terça-feira, 24 de maio de 2016

Anomalisa

"Anomalisa" (2015) dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson é uma animação densa e realista sobre a existência humana, os conflitos internos, as dores e a desesperança. Michael Stone (David Thewis) é um palestrante motivacional que acaba de chegar à cidade de Cincinnati. Ele segue do aeroporto direto para o hotel, onde entra em contato com um antigo caso para que possam se reencontrar. A iniciativa não dá certo, mas Michael logo se insinua para duas jovens que foram ao local justamente para ver a palestra que ele dará no dia seguinte. É quando ele conhece Lisa (Jennifer Jason Leigh), por quem se apaixona.
Michael vive numa rotina social completamente claustrofóbica, ele não enxerga as pessoas, pois todas são idênticas, não possuem nada de especial, o mesmo acontece para as vozes, independente de ser mulher, criança, homem, é sempre a mesma voz que ele ouve. Bem-sucedido autor de livros motivacionais, ele ensina seu método infalível para oferecer um serviço de atendimento ao cliente perfeito, garantindo o aumento da produtividade de uma empresa em até 90%. Michael viaja ensinando suas técnicas, mas com isso veio a tristeza em ter que lidar com pessoas sem personalidade e atrativos, a convivência humana é insuportável para ele. Tudo é banal e nada o satisfaz porque não há espontaneidade e originalidade em absolutamente ninguém que encontra.
No início o achamos um sujeito arrogante, mas conforme o desenrolar nos conectamos com seu drama e percebemos muito de nós mesmos nele. Michael Stone em meio a monotonia ouve uma voz diferente que o alegra, algo que o desperta, é Lisa, uma atendente de telemarketing que mistura ingenuidade, baixa auto-estima e bom humor, ela não é bonita ou realmente interessante, mas é diferente e isso basta. Apaixonado até pelos detalhes, a cicatriz perto do olho, a forma que ela se move e, principalmente, por sua voz, ele quer ouvi-la, inclusive a cena em que ela canta "Girls Just Want To Have Fun", de Cyndi Lauper é de uma sensibilidade única, os momentos iniciais da paixão são encantadores e até a cena de sexo emociona. Porém, passado esse encantamento Michael começa a perceber coisas em Lisa que o incomoda, e aos poucos a voz dela vai se perdendo e ganhando o tom que ele criou para todas as outras pessoas. Michael é um ser cansado que não faz questão de convívio, coloca todos no mesmo grupo de imbecis e dane-se, vive solitário, é áspero e não se sensibiliza com a emoção alheia. Por ser um filme em Stop Motion merece ser ressaltado quão real e denso ele é, retrata duramente questões existenciais, é lindo e triste ao mesmo tempo.

As ideias expostas ficam martelando em nossa mente, a complexidade dos relacionamentos, a forma superficial com que nos conectamos, o egoísmo em lidar com o outro, por muitas vezes fazemos igual ao Michael e colocamos todos num mesmo saco, a solidão acaba nos acompanhando, e por conseguinte, a insatisfação. No filme há uma referência a Síndrome de Fregoli, um transtorno psicológico em que o indivíduo acredita que as pessoas a sua volta são capazes de se disfarçar para se fazerem passar por outras.
"Anomalisa" nos faz pensar no que de fato nos torna especiais e diferentes dos demais, será que a personalidade e afinidades são capazes de manter o interesse de alguém, ou temos a necessidade de sempre buscar algo que nos surpreenda?

Na cultura do imediatismo sofremos cada vez mais com ansiedade, impaciência, frustrações e solidão, a felicidade costuma durar alguns segundos e logo espera-se por algo que substitua o que julgamos não servir mais. Por conta disso deixamos de enxergar as pessoas e também a nós mesmos, perdemos a consciência do que realmente vale a pena, somos levados por sentimentos mesquinhos e decadentes, não compartilhamos vida, sentimentos, somos parte de uma rotina mecânica que nos adoece. Todos que assistirem "Anomalisa" se identificará em algum momento com Michael Stone, e daí vem a reflexão do nosso comportamento perante a vida e aos outros.
Melancólico, delicado e realista, essa obra de Charlie Kaufman e Duke Johnson é uma joia rara da animação e merece todos os elogios. Uma baita produção!

Um comentário:

  1. Não sou grande fã de animações, mas estou curioso quanto a este filme.

    Tudo que é escrito por Charlie Kaufman, é no mínimo interessante.

    Abraço

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