quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica)

"Uma Mulher Fantástica" (2017) dirigido por Sebastián Lelio (Gloria - 2013) é um filme real e essencial que disserta sobre o preconceito e a discriminação intrínseca, comentários, olhares, curiosidade, e também explícitos, como na repulsa e suspeitas, é preciso muita força perante tanta ignorância, atitudes absurdas e julgamentos das pessoas. Com sutileza, coragem e muita determinação a personagem passa por diversas tristezas, privações, mas segue firme, ela precisa encontrar o seu caminho.
Marina (Daniela Vega) é uma garçonete transexual que passa boa parte dos seus dias buscando seu sustento. Seu verdadeiro sonho é ser uma cantora de sucesso e, para isso, canta durante a noite em diversos clubes de sua cidade. O problema é que, após a inesperada morte de Orlando (Francisco Reyes), seu namorado e maior companheiro, sua vida dá uma guinada total.
Após perder seu companheiro, Marina enfrenta dificuldades para ter o direito de luto, proibida de participar do velório e enterro, ainda é investigada para provar que nada teve a ver com a morte, Marina não consegue vivenciar a fase da perda, a tristeza de ter perdido o seu amor, os familiares questionam o tipo de relação, debocham e humilham Marina, a ex-mulher chega a chamá-la de quimera. Tiram o carro, o apartamento, a dignidade, suas forças chegam a minar, mas precisa manter sua cabeça erguida e tão pouco provar alguma coisa, pois não há nada para ser provado, só que cada vez mais a tristeza a consome, a ausência de Orlando, seu desejo de vê-lo pela última vez, as suas tentativas de luta sempre terminam mal, todos duvidam e não aceitam de que ela mantinha um relacionamento com Orlando, há uma cena simbólica que demonstra a força que necessita ter para passar por esse tormento, ela caminha e uma grande ventania a toma.
A delicadeza é um dos pontos mais lindos do filme, a personagem é como o título diz, uma mulher fantástica, repleta de nuances, complexidades e beleza, exibe uma carga dramática intensa e tudo se deve a incrível interpretação de Daniela Vega que doa muito de si mesma para Marina, por exemplo, seu talento para o canto, impossível não se encantar com as passagens em que solta a voz, além de poder passar a veracidade das situações, pois conhece muito bem os preconceitos. Seus grandes olhos entregam tudo, compreendemos suas atitudes e seus silêncios.

A obra é intimista e faz questão de mostrar que a personagem tenta seguir sua vida trabalhando, treinando seu canto, e depois do falecimento do namorado poder chorar por ele, como todos que perdem alguém amado, mas ela é impedida, é questionada pelas autoridades, é obrigada a fazer um exame de perícia e a família de Orlando invade sua vida, entra no apartamento, como o filho, que comete violência em todos os sentidos, ela tem sua dignidade arrancada por ignorância daqueles que não querem entender a situação e tão pouco enxergá-la como ser humano. Há momentos que demonstram preconceitos corriqueiros, comentários que saem até de pessoas que dizem não ser preconceituosas, uma amostra do quanto a sociedade ainda pensa estreitamente e necessita de um despertar de consciência maior para que esse tipo de pensamento seja eliminado das próximas gerações e que todos consigam viver em paz. Marina, infelizmente, tem sua vida paralisada porque os outros a impedem, a olham torto e duvidam de sua capacidade a rotulando por ser uma mulher trans.

"Uma Mulher Fantástica" tem uma narrativa delicada e não há grandes arcos dramáticos, observamos a luta de Marina, deveras silenciosa, pois é impossível reagir diante a quem não tem intenção de ouvir, ela não briga por ter o carro e o apartamento tomado, apenas deseja chorar e velar por seu amado, ter o cão que morava com eles para si e seguir em frente. O quão mesquinho e intolerante o ser humano pode ser para negar a alguém o direito de sentir e ser quem se é? 
Angustiante, sensível e um real retrato, a personagem possui um oceano de dor em si, mas sua força é extrema e inspiradora, assim como o título diz, fantástica!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Como Nossos Pais

"Como Nossos Pais" (2017) dirigido por Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças - 2001) é uma obra brasileira excelente que disserta com grande naturalidade questões cotidianas e familiares com viés feminista, os embates, as responsabilidades, as frustrações, uma série de coisas que tanto a criação como a sociedade vai impondo e que aos poucos a personagem vai se desvencilhando, ela se redescobre como mulher e permite a mudança.
Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas, manter seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.
A necessidade de se mostrar como capaz é enorme, a supermulher, que trabalha, cuida das filhas enquanto o marido corre atrás do sonho, repleta de afazeres e estressada com tudo, o convívio familiar é conflituoso e tudo desmorona de fato quando a mãe diz que ela não é filha de Homero (Jorge Mautner), mas sim de outro homem, essa informação dada de um jeito estranho foi um agente para a cabeça de Rosa começar a questionar diversas outras, não só em querer saber quem é o cara que é o seu verdadeiro pai, mas quem é a Rosa nisto tudo. Por mais difícil que seja a relação entre Rosa e Clarice existe um laço afetivo bem forte e é inegável a semelhança das atitudes entre uma e outra, Rosa não percebe que está traçando o mesmo caminho que sua mãe até um ponto específico da trama.
Clarice é uma mulher autêntica que viveu um grande e fugaz amor em Cuba, ela sempre foi forte, dona de tudo e que sustentou o ex, Homero, figura excêntrica da qual Rosa ama e nutre grande carinho, Clarice não se priva do prazer de fumar ao saber que tem câncer e Rosa de início fica brava, mas no decorrer há aproximação e diálogos ótimos que denotam suas personalidades e o rumo que Rosa irá tomar. A questão da liberdade da mulher, de se desfazer de obrigações e mesmo com responsabilidades, como as filhas, encontrar um caminho mais leve para seguir, Rosa em diversos momentos julga a mãe, mas não percebe que age igual, como quando inicia um caso com Pedro (Felipe Rocha), que se faz de descolado longe da esposa, Rosa é admirada por ele e como está em atrito com o marido a chama da paixão acende, só que há algo que ela repensa em determinado ponto que é crucial para sua decisão de liberdade. E a liberdade está apenas em si mesma, deixar tópicos de lado e apenas viver, recuperar o entusiamo pelos sonhos, como a escrita, da qual tem paixão. 

Os momentos que compartilha com sua mãe são recheados de mágoa e amor, uma confusão atordoante que gera diálogos exasperantes e reflexivos, o desenvolvimento de Rosa é lento e ambíguo, e não é à toa que o filme tenha o mesmo título da canção de Belquior, o trecho: "Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos. E vivemos como os nossos pais", exemplifica perfeitamente. Rosa é cobrada pelas gerações, sente o peso da responsabilidade, amargura-se, mas depois surge uma nova consciência e começa a se libertar, mas sem precisar sair do lugar de onde está. O filme também faz uma analogia entre Rosa e Nora, personagem do livro "Casa de Bonecas", de Ibsen, ela monta um roteiro inspirado no fim da história, quando Nora cansada de se sentir inferior na sociedade, revolta-se e abandona deixando marido e filhos.

"Como Nossos Pais" possui camadas pertinentes e quanto mais se pensa nele mais coisas surgem, exibe discussões necessárias sobre transformações dentro das relações e no comportamento em sociedade, como romper obrigações destinadas às mulheres. Maria Ribeiro está natural na pele de Rosa, uma mulher repleta de nuances que aos poucos e duramente se redescobre, e enfim busca se desvencilhar de tudo aquilo que a prende e a sufoca. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Glory (Slava)

"Glory" (2016) dirigido pelos búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov (A Lição - 2014) é o segundo filme da dupla que tem como tema o realismo social, um pulsante retrato das articulações do sistema, os esquemas de corrupção, a manipulação midiática, as burocracias e o cidadão sendo explorado, sugado e descaracterizado como indivíduo. Em tom tragicômico acompanhamos uma série de situações que acaba tirando a dignidade do protagonista e que nos faz questionar até onde pode-se aguentar.
Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov), um trabalhador ferroviário, encontra uma enorme quantia de dinheiro nos trilhos do trem. Ele entrega todo o montante para a polícia, que o recompensa com um novo relógio de pulso, que logo para de funcionar. Enquanto isso, Julia Staikova (Margita Gosheva), chefe do departamento de relações públicas do Ministério dos Transportes, perde o antigo relógio de Petrov. Ele começa então uma luta desesperada para obter seu velho relógio de volta, assim como sua dignidade.
Tsanko é um trabalhador que se desgasta em um trabalho pesado, num dia como todos os outros o executando encontra algumas notas espalhadas pelo trilho, guarda-as no bolso e mais adiante se dá conta de um montante de dinheiro, ele simplesmente para toma água e a seguir descobrimos que ele é um homem de caráter irretocável, devolve o dinheiro às autoridades e por causa de sua atitude é transformado em um herói, Tsanko passa por momentos constrangedores, é ridicularizado por conta de sua gagueira e daí por diante tudo que o envolve é podridão, sua honestidade parece intacta, na sessão de fotos com o chefe acaba dizendo sobre o roubo de combustíveis e que é por isso que o salário está atrasado há dois meses, mas o chefe desconversa, um jogo muito sujo está sendo feito a partir da atitude de Tsanko, a atenção dada a ele é falsa e com intenções de tirar o foco de outras, Julia é uma workaholic que dá a alma para o que faz, não mede consequências para atingir seus objetivos, só que ela não passa também de um marionete do sistema, mas, claro, com inúmeros privilégios. Julia é egocêntrica e não demonstra nenhum tipo de sentimento, observamos o marido sempre atrás dela lembrando das injeções que precisa tomar para poder engravidar, é arrogante, fria, robotizada e imersa no sistema que também a devora, ela tira o relógio do pulso de Tsanko antes da homenagem, pois ele ganhará um novo, ele fica preocupado e pede para que depois o devolva, acontece a tediosa celebração, a festa, e nada do relógio. Passa-se os dias e Tsanko percebe que o relógio que ganhou parou e tenta encontrar Julia de qualquer jeito, ela faz pouco caso e nem sabe onde está o tal relógio, até tenta enganá-lo devolvendo uma cópia, mas o de Tsanko tem uma inscrição, pois foi um presente de seu pai. As coisas começam a ficar desesperadoras, dá agonia acompanhar tantos momentos de descaso e ver Tsanko sendo tratado como lixo. 

Margita Gosheva domina as cenas e encarna perfeitamente o tipo de pessoa que se devota ao trabalho, que tem sede de poder e atropela as pessoas com sua falta de empatia, Stefan Denolyubov como Tsanko é sublime e sentimos junto dele todas as agruras, seu sembante cabisbaixo diante dos acontecimentos e a sua gagueira representando o desespero e a falta de voz que as pessoas comuns têm perante quem comanda, a intensidade desse desespero aumenta com o desenrolar e cada vez mais sua dignidade vai sendo escoada, até que chega um ponto que ela é eliminada e o personagem reage, daí as consequências se tornam trágicas.
Um exemplar sensacional do como o indivíduo é engolido, descaracterizado e injustiçado transformando-se irremediavelmente. Difícil, pesado, mas essencial para refletir no como funcionamos na sociedade e que tipo de peça somos.

"Glory" é uma obra que retrata dilemas morais e questões sociopolíticas com destreza, realidade e um humor trágico. Como permanecer honesto diante de um sistema corrupto que se beneficia justamente em cima do mais pobre? Ridicularizam e massacram até não sobrar mais nada, o indivíduo é reduzido, além de todas as burocracias e acrobacias midiáticas que ludibriam e invertem a atenção. Tsanko aguentou até não poder mais e o final exemplifica toda a sua revolta, a injustiça da qual foi alvo. Filmaço!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A Região Selvagem (La Región Salvaje)

"A Região Selvagem" (2016) dirigido por Amat Escalante (Heli - 2013) é um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção. 
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre.
Após a queda do meteorito somos inseridos na cena em que Veronica (Simone Bucio) se satisfaz sexualmente com os tentáculos do alienígena, o casal que detém o extraterrestre teme por ela, pois nessa "sessão" saiu machucada, Veronica carrega um semblante pesaroso, pois sabe que não poderá mais vê-lo e o prazer jamais vai ser sentido novamente, no hospital quem cuida da ferida dela é o enfermeiro Fabian (Eden Villavicencio), muito simpático o moço chama ela pra sair junto de sua irmã Alejandra (Ruth Ramos) e o cunhado Ángel (Jesús Meza), do qual mantém uma relação escondida, um hipócrita que cospe preconceitos e evita falar com Fabian perto da esposa pelo fato de ser gay, mas escondido manda mensagens e sai com ele. Há uma tensão sexual entre Veronica e Fabian, partindo mais do lado dela, e Ángel fica enciumado e desconta sua raiva das formas mais machistas e preconceituosas possíveis, começa a ameaçar Fabian e então este decide romper com a relação abusiva. Nisso, Veronica o insere no mistério envolvendo o alienígena que desperta grandes prazeres nas pessoas, só que no dia seguinte ele é encontrado pelado inconsciente num lago, a irmã desesperada tenta entender o porquê e ao entrar na casa do irmão encontra o celular e visualiza as mensagens entre ele e seu marido, algumas de cunho ameaçador, logo a suspeita cai toda em cima de Ángel, atormentada pela traição de ambos denuncia o marido e Veronica a acolhe e lhe mostra o caminho para o alienígena, e é nesta relação que encontra alívio e satisfação. A cena que se sucede é estranha, o casal de idosos lhe dá um chá que a droga e depois a coloca no celeiro, de início se assusta com o que vê e aos poucos a câmera revela o ser que habita ali e emana tanta excitação. As cenas são altamente eróticas, tentáculos que passam e adentram o corpo, uma carga sexual libertadora.

Mas o que será que o alienígena realmente quer das pessoas, ele simplesmente precisa se saciar sexualmente e quando cansa torna-se perigoso, ou poderia ter algo haver com a tendência, que ao entrar no local com o caráter totalmente exposto transfigurava-se em prazer sexual ou violência? Várias questões surgem e a subjetividade é imensa, e é por isso que a obra se torna grande, por exemplo, sobre o desejo feminino, a cena em que Ángel faz sexo com Alejandra demonstra essencialmente o egoísmo machista, ela ali é apenas um objeto, logo a vemos no banho se masturbando, mas os filhos a interrompem, parece não haver espaço para o prazer feminino, como se não existisse, e ao final Veronica até tenta transar com um homem, mas não consegue sentir nada, uma pequena amostra do quanto o ato sexual é ainda repleto de tabus e permeado de preconceitos. 

"A Região Selvagem" acerta em cheio na atmosfera criada, provoca o espectador com a quebra dos estereótipos e ideias arcaicas, tabus religiosos que reprimem e tantos preconceitos que envolvem as relações, a cabana com o extraterrestre representa a libertação de todos os paradigmas e desnuda quem está ali, mostrando o seu lado primitivo onde convenções sociais não interferem no desejo. Um filme libidinoso, pulsante e que abre um leque de ideias interessantes e primordiais.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Atração (Córki Dancingu)

"A Atração" (2015) dirigido pela polonesa Agnieszka Smoczyńska é um musical excêntrico que tem como tema sereias, mesclando drama, comédia, musical e horror o resultado final é original e surpreendente. Baseado  no conto de fadas de Hans Christian Andersen "The Little Mermaid", publicado em 1837, a obra segue duas irmãs, Prateada (Marta Mazurek) e Dourada (Michalina Olszanska), que são sereias. Com fome de amor e de carne, as duas chegam a Varsóvia, assumem uma forma humana e vão trabalhar num clube noturno. Contudo, quando uma delas se apaixona, surge a inveja, a obsessão e com isso o perigo.
Numa bela noite, Prateada e Dourada surgem e encantam um grupo de amigos músicos, que as levam e as acolhem no clube onde trabalham, lá começam a fazer alguns números que chamam bastante atenção do público, com o passar do tempo se apegam à forma humana, principalmente, Prateada que se apaixona pelo guitarrista vivido por Jakub Gierszal - Sala do Suicídio (2011), os dois tentam ficar juntos de qualquer maneira, mas pelo fato de serem de espécies diferentes atrapalha, porém ela o seduz e mostra que pode ser possível, como a cena da banheira, onde ela mostra o corte em sua grande cauda, a bizarrice toma conta da história e é preciso embarcar na proposta, é realmente diferente, a lenda da sereia não ganha tons suaves apesar de todo o romance envolvendo os personagens, as sereias são maliciosas e a paixão logo se torna uma obsessão difícil de controlar, a vontade de ser inteira e vivenciar o amor domina Prateada e as consequências de seu ato são trágicos, enquanto isso sua irmã experimenta inveja, raiva e começa a agir conforme seu instinto. 
As atrizes encarnam com destreza as sereias e nos passam exatamente toda a aura misteriosa, sensual e sangrenta, Michalina Olszanska (Eu, Olga Hepnarová - 2016) está hipnotizante e demonstra tudo pelo olhar, a raiva por sua irmã ter se apaixonado, pois a ideia era só de passarem pelo local e seguirem viagem, tudo isso sem comer ninguém, mas nada dá certo e as duas entram em atritos, também o dono do clube as usam, cantam e dançam sem receberem nada, os clientes do bar ficam loucos a cada apresentação, o clima de lascívia impera, os números musicais tem um quê de comédia ao mesmo tempo que fascina, além de a história caminhar também por um tom de melancolia. As cores vibrantes se mistura ao macabro, Prateada quer de todo jeito se tornar humana, ter pernas e um órgão genital para enfim ser amada, só que o moço apenas a usa e deixa claro em várias partes que por ela ser de uma espécie diferente nunca dará certo, e quando ela decide passar por uma bizarra cirurgia em prol dessa paixão aí é que tudo dá errado e Prateada se dá conta, uma metáfora maravilhosa sobre preconceito e exploração. 

A trilha sonora é a grande protagonista e é numa vibe anos 80 que tudo se dá, são canções originais em polonês e outras repaginadas, como "Byłaś Serca Biciem", de Andrzej Zaucha, além de contar com coreografias divertidas, como a sequência inicial com a música "I Feel Love", de Donna Summer. Para quem não gosta de musicais cansa ver tantas sequências de canto e dança, a narrativa às vezes se perde nessa loucura toda, mas ao todo é uma produção que com certeza deixará alguma marca, a ambientação estilizada, a comunicação entre as irmãs com sequências de sons arrepiantes, a cauda nada bonita e impressionantemente longa, as cenas macabras e pela lenda ser retratada com tanta personalidade.

"A Atração" é um filme incomum que conta com interpretações brilhantes e cativa por sua estranheza por misturar gêneros, é divertido e sedutor ao trazer alguns conflitos morais e sentimentais numa fábula de sereias com toques de horror, provoca com as esquisitices e termina poeticamente interessante. Uma boa pedida para quem busca por produções que não seguem cartilha.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Lucky

"Sempre pensei que o que todos concordávamos era naquilo que a gente vê, mas isso é besteira, porque o que vejo não é necessariamente o que você vê."

"Lucky" (2017) marca a estreia na direção do ator John Carroll Lynch, um filme-testamento do ícone Harry Dean Stanton - que faleceu em setembro de 2017, extremamente sincero ao transmitir a sensação da finitude da vida, cru e sem floreios acompanhamos os lentos passos do protagonista que se mistura à realidade do ator, Stanton interpretou a si mesmo, um retrato doloroso, porém magnifico de um ser humano que ostenta seus 90 anos e que tem a consciência de todo seu percurso e sabe que a qualquer instante irá partir. Um adeus poético e genuíno.
Depois de fumar por muito mais tempo que todos os seus conterrâneos, o velho ateu Lucky (Harry Dean Stanton), de 90 anos, está no fim de seus dias, apenas esperando a morte. Vivendo em uma cidade no deserto, ele inicia sua última atividade antes de partir: se autoexplorar para enfim encontrar iluminação.
A narrativa é simples, mas propõe uma ótima reflexão sobre a solidão, a velhice e a morte, observamos a fragilidade do corpo, as manias, o tédio, as conversas com os amigos, os lugares por quais passa, ele caminha o dia todo e se mantém ativo, na hora que acorda faz seu ritual de exercícios, se arruma e sai, não há muito o que fazer e sempre para no bar para tomar sua Bloody Mary e jogar conversa fora, as pessoas param para escutar as outras, se entretêm com as histórias e se preocupam com Lucky. Um dia ele sofre uma queda e daí para frente começa a pensar mais no significado de estar vivo e inevitavelmente sentir medo da morte, a cena em que vai se consultar é realmente maravilhosa, o médico lhe diz que está com a saúde boa apesar de fumar e que não há mais o que fazer, exames não dirão nada e que se estivesse com alguma coisa o já teria matado, que estar pleno com 90 anos é de uma sorte que a grande maioria não têm, muitos adoecem, se acidentam e não chegam nessa fase da vida, não possuem a chance de olhar para trás, de notarem as mudanças físicas e psicológicas e estarem tão próximos da morte e ao mesmo tempo com tanta ansiedade para viver, Lucky depois disso encara as situações com outro olhar e repensa sua vida. Ele nunca casou, não teve filhos, passou por momentos críticos, vivenciou a guerra, em vários instantes é questionado sobre a solidão e ele rebate dizendo que há diferença entre estar sozinho e ser solitário. Há ternura no desenvolvimento do longa e Lucky não é uma pessoa fácil, é briguento e ranzinza, mas carrega em si a espontaneidade que nos tira sorrisos e lágrimas.

O personagem vai se redescobrindo e vamos juntos nesta jornada, seus olhares transmitem as sensações que sente, os diálogos são ótimos e refletem a compreensão que aos poucos chega, a participação de David Lynch é primordial nesta questão, além de estarem novamente trabalhando juntos, Howard, o personagem de Lynch também é só e lamenta o sumiço de seu jabuti, Presidente Roosevelt, ele é alvo de chacotas, mas o amigo o escuta com afinco, pois se comove pelo tempo de vida do animal em comparação a dele, Howard lamenta sua solidão, se desespera e deseja encontrar o jabuti, porém com o passar do tempo entende e aceita, as conversas são envoltas na surrealidade, mas trazem pensamentos interessantes acerca da morte. Outra aparição interessante é de Tom Skerrit, interpretando um veterano de guerra que conta uma história que testemunhou em solo japonês, a inusitada reação de uma garotinha diante da morte, com certeza um momento que fisga nosso protagonista, que desperta e o ilumina.
Há várias cenas emocionantes, como a que Harry canta "Volver, Volver" numa festa de aniversário de uma família latina, aliás o filme conta com uma bela trilha sonora, como "El Llanto De Mi Madre" de Lydia Mendoza e "I See a Darkness" de Johnny Cash, que conversam com toda a aura do filme. 

"Lucky" nos mostra que nada é permanente, Harry interpreta a si mesmo e desafia a morte a cada dia, sabe que ela está à espreita, é consciente disso e ao fim sorri, não tem como não se comover, ele olha diretamente para a câmera com olhos marejados e abre um sorriso, uma sensação de liberdade em aceitar o inevitável e saber o quão sortudo foi chegar até esse ponto. A velhice e tudo que a acompanha é retratada com honestidade e delicadeza, a lucidez de encarar o fim é magistral neste longa. Uma despedida tocante de Harry Dean Stanton e um começo brilhante de John Carroll Lynch.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Under the Tree (Undir Trénu)

"A Sombra da Árvore" (2017) dirigido pelo islandês Hafsteinn Gunnar Sigurðsson (Paris do Norte - 2014) retrata situações embaraçosas e falhas de caráter, imperfeições desconcertantes que nos leva a refletir nas relações do dia a dia, no convívio com os familiares, vizinhos e colegas, quando pequenas coisas se tornam desavenças e por muito pouco explodem e se transformam em tragédias, os absurdos cotidianos estão espalhados por aí e o filme é sagaz ao expô-lo com muito humor negro.
Depois de ser expulso de casa e impedido de ver a filha, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson) volta a morar com seus pais, que estão envolvidos em uma disputa em torno de uma grande e bela árvore que faz sombra no deque do vizinho. Enquanto Atli luta pelo direito de ver sua filha, a rivalidade com os vizinhos se intensifica — propriedades são danificadas, animais de estimação desaparecem misteriosamente, câmeras de segurança são instaladas e há um boato de que o vizinho foi visto com uma motosserra.
O constrangimento faz parte de toda a trama, logo no início vemos Agnes (Lára Jóhanna Jónsdóttir), a esposa de Atli o flagrando vendo um filme pornô e do qual ele é o protagonista, posto pra fora de casa e impedido de ver a filha volta para a casa dos pais, que estão em conflito com os vizinhos por conta da árvore, no começo Baldvin (Sigurður Sigurjónsson), o pai de Atli promete podá-la, mas no decorrer vão acontecendo algumas coisas que faz com que mude de ideia, o comportamento da mãe de Atli, Inga (Edda Björgvinsdóttir), se torna insustentável, cada vez mais rancorosa transforma o convívio impossível, entre agressões verbais, pneus furados, anões de jardim em poses indiscretas e animais que somem, somos conduzidos por mal-entendidos e confusões sem sentido, onde cada um pensa ter a razão, até tentamos entender as partes, mas os seres humanos retratados são mesquinhos, egoístas e sem nenhuma espécie de empatia, a angústia, o sofrimento os tornaram insensíveis.
Inga nega a morte do filho e remói isso dentro de si, se culpa e culpa os outros, cultiva sentimentos ruins e desconta da forma mais perversa, Atli é mentiroso, prepotente e machista, não vê o lado de sua esposa e todas as tentativas de aproximação são abusivas, sem nem um sinal de arrependimento ou empatia. Agindo irracionalmente tenta ver sua filha e para piorar se instala numa cabana no jardim da casa dos pais para vigiar a árvore, pois o vizinho tirou uma motosserra do carro, é engraçado que eles nunca pensam que estão cometendo absurdos, desesperados continuam e persistem em suas teorias, até que foge do controle total e o que sobra não é nada agradável. 

A insensatez é retratada de forma provocativa e trágica, uma crítica ao quanto a natureza humana tende a ser mesquinha e ter como certo apenas o próprio ponto de vista, de que apenas o outro tem defeitos e age como idiota, quem se sujeita a tais atos, como os retratados no filme, discutir por sombra de árvore ou que o cachorro defeca em sua grama está fechado em uma bolha e é incapaz de olhar para si e admitir os seus erros, e outro ponto é que descontar mágoa, frustração e sofrimento nos outros, como Inga, só faz cultivá-los ainda mais e elimina a chance de reflexão. 

"A Sombra da Árvore" desconcerta por apresentar pessoas que por ignorância e estupidez não se comunicam e tiram suas próprias conclusões, dificultando soluções e convertendo trivialidades em possíveis tragédias; a intolerância, o egoísmo, a mesquinhez, a prepotência e a impaciência é extremamente bem delineada na história e por mais descabida e risível que aparenta ser não destoa da realidade cotidiana.
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