terça-feira, 6 de março de 2018

Divinas Divas

"Divinas Divas" (2016) dirigido pela talentosa atriz Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta - 2013) é um documentário sensível e primoroso, retrata histórias comoventes e inspiradoras das primeiras travestis a ganhar destaque no ramo de shows no Brasil, graças ao teatro Rival e seu fundador Américo Leal, avô de Leandra Leal. O local borbulhava criatividade e cultura mesmo com tudo indo contra, censura, preconceito e violência, mas o sucesso foi instantâneo e tudo por conta da ousadia dos organizadores e talento das artistas.
Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. Há delicadeza, glamour e também fragilidade, as partes em que a diretora narra em off a história do teatro que mistura-se a sua vida traz uma sensação de afetividade, saudade e muito amor à arte, ela cresceu entre camarins e coxias e estava próxima de todas elas, o que contribuiu imensamente em sua formação como pessoa e artista. Essas divas foram as pioneiras em um contexto hostil, enfrentaram a ditadura, censura e abusos, mas nunca desistiram e estrelaram números incríveis.
É uma delícia escutar as histórias de todas elas, os percalços e as alegrias vividas, somos absorvidos por um universo fantástico, mas que também necessitava de muita coragem para vivenciá-lo, o desenrolar mescla os ensaios para a peça que dá nome ao filme com as conversas e desabafos sobre suas vidas, é impressionante o clima de nostalgia gerado, o brilho nos olhos de todas, o carinho pelo teatro Rival, e observar o como elas lidaram com a própria sexualidade e o rumo de suas carreiras. Rogéria, denominada como "a travesti da família brasileira" é estonteante em cena, suas memórias nas apresentações nos clubes de Paris e toda a fama que se sucedeu depois, Rogéria nos hipnotiza enquanto fala, é complexa e fascinante, ela diz ter orgulho de seu lado masculino e que por isso nunca pensou em se livrar dele. No desenrolar solta frases icônicas: "Eu ainda ia arrumar confusão como? Eu já era a confusão!"

São histórias enriquecedoras e mesmo com todos os obstáculos fizeram fama e dinheiro, participaram de programas de televisão, criaram seus próprios projetos, como Eloína dos Leopardos com o ousado show de striptease masculino, "A Noite dos Leopardos" em 1980, e é comovente por outro lado ver a situação de outras com apenas o suficiente para sobreviver, como Marquesa, seus últimos dias de vida foi gravando o documentário, a vemos com muitas dificuldades, mas com um empenho absurdo, o encerramento com ela é realmente divino. A sua história é permeada de conflitos internos, a relação com a mãe e a sua própria aceitação, todos os relatos e lembranças são maravilhosos, mas a de Marquesa em especial fica gravado na mente.

"Divinas Divas" é um documentário leve, delicioso e essencial para conhecer a história do teatro Rival e sua importância e sua expressão artística para o cenário do transformismo numa época difícil. Celebremos essas divas que abriram o caminho para as novas gerações! 

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