sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Última Vida no Universo (Ruang Rak Noi Nid Mahasan)

"A Última Vida no Universo" (2003) dirigido por Pen-Ek Ratanaruang (Ninfa - 2009) causa estranhamento, mas tem imensa sutileza ao tratar da solidão, os simbolismos e metáforas também fazem parte da trama, o que dá um tom por vezes de fantasia.
Kenji (Tadanobu Asano) é um jovem bibliotecário japonês que mora em Bangkok, na Tailândia. Extremamente tímido, é obcecado por organização e pela morte (especialmente a dele mesmo e não necessariamente nessa ordem). De repente, uma tragédia coloca à sua frente Noi (Sinitta Boonyasak), uma garota que é o seu oposto: desencanada, expansiva e que vive em uma casa que parece ter brigado definitivamente com a vassoura e com o detergente há décadas. Depois de um início cheio de estranhezas, os dois vão se entendendo. Ok, pode parecer mais uma dessas histórias em que os opostos se atraem, onde a maluquinha conquista e é conquistada pelo cara tímido e estranho, mas não é bem assim…
Kenji é meticuloso e pensa na morte como uma espécie de purificação, seu apartamento reflete seu estado de espírito, a cor branca, a decoração e suas roupas denotam uma grande melancolia. Passa seus dias trabalhando na biblioteca, mas quando seu irmão, o Yakuza Yukio (Yutaka Matsushige) chega fugido do Japão, tudo se complica e uma série de encontros e desencontros acontecem entre ele e Nid (Laila Boonyasak), irmã de Noi, que trabalha como hostess vestida de colegial japonesa numa casa noturna que Yukio frequenta. Num momento em que Kenji simula seu suicídio em cima de uma ponte, as irmãs brigam dentro do carro, Nid sai e o vê, ao ir até ele um carro a atropela e a mata. A partir daí Kenji e Noi passam a viver juntos, e ao contrário de Kenji, a moça é completamente desorganizada, sua casa está virada do avesso, louças sujas por toda a parte, tudo jogado pelo chão. Interessante que Kenji sinta aconchego no caos. A relação deles segue de forma nada convencional, a língua é uma barreira. Há muita angústia, tristeza e solidão.  
Difícil descrever "A Última Vida no Universo", é preciso assisti-lo sabendo que não é um filme comum e que ele vai exercer fascínio mesmo não o entendendo por completo, cada um o absorverá de uma maneira. Há pitadas de humor, romance, fantasia, mas a melancolia se sobressaí, ele não segue uma linha, alterna entre passado, presente e até futuro, passagens em que o sonho se mistura à realidade, está tudo ali, vida/morte, ordem/caos. 
Tadanobu Asano tem delicadeza ao atuar, um personagem cativante e soturno, outro destaque é a participação do diretor Takashi Miike como o mafioso da Yakuza. Numa das cenas acontece uma referência a "Ichi, o Assassino" (2001), um filme dirigido por Miike e estrelado por Asano.

A morte, as relações que se constroem a partir do acaso, a incomunicabilidade, a necessidade do afeto, a vida. Esse são alguns temas refletidos na trama, mas há tanto para se explorar, emoções provocadas que não entendemos. 
O poster do filme, por exemplo, diz muito: dois corpos desarticulados, unidos e desunidos, uma possibilidade de afeto, mesmo que não haja uma comunicação. Eles vão se descobrindo no decorrer e enxergam similaridades.

"A Última Vida no Universo" é um exemplar fascinante do cinema asiático, uma poesia a se decifrar, uma relação que nasce por algo em comum, a dor e a ausência os fazem construir um novo universo, estranho e silencioso, ela encontra a ordem para refazer seu caos, e ele o caos, a centelha de vida para sua ordem.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Perfeitos Desconhecidos (Perfetti Sconosciuti)

"Perfeitos Desconhecidos" (2016) dirigido pelo italiano Paolo Genovese (Tutta Colpa di Freud - 2014) tem um enredo atualíssimo que brinca com a forma que lidamos com as redes sociais, a relação de dependência com o celular, e especificamente segredos que algumas pessoas guardam em seus celulares, são tantos meios de comunicação que fica impossível desgrudar os olhos da tela, desligar o aparelho então nem pensar, a ansiedade por uma mensagem, um convite, uma curtida deixa sempre todos alerta, dividindo a atenção entre o real e o virtual. Mas acontece que as pessoas tem várias vidas, uma pública, uma privada e uma em segredo, partindo dessa frase dita por Gabriel García Marquez, acompanhamos um jantar, onde encontram-se sete amigos, quatro homens e três mulheres, na mesa surge a ideia de um jogo, onde todos colocam seus smartphones a fim de compartilharem suas mensagens e ligações durante o jantar, mostrando assim que não têm nada a esconder de seus parceiros. A ideia não é bem vista por alguns, porém já compromete-se quem falar não, os rostos ficam tensos e o jantar se desenrola até que algumas revelações e mal-entendidos surgem.
Eva (Kasia Smutniak) é terapeuta e é casada com o cirurgião plástico Rocco (Marco Giallini), eles tem uma filha adolescente que não se entende com a mãe, mas tem um forte laço com o pai, o casal passa por problemas por conta disso, porém resolvem juntar os amigos em um jantar, Cosimo (Edoardo Leo) e Bianca (Alba Rohrwacher) recém-casados e apaixonados, Lele (Valerio Mastandrea) e Carlotta (Anna Foglietta) que se distanciaram, mas fingem estar bem. E o sétimo convidado é Peppe (Giuseppe Battiston), que é aguardado com impaciência, pois apresentará sua namorada, só que ao chegar dá a desculpa de que ela está doente. Todos subestimam Peppe e por isso ele não conta muito sobre sua vida. 
O filme é uma comédia de humor negro com roteiro super elaborado, tem grandes sacadas e momentos constrangedores, a ideia de colocar os celulares em cima da mesa para que todos saibam quem liga ou manda mensagens faz com que as máscaras caiam e segredos apareçam, o clima fica pesado e o desconforto entre eles torna tudo intragável.
Quem nunca se perguntou o que tanto o seu amor olha no celular, a curiosidade de vasculhar, de dar aquela olhadinha, "o será que..." atormenta muitos relacionamentos, o filme coloca o dedo exatamente nesta ferida e faz crítica de modo inteligente. Todos ali na mesa têm rabo preso, uns mais que outros, eles fingem serem melhores amigos, compreensivos, fiéis, leais e que se amam independente de qualquer coisa.

É fato que o celular é praticamente um membro a mais do corpo de muito ser humano por aí, difícil é encontrar uma pessoa que não se sinta com a sensação de algo faltando quando não está com o seu aparelho, é uma compulsão por saber das informações, que na maioria das vezes são inúteis e supérfluas, óbvio que é uma ótima forma de comunicação, mas saber quando parar devia ser predominante, especialmente quando se compartilha da companhia real de alguém, em muitos casos enquanto você está lá, o outro está mais interessado numa conversa virtual, ou tirando fotos da ocasião sem a vivenciar de fato. 

Com roteiro e interpretações impecáveis, diverte e reflete sobre nosso comportamento com o celular, a sensação de constrangimento permeia uma boa parcela da história, explora questões que fazem parte da vida de todos nós, mais atual impossível, discute acerca do como a tecnologia interfere nas relações amorosas, a divisão de atenção entre a relação real e as interações virtuais, além de mostrar o quão vulneráveis somos, confiando na "caixa preta", como um dos personagens define o celular, para esconder deslizes, segredos íntimos e outras bobagens constrangedoras.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Nise: O Coração da Loucura

"Há dez mil modos de pertencer à vida, e de lutar por sua época."

"Nise: O Coração da Loucura" (2015) dirigido por Roberto Berliner (A Pessoa é para o que Nasce - 2005) é um grande filme nacional que retrata a luta da Dra. Nise da Silveira, a psiquiatra que ousou tratar de pacientes de um hospício da década de 1940 usando a criatividade, o carinho e a arte como instrumentos de trabalho.
A história do longa inicia-se em 1944, quando Nise (Glória Pires) retorna ao trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Ela tinha sido presa durante o Estado Novo – a ditadura de Getúlio Vargas – ao ser denunciada por uma enfermeira por ter livros marxistas. Ao chegar Nise se espanta com o ambiente em que vive os pacientes, um local abarrotado de sujeira, sem dignidade alguma, e, principalmente, pelos maus-tratos e tratamentos utilizados, como a lobotomia e terapia de choque elétrico, horrorizada com a maneira com que tudo é conduzido diz ao diretor do Centro, Dr. João (Zécarlos Machado), o que pensa sobre isso e que jamais conseguiria fazer tal coisa, no que acabou sendo designada para o Setor de Terapia Ocupacional, um espaço abandonado. Nise tem garra e arregaça as mangas, limpa todo o ambiente com a ajuda apenas da enfermeira Ivone (Roberta Rodrigues), já que o outro enfermeiro, Lima (Augusto Madeira), pouco se importa com o que vai ser feito, aliás ele é um personagem interessante que ao desenrolar muda completamente sua atitude, de um sujeito bruto e sem amor ao que faz, graças a Nise, ele entendeu que com carinho dá-se um jeito, os avanços dos pacientes com a pintura foram enormes, a sociabilidade foi uma das grandes mudanças. 
O filme tem um valor imensurável por retratar Nise da Silveira, essa figura feminina tão forte e que poucos conhecem. Glória Pires encorpora Nise de forma primorosa, sua expressão sempre dura, mas com gestos ternos, uma atuação louvável e engrandecedora. Os atores que interpretam os clientes, assim como a Dra. prefere chamá-los, sem exceção são espetaculares, Claudio Jaborandy na pele de Emygdio de Barros, que aos poucos toma consciência de si através da pintura, Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), que tem uma carência afetiva enorme também dá vazão a suas angústias pela pintura, Raphael (Bernardo Marinho), um garoto encolhido que se apega na estagiária Marta (Georgiana Góes) e traduz seus desejos fazendo desenhos. Lucio (Roney Villela), um cara violento e que sofre nas mãos dos médicos, libera toda a sua raiva modelando esculturas, Carlos Pertius (Julio Adrião), um falador, cuja sensibilidade é enorme, faz pinturas belíssimas. Otávio Ignácio (Flavio Bauraqui), se mostra sociável e livre depois de começar a frequentar a terapia, e Adelina Gomes (Simone Mazzer), solitária e violenta, se mostra uma mulher adorável e cheia de amor pra dar.

Nessa empreitada Almir (Felipe Rocha) tem significativa função, ele auxilia nas aulas de arte e compõe o cenário que Nise tanto preza, que é dotado de respeito pelos clientes. Escutá-los, entender o que aconteceu para que eles viessem parar ali, cada um tinha uma história e era preciso administrá-las de modos diferentes. A atenção era a chave para a melhoria, Nise se tornou uma mulher admirável, trocou cartas até com Carl Jung, levou as artes criadas em suas sessões de terapia ocupacional para museus e revolucionou o tratamento dos esquizofrênicos, num tempo em que os avanços nessa área era o choque elétrico e a lobotomia.
Nise batalhou e se impôs em um meio machista, se dispôs a dar dignidade, e com toda dedicação e atenção aos doentes mentais, considerados a escumalha da sociedade, sendo desprezados, jogados à mercê de experiências médicas, os inspirou trabalhando com as artes e a sociabilização, incluindo os animais, que dava a sensação de responsabilidade e um elo afetivo estável.

O roteiro muito bem estruturado nos transporta para o ambiente e a cada cena mergulhamos na luta de Nise, o sorriso dela ao ver o caos se amainando, a apreciação ao ver seus clientes se expressando lhe dá ainda mais impulso. O filme tem o poder de nos fazer refletir sobre a loucura e o quão necessário é pensar no como lidamos com pessoas que sofrem de algum tipo de doença mental, e claro, conhecer um importante recorte da vida dessa mulher extraordinária.
"Nise: O Coração da Loucura" é um filme intenso e emocionante que não cai em esteriótipos, todos os atores fizeram um trabalho crível. É uma produção de qualidade e extremamente fundamental.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nenette, a Meia-Irmã (Demi-Soeur)

"Nenette, a Meia-Irmã" (2013) dirigido e protagonizado pela excepcional Josiane Balasko (O Porco Espinho - 2009) é um filme divertido, leve, delicado e encantador. Nenette (Josiane Balasko) é uma senhora que tem a idade mental de uma criança de oito anos. Após a morte de sua mãe, ela parte em uma busca do seu pai, mas acaba conhecendo seu meio-irmão Paul (Michel Blanc), um farmacêutico ranzinza. O roteiro é simples e brinca com situações surreais, mas o desenvolvimento é tão gracioso que fica impossível não se deixar levar pela pureza de Nenette.
Após perder a mãe, Nenette é levada para uma casa de repouso, mas como não aceitam a sua tartaruga de estimação, Totoche, sai em busca de seu pai, porém termina encontrando seu meio-irmão Paul, um homem ríspido que encontrou conforto em sua própria solidão, dono de uma farmácia, leva seus dias numa rotina que consiste sempre em fazer as mesmas coisas, Nenette chega para colocar tudo de pernas pro ar, inclusive sua personalidade, a senhorinha é cheia de amores pra dar, vive dando beijinhos e abraços, tem uma aura de inocência e mais parece uma criança. Paul não a quer em sua casa, ela o incomoda profundamente, ele é um chato que se esqueceu do amor, a atuação de Michel Blanc junto de Josiane Balasko é de uma perfeita sintonia, dois exímios atores, quando a personalidade de Paul é alterada por conta das drogas que por acaso Nenette coloca em seu café pensando ser açúcar, acompanhamos inúmeros momentos engraçados, ele começa a tratar bem as pessoas, inclusive seu filho e sua neta que não via muito, mostra a casa do pai para Nenette, onde encontra sua ex-mulher que toma um susto e logo pensa em perder a mordomia, faz as pazes com o piano, sua antiga paixão, se desfaz de sua coleção de crustáceos, enfim, é um aglomerado de situações que Paul vivencia, uma alegria o toma e o faz adorar Nenette, que quando volta a seu normal percebe o como afastou as pessoas de si pelo seu jeito rabugento.
O filme traz um amontoado de acontecimentos inverossímeis, mas os desenvolve com delicadeza e simplicidade, demonstra que nada como um pouco de amor para a vida se tornar mais gostosa.

Nenette é daquelas personagens para guardar com carinho na memória, ela nos tira sorrisos e passa uma sensação de bem-estar, nos faz lembrar de que quando se há afeto tudo toma outra forma, eliminando-se sentimentos pequenos a vida fica mais bela, e consequentemente, os outros mais alegres também.
É um filme que disserta sobre o amor, a solidariedade e a humanidade, que infelizmente está em falta no cotidiano, seja entre familiares, amigos e desconhecidos, na maior parte as brigas são em função de dinheiro e o cansaço também é outro fator, a paciência é artigo de luxo e a intolerância é expressada sem piedade, julgamentos, preconceitos, deixam nossa vida com gosto amargo, e no fim acabamos sozinhos e insatisfeitos. 

Tudo é exposto com delicadeza, e por mais que pareça clichê, o cinema francês tem um charme todo especial em retratar o tema com inteligência e humor.
"Nenette, a Meia-Irmã" é uma joia rara que merece ser descoberta, é um filme satisfatório que só não agradará pessoas pequenas de alma.
Está disponível na Netflix!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Sanctuary (Faro)

"Faro" (2013) dirigido por Fredrik Edfeldt (Flickan - 2009) é um filme sueco que retrata a monotonia junto de sentimentos de culpa, a angústia de um pai por tentar salvar a si e a filha e ter momentos de paz, a floresta é a morada escolhida, mas as circunstâncias, os tormentos rondam o protagonista, por causa do ato cometido no passado sua vida seguirá outros rumos. O filme tem um ritmo calmo e um ar contemplativo, tendo alguns episódios de desespero, a história segue o relacionamento de pai e filha, a fuga dos dois e a vivência deles no meio da floresta, enquanto isso os policiais o procuram, acusado de assassinato, ele jura para a filha que foi em legítima defesa, a menina com medo de ficar só ou ser levada pelo serviço social acaba incentivando o pai a fugir com ela.
O pai (Jakob Cedergren) e a filha Hella (Clara Christiansson) vivem numa casinha longe de tudo e aparentemente levam uma vida idílica. O início do filme dá essa sensação, porém essa ideia é quebrada quando Hella avista um carro vindo em direção a casa e ao avisar o pai, ele se esconde e ela atende a porta dizendo que ele voltará em breve. Logo surge a decisão de fugirem e então se embrenham no meio da floresta e montam uma barraca, com o passar dos dias a relação deles vai se estreitando e a convivência marca muito bem a personalidade de cada um, Hella é inteligente, questionadora, mas aceita tudo com passividade, o pai é quieto e distante ao mesmo tempo amoroso e preocupado com a filha.
Em alguns pontos do filme dá a entender que a mãe de Hella se suicidou, há uma carência e inocência em Hella, e nesses dias de verão ao lado do pai, o amadurecimento vai surgindo, selvagemente. Nada especial acontece, mas o desenvolvimento é tão lindamente retratado que cativa, a força que a menina precisa para enfrentar seu futuro vem aos poucos, dia após dia, é imensamente importante as experiências que ela experimenta na floresta. Quando fica sozinha por uma noite porque o pai vai em busca de comida, ela encontra uma casa e deixa-se levar por uma mulher louca que por pouco não a aprisiona, vemos o quão frágil é Hella, mas por outro lado não titubeia em tomar decisões.

A natureza é o terceiro personagem desta história que apesar de conter alguns instantes tensos, prima pela suavidade e contemplação. É um filme que exige paciência do espectador, pois as respostas vem com o tempo e ao acaso. O título do longa é por conta da reminiscência afetiva da viagem feita pelo pai de Hella na cidade portuguesa de Faro. Seu sonho era construir uma casa à beira-mar e viver com a família no mais completo sossego. A narrativa segue sem pressa, envolve e é muito eficaz ao passar a mensagem, a estética do filme é muito bonita, são tomadas belíssimas retratando a natureza e o passar dos dias de pai e filha, os closes são outro ponto forte e garantem a dramaticidade.

"Faro" é um filme convincente e melancólico ao retratar o amadurecimento de Hella, o vínculo entre os personagens e o otimismo do pai ao tentar escapar e dar a filha momentos de paz. É emocionante sem usar grandes artifícios, é na sua tranquilidade e naturalidade que o filme nos fisga. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Violette

"Meu lugar é dentro de mim mesma. O resto é vaidade."

"Violette" (2013) dirigido por Martin Provost (Séraphine - 2008) se concentra na vida da escritora Violette Leduc, que com incentivo externou suas dores e angústias através da escrita. Uma importante figura da literatura, porém desconhecida, sua obra revela temas tabus para sua época e assim como Simone de Beauvoir contribuiu para o avanço do feminismo.
No início dos anos XX, a escritora Violette Leduc (Emmanuelle Devos) encontra a filósofa Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain). Nasce entre as duas uma intensa amizade que dura toda a vida, ao mesmo tempo que Simone encoraja Violette a escrever mais, expondo as suas dúvidas e medos, abordando todos os detalhes da intimidade feminina.
Violette, filha ilegítima de uma empregada, passou sua juventude em um internato e lá teve suas primeiras experiências sexuais, quando mais velha se casou com o escritor homossexual Maurice Sachs (Olivier Py), um casamento fictício para fugir da Segunda Guerra, Sachs incentivava Violette a colocar no papel o que a afligia, e então num pequeno caderno começou a escrever as primeiras frases do que viria ser o seu primeiro romance chamado "A Asfixia". Sachs mais tarde abandona Violette e volta à Alemanha, onde acaba sendo morto. Sozinha e desamparada, Violette vai tentar se virar em Paris, ela sobrevivia do mercado negro, mas quando a guerra termina os negócios caem por terra, então ao acaso se depara com um livro de Simone de Beauvoir, após lê-lo inebriada procura se encontrar com a autora e deixar seus manuscritos para que ela analise. A escrita de Violette a empolga, afinal ela falava sobre o que ninguém ousava falar na época. A relação entre as duas se estreita, Simone a incentiva muito, dá suas opiniões, mas se mantém distante quando Violette se apaixona, e é por meio das palavras que Violette expõe as suas angústias e desejos, a personagem sente-se inferiorizada, rejeitada, feia, inadequada, todos esses sentimentos são passados perfeitamente pela maravilhosa interpretação de Emmanuelle Devos.
A escrita de Violette era carregada de erotismo, o que desagradava bastante o conservadorismo machista da época, o primeiro livro é lançado pela Gallimard na Coleção Espoir, recém-criada por Albert Camus, mas com tiragem pequena, Violette chegou a relatar em "A Faminta", a sua paixão avassaladora por Simone, seu quarto era permeado de fotos da escritora, uma admiração masoquista. Enquanto Simone ficava cada vez mais reconhecida, Violette se encolhia, inclusive os cortes em "Destroços", quase desencorajou a continuar, mas sempre influenciada por Simone buscava nas palavras a sua salvação. Violette ousou escrever sobre experiências sexuais, o aborto e seu impacto sobre as mulheres, o incesto e a bissexualidade. Sua linguagem direta escandalizou a sociedade puritana. Mas foi acolhida pelos intelectuais, um círculo de grandes nomes da literatura, como Jean Cocteau, Jean Genet, e também o perfumista e entusiasta das artes Jacques Guérin. Violette alcança seu público com o livro "A Bastarda" com prefácio de Simone de Beauvoir.

"O meu caso não é único, tenho medo de morrer mas lamento estar no mundo. Nunca trabalhei, nunca estudei. Só chorei e gritei. Lágrimas e gritos, levaram muito de meu tempo. Partirei da mesma forma que cheguei. Intacta. Carregada com meus defeitos que me torturaram. Eu queria ter nascido estátua, sou uma lesma no meu estrume. As virtudes, as qualidades, a coragem, a meditação, a cultura, de braços cruzados briguei com essas palavras.”


Um dos traços mais marcantes de Violette é a sua dependência emocional, a sua ânsia de ser correspondida amorosamente por aqueles que a rodeiam, Simone faz o contraponto sendo segura e distante, apesar de proteger e incentivar Violette. Os traumas vividos na infância e juventude surgem como fantasmas na sua vida, mas ela transporta tudo para o papel e com a ajuda de Simone pôde explorar seus sentimentos, escrever tudo o que era proibido dizer, os desejos, a quebra de padrões e a autodescoberta feminina, sem dúvida Violette foi peça fundamental para o começo da libertação feminina. O nome dela é pouco conhecido e suas obras são difíceis de encontrar, os poucos livros que foram traduzidos para o português, como "A Bastarda", seu maior sucesso, está fora de catálogo, sendo com sorte achado apenas em sebos. 


Além de refletir sobre o feminismo, é um grande estudo de personagem, o diferencial de "Violette" é que ele não é um filme biográfico comum, é cru, poético, desesperador, apaixonante, um turbilhão. A interessante narrativa do filme nos faz refletir em diversas questões, uma delas é acerca da literatura e a sua função transformadora, tanto para quem escreve, como para quem lê. Afinal, o que define um bom escritor? Como acontece o processo de escrita, e de onde vem as inspirações? Também coloca o desejo de reconhecimento, além de nos fazer pensar sobre o mercado que existe em torno, na escassa distribuição de livros com potencial, por exemplo, a escrita de Violette era considerada inapropriada por inúmeros motivos, por ser escandalosa, uma escrita sobre fatos densos, emoções confusas, fortes paixões, e portanto, chocante. Ela foi colocada de lado, mas como vivia num período de grande efervescência literária foi enaltecida por seus contemporâneos intelectuais. A literatura sempre foi e sempre será um meio para expandir ideias, uma forma de criticar, denunciar e se expressar sobre a sociedade e tudo o que nos aflige. Viva os escritores que como Violette Leduc compreendeu que a literatura a salvaria!

Trecho do prefácio de Simone de Beauvoir para o livro "A Bastarda", de Violette Leduc.

"Dizem que não existe mais autor desconhecido. Qualquer um ou quase isso consegue editar. Pudera, a mediocridade pulula. A boa semente é abafada pelo joio. O êxito depende, na maior parte do tempo, de um golpe de sorte. Entretanto, a própria má sorte tem as suas razões. Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L’ Asphyxie (A Asfixia), L’Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. 'Sou um deserto que monologa', me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la."

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Pequeno Italiano (Italyanets)

"O Pequeno Italiano" dirigido por Andrey Kravchuk (Viking - 2016) é um conto emocionante sobre crianças abandonadas que habitam um orfanato na Rússia, e que por falta de recursos vendem elas a casais estrangeiros. É um retrato realista sobre a situação econômica e social do país pós-comunismo.
Vanya Solntsev (Kolya Spiridonov) é um garoto de 6 anos, que vive em um orfanato na Rússia. Como em breve será adotado por um casal de italianos ele ganhou o apelido de "pequeno italiano" entre os colegas de orfanato. Um dia Vanya vê uma jovem mulher chegar ao orfanato, buscando reaver o filho. Ele passa a sonhar que sua mãe também pode tentar buscá-lo algum dia e, desta forma, decide procurar por ela.
O filme esbarra no melodrama ao tratar do tema, mas é impossível não se emocionar, principalmente por saber que as crianças que atuam são órfãs de verdade. É uma história que comove por saber que essa realidade está longe de acabar. Vanya decididamente tem a chance de recomeçar a sua vida ao ser escolhido pelo casal de italianos, todos sentem inveja dele, mas depois que a mãe de seu amigo reaparece para ter seu filho de volta, começa a articular meios para saber quem é sua mãe e o que de fato aconteceu para que ele fosse parar no orfanato. Ele não quer que sua mãe caso apareça tenha o mesmo destino da mãe de seu amigo. Obstinadamente aprende a ler com a ajuda de uma menina mais velha, que se prostitui para dar dinheiro aos meninos mais velhos, daí então Vanya descobre sua origem e parte em busca de algo que não sabe se vai encontrar. Essa jornada não será nada fácil, pois os coordenadores do orfanato perseguem ele, dado que o negócio com os italianos corre risco de não acontecer, a adoção feita por estrangeiros é uma transação lucrativa para os coordenadores do orfanato, portanto farão de tudo para encontrar Vanya e garantir o dinheiro. 
A trajetória de Vanya é difícil e dolorosa, um menino sozinho se aventurando nas ruas de um local desconhecido, ao longo desse caminho encontra vários tipos de pessoas, aquelas que se preocupam, dão auxílio, outras que desprezam e acham que é um vândalo, e até outras crianças de rua que roubam o pouco que tem. Vanya é uma criança inocente, mas esperto e tem noção do perigo. A atuação de Kolya Spiridonov é linda e é impossível não sentir empatia pelo personagem, seu desejo de encontrar a mãe por vezes nos dá a sensação de que é uma opção errada, se ele perder a oportunidade da adoção sua vida será errante, como a dos meninos mais velhos que habitam o orfanato, mas no decorrer embarcamos junto a seu sonho, e nada mais belo do que seu sorriso ao final do longa.

"O Pequeno Italiano" é singelo, realista e mesmo tendo aspecto sombrio tem um tom esperançoso, a expressividade e dramaticidade das crianças impressiona, a sensibilidade e a segurança ao retratar a história faz toda a diferença para fugir de clichês que envolvem o tema. Algumas cenas ficam marcadas, principalmente quando pergunta sobre a rua Frunze, seu jeitinho de caminhar, seu rosto tão expressivo, é de uma delicadeza encantadora.
"O Pequeno Italiano" tem aura melancólica, o ambiente frio e cinzento ajuda nessa sensação, mas a confiança de Vanya gera esperança.

Vanya é pequeno só no tamanho, sua personalidade é de uma grandeza gigantesca, sua coragem em não ceder ao mais fácil, a difícil jornada por seu sonho necessita de muita força, a inocência se mescla com uma maturidade precoce, as condições de sua vida não o faz desistir, ele é um herói.
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