quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Bom Comportamento (Good Time)

"Bom Comportamento" (2017) dirigido pelos irmãos Safdie (Amor, Drogas e Nova York - 2014) é um filme que consegue transmitir toda a ansiedade e loucura para o espectador, o protagonista interpretado maravilhosamente por Robert Pattinson nos instiga a percorrer junto dele por uma alucinante noite e sentir todas as vibrações que advém de uma série de situações-limite.
Após um malsucedido assalto a banco, Constantine Nikas (Robert Pattinson) vê seu irmão mais novo (Bennie Safdie) sendo preso e embarca em uma odisseia no submundo da cidade em que vive, numa tentativa cada vez mais desesperada e perigosa para tirar seu irmão da prisão. Ao longo de uma noite repleta de adrenalina, Constantine encontra-se em uma onda de violência e caos enquanto ele corre contra o relógio para salvar seu irmão e ele mesmo, sabendo que suas vidas estão por um fio.
O filme inicia-se com uma consulta psicológica em que Nick, interpretado por um dos diretores, Ben Safdie, vai colocando pra fora seus traumas, claramente ele sofre de algum problema mental, mas Constantine não gosta que tratem ele como uma criança e interrompe a consulta violentamente e promete um futuro bem melhor a seu irmão, seu plano é roubar um banco disfarçados, e é aí que o ritmo frenético entra em cena e persiste até o final. Nick acaba sendo preso e Constantine entra numa fissura de tentar de todas as maneiras livrá-lo, o que se sucede é um emaranhado de coisas que só pioram tudo. Constantine vai agindo impulsivamente com decisões equivocadas arrastando para o abismo todos que se aproximam dele.

O estilo alucinante conversa com a trilha sonora eletrônica de Oneohtrix Point Never, assim como a fotografia escurecida e brilhante do neon criando uma atmosfera tensa e suja. Robert Pattinson como Constantine impressiona, o desespero e a confusão o cerca o tempo todo e por muitas vezes ele manifesta uma frieza que se faz necessária para que escape da situação, Constantine é só um cara que apostou suas fichas num assalto e perdeu, com o desejo de "salvar" o irmão e se dar bem entra numa espiral de acontecimentos que o fará deixar a moral de quando em quando de lado, mas em nenhum momento julga-se o personagem, ele está apenas sem rumo e tentando acertar com os poucos recursos que têm, suas escolhas refletem o meio decadente em que vive.

A composição do personagem é algo a se destacar, a câmera enfatiza o tempo todo os trejeitos, o olhar vidrado e perdido e o como ele conduz o que vai lhe acontecendo numa sufocante corrida contra o tempo, essa sua saga vai arrastando tudo ao redor e nos transporta também por essa nebulosa noite. 
"Bom Comportamento" é visceral e extasiante, com um roteiro bem amarrado e final coeso, sem dúvida, uma grande surpresa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Nocturama

"Nocturama" (2016) dirigido por Bertrand Bonello (Tirésia - 2003, Saint Laurent - 2014) é um filme que toca num assunto atual e polêmico, a pseudo-conscientização, onde falta conhecimento e sobra ímpeto. Uma história tensa apesar de caminhar lentamente e que fisga por sua bela fotografia, cenários magnificentes em longos planos panorâmicos, e claro, a reflexão sobre a contradição que permeia os ideais dos jovens, a banalização dos movimentos políticos e o quão isso vem afetando cada vez mais o mundo. Paris tem sido alvo constante do terrorismo, e por isso se torna ainda mais atrativo, passamos o filme todo tentando encontrar respostas para os atos, mas só enxergamos um anarquismo sem propósito. Dentro deste tema, jovens contra o consumismo, há um brilhante filme alemão, "Edukators", que disserta melhor sobre.
Em Paris, um grupo de jovens de diversas origens se organiza para planejar uma série de atentados terroristas. Quando todas as bombas explodem e a cidade se transforma num caos, eles se escondem num centro comercial durante a madrugada. Enquanto esperam o tempo passar, pensam sobre as possíveis consequências de seus atos e sobre eventuais falhas capazes de comprometer o plano. O filme propõe uma perspectiva diferenciada, sem estigmatizações, os jovens são de diferentes origens, mas todos bem vestidos, apreciadores de música eletrônica e que inspirados pela revolução francesa arquitetam um plano e implantam bombas em prédios importantes e estátuas, como o palácio do Ministério do Interior, a Global Tower no centro financeiro, a estátua de Joana D’Arc, entre outros. Acompanhamos cada passo e sentimos a ansiedade e tensão juntamente a eles, quando tudo explode se escondem em um shopping center, lá ao invés de acompanharem as notícias, estão mais interessados em matar o tédio e assim usufruem do bom e do melhor, trocam de roupas, inclusive encontrando seus clones em manequins, ou seja, o local que é um antro de consumo foi deixado ileso e tido como um esconderijo seguro, nesta parte é impressionante analisar que independente de ideais o ser humano se sente confortável e amparado nestes locais de consumo, e o mais bizarro é que são imunes e parecem não pertencer aos símbolos de poder que esses jovens destruíram. As consequências é o que menos importa, o número de mortos e as notícias que passam na TV são julgadas falsas por eles, preferem se alienar ouvindo música e pegando o que lhes interessa das lojas. Há inúmeros simbolismos espalhados e o paradoxo é gritante.

Chega um momento que o medo se instaura, a polícia vai para matar e eles sabem disso, não há como se esconder ou se redimir, os instantes finais angustiam pela crueza, os olhos dos personagens arregalados, movimentos estressados, desmantela-se a imagem do início, jovens seguros de sua ideia de revolta, da violência como protesto, da rebeldia contra o sistema, e terminam como jovens inseguros, medrosos, inconstantes e vazios de seus princípios, contaminados por um espírito revolucionário mentiroso e banal.

"Nocturama" é uma obra bem estruturada, o terrorismo ganha um tom enigmático e impactante, uma perspectiva assombrosa dos nossos tempos e inteligente ao desmanchar estereótipos e motivações.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ma' Rosa

"Ma' Rosa" (2016) dirigido por Brillante Mendoza (Lola - 2009, Vosso Ventre - 2012) assume um tom documental, câmera na mão, ágil, nervosa, acompanhamos a história de Rosa, suas interações, controlando tudo ao redor, comprando comida, cobrando dívidas e gerenciando seu pequeno comércio que esconde a venda de drogas, uma vida de pobreza tão semelhante a tantos outros lugares do mundo. É um retrato inquietante e cada vez mais corriqueiro, o tráfico de drogas de pequeno porte e a corrupção da polícia que abusa dessas pessoas. 
Em Manila, cidade que é a capital da República das Filipinas, vivem Rosa, Nestor e seus três filhos. Eles possuem uma pequena mercearia, um negócio familiar no qual trabalham. No entanto, a aparentemente calma rotina da família e do estabelecimento comercial é apenas uma fachada para que Rosa e Nestor possam vender metanfetamina. Certa noite, a polícia chega no local com o objetivo de acabar com a operação criminosa e prender Rosa e Nestor.
Filmado durante a estação de chuvas, o clima abafado dá o tom de sufocamento diante aos acontecimentos, quando Rosa e Nestor são presos as atitudes cada vez mais absurdas dos policiais vai nos dando enjoo, o crime de tráfico de drogas tem pena grave nas Filipinas, por isso a prática de extorsão é muito comum, mas em nenhum momento julga-se, afinal é uma escala hierárquica abusiva, ao analisar o caso pedem um valor da fiança/propina, e é aí que entra os filhos de Rosa para tentar juntar esse dinheiro pedindo a familiares e amigos, essa saga deles é retratada com muito realismo e vários sentimentos surgem, como desespero, humilhação, esperança, em meio a tanta coisa ruim acontecendo eles têm a união e o amor por tudo o que a mãe representa, uma matriarca forte e zelosa. 
O longa apresenta uma história dura que expõe as mazelas da sociedade, a pobreza, o tráfico de drogas, a corrupção policial, tudo envolto por um realismo nervoso, por mais que o desenrolar tenha algo de moroso é impossível não se envolver, a montagem é ótima ao sempre estabelecer um clima tenso, também há momentos de humor que revela o jeito como os policiais agem, são longos planos dentro da delegacia, enquanto analisam o caso e pedem para que Rosa denuncie seu fornecedor, bebem e comem à custa do dinheiro de propina, uma imagem aparentemente estereotipada, mas, que infelizmente, sabemos que é assim mesmo, outro ponto é a sutileza, que se encaixa dentro dos acontecimentos e vão denunciando todo o caos.

Não é difícil se apegar a figura de Rosa, uma mulher que busca o sustento de casa com muito suor, pensa nos seus filhos, nas dívidas e diante disso tenta vencer a pobreza com a venda de drogas, uma situação comum em muitos lugares do mundo e por isso soa tão familiar. É um filme que angustia por vermos a polícia tirando ainda mais do pobre, Rosa não é um "peixe grande", como dizem, assim como seu fornecedor, mas perante a possibilidade de ganhar um a mais e por conta também da lei do país, agem na encolha e fazem este tipo de negociação, me dá tanto e tá livre. Os filhos de Rosa agem em conjunto demonstrando gratidão, e é bonito ver que por mais sofrimento que estão passando e irão passar para pagar depois todos que ajudaram há uma perspectiva de "vamos em frente".

"Ma' Rosa" é um alerta, Brillante Mendoza traça um retrato honesto e enervante de seu país, mas que conversa com qualquer outra parte pobre do mundo, filme forte, crítico e real. Destaque para a maravilhosa atuação de Jacklyn Jose como Rosa, sua postura e olhar transpassa a tela e nos atinge em cheio, especialmente, na cena final. 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

The Square

"O Quadrado é um santuário de confiança e cuidado. Dentro dele, todos compartilhamos direitos e obrigações iguais."

"The Square" (2017) dirigido por Ruben Östlund (Força Maior - 2014) é um filme que expõe uma perspectiva crítica à elite cultural europeia, em especial, a sueca, e disserta o como a arte vem sido repelida ao invés de provocar curiosidade, questões como os limites e o vazio das obras, há uma crise dentro desse universo e mesmo que a história gire em torno da sociedade europeia, percebemos que o sentido da arte contemporânea anda sendo questionado no mundo todo, além disso coloca em ênfase a contradição, enquanto uma obra em exposição sugere solidariedade, colaboração e empatia, os atos são completamente opostos, onde retrata uma população solitária, vazia e sem qualquer traço de cuidado com o outro. A medida que o filme avança vamos somando itens e refletindo sobre eles, a cada cena sugere-se mais de um significado.
Christian (Claes Bang), curador de um museu está usando de todas as armas possíveis para promover o sucesso de uma nova instalação. Entre as tentativas para isso, ele decide contratar uma empresa de relações públicas para fazer barulho em torno do assunto na mídia em geral. Mas, inesperadamente, isso acaba gerando diversas consequências infelizes e um grande embaraço. As situações vão se costurando, enquanto está rolando a polêmica divulgação da nova obra, Christian está interessado mais em recuperar seus pertences roubados, o que demonstra todo o seu egoísmo e seu ar de superioridade, as discussões morais que se sucedem revelam o absurdo e a todo instante ele é confrontado pelos valores que defende. Há uma gama de assuntos permeados por um humor desconfortável, pois revela a hipocrisia do politicamente correto, onde pregam o amor e disseminam descaso, diálogos sobre solidariedade ao mesmo tempo que passam por mendigos, no caso, imigrantes, que são invisíveis ou alvos de preconceito por essa mesma elite que engana com supostos trabalhos sociais. Christian não é um ser humano execrável, mas acompanhamos toda a fragilidade que existe nessa teoria do ajudar, ao mesmo tempo que demonstra o outro lado, a vítima abusando por perceber o medo nas pessoas. 
O filme segue como uma série de episódios e possui sequências fantásticas, como a da apresentação do homem que imita um gorila, interpretado magistralmente por Terry Notary - especialista nessa habilidade corporal, ele caminha por um salão requintado repleto de conhecedores da arte e filantropos, a performance é violenta, assustadora, o comportamento dele depende do como reagem, essa cena foi inspirada em uma performance de 1996 do russo Oleg Kulik em Estocolmo, que incorporando um cachorro agia conforme o público reagia a ele, claro que essa extravagância não acabou bem, assim como no filme.

Tudo que está sendo exposto pode ser considerado arte, inovação, metáfora, símbolos para as angústias, crises e vazios da atualidade? A arte é desprezada pela população comum, não há interesse em algo que não foi feito para compreender, parece alimentar apenas um grupo de pessoas, um nicho que se finge de culto para parecer superior aos demais. O monte de cascalho sendo varrido pelo faxineiro por confundir com sujeira - também inspirado em casos reais - é a demonstração da irrelevância da obra, não há substância, verdade, apenas ilusão, interesses, e poder. A preocupação social que essa elite demonstra é puro fingimento, não passa de palavras e passatempo.
Christian por conta do desencadeamento do roubo dos seus pertences e sua ideia para tê-los de volta passa por momentos que o aproximam da realidade, o garoto que vai atrás dele por se sentir rebaixado e para que ele peça desculpa pelo mal-entendido é apenas uma das circunstâncias embaraçosas do emaranhado social e que não chega nem próximo dessas teorias de politicamente correto e ideias de amor ao próximo.

O filme joga variadas cartas políticas e sociais recheadas de referências e o espectador vai juntando-as e criando uma ampla rede de reflexão. Ruben Östlund exibe sua genialidade ao caminhar entre muitos tipos de conhecimentos, cinema, fotografia, música, arte, crítica social, o que gera um aglomerado de situações que nem sempre se conectam, mas que abrem um leque de interpretações.
"The Square" reflete a dificuldade de se agir conforme os próprios valores, além de questionar os limites e o valor da arte na sociedade, o como ela está fechada em conceitos e passando longe da realidade, essa que os artistas dizem representar em suas obras; os excessos absurdos do marketing nas redes sociais, o vazio, o comodismo que a condição social produz, o egocentrismo, relações distantes e sem valor. São inúmeras as camadas, é um filme que pede revisão, certamente cada vez agregando e produzindo reflexão. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

13 Filmes sobre Arquitetura (13 Movies about Architecture)

Segue uma lista em que a arquitetura é também protagonista das histórias e cujos personagens são apaixonados diretamente ou indiretamente por essa profissão/arte, onde obras e espaços ganham grandes dimensões atingindo-nos tanto psicologicamente como emocionalmente. 
*Não incluí documentários. 
*A numeração é questão de ordem e não preferência.

- Por que você quer ser um arquiteto?
- Para criar espaços.
- Os espaços não são nada além de vazio.
- O vazio que deve ser preenchido.                        (La Sapienza - 2014)

13- "Arquitetura 101" (Geonchukhakgaeron - 2012) Coreia do Sul
Seung Min, arquiteto com 35 anos, recebe uma visita em seu escritório de uma mulher, a qual ele não reconhece de início, mas depois percebe que a mulher é Seo Yeon, o seu primeiro amor, que ele não a vê desde o seu primeiro ano de faculdade. Seo Yeon tem agora um pedido, ela quer contratá-lo para reconstruir sua casa, na ilha Jeju. 15 anos atrás, Seung Min era um jovem ingênuo começando seus estudos de arquitetura na faculdade, ele encontra pela primeira vez Seo Yeon em sua aula de arquitetura 101, e como tiveram que trabalhar em um projeto de classe juntos, Seung Min e Seo Yeon começam a se apaixonar. Voltando para os dias atuais, Seung Min está hesitante em aceitar a proposta de Seo Yeon, mas ela persiste e ainda vai ao chefe dele com seu desejo, deixando-o sem escolha, mas para assumir este projeto, velhas lembranças de amor e desgosto ressurgirão. Como eles lidarão com este encontro que se deu em um momento que suas vidas seguem diferentes rumos?

12- "O Som ao Redor" (2012) Brasil
A vida numa rua de classe-média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, e tensão para outros, numa comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia, casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho. Uma crônica brasileira, uma reflexão sobre história, violência e barulho.

11- "Flores Raras" (2013) Brasil
Ambientado no Brasil dos anos 50, o filme contará a história do relacionamento entre a poeta norte‐americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. Extremamente rico e, ao mesmo tempo, bastante conturbado, esse relacionamento rendeu frutos que são marcos artísticos universais: de um lado, a poética de Bishop, cujo auge ocorre exatamente no período brasileiro da poeta; de outro, a idealização e construção do Aterro do Flamengo, obra arquitetônica mundialmente conhecida, nascida do gênio delirante de Lota. Ao mesmo tempo, o filme será um passeio pela vida política, privada e pela história brasileira do Rio de Janeiro, na década de 50.

10- "24 City" (Er Shi Si Cheng Ji - 2008) China
A fábrica estatal 420 e seus dormitórios populares, que existem há 50 anos na província de Chengdu, na China, estão sendo demolidos para dar lugar ao condomínio 24 City, um complexo de apartamentos de luxo. Acompanhamos as histórias ficcionais de três mulheres cujas existências foram marcadas pelo trabalho na fábrica. Paralelamente, cinco homens que fizeram parte da vida destas mulheres dão seus depoimentos reais para a câmera. De três gerações diferentes, as memórias destes trabalhadores confunde-se aos poucos com a história da China.

09- "Vontade Indômita" (The Fountainhead - 1949) EUA
Howard Roark (Gary Cooper) é um arquiteto independente, que dá mais importância aos seus ideais do que aos seus compromissos. Howard se apaixona por Dominique Francon (Patricia Neal), uma herdeira, mas termina a relação quando tem a oportunidade de construir edifícios de acordo com seus próprios desejos. Dominique casa com um magnata da imprensa, Gayl Wynand (Raymond Massey), que no princípio comanda uma forte campanha contra o "radical Roark", mas eventualmente se torna o partidário mais forte dele. Ao ser firmado um contrato de moradias populares, há a condição que os planos de Roark não serão mudados de forma nenhuma, mas ele fica surpreso ao descobrir que suas determinações serão radicalmente alteradas. É quando resolve revidar, custe o que custar.

08- "Metropólis" (Metropolis - 1927) Alemanha
O ano é 2026, a população mundial se divide em duas classes: a elite dominante e a classe operaria; esta condenada desde a infância a habitar os subsolos, escravos das monstruosas máquinas que controlam a Metrópolis. Quando o filho do criador de Metrópolis se apaixona por Maria, a líder dos operários, tem inicio a mais simbólica luta de classe já registrada pelo cinema.

07- "Terra dos Faraós" (Land of the Pharaohs - 1955) EUA
No antigo Egito um faraó (Jack Hawkins), ao retornar de uma campanha vitoriosa, decide construir uma pirâmide, onde será enterrado juntamente com seu tesouro, que espera desfrutar em uma segunda vida. Para garantir que nada será roubado ele aprova a ideia de um arquiteto, que é seu prisioneiro, juntamente com seu povo. Eles fazem um acordo, que se o arquiteto construir esta magnífica pirâmide os cativos serão gradativamente libertados durante a construção. Porém a empreitada é demorada, assim o faraó cobra tributos dos territórios conquistados para poder erguer esta gigantesca pirâmide. A província de Cipros não envia nada a não ser uma bela princesa (Joan Collins), que seria o tributo. O faraó acaba se casando com ela, que se torna a segunda esposa. Entretanto, ao ver os tesouros do faraó, ela seduz o guarda do tesouro e arquiteta como poderá ser a nova rainha do Egito e ficar com todo aquele ouro.

06- "A Barriga do Arquiteto" (The Belly of an Architect - 1987) Reino Unido
Arquiteto americano viaja com a esposa para Roma a fim de organizar uma exposição em memória de influente arquiteto francês. Lá, ele descobre ter um tumor maligno e à medida que a doença se desenvolve, seu casamento se desmorona e sua carreira sofre um colapso.

05- "O Arquiteto" (The Architect - 2006) EUA
O arquiteto Leo Waters (Anthony LaPaglia) vive uma crise familiar: sua esposa está infeliz com o casamento, sua filha adolescente está começando a se descobrir, e seu filho acaba de desistir da faculdade. Ao mesmo tempo, Leo recebe um pedido para assinar uma petição para destruir um prédio que ele mesmo projetou.

04- "Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual" (Medianeras - 2011) Argentina
Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) vivem na mesma rua, em edifícios opostos, mas eles nunca se conheceram. Eles andam pelos mesmos lugares mas nunca notaram um ao outro. Quais são as chances deles se conhecerem em uma cidade de três milhões de habitantes? O que os separa, irá uni-los. "Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada em um país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios sem nenhum critério. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo. Provavelmente estas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas. Esses prédios que se sucedem sem lógica, demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida, que construímos sem saber como queremos que fique..." Saiba+

03- "O Homem ao Lado" (El Hombre de al Lado - 2009) Argentina
Leonardo, bem sucedido desenhista industrial, é acordado um dia em casa com um terrível barulho de obra. Em choque, constata que seu vizinho Victor está abrindo um buraco na parede para construir uma janela bem de frente à sua casa. Leonardo protesta utilizando todos os argumentos possíveis para demovê-lo. Mas os modos extremamente amistosos de Victor, que diz apenas querer mais raios de sol, o irritam de tal forma que ele torna-se obcecado com a intrusão e começa a negligenciar trabalho, família e tranquilidade. Saiba+

02- "A Sapiência" (La Sapienza - 2014) França/Itália
O arquiteto francês Alexandre Schmidt, interpretado por Fabrizio Rongione, viaja à Itália para encontrar inspiração e conhecimento no trabalho de seus ídolos Guarini, em Turim, e Borromini, em Roma. Ele busca o renascimento e a superação do seu passado através das linhas e da história do Barroco. Mas Alexandre encontra algo mais: uma história de amor.

01- "Columbus" (2017) EUA
Casey (Haley Lu Richardson) vive com sua mãe em uma cidade pouco conhecida e assombrada pela promessa de modernismo. Jin (John Cho), um visitante do outro lado do mundo, visita seu pai que está quase falecendo. Sobrecarregados pelo peso do futuro, eles encontram refúgio um no outro e na arquitetura que os rodeia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Loveless (Nelyubov)

"Loveless" (2017) dirigido pelo russo Andrei Zvyagintsev (Elena - 2011, Leviatã - 2014) é um filme sombrio que retrata as consequências de se viver em desamor, essa ausência de afeto está tanto dentro do seio familiar, como na sociedade que apequena o ser humano tornando-o preocupado e obcecado com regras e dinheiro. Zvyagintsev filma o desencanto que envolve a sociedade russa, o ambiente é um grande personagem também, o frio congelante que devasta os bosques é o reflexo da languidez e indiferença humana, o apuro da câmera ao atravessar esses lugares destruídos logo no início é um prenúncio de que algo muito ruim irá acontecer, e assim se dá e o vácuo que se instaura machuca o espectador.
Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente. Zhenya é amarga e infeliz, se arrepende de ter se casado e ter tido o filho, Boris é ausente e não há qualquer sinal de afeição pelo filho, as brigas entre eles são constantes e pesadas e o garoto ouve as duras palavras de desprezo, o vemos sempre absorto e fechado, até que um dia resolve fugir de casa. A cena dele chorando enquanto os pais brigam é dilacerante e gera um sentimento de desesperança, aliás, Zvyagintsev é um diretor que sempre está envolto nessa questão, seus filmes são duros e pessimistas, reais e humanos, não há floreios ao expor as dores.
A preocupação de Boris é o seu trabalho, como está se divorciando faz de tudo para garanti-lo, já que seu chefe dá valor a esta convencionalidade, então ele engravida a sua namorada para não colocar sua posição em risco, o casamento é apenas um meio para estar dentro das regras hipócritas da empresa, da religião e livre de qualquer apontamento na sociedade. Zhenya também está namorando, dessa vez acredita que pode vivenciar a felicidade, mesmo que o namorado seja apático pode garantir um status e lhe dar tudo o que quer, esse relacionamento permite que esqueça sua vida, a maior parte do tempo ela está compartilhando fotos nas redes sociais, uma grande forma de escapismo dos dias atuais. Já Alyosha fica à mercê da vida, o descaso dos pais é imenso e chega a um ponto de não aguentar mais e ir embora, o modo que a mãe reage ao sumiço, inclusive demora a percebê-lo, é alheio, sente-se perdida, recorre a Boris que a escuta friamente, e então recorre a polícia que a ouve também com frieza, chama a atenção mesmo quando o chefe de um grupo de resgate voluntário faz as perguntas para começar a busca e Zhenya não sabe responder claramente. Ela não conhece o próprio filho.

O filme não está interessado em dar pistas ou um desfecho ao desaparecimento de Alyosha, o que importa é a demonstração dos valores corrompidos, o individualismo, o vazio, a brutalidade que vem da indiferença. E o principal aqui, não há redenção, por mais desespero e arrependimento que esses pais sentiram, não há nenhuma transformação. Os personagens estão perdidos em si mesmos, se apoiando em convenções, regras e falsas alegrias, afogados na banalidade do cotidiano esquecendo-se  do palpável, nada de bom pode surgir disso, resta apenas disseminar o desamor que brota.

Profundamente cortante, uma obra que retrata o ser humano sob uma ótica peculiar, corajosa e sem julgamentos, as sombras, as frustrações, os ressentimentos, os olhares dispersos e esvaziados, as lágrimas que escorrem escondidas enquanto sorrisos explodem diante da tela do celular, a complexidade dos sentimentos, a criança em prantos sentindo todo o peso da vida em seus ombros, a culpa jogada em cima do mais fraco, a falta de consciência e a sociedade que esmaga; o leviatã.
"Loveless" pesará de um jeito diferente a cada espectador, o seu poder de reflexão é agudo, mas imensamente necessário. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mãe! (Mother!)

"Mãe!" (2017) escrito e dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro - 2010) não é um simples suspense ou terror psicológico, é um filme complexo de muitas camadas que passeia por diversas metáforas e alegorias. Um obra grandiosa que disserta sobre religião, natureza, feminismo e tantos outros temas que se desnovelam ao decorrer e que cada espectador sentirá, absorverá e interpretará de uma forma, as questões são amplas e isso é algo maravilhoso, o poder de reflexão é imenso. 
Um casal vive recolhido no meio de um campo em um imenso casarão de estilo vitoriano. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções. 
O início começa com uma narrativa comum com uma esposa dedicada e submissa e um marido egocêntrico que vive um bloqueio criativo, enquanto ela conserta e se doa para manter a casa aconchegante, o marido só pensa em si. Essa rotina é quebrada quando um estranho visitante (Ed Harris) aparece e é acolhido sem nem ao menos a dona da casa ser consultada, a visita não é agradável e o desconforto dela aumenta quando bate a porta uma mulher (Michelle Pfeiffer), justamente a esposa deste que está em sua casa, e para sua surpresa ela é mais invasiva ainda. Ela não os deseja ali, mas os dois são colocados para dentro de sua casa e as situações vão se tornando cada vez mais constrangedoras e insustentáveis. A força da personagem de Lawrence é sugada pouco a pouco e isso nos atinge de maneira desconfortável, ela vai perdendo sua dignidade toda vez que é ignorada, que não é ouvida. Toda a perspectiva da história é passada através de sua personagem, sob o seu ponto de vista e por isso a câmera não desgruda dela, são enquadramentos claustrofóbicos e sequências angustiantes em que ela experimenta sensações e visões, essas que só são compreensíveis e encaixadas em seus momentos finais. 

O filme te captura inicialmente por uma narrativa aparentemente simples, mas a medida que avança o suspense com a invasão domiciliar o terror vai tomando conta, perturbando o espectador com cenas surreais, mas que vão se encaixando em metáforas e muitas possibilidades de interpretação. A segunda metade do filme é o caos total, a casa se torna um antro, os efeitos sonoros eclodem criando uma atmosfera enlouquecedora, a alegoria religiosa está bem delineada, a fé, a idolatria dos símbolos cristãos, a guerra, a destruição e o ciclo. O personagem de Javier Bardem representa Deus, vaidoso e egoísta, que necessita criar sua obra para ser amado e idolatrado, daí então conceber a vida, para isso necessita da Mãe, Jennifer Lawrence é a Casa, a Mãe Natureza. Ela cuida, se doa, se sacrifica. 

São várias as referências bíblicas do Gênesis ao Apocalipse, como "A Criação de Adão e Eva", "Expulsão do Paraíso", "Caim e Abel", "O Grande Dilúvio", "A Queda de Lúcifer", "A Crucificação de Jesus Cristo", "O Apocalipse", "A Nova Terra", mas o filme não se resume a esta representação e revela temas como opressão feminina, culto aos ídolos, narcisismo, natureza, feminilidade, moralismo; a relação entre o abuso do patriarcado à mulher ao tratamento que os humanos destinam à natureza.
Apesar de triste e até niilista há uma ponta de esperança, pois o novo nasce do caos e da mais profunda escuridão, surge a luz!. "Mãe!" é sádico e causa desconforto, são inúmeras metáforas visuais e a cada cena somos inseridos nesse universo amplo e onírico, é um filme que exige atenção e pede revisões, uma experiência cinematográfica intrigante, desesperadora e grandiosa. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...