quinta-feira, 21 de junho de 2018

Anistia (Amnistia)

"Anistia" (2011) dirigido por Bujar Alimani (Chromium - 2015) é um filme melancólico que retrata as deficiências que assolam a Albânia, o desemprego, o machismo, as burocracias, a violência, entre tantas outras coisas. A narrativa tem um ritmo lento e poucos são os diálogos, a protagonista exibe pelo olhar toda a sua tristeza, medo e desesperança. O tom escuro do longa amplia a sensação de desalento e questões existenciais são desencadeadas a partir dos dilemas vividos. 
A visita íntima é finalmente legalizada na capital da Albânia, Tirana, e uma vez por mês Elsa (Luli Bitri) desloca-se por vários quilômetros para passar alguns momentos com o marido encarcerado por conta de alugueis não pagos. Essa jornada permite que ela se aproxime de Shpetim (Karafil Shena), marido de uma detenta, presa por falsidade ideológica, mas uma anistia aos presidiários atrapalha o nascimento deste novo amor.
Visualizamos os trâmites e o modelo prisional no início e a visita íntima sendo legalizada no país, que acaba sendo uma obrigação, Elsa se desloca do interior para a capital afim de visitar seu marido e consumar o ato, que em nenhum momento é visto como algo bom, ao contrário, seus olhar sempre está vazio e seu corpo inerte, há inúmeras questões que permeiam o sofrimento de Elsa, nada é expressado e por isso exige sensibilidade do espectador para compreender a protagonista, a desestrutura familiar, a falta de dinheiro para criar os filhos, o sogro extremamente machista, a rotina obrigatória de se deslocar até Tirana, as mentiras que conta para ocultar a prisão do pai para os filhos, as consequências emocionais são fortes e não parece haver sentido em sua vida. As coisas tomam outro rumo quando ela conhece Shpetim, que também prova do sofrimento da perda de sentido, a mulher presa e as visitas íntimas preestabelecidas, as burocracias do sistema, quando eles se conhecem ao acaso a paixão timidamente se aproxima, as cenas de Elsa e Shpetim se amando nunca são mostradas e os rostos de seus respectivos cônjuges também não, pois a história quer nos mostrar que não importa o desejo pessoal, sem autonomia um recomeço com um novo marido é impossível e perigoso, como bem retratado pela figura do sogro. Com essa impossibilidade de prosseguir seus sentimentos tornam-se culpa e vergonha, uma nova carga de sofrimento pende sobre suas costas e a desesperança surge ainda mais forte quando o governo declara anistia e tanto o marido de Elsa como a esposa de Shpetim retornam ao lar.

"Anistia" é introspectivo e denso, causa aflição observar a vontade de Elsa em tentar ter sua liberdade e sempre encontrar alguma barreira social, quando ela resolve ir morar em Tirana na casa de uma colega e consegue um emprego há um lampejo de confiança, a parte que ela diz que precisa resolver algumas coisas para a colega demonstra o quanto está se sentindo segura, pois ela se mostra almejando o futuro, o que infelizmente logo se desfaz, seu sogro a obriga a voltar com os filhos para casa, seu marido retorna e desiste do amor. Apesar do filme ser cadenciado e não revelar quase nada com palavras, a angústia da personagem transpassa a tela e a compreendemos, seu final seco impacta e  permanece conosco por um bom tempo.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

As Boas Maneiras

"As Boas Maneiras" (2017) dirigido pela dupla Juliana Rojas e Marco Dutra (Trabalhar Cansa - 2011) é um filme de terror que mescla estilos de forma original, o bizarro está sempre às voltas e a tensão nunca sai de cena, mesmo que haja uma quebra na segunda parte aos poucos novamente se introduz sensações e aguça nosso interesse por todo o desenrolar. A experimentação dos elementos dentro da trama só fazem complementar uma narrativa fascinante e séria que disserta sobre temas sociais em tom de fábula. Juliana Rojas e Marco Dutra se destacam pela criatividade e inteligência, seus filmes, seja como dupla ou individual, sempre são sinônimos de satisfação.
Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara.
Ana vem de uma família rica do interior de Goiás, sozinha ela tenta se adaptar à cidade grande depois que seus pais preferiram não apoiá-la por conta de sua gravidez, fruto de uma transa casual. Ana está procurando alguém para ajudá-la a dar conta da casa e mais tarde cuidar de seu bebê, Clara vem da periferia de São Paulo, uma realidade totalmente diferente, aparece atrasada para a entrevista, mas Ana segue o protocolo e Clara parece fazer de tudo para conseguir o emprego contando que tem experiência nisso e naquilo, no fim ela acaba sendo contratada por ajudar Ana num momento de dor durante a entrevista, apesar de não ter terminado seu curso de enfermagem sua habilidade gerou uma certo sentido de proteção para Ana. Esses mundos tão opostos vão aos poucos se unindo e formando um elo forte de cumplicidade e amor. Clara é calada e observa Ana em todos seus movimentos, toda as regras sociais que as separam vão se dissipando à medida que uma encontra apoio na outra e a paixão nasce, elas quebram vários estereótipos e tabus, a relação se constrói a partir de suas solidões, ambas à sua maneira se sentem excluídas da sociedade, a atração vai numa crescente forte e culmina numa noite de lua cheia em que Ana procura comida na geladeira como um animal selvagem, Clara não entende muito bem, mas a aceita em seus braços e daí por diante começa a tentar compreender sua atitudes noturnas e o que estaria por vir. O olhar de Clara nos conduz pela narrativa com tensão e expectativa, uma bela interpretação de Isabél Zuaa, e claro, Marjorie Estiano que dá vida a uma personagem que exala abandono e receio por conta da sua gravidez.

A atmosfera criada prima pelo estranhamento e o desconforto vem em pequenas doses, o suspense se mescla perfeitamente ao drama e, principalmente, a fantasia que dá as caras mais explicitamente na segunda parte, quando Clara se desdobra para criar Joel (Miguel Lobo), que se transforma em lobisomem nas noites de lua cheia, a angústia por não participar das atividades com os amigos e ter que se privar de tantas outras coisas faz com que ele se revolte e crie situações preocupantes. A imersão no clima de fábula é intensa e o macabro é explorado com pitadas de ternura. As técnicas e os efeitos visuais são ótimos, o processo de transformação e a recriação mágica da cidade de São Paulo em CGI, além da cena do parto e o bebê lobisomem, são cenas marcantes que produzem sensações variadas, aliás o filme é uma mistura deliciosa de estilos e que trabalha com elementos fascinantes sem deixar de refletir com inteligência temas sociais.

"As Boas Maneiras" também conta com uma trilha sonora original surpreendente, as inserções de números musicais dentro da trama é mais uma marca dos diretores e que causa ainda mais estranheza, as letras complementam à narrativa e ajudam a criar as emoções, destaque para a cantiga de ninar "Fome", que é cantada por Ana e na grandiosa cena final por Clara: "Dorme no chão, dorme no feno, dorme cavalinho, aproveita que é pequeno". Por fim, o filme é uma bela e pertinente fábula de horror imensamente criativa e sensível. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (Professor Marston and the Wonder Women)

"Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas" (2017) escrito e dirigido por Angela Robinson conta a verdadeira história da criação da Mulher-Maravilha, embarcamos no romance entre Dr. William Moulton Marston, sua esposa Elizabeth e a estudante Olive, o relacionamento nada convencional possibilitou toda a composição da mais importante super-heroína feminina. É um filme interessante que nos presenteia com grandes curiosidades acerca do quadrinho e além disso reflete o amor "fora da caixinha", preconceitos e feminismo.
A incomum vida de Wiliam Marston (Luke Evans), psicólogo e inventor de Harvard que ajudou a tornar real o Detector de Mentiras e que também criou a Mulher-Maravilha, personagem dos quadrinhos, em 1941. Marston mantinha uma relação polígama envolvendo sua esposa Elizabeth Marston (Rebecca Hall), psicóloga e inventora, e Olive Byrne (Bella Heathcote), uma ex-aluna que virou acadêmica. Essa relação e os ideais feministas das duas mulheres foram essenciais para a criação da personagem.
O filme se inicia em 1928 mostrando Wiliam Marston lecionando sua mais nova teoria, D.I.S.C, uma combinação de quatro fatores: Dominância, Influência, Estabilidade e Conformidade junto de sua inteligente esposa, que tinha continuamente seu doutorado negado por simplesmente ser mulher, sua mente brilhante contribuiu para a invenção e o avanço do detector de mentiras, que é testado neles próprios desvendando seus sentimentos no decorrer. A personalidade de Elizabeth encantava Marston e por isso levavam uma vida de muito compartilhamento intelectual e amor, as coisas começaram a balançar quando Marston ao se atrair por uma aluna decide colocá-la como sua assistente. Olive mais que tudo admirava Elizabeth, e com o passar do tempo o relacionamento entre eles foi se estreitando, com receio da ousadia e dos demais descobrirem permaneceram apenas como amigos e testando experiências acadêmicas, porém a aura sexual era tão forte que ficou impossível não cederem, até que numa noite explodem em paixão e volúpia. Eles seguem assim por um tempo, mas o relacionamento é descoberto e acaba acarretando diversos prejuízos em suas carreiras, entre tristezas, confusões e alegrias o trio permanece junto e até formam uma família repleta de filhos, nesse meio tempo Marston começa a escrever sua HQ, visualizando suas mulheres, suas distintas personalidades e no como se completavam, a mistura delas e mais as fantasias que experimentavam geraram a heroína por volta dos anos 40. Através dela Marston difundiu pensamentos feministas, uma enorme inspiração para as mulheres sobre independência e a luta pelos seus direitos.

A liberdade de experimentar o novo e não reprimir os desejos nutria o trio, além das individualidades e conflitos, o enfrentamento com a sociedade que repudiava a relação foi a principal fonte de inspiração para Marston criar as histórias da Mulher-Maravilha. Mas a censura pegou pesado e os fiscais da moral cada vez mais apontavam coisas inapropriadas, como homossexualidade, bondage, violência, entre outras coisas. A força de Elizabeth, a doçura de Olive e a independência das duas, e tantos outros traços  misturados aos pensamentos e ideais de Marston deram vida para a heroína feminista mais popular e importante dos quadrinhos. 

 "Francamente, a Mulher-Maravilha é a propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que, eu acredito, deveria governar o mundo."

"Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas" é um excelente filme que nos revela com grande intensidade e beleza a criação da personagem, o contexto e os eventos da época, as complexidades, o conservadorismo, as hipocrisias da sociedade e o conceito de normalidade imposto. Nascida a partir do amor, da admiração, do desejo e de uma compilação dos traços de suas personalidades, entre outros vários fatores, nasceu a Mulher-Maravilha, um ícone do empoderamento feminino, uma inspiração para a busca da igualdade e justiça. Sem dúvidas, uma ótima oportunidade para conhecer lados não tão explorados ou até ocultados sobre o criador e a essência da HQ, que sofreu inúmeras transformações ao longo dos anos. É uma história curiosa, sexy e que merece atenção!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Closeness (Tesnota)

"Closeness" (2017) dirigido pelo estreante Kantemir Balagov é um filme russo que explora a tensa relação entre uma família que faz de tudo para ter o filho raptado de volta. Solidão, desafeto, machismo e religião são retratados de forma seca e direta e outras questões da cultura também são mostradas, como o preconceito entre etnias, no caso cabardinos e judeus.
1998, Nalchik, cidade no sul da Rússia. Uma família está prestes a experimentar os momentos de maior tensão em toda a sua vida: um dos filhos, o mais novo, não voltou para casa junto com a noiva e não deixou nenhuma explicação. No dia seguinte, o recebimento de uma carta pedindo um alto resgate confirma o sequestro, e fará com que a família desista de todos os bens materiais para tê-los de volta.
Ila (Darya Zhovnar) trabalha com o pai (Artem Cipin) como mecânica, é impetuosa e vai contra as normas da casa, a mãe (Olga Dragunova) não se conforma que ela não seja feminina e suje as mãos de graxa, ao contrário do pai que sempre está disposto a conversar e sorrindo para ela, o machismo é forte na mãe de Ila que a força vestir um vestido e mais tarde se casar com um membro rico da comunidade pra salvar o filho mais novo, essa mulher em nenhum momento demonstra afeto verdadeiro, não há qualquer elo e isso faz Ila se revoltar ainda mais ao perceber depois do sequestro do irmão que suas intenções são sempre estranhas. Eles vivem numa comunidade judaica em Nalchik, o que significa que decisões são tomadas em conjunto e que a vida de todos são pensadas em torno da religião, mas apesar de tudo isso Ila é rebelde e não dá a mínima, quebra as regras ao se relacionar com um cabardino e se portar de maneira não convencional. O rapto de seu irmão mais novo junto de sua noiva por russos causa comoção, desesperados tentam juntar dinheiro com a ajuda de alguns da comunidade, mas apenas o resgate da noiva de David é conseguido, a maioria se nega a ajudá-los e, por fim, vendem a oficina, o que é insuficiente para o resgate, daí é que a ilusão de que Ila vive como quer é quebrada, pois é prometida em casamento a um jovem de família abastada em troca de dinheiro, como um bem e sem poder de manifestação a garota se sente desalentada e desorientada.  

Darya Zhovnar é potente em cena, sua expressões nos conduzem a seus sentimentos que ora fervem, ora mortificam-se em torno desse ambiente opressor, a cada novo acontecimento ela vai se deparando com mais e mais dificuldades de se mexer, as interações são impossíveis, suas vontades nulas e todo o preconceito ao redor corrói, ela busca aconchego no namorado, mas acaba se drogando e se deparando com os amigos antissemitas dele, a guerra entre etnias é um outro ponto que o filme toca, mas não se aprofunda, na verdade, várias questões vão sendo salientadas conforme o desenrolar, as feridas passadas de disputas e guerras, o machismo entranhado, a conduta opressiva da religião e as relações familiares duras e deprimentes.

"Closeness" demonstra o como é complicado viver como se quer em lugares mais tradicionais, a independência de Ila é jogada de lado quando o problema surge, muitos acontecimentos são desencadeados e ela vai tentando se desvencilhar, ela começa a ver como tudo realmente funciona e que até seu pai não pode se abster dos fatos, mas tudo contribuiu de alguma maneira para o amadurecimento dos personagens, no final claramente a mãe de Ila sentiu algo diferente, talvez o desabrochamento do amor pela filha, um certo olhar de admiração, ou simplesmente por não saber mais quem amar. A dor da proximidade é retratada com crueza e melancolia.

terça-feira, 12 de junho de 2018

A Infância de Um Líder (The Childhood of a Leader)

"A Infância de Um Líder" (2015) dirigido pelo ator Brady Corbet (Mistérios da Carne - 2004) é um drama sombrio que como o próprio título revela retrata a infância de uma criança que se tornará um líder fascista, é uma história interessante e que traz o terror sob uma perspectiva realmente surpreendente, aparentemente não há nada que se encaixe no gênero, porém o horror é trabalhado em pequenas doses e com total originalidade, até porque acompanhar o pequeno protagonista e seu difícil desenvolvimento durante o período final da primeira guerra é perturbador, sua personalidade vai sendo moldada a partir de eventos complexos e uma estranha relação com os pais.
1918. Prescott (Tom Sweet), um garoto americano passa a morar na França, já que seu pai (Liam Cunningham) é convidado pelo governo americano para trabalhar na criação do Tratado de Versalhes. Juntamente com a mãe (Bérénice Bejo) se instalam num imenso casarão em um lugarejo onde o fanatismo religioso impera. A abertura estonteante e ao mesmo tempo aterradora faz questão de evidenciar e nos fazer imergir neste cenário. A imagem e o som se complementam de maneira assustadora durante toda a história chegando ao ápice de modo ameaçador e vertiginoso. Acompanhamos os personagens com ansiedade e observamos tudo pelo olhar da criança que se molda a partir do desafeto da mãe, da autoridade exacerbada do pai, do fanatismo religioso, da infelicidade, opressão e as incertezas que pairam no ar.
As sensações que a história provoca são incômodas e a cada cena nos deslumbramos com o requinte visual e narrativo, seu desenvolvimento faz questão de expor com cuidado cada detalhe, a movimentação de câmera suave e a lentidão inicial só faz ficar ainda mais interessante, pois a tensão vem de forma crescente a partir do momento em que a criança se torna incontrolável, a mãe coloca a educação nas mãos da jovem professora de francês e o pouco de singeleza advém da cozinheira, já o restante é pura opressão e desamor, o ambiente contribui para a melancolia e vazio, as obrigações religiosas e o pai que administra com mãos de ferro a família, assim como faz em seu trabalho complementa arruinando a personalidade de Prescott. Impressionante a composição de personagem de Tom Sweet, seus olhares e comportamentos vão nos levando ao que se tornaria no futuro, diante de tudo que estava vivendo e dentro do contexto histórico não poderia dar em outra coisa: a empatia com ideias fascistas.  

A atmosfera do filme atinge em cheio e exemplifica que o terror é um gênero que pode ser trabalhado sob variadas vertentes, os elementos transmitem uma espécie de mau agouro, tempos ruins que se aproximam, a sensação de sufoco vai ficando cada vez mais forte e o real terror acontece num final apoteótico. 
A narrativa é dividida em capítulos que demonstram Prescott cometendo travessuras e fazendo birras, no início ele joga pedras nos outros depois do ensaio de uma peça na igreja, a mãe o força a pedir desculpas para todos e isso o faz ficar mais revoltado, o menino tem personalidade forte e uma de suas características físicas, o cabelo comprido, é alvo de perguntas e chacotas e sempre é confundido por menina, o que o deixa realmente nervoso. O relacionamento com a mãe é difícil e distante, não há afeto e há algo não esclarecido ali no ambiente familiar, pois ela é uma mulher frustrada e fria, muito do menino é com certeza vindo dela e do tratamento que destina a ele, já o pai se torna violento por não saber mais lidar e tudo culmina num rompante de raiva num jantar na casa deles em que estão comemorando o encerramento da Primeira Guerra.

"A Infância de Um Líder" inspirado vagamente num conto homônimo de Sartre retrata com primor a ascensão de um líder fascista, mas contudo não explora as questões políticas, mas sim as psicológicas, do como os traços inatos da personalidade somado a acontecimentos conturbados são capazes de formarem monstros; o vazio e o mal se solidificando remete ao filme "A Fita de Branca" (2009) que também carrega um tom de pesadelo progressivo. É um filme sombrio, instigante e singular que tem na sua ambientação e na sua trilha sonora uma força descomunal. Poderoso!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Caminho a La Paz (Camino a La Paz)

"Caminho a La Paz" (2015) dirigido por Francisco Varone é um road movie simpático que retrata uma amizade inesperada, duas pessoas completamente diferentes, mas com o convívio do atordoante e longo trajeto até La Paz firmam um elo engrandecedor e belíssimo. 
Sebastián (Rodrigo De la Serna), 35 anos, é um homem que tem como grandes paixões a banda Vox Dei e seu antigo Peugeot 505. Recém-casado com Jazmín (Elisa Carricajo) e precisando de dinheiro, ele começa a trabalhar como motorista particular. Entre os passageiros está Jalil (Ernesto Suárez), um idoso muçulmano que o chama com frequência e que, certa manhã, lhe faz uma curiosa proposta: em troca de uma quantia muito alta de dinheiro, Sebastián precisa levar o passageiro de Buenos Aires, na Argentina, a La Paz, na Bolívia. Relutante e com dúvidas, ele aceita a viagem, que teve cada detalhe planejado pelo velho Jalil.
Sebas tenta ajeitar a vida com sua esposa, que com a crise também acaba sem emprego, por um acaso encontra a alternativa de trabalhar como motorista, ele é um homem um pouco acomodado e com uma visão de vida estreita, tem receio do futuro e é preso ao passado pela memória do pai, seu Peugeot 505 lhe conecta com a lembrança e o têm em grande estima, então dia após dia Sebas leva os passageiros ao destino ouvindo sua banda favorita, Vox Dei, até que Jalil, um senhor muito doente pede para que ele faça o favor de levá-lo até La Paz para que encontre seu irmão. Precisando de dinheiro aceita, mas jamais imaginaria que ele passaria por uma espécie de peregrinação e modificaria seu olhar para com a vida. Jalil articulou muito bem a viagem, todas as paradas e etc, sua intenção é encontrar seu irmão em La Paz e depois prosseguir em um navio até Mecca, um trajeto complicado e longo, mas visando o dinheiro Sebas aceita, ele sofrerá provações durante o caminho, no início soa até engraçado, mas a situação de Jalil é grave e requer cuidados, a todo momento precisa urinar e depende de uma máquina para fazer hemodiálise toda noite, vai surgindo em Sebas um sentimento de responsabilidade e de empatia, quanto mais o conhece e o percebe mais cresce a admiração e o desejo de chegar até o destino. 
Muitas coisas acontecem, como o atropelamento de um cachorro que Jalil obriga Sebas a levar em seu carro e que é o começo dessa sutil mudança do motorista, o seu semblante no decorrer vai se abrindo e seu desenvolvimento é brilhante. Uma atuação encantadora de Rodrigo De la Serna. 

Somos conquistados pela naturalidade, a simplicidade e o modo intimista com que tudo se desenrola, é abordado o fator do desemprego que assola não só a Argentina, mas os países vizinhos, além de retratar a paisagem sem qualquer artifício, todo o trajeto é penoso e contém perigos, a amizade vai sendo aos poucos firmada através de diálogos reflexivos e espontâneos, a questão da cultura e a religião também fazem parte da trama, Jalil é muçulmano e em um momento específico retrata um ritual auto-hipnótico que leva a Sebas admirar apesar de não ter conhecimento e intimidade com a religião, esse é um ponto importante da trama em que cresce ainda mais o respeito entre os personagens, e há também outra parte significativa em que Sebas renasce a partir de um acontecimento terrível que tem a ver com seu carro, é o ponto crucial de seu recomeço e de certa forma aliviante.  

"Caminho a La Paz" ainda conta com uma ótima trilha sonora que acompanha toda a peregrinação dos personagens, há momentos cômicos, mas sem deixar de ser terno, a transformação de Sebas atinge o espectador de forma gentil e espontânea. É um filme que provoca sentimentos agradáveis. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

A Rede/The Net (Geumul)

"A Rede" (2016) dirigido por Ki-duk Kim (Casa Vazia - 2004, Pietá - 2012) traz à tona uma história pertinente que nos permite analisar e discutir sobre as distinções entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul sem pesar para nenhum lado especificamente. Há um apelo humanista e um tom satírico em variadas partes, mas na essência é um drama político angustiante e potente.
Um pescador norte-coreano (Ryoo Seung-bum) tem um problema no barco e fica à deriva até entrar no território da Coreia do Sul. Pego por guardas da fronteira da Coreia do Sul como um espião, sofre terríveis questionamentos, mas é ajudado por Jin-Woo (Lee Won-geun), um agente secreto que ameniza as suas angústias. Toda essa experiência faz com que ele nunca mais volte a ser o mesmo.
Chul-woo é um simples pescador que tem como objetivo alimentar sua família, todos os dias sai para trabalhar com seu barco, seu único bem material, ao chegar escuta dos guardas o que faria se o barco quebrasse e parasse do outro lado, e é exatamente o que acontece, sua rede de pesca enrosca no motor e o queima, desse modo é levado pela correnteza à fronteira e em solo sul-coreano, logo é apanhado e levado para as autoridades e apesar do tratamento aparentemente amigável no início receberá uma enxurrada de perguntas para provar que não é espião, Chul-woo fica desesperado por perceber que dificilmente voltará para sua família, pois o comandante está afim de criar um espião para sanar dívidas passadas, nem todos ali concordam com o tratamento destinado ao pescador, mas não permitem a sua volta, querem que ele permaneça na Coreia do Sul, que deserte do Norte e construa a partir dali uma nova vida, só que Chul-woo tem outros valores e sua família é o que lhe basta, irredutível tentam soltá-lo no meio da cidade para que enxergue tudo que terá ao seu dispor, Jin-Woo o leva e o deixa sozinho, no começo não quer nem abrir os olhos, os agentes criam um plano e Chul-woo abre os olhos e encara todas as chamativas lojas e a multidão de pessoas. Chul-woo só quer voltar para seu país e sua família, mas a Coreia do Sul lhe oferece salário e moradia e um país "livre", porém observamos que toda essa liberdade também é um meio de prisão, o apelo do consumismo principalmente, a maneira boazinha com que a Coreia o trata serve como meio de atingir o inimigo, Chul-woo não quer desertar e tem medo tanto em ser considerado espião pelo Sul como traidor pelo Norte, ele está numa situação que aparenta não ter saída, enquanto todas as sessões de perguntas e torturas acontecem Jin-Woo, o agente secreto que representa ali o lado humanista da história demonstra sensibilidade ao desalentado Chul-woo, são momentos bastante singelos quando os dois estão lado a lado conversando esquecendo as brigas de ideologias. 

A história desarma o espectador e o coloca como observador, tanto um lado como o outro age com fanatismo pelo seus modos de vida, a Coreia do Sul praticamente o força a ficar lá atingindo-o com a suposta liberdade que possuem e ficam indignados por ele ter vivido tanto tempo em regime ditatorial, o interesse é que ele peça asilo para provarem estarem certos, mas Chul-woo não cede e durante esse processo vão acontecendo situações angustiantes, a visão do conflito por meio de um cidadão simples faz toda a diferença e retrata os absurdos dos dois lados e prova que interesses pessoais sempre estarão presentes, seja disfarçado em formas democráticas ou escancaradas como a ditadura, Chul-woo no final com o apoio da mídia volta a seu país, o recebem aparentemente bem, mas novamente vem a enxurrada de perguntas, seria ele agora espião da Coreia do Sul e estaria corrompido pela vida capitalista? 

"A Rede" retrata que conflitos entre países atingem sempre as pessoas mais pobres e simples independente do sistema, e isso o faz sem sutilezas e com doses de sarcasmo, os interesses pessoais na política sempre vão à frente e o cidadão que se vire para sobreviver, em uma parte Chul-woo vidrado com as luzes e lojas se depara com uma prostituta e não entende como em um país tão rico e livre uma moça tenha que se submeter a isso, são esses tipos de cenas que desconstroem a perfeição do capitalismo da Coreia do Sul e a imagem democrática que construíram para o país. Para Chul-woo existe outros valores, como a família, mas ele ao sair do casulo percebe seu país diferente e também com interesses próprios e não na população como o socialismo prega. O olhar de Chul-woo vai nos guiando pela história e descortinando os lados, uma sensação de desolação o atinge e consequentemente nos possibilita a pensar com mais clareza sobre o jogo de poder, as hipocrisias do sistema e o como tudo isso recai sobre o cidadão comum. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...