sexta-feira, 30 de março de 2018

Fantasma de Buenos Aires

"O Fantasma de Buenos Aires" (2008) dirigido por Guillermo Grillo é um filme pitoresco e por vezes exagerado, a sua mescla de gêneros garante originalidade e no todo satisfaz o espectador. O sobrenatural está de mãos dadas com um humor irônico e nostálgico, o sombrio e afetuoso, as duas dimensões conversam inteligentemente e por fim além de garantir um gostoso sorriso no rosto aproveita para nos deixar grandes reflexões sobre vida e morte. 
Uma história sobre a relação entre um jovem de hoje e um fantasma mal-intencionado assassinado em 1920. Numa noite qualquer, três amigos fazem o "jogo do copo". Para surpresa deles, a sessão de espiritismo funciona e um fantasma passa a habitar a casa, manifestando-se como uma sombra que canta tango. Apenas um dos rapazes, marcado pela morte de sua mãe quando criança, se interessa por este fenômeno. Ele faz tudo que precisa para se reconectar com o espírito e consegue fazer um pacto com ele: o fantasma irá contar tudo o que há depois da morte e o garoto vai viver um dia em seu corpo. Assim, esse fantasma encontra a Buenos Aires dos dias atuais, enfrentando coisas que não entende. Desta forma, existem situações loucas, emotivas, de risco e, lentamente, uma amizade entre eles. Uma história de suspense, ironia, emoção e reflexão sobre as mudanças trazidas pelos anos. É como um tango vagabundo, que de alguma forma combina o humor, tristeza, amor e violência.
De início a história segue uma linha narrativa comum entre os filmes de terror, onde três jovens entediados decidem se aventurar no jogo do copo, mas as circunstâncias do ato são totalmente diferentes, quando um deles quebra o copo diz que o espírito ficará na casa e com medo saem do local, o único a se interessar pelo assunto é Tomás (Estanislao Silveyra) que perdeu a mãe muito pequeno e não se lembra de nada, ele necessita saber se é verdade que o espírito está lá para entender então o que há depois da morte, sozinho pega as chaves do amigo e de repente se depara com uma sombra cantando tango, ao se comunicar com ele desmaia e o fantasma lhe diz o que deseja. A história intercala momentos do passado vivido por Canaveri (interpretado pelo charmoso Ivan Espeche), um boêmio morto nos anos 20, este que propõe um pacto a Tomás, ele contará tudo o que quiser saber sobre o além se o garoto emprestar o corpo para poder resolver assuntos pendentes. Simples assim!

Tomás mesmo com receio acredita que o espírito deixará seu corpo quando tudo estiver esclarecido e a sua curiosidade em saber as coisas que acontecem depois da morte dão coragem para aceitar o pacto. A partir daí somos conduzidos por ótimos momentos de humor, o fantasma se assusta com a Buenos Aires atual e Tomás precisa saber lidar com a divisão de si mesmo, mas Canaveri acaba sendo digno e até respeita as vontades de seu anfitrião. Os passeios pela cidade, o espanto em ver como tudo mudou denotam muita nostalgia ao longa, sentimentos que vão surgindo para alguém que há muito estava afastado da realidade palpável.  

"O Fantasma de Buenos Aires" traz uma narrativa criativa e charmosa, que ora é sombria, ora iluminada, instiga e emociona e possui belos momentos afetuosos. Passional assim como a alma de um tango!

quinta-feira, 29 de março de 2018

Eu Não Sou uma Bruxa (I Am Not a Witch)

"Eu Não Sou Uma Bruxa" (2017) dirigido por Rungano Nyoni retrata com propriedade à caça as bruxas na África e o como o governo se beneficia disso, além da humilhante posição delas na sociedade. Uma história pungente e trágica.
Depois de um incidente banal em sua aldeia local, Shula (Maggie Mulubwa), de 8 anos, é acusada de feitiçaria. Um breve julgamento a considera culpada e ela é levada à guarda do estado e exilada para um campo de bruxas no meio de um deserto. Lá, ela participa de uma cerimônia de iniciação onde aprende as regras em torno de sua nova vida como bruxa. Como os outros residentes, Shula é amarrada a um carretel com uma fita. Dizem-lhe que se cortar a fita, será amaldiçoada e transformada em uma cabra.
Apesar do filme conter um certo humor não anula o choque e desconforto, são cenas longas que exploram a situação da menina, que do nada é exposta e denunciada como sendo uma bruxa, a acusam de envenenar a água do poço e outro alega que ela lhe cortou o braço em um sonho, o funcionário Sr. Banda (Henry BJ Phiri) é chamado e então a colocam numa comunidade destinada às bruxas, todas mulheres mais velhas que servem ao governo como escravas, todas presas a carretéis gigantes, é dada a escolha para Shula, ou você se considera uma bruxa ou ao cortar a fita se transformará em uma cabra. A criança faz sua escolha e é acolhida pelas mulheres que não a deixam trabalhar, logo começa a ser utilizada para apontar entre vários suspeitos quem teria cometido roubos, assim ela ganha certa fama e começa a ganhar oferendas, das quais Banda se aproveita. Ela se aproxima da mulher de Banda, também bruxa, mas que como ela mesma diz conseguiu ser respeitada por fazer tudo que lhe disseram para fazer.
Acompanhamos cada momento com grande apreensão, a inocência e o receio são capturados com maestria, algo muito pontual na história são os olhos de Shula. Várias partes incomodam, como ver turistas tirando fotos enquanto a menina sofre, as mulheres todas juntas presas a um carretel, condenadas a uma condição ilusória e ainda sendo usadas para benefício do governo, são desprezadas na sociedade, castra-se todo tipo de direito e perpetua pensamentos limitados.

O desejo de liberdade cresce em Shula, ela questiona em determinada parte quando bem triste com tudo que vem lhe acontecendo que deveria ter escolhido se transformar em uma cabra, pois uma cabra é livre e come quando quer, mas a mulher ao lado responde que seria morta em breve para alimentar os homens. Ter apenas um momento de liberdade mesmo com a morte lhe esperando ao invés de passar acorrentada e humilhada a vida toda é uma reflexão potente e que fica cravada na mente. 

"Eu Não Sou uma Bruxa" é uma sátira moderna sobre a superstição e a bruxaria em países africanos, o absurdo desta situação nada mais é que a misoginia entranhada, o filme propõe um olhar cruel, incômodo e objetivo. É poderoso e necessário!

quarta-feira, 28 de março de 2018

Aglaja

"Aglaja" (2012) dirigido por Krisztina Deák é um filme sinestésico que aborda a relação de mãe e filha e a arte circense. Baseado em fatos reais, esta é a história da infância e adolescência de Aglaja (Babett Jávor), filha de uma família de artistas circenses do Leste Europeu. A família foge para a Europa Ocidental após cometer um assalto que os permite começar uma nova vida. Para alcançar o sucesso, sua mãe gasta todo o dinheiro da família para realizar um ato perigosíssimo: ficar pendurada pelos cabelos no domo do circo. Toda noite, Aglaja é aterrorizada pelo medo de perder a sua mãe, mas em algum dia, ela tem que seguir a tradição da família e tornar-se "a mulher dos cabelos de aço".
Uma bela homenagem ao mundo do circo, mostrando os bastidores, a apreensão dos artistas misturado com fascinação e amor à arte, uma maneira livre de viver e com tão pouco reconhecimento, os treinos exaustivos, o sacrifício, as dores e também a satisfação de levar ao público a alegria e em troca receber aplausos. Todo o mecanismo envolvendo os números são retratados com precisão e isso garante tensão toda vez que se apresentam, os ruídos de cordas, estalos são extremamente desconfortáveis e dão a sensação exata do perigo e da destreza dos artistas. A história segue a pequena Aglaja vivida inicialmente por Babett Jávor, que apenas observa os pais e todo o universo circense que a rodeia, ela nos insere em sua vida a princípio na Romênia dos anos 70, uma vida difícil, pois a ditadura imperava e então decidiram roubar o dono do circo e fugir, assim a saga por várias capitais europeias acontece, Sabine (Eszter Ónodi), a mãe, que era considerada uma exímia trapezista não consegue mais trabalhar e somente Tandarica (Zsolt Bogdán), o pai, que representa um palhaço é contratado, a menina vê tudo e transpassa pelo olhar toda a sua curiosidade, receio e a falta de carinho. É preciso conviver com variadas pessoas de todos os lugares do mundo, torcer para não ser substituído e sempre estar aprimorando os truques. A relação dos pais de Aglaja não vai muito bem e Sabine acaba pegando todo o dinheiro e comprando o equipamento para o número do cabelo de aço, a asiática que sofreu um acidente concorda e ensina o que Sabine precisa saber. Aglaja sente toda noite um misto de sentimentos, é lindo vê-la subindo e rodopiar pelo ar apenas presa pelo cabelo, porém a sensação que sente ouvindo os pequenos ruídos a atormenta, a única coisa que a faz sentir-se melhor é colocar uma pedra entre os dentes. Além da história focar na tradição circense, demonstra a relação conflituosa de mãe e filha, quando pequena Aglaja via tudo acontecer, participava de alguns números, mas não tinha afeto. Até que um dia Aglaja foi separada dos pais, pois menores não podiam trabalhar e desse modo parou num internato, dez anos se passaram e a mãe aproveitou esse tempo para fazer fama e a obteve pelo seu número acrobático. Aglaja aos 15 anos, interpretada por Piroska Móga, se torna uma adolescente linda e retraída que preferia que a mãe estivesse morta do que suportar vê-la novamente no picadeiro.

Com o reconhecimento que adquiriu Sabine cada vez mais se superava na criatividade ao ser içada, mas numa de suas apresentações sofreu um acidente terrível, Aglaja sempre esteve à sombra de sua mãe e a sua personalidade reflete toda a ausência e desejo de ser vista por aquela mulher, é uma história impressionante sobre o florescer juvenil, sobre o como é importante não deixar que a figura materna tenha peso nas escolhas próprias e que a aceitação vem apenas de si mesmo. Sabine era espetacular e Aglaja se encolhia diante à mãe, os sentimentos eram conflitantes e era praticamente invisível. Há um ponto do filme que Aglaja se mostra e começa a viver, a mãe fica impotente para números pesados e então gerencia a filha que dança nua no palco, mas Sabine quer que ela siga seus passos, a tradição dos cabelos de aço, e novamente Aglaja sente-se diminuída e sem saber quem de fato é. 

"Aglaja" é um exemplar único que retrata com minúcia e verdade o mundo do circo, as cenas de bastidores são incríveis, o receio e a fascinação em torno dos artistas provocam grandes momentos, e a pequena Aglaja passeando entre os trailers fica marcado na memória. Nos instantes finais visualizamos uma cena completamente libertadora e aliviante, Aglaja enxerga por si mesma, entende suas vontades e segue sua vida.

terça-feira, 27 de março de 2018

Lady Macbeth

"Lady Macbeth" (2016) dirigido pelo estreante William Oldroyd é baseado no livro "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk" do escritor russo Nikolai Leskov, que por sua vez se inspirou na personagem da peça de William Shakespeare, o filme traz uma abordagem interessante e aguda sobre preconceitos e empoderamento feminino.
Katherine (Florence Pugh) está presa a um casamento de conveniência. Casada com Boris Macbeth (Christopher Fairbank), a jovem agora se vê integrante de uma família sem amor. É só quando ela embarca em um caso extraconjugal com Sebastian (Cosmo Jarvis), um trabalhador da propriedade do marido, que as coisas começam a mudar. Ela só não contava que isso iria desencadear vários assassinatos.
Com aspecto suntuoso, frio e direto acompanhamos a protagonista Katherine que por conveniência casa-se com um homem agressivo e arrogante, ele não a toca em momento algum, mas a humilha sob diversas maneiras, completamente subjugada passa seus dias trancada dentro do casarão, quando o marido se ausenta ela começa a explorar o exterior e é a partir daí que conhecemos seu caráter duro e cruel, ela sofre nas mãos do sogro que é rígido na questão dela se manter no papel de mulher da casa e se resguardar, claro que Katherine não se curva ao sogro e nem ao padre que vem dar lições, se mantém serena, mas por dentro queima, ela cada vez mais quer se libertar e encontra em Sebastian uma paixão avassaladora, um escravo bonito e robusto que supre seus desejos carnais, o que de início parecia uma aventura para ele se transforma mais adiante em um pesadelo sem fim. É impressionante a identificação com a personagem no início, em pleno século XIX agir com determinação e ousadia, sair do protocolo e seguir seus desejos, mas ela sofre as agonias advindas dos seus atos, em um sistema completamente patriarcal e repressor não há espaço para sentimentos bons e tudo desanda quando coloca a frente suas vontades ao invés de seguir as normas. A empregada Anna (Naomi Ackie), ora demonstra afeto, ora medo, ora crueldade, os olhos sempre atentos, a obediência é que garante sua permanência ali, a tensão racial é aguda e com o decorrer ela vai se intensificando muito mais. Os sentimentos em relação a Katherine vão se embaçando no momento que começa a agir com requintes de crueldade, Sebastian vai sendo engolido por essa mulher e quando percebe é tarde demais e está preso numa situação irremediável, ele é escravo em todos os sentidos.

A crueza impera e a falta de trilha sonora aumenta essa sensação, porém é um filme pulsante que prima por movimentos e olhares poderosos, além das pausas solenes e enigmáticas. Os embates de poder que a protagonista trava com os outros personagens e suas graves consequências a revelam como um ser humano repleto de nuances que ao mesmo tempo em que se pôs a frente numa época castradora, agiu também com egoísmo calculando todas as suas ações. Ela é vítima das circunstâncias, viver para a submissão e ainda mais solitária deixa qualquer um louco, quem acaba sofrendo ainda mais são os criados que não possuem vida própria.

"Lady Macbeth" é um filme belíssimo, fascinante e que permite refletir sobre questões de gênero, classe e raça, a protagonista atravessa a tela, um brilhante trabalho de Florence Pugh, que passeia entre a frieza e o deboche, um personagem feminino marcante e subversivo. Uma obra de estética estonteante e narrativa arrebatadora!

quinta-feira, 22 de março de 2018

O Filho de Joseph (Le Fils de Joseph)

"O Filho de Joseph" (2016) dirigido por Eugène Green (La Sapienza - 2014) é um drama singular que aborda a questão da ausência paterna e os elos que se formam ao acaso e que transformam os sentimentos em relação no que se entende como família. O modo como tudo se desenvolve é a grande beleza do longa, assim como a sua filmagem peculiar explorando a figura humana de um jeito imensamente intenso e íntimo - ao mesmo tempo em que os atores olham para a câmera também olham para seus interlocutores, outro ponto interessante é a falta de naturalidade, falas e gestuais robóticos que caracterizam a grande carência afetiva, e claro, a arte intermediando, como a pintura "O Sacrifício de Isaac", de Caravaggio simbolizando a revolta do protagonista em relação ao pai.
Verão em Paris. Vincent (Victor Ezenfis) vive com sua mãe solteira Marie (Natacha Régnier) e, finalmente, quer descobrir quem é seu pai. Suas investigações o levam a uma editora famosa com um personagem detestável. Quando ele conhece Joseph (Fabrizio Rongione), o irmão do editor, sua vida muda num piscar de olhos.
Vincent é um garoto quieto, apático e insatisfeito, o convívio com a mãe é bom, mas ele a perturba para descobrir quem é seu pai, ela é uma mulher melancólica que se dedicou ao filho e que esqueceu de si mesma, quando Vincent encontra uma carta com o nome de seu pai fica obcecado em encontrá-lo e enfim tapar o vazio que sente, porém nada é como imaginado e o que ele vê o decepciona, Oscar é um editor renomado que usa de seu poder para usufruir de quem quiser e como bem quer, aos poucos Vincent se aproxima em silêncio, apenas observando, frequenta as festas e até invade o escritório para analisá-lo, sua curiosidade dá lugar à decepção e a raiva se instala. A aura poética do filme se dá pela mescla de arte e religião, os momentos são marcados por grandes doses de reflexão, o enorme quadro de Caravaggio, "O Sacrifício de Isaac", no quarto de Vincent nos revela a sua vontade, que ao contrário do quadro é o filho que deseja sacrificar o pai e que nos minutos derradeiros espera a mensagem de um anjo que diga para não fazê-lo. Nessa confusão que Vincent se encontra acaba se esbarrando em Joseph, o irmão de Oscar, que é totalmente o oposto, ele é sereno, carinhoso e ajuda Vincent no decorrer, saem para passear por museus e trocam ideias, inúmeras vezes de forma didática ampliando a nossa visão sobre a cultura e a arte.

As referências bíblicas e a pomposidade da arte rodeia toda a trama para nos revelar uma história sobre a figura paterna, a ausência que dói e a transformação de Vincent ao encontrar em Joseph o que tanto queria, o filme retrata a construção de um nova família e deixa para nós uma grande reflexão sobre os encaixes constitucionais referentes à família. O vínculo formado entre Joseph e Vincent e logo depois com Marie é belo e único, assim como deve ser para cada um. 
As peculiaridades do longa garantem uma experiência cinematográfica incrível e singular, como os diálogos que carecem de emoções, porém com as imagens suprindo-as, a câmera capturando os olhos dos personagens assegura profundidade e intimidade, e a aura erudita que vai fisgando devagar coroa com perfeição.

Quando menos se espera "O Filho de Joseph" envolve e faz com que reflita as questões sobre as relações, nada no filme acontece naturalmente, mas há algo misterioso que o torna poderoso e é só assistindo pra entender. Cada um sentirá e interpretará a seu modo, os símbolos, as referências e todas as sombras que cercam a vida.

terça-feira, 20 de março de 2018

15 Filmes Confusos (Mindfuck Movies)

Segue uma lista de filmes que deixam o espectador com incômodo na mente tentado buscar teorias que expliquem a trama, a mistura de gêneros é uma característica das obras "mindfuck", geralmente há suspense, thriller, drama e ficção científica, e todo o desenvolvimento não linear alternando entre a realidade e o reino da imaginação fazem com que metade ame e a outra metade odeie esse estilo de filme. Selecionei os que adoro excluindo os mais conhecidos, como "Clube da Luta", "A Origem", "Donnie Darko", "Sr Ninguém", "Cidade dos Sonhos", "Oldboy", entre outros, foi difícil deixá-los de lado, porém preferi incluir alguns longas que não são tão conhecidos, mas que desafiam e dão um belo nó na mente. 

15- "O Homem que Incomoda" (Den Brysomme Mannen - 2006) Islândia/Noruega
Andreas (Trond Fausa Aurvaag) desembarca numa cidade estranha sem lembrar como chegou ali. É recebido de forma cordial e inicia uma vida regrada, com trabalho, casa e até uma mulher encantadora. Mas rapidamente percebe que tem alguma coisa errada neste mundo perfeito. As pessoas não parecem sentir emoções genuínas e só falam de trivialidades. Ele tenta escapar da cidade mas descobre que não tem saída. Isso até conhecer Hugo, que achou uma fissura no porão de casa, através da qual se ouve uma bela música. Seria esta uma comunicação com o “outro lado”? 

14- "O Amante Duplo" (L’Amant Double - 2017) França
Chloé (Marina Vacht) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo. Só que, com o andar as sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul encerra a terapia e indica uma colega para tratar a esposa. Entretanto, ela resolve se consultar com outro psicólogo, o irmão gêmeo de Paul, que ela nunca tinha ouvido falar até então.

13- "Frequencies" (OXV: The Manual - 2013) Austrália/UK
Em uma realidade alternativa, as crianças aprendem desde cedo que a sorte guia os seus passos e que o conhecimento é a única forma de moldar os seus destinos. Quando um rapaz, reconhecidamente azarado, se apaixona por uma menina que não corresponde ao seu status, ele irá buscar resolver um grande mistério para receber o upgrade em seu destino. 

12- "Cores do Destino" (Upstream Color - 2013) EUA
Um homem e uma mulher são unidos através de um organismo e, a partir daí, suas reais identidades se tornam uma verdadeira ilusão enquanto eles lutam para reunir os fragmentos de suas vidas destruídas. Saiba+

11- "Medo" (Janghwa, Hongryeon - 2013) Coreia do Sul
Duas irmãs voltam para casa após passar um tempo em um internato. Elas são recebidas de braços abertos pela madrasta, que logo depois se mostra uma mulher cruel. Aos poucos, acontecimentos perturbadores vão deixar os nervos à flor da pele. Todos escondem um mistério horripilante. Há outras almas presentes no ar. Almas que não estão em paz.

10- "O Homem Duplicado" (Enemy - 2013) Canadá/França/Espanha
Adam (Jake Gyllenhaal) é um professor de história que leva uma vida monótona, até que descobre a existência de Anthony (Jake Gyllenhaal), um ator de pouco destaque que é fisicamente idêntico a ele. A partir de então, Adam cria uma verdadeira obsessão pelo seu sósia, e passa a persegui-lo em busca de respostas. Saiba+

09- "Viagem Alucinante" (Enter the Void - 2009) França

Oscar e Linda vivem atualmente em Tóquio. Ele sobrevive através de pequenos negócios como traficante e ela como uma stripper em uma boate. Durante um ataque policial, Oscar é atingido por uma bala. Enquanto está morrendo, seu espírito, fiel à promessa que Oscar fez à irmã de nunca desistir, se recusa a deixar o mundo dos vivos. Sua mente, então, viaja pela cidade e suas visões começam a ficar cada vez mais caóticas e apavorantes. Passado, presente e futuro se misturam em um redemoinho alucinante.

08- "A Dupla Vida de Véronique" (La Double Vie de Véronique - 1991) França
Duas mulheres de 20 anos moram muito longe, mas parecem estranhamente estarem conectadas. Weronika é polonesa e sonha em entrar para uma academia de música, e quando ela finalmente consegue a vaga, ela morre na sua primeira apresentação. A partir desse momento, Véronique, que é francesa e mora em Paris, decide largar as aulas de música e acaba por se envolver com um manejador de marionetes.

07- "Motores Sagrados" (Holy Motors - 2012) França
Oscar (Denis Lavant) transita solitário em vidas paralelas, atuando como chefe, assassino, mendigo, monstro, pai… Mergulha profundamente em cada um dos papéis e é transportado por Paris e arredores em uma luxuosa limusine, comandada pela loira Céline (Edith Scob). Ele é um homem em busca da beleza do movimento, da força motriz, das mulheres e dos fantasmas de sua vida. Saiba+

06- "Tudo Estará Bem" (Alting Bliver Godt Igen - 2010) Dinamarca
Um escritor-roteirista, Jacob Falk, conhecido por ficar obcecado com suas próprias histórias, depara-se com fotografias de prisioneiros de guerra que foram torturados por soldados dinamarqueses no Iraque. Suspeitando de uma conspiração política, Falk cai em uma perseguição frenética para revelar o mistério por trás das fotografias e ele descobre uma verdade mais preocupante do que ele imaginava. Saiba+

05- "O Incidente" (El Incidente - 2014) México
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente. Saiba+

04- "Símbolo" (Shinboru - 2009) Japão
Um homem acorda e percebe que está misteriosamente preso em uma sala retangular branca e vazia, vestido com um pijama de bolinhas amarelas. Enquanto isso, em uma cidade empoeirada do México, um lutador mascarado conhecido como Homem Escargot se prepara para uma partida importante. Em meio a excessos ridículos, o suspense aumenta quando o prisioneiro sem nome está perto de escapar e Escargot prestes a entrar no ringue.

03- "O Lamento" (Gokseong - 2016) Coreia do Sul
A chegada de um misterioso estranho (Jun Kunimura) em uma aldeia tranquila coincide com uma onda de assassinatos cruéis, causando pânico e desconfiança entre os moradores. Quando a filha do oficial de investigação Jong-Goo (Kwak Do-won) cai sob a mesma magia selvagem, ele chama um xamã (Hwang Jung-min) para ajudar a encontrar o culpado. Saiba+

02- "O Operário" (The Machinist - 2004) Espanha/EUA
A última vez em que Trevor Reznik (Christian Bale) dormiu foi há um ano, sendo que desde então o cansaço vem destruindo progressivamente sua saúde física e mental. Ele trabalha numa fábrica operando maquinário pesado, e faz de tudo para manter seu emprego. Envergonhado por causa de seu problema, Trevor isola-se cada vez mais, tornando-se paranóico. Depois de se envolver em um acidente no trabalho em que um homem perde um braço, Trevor começa a crer que seus colegas estão conspirando para demiti-lo. Ele precisará lutar não apenas para se manter no cargo, mas também para manter a sanidade.

01- "Amnésia" (Memento - 2000) EUA
Após um assalto que resultou na morte de sua esposa e que o deixou em estado gravíssimo, Leonard Shelby (Guy Pearce) passa a sofrer de amnésia recente. Ele não consegue se lembrar de fatos que aconteceram há 15 minutos. Mesmo assim ele decide ir atrás do assassino de sua mulher e se vingar.

terça-feira, 13 de março de 2018

Adeus, Christopher Robin (Goodbye Christopher Robin)

"Adeus, Christopher Robin" (2017) dirigido por Simon Curtis (A Dama Dourada - 2015) é um filme agridoce que nos introduz ao processo de criação do escritor A.A. Milne para o ursinho Pooh, a sensibilidade permeia toda a trama apesar das tristezas que a envolvem, provoca nostalgia, emoção e também mostra os traumas causados por conta da fama. Conhecemos a origem, antes da Disney obter os direitos, as inspirações e o desenrolar pesado desse universo mágico.
Traumatizado pelas batalhas vivenciadas na 1ª Guerra Mundial, o escritor e autor de peças teatrais Alan Milne (Domnhall Gleeson) retorna a Londres, onde tenta retomar a vida cotidiana ao lado da esposa, Daphne (Margot Robbie). Eles têm um filho, o pequeno Christopher Robin (Will Tilston), que basicamente é criado pela babá da família, Olive (Kelly Macdonald), devido à distância estabelecida pelo próprio pai. Disposto a escrever um livro que irá ajudar o mundo a evitar uma nova guerra, Milne leva a família para morar no campo. Lá ele se aproxima do filho, que serve de inspiração para criar seu personagem mais conhecido: o ursinho Pooh. Pooh (Puff) foi nomeado por causa do ursinho de Robin, outros brinquedos verdadeiros de Robin também emprestaram seus nomes para outros personagens, como Tigrão, Bisonho e Leitão.
Alan Milne deseja escrever um livro anti-guerra e sofre as consequências de ter a vivenciado, completamente traumatizado leva sua família para o campo, onde acaba não tendo nenhuma vontade de continuar seu livro, sua esposa Daphne exibe uma faceta manipuladora e egoísta e não demonstra afeto pelo filho, ela sai da casa e diz que só voltará quando o marido terminar o livro, o pequeno Christopher Robin apelidado de Billy Moon é cuidado o tempo todo por sua amada babá Olive, uma mulher triste e solitária e a única pessoa a se importar realmente com os sentimentos da criança. Porém, ela precisa se afastar para cuidar de sua mãe doente, algumas semanas se passam apenas entre pai e filho, Alan percebe com curiosidade a imaginação fértil de seu filho, sempre com um sorriso no rosto e pronto para inventar histórias com seus bichos de pelúcia, a partir desse convívio Alan começa a escrever poemas, Billy Moon até pede para que o pai escreva um livro para ele, mas o que se sucede é um imenso boom após a publicação de todo o universo imaginado pela criança, de repente seu ursinho é amado por outras crianças, que num mundo onde a dor da guerra prevalece encontram no livro motivos para sorrir.

O garoto é extremamente criativo e no espaço de tempo em que convive apenas com o pai, que anseia por inspiração, mostra suas brincadeiras e aí ele vê nisso a oportunidade de criar algo, são momentos mágicos em que Billy Moon pensa estar se divertindo, pois a mãe sempre dizia que enquanto o pai estiver escrevendo não era para incomodar, as coisas se misturaram e a partir disso os traumas foram sendo desenhados, a carência não era vista pelo pai, a mãe era distante e fria, e a única que lhe dava afeto foi embora devido divergências, pois Olive não tinha vida e não aguentava mais ser humilhada. O filme possui diálogos marcantes e a melancolia permeia toda a trama, as interpretações são emocionais e cativantes, e a fotografia é um primor, enche os olhos com todo o visual bucólico.

"Adeus, Christopher Robin" conta as razões do escritor ter criado o universo do ursinho Pooh, tendo como pano de fundo a guerra, que era considerada a última, as decepções e a sensação de impotência deixaram Milne completamente traumatizado, então vai para o campo com a família e lá sem nenhum tipo de criatividade de repente vê no convívio com seu filho a fonte que necessitava, diante da crueldade pela qual o mundo passava o ursinho Pooh trouxe novamente a alegria e a vontade de sonhar, Christopher quando adolescente sentiu que precisava fugir daquilo tudo, da imagem que o pai criou de si e foi para a guerra, uma forma de eliminar suas dores e sentir que estava vivo. Uma história triste, mas muito interessante e que merece ser conhecida pelos adoradores do ursinho Pooh, é um retrato curioso e que vai além da fantasia. Para quem conhece apenas a versão da Disney é mais que obrigatório assisti-lo.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A Festa de Aniversário de Henry Gamble (Henry Gamble's Birthday Party)

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" (2015) dirigido por Stephen Cone (The Wise Kids - 2012) é um filme que retrata com realismo todo o falso moralismo que permeia o universo cristão, os conflitos pessoais são expostos com sinceridade e cada personagem possui seus segredos, seus desejos e suas confusões devido a repressão causada pela religião.
Henry (Cole Doman), que comemora seu aniversário de 17 anos, está claramente lutando com sua sexualidade, já que seu pai (Pat Healy) é um pastor evangélico de uma mega-igreja suburbana. Henry não é o único membro de sua família com questões pessoais: sua mãe (Elizabeth Laidlaw) é profundamente infeliz em seu casamento, e sua irmã (Nina Ganet), está voltando para casa depois de seu primeiro ano na faculdade. Um filme sobre pessoas divididas entre suas crenças religiosas e a vertiginosa liberdade do mundo.
Acompanhamos o adolescente Henry ao longo do dia de seu aniversário, ele está se descobrindo sexualmente e reprime seus desejos por conta de sua rígida criação cristã, aliás todos os personagens apresentados sofrem com isso, a mãe é infeliz no casamento, a irmã possui problemas com seu próprio corpo e é confusa por sentir desejos pelo namorado, o pai, um pastor evangélico que segue à risca as regras, e todos os amigos que frequentam a comunidade exibem essa faceta hipócrita, mas aos poucos e muitas vezes sem diálogos a imagem deles de seres perfeitos caem por terra. Ao redor da piscina cristãos e não-cristãos dividem espaço, como as duas amigas de Henry que nada têm a ver com os da comunidade da igreja, todos se adaptando e curtindo o momento, com o passar das horas conhecemos mais os personagens, no caso Henry está ainda se descobrindo e tentando não demonstrar, por outro lado há um personagem atormentado pelo fato das pessoas não o compreenderem, julgam e negam a verdade. Essa repressão destrói o ser humano de um jeito irreversível. Vemos personagens bebendo escondido, assistindo coisas proibidas, personagens que apenas apontam o dedo e que foram para criticar o modo dos jovens, esses que em vários diálogos exibem ideias retrógradas e preconceituosas. Sem dúvidas, uma baita crítica a essas comunidades ditas perfeitas que pregam o amor e que na verdade só disseminam ódio, que fazem as pessoas se sentirem péssimas por aquilo que elas são e assim repreender suas vontades e seus desejos.

O filme segue com um ritmo tranquilo e as situações vão se apresentando naturalmente e sem necessariamente serem resolvidas, o realismo é a grande marca do longa, assim como as sensíveis interpretações, os olhares e a maneira de se comportarem nos revela muito mais do que qualquer diálogo, as tensões e os desconfortos são delineados com sutileza, porém sempre com uma imensa dose de reflexão. A trilha sonora também ajuda a conduzir a trama, na festa o pai permite que Henry coloque as suas playlists, somos envolvidos por canções que mesclam melancolia e sensualidade, como "Only For You", de The Pass, "Everyone is Dark", de New Canyons, "Mylene", de YAWN, entre tantas outras.

"A Festa de Aniversário de Henry Gamble" trata da repressão sexual no meio cristão de maneira sincera e vai pincelando os problemas de cada personagem para expor o como encaram a homossexualidade, desejos e a liberdade; o falso moralismo é gritante e incomoda. É um filme bonito, crítico e encantador!

terça-feira, 6 de março de 2018

Divinas Divas

"Divinas Divas" (2016) dirigido pela talentosa atriz Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta - 2013) é um documentário sensível e primoroso, retrata histórias comoventes e inspiradoras das primeiras travestis a ganhar destaque no ramo de shows no Brasil, graças ao teatro Rival e seu fundador Américo Leal, avô de Leandra Leal. O local borbulhava criatividade e cultura mesmo com tudo indo contra, censura, preconceito e violência, mas o sucesso foi instantâneo e tudo por conta da ousadia dos organizadores e talento das artistas.
Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. Há delicadeza, glamour e também fragilidade, as partes em que a diretora narra em off a história do teatro que mistura-se a sua vida traz uma sensação de afetividade, saudade e muito amor à arte, ela cresceu entre camarins e coxias e estava próxima de todas elas, o que contribuiu imensamente em sua formação como pessoa e artista. Essas divas foram as pioneiras em um contexto hostil, enfrentaram a ditadura, censura e abusos, mas nunca desistiram e estrelaram números incríveis.
É uma delícia escutar as histórias de todas elas, os percalços e as alegrias vividas, somos absorvidos por um universo fantástico, mas que também necessitava de muita coragem para vivenciá-lo, o desenrolar mescla os ensaios para a peça que dá nome ao filme com as conversas e desabafos sobre suas vidas, é impressionante o clima de nostalgia gerado, o brilho nos olhos de todas, o carinho pelo teatro Rival, e observar o como elas lidaram com a própria sexualidade e o rumo de suas carreiras. Rogéria, denominada como "a travesti da família brasileira" é estonteante em cena, suas memórias nas apresentações nos clubes de Paris e toda a fama que se sucedeu depois, Rogéria nos hipnotiza enquanto fala, é complexa e fascinante, ela diz ter orgulho de seu lado masculino e que por isso nunca pensou em se livrar dele. No desenrolar solta frases icônicas: "Eu ainda ia arrumar confusão como? Eu já era a confusão!"

São histórias enriquecedoras e mesmo com todos os obstáculos fizeram fama e dinheiro, participaram de programas de televisão, criaram seus próprios projetos, como Eloína dos Leopardos com o ousado show de striptease masculino, "A Noite dos Leopardos" em 1980, e é comovente por outro lado ver a situação de outras com apenas o suficiente para sobreviver, como Marquesa, seus últimos dias de vida foi gravando o documentário, a vemos com muitas dificuldades, mas com um empenho absurdo, o encerramento com ela é realmente divino. A sua história é permeada de conflitos internos, a relação com a mãe e a sua própria aceitação, todos os relatos e lembranças são maravilhosos, mas a de Marquesa em especial fica gravado na mente.

"Divinas Divas" é um documentário leve, delicioso e essencial para conhecer a história do teatro Rival e sua importância e sua expressão artística para o cenário do transformismo numa época difícil. Celebremos essas divas que abriram o caminho para as novas gerações! 

sexta-feira, 2 de março de 2018

Projeto Flórida (The Florida Project)

"Projeto Flórida" (2017) dirigido por Sean Baker (Tangerina - 2015) retrata com realismo o outro lado de Orlando, especificamente o que há nos arredores do mundo mágico da Disney, nos deparamos com um motel todo pintado em lilás chamado "The Magic Castle", neste ambiente passam muitos turistas e pessoas em condições difíceis que pagam por dia ou mês para ter onde ficar, a pobreza e a falta de oportunidade resultam em caos e quem sofre as consequências são as crianças que enquanto cometem estripulias sonham em usufruir de todo aquele universo.
Moonee (Brooklynn Prince), uma agitada garotinha de seis anos, apronta com o vizinho Scooty (Christopher Rivera) e faz novas amizades nas redondezas dos parques Disney. Ela vive com a mãe (Bria Vinaite) numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente Bobby (Willem Dafoe) na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos e muitos riscos.
O filme segue Moonee que tenta se divertir com os amigos, sem muito o que fazer e sem ter quem os direcione passam dos limites a todo instante e são insuportavelmente inconvenientes, eles andam o dia todo, inventam brincadeiras, mentem, falam palavrões e pedem dinheiro para conseguir sorvetes, a inocência se mescla com a dura realidade de miséria e eles apenas observam o mundo mágico que os rodeiam, não possuem referências positivas e ficam soltos a sua própria sorte, a mãe de Moonee é inconsequente e impulsiva, mas demonstra afeto pela filha e faz o que pode para sobreviver, tem momentos que ela parece não se importar, mas a verdade é que está perdida e sem perspectivas, a vemos vendendo perfumes falsificados em hotéis melhores, rouba, engana, faz programa e são essas as saídas que encontra para comprar comida e pagar o quarto. A questão não é definir o que é certo e errado, mas sim refletir nas realidades existentes e o como elas moldam o comportamento das pessoas, Moonee aproveita sua infância sem limite algum e faz do local seu mundo mágico, é considerada má influência por outras mães, só que ela é uma criança e ainda não consegue enxergar de fato a vida, enfrenta as durezas com brincadeiras. Quem tenta colocar ordem nisto tudo é Bobby, o gerente do motel, ele pega bastante no pé dos moradores, mas é gentil com Halley e protege as crianças.

A história segue lenta e foca no tedioso dia a dia de Moonee, toda a narrativa acompanhamos sob seu olhar, o aspecto de conto de fadas e as imagens super coloridas contrastam com a realidade vivida e é perfeitamente real, pois na sociedade toda a miséria é mascarada e cria-se a ilusão de que ela não existe, o filme faz um belo retrato das pessoas que estão à margem do universo mágico da Disney, e apesar de soar triste há uma aura de esperança embutida, sutilezas permeiam toda a trama, o como as crianças enxergam a realidade que vivem, ao longo Moonee solta frases pertinentes sem saber exatamente o peso delas, como "Eu sempre sei quando adultos estão à beira de chorar", ou quando numa das mais lindas cenas Moonee e a amiga se deliciando com um doce diz: "Sabe por que essa é a minha árvore favorita? Porque ela caiu. E ainda continua a crescer"O otimismo infantil encanta e inevitavelmente emociona, Brooklynn Prince parece que está interpretando a si mesma tamanha a naturalidade, aliás, o elenco infantil é incrível transmitindo o modo como enxergam as situações.

"Projeto Flórida" comove pela realidade retratada e surpreende por sua espontaneidade, também elucida sobre o fato da enorme responsabilidade em se colocar um ser humano no mundo, Halley ama sua filha, mas não sabe ser mãe e não tem condições para criá-la, é extremamente triste ao final quando a menina enfrenta pela primeira vez a realidade, e é impressionante o como essa realidade choca-se com a imaginação proporcionando um dos momentos mais espetaculares do filme.