terça-feira, 15 de maio de 2018

Birdshot

"Birdshot" (2016) dirigido pelo filipino Mikhail Red é um drama/suspense que ao mesmo tempo que busca evidenciar a responsabilidade humana para com a natureza e a sua preservação também nos mostra uma faceta horrível da humanidade, onde existe ocultação de crimes, corrupção, abuso de poder, desmatamento, caça ilegal e tantas outras que o filme vai pontuando no decorrer. A história exibe uma tensão apavorante junto a um cenário belo e selvagem.
Uma jovem forasteira filipina atira e mata acidentalmente um pássaro cuja espécie está em extinção. Porém à medida que as autoridades adentram a mata para descobrir o paradeiro da ave desaparecida, um segredo ainda mais sombrio fica cada vez mais perto de ser descoberto. 
Em uma área remota no interior das Filipinas Maya (Mary Joy Apostol) mora com o pai, Diego (Ku Aquino), um agricultor que toma conta das terras ao redor, principalmente da reserva florestal, da qual preserva cerca de 40 águias filipinas, uma ave em extinção. Com o desmatamento, a caça ilegal e a poluição essa reserva é o único local capaz de protegê-las, para quem for pego caçando a multa é pesada, além de pena de prisão. É dentro desse contexto que o filme se desenrola, observamos no início o pai ensinando a filha atirar, pois tem medo que ela fique sozinha e despreparada para a vida, o meio de sustento deles é a natureza que supre, então é preciso aprender a caçar para se alimentar, Diego cuida da filha, mas não a introduz em outras questões, apenas a praticidade, o básico da subsistência, Maya conta também com o seu cão, Bala, seu leal companheiro. Em um dia passeando pela floresta Maya escuta um barulho e o segue, sem notar que entrara na reserva concentrada acaba por atirar em uma águia. O pai não a repreende, mas a instrui para não falar nada à polícia quando vierem fazer perguntas, eles seguem normalmente e Maya faz um colar com uma das garras da águia, sendo como um amuleto. À parte dessa história acompanhamos o trabalho de dois policiais na procura por informações sobre um ônibus de camponeses desaparecidos, esse caso cada vez mais se torna obscuro e é dado como encerrado, porém Domingo (Arnold Reyes), o policial mais novo fica obcecado e por conta própria investiga, a cada nova informação percebe que há algo muito errado no sumiço dessas pessoas que estavam lutando pelo direito de suas terras, as autoridades não se posicionam e ignoram, Domingo é sugado para o abismo quanto mais se envolve, de repente ele está coberto de raiva e prestes a se corromper como os demais e é aí que as histórias vão se cruzando e culminam num desfecho terrível, mas de certa forma esperançoso. 

Ao ser designado para investigar o caso da ave, Domingo vai perdendo sua noção de moral e de repente está no mesmo esquema dos outros, a questão não é que a morte do animal em extinção é mais importante do que o sumiço dos camponeses, o problema é o abuso de poder, enquanto os ricos e poderosos cometem atrocidades, os pobres são torturados e enfrentam a mão pesada da lei, e os policiais que são apenas marionetes nesse jogo se corrompem, em várias partes um deles diz que não são pagos para tal coisa e que é melhor esquecer, como seguir em um caso que insistem em fechar.
É um filme complexo que a todo momento coloca o dedo na ferida da moralidade, como manter o caráter intacto diante de tanta crueldade? Há uma parte em que Maya é dominada pelo espírito da vingança, porém com as consequências seguintes novamente parece haver uma trava nela, algo bom que permanece em si. Durante todo o filme reflete-se o comportamento humano.

"Birdshot" é surpreendente, mistura variados gêneros e a narrativa caminha por muitos assuntos, a contemplação da natureza, o amadurecimento, o sentido de humanidade, e principalmente, disserta sobre presa e predador, como aquele que possui riqueza e poder esmaga e corrompe os submissos e estes dominados pelo ódio aniquilam os mais frágeis da escala social. Maya é o único resquício de esperança nesse caótico cenário, sua atitude final compreende uma infinidade de questões e acaba por nos levar ao horror verdadeiro, a camada mais sombria da história. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

15 Filmes de Terror (15 Horror Movies)

Segue um apanhado de filmes de terror que seguem fórmulas diferentes e surpreendem em suas narrativas por explorar gêneros variados, como fantasia, suspense, thriller psicológico, drama e até comédia. O objetivo não é elencar os melhores e sim compartilhar para que mais pessoas descubram a beleza e as facetas variadas do terror. 

 "A Caverna" (La Cueva - 2014) Espanha
De férias no Mar Mediterrâneo, cinco amigos descobrem uma caverna escondida ao lado de um penhasco e decidem explorá-la. Eles começam a explorar as inúmeras passagens que formam a caverna. Não demora até descobrirem que estão perdidos. Dias se passam e eles não conseguem escapar, sem contato com o mundo externo, sem comida ou água. A falta de luz os atormenta à beira da insanidade. Com a esperança desaparecendo rapidamente, os amigos são forçados a tomarem decisões das quais nunca acharam que seriam capazes.

"Sob a Sombra" (Under the Shadow - 2016) Irã
Teerã, 1988. A guerra entre Irã e Iraque ressoa pelo seu oitavo ano. Uma mãe e sua filha ficam pouco a pouco dilaceradas com as campanhas de bombardeio sobre a cidade junto com a sangrenta revolução do país. Lutando diariamente para ficarem juntas em meios aos terrores, um misterioso mal ronda o apartamento onde elas moram.
Um filme de terror iraniano calcado no drama psicológico e em ricos simbolismos. A inovação está em colocar o contexto político dos anos 80, o conflito militar entre Irã/Iraque em evidência, o terror das explosões de bombas é misturado a uma abordagem sobrenatural da lenda Djinn, um espírito que exerce grande força decisiva sobre pessoas ou locais. Saiba+


"Baskin" (2015) Turquia
Um grupo de policiais é chamado para atender um pedido de reforço após um jantar, onde já havia acontecido alguns estranhos eventos. Ao chegar ao local, eles se veem em meio a um bizarro e sádico ritual, que se torna literalmente uma viagem ao inferno.
Um filme de horror turco baseado no seu curta homônimo produzido em 2013. O filme possui elementos perturbadores e cenas sangrentas em que o estilo gore predomina, a atmosfera é podre, hipnotizante e a câmera em nenhum momento vacila. É um pesadelo sádico, uma verdadeira descida ao inferno. Saiba+

"Demon" (2015) Polônia
Piotr veio da Inglaterra para se casar com a bela Zaneta (Agnieszka Zulewska) e morar na casa do avô da moça numa pequena cidade da Polônia. Os familiares não o conhecem direito, porém ele se mostra um cara sério. Mas ao escavar o quintal da casa, descobre sem querer, uma cova com um esqueleto, daí ele começa a sofrer algumas alucinações e seu comportamento vai se modificando, culminando em crises estranhíssimas em plena festa de casamento.
Um filme de terror psicológico que mescla comédia e crítica social, um exemplar rico em sua narrativa e que impressiona pela atuação do protagonista vivido por Itay Tiran. Saiba+

"Ao Cair da Noite" (It Comes At Night - 2017) EUA
Paul (Joel Edgerton) mora com sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kelvin Harrison Jr.) numa casa solitária e misteriosa, mas segura, até que chega uma família desesperada procurando refúgio. Aos poucos a paranoia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos. Um filme que explora de maneira eficaz a desconfiança, o medo, a paranoia; um exemplar que usa de poucos artifícios para gerar desconforto e muita tensão. Saiba+ 

"Angústia Alemã" (German Angst - 2015) Alemanha
Três contos repletos de amor, sexo e morte em Berlim, surgidos das mentes de três dos mais chocantes diretores alemães de todos os tempos: Andreas Marschall (Máscaras - 2011), Jörg Buttgereit (Schramm - 1994) e Michal Kosakowski (Zero Killed - 2012). "Angústia Alemã" é um filme diferenciado dentro do segmento terror/horror, ele carrega uma solidez impecável e desagradável conversando com a identidade do país, sobra desconforto ao visualizar cenas de violência. Saiba+ 

"Primavera" (Spring - 2014) EUA
Após a morte de sua mãe, o inconsolável Evan vai afogar as mágoas com seus amigos no bar onde trabalha. No entanto, ele se envolve numa briga que acaba fazendo com que seu chefe o demita. Sem rumo e com a possibilidade de ser perseguido por seu novo desafeto, Evan decide viajar para fugir de seus problemas. Numa pequena e turística cidade costeira na Itália, ele conhece e se interessa por uma linda e misteriosa mulher. Logo se torna claro que ela possui segredos obscuros que podem destruí-los.
Uma produção de baixo orçamento que passeia por alguns gêneros, como romance, horror e ficção científica, no próprio cartaz do filme está escrito: "Um híbrido entre Richard Linklater e H.P. Lovecraft". Saiba+

"Personal Shopper" (2016) França
Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como Personal Shopper para uma celebridade local. Ela também tem uma capacidade especial para se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos.
Um filme que passeia por vários gêneros, entre eles, drama, suspense e terror, a originalidade e a ousadia do roteiro pega de surpresa e nos deparamos com um filme único que retrata uma personagem imperfeita e repleta de dúvidas. O viés sobrenatural juntamente à atmosfera tensa do crescente suspense intriga e proporciona olhares diversos, uma história que mexe com incertezas, solidão, medo e o vazio. Saiba+

"As Boas Maneiras" (2017) Brasil
Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara.

"Calvaire" (2004) Bélgica
Marc é um cantor que procura ajuda numa pousada perdida no interior, quando o seu carro dá defeito. Ele acha que pode ir embora a qualquer momento, mas logo descobre que não pode sair, pois tornou-se objeto de desejo do estranho gerente, que pensa que ele é a reencarnação do seu antigo amor, Glória.

"Ninho de Musaranho" (Musarañas - 2014) Espanha
Em Madri, nos anos 1950 vive Montse (Macarena Gómez), uma mulher que sofre de Agorafobia, ela cuida da irmã mais nova (Nadia de Santiago), já que a mãe morreu durante o parto e o pai abandonou as filhas. A doença de Montse faz com que ela se prenda dentro do apartamento, piorando a situação. Um dia, a relação entre as irmãs começa a mudar com a chegada de um vizinho, Carlos (Hugo Silva).
É um drama que envolve traumas, transtornos psicóticos e fanatismo religioso. Saiba+

"Os Olhos de Minha Mãe" (The Eyes of My Mother - 2016) EUA
Francisca (Kika Magalhaes) filha de imigrantes portugueses vive isolada com a família em uma fazenda no interior dos EUA. Quando pequena sua mãe (Diana Agostini) a ensinou os segredos do seu antigo ofício, ela era cirurgiã oftalmologista em Portugal, a menina é curiosa e a vemos nessa aparente natural relação aprendendo, até que um dia um estranho (Will Brill) entra na casa e mata brutalmente sua mãe.
Um filme de horror que prima pelo visual, o preto e branco dá o diferencial e evidencia o peso que a trama carrega, o silêncio e a solidão ganham corpo e se tornam palpáveis. O clima melancólico é ao mesmo tempo incômodo e poético, o macabro é cru; a angústia, a maldade, a ausência vivida pela protagonista é tão pungente que causa repulsa e também fascínio. Saiba+

"A Transfiguração" (The Transfiguration - 2016) EUA
Quando o jovem problemático Milo (Eric Ruffin), fascinado por vampiros, conhece a igualmente alienada Sophie (Chloe Levine), os dois formam um laço que começa a enevoar a linha do garoto entre a realidade e a fantasia. Milo é um adolescente órfão de 14 anos que vive com seu irmão Lewis (Aaron Moten) no Queens, em Nova York. Ignorado por seus colegas de classe, ele sofre bullying nas mãos dos meninos mais velhos da escola. Ele encontra refúgio no pequeno apartamento onde mora, onde foge da solidão ao se debruçar sobre o fascinante mundo dos vampiros. Milo esconde um segredo sinistro, mas um encontro com Sophie, sua nova vizinha, irá despertá-lo para novos sentimentos. Retrata o vampirismo sob uma ótica completamente diferente, mas ainda assim conversa com a aura sombria e melancólica que permeia o tema. Reflexivo, pesado e perturbador, é a fantasia se tornando realidade. Saiba+ 

"Alleluia" (2014) França
Michel (Laurent Lucas) é um cara perdido, mas terrivelmente sedutor, que se apossa das economias das mulheres que sucumbem ao seu charme. É um predador. Na melhor das hipóteses, ele as trucida e vai embora com o dinheiro. Até que encontra Glória (Lola Dueñas), uma ibérica marcada por uma existência triste, que se apaixonará completamente pelo belo passante que ela não vai mais largar. Começa então uma odisseia sangrenta, na qual os dois amantes irão se afundar na loucura. Conta uma história macabra de forma fria do encontro de duas pessoas perturbadas que se gostam, se complementam e se alimentam da loucura. Saiba+ 

"I Am a Ghost" (2013) EUA
Emily (Anna Ishida), um espírito problemático, assombra sua própria casa todos os dias, perguntando-se porque não pode seguir em frente. Com a ajuda de Sylvia, uma vidente contratada para livrar casas de espíritos, Emily entra em um relacionamento de paciente e terapeuta, descobrindo mistérios perturbadores sobre seu passado que podem ajudá-la a seguir para "o próximo lugar".
Um filme independente dirigido pelo estreante H.P. Mendoza, ele explora uma perspectiva nova dentro do gênero terror, ao invés de mostrar a família sendo perturbada por um fantasma, retrata absolutamente tudo sob a ótica do fantasma, que preso a uma rotina repetitiva, não consegue encontrar o caminho que o levará para uma outra etapa. Original, instigante, tenso, inteligente, sem utilizar grandes artifícios ou elementos batidos consegue ser sinistro e ao mesmo tempo dramático. Saiba+

Menção Honrosa:
"Genesis" (1998) Espanha
"Genesis" é o terceiro curta de Nacho Cerdà é uma obra impecável, sublime em termos técnicos e o que ele nos propõe a pensar.
A história conta sobre um escultor que perde sua mulher de forma trágica, desde então não consegue suportar a solidão que o culmina. Assim decide esculpir sua mulher nos mínimos detalhes, em toda a sua perfeição. Ele trabalha de forma minuciosa, esculpindo milimetricamente, e isso de alguma forma o preenche, ele coloca todo o seu amor e toda a sua alma em sua arte. Tornando-se divino. Apenas restando os retoques, ele percebe algo estranho, chegando perto descobre fios de sangue a sair da estátua. E com o tempo essas fissuras aumentam, tornando-se quase viva. Em contrapartida, o escultor faz o processo inverso, ele vai se tornando rígido. Cada fissura que se abre, ele vai sendo tomado por um aspecto enrijecido o fazendo estátua. E sua mulher esculpida com a perfeição se faz humana, renascendo. Saiba+

terça-feira, 8 de maio de 2018

O Futuro Perfeito (El Futuro Perfecto)

"O Futuro Perfeito" (2016) dirigido pela alemã radicada na Argentina Nele Wohlatz é um filme rico em sua mensagem e sutil em sua abordagem, uma mistura de documentário e ficção onde retrata as dificuldades de se estabelecer em um país completamente diferente, os costumes, a identidade cultural e as barreiras da linguagem, o cotidiano da protagonista evidencia o como é complicado interagir ou mesmo demonstrar sentimentos e anseios quando não se tem domínio da língua, com naturalidade e momentos agridoces acompanhamos sua força de vontade em se estabelecer e seu desenvolvimento à medida que compreende melhor o idioma.
Xiaobin (Xiaobin Zhang), uma jovem imigrante chinesa em Buenos Aires, encontra uma maneira de atravessar as contradições que enfrenta em sua nova vida cotidiana. Seus pais querem que ela se case com uma situação econômica chinesa melhor e, como eles, vivem isolados a partir da nova sociedade. Quando Xiaobin veio a Argentina, ela não falava uma palavra de espanhol. No entanto, alguns dias mais tarde, ela tem um novo nome, Beatriz, e um primeiro emprego em um supermercado. Sem o conhecimento de seus pais, começa uma vida paralela que inclui uma escola de espanhol e um caso com Vijay (Saroj Kumar Malik), um engenheiro de computação da Índia. Com aulas de línguas, o filme exibe uma estrutura dramática e cômica. Acompanhamos o processo de adaptação de Xiaobin ao seu novo país.
Xiaobin é uma adolescente que chega em Buenos Aires para encontrar seus pais que estão juntando dinheiro para voltar ao seu país, a mãe trabalha pesado na lavanderia e ela acaba indo trabalhar com um tio no supermercado, suas primeiras palavras em espanhol são apresentadas neste ambiente, mas não são suficientes para a compreensão e se manter no trabalho, dessa maneira ela começa a frequentar aulas, que são compartilhadas conosco, todo o passo a passo didático utilizando de situações cotidianas e conversas casuais entre os estudantes, apesar do método extremamente limitado é o que dá impulso para Xiaobin, que primeiro adquire o nome Beatriz e em seguinte consegue um novo trabalho e por consequência conhece Vijay, um indiano que se encanta por ela, porém o relacionamento também é limitado por não compreenderem-se direito, Vijay parece querer uma esposa rapidamente por pressão familiar, já Beatriz é nova e ainda está desabrochando para a vida, em um dos encontros Vijay a pede em casamento e a única maneira que ela consegue se expressar é em sua língua natal.
A história vai nos envolvendo no processo de aprendizagem dela, com o passar dos dias vai adquirindo mais segurança e daí assume um outro nome, Sabrina, que é foneticamente próximo do seu. Desse ponto em diante seu semblante vai se abrindo e observamos que quanto mais adquire conhecimento da língua mais se sente no comando de sua vida.

A história é simples e encantadora, o realismo das cenas, as dificuldades em estar num país diferente e todo o processo de adaptação. A linguagem é lindamente trabalhada, à medida que consegue dialogar com os colegas e traduzir seus sentimentos para a nova língua, os tempos verbais vão expandido isso e lhe dando noção de futuro, como o próprio título sugere, assim ela vai abrindo possibilidades de compreender e pensar nas opções para sua vida, lá no final do filme ela pensa em tudo que poderia acontecer se caso escolhesse casar com Vijay, entre tantas outras alternativas.

"O Futuro Perfeito" é um filme curtinho, 65 minutos agradáveis que nos oferecem uma visão prática e direta das dificuldades e das inseguranças do imigrante em se estabelecer por conta dos obstáculos e das limitações da linguagem. Um exemplar despretensioso, inteligente e delicado.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Os Estranhos (The Strange Ones)

"Os Estranhos" (2017) dirigido por Christopher Radcliff e Lauren Wolkstein é um filme inspirado no curta homônimo deles de 2011, é um puro suspense de atmosfera sombria, a sua narrativa prende o espectador mesmo com um ritmo lento e arrastado e é necessário prestar atenção em cada diálogo e detalhes das cenas, pois tudo se mistura, passado, presente e imaginação. É bastante imersivo, sua aura enigmática é super bem trabalhada e as camadas de ideias surgem aos montes.
Eventos misteriosos rondam a viagem de dois irmãos enquanto eles seguem caminho em meio a uma paisagem remota dos Estados Unidos. A princípio, tudo parece normal, mas o que parecia ser uma simples viagem acaba se tornando uma complexa teia de acontecimentos sombrios.
Sam (James Freedson-Jackson) e Nick (Alex Pettyfer) saem fugidos depois de terem cometido um crime, o assassinato do pai de Sam, observamos apenas Sam e logo um incêndio, Nick o resgata e juntos pegam a estrada aparentemente sem rumo. Tudo parece comum nesse começo, mas é preciso captar que a narrativa joga o tempo todo, mistura-se o tempo muito sutilmente, assim como a potente imaginação do garoto. A história vai dando pistas, mas é como se entrássemos num buraco escuro, o personagem central, Sam, é um garoto misterioso, há algo de estranho nele, porém Nick, apresentado como o irmão no início ajuda a confundir, não demora e percebemos que a relação entre eles é outra, os olhares são carregados de libido e quando param num hotel vazio no meio do nada temos a certeza da paixão obsessiva de Sam para com Nick, este que em nenhum momento o toca. A conversa que Sam tem com a moça que os recepciona nesse hotel é bastante elucidativa e sua personalidade é exposta mesmo que sombreada pela presença de Nick, pois ele diz que ela deveria ter medo de estar com eles sozinha ali, os dois poderiam ser assaltantes, ele poderia estar sendo sequestrado, ou ainda poderiam ser dois psicopatas, Nick é calado, tudo é sugerido por olhares e sempre há uma forte tensão sexual pairando no ar. Depois dessa conversa os dois saem do hotel e vão para uma cabana no meio da floresta, um lugar secreto onde nada os atrapalharia. Mas quanto mais a trama se desenrola menos certeza temos do que está acontecendo, seria tudo produção da mente de Sam e nada disso realmente existiu?

"As coisas dentro de sua cabeça, elas são tão reais quanto quer que sejam. Então se você quiser, pode simplesmente decidir que não são reais."

As interpretações dão credibilidade à história, Sam exibe uma faceta de indiferença aos demais e tem algo de manipulador ao mesmo tempo em que é frágil, Nick possui uma carga sexual, é um personagem ambíguo e que está ali para realmente confundir nossa interpretação sobre o menino, quando o foco fica apenas em Sam numa determinada parte aí temos a chance de perceber sua obsessão e o como é problemático. A sua imaginação com certeza conduziu quase toda a trama e os flashes de realidade também se intercalam entre passado e presente nos dando a chance de variadas conclusões. 

"Os Estranhos" é um filme intrigante que se não visto com atenção parece que nada faz sentido e que nada se conclui, ou que apenas toca em temas perturbadores, como violência, pedofilia e psicopatia, mas é um jogo de quebra-cabeças entre imaginação e realidade, o que a mente é capaz de produzir para escapar de algo ruim e também quando se tem um intenso desejo reprimido.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Esplendor (Hikari)

"Esplendor" (2017) dirigido por Naomi Kawase (Sabor da Vida - 2015) é uma poesia sobre o sentir, reflete o como e o quanto as imagens modelam o indivíduo formando memórias e saudades e influindo na percepção das belezas e das tristezas que as pessoas e as coisas possuem. Somos inseridos de maneira gentil ao mundo da protagonista que se dedica a escrever e esmiuçar as imagens dos filmes para deficientes visuais, dando a eles a possibilidade não apenas de compreensão, mas o da subjetividade dessas imagens e de imergir dentro das histórias. A emoção, a contemplação, a empatia e a natureza, características tão pulsantes da diretora estão presentes e encantam a cada cena.
Misako (Misaki Ayame) escreve versões de filmes para deficientes visuais. Durante uma exibição, ela conhece Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo mais velho que, lentamente, está perdendo a visão. Quando Misako descobre as fotografias de Nakamori, essas imagens irão, estranhamente, levá-la de volta ao seu passado. Juntos, os dois vão aprender a enxergar o mundo radiante que, antes, estava invisível aos olhos dela.
A audiodescrição é o coração da trama, Misako vive para seu trabalho e nas horas que observamos ela caminhando ou se relacionando percebe-se que esse universo a dominou por completo, a cada sessão de teste com o grupo ela tenta se superar, ouve as críticas e está determinada a transformar imagens em palavras e passar os sentimentos para eles sem qualquer interferência pessoal. Cada um deve ativar sua imaginação e sentir de um modo próprio as imagens narradas. Misako é solitária e toda vez que visita a mãe sofre com as lembranças de seu pai, esse sentimento de perda também faz parte da vida de Nakamori, que precisa lidar com a drástica perda de visão e por conta disso abdicar de sua profissão, antes um renomado fotógrafo Nakamori agora necessita aceitar sua condição. Nas sessões Nakamori é um duro crítico do trabalho de Misako e isso a faz querer conhecê-lo melhor, aos poucos essa relação vai se formando e um vai aprendendo com o outro a perceber a vida de um jeito diferente.
Nakamori está endurecido com a vida, se ressente por cada vez menos enxergar, acompanhamos o processo, por muitas vezes as cenas embaçam retratando o como ele vê as coisas, em uma delas há apenas uma fresta de luz, ele está sentado no jardim e tenta captar as crianças que olham para a sua câmera fotográfica, a luz o ajuda a ter o mínimo de visão, porém a sua angústia só aumenta com o passar dos dias, desse embaçamento resta apenas um borrão para então se apagar de vez, Misako se aproxima dele também ao se encantar por uma fotografia em especial, uma paisagem ensolarada que a remete à infância com o pai. Com o desenrolar depois de muito entravamento os dois se conectam e se percebem e juntos descobrem outros caminhos, a delicadeza da relação é imensa, as sensações transbordam da tela. 

"O cinema 'vive' em um mundo vasto. E frente a essa vastidão nossas palavras são pequenas"

O cinema é muito mais que imagens, assim como a vida, e quando o grupo de deficientes visuais estão debatendo sobre a sessão podemos compreender a amplitude dessas sensações que para quem enxerga acabam se perdendo, em situações cotidianas, por exemplo, apenas enxergamos, mas não vemos de fato. 
Misako é uma escritora, desenvolve a partir das imagens narrações maravilhosas, ela possui gentileza e empatia, ouve de verdade e sente de verdade. O filme transcende a história, a subjetividade é trabalhada de forma única, tanto para os personagens como para o espectador, reflete-se o quanto estamos condicionados à imagem, nossas lembranças são exemplos disso, mas as melhores memórias nem sempre se compõem delas e sim de outros sentidos, dos quais palavras são incapazes de descrever.

A natureza é sempre algo muito marcante nos filmes de Kawase, somos parte dela e há um deslumbre no como a câmera a capta, neste a luz do sol é protagonista e se mescla com todo o contexto, além de nos presentear com momentos de puro esplendor. 
"Esplendor" conversa com todos os nossos sentidos, nos faz reavivá-los, sentimos a dor, a ausência daquilo que existiu, mas também o magnetismo e as novas percepções que a vida proporciona. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Os Garotos nas Árvores (Boys in the Trees)

"Os Garotos nas Árvores" (2016) dirigido por Nicholas Verso é um filme que utiliza elementos sombrios para metaforizar a difícil passagem para a fase adulta, apesar da fantasia que o envolve não há floreios ou qualquer mera justificativa para o tédio, o bullying, os traumas e o desejo de aceitação. É o universo adolescente que pulsa e que desperta como um animal selvagem.
É Halloween em 1997, e também a última noite na escola para dois adolescentes skatistas, que vão deixar para trás a fase escolar e adentrar na famosa fase adulta. Mas, para um deles, Corey (Toby Wallace), alguns assuntos do passado ainda precisam ser resolvidos envolvendo Jonah (Gulliver McGrath), um velho conhecido da infância. Para isso, os dois vão embarcar em uma viagem apavorante através de suas memórias, sonhos e medos.
Inicialmente a história causa estranhamento, oscila entre gêneros e confunde por não entregar o que está de fato acontecendo, vamos aos poucos criando empatia pelos personagens centrais e entrando nas camadas que sugere, o terror está presente o tempo todo, mas de formas diversas, não só com os elementos que fazem parte da festa de Halloween e seu clima soturno, mas também por conta das atitudes dos meninos e seus monstros interiores, o tédio é a explicação da violência cometida contra Jonah, o diferente, o garoto sensível, o bullying é severo e ele é completamente excluído da turma da escola. Sozinho ele caminha na noite, enquanto os demais pregam a foto do momento em que foi humilhado. Corey entra no jogo porque precisa, é a lei da selva, ou você faz parte da matilha ou corre para não ser pego, só que ele está amadurecendo e repensando suas atitudes, mas é pressionado constantemente por seu amigo Jango (Justin Holborow), o líder do bando. Corey está insatisfeito com as atitudes do amigo e prefere se distanciar na noite de Halloween, onde todos estão bebendo e zoando dentro do cemitério, ele se afasta e acaba encontrando Jonah na pista de skate, assustado o garoto cai e Corey vai socorrê-lo, daí em diante seguem juntos noite adentro, passam por lugares obscuros que trazem reminiscências, Jonah conta histórias, jogam um jogo chamado cócito e a realidade vai se confundindo liberando um amontoado de memórias traumáticas. A amizade de infância perdida entre os meninos, as suas causas e então as consequências.

O aspecto sinistro vai ficando cada vez mais forte à medida que os personagens revelam seus traumas e medos, é um conto triste de amadurecimento, um lembrete de que crescemos apenas quando lidamos com nossos erros e encaramos nossos monstros, no filme todos os adolescentes estão vagando, sem saber aonde pertencem, estão no meio termo, nem crianças e nem adultos, daí surge a necessidade de formar um grupo e se estabelecer como parte de algo, como a perseguição ao que supõem ser o mais fraco. Conforme vão despertando sentem necessidade de aceitação e para aquele que não deseja fazer parte do bando é extremamente doloroso, Jonah cita uma frase a Corey em determinada parte que exemplifica: "O homem é por natureza um animal social. Qualquer um que não faça parte da sociedade ou é uma fera selvagem ou um Deus."

"Os Garotos nas Árvores" capta o espírito juvenil com originalidade, os elementos sobrenaturais só intensificam os sentimentos e metaforizam as dificuldades das quais passam, além do visual que carrega nostalgia, os jovens perambulando pelas ruas sem muito o que fazer reflete bem à época que a história se passa, assim como a trilha sonora que contribui com todo o desenvolvimento, vai desde Marilyn Manson, Garbage, The Offspring, Metallica, Rammstein à belíssima "Hollow" composta e interpretada por Wendy Rule. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Monstro de Martfüi/Estrangulado (A Martfüi Rém)

"O Monstro de Martfüi" (2016) dirigido por Árpád Sopsits (Torzók - 2001) é um filme  inspirado em uma história real perturbadora e indigesta sobre um serial killer de uma pequena cidade da Hungria, no período socialista entre 1957 a 1964. A atmosfera sombria e a abordagem crua cria sensações angustiantes e o desenvolvimento por mais que não crie tensão causa mal-estar, pois não esconde a violência e a agonia vivenciada.
Hungria, 1960. A pequena cidade de Martfü está sofrendo com os horrores que tomaram conta da região: um assassino sanguinário está à solta tirando a vida de várias mulheres. Obcecado em encontrar o culpado, o detetive designado para o caso está sendo fortemente pressionado pelo promotor a condenar alguém e, isso fará com que um homem que nunca poderia ter cometido tais crimes seja acusado.
Logo de cara conhecemos o local onde tudo acontece, uma fábrica de sapatos da qual muitas mulheres trabalham, numa noite Réti (Gábor Jászberényi) vai lá encontrar a mulher que gosta e acompanhá-la até sua casa, porém durante este trajeto ela é atacada e assassinada e Réti termina sendo acusado e sentenciado à prisão perpétua. Passa-se sete anos e os crimes continuam acontecendo e a polícia abafando, mas quando um jovem policial Szirmai (Péter Bárnai) é designado para investigar ele liga os novos assassinatos com o caso Réti. A história segue três linhas narrativas: o inocente sofrendo na cadeia e suas apelações sendo negadas, o real assassino em ação e a investigação que se torna pontual quando Szirmai assume, como filme policial carece de suspense e tensão, as tramas não se conectam e quebram a apreensão, mas como filme de serial killer é impressionante por focar na frieza e crueldade de Bognár Pál (Károly Hajduk), que escolhe as mulheres aleatoriamente, as estrangula e depois as estupra largando-as nuas e machucadas no lago ou nos trilhos de trem, ele é doentio e realmente causa asco. 

A fotografia escura ajuda na inserção do thriller mesmo que o mistério seja pouco trabalhado, o estuprador assassino é revelado logo e acompanhamos uma série de mortes provocadas de forma brutal, enquanto isso a polícia se desdobra para esclarecer o caso e reverter a situação de Réti com alguma desculpa plausível. A correria da polícia contrasta com o ritmo vagaroso do maníaco e as partes na prisão retratando Réti na maioria das vezes é depressiva e inerte. Por mais que as partes não se conectem perfeitamente é um filme que não segue um caminho óbvio e comum do gênero policial, ele prefere ser fiel ao horror que foi o caso real e o quanto a polícia foi relapsa ao encontrar um culpado rapidamente para mostrar competência ao Estado. O principal era manter a segurança mesmo que fosse tudo uma mentira.

"O Monstro de Martfüi" é pesado e se mantém firme nas cenas em que retrata o assassino em ação, vemos seu semblante, o seu modo de agir, toda a sua obsessão depravada em possuir essas mulheres mortas, e no fim quando é pego e interrogado nos causa um gelo na espinha, é terrivelmente cruel e vazio. Apesar de arrastado e quebrar a tensão em muitos momentos é um noir elegante que choca e ainda critica com peso o quanto a incompetência da polícia juntamente com as burocracias do Estado podem acabar gerando histórias terríveis a fim de mascarar a realidade. 
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