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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Manhãs de Setembro (Série)

  

"Manhãs de Setembro" série com duas temporadas dirigida por Dainara Toffoli e Luís Pinheiro e exibida pelo streaming Prime Video é um retrato real, fascinante, angustiante, transformador e repleto de afeto. Um misto de sentimentos invade nosso ser ao contemplar a jornada da protagonista vivida com força e altivez pela dona da voz mais linda da atual música brasileira, Liniker. A série conta a trajetória de Cassandra que, desde que deixou sua cidade para trás, decidiu não fazer concessões para se tornar o que sempre quis ser: uma mulher trans livre e independente. Depois de anos comendo o pão que o diabo amassou, finalmente as coisas começaram a entrar nos eixos. Após uma temporada de desafios com a descoberta da existência de um filho, Cassandra tem um novo reencontro com o passado graças à chegada do seu pai e às lembranças de sua mãe, o que deixa o sonho de cantar ainda mais abalado. Cassandra é fã de Vanusa, assim como sua mãe que não vê desde os quatro anos de idade, ela batalha na grande São Paulo pela sua independência e liberdade de ser, ela divide seu tempo entre trabalhar como entregadora e a noite se apresentando cantando canções que conversam diretamente com seus sentimentos, além de se relacionar com Ivaldo (Thomás Aquino) que é casado. Sua vida dá uma reviravolta quando Leide (Karine Teles) aparece lhe mostrando Gersinho (Gustavo Coelho) como sendo seu filho. No decorrer dos episódios acompanhamos essa transformação que acontece em sua vida, a descoberta muda muito de sua rotina e quebra um pouco de seu sonho de seguir sozinha, a responsabilidade de um filho inicialmente não é aceita, a relação de afeto é construída aos poucos e conforme as emoções vão se assentando, ela começa a reviver momentos do passado olhando para Gersinho, o que não a agrada, mas o menino tenta chamar sua atenção de todas as formas e demonstra um carinho e respeito acolhedor. Cassandra é uma mulher trans preta que luta contra o preconceito todos os dias, é forte, segura de si e enfrenta as dificuldades com resiliência. Absolutamente todos os personagens tem características interessantes e todos os diálogos tem naturalidade, as complexidades, as nuances, as dificuldades são colocadas com sensibilidade e nos emocionamos com a história que vai desenrolando aos poucos.

"Manhãs de Setembro" homenageia Vanusa, além de carregar no título uma de suas músicas mais conhecidas, ela se faz onipresente, discute e dá conselhos para Cassandra, um misto de musa e mãe, suas músicas permeiam a história e complementam perfeitamente. Cassandra dá voz a essas canções que tanto falam de si. Outro ponto de destaque é a movimentação pelas ruas cinzentas do centro turbulento de São Paulo.
 
Uma delícia acompanhar essa série que não tem pressa, respeita o tempo que as coisas acontecem, traz temas importantes e plurais com seriedade. E que fortaleza é a protagonista nos trazendo sentimentos variados, a complexidade de suas emoções, a aceitação do filho contrapondo com sua construção de liberdade e seguimento dos sonhos, sua solidão enxergando o afeto se construindo através do dia a dia, sua batalha diária tendo que lidar com a falta de dinheiro, preconceito, transfobia, o passado, os traumas...
A segunda temporada traz ainda mais contexto e seu pai, interpretado por Seu Jorge, aparece na história, descobrimos mais sobre Cassandra e vamos junto dela com coragem e intensidade. 

O único defeito dessa série é ser tão curtinha, juntando a primeira e a segunda temporada são apenas 11 episódios de aproximadamente 30min.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Marte Um

"Marte Um" (2022) dirigido por Gabriel Martins (No Coração do Mundo - 2019) é um filme feito com muito esmero ao retratar o espírito do povo brasileiro, as lutas travadas diariamente para conseguir seu sustento, a preocupação com os familiares e ainda conciliar os sonhos e esperança. Acompanhamos uma família de classe média baixa que mora na periferia de Contagem e sem grandes eventos vamos conhecendo cada um deles sobrevivendo aos desafios do cotidiano.
O filme traz a história de uma família periférica, nos últimos meses de 2018, pouco depois das eleições presidenciais. O garoto Deivinho (Cícero Lucas), o caçula da família Martins, sonha em ser astrofísico e participar de uma missão que em 2030 irá colonizar o planeta vermelho. Morando na periferia de um grande centro urbano, não há muitas chances para isso, mas mesmo assim ele não desiste. Passa horas assistindo vídeos e palestras sobre astronomia na internet. Wellington (Carlos Francisco), o pai, é porteiro em um prédio de elite e há um bom tempo está sem beber, uma informação que compartilha com orgulho em sessões do Alcoólicos Anônimos. Tércia (Rejane Faria) é a matriarca que depois um incidente envolvendo uma pegadinha de televisão acredita que está sofrendo de uma maldição. Por fim, a filha mais velha é Eunice (Camilla Damião) que pretende se mudar para um apartamento com sua namorada mas não tem coragem de contar aos pais.
A sensibilidade com que os personagens são retratados cativa o espectador, cada um deles tentando prosseguir da melhor maneira mesmo tendo a restrição econômica, dá-se o jeitinho e, acima de tudo, mesmo com todos os percalços externos e internos ao fim de tudo estão juntos. Tem um belo visual, os olhares brilham feito estrelas, há sempre um ar melancólico, porém nunca se rendendo de fato, a vida e os sonhos sempre resplandecem. Ver na tela características tão comuns, problemas tão corriqueiros que a imensa maioria passa aperta o coração, essas simples nuances de representatividade faz toda a diferença para conexão com a história, a crise econômica, as injustiças, os receios, os obstáculos praticamente intransponíveis, aliado a isso um período de obscurantismo na política começa a nascer e atacar os mais pobres, sobreviver a essas coisas só com muita força. Tércia por exemplo, depois de passar por uma pegadinha de um programa de TV fica tão traumatizada que acredita estar amaldiçoada, pois tudo ao seu redor começa a ruir, Wellington é um sujeito honesto e acaba sendo passado para trás em seu trabalho e sem piedade é jogado fora, também pressiona seu filho para que jogue futebol e até consegue uma vaga para participar de uma peneira, mas Deivinho se acidenta e fica impossibilitado, daí Wellington se rende a bebida pelo desgosto.

Deivinho sonha e o custo desse sonho é muito alto, ele passa o dia estudando sobre o universo, pretende apesar de tudo se tornar astrofísico e participar da missão que colonizará Marte. Ele é inteligente e até cria seu próprio telescópio, o que nos faz refletir sobre o tanto de pessoas capazes e cheias de vontade que estão presos em rotinas estafantes, mas que poderiam ser cientistas, astrônomos, profissões que não chegam para quem é pobre, e não adianta discursar sobre esforço porque essa é uma parcela extremamente pequena que contém doses altas de sorte. A verdade é que não existe incentivo e o desejo de que os pobres concretizem seus sonhos e saiam ocupando esses lugares. O filme neste aspecto é bastante sutil e prima mais pela beleza e poesia do cotidiano aprofundando aos poucos e deixando que o espectador perceba essas questões.
 
"Marte Um" é um conto lindo e triste sobre a realidade do povo pobre do Brasil, que sente a esperança pulsar toda vez que algo se despedaça a sua frente, esse poder de ser reerguer e de acolhimento entre seus familiares é o encanto do filme. Quem assistiu e não se identificou e se emocionou quando o pai fala: "A gente dá um jeito"? Não é daquelas propostas rasas de que é importante sonhar, não é isso não, é sobre a legitimidade de sonhar e a privação do meio para a concretização, é sobre a força que nasce de múltiplos sentimentos contidos, esses detalhes ganham uma grandeza singela na tela. A gente chora e sorri assistindo. Vale ressaltar a produtora mineira "Filmes de Plástico", o catálogo de filmes são riquíssimos e retratam a realidade brasileira com muito esmero.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

10 Filmes Agradáveis (Para Ver Quando o Coração Pesar)

Segue uma lista feita com carinho para os corações afogados, seja por qualquer motivo, eu mesma estou numa fase de não conseguir ver filmes com temas pesados e muito reflexivos, mas também isso não significa que as histórias precisam ser bobas e efêmeras. Os selecionados aqui servem para aquecer como um abraço, espairecer a mente, chorar sorrindo e despertar desejos.

10- "Prazer, Kalinda" (Bo We Mnie Jest Seks - 2022) Polônia

Kalina Jędrusik, a maior estrela da Polônia nos anos 60, está no auge da fama, mas precisa enfrentar um oficial desprezado que ameaça destruir sua carreira. Maria Dębska estrela a biografia musical de Katarzyna Klimkiewicz sobre a diva rebelde da Polônia dos anos 60 e 70. Um filme que retrata um ícone feminino da Polônia, uma mulher deslumbrante com uma personalidade livre, que resistiu ao machismo e ao assédio. Um filme que inspira o despertar de sentimentos de autonomia feminino.

09- "Dry Martina" (2018) Argentina/Chile

Martina (Antonella Costa) é uma ex-estrela pop que fez muito sucesso na Argentina durante os anos 90. Agora, sem fama ou qualquer tipo de relacionamento, ela não sabe que direção tomar na vida. Mas a chegada de uma irmã desaparecida com um namorado atraente chama a atenção de Martina e mexe em seu desejo adormecido. Um filme leve que se dobra a sua protagonista decadente, mas com anseios e intenções intensas, as relações que se formam durante a história só provam a sua necessidade de calor humano, um filme que vibra na feminilidade e desejos, sobretudo a afabilidade.

08- "Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (Elvira - Te Daría Mi Vida, pero la Estoy Usando - 2014) México

Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido. Uma dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.

07- "Granizo" (2022) Argentina

Miguel Flores é um famoso meteorologista que é tão famoso que tem seu próprio programa de televisão que é conhecido por nunca errar a previsão do tempo no país. Tendo estudado na disciplina por seis anos e, trabalhando na área há anos, se Miguel garante, deve acontecer do jeito que ele previu. Um filme para amainar a vida, cheio de conflitos que se desenrolam de maneira eficaz e deliciosa, um protagonista carismático que com bom humor norteia várias nuances da vida.

06- "O Confeiteiro" (The Cakemaker - 2017) Alemanha/Israel

Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.

05- "Hanami - Cerejeiras em Flor" (Kirschblüten: Hanami - 2008) Alemanha

Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner) é um lindo casal da terceira idade que leva uma vida rotineira e tranquila. Porém, ao receber a notícia de que seu marido está com uma doença que lhe dá poucos meses de vida, os médicos aconselham a Trudi que tenha cuidado ao contar sobre a enfermidade e sugere que o casal aproveite os últimos momentos para viajar ou realizar alguns de seus sonhos. Sem contar ao marido da doença, Trudi o convence a saírem do interior da Alemanha e irem a Berlim visitarem os filhos. Sem tempo para os pais, o casal vê o quanto eles se transformaram a ponto de considerar a breve visita um verdadeiro incômodo. A situação se agrava quando, ironicamente, Trudi morre, deixando seu marido sozinho em meio ao desprezo dos filhos. Ao voltar para sua cidade, Rudi decide se aprofundar nos pertences de sua mulher, e assim descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o Monte Fuji, no Japão.

04- "Ninguém Sabe que Estou Aqui" (Nadie Sabe que Estoy Aquí - 2020) Chile

Memo (Jorge Garcia), mora em uma remota fazenda de ovelhas no Chile e esconde sua linda voz do mundo. Traumatizado por acontecimentos do passado, ele vive de maneira solitária, até que uma mulher lhe oferece a chance de encontrar a paz que tanto procura. Belíssimo filme que mexe bastante com nossa sensibilidade, contém cenas poéticas e memoráveis, além da interpretação visceral de maneira contida de Jorge Garcia. Um filme extremamente bonito que enche o coração de emoção.

 03- "A Incrível Jornada de Jacqueline" (La Vache - 2016) França

Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
Um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.

 
02- "A Costureira dos Sonhos" (Sir - 2018) Índia

Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos. Um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.

01- "Café com Canela" (2017) Brasil

Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
Apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.

terça-feira, 10 de março de 2020

Sócrates

"Sócrates" (2018) dirigido por Alex Moratto é um filme nacional de uma crueza e sensibilidade arrebatadora, produzido pela Querô Produções - um braço da ONG Instituto Querô, de Santos, traz o cotidiano aflitivo de um garoto que tenta sobreviver diante de tantas dificuldades e conflitos em camadas que transbordam tensão e desespero.
Depois da morte de sua mãe, o jovem Sócrates (Christian Malheiros), que foi criado apenas por ela durante os últimos tempos, precisa fazer tudo o que for possível para que consiga sobreviver na realidade da miséria, somado com o preconceito por ser homossexual. Seus valores e ideais são colocados na balança com o medo de não conseguir se virar sozinho.
Acompanhamos a sofrida saga de Sócrates em busca da sobrevivência, ele se vê sozinho e perdido quando sua mãe falece e por ser jovem demais não consegue emprego, vive de bicos e mal consegue se alimentar, tudo se complica quando conhece e se envolve com Maicon (Tales Ordakji), que não aceita a sua própria natureza, esse relacionamento desencadeia sentimentos autodestrutivos, Sócrates começa a beber e a se tornar mais agressivo, são muitas coisas das quais precisa lidar, o luto, a carência, o desespero, a solidão, não há tempo para ele refletir e tentar outros caminhos, a vida corre e parece não haver absolutamente nada. Nessas suas andanças atrás de emprego enfrenta a falta de oportunidades e se esquiva do serviço social que o colocaria sob a tutela do pai, este que o renega por sua sexualidade, há uma cena bastante pesada lá pelo final do filme em que sem mais saber o que fazer Sócrates recorre ao pai, ele quer comida e também afeto, o desespero é palpável, mas o que ganha é agressão e humilhação, de fato o que se sucede é de um amargor que nos revira.
A história é crua e não há espaços para qualquer momento calmo, o cotidiano machuca e não parece oferecer nada além de miséria, o sentimento de abandono, tristeza e solidão pulsa por esse garoto que se sente confortado nos braços de Maicon, mas novamente o que ele recebe é preconceito e desamor; a vulnerabilidade é imensa.

Sócrates não tem tempo para pensar ou sentir o luto, ele precisa continuar e para isso tenta diversas alternativas, como conseguir o trabalho de sua mãe, porém apesar de esforçado esbarra na lei, então recorre a bicos que exploram mão-de-obra barata, ele segue sempre de maneira aflita tentando vivenciar as experiências e as camadas de sentimentos se confundem e entram em choque, tudo acaba indo para situações de humilhação e se transformando em raiva, por exemplo, o relacionamento com Maicon, o reencontro com o pai e a busca das cinzas da mãe, os entraves dessas situações aglomeram-se numa mistura de raiva e angústia que não tem como não explodir de algum modo, a atuação de Christian Malheiros é intensa ao longo de todo o processo de embrutecimento. 

"Sócrates" possui uma história forte e real, transmite tensão e angústia sem dar qualquer respiro, não há brechas para lamentações e quando esses momentos acontecem são silenciosos e o choro é preso, retrata organicamente a trajetória de um garoto marginalizado sendo sufocado e apagado aos poucos pelo sistema que está inserido. Filmaço!

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

No Coração do Mundo

"No Coração do Mundo" (2019) dirigido por Gabriel Martins (O Nó do Diabo - 2017) e Maurilio Martins é um filme nacional maravilhoso e surpreendente, reflete a realidade brasileira com potência e exibe elementos totalmente únicos do nosso país, possui uma crescente instigante, tensa e ainda incute profundas reflexões acerca do cotidiano.
Contagem, Minas Gerais. Dentro da comunidade local, Marcos (Leo Pyrata) se vira diariamente com os pequenos crimes que comete. Quando reencontra Selma (Grace Passô), uma antiga amiga, ele se convence da possibilidade de executar um assalto bem-sucedido. Mas o plano só pode ser colocado em prática com a ajuda de uma terceira pessoa, e Ana (Kelly Crifer), namorada de Marcos, hesita em participar.
É uma pérola nacional que merece ser descoberta, não poderia ser mais a cara do Brasil, como a primeira cena em que mostra o famoso carro de telemensagem, além de sua bela e forte introdução que é capaz de nos fazer identificar e emocionar ao som de "BH é o Texas", de MC Papo. Somos introduzidos na favela de Contagem onde as pessoas fazem o que podem para garantir seu sustento, o dia a dia cansativo e permeado pela violência faz com que muitos tenham o sonho de mudar de vida, só que pelo caminho comum do trabalho é praticamente impossível, como observamos em Ana que é cobradora de ônibus e mantém uma rotina exaustiva e sem nenhuma perspectiva, todos os dias rodando os mesmos lugares e aguentando descaso e maus-tratos de passageiros. Seu namorado Marcos vive perambulando e se recusa a trabalhar formalmente, enquanto sua mãe sobe e desce as ruas vendendo seus produtos, ele ajuda Selma, uma antiga amiga que faz "bico" de fotógrafa nas escolas, e então entendemos que Selma desejar ir embora e demonstra isso na frase que diz: "O coração do mundo é onde a gente quer pisar, é onde vai o desejo da gente. É o próximo lugar". À frente de tantas dificuldades Selma começa a elaborar um plano, algo grande capaz de mudar sua vida, mas para isso precisa de ajuda e chama Marcos e lhe diz que também é preciso que Ana os ajude. Desiludida com o trabalho no ônibus e diante da possibilidade da enorme quantia de dinheiro e o sonho de ir para longe aceita a proposta.

É uma obra orgânica ao colocar os problemas sociais enfrentados pelas pessoas da comunidade, e sensível mesmo tendo enorme força, seu desenvolvimento não tem pressa e sabe agregar tensão e surpresa, possui sequências memoráveis e traz diálogos poeticamente naturais. 

"No Coração do Mundo" conversa com a realidade periférica perfeitamente, nos introduz à história com inteligência, vigor e a desenvolve de maneira crescente, as situações mesclam drama social e thriller com uma pitada de humor. As obras da produtora mineira Filmes de Plástico buscam retratar esse cotidiano de forma verdadeira e espontânea, vale muito a pena conhecer outros filmes, como "Ela Volta na Quinta" ou "Temporada".

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

20 Filmes Sobre Depressão (20 Movies About Depression)

Segue uma lista de filmes que retratam as diversas facetas e estágios da depressão, todos de maneira séria e importante refletem e produzem reflexões acerca dessa doença que cada vez mais assola a sociedade. Confira:

20- "Geração Prozac" (Prozac Nation - 2001) EUA
Elizabeth Wurtzel (Christina Ricci) é uma brilhante estudante, que tem planos de estudar jornalismo na conceituada universidade de Harvard. Entretanto problemas familiares fazem com que Elizabeth entre em profunda depressão, o que coloca seus planos em risco. Aos poucos suas noites de trabalho, sempre regadas a drogas, e sua instabilidade emocional a afastam de Ruby (Michelle Williams), sua melhor amiga, e também de seu namorado. Decidida a procurar ajuda profissional, Elizabeth marca uma consulta com a Dra. Diana Sterling (Anne Heche), que lhe receita o antidepressivo Prozac.

19- "Melancolia" (Melancholia - 2011) Dinamarca/Suécia/França/Alemanha
O tempo só serviu para afastar as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Nem o casamento entre Justine e Michael (Alexander Skarsgård) serve como desculpa para aproximá-las e, depois da cerimônia, Justine começa a ficar triste e melancólica. Quando o anúncio sobre a colisão da Terra com outro planeta chega ao conhecimento, as reações são bem diferentes. Justine está conformada, enquanto o desespero do iminente fim apavora Claire. 

18- "As Virgens Suicidas" (The Virgin Suicides - 1999) EUA
Durante a década de 70, o filme enfoca os Lisbon, uma família saudável e próspera que vive num bairro de classe média de Michigan. O sr. Lisbon (James Woods) um professor de matemática e sua esposa uma rigorosa religiosa, mãe de cinco atraentes adolescentes, que atraem a atenção dos rapazes da região. Porém, quando Cecília (Hanna R. Hall), de apenas 13 anos, comete suicídio, as relações familiares se decompõem rumo a um crescente isolamento e superproteção das demais filhas, que não podem mais ter qualquer tipo de interação social com rapazes. Mas a proibição apenas atiça ainda mais as garotas a arranjarem meios de burlar as rígidas regras de sua mãe.

17- "O Substituto" (Detachment - 2011) EUA
Henry Barthes (Adrien Brody) é um professor de ensino médio, que apesar de ter o dom nato para se comunicar com os jovens, só dá aulas como substituto, para não criar vínculos com ninguém. Mas quando ele é chamado para lecionar em uma escola pública, se encontra em meio à professores desmotivados e adolescentes violentos e desencantados com a vida, que só querem encontrar um apoio para substituir seus pais negligentes ou ausentes. Sofrendo uma crise familiar, Henry verá três mulheres entrando em sua vida e vai começar a perceber como ele pode fazer a diferença, mesmo que isso venha com um alto custo. Saiba+

16- "Cake - Uma Razão Para Viver" (Cake - 2015) EUA
Claire Simmons (Jennifer Aniston) é uma mulher traumatizada e depressiva, que busca ajuda em um grupo para pessoas com dores crônicas. Lá, ela descobre o suicídio de um dos membros do grupo, Nina (Anna Kendrick). Claire fica obcecada pela história desta mulher, e começa a investigar a sua vida. Aos poucos, começa a desenvolver uma relação inesperada com o ex-marido de Nina, Roy (Sam Worthington).

15 - "Um Novo Despertar" (The Beaver - 2011) EUA
Walter Black (Mel Gibson) é o presidente de uma indústria de brinquedos. Ele sofre de depressão, o que faz com que se torne cada vez mais distante da esposa Meredith (Jodie Foster) e dos filhos Porter (Anton Yelchin) e Henry (Riley Thomas Stewart). Um dia, ao jogar o lixo fora, ele encontra o castor, um bicho de pelúcia no qual é possível colocar o braço. Logo em seguida Walter tenta o suicídio, mas fracassa. A partir de então, já com o castor, ele assume uma nova identidade e passa a se comunicar através do boneco. O castor permite que Walter volte à vida, no trabalho e junto à família, mas aos poucos ele passa a sofrer um conflito de identidades. Saiba+

14- "O Babadook" (The Babadook - 2014) Austrália/Canadá
Seis anos já se passaram desde a morte de seu marido, mas Amelia (Essie Davis) ainda não superou a trágica perda. Ela tem um filho pequeno, o rebelde Samuel (Noah Wiseman), e tem dificuldades para amá-lo. O garoto sonha diariamente com um monstro terrível e ao encontrar um livro chamado "The Babadook" reconhece imediatamente seu pesadelo. Certo de que Babadook deseja matá-lo, o menino começa a agir irracionalmente, para desespero de Amélia.

13- "Manchester à Beira-Mar" (Manchester by the Sea - 2016) EUA
Lee Chandler (Casey Affleck) é uma espécie de faz-tudo do pequeno complexo de apartamento onde vive, no subúrbio de Boston. Ele passa seus dias tirando neve das portas, consertando vazamentos e fazendo o possível para ignorar a conversa de seus vizinhos. Em suas noites vazias, Lee bebe cerveja no bar local e arruma confusão com qualquer um que lhe lançar um olhar. Quando seu irmão mais velho morre, ele recebe a desagradável surpresa de sua nomeação como tutor de seu sobrinho. De volta à sua cidade natal, ele terá que lidar com memórias queridas e dolorosas. Saiba+

12- "Christine - Uma História Verdadeira" (Christine - 2016) EUA
No ano de 1974, Christine Chubbuck (Rebecca Hall), ambiciosa e talentosa repórter de uma emissora local de televisão, entra em crise por frustrações profissionais e amorosas e toma uma decisão que os telespectadores em Sarasota, Flórida, jamais esquecerão. Baseado numa história real. Saiba+

11- "Anomalisa" (2016) EUA
Michael Stone (voz de David Thewlis) é um palestrante motivacional que acaba de chegar à cidade de Cincinnati. Ele segue do aeroporto direto para o hotel, onde entra em contato com um antigo caso para que possam se reencontrar. A iniciativa não dá certo, mas Michael logo se insinua para duas jovens que foram ao local justamente para ver a palestra que ele dará no dia seguinte. É quando ele conhece Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona. Saiba+

10- "Meu Irmão Quer se Matar" (Wilbur Wants To Kill Himself - 2002) Dinamarca
Wilbur (Jamie Sivens) é um suicida crônico: ele sempre busca meios de se matar, mas nunca consegue ter sucesso. As várias tentativas frustradas fazem com que compareça regularmente a um grupo de debates composto por outros suicidas, onde conhece uma médica (Julia Davis) que se interessa por ele. Wilbur é também uma grande preocupação para Harbour (Adrian Rawlings), seu irmão, que tenta de todas as formas tirar de sua cabeça a idéia de suicídio. A vida dos irmãos muda quando conhecem Alice (Shirley Henderson), que entra na livraria deles para vender alguns livros que encontrou no hospital onde trabalha. Alice e sua filha Mary (Lisa McKinlay) enfrentam problemas financeiros, que são resolvidos quando ela se envolve com Harbour. Alice e Mary se mudam para casa que fica sobre a livraria, formando com Harbour e Wilbur uma família.

09- "Pessoas-Pássaro" (Bird People - 2014) França
Após chegar em Paris, um engenheiro de informática americano (Josh Charles), submetido a pressões familiares e profissionais, desliga seu celular e seus aparelhos eletrônicos e decide mudar radicalmente o curso de sua vida. Duas horas depois, Audrey (Anaïs Demoustier), uma jovem camareira do hotel, que vive entre o devaneio e a depressão, vê sua vida mudar após presenciar um evento sobrenatural. Saiba+

08- "Sala do Suicídio" (Sala Samobójców - 2011) Polônia
Dominik é um garoto comum. Ele tem um monte de amigos, pais ricos e dinheiro para gastar em roupas de marca. Mas um beijo inocente com um colega muda tudo. Ele sofre bullying e começa a isolar-se do mundo exterior, vivendo todo o seu tempo em seu computador. Ele conhece uma garota anônima que lhe apresenta a "sala suicida", um lugar do qual não há escapatória. Pego em uma armadilha tecida por suas próprias emoções, Dominik torna-se enredado numa teia de intrigas e gradualmente perde o que ele mais aprecia. Saiba+

07- "Gosto de Cereja" (Ta'm e Guilass - 1997) Irã
Badii é um senhor amargurado que quer cometer suicídio, mas para fazer isso quer que alguém o ajude - como enterrá-lo no local adequado, por exemplo. Todos se recusam por várias diferentes razões, até que encontra um turco que também tentou se suicidar no passado.

06- "Adeus" (Goodbye Solo - 2008) EUA
Solo (Souléymane Sy Savané) é um motorista de táxi senegalês em Winston-Salem, Carolina do Norte, trabalhando duro para sustentar sua família e sua criança. Quando um passageiro William (Red West), um velho com aparentemente nada para viver, Solo se vê em uma missão pessoal: convencer William de que a vida vale a pena viver, apesar da insistência de William de se suicidar. À medida em que eles revelam mais de suas vidas, os dois percebem que eles precisam um do outro. Saiba+

05- "Os Famosos e os Duendes da Morte" (2009) Brasil/França
Em uma cidade em que cada um de seus habitantes sonha em segredo, o menino sem nome conhece a garota sem pernas, que lhe mostra um mundo no qual ele embarca como alguém que nunca mais deseja voltar à realidade. Para o menino, a vida virtual é a única verdade. Mas a garota parte para outro mundo, deixando imortalizada sua história em vídeos e fotos na internet. A partida da única pessoa da cidade com quem ele se identifica deixa o menino ainda mais sozinho. Guiado pela música de Bob Dylan, ele mergulha em suas lembranças até o surgimento de Julian, uma figura misteriosa que desencadeia uma série de acontecimentos em sua vida até então previsível. Saiba+

04- "Náufrago da Lua" (Kimssi Pyoroogi - 2009) Coreia do Sul
Um homem tenta se suicidar jogando-se no rio Han, mas acaba acordando às margens de uma praia de uma ilhota. Após mais algumas tentativas patéticas de suicídio, ele encontra refúgio dos problemas da vida moderna no isolamento total. Uma mulher que mora em um condomínio com vista para o rio também vive uma vida isolada, trancada em seu quarto, usando a internet como único contato com o mundo exterior. Um dia, com uma luneta, ela avista um homem vivendo sozinho numa ilha, sua vida solitária porém extraordinária desperta sua curiosidade encorajando-a aos poucos a sair desta vida de isolamento.

03- "O Estranho em Mim" (Das Fremde in Mir - 2008) Alemanha
Um jovem casal apaixonado, Rebecca, 32 anos, e seu namorado Julian, 34, está ansiosamente esperando seu primeiro filho. O mundo deles parece perfeito quando Rebecca dá à luz a um menino saudável. Mas ao invés do amor incondicional que esperava sentir, ela se vê imersa num redemoinho de sensações de impotência e desespero. Seu próprio filho lhe parece um estranho. Com o passar dos dias, fica cada vez mais aparente sua inabilidade para cumprir com as obrigações maternas. Incapaz de admitir seus sentimentos para alguém, nem mesmo para Julian, ela desce ao fundo do poço, a ponto de perceber que está se tornando uma ameaça à criança. Depois de um ataque de nervos, Rebecca é mandada para uma clínica. Lentamente, ela começa a desejar o toque, o cheiro e a risada de seu filho. Talvez um despertar da mãe que há dentro dela... Saiba+

02- "Oslo, 31 de Agosto" (Oslo, 31. August - 2011) Noruega
Anders (Anders Danielsen Lie) está se recuperando do vício em drogas numa clínica de reabilitação em Oslo. No dia 30 de agosto ele ganha a permissão para sair da casa de tratamento, visitar seu amigo Thomas (Hans Olav Brenner) e ir em uma entrevista de emprego no centro da cidade. Durante seu dia e noite na cidade, Anders será confrontado com seus erros do passado e irá refletir sobre sua própria existência. Saiba+ 

01- "As Faces de Helen" (Helen - 2009) Alemanha/Canadá/EUA/UK
Helen Leonard (Ashley Judd) é uma mulher bem-sucedida que tem um casamento feliz e um relacionamento harmonioso com sua filha. Porém, existe algo que ela tenta esconder: sua bipolaridade, que surge em surtos devastadores, transformando sua maneira de enxergar a vida. Agora, sua família e seus amigos tem a missão de fazê-la perceber que a vida continua bela. Saiba+

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Bacurau

"Bacurau" (2019) dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho (Aquarius - 2016) é um filme instigante e essencial, sua mescla de gêneros aguça nossa curiosidade e imprime força a cada cena e diálogo, traz a representatividade nordestina, a cultura de um povo forte que jamais cede ou retrocede, a palavra que mais o resume é resistência. 
Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.
O filme aos poucos revela seus personagens, não há protagonismo, todos possuem seu espaço e importância, assim como o próprio lugar, Bacurau, cujo nome vem de um pássaro noturno, de repente, a cidade não se encontra mais no mapa e o único jeito de ensinar as crianças é utilizando um mapa confeccionado por eles próprios, algumas coisas estranhas vão acontecendo e a população já acostumada com a vida difícil como a questão da água acabam dando seu jeito, pois não há qualquer amparo do governo, unidas seguem suas vidas rejeitando o prefeito que quando aparece fazem questão de deixá-lo falando sozinho.
O clima do filme é de puro suspense e se desenvolve para um faroeste à la cangaço, além de flertar com a ficção científica, uma distopia nem tão distópica assim já que muito do que é mostrado revela não só da atualidade em que vivemos, mas sobre o como sempre foi com seu ciclo de injustiças, corrupção e violência, onde se aniquila o mais pobre e o considerado ignorante, as mazelas expostas são realistas e explícitas e, por isso, tão incômodas; o caos é familiar. Potente em sua mensagem e certeiro como entretenimento, um longa completo e brilhante em todos os sentidos, uma história que representa o país, há símbolos e metáforas pelo decorrer que vamos descobrindo juntamente com nuances de surrealismo, possui diálogos que enfrentam e marcam, certamente Bacurau veio na hora certa para nos fazer refletir o Brasil como um todo e tentar entendê-lo sem referências externas e preconceitos.

É um filme com um imenso poder de despertar pensamentos, mas isso não quer dizer que seja difícil de assistir, ao contrário, é um ótimo entretenimento, conversa e brinca conosco o tempo todo, os alívios cômicos são espontâneos e provocantes, inúmeras vezes se coloca em evidência clichês utilizados pelo brasileiro, por exemplo, que por morar em determinada parte do país se considere quase um europeu e despreza quem vive em regiões menos favorecidas, subestimam o diferente, uma clara falta de conhecimento em não saber da própria história, além de querer que o país copie o modelo estrangeiro enquanto eles riem, usufruem, apoderam-se e aniquilam.

O levante da população, a união em preservar a cultura e pelo embate começar de dentro da escola se faz intenso e impactante, quem não se arrepiar pela força e coragem dos habitantes de Bacurau está morto por dentro, é imensamente essencial para cada vez mais trabalharmos nossa lucidez nesses tempos tão obscuros e de estreitamento de ideias.
"Bacurau" pulsa resistência e representatividade, é força e emoção, uma obra bonita, provocante e alegórica. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Morto Não Fala

"Morto Não Fala" (2018) escrito e dirigido por Dennison Ramalho é um ótimo filme que vem nessa maravilhosa onda de produções brasileiras de horror sem pender para a comédia trash ou suas vertentes, exibido em diversos festivais mundo afora o longa é mais uma amostra do nosso criativo e potente cinema de gênero, a história conversa com variadas facetas do terror clássico e os une com um drama familiar desesperador e crescente, Daniel de Oliveira está impecável e, sem dúvidas, um dos atores mais versáteis do nosso cinema, ele imprime em seu semblante muitas dúvidas e angústias e pelos seus poros exala ansiedade e confusão.
Stênio (Daniel de Oliveira) é plantonista de um necrotério de uma grande e violenta cidade e possui um dom paranormal de se comunicar com os mortos. Trabalhando a noite, ele já está acostumado a ouvir relatos do além. Porém, quando essas conversas revelam segredos sobre sua própria vida, o homem ativa uma maldição perigosa para si e todos a sua volta.
Stênio mora com sua esposa Odete (Fabíula Nascimento) e seus dois filhos, ela odeia o cheiro que Stênio emana após chegar do trabalho e quanto mais longe dele melhor, ela mantém um caso com Jaime (Marco Ricca), dono de uma padaria e pai de Lara (Bianca Comparato). Stênio possui um dom, todas as madrugadas enquanto faz seu trabalho escuta os mortos e seus segredos, numa dessas enquanto prepara o corpo de um conhecido de sua região acaba sabendo da traição da sua esposa e então decide colocar em prática um violento plano envolvendo a gangue de traficantes, ele culpa Jaime pela morte do homem dedurado e a gangue executa Jaime e por consequência Odete. A partir daí a vida de Stênio é só ladeira abaixo, sua confusão mental é extrema e a cada madrugada em seu trabalho experimenta conversas tenebrosas já que ele usou uma informação vinda do outro lado para usar em benefício próprio e de maneira inescrupulosa, e claro, Stênio se arrepende e esse sentimento o atormentará por todo o desenrolar, e até seus filhos pagarão por isso. Ele tem a ajuda de Lara para cuidar deles, o que causa ainda mais a ira da fantasma de sua esposa que não permite a presença dela em sua casa e deseja que Stênio de um fim nela para que possa se sentir em paz e desaparecer de vez. 
A brutalidade permeia a história e não poupa em imagens sangrentas, o formato inicial agrada bastante, apesar de que a computação gráfica no rosto dos mortos seria completamente dispensável, mas não é nada que estrague a experiência, ele se faz interessante e envolve o sobrenatural e seus clichês de forma instigante, porém em determinada parte acaba descambando para alguns exageros típicos dessas produções e também vão contra a proposta pesada e melancólica inicial, a manifestação e a perseguição da fantasma realmente não é o melhor momento da história, o que salva nesta parte é a interpretação certeira de Daniel de Oliveira. São inúmeros os pontos positivos e ele se sai muito melhor que diversos filmes hollywoodianos que estão pipocando por aí, o dom de escutar os mortos e a teia de vingança que Stênio se enrosca juntamente com a maldição se amarram em um ótimo drama familiar e thriller psicológico com boas doses de brutalidade.

É um filme caprichado tanto na fotografia que não deixa o filme totalmente no escuro mesmo possuindo um tom fúnebre, como em seus efeitos especiais que são capazes de dar enjoos aos menos acostumados a ver sangue e vísceras, a ambientação na morgue ajuda a construir esse clima putrefato e somos absorvidos pela história que causa curiosidade, mas o que começa como um cinema diferente e que prima por elementos bem brasileiros, como o cenário violento da cidade grande termina por se render as convencionalidades do horror dos filmes americanos, porém não é demérito e é deveras animador ver o gênero avançar no Brasil, aos trancos e barrancos o horror está deixando de ser nicho e abrangendo um público cada vez maior que está deixando o preconceito de lado e abraçando o cinema nacional.

"Morto Não Fala" tem seus altos e baixos, mas é indiscutivelmente um ótimo filme, consegue instigar e gerar sensações diversas ao espectador, traz um visual perturbador e assombroso, uma beleza sem igual em cada quadro, seja nos momentos bizarros e nojentos ou nos que trazem uma certa sensibilidade, além da excelente interpretação de Daniel de Oliveira que sempre consegue inovar e trazer facetas diferentes aos seus personagens, vide seu trabalho anterior "Aos Teus Olhos" - 2018.