quinta-feira, 19 de outubro de 2017

You Disappear (Du Forsvinder)

"You Disappear" dirigido por Peter Schønau Fog (A Arte das Lágrimas - 2006) flerta com a filosofia e a neurociência, é um drama familiar tenso que vai colocando em xeque questões morais. Somos conduzidos por uma trama fragmentada recheada de informações acerca da consciência, memória e livre-arbítrio. 
Professora, Mia (Trine Dyrholm) é casada com Frederik (Nikolaj Lie Kaas), um diretor bem-sucedido que é pego roubando da sua própria escola. Na dúvida se o marido fez isso por vontade própria ou devido ao tumor que cresce no cérebro dele, ela está desesperada para solucionar o caso e descobrir com que tipo de homem está casada. Enquanto pagava um advogado para defendê-lo, ela é forçada a se deparar com estudos de neurociência para repensar quem é Frederik.
Mia fica sem chão ao ser informada do tumor do marido e se desespera para que tudo se esclareça em relação ao crime, ela chama o advogado Bernard (Michael Nyqvist - uma de suas últimas aparições) para cuidar do caso e convencer o júri de que quando Frederik pegou o dinheiro da escola não estava consciente, houve uma série de sintomas para que ele agisse assim, as cenas no tribunal se mesclam com vários flashbacks mostrando o antes da cirurgia e voice-overs explicando estudos sobre a neurociência em relação à memória e o livre-arbítrio. Mia fica frágil psicologicamente com as mudanças drásticas de personalidade do marido, principalmente depois da operação e se apega ao advogado Bernard, um homem gentil que cuida de sua mulher que sofreu danos no cérebro devido um acidente, inclusive, eles fazem parte de um grupo que reflete e traz pesquisas sobre o assunto.
As discussões que surgem são intrigantes, mas são expostas de maneira muito didáticas, isso estraga um pouco, além de seu tom frio, mas graças as atuações de Trine Dyrholm, Michael Nyqvist e Nikolaj Lie Kaas a história se sustenta e não perde o fôlego, nossa curiosidade é aguçada, será que Frederik realmente teve todos os sintomas desencadeados pelo tumor em seu cérebro, ou cometeu o ato por puramente falha de caráter? É o que a esposa se pergunta o tempo todo. O quanto o conhece e o quanto ele mudou com o passar do tempo, e essas dúvidas a consomem e a deixam vulnerável. 
É preciso embarcar na proposta do longa, mesmo sendo um drama familiar intenso as emoções são distantes e o foco está mais no conteúdo filosófico acerca da mente e seus meandros. São inúmeras explanações sobre o mecanismo do cérebro e o comportamento humano, nossa fragilidade se algo acometê-lo, as mudanças que ocorrem com o tempo, o quanto as memórias são verdadeiras ou apenas criações de nossa imaginação, somos responsáveis pelo que nos tornamos ou o juízo dos outros nos molda? Somos puramente química, mas é a química ou o livre-arbítrio que nos governa?

Mia se perde nesse turbilhão e vivencia todas as modificações do marido e de sua vida com pesar, a fragilidade e carência a domina por completo, interessante observar o quanto o filho adolescente Niklas (Sofus Rønnov) fica à deriva nesta história, tem uma ou duas cenas emocionais em que ele reclama e diz o quanto sofre e desejaria que ela fosse mãe de verdade, e a declaração dele no tribunal sobre o pai e sua personalidade antes e depois do tumor. A complexidade das situações vão moldando os personagens e acompanhamos o ruir psicológico, principalmente de Mia, como vemos numa pequena reviravolta ao final retratando a vulnerabilidade de sua mente.

"You Disappear" pode soar redundante e frio, mas promove intrigantes debates acerca da consciência, memória, moralidade, livre-arbítrio, leis da natureza, a fragilidade humana e por aí vai... Para quem é curioso e tem sede de conhecimento é um prato cheio. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A Transfiguração (The Transfiguration)

"A Transfiguração" (2016) dirigido pelo estreante Michael O'Shea retrata o vampirismo sob uma ótica completamente diferente, mas ainda assim conversa com a aura sombria e melancólica que permeia o tema. Reflexivo, pesado e perturbador, é a fantasia se tornando realidade.
Quando o jovem problemático Milo (Eric Ruffin), fascinado por vampiros, conhece a igualmente alienada Sophie (Chloe Levine), os dois formam um laço que começa a enevoar a linha do garoto entre a realidade e a fantasia. Milo é um adolescente órfão de 14 anos que vive com seu irmão Lewis (Aaron Moten) no Queens, em Nova York. Ignorado por seus colegas de classe, ele sofre bullying nas mãos dos meninos mais velhos da escola. Ele encontra refúgio no pequeno apartamento onde mora, onde foge da solidão ao se debruçar sobre o fascinante mundo dos vampiros. Milo esconde um segredo sinistro, mas um encontro com Sophie, sua nova vizinha, irá despertá-lo para novos sentimentos.
O longa diz sobre psicopatia, sobre o desejo por sangue, o garoto cheio de traumas e rodeado por violência mascara sua solidão e sua personalidade doentia ao mito do vampiro, ele acredita piamente nisso e dá seguimento a seu plano para que essa sua transfiguração aconteça de fato, anota tudo em seus cadernos, devora livros e filmes sobre vampiros e em toda lua cheia sai para caçar. As coisas mudam quando Sophie aparece e se interessa por ele, passam a conversar e Milo percebe a difícil vida da garota que é abusada pelo avô, por causa dela Milo controla-se mais, apesar de que mais pra frente sente que essa sua compulsão por sangue não sumirá. 
O filme é um terror dramático sombrio, Milo é um personagem calado marcado pela violência, o local onde mora é liderado por gangues, sofre bullying e ainda está em luto, sua mãe se suicidou e todo esse ambiente e sensações contribuem para aflorar sua psicopatia, ele é frio e metódico, as cenas em que ele sai para beber sangue são perturbadoras e brutais, muitas delas confundem o espectador, pois a linha entre a imaginação e a realidade é tênue. Lewis, o irmão, também é um personagem curioso e que vale a pena ser estudado, completamente inerte vive sentado no sofá, ao longo descobrimos que sofre de trauma pós-guerra, há picos em que se preocupa com Milo, mas sempre está envolto pela dor e com olhos estagnados, Aaron Moten se sobressai toda vez que aparece em cena, aliás, todos os atores estão impecáveis, Chloe Levine como Sophie desperta empatia com sua forte e doce personagem. Eric Ruffin como o macabro Milo nos confunde, há um misto de compreensão e medo, mas a dúvida prevalece, será que ele é mesmo maluco ou simplesmente cruel?

O longa exibe diversas referências, como aos clássicos "Nosferatu" e "Martin", outros como "Near Dark", "True Blood", "The Lost Boys", "Deixe Ela Entrar" e até "Crepúsculo", que Sophie insiste para Milo ler, mas o garoto diz não gostar por não ser realista. Os diálogos entre eles são ótimos e conferem naturalidade, os únicos instantes em que Milo demonstra um pouco de humanidade. 
O diretor junta a realidade e a fantasia, a tensão dos elementos sociais com a obsessão pelo vampirismo, a fascinação de Milo é extrema e procura o máximo de realismo nas obras que assiste e lê, ele é um pesquisador profundo do tema e busca o real no imaginário.

"E você muda muito após matar a primeira pessoa, e muda muito mais depois, e depois de um após outro [...] é como uma doença que você pega."

"A Transfiguração" é um terror atmosférico aflitivo e também delicado, a melancolia ataca agudamente o espectador, todo o deslocamento social, a violência, a fuga da realidade impressiona. É um filme pesado e doce ao mesmo tempo, tem um lado crítico e une-se à fantasia com primor.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Ghost Story

"A Ghost Story" (2017) dirigido por David Lowery (Amor Fora da Lei - 2013) é uma obra indie de baixo orçamento (cerca de 100 mil dólares) melancólica, intimista, complexa e extremamente bela. Seu formato com enquadramento 4:3 e bordas arredondadas compõe as sutilezas desta história que disserta sobre o tempo. O ritmo pausado com planos fixos e longos, os movimentos delicados da câmera, o clima imersivo, tudo soa profundo e reflexivo. 
Um rapaz C (Casey Affleck) recentemente morto retorna para o seu lar em forma de um fantasma de pano branco para tentar se reconectar com sua esposa M (Rooney Mara) ainda viva. Somos introduzidos à vida do casal, são retratados momentos de ternura e aparentemente a casa parece estar mal-assombrada, há ruídos estranhos e a esposa deseja se mudar, pois é sua personalidade, ela até conta uma história no início sobre isso, mas C tem um apego por toda a história da casa. Apesar das diferenças entre eles os instantes afetuosos são revelados com total delicadeza. Logo há a quebra e C morre, observamos com muito pesar o luto de M, todas as fases, desde o choque e a depressão para enfim seguir em frente, a cena da torta simboliza muito bem toda essa questão. C levanta-se  da cama do hospital coberto por um lençol branco, caminha pelos corredores, visualiza uma luz na parede, mas termina voltando para casa, onde assiste tudo passivamente. O filme nos faz sentir o seu lamento e toda a tristeza e melancolia ultrapassa a tela. Ele que já não faz mais parte deste plano nada pode fazer a não ser esperar, a ausência, a solidão, a angústia do fantasma nos faz refletir na mortalidade e no sentido da existência. Uma experiência cinematográfica muito intrigante que gera sensações incômodas, nos tira da superficialidade e nos joga para o mais profundo do nosso ser, analisar o mundo sob essa ótica não é muito agradável, mas é deveras engrandecedora. O que assusta nesta obra é a forma como a câmera capta os momentos, com total sutileza a percepção do tempo, sempre observando. A jornada do fantasma é solitária, poética e transpassa a linha do tempo, cria-se um mosaico interessante e perturbador. E assim como ele nós estamos apenas observando e sentindo as mesmas dores, a razão de aspecto do filme é a responsável por isso, parece que estamos contemplando uma série de fotografias por monóculos.
A caracterização clássica do fantasma é outro grande ponto, evoca uma pureza, aliás, o diretor se inspirou em "A Viagem de Chihiro" (2001) para compô-lo. A trilha sonora transbordante de Daniel Hart também ajuda na imersão, assim como a estonteante fotografia de Andrew Palermo que nos presenteia com lindos planos intimistas, verdadeiras fotografias, causando sensação de nostalgia e solidão. O emaranhado de emoções e significados chegam de forma única a cada um de nós, cada um lida de um jeito com o tema, a morte é algo inexorável e atinge a nós de diversas formas, refletir sobre ela é doloroso, as dúvidas angustiam e questionamos o valor de tudo que fazemos em vida, do que importa o agora se no fim nada sobrará? Imaginar que talvez retornaremos nesta condição de apenas observadores entre os vivos gera um desconforto enorme, sufoca. Não há terror maior que estar preso num loop temporal.

Sobre toda essa miríade de pensamentos há um discurso niilista poderoso sobre a efemeridade da vida e a preocupação com o legado, a memória que queremos deixar, mas se o nosso destino é o pó por mais grandiosos que sejam os feitos em um momento ou outro no tempo seremos esquecidos e, outro ciclo irá se iniciar. Queremos ter o poder da vida nas mãos e na ânsia por respostas acabamos nos perdendo, o fantasma também busca sentido nessa sua observação, mas em sua trajetória não encontra nada, ele passeia pelo tempo e não encontra sentido em sua condição, portanto, o que resta é a libertação dessa angústia, deixar-se ir, assim como o tormento que a finitude nos causa.

"Tudo o que te fez sentir grande e poderoso, tudo acabará. Todo átomo nesta dimensão...será destruído por uma força simples..."

"A Ghost Story" é um filme contemplativo, sensorial e hipnotizante, disserta sobre nossa permanência no tempo com muita melancolia, a reflexão existencial é aguda e causa grande incômodo.

Sobre este tema existem alguns filmes instigantes e também muito aterrorizantes, nessa aura triste e de dissertar sobre o loop temporal, de não conseguir se desprender e continuar vivenciando o mesmo de sempre me veio à mente o filme "I Am a Ghost" (2012), este tem um pé a mais no terror, mas garante o mesmo tipo de reflexão. Um outro desconhecido é "Finisterrae" (2010) que passeia mais pelo humor negro e a surrealidade, no entanto, recheado de metáforas e significados sobre a existência. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O Bar (El Bar)

"O Bar" (2017) dirigido por Álex de la Iglesia (Balada do Amor e do Ódio - 2010) segue nos estranhos moldes do diretor com muito humor negro e situações bizarras passando por vários gêneros. Em um café no centro de Madrid, pessoas tomam o seu café da manhã tranquilamente, como de costume. Mas, quando um dos clientes leva um tiro na cabeça ao colocar os pés fora da loja, o clima de tensão invade o local. Agora, eles estão presos, e temem sair do local e acabar terminando com o mesmo destino do homem. O problema é que a convivência com estranhos pode ser tão perigosa quanto sair dali.
O filme foca em alguns personagens que estão dentro do bar e que são obrigados a conviver depois que um homem é morto ao sair dali, é criado um microcosmo social, onde o medo do desconhecido vai ditando as regras, estereótipos, conflitos e suposições dominam o cenário. Não se sabe o que está acontecendo, são deduções e a cada nova informação cresce o clima de tensão e dúvidas. São personagens comuns e que são obrigados a estabelecer convivência, cada um exibe personalidades diferentes e que vão se transformando diante o medo e a sede pela sobrevivência. Dentre os personagens estão uma bela mulher, Elena (Blanca Suárez), que entrou por puro acaso no bar quando ia a um  encontro, um ex-policial (Joaquín Climent), a dona do bar Amparo (Teréle Pávez) e o atendente Sátur (Secun de la Rosa), o nerd Nacho (Mario Casas), a viciada em jogos Trini (Carmen Machi) e o mendigo louco, Israel (Jaime Ordóñez). Estes se engalfinham o tempo todo, inicialmente se xingando e colocando a culpa em um ou outro por puro preconceito, seria um ataque terrorista e o terrorista estaria ali entre eles? Nacho por ter barba grande é apontado, logo outros são o alvo e assim prossegue até que um barulho no banheiro lhes dão uma direção para o que estaria acontecendo. Lá fora pneus estão sendo queimados e a mídia noticia o incêndio, mas nada revela sobre o assassinato. As coisas se tornam ainda mais confusas quando uma doença infecciosa pode ser o motivo. 
Na segunda fase do filme o horror e a violência tomam conta, são cenas de pura loucura, decisões bizarras e para permanecerem vivos o instinto vence a razão não sobrando nada de civilidade, só resta a estupidez, a ignorância, a crueldade; a selvageria. O cenário vai acompanhando a degradação, de início o bar, em seguinte o porão, e para completar o esgoto. E é aí que os atos mais insanos são tomados, aliás, nem se sabe mais porquê brigam, a cada minuto surge algo novo, e as suposições não param...

O filme tem diálogos ágeis e certeiros, utiliza inteligentemente estereótipos ao colocar esses personagens em situação extrema, um dos melhores certamente é o mendigo que ao longo cita trechos da bíblia e de louco fica são e de são fica mais doido ainda. Cria-se uma paródia do social em que sentimentos e emoções como egoísmo, preconceitos, medo e instinto dominam. O humor ácido evidencia ainda mais o bizarro das situações nos colocando na pele dos personagens. E aí, para sobreviver o que faria? Igual ou pior? Também coloca o como o ser humano supõe e cria teorias para formular regras. O medo é a mola propulsora e ele certamente revela o que se tem verdadeiramente por dentro.

"O Bar" é um filme que passeia por vários gêneros e retrata que não há limites para os seres humanos quando o medo predomina, se for preciso se afundar na lama ou excrementos, que seja, além de que o clima de suspense permeia boa parte da trama e a podridão praticamente transpassa a tela. Álex de la Iglesia nos dá uma história já contada inúmeras vezes, mas que graças as suas peculiaridades se torna original e surpreendente!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Rei dos Belgas (King of the Belgians)

"O Rei dos Belgas" (2016) dirigido pela dupla Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens (A Quinta Estação - 2015) é uma sátira poética em forma de mockumentary sobre o despir da nobreza, um conto divertido, reflexivo e imensamente lindo.
Nicolas III (Peter Van den Begin) está em uma visita de estado a Istambul quando Valônia, a metade do sul da Bélgica declara a sua independência. O rei deve retornar para salvar o seu reino. Mas uma poderosa tempestade solar bloqueia todo o tráfego de telecomunicações e do ar. O rei e sua comitiva estão agora presos em Istambul. Com a ajuda de um cineasta britânico eles conseguem escapar da Turquia, incógnitos entre um grupo de cantores búlgaros. Assim começa uma odisseia através dos Bálcãs em que o rei descobre vida real e ele próprio.
O rei Nicolas segue todo o protocolo real e agora o seu cotidiano cheio de decisões está sendo filmado, a pedido de sua mulher o cineasta retrata momentos importantes e sempre quando sorri, impressionantemente por ocasião do destino esses momentos acabam sendo de fato verdadeiros e não forçados como propostos no início, a mistura de comédia, poesia, política, road movie e documentário traz um ar único ao filme que com o desenrolar da história vai despindo a realeza, tornando-o humano e experimentando a vida, expõe a diversidade de culturas, a beleza dos povos, dos estereótipos criados, das intrigas entre nações alimentadas pela mídia, o carinho e a gentileza de países considerados perigosos e não confiáveis, como Bulgária e Sérvia, e, principalmente, da inutilidade de seu cargo. São cenas dotadas de doçura e riquíssimas em conteúdo, a comédia ajuda na descaracterização desta figura de poder e surge a reflexão de todo o universo político em torno do rei, que é apenas uma figura simbólica e pouco faz na prática realmente.
Enquanto a Valônia -  a parte francófona da Bélgica - declara independência, o rei está na Turquia para celebrar a admissão desta na União Européia, ele fica preso no país quando uma tempestade solar os impede de pegar o avião e resolver a situação da separação, quem tem a ideia de tirá-los de lá é o documentarista Duncan Lloyd (Pieter van der Houwen) que os coloca disfarçados em um ônibus junto de um grupo folk de mulheres e assim vão rodando pelos Bálcãs. Viajamos juntos do rei e sua trupe, todos em excelentes personagens, sua assessora de imprensa Louise (Lucie Debay), o chefe de operações Ludovic (Bruno Georis) e do assistente Carlos (Titus de Voogdt), que aos poucos também vão se despindo de suas facetas duras, vão da Turquia para Bulgária, da Sérvia para Montenegro e sem querer param na Albânia, os conceitos e propósitos vão se modificando e dando outros olhares, como a parada na Bulgária e seu concurso de iogurte e o prefeito que não usa sapatos e disserta sobre a felicidade e o encontro com um ex-atirador sérvio a base de muita rakia.

Peter Van den Begin como o rei é formidável, compõe perfeitamente a placidez e a altivez de um nobre, mas que se abre para as pequenas coisas da vida e percebe ao final a inutilidade de seu título. A metalinguagem é outra coisa bastante interessante, o filme dentro do filme, o modo como a câmera captura esses momentos são pura poesia e adentramos nesta doce sátira de transformação, o rei de um mero fantoche se torna um homem sensível com sorrisos sinceros para oferecer. A trilha sonora é composta por música erudita, Grieg, Ravel, Bach e Vivaldi, inclusive há uma cena memorável do rei dançando o Boléro de Ravel, uma das tantas especiais.

"O Rei dos Belgas" é uma comédia reflexiva e ácida, original, delicada e muito agradável, encantadora abordagem sobre a humanização de um ilustre e toda a questão da União Européia e os Bálcãs. Excelente em expor as fragilidades, os estereótipos, sejam eles políticos ou culturais. 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Florestas em Filmes (Forest Movies)

Segue uma lista para apaixonados por natureza, em especial, as florestas, selecionei 31 filmes (questão de ordem e não preferência) que exploram em seus mais diversos gêneros e abordagens a imensidão, a solidão, a espiritualidade, a sobrevivência, a diversão, o amor, a busca; há a bela junção de poder, magia e também medo e obscuridade, as florestas compõem o cenário e protagonizam histórias marcantes. 

31- "Capitão Fantástico" (Captain Fantastic - 2016) EUA
Ben é o pai de seis crianças, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna. Um belo filme que traz reflexões acerca da vida, o que realmente tem importância e agrega, questiona as regras da sociedade, o modus operandi, e também a criação dos filhos sem qualquer vínculo com o meio. Saiba+

30- "Vida Selvagem" (Vie Sauvage - 2014) França
Philippe Fournier vive com seus dois filhos pequenos, um de seis e outro de sete anos. A mãe deles, ex-esposa de Paco, como Philippe é conhecido, havia ganhado a guarda das crianças após a separação, mas ele as tirou da mãe, contra a decisão da justiça. As crianças, depois adolescentes, Okyesa e Tsali Fournier, viveram escondidas com o pai, sob identidades falsas, caçados pela polícia, mas com uma vida nômade e livre. Eles experimentam a clandestinidade, o perigo, o medo, mas também uma total comunhão com a natureza e os animais. Eles se solidarizam com as pessoas que encontram na estrada e alimentam a felicidade de viver "fora do sistema". Por 11 anos percorrendo todo o sul da França, suas jornadas forjam suas identidades, até que a justiça os alcance...

29- "Na Floresta" (Dans la Forêt - 2016) França/Suécia
Tom e seu irmão mais velho Benjamin não têm visto seu pai por um longo tempo. Para as férias, eles vão à Suécia, onde ele vive. Tom capta o reencontro com este homem estranho e solitário. O pai o convenceu de que Tom tem o dom de ver coisas que os outros não veem.

28- "Sanctuary" (Faro - 2013) Suécia


A polícia está perseguindo um homem procurado por homicídio. Se for preso, a sua filha vai ser colocada em um orfanato. Para ficarem livres, eles fogem para uma selva. Faro refere-se a uma cidade portuguesa que o pai visitou uma vez.
Retrata a monotonia junto de sentimentos de culpa, a angústia de um pai por tentar salvar a si e a filha e ter momentos de paz, a floresta é a morada escolhida, mas as circunstâncias, os tormentos rondam o protagonista, por causa do ato cometido no passado sua vida seguirá outros rumos. Saiba+ 

27- "Inverno da Alma" (Winter's Bone - 2010) EUA
Aos 17 anos de idade Ree Dolly (Jennifer Lawrence) embarca em uma missão para encontrar seu pai depois que ele usa a casa de sua família como forma de garantir sua liberdade condicional e desaparece sem deixar vestígios. Confrontada com a possibilidade de perder a casa onde mora com seus irmãos pequenos e precisar voltar para a floresta de Ozark, Ree desafia os códigos e a lei do silêncio arriscando sua vida para salvar sua família. Ela desafia as mentiras, fugas e ameaças oferecidas por seus parentes e dessa forma começa a juntar a verdade sobre seu pai.

26- "O Sobrevivente" (The Survivalist - 2016) Reino Unido
Neste drama pós-apocalíptico em que a única forma de conseguir alimento é com plantações, um homem é ameaçado por duas mulheres que estão com fome e que querem morar com ele.

25- "Vovó Está Dançando Na Mesa" (Granny's Dancing on the Table - 2015) Suécia
Eini tem 13 anos e vive isolada da sociedade em uma cabana na floresta junto com seu pai controlador e abusivo. Histórias sobre a sua avó, além de sua própria imaginação, permitem que a garota crie um mundo interior e encontre força para sobreviver. Saiba+

24- "Antiga Alegria" (Old Joy - 2006) EUA
Kurt (Will Oldham) e Mark (Daniel London) são dois amigos de longa data que se reúnem para acampar nas montanhas durante o fim de semana. Se para Mark a ocasião é um escape das responsabilidades da vida adulta, para Kurt trata-se apenas de mais uma aventura.

23- "Os Reis do Verão" (The Kings of Summer - 2013) EUA
Joe Toy é um adolescente que não aguenta mais viver com o pai autoritário. Quando seu amigo Patrick também briga com os pais, os dois decidem se mudar para a floresta, junto de um garoto estranho que os segue, e viverem sozinhos, longe da presença de adultos. Logo, eles aprendem como cuidar da própria comida e como construir uma casa para os três.

22- "Tudo o Que Importa é o Passado" (Uskyld - 2012) Noruega
"Tudo o Que Importa é o Passado" é a história de como Janne reencontra William após muitos anos de separação. Ela deixa sua família para viver com ele em uma cabana à beira do rio. Eles recriam o sentimento de amor e luxúria que tinham quando crianças. Mas um dia uma menina chinesa é encontrada boiando no rio, e eles percebem que estão sendo perseguidos pelo irmão de William. Correm, então, ainda mais para dentro da floresta, tentando escapar de seu inimigo.

21-  "Vic+Flo Viram Um Urso" (Vic+Flo Ont Vu Un Ours - 2013) Canadá
Victoria acaba de deixar a prisão. Ela tem 61 anos e quer começar uma vida nova. Vai para a casa de um tio, já doente e inválido, em uma típica "Cabane à Sucre" desativada no meio da floresta canadense. Vic espera viver ali com sua amante mais jovem Florence, sua ex-companheira de cela com quem dividiu anos de intimidade na prisão. Sob a supervisão atenta e sistemática de Guillaume, o jovem oficial de condicional, Vic quer fazer a coisa certa e ficar em paz. Mas o passado volta para assombrar Flo. Sinais de ameaça iminente começam a surgir e a floresta parece ter armadilhas traiçoeiras.

20- "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas" (Loong Boonmee Raleuk Chat - 2010) Tailândia
Sofrendo de insuficiência renal, Tio Boonmee resolveu passar os últimos dias de sua vida recolhido em uma casa perto da floresta e ao lado de entes queridos. Durante um jantar com a família, o espírito de sua esposa falecida aparece para ajudá-lo em sua jornada final. A eles se junta Boonsong, filho de Boonmee que retorna após muito tempo metamorfoseado em outra forma de existência. Juntos, eles percorrerão o interior de uma caverna misteriosa, onde Boonmee nasceu em sua primeira vida. Saiba+

19- "Um Doce Olhar" (Bal - 2010) Turquia
"Um Doce Olhar" mostra a jornada de Yusuf, um garoto turco que está aprendendo a ler e a escrever, e que nas horas vagas ajuda o seu pai, um simples apicultor que guarda as colmeias nos galhos mais altos das maiores árvores de uma misteriosa floresta. Mas quando seu pai parte em busca de descobrir porque as abelhas estão sumindo, Yusuf se prepara para viver a sua maior aventura, tentando dar algum sentido à sua vida. Saiba+

18- "Jungle Child" (Dschungelkind - 2011) Alemanha
A pequena Sabine chega à ilha da indonésia, na Papua Ocidental, juntamente com seus pais e dois irmãos. Uma missão de investigação linguística trouxe sua família para a selva e eles passam a morar e a se socializar com a tribo indígena local, os Fayu. Longe da civilização ocidental, ela cresce como uma criança da selva, mas o deserto intocado detém seus próprios perigos. A estreita amizade entre Sabine e Auri, um garoto de uma tribo inimiga, quase coloca ela e sua família entre as duas facções Waring. A amizade prevalece e se transforma em uma ligação muito intensa ao longo dos anos, assim como a cultura e os ritos que permanecem no coração da criança, mesmo na vida adulta.

17- "O Ornitólogo" (2016) Portugal
Fernando, um ornitólogo solitário, que está à procura de cegonhas negras ameaçadas à extinção ao longo de um remoto rio no norte de Portugal. Ele decide viajar pelo curso do rio a bordo de um caiaque, mas quando uma correnteza forte derruba sua pequena embarcação, ele inicia uma jornada sem volta.

16- "Hansel and Gretel" (Henjel gwa Geuretel - 2007) Coreia do Sul
No caminho para encontrar sua mãe doente, que o abandonou quando era pequeno, Eun-Soo, sofre um acidente de carro e acaba perdido numa floresta inconsciente. Ao acordar, ele encontra bem a sua frente uma menina que se dispõe a ajudá-lo. Ferido e sem ter para onde ir, Eun-Soo, segue a menina até "O Lar das Crianças Felizes", onde vivem mais duas crianças com seus pais. Como se tivesse saído de um conto de fadas, a casa é um paraíso para as crianças, cheia de brinquedos e doces. Porém, o único telefone da casa não está funcionando e quando Eun-Soo, tenta achar o caminho de volta pela floresta, não acha a saída. Mesmo sem ninguém sair da casa, a mesa está sempre cheia de comida, ruídos estranhos são ouvidos pela casa e os pais sentem medo das crianças. Presenciando todos esses acontecimentos inexplicáveis, Eun-Soo, começa a desconfiar que as crianças guardam um segredo.

15- "The Forest" (2016) Tailândia
A floresta ao redor de uma aldeia na zona rural da Tailândia abriga um espírito maligno. A escola na aldeia abriga uma menina muda. Perseguida por agressores, a menina encontra refúgio na floresta. Apesar das advertências de sua professora, ela abraça a floresta e encontra alegria na amizade com um menino selvagem. Mas de onde esse menino vem? Os rumores sobre a floresta são verdadeiros?

14- "O Mar de Árvores" (The Sea of Trees - 2015) EUA/Japão
A floresta Aokigahara, conhecida também como "Sea of Trees", localizada aos pés do Monte Fuji, é famosa por ter um alto índice de suicídios. Dois homens, o americano Arthur Brennan (Matthew McConaughey) e o japonês Takumi Nakamura (Ken Watanabe), vão até lá com este pensamento, mas acabam iniciando uma jornada de reflexão e sobrevivência na tentativa de responder suas questões existenciais.

13- "Things of the Aimless Wanderer" (2015) Reino Unido/Ruanda
Final do século XIX, um explorador branco está perdido na selva. Ele sai, tentando localizar a si mesmo. Na espessa floresta tropical, ele encontra uma jovem mulher... Início do século XXI, um correspondente de notícias estrangeiras conhece uma prostituta em uma boate. Eles passam a noite juntos, mas a garota desaparece no dia seguinte misteriosamente. O correspondente tenta descobrir o que aconteceu com ela e, eventualmente, terminar seu livro de viagens.

12- "O Abraço da Serpente" (El Abrazo de la Serpiente - 2015) Argentina/Venezuela/Colômbia
Karamakate, outrora um poderoso xamã da Amazônia, é o último sobrevivente de seu povo, e agora vive em isolamento voluntário nas profundezas da selva. Os anos de solidão absoluta o tornam vazio, privado de emoções e memórias. Sua vida sofre uma reviravolta quando chega ao seu esconderijo remoto Evan, um etnobotânico alemão em busca da Yakruna, uma poderosa planta capaz de ensinar a sonhar. O xamã decide acompanhar o estrangeiro em sua busca, e juntos embarcam em uma viagem ao coração da selva, onde passado, presente e futuro se confundem, fazendo-o aos poucos recuperar suas memórias. Essas lembranças trazem uma dor profunda que não libertará Karamakate até que ele transmita o conhecimento ancestral que antes parecia destinado a perder-se para sempre. Uma viagem antropológica, histórica e mística. Um olhar espiritual sobre a vida e também sobre a perda de costumes e identidade. Saiba+

11- "No Bosque" (Mesa sto Dasos - 2010) Grécia
Três jovens – uma mulher e dois homens – perambulam pela natureza arrebatadora, através da floresta e dos verdejantes montes íngremes. O trio estuda as suas múltiplas relações e predileções sexuais, encorajados pela onipresença dos elementos.

10- "Floresta" (Rengeteg - 2003) Hungria
Composto somente de closes, a estréia de Benedek Fliegauf em longas é um interessante estudo sobre a sociedade húngara. Sete histórias aparentemente normais ganham um toque absurdo e se intercalam diante do espectador. Um homem que deixa um cachorro na casa de uma estranha, um pai estranhamente obcecado por sua filha pequena e dois jovens que recebem uma encomenda misteriosa, são alguns dos pequenos contos que compõem o universo de Floresta.

09- "Across The River" (Oltre il Guado - 2014) Itália
A história gira em torno de um etólogo que trabalha numa floresta remota, capturando animais e instalado câmeras neles para que possa monitorar o seu comportamento. As gravações o levam a uma aldeia remota, o local de uma antiga maldição, onde ele fica preso devido a pesada chuva que cai e o aumento do nível do rio...

08- "Hamaca Paraguaya" (2006) Paraguai/Argentina
Em 1935, num lugar remoto do Paraguai, o casal de idosos Cândida e Ramón espera pelo filho que foi lutar na Guerra do Chaco. Faz muito calor, e eles também anseiam por chuva, que foi anunciada, mas nunca chega, assim como também o vento, que nunca sopra. Ele corta cana, ela cuida da casa, e o cachorro nunca para de latir. Eles continuam esperando por tempos melhores. Ramón é otimista, Cândida acredita que o filho já esteja morto. As cenas repetem-se monotonamente a cada dia. O filme disserta sobre o tempo, a velhice, o amor. Uma obra impressionante e poética. Amargo e doce ao mesmo tempo, assim como a vida. Saiba+

07- "Floresta dos Espíritos Dançarinos" (De Dansande Andarnas Skog - 2013) Suécia
Akaya, Kengole, Dibota e seus amigos e família são caçadores-coletores (e também grandes contadores de histórias), que nos guiam através do seu mundo na floresta tropical da bacia do Congo. Eles explicam suas origens, mitos e o sentido bastante espiritual que dão à vida. O filme acompanha a singular vida comunitária do grupo ao longo de muitos anos. Nós testemunhamos a prática de sua espiritualidade nas situações mais difíceis. Sua religião é lúdica e muito criativa para lidar com as questões profundamente sérias da vida e da morte, e pode ser a mais antiga religião praticada hoje.

06- "Aconteceu na Floresta" (Il Était une Forêt - 2013) França
No interior de uma densa mata e em meio as maravilhas naturais, o documentário revela o florescimento e o crescimento de uma floresta tropical. O público é convocado a observar e se maravilhar com as belezas naturais, além de refletir sobre a necessidade de preservação.

05- "A Parede" (Die Wand - 2012) Alemanha
Uma mulher faz um passeio com um casal até uma cabana de caça nas montanhas. Pela noite, os amigos ainda vão visitar o bar situado numa aldeia do vale, mas a mulher fica em casa com o cão. Na manhã seguinte, o casal ainda não chegou à casa e a mulher põe-se a caminho da aldeia, se deparando com algo inimaginável. Existe uma parede invisível que a separa do resto do mundo e atrás da qual parece não existir vida. Agora a mulher é obrigada a sobreviver na floresta, sozinha com um cão, um gato e uma vaca. Escreve os seus pensamentos, preocupações e necessidades num caderno, que talvez ninguém voltará a ler. Pouco a pouco a integração com a natureza acontece, começa a entender os ciclos e como tudo funciona, não mais se preocupa com calendário, mas apenas com as estações do ano e como passar por elas da melhor maneira. Saiba+

04- In Natura/Out of Nature (Mot Naturen - 2014) Noruega
Uma jornada dentro da cabeça de Martin. Ele sai em viagem às montanhas e acabamos conhecendo seus pensamentos. Um filme essencial, existencial e pueril sobre sentimentos e fantasias. Sobre ser humano e como nós pensamos. O longa tem cenas lindíssimas, a câmera busca sempre detalhar não só o personagem como tudo que o circunda. Seus pensamentos entram em harmonia com a natureza. Saiba+

03- "A Floresta dos Lamentos" (Mogari no Mori - 2007) Japão
Shigeki vive feliz num pequeno asilo nas montanhas. Machiko, uma das funcionárias do local, cuida especialmente dele. Ela, por sua vez, carrega em segredo, a angústia da perda de um filho. No aniversário de Shigeki, Machiko decide levá-lo para um passeio. Quando o carro em que viajam fica preso num atoleiro, Shigeki se mete no meio da floresta e Machiko é obrigada a segui-lo. O filme nos permite adentrar juntamente com os personagens, a água, a lama, as flores, as árvores e a música. Trata-se de um instante sublime, em que nos libertamos do realismo para embarcarmos num ritual pagão, no qual Kawase celebra a eternidade. O perambular pela floresta retrata um processo de elaboração do luto, de catarse, travessia de um terreno cheio de obstáculos, solidão, confronto de medos externos e internos. Saiba+

02- "A Cabana" (Die Summe Meiner Einzelnen Teile - 2011) Alemanha
Martin era um talentoso matemático com uma carreira promissora que, após um período internado em uma clínica psiquiátrica, é visto como doente mental, perde o emprego, e acaba nas ruas. Viktor é um garoto ucraniano que se tornou órfão depois que sua mãe sofreu uma overdose. Quando os dois se conhecem, resolvem fugir da cidade e construir uma cabana na floresta. Eles se tornam bons amigos e Martin conhece Lena, que é encorajada por eles a viver também de forma idílica. Até que um dia a cabana onde moram é destruída e Martin é preso como principal suspeito. A "loucura" de Martin é libertadora e em meio a natureza consegue acalmar sua mente, percebe-se que quando andava pelas ruas da cidade ele era inquieto e contava sem parar, as cenas em que começa a se integrar no local, subindo em árvores, respirando ar fresco é as das mais bonitas, é como se estivesse se encontrando, é a naturalidade de ser. Saiba+

01- "Jîn" (2013) Turquia
No sopé dos territórios curdos da Turquia, Jin (Deniz Hasgüler), uma jovem rebelde de 17 anos, foge de seu grupo de guerrilha para tentar voltar à sua família e à vida normal. Se escondendo de seus companheiros, a quem ela é agora uma traidora, e o exército turco, que a vê como uma terrorista, Jin, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho, se refugia com os animais da floresta, que estão lutando a sua própria maneira na brutalidade da guerra. É um retrato bem interessante sobre o impacto da guerra na natureza, são filmados diversos animais em situações de medo e desespero. Nossa protagonista após deixar seu grupo de guerrilha se esconde na floresta, ela passa por muitos desafios e a sua única saída sempre é voltar para a floresta, e nesses momentos observamos os animais, como o urso que compartilha com Jîn o mesmo esconderijo. Saiba+

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vovó Está Dançando na Mesa (Granny's Dancing on the Table)

"Vovó Está Dançando na Mesa" (2015) dirigido pela sueca Hanna Sköld (Velhos Asquerosos- 2009, primeiro filme livre, produzido sob a licença Creative Commons, sua estreia ocorreu no The Pirate Bay) é um filme que mescla live-action e o stop-motion, uma junção bastante interessante e ousada dentro do contexto pesado e doloroso do longa, que foi produzido por uma campanha no Kickstarter. O stop-motion é utilizado para contar o passado, ele é todo narrado pela protagonista que não articula nenhuma palavra em seu cotidiano, nem um mínimo som, apavorante acompanhar seu monótono dia a dia. Eini (Blanka Engström) é uma jovem garota de 13 anos que vive nas profundezas das florestas suecas com seu pai (Lennart Jähkel). Porém, a morada na natureza não é um refúgio, mas sim um pesadelo, já que o pai de Eini é um feroz maníaco controlador e um fanático religioso que regularmente conta os poucos bens da casa para descobrir as infrações de Eini. Em meio a esse caos, a garota encontra na remota figura da avó, além de sua própria imaginação uma importância quase mítica, tanto como símbolo de liberdade, quanto razão para o seu atual sofrimento e que permitem que ela crie um mundo interior e encontre força para sobreviver.
Eini segue uma série de regras rígidas, o pai é violento e o menor deslize seja ele de qualquer natureza gera punição à menina, são cenas tensas, por exemplo, na contagem dos utensílios da cozinha, onde o silêncio sufoca e deixa-nos esperando pelo pior. O clima de opressão pesa, só quando o pai sai para buscar alimentos, Eini tem lampejos de vida, ao encontrar um rádio, ao passear pela floresta, vestir outras roupas e ao recorrer a sua imaginação para relembrar a sua infância ao lado da avó. A história de sua avó e de sua mãe é contada por Eini, os únicos momentos em que escutamos sua voz, a técnica do stop-motion nos conduz para uma fábula rude e perturbadora, que retrata um histórico de violência e submissão. São retratados duas figuras femininas opostas, a avó de Eini junto à irmã que precisa se mudar para a casa de um homem rico, este que se mostra abusivo e opressor, a avó de Eini vai embora depois de dar à luz e segue sua vida na cidade grande. O pai de Eini então é criado por esse homem violento, o menino presencia agressões e acredita que não há outro modo de vida, ele perpetua esse gesto na criação de sua filha, a afastando do mundo civilizado e sob muita opressão e abuso. 

O desconforto na interação entre pai e filha é extremo, é triste toda a situação, a menina não tem vida nos olhos, nos perguntamos porquê não foge, mas com o desenrolar percebemos que aquela é a única vida que conhece até então, e sim, ela quer sair desse ambiente claustrofóbico, mas, infelizmente, não sabe como, em outros momentos adentramos em seus desejos profundos, onde ela sonha em arrancar a própria mão, um sinal de que ela quer uma mudança. Isso tudo acontece aliado a sua transição, o despertar sexual, o que lhe dá mais impulso para deixar e acabar com essa vida.
O filme vai alternando entre o cotidiano de Eini com as passagens em stop-motion retratando a história da avó e de sua mãe e, que inclusive, são muito perturbadoras, desde o estilo dos bonecos à carga da história, de toda a violência e visão estreita que o jovem presenciou e então reproduz mais tarde com Eini. Há algumas cenas contrastantes com o ritmo do filme, o que causa agonia e revolta, a violência e o silêncio incomoda e esperamos demais que esse ciclo se rompa.

Triste e incômodo, mas extremamente necessário, "Vovó Está Dançando na Mesa" toca num assunto importante, o abuso e violência passada de geração em geração. A perspectiva dura do filme serve para provocar, pois só com elucidação, conhecimento que esse tipo de mentalidade pode ser rompida e eliminada da sociedade.
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