profunda de si mesma e do mundo ao seu redor.
A narrativa é rica e engrandecedora, os símbolos são identificáveis e a delicadeza com que tudo é abordado nos traz à lucidez, um abrir de olhos para si e para o mundo. É incrível a união da aura mística e enigmática a um despertar de imaginação e consciência.
A doença que acomete os soldados é um mistério, tem a ver com vidas passadas que sugam a energia daqueles homens, o que representa o esgotamento da existência, o vazio que toma o ser humano. Jen após se encontrar com duas deusas que lhe contam que o hospital foi no passado um palácio e que os reis que ali habitavam absorvem a energia dos soldados para lutar suas batalhas, se aproxima mais da jovem médium e convive com Itt quando desperta, eles conversam e há algo inexplicável nesta relação, uma mistura de afeto materno e uma tensão sexual que paira no ar, em dado momento Itt adormece no meio de um lanche a tarde e encorpora em Keng, ali no jardim Keng/Itt mostra o que vê, as salas de um suntuoso palácio, enquanto Jen vê apenas o local repleto de árvores que remetem a sua juventude. É o encontro entre passado e presente que metaforiza com questões sociais da Tailândia.
O filme expõe que é preciso ter consciência dos sonhos da mesma forma que temos dos nossos pensamentos, que por sinal não se diferem. Há uma crítica em relação à alienação, o tédio que o cotidiano provoca e o estado de dormência que nos assola.

O mundo real se confunde com o mundo onírico de maneira leve e orgânica, o conceito de reencarnação está presente e tanto as pessoas como os lugares carregam uma carga espiritual, não adianta querer entender a narrativa pelo modo convencional, a lógica dela vai além do que está se passando na tela, a naturalidade permeia toda a obra, as interpretações, o som do vento, dos pássaros, cenas que contemplam a natureza das coisas, é calmo, e estranhamente por mais que pareça confuso, chega fácil a quem já está habituado ao clima dos filmes de Apichatpong.
"Cemitério do Esplendor" segue um fluxo que não se conclui, mas que se transforma, a sensação é de que as imagens nos captura e hipnotiza, temos a certeza de que mesmo não compreendendo sairemos satisfeitos, é um filme que diz sobre o que não somos capazes de enxergar, portanto gera desconforto, mas sem dúvidas abre novos olhares e amplia percepções.

Vida e morte, realidade e imaginação não são conceitos separados, são experiências ininterruptas que estão lado a lado. Além desse viés espiritual, pode-se ler também algo político na trama, devido a recente crise política na Tailândia, há inúmeras metáforas, como o projeto governamental que escava no local onde fica a clínica em que estão os homens adormecidos.
É um filme sensorial, instigante e prazeroso, mesmo tendo um ritmo lento em que aparentemente nada acontece e questões que não compreendemos, seja por conta da cultura ou religião. Mas exibe pensamentos inquietantes e que despertam a nossa consciência, que no dia a dia sem percebermos adormece diante a rotina entediante, relações fastidiosas e cansaço perante as injustiças.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Valerie e sua Semana de Deslumbramentos (Valerie a Týden Divu) +Coisas Insignificantes (Cosas Insignificantes) + O Foguete (The Rocket)

Valerie, uma jovem adolescente que vive com sua avó, começa a ter os primeiros contatos com sua consciência sexual quando um grupo circense chega a sua cidade e é presenteada com um par de brincos mágicos. A linha entre sonhos e realidade é tênue nesta fantasia psicológica surrealista. Uma história que trata de amor, medo, sexo e religião. O filme "Valerie e sua Semana de Deslumbramentos" do diretor Jaromil Jires faz parte da New Wave Tcheca que se iniciou em 1960, as obras iam contra todo o realismo da época apresentando características de surrealismo e onirismo. "Valerie..." faz parte do surrealismo estético, onde os sonhos e pesadelos com qualquer tipo de criatura se externalizam.
Valerie é uma garota inocente que vive com sua avó, mas logo uma nova fase surgirá para ela, quando no início ganha um par de brincos que caracterizam a sua mudança. A narrativa carrega simbolismos muito bonitos, como o sangue pingando nas margaridas mostrando que a menina terá pela frente várias descobertas. De repente, ela começa a enxergar todos ao seu redor de outra forma e demoniza os adultos, a volúpia é a grande protagonista do filme. O amadurecimento sexual é o foco, a mistura de realidade e sonhos caracterizam diversos sentimentos, dos quais se fazem presentes nesta fase tão confusa. O despertar é trabalhado de maneira completamente onírica, onde o paganismo naturalista junta-se aos ícones, símbolos e rituais cristãos.
Vale dar uma conferida neste exemplar maravilhoso da New Wave Tcheca e se deslumbrar com todos os elementos do filme.

Esmeralda é uma adolescente com uma obsessão incomum: ela coleciona objetos perdidos, esquecidos ou descartados e os guarda em uma caixa embaixo de sua cama. É a história dessas coisas insignificantes e das pessoas por trás delas, todos de alguma maneira incapazes de se conectar com quem mais amam. Esses objetos, dentro de uma caixa, representam tanto a ausência da comunicação como sua possibilidade.
O filme entrelaça diversas pessoas que fazem parte do cotidiano de Esmeralda através dos objetos que ela encontra e guarda para si, em capítulos vamos conhecendo-os, assim como os seus respectivos donos, e a história delicadamente nos apresenta uma gama de possibilidades. É leve ao abordar o como certas coisas que julgamos pequenas dizem muito sobre nós. 
Dirigido por Andrea Martínez, "Coisas Insignificantes" tem uma aura de esperança, o roteiro simples e suave, juntamente com as atuações naturais cativa e nos faz pensar na nossa própria vida e suas insignificâncias.

Um menino acreditando trazer má sorte para todos em torno dele leva a sua família e dois novos amigos através de Laos para encontrar um novo lar. Depois de uma viagem cheia de calamidade por uma terra marcada pelo legado da guerra, para provar que ele não traz má sorte, ele constrói um foguete gigante para entrar na competição mais emocionante e perigosa do ano: O Festival de Rocket.
"The Rocket" filme de estreia do diretor australiano Kim Mardaunt é despretensioso ao mostrar a história de um menino marcado pela crença de seu povo e os desastres envoltos do local. Ambientada no Laos, Ahlo é um garotinho nascido em uma tribo que possui a crença de que quando se nasce gêmeos, um é abençoado e outro é amaldiçoado, seu irmão nasce morto, portanto não se sabe o que Ahlo será, mas conforme cresce devido a algumas coisas ruins que vão acontecendo ele é considerado amaldiçoado. Ao encontrar Kia e Tio Roxo no campo de refugiados em que se mudaram por causa da construção de uma hidrelétrica onde moravam, ele decide quebrar esse esteriótipo que criaram para ele.
A narrativa pode ser considerada clichê, mas isso não tira a beleza, ao contrário, dá magia à história tão cheia de sofrimento. Não há mal nenhum em utilizar meios para colorir algo tão terrível, e o diretor soube enfatizar detalhes importantes do povo, mesmo que exagerando é um belo filme de final feliz, não poderia ser diferente, você torce para Ahlo a cada segundo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee Raleuk Chat)

É extremamente difícil falar sobre "Tio Boonmee", mas não posso deixar de fazer algumas observações e compartilhar minhas percepções. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano de 2010, o filme pode ser considerado um gênero de fantasia alternativa, ou espiritual. A nós ocidentais a primeira impressão que passa é logo comparar os acontecimentos com a religião espírita, mas a verdade é que é algo muito além de qualquer rótulo. Falar em espiritualidade e a evolução desta enquanto ser humano pode soar mera bobagem a algumas pessoas, mas o que realmente "Tio Boonmee" quer passar em forma de simbolismos é a nossa relação com a morte e dizer que natureza e homem são uma só coisa, nos unimos a ela quando morremos, um ciclo que termina onde tudo começou. Muitas pessoas acham que a natureza está distante de nossa condição como ser humano, mas acontece que estamos ligados a ela desde o princípio.
Apichatpong Weerasethakul ou Joe como o próprio diretor tailandês se apelidou, dada a dificuldade de pronunciar seu nome, mostra o quanto estamos longe de compreender tudo, até porque nós lidamos com a vida, a morte é algo que está fora de nosso entendimento. Acredito que uma pessoa mais espiritualizada consiga captar vários dos simbolismos expostos, aquele ser humano que busca se conhecer, que consegue pensar de forma ampla, que identifica sua essência, tem consciência de que tudo termina e de que estamos conectados com a natureza sendo uma só coisa. Mas por um outro lado a pessoa que está distante destes conceitos não consegue absorver e tão pouco entender o termo espiritualidade.
Tio Boonmee é interpretado por um ator não-profissional e é isso que funciona ao dar naturalidade à história. O personagem é viúvo e está com um problema nos rins, ele volta para uma região de florestas no nordeste da Tailândia. Lá conta com a companhia da cunhada Jen, o primo Tong e Jaai. Num jantar, uma espécie de despedida, a barreira entre os vivos e os mortos se rompe. A falecida mulher de Boonmee, Huai vem fazer uma visita. A chegada dela, um espírito, não poderia acontecer de forma mais natural, sem qualquer alerta de que um fantasma entrou em cena. Ela se senta à mesa e começa a compartilhar da conversa. Nesse momento, recordações e pontas soltas do passado e presente se tornam o assunto. São conversas melancólicas, mas que se desenrolam sem qualquer estranhamento.

Outra figura peculiar torna a ceia ainda mais especial, trata-se de Boonsong, o filho perdido de Tio Boonmee, que retorna como um espírito em forma de macaco e cujos olhos são vermelhos. 
Apichatpong destrói a linha que divide o real e o imaginário, a vida e a morte, a existência e a ausência. A morte é tratada de forma muito natural, um acontecimento tranquilo, uma fase da qual Tio Boonmee está passando.
É um filme completamente sensorial e feito de imagens, o ritmo é lento, como se tudo tivesse o tempo certo para acontecer, a natureza é muito presente, ela é uma personagem e não há coisa mais bela que a trilha sonora da floresta que acompanha a despedida de Tio Boonmee do mundo físico. É complicado compreender outras tradições, outras formas de enxergar a morte, os tailandeses tem uma calma natural ao lidar com este assunto.

"Tio Boonmee", Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" é cinema experimental e de certa maneira hipnótico, há cenas incompreensíveis e talvez nem tenham explicações. Em meio a nossa vida cotidiana tão automática e rasa, "Tio Boonmee" aparece para abrir nossos olhos, e mesmo sem compreendê-lo já vale a pena para pensamentos novos virem à tona, e saber que existem diversos jeitos de encarar a morte.