quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um Deslize Perigoso (Dope)

"Dope" (2015) dirigido por Rick Famuyiwa (Confirmation - 2016) trata com bom humor os esteriótipos vigentes, todos os clichês exibidos têm o propósito de reflexão mesmo com um tom de comédia, o filme exibe questões importantes sobre a sociedade atual.
Malcolm é um nerd que leva a vida em um bairro violento em Los Angeles enquanto se desdobra nas admissões das faculdades, entrevistas acadêmicas e provas de conhecimento. Malcom recebe um convite para ir em uma festa underground que o leva em uma aventura, permitindo que ele se transforme de nerd à narcótico, para, finalmente, ser ele mesmo.
Toda a aura do filme faz referência aos anos 90, o visual dos personagens, as músicas, especialmente o rap americano, a aventura faz parte da narrativa e o trio de amigos passam por inúmeras situações negativas, mas tiram proveito e ganham experiência. Eles vivem em um local permeado pela violência e que parece não haver outro caminho a não ser as drogas, Malcom (Shameik Moore), Jib (Tony Revolori) e Diggy (Kiersey Clemons) são geeks e querem um futuro diferente, eles também tocam em uma banda que esporadicamente aparece na trama. A inadequação deles no meio em que vivem é gritante e tudo contribui para que percam o rumo. Quando o traficante do bairro, Dom (A$AP Rocky) os convida para uma festa, Malcom decide ir por causa de Nakia (Zöe Kravitz), namorada de Dom. Nesta festa acontece um tiroteio e no dia seguinte a mochila de Malcom está lotada de drogas. Com Dom preso, eles são perseguidos por traficantes rivais, enquanto isso um amigo os ajuda a vender a droga, e por coincidência o avaliador de faculdade de Malcom está metido nesta história também, o que o faz querer desfazer da droga vendendo pela internet pelo sistema de Bitcoin.
Leve e divertido, "Dope" não se aprofunda politicamente na trama, mas reflete o racismo atualmente e ainda quebra esteriótipos, Malcom, por exemplo, apesar de viver em um ambiente pesado deseja ir para Harvard e fará com que isso se concretize.
O figurino é um charme e ajuda na descaracterização, a trilha sonora é outro ponto forte que traz ainda mais a sensação de nostalgia, conversa perfeitamente com as situações e confere originalidade, o filme tem tema atual mas tem espírito de anos 90, existem os clichês, mas são usados a favor e de forma inteligente, fazendo com que o espectador tenha a chance de refletir sobre os julgamentos que se faz somente pela aparência, local de origem, etc.

A linguagem moderna diz o essencial e desconstrói esteriótipos. Comédia e crítica social se mescla agradavelmente.
O discurso final de Malcom - que quebra a quarta parede - é excepcional e um belo tapa na cara, exprime com exatidão e bom humor todo o pré-julgamento que as pessoas fazem com as outras. 

"Na minha vida, sempre me achei entre quem realmente sou... e como sou percebido, entre categorias e definição. Eu não me encaixo. E eu achava que isso era uma maldição, mas... agora começo a ver... talvez seja uma benção. Quando você não se encaixa, é forçado a ver o mundo de vários ângulos e pontos de vista. Ganha conhecimento, lições de vida de muita gente e lugares. E essas lições, para o bem ou para o mal, me moldaram. Então, quem sou eu?"

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Moolaadé

"Nenhuma menina será mais cortada!"

"Moolaadé" (2004) último filme dirigido por Ousmane Sembene (Faat Kiné - 2001) é um grito de liberdade contra uma suposta cultura religiosa, uma realidade cruel e bruta da qual meninas passam em prol da "purificação", a mutilação genital não é uma prática exclusiva do Islamismo, que aliás não está no Alcorão, é uma prática sem fundamento e selvagem que inferioriza a mulher. Em alguns lugares se a mulher não for circuncidada são excluídas da sociedade, este filme levanta questões importantes e impacta pela violência que essas mulheres passam, e certamente um meio de promover a rejeição a este ato.
Numa aldeia africana, o costume da mutilação genital feminina, uma operação dolorosa, é temida por todas as garotas. Seis delas devem passar pelo ritual num determinado dia. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé (Fatoumata Coulibaly), uma mulher que não permitiu que a filha fosse mutilada, invocando o "moolaadé" (proteção sagrada). Mas vários homens pressionam o marido de Collé para que retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la.
Nesta aldeia a única que enfrenta fortemente as Salindana, as mulheres que cortam as meninas, é Collé, tanto que não permitiu que sua filha passasse por isso, com a ajuda das outras duas esposas de seu marido, principalmente a mais velha, acolhe quatro meninas em sua casa e invoca o moolaadé, onde uma fita colocada no portão impede a entrada. A cada dia a situação se complica, os homens do vilarejo não aceitam que desmereçam o poder deles e mandam que o marido de Collé a chicoteie a fim de proferir as palavras que quebrem o moolaadé, mas ela aguenta firme e permanece lutando. A união das mulheres se intensifica quando a morte de uma criança se dá durante essa prática, da qual a própria mãe a sequestrou durante o açoite e a levou. Usando qualquer tipo de faca e feito no meio do mato, sem nenhum tipo de assepsia muitas não suportam e morrem, as outras sobrevivem com traumas físicos e psicológicos horrorosos. São cortados os pequenos e grandes lábios, além do clitóris em alguns casos, por estética e também por acreditarem que assim a gravidez será mais fácil. A cena em que Collé morde o dedo de tanta dor durante a relação sexual com o marido, devido as consequências da violência sofrida quando pequena é uma das mais fortes, juntamente com a que é açoitada.

É o retrato de tradições misóginas que vão sendo perpetradas por ignorância, mas graças a mulheres como Collé estão aos poucos sendo extintas. Em vários países em que esta prática é comum está sendo ilegalizada. É complicado redefinir uma cultura, há o embate entre direitos humanos e o valor antropológico, quando mulheres se opõem a este ritual são excluídas pelos homens por não terem sido purificadas, são rejeitadas pelo fato de rejeitarem um costume ancestral. Sem informação dificilmente se toma consciência, como demonstrado no filme o rádio foi um grande aliado, os homens até tentaram impedi-las, mas com o companheirismo e a busca por maior expressividade acabou se formando uma aliança capaz de resultados significativos. A cena final exemplifica um começo da liberdade feminina com o canto e a coragem.

"Moolaadé" é um levante feminista, a personagem Collé tão resistente e consciente é uma figura para se inspirar.
Ousmane Sembene compôs uma narrativa bela, envolvente, direta, prioriza o discutir de ideias, um filme político rico, lúcido e necessário.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Michael Kohlhaas - Justiça e Honra (Michael Kohlhaas)

"Michael Kohlhaas" (2013) dirigido por Arnaud des Pallières (Parc - 2007) é uma adaptação da obra homônima, lançada em 1810, de Heinrich Von Kleist, onde aborda questões políticas da época, as injustiças cometidas pela nobreza e também pela igreja. O tema é a honra e retrata que a linha que separa a justiça da vingança é muito tênue, o bom cidadão na ânsia de reparar a sua dignidade não demora a ser corrompido pela maldade.
No século XVI, na região de Cévennes, no centro-sul da França, vive o vendedor de cavalos Michael Kohlhaas (Mads Mikkelsen). Ele tem uma vida tranquila e próspera, até sofrer uma grande injustiça de um nobre poderoso. Michael, homem religioso e íntegro, não vai medir esforços para conquistar novamente sua honra, mesmo que seja preciso iniciar uma guerra por todo o país.
O barão (Swann Arlaud) que diz ter permissão da rainha quer que Kohlhaas entregue a seus homens dois de seus melhores cavalos como garantia, já que ele não tem documentação para entrar nas terras, logo fica sabendo que foi enganado e que seu amigo Cesar (David Bennent) foi atacado pelos cães do barão, ao reaver seus animais os encontra em um estado deplorável, indignado recorre à justiça, mas o barão usa de sua influência e vence o caso, Kohlhaas sente a necessidade de ter sua honra restaurada e quando decide apelar para a rainha, sua esposa dá a ideia de que ela vá e peça, já que diante de uma outra mulher, talvez compreenderia a situação. Mas dá tudo errado e sua esposa é assassinada, aí Kohlhaas cego por todas as injustiças monta um exército e vai à guerra.
Por onde ele passa deixa rastros de morte, o que era para ser apenas a recuperação de seu sustento, desencadeia numa luta de classes. Em dado momento os homens de Kohlhaas não sabem mais porquê estão lutando, fica evidente que a exagerada vontade dele vencer é algo pessoal e não necessariamente tratar das representações de poder.
A violência chama a atenção da princesa que propõe anistia, mas com a condição de que cessem o caos. Desfaz o exército, porém o descontrole já havia sido instaurado e mais uma vez se vê envolto em intrigas e traições, quando menos espera é preso e o desfecho surge de maneira dúbia, conseguindo a tão almejada justiça para si e sua filha, a devolução de seus cavalos em estado impecável, mas ao mesmo tempo condenado à morte.

"Você vive tanto pelo amor como pelo medo que você inspira. Se inspirar apenas medo todo mundo despreza você. Só o amor, é sinal de fraqueza."

Mads Mikkelsen como Kohlhaas é magnífico, contido e ambíguo, uma figura imponente que desperta sentimentos variados. Friamente observamos as suas ações, honra e justiça acaba se tornando apenas vaidade.
A narrativa é lenta e tensa, as cenas enfatizam a beleza do local e mesmo sendo uma obra simples tem um quê de épico. Kohlhaas coloca tudo a perder em busca de vingança, um meio de acabar com as injustiças do império. O protagonista se vê em dúvida em muitos momentos sobre suas decisões e segue até o fim nessa dualidade.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Hora e a Vez de Augusto Matraga

"Sapo não pula por boniteza, 
Mas porém por precisão." (provérbio capiau)

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (2011) dirigido por Vinícius Coimbra (A Floresta Que se Move - 2015) é baseado no conto homônimo do livro "Sagarana", do escritor Guimarães Rosa, o filme narra a história de Augusto Matraga (João Miguel), fazendeiro mineiro valente e mulherengo, à beira da falência, que ao buscar vingança por sua mulher tê-lo trocado por Ovídio Moura (Werner Schunemann), quase morre após cair em uma emboscada armada pelos capangas do Major Consilva (Chico Anysio). "Renascido", depois de ter sido cuidado por um casal, Matraga dedica o resto da sua vida à sua fé e ao trabalho, esperando "sua hora e sua vez" chegar, até fazer amizade com o rei do sertão, Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), e seu bando de jagunços.
A história já foi adaptada em 1965, dirigida por Roberto Santos, tanto essa primeira versão como a segunda são obras maravilhosas que evidenciam o povo sertanejo, a vivência rural, as lutas entre fazendeiros, a violência e o misticismo. Conhecido como Nhô Augusto e também como Augusto Matraga, João Miguel encarna perfeitamente um sujeito rude que é capaz de qualquer coisa, executa maldades por pura crueldade e não se importa com a sua fazenda que está arruinada e tão pouco com a mulher e a filha, haja vista a decadência do marido, dona Dionóra (Vanessa Gerbelli) decide ir embora com Ovídio Moura levando a filha Mimita, enquanto isso seus capangas colocam-se a serviço de seu inimigo Major Consilva Quim Recadeiro (Chico Anysio), restando o frouxo, mas fiel Quim (Irandhir Santos). Nhô Augusto sabendo disso resolve se vingar matando todos, no caminho é pego em uma emboscada pelos capangas do Major que o esfolam, mas no momento em que iam matá-lo se joga de um penhasco. Dado por morto, Quim inconsolável vai até a fazenda do Major buscar vingança, mas o coitado termina sendo morto. Contudo, Nhô Augusto é encontrado por um casal de negros velhos, a mãe Quitéria e o pai Serapião, que cuidam com paciência deste homem que aos poucos se recupera, mas agora ele é outro homem, aparentemente. Religioso, se submete ao trabalho duro, a penitências e a rezas, espera ser perdoado pelas suas crueldades e deseja ir para o céu encontrar com Deus. Nhô Augusto tem notícias de sua família, mas prefere ficar aonde está. Um dia, Nhô Augusto oferece estadia a Joãozinho Bem-Bem, jagunço de larga fama, acompanhado de seus capangas, faz tudo o que pode para agradá-los e vendo a destreza de Matraga, Joãozinho o convida para acompanhá-lo, mas ele recusa e prefere continuar só.
Recuperado, Augusto põe-se a viajar sem destino num jumento, ele sente que chegou a sua vez quando reencontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando prestes a executar uma vingança contra um assassino que fugira. Neste momento ele opõe-se e começa a matar os capangas de Joãozinho, e no fim entra em um peculiar duelo.

"Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia…"

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é um filme feito com minuciosidade, apuro e vigor, a estética é linda e captura nosso olhar a cada frame, a trilha sonora remete ao faroeste e complementa perfeitamente o clima da história. As magníficas interpretações de João Miguel e Irandhir Santos, este que o pouco que aparece se sobressaí, especialmente é de reverenciar, João se entrega e suas expressões nos conduzem a dualidade de sua alma, a transformação da qual passa é brusca, de um homem mal para religioso e passivo, ele é ambíguo, complexo. Brilha também José Wilker e Chico Anysio, ambos falecidos, foi o último trabalho deles no cinema. O filme ganhou diversos prêmios, mas teve alguns problemas burocráticos na distribuição e com alguns anos de atraso a produção chegou ao circuito comercial, mas sem grande visibilidade, infelizmente.

Fiel à prosa de Guimarães Rosa, é um deleite a sonoridade dos jogos com as palavras, o lúdico e mítico, os maneirismos expostos encantam e reverenciam a obra. 
"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é irretocável, um belíssimo exemplar nacional que merecia ser exaltado pelo capricho que foi concebido.

"E tudo foi bem assim, porque tinha de ser, já que assim foi."

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Lamento - The Wailing - Goksung

"O Lamento" (2016) dirigido por Hong-jin Na (O Caçador - 2008) é mais um exemplar da exímia capacidade dos sul-coreanos em compor thrillers. É um filme que exige um pouco de atenção, tanto por ele aparentar ser confuso e por ser repleto de camadas, como também pela sua longa duração. Mas, inevitavelmente, ao fim o choque que ele causará irá compensar e muito a experiência. 
A chegada de um misterioso estranho (Chun Woo-hee) em uma aldeia tranquila coincide com uma onda de assassinatos cruéis, causando pânico e desconfiança entre os moradores. Quando a filha do oficial de investigação Jong-Goo (Kwak Do-won) cai sob a mesma magia selvagem, ele chama um xamã (Hwang Jung-min) para ajudar a encontrar o culpado.
Ambientado em Goksung, aldeia pacata aos arredores de Seul, um local que emana algo de misterioso e tenso, de repente se transforma num verdadeiro caos quando pessoas começam a ter acessos de fúria e loucura e matam seus próprios familiares. Para investigar os casos o atrapalhado e preguiçoso Jong-Goo entra em cena, ele nos conduz a esta intricada trama e de modo histriônico vai se aprofundando nas questões que podem estar envolvidas, Jong-Goo desconfia de um estranho japonês que mora só no meio da floresta. As coisas pioram quando a filha do policial parece estar possuída por algum espírito maligno, aí entra a figura do xamã para tentar a livrar disso e também para descobrir o que está acontecendo.
O filme retrata fortemente o mal, são variadas as suas facetas, ele pode surgir em qualquer ocasião e de incontáveis formas, se chegar muito perto dele, talvez seja contaminado, e se ainda tentar eliminá-lo, será consumido. O aspecto místico e religioso está inserido, um pedaço da cultura oriental com representações de guardiões e demônios e tantas outras superstições. 

"Mas atemorizados, pensavam que viam algum espírito. Ele, porém, lhes disse: Por que estais perturbados? Olhai as minhas mãos e os meus pés, apalpai-me e vede; porque um espírito não tem carne ou ossos, como vedes que tenho."

"O Lamento" tem uma narrativa complexa, porém vamos aos poucos descobrindo esses personagens com características ambíguas e decifrando os enigmas da trama, o diretor prima pelas reviravoltas e surpreende o espectador quando tudo parece se esclarecer, ele vai introduzindo cada vez mais perguntas sem respostas, no que desconcerta à medida que a história avança. É um filme imersivo que traz à tona uma incrível quantidade de simbolismos. 
Por ter uma cadência lenta e ser longo às vezes se torna enfadonho, mas nada que comprometa. Outro ponto é o humor que acaba dispersando a atenção, aliás são diversos os subgêneros na trama, mas no decorrer sempre há um lembrete de que é um terror/horror, os elementos utilizados instigam e não são poucas as cenas em que a brutalidade está presente.

A sensação que o filme causa é poderosa, o mistério, o horror atmosférico, as perguntas, o jogo que é feito conosco é sarcástico. 
Um dos maiores pontos a se destacar é a mudança do personagem principal, ele começa como um policial bonachão e vai se transformando, ganhando nuances, um ser humano dúbio que bambeia na linha tênue que separa a justiça da vingança.
"O Lamento" é permeado de cenas interessantes e que contêm pistas, é preciso estar imerso na trama para compreender, por exemplo, na cena de abertura, o japonês pescando com dois anzóis já é um aviso. Um grandioso filme feito para rever e cada vez mais formular interpretações. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Lei de Herodes (La Ley de Herodes)

"A Lei de Herodes" (1999) dirigido pelo mexicano Luis Estrada (A Ditadura Perfeita - 2014) é um filme de humor ácido que retrata todos os possíveis e impossíveis artifícios utilizados no meio da política para atingir o poder, expõe sarcasticamente a corrupção e o que o poderio faz com o ser humano. Carrega uma forte crítica social com personagens caricatos e inescrupulosos. Representa de forma mordaz o poder e a corrupção política no México durante o longo mandato do Partido Revolucionário Institucional (PRI). O longa foi produzido em 1999, portanto, o país ainda estava sob domínio do partido. Uma importante obra para evidenciar e denunciar essa ditadura. 
A história se passa durante o mandato de Miguel Alemán Valdés, em 1949, e conta a história dos habitantes da localidade mexicana de San Pedro de los Saguaros, um povoado rural habitado por nativos indígenas, que lincham e decapitam o prefeito local com um facão quando na tentativa deste fugir do povoado com o dinheiro público. O período eleitoral se aproxima e o governador Sánchez (Ernesto Gómez Cruz), não disposto a ver arruinada sua posição por um escândalo político, ordena que Fidel López (Pedro Armendáriz Jr.) o secretário de governo, nomeie um novo prefeito para San Pedro. López decide que o mais indicado até que se realizem as próximas eleições é Juan Vargas (Damián Alcázar), um inofensivo funcionário da limpeza e antigo militante do PRI, que seguramente não será tão corrupto como seu antecessor. Juan chega à aldeia sem lei, ou melhor, apenas com a lei da corrupção. Vários métodos são experimentados e o crime parece o único a resultar. O outrora simples e honesto Juan transforma-se no mais abominável político pronto para fazer de tudo e conseguir extorquir dinheiro do povo.
Juan tem ideias para fazer crescer o povoado, mas sem verbas fica difícil e vendo a situação piorar decide pedir dinheiro ao governador, que recusa as propostas, então Juan quer renunciar, mas é aconselhado e ainda ganha uma pistola e a Constituição, onde há tudo que precisa saber, nessa parte o diálogo é primoroso e reflete muito bem o momento em que Juan começa a ser corrompido. A lei de Herodes o toca, pois como se diz: "Ou te calas ou te prejudicas". Ao voltar Juan já não é mais o mesmo, a partir do momento que descobre os benefícios que tem ao cobrar impostos abusivos se transforma num tirano, a pistola serve para amedrontar a população e a Constituição permite que ele crie mais impostos e aplique multas. As situações que se desencadeiam são hilárias e cada vez mais Juan ultrapassa os limites da moral, a interpretação de Damían Alcázar é magistral, antes um homem de coração puro que segue a boa conduta, se envolve nas teias da corrupção e a ganância o torna violento, passando por cima de qualquer um. Os impostos do povoado aumentam e novos são criados, até o bordel é tomado para si, quando promete eletricidade no local, vemos que somente o poste é erguido, as farsas, as mentiras, todos os podres que permeiam o antro político são explicitados sem receio algum.

Satisfatório assistir um filme inteligente e com humor certeiro, parece ser atemporal também, já que passa-se os anos e o cenário continua praticamente igual. São filmes como esse que elucidam que quem tem o poder nas mãos nunca vai ser um alguém bom. O ser humano apodrece-se em vida pela ganância, atropela os demais para atingir seu objetivo, mesmo que para isso precise utilizar a violência. Juan percebeu que era fácil se dar bem ali no povoado, mas quando alguém tentava atrapalhar seus planos não pensava duas vezes, arquitetava um meio de colocar a culpa em outro e até matava se fosse preciso. 

"A Lei de Herodes" é um filme que demonstra as manobras da corrupção no México, mas que acaba se tornando universal. Com um humor cortante, personagens desprezíveis e um roteiro envolvente consegue retratar a realidade das falcatruas políticas. Luis Estrada se configura como um dos cineastas contemporâneos mais interessantes, ele é um exímio diretor, suas obras contêm uma enorme força e são essenciais, pois tratam de temas pertinentes, principalmente envolvendo política e sociedade com um tom satírico. Grande filme, grande diretor!

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nossa Irmã Mais Nova (Umimachi Diary)

"Nossa Irmã Mais Nova" (2015) dirigido por Hirokazu Koreeda (Boneca Inflável - 2009, Pais e Filhos - 2013) é um filme delicado que coloca em ênfase o cotidiano e a valorização da vida através de acontecimentos tristes. A família é tema recorrente na filmografia do diretor, inspirado em um mangá de Akimi Yoshida, conta sobre três irmãs - Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) - que vivem juntas em uma casa grande na cidade de Kamakura. Quando seu pai - ausente da casa da família nos últimos 15 anos - morre, elas viajam para o interior para seu funeral, e conhecem Suzu (Suzu Hirose), sua tímida meia-irmã adolescente. Após criar laços rapidamente com a órfã, elas convidam-na para viver em Kamakura. Suzu ansiosamente concorda e uma nova vida de alegres descobertas começa para as quatro irmãs.
É de um episódio melancólico que nasce uma bela amizade, Suzu é uma adolescente madura e que tem carinho pelo pai que acabara de falecer, já as outras o tem como uma figura distante, apenas a mais velha tem recordações do pai. A mãe das meninas há tempos foi embora e os dois lados guardam mágoas e também orgulho para se visitarem. Sachi, Yoshino e Chika são super diferentes entre si, mas se amam e se protegem, moram juntas e se viram como podem na grande velha casa que a família deixou. Com a morte do pai, surge uma aproximação significativa com Suzu, ao convidá-la para morar com elas em Kamakura, Suzu aceita. Daí pra frente os silêncios predominam grande parte da trama, principalmente a respeito dos sentimentos, os diálogos giram em torno do dia a dia, às vezes uma conversa sobre o passado vem à tona e observamos como cada uma lida com os acontecimentos.
Sachi é a mais velha e responsável, tem um comportamento sério, ela é enfermeira e mantém um caso com um médico casado, Yoshino é engraçada e despojada, mas a sua inconstância em empregos e com namorados revela uma faceta triste, ela está sempre tomando cerveja ou umeshu. Chika é excêntrica, risonha, mas silenciosa. A relação entre elas é agradável, apesar das brigas corriqueiras nunca deixam que nada as afete. Suzu chega na casa com curiosidade e esse ambiente novo lhe proporciona um outro olhar, já que suas irmãs têm uma visão diferente do pai. Ela vai à escola, participa dos treinos de futebol e experimenta novas sensações. As conversas são interessantes por mostrar vários ângulos da história, com Sachi é como se fosse uma mãe falando, com Yoshino são conselhos de amiga e com Chika é uma troca, Suzu conta as suas lembranças e a outra imagina que poderia ter sido com ela.

Um ponto da trama a se destacar é a visita da mãe, ela quer conhecer Suzu e ver como tudo está, dar seus palpites, entre tantas desavenças o que predomina no fim é a angústia da distância que há entre elas, Sachi tenta reverter um pouco, uma tentativa para que dali pra frente seja diferente. O diálogo que acontece no cemitério resume a relação entre elas, ao visitar o túmulo da avó de Sachi, a mãe diz: "Por todo esse tempo que não a visitei, minhas desculpas. E por não ser uma boa filha". Sachi a olha espantada, pois reflete perfeitamente na relação delas.
É com encanto que tudo se desenvolve e com espontaneidade e sinceridade que as coisas se transformam, não há grandes eventos ou reviravoltas, é o cotidiano simples que Hirokazu Koreeda tanto preza que se desnovela, é a delícia de viver os momentos mais comuns, e também passar pelas tristezas e sofrimentos com coragem e amabilidade.

"Nossa Irmã Mais Nova" mesmo tendo algo de melancólico, principalmente ao que concerne a dificuldade dos laços familiares, é quase sempre alegre. As emoções são muitas, são contidas, reprimidas, não existe muito contato físico e demonstrações de afeto, a cultura japonesa tem essa característica, mas os olhares e as palavras ditas são suficientes para entender. Para completar a trilha sonora composta por Yoko Kanno complementa com a aura serena e tocante. O longa é deveras uma poesia visual que inebria a cada cena.
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