quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Taboo (Série)

"Taboo" (2017) série da BBC criada por Tom Hardy junto a seu pai Chips Hardy com apoio de Steven Knight e produzida por Ridley Scott centra-se no ano de 1813, o aventureiro James Keziah Delaney (Tom Hardy) retorna da África trazendo ilegalmente quatorze diamantes. Recusando-se a vender a empresa da família para a East India Company, ele a transforma em um império de comércio e transporte, com o objetivo de vingar a morte do pai. Com isso, Delaney se envolve na guerra que está sendo travada entre o Reino Unido e os EUA.
A história se inicia com James retornando a Londres depois de uma década, o que causa espanto a todos que pensavam que estava morto, quando volta ele se depara com a seguinte situação: o pai está morto, possivelmente envenenado, e tendo que lidar com os poderosos da East India Company que querem obter Nootka Sound, a terra que James herdou do pai e cuja está sendo disputada na guerra entre Reino Unido e Estados Unidos. A narrativa intriga por seus diversos segredos, não há pressa, tudo é nublado e aos poucos as coisas vão sendo reveladas.
Tom Hardy é o CARA, ele sabe de tudo o que se passa, quando a notícia chega a ele já existe um plano em sua mente para tal, a explicação seria que há algo místico em si, tanto em seus genes pela parte da mãe que fazia parte de uma tribo indígena, quanto pelo fato de ter ficado muitos anos em uma aldeia africana aprendendo magias e cometendo atrocidades e perdendo assim, totalmente seus sentimentos.
A série tem uma ambientação grandiosa, nota-se as minúcias de se retratar a sujeira, a lama misturada com fezes dos cavalos, as doenças, como a varíola. Tudo isso contribui para o aspecto misterioso e sombrio, a opulência e a miséria se concentra no mesmo lugar, percebe-se isso ao retratar tanto as pessoas do reino, como o Príncipe Regente com sua figura pitoresca e, de fato, nojenta, como as pessoas comuns, as crianças extremamente encardidas, a falta de asseio das prostitutas, esse é um ponto valioso da série que prende-nos numa atmosfera pesada que mistura intrigas políticas ao misticismo. A estética, sem dúvidas, é um dos fatores primordiais para sua originalidade, assim como seu roteiro redondo, coeso. 

Tom Hardy mexe com nosso psicológico, sua personalidade bruta e analítica ora nos faz adorá-lo, ora odiá-lo, não existe limites para James Delaney, sua astúcia é tão grande quanto sua crueldade, sua fama entre os habitantes é de um sujeito que come as vísceras de quem mata, a aura sobrenatural fascina, mesmo que seja pouco explorada é o que responde a questão dele ser assim tão forte e sempre estar a frente de todos, pois com sua estadia na África aprendeu magias que, como vemos em alguns episódios, através de um pó amarelo, ele tem acesso ao que quer. Delaney demonstra ter cometido atrocidades, além de que roubou os diamantes que trouxe consigo, outra coisa bastante perturbadora é a paixão avassaladora que tem por sua irmã Zilpha (Oona Chaplin).

Alguns personagens mesmo não tendo grande destaque na trama conquistam, como é o caso de Thorne Geary interpretado por Jefferson Hall, o Torstein, de "Vikings", ele no decorrer fica bastante atormentado, principalmente, por sua adorada Zilpha ter um caso com o próprio irmão, suas atitudes são impensadas e sua vulnerabilidade dá chance para os outros o traírem. A cena do duelo com Delaney é o ápice, e daí vem sua derrocada psicológica. O que não acontece com a personagem Zilpha, interpretada por Oona Chaplin - neta de Charles Chaplin, infelizmente, inútil na trama, passa a maioria do tempo com uma expressão de susto e não dá ênfase nenhuma em suas emoções. Outros personagens que ganham nossa atenção é o mordomo Brace (David Hayman), que teme por Delaney ter o mesmo fim do pai, do qual Brace era muito próximo, a prostituta Helga (Franka Potente - Corra Lola, Corra) que tem um bordel num espaço pertencente a Delaney e que com o seu retorno faz pequenos negócios com ele para mantê-lo, Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce - Alto Pardal em GOT) é líder da Companhia das Índias e um grande rival de Delaney, ele é extremamente articulador e nocivo, quando aparece ganha a tela e todos os outros acabam ficando menores perto de si, como é o caso de Wilton (Leo Bill). Vale acrescentar ainda Edward Hogg, um escrivão que nas horas vagas se traveste de mulher, Jason Watkins como Soloman Coop, o exímio articulador do Príncipe Regente, Jessie Buckley como a carismática Lorna Bow, Stephen Graham e seu Atticus, e claro, o magistral Tom Hollander e seu químico Cholmondeley, que rouba completamente a cena com seus projetos e seu bom humor.

"Taboo" é uma superprodução de apenas 8 episódios recheada de conflitos e bastante interessante por abordar um lado histórico, no caso, a Companhia das Índias Orientais, a sua importância e também demonstrando seus negócios escusos. A utilização de um protagonista de poucas palavras com ideias avançadas para a época e o grupo que ele junta, pessoas marginalizadas daquela sociedade, é uma sacada bem inteligente. O uso do mistério e da lentidão criando assim uma atmosfera lúgubre junto a aura de feitiçaria também acaba envolvendo. Com a confirmação de uma segunda temporada há esperanças que se desenvolva em muitos aspectos, mas o charme da série é justamente o ar enigmático. Para quem ama séries com ambientações primorosas, temáticas que envolvem jogo de poder, clima sombrio e quer se desviar das tão aclamadas é uma ótima opção!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Flesh and Bone (Série)

"Flesh and Bone" (2015) do canal Starz, criada por Moira Walley-Beckett, roteirista de primeira, alguns de seus trabalhos inclui "Breaking Bad" e "Anne with an E". Esta série sombria retrata as entranhas do mundo do balé e prometia ser uma inovação, mas, infelizmente, não vingou e se tornou uma minissérie de apenas 8 episódios. É uma história intrigante e perturbadora que trabalha em cima das obsessões.
A personagem central, Claire Robbins (Sarah Hay) busca se tornar uma bailarina de sucesso, para isso foge de Pittsburgh para NY e logo na primeira audição adentra na prestigiada academia de Ballet de NY, mas a rapidez com que tudo acontece, sua ascensão dentro do corpo de balé junto a problemas pessoais e emocionais torna tudo muito inquietante.
Claire tem feição assustada, mas por outro lado é determinada, exibe seu talento e encanta logo de primeira o rígido e arrogante Paul (Ben Daniels), isso provoca a ira das outras meninas, pois ela se destaca e é convocada para ser a primeira bailarina de um espetáculo que está sendo montado, aliás tudo muda e monta-se um espetáculo novo devido a sua entrada. A pressão e a inveja dentro do ambiente é tóxico e é preciso muito autocontrole, além de que o trabalho é maçante para buscar a perfeição, não há espaço para erros, ali estão os melhores dos melhores. Claire acaba dividindo um apartamento com Mia (Emily Tyra), uma garota com problemas alimentares, a relação é distante e a competição não só entre elas, mas com todos é obsessiva, algo muito, mas muito bem retratado na série, a obsessão está em todos os setores, seja na dança, ou na vida pessoal, Claire tem uma relação tensa com seu irmão, ele a ama e ela também, mas esse sentimento conforme vemos é sufocante tamanha a sua complexidade, é um baita estudo psicológico. Há outros personagens intrigantes na história, como Romeo (Damon Herriman), um mendigo que vive em cima do prédio em que Claire e Mia moram, ele é uma incógnita, parece ser amigável, porém sua mente viaja e as coisas envolvendo Claire o afetam de maneira obsessiva também.
Logo de início percebemos que não será nada fácil para Claire se adaptar, o mundo que está se abrindo é traiçoeiro, é preciso se submeter a alternativas sórdidas, Claire não se encaixa, mas ao mesmo tempo flerta com essas possibilidades, ela não é tão meiga quanto aparenta, característica que irrita os outros alunos e que lhe rende vários apelidos. A pessoa que a "ajuda" de certa forma a adentrar neste mundo que se abre é Daphne (Raychel Diane Weiner), que nas horas vagas dança num clube de strip-tease, cujo dono, um russo, é apaixonado por balé. 

A série é apaixonante por vários fatores, começando pelo tema, o balé, que nos presenteia com movimentos belíssimos, coreografias elegantes e vivazes, e o mais interessante, nos permite observar os bastidores, a concepção de um espetáculo, desde os pequenos detalhes ao grand finale, mas até chegar aí muitos sentimentos e obstáculos surgem, o principal deles, a competição, os olhares de inveja e ciúmes chegam a cortar a pele, tanto quanto os machucados de verdade que os bailarinos vão adquirindo com os exaustivos ensaios, é desde perder unhas a problemas de articulações. É uma exímia tour de force. A rigidez ou a própria falta de educação de Paul com todos ali é bastante evidenciada e para quem já passeou por este universo sabe que não é muito diferente disso que está sendo retratado, realmente aguentar a pressão psicológica é mais difícil do que suportar o estresse e dores físicas. Outra questão pertinente que a série aborda são os problemas particulares de Claire que envolvem o irmão, a necessidade um do outro, pelo fato da carência que têm dos pais, sempre foram eles dois e nisto gerou uma relação bastante perturbadora e que moldou a personalidade ambígua de Claire, realmente percebe-se facetas diversas durante a história. 
As interpretações são ótimas, Sarah como Claire irrita por muitas vezes com sua feição, olhos sempre arregalados, em contrapartida, há firmeza e profissionalismo em suas atitudes, principalmente por ter confiança em seu talento, mas quem ganha a tela é Ben Daniels como Paul, um ser humano egoísta, invejoso, falso, solitário e que destila suas angústias sem o menor discernimento, mas que incrivelmente chama nossa atenção, seu olhar penetrante, sua postura e voz cativa.

 
"Flesh and Bone" foi concebida por pessoas que entendem do assunto, e os atores, todos que estão no corpo de balé são de fato bailarinos, a protagonista Sarah Hay, atualmente é solista do Ballet Semperoper em Dresden, na Alemanha - sua primeira atuação foi no filme "Cisne Negro" em 2010. A ex-bailarina Irina Dvorovenko (American Ballet Theatre) que interpreta Kiira, a mais velha, que já está numa fase complicada, porém a mais profissional e a única que Paul respeita, ela tem prestígio, mas devido a lesões e o uso de drogas para amortecer a dor sofre pressão para parar e enfim pensar na vida particular, a chegada de Claire é um baita agravante nisto tudo. Outro excepcional bailarino é Sascha Radetsky (American Ballet Theatre) que dá vida a Ross, ele é a perfeição, seus movimentos hipnotizam.

Com um vasto número de personagens interessantes a série acaba não dando chance para o desenvolvimento deles, alguns são deixados de lado e outros tem desfechos desinteressantes dentro de todo o contexto em que foram envolvidos, como Romeo e Mia, o que demonstra o quanto a série tinha potencial, mas não deixa de ser impecável quanto ao tema principal, o balé e seus meandros, a obscuridade por trás de algo tão belo, os movimentos; o corpo. 
Não posso terminar e não dizer sobre a abertura, assombrosamente linda com a canção "Obsession" de Karen O, juntamente à coreografia de Ethan Stiefel. Uma série apaixonante e perturbadora, traça perfis complexos e que sugere muitas discussões, variadas visões e aprendizados. 

sábado, 26 de agosto de 2017

20 Filmes de Vingança

Segue a lista de filmes que tem como tema a vingança, onde as histórias primam por roteiros intrigantes, inúmeros filmes ficaram de fora, pois quis evidenciar os menos conhecidos ou glorificados. 
"A vingança agrada a todos os corações ofendidos; (...) uns preferem-na cruel, outros generosa". (Pierre Marivaux)

20- "Revanche" (2008) Áustria
A natureza em cena. Verão tardio. Um pequeno lago na floresta. Nenhuma pessoa. Silêncio. Não muito longe, a recém-construída casa habitada pelo casal Robert e Susanne. Vivem uma vida comum como outras pessoas. Enquanto isso, em Viena. Vida noturna, luzes vermelhas no bairro, mundo de prostituição. Ali, o dinheiro é lei. Muitas pessoas têm trabalhos que claramente as deixam em dificuldades. Como Alex e Tâmara. Ela é uma prostituta vinda da Ucrânia. Ele, o chefe que ganha dinheiro do jeito errado. São amantes, mas têm um segredo. Como empregados não têm direito de se envolver afetivamente, esperam escapar e para isso precisam de dinheiro. Alex planeja um roubo a banco numa pequena cidade do campo. Tudo acontece conforme o planejado, até que o policial Robert aparece. Ele dispara alguns tiros e acerta a jovem mulher. Desesperado, Alex deixa o corpo numa clareira da floresta.
A fotografia é lindíssima, vemos tudo acontecer em meio aos troncos de árvores, desde a chegada de Alex ao lugarejo em que seu avô mora, quando ele resolve se vingar de Robert, e logo após suas descobertas externas e internas. Saiba+

19- "The Dressmaker" (2015) Austrália
Uma atraente mulher (Kate Winslet) retorna à sua cidade natal na Austrália rural. Com sua máquina de costura e estilo haute couture, ela transforma as mulheres e demanda a doce vingança de quem não acreditou em seus feitos. Acompanhamos o retorno de Myrtle "Tilly" Dunnage a sua peculiar aldeia em algum lugar do deserto australiano, o ano é de 1951, e ela volta com a intenção de mostrar para aquelas pessoas que conseguiu vencer na vida e que eles ainda continuam com suas vidinhas miseráveis. Saiba+

18- "O Cidadão do Ano" (Kraftidioten - 2014) Dinamarca/Noruega/Suécia

Nils vive em Beitostølen, é casado com Gudrun e tem um filho chamado Ingvar, que acaba de começar a estudar em Oslo. Ele é um homem feliz aos 45 anos de idade, e trabalha como motorista de arado, responsável ​​por manter a estrada do condado sobre Valdresflya livre de neve. Ele foi recentemente escolhido como Cidadão do Ano da cidade e está ansioso para a aposentadoria e para ter netos, o que seria uma vida totalmente despreocupada. Um dia ele recebe um telefonema dizendo que seu filho morrera de overdose. O luto pela perda de Ingvar se transforma em escuridão e vingança, e de repente Nils se coloca no meio de uma guerra contra as drogas. O paraíso bonito e calmo do inverno de Beitostølen é transformado em uma zona de guerra de fogo.

17- "Haider" (2014) Índia
Um jovem retorna à Caxemira após o desaparecimento de seu pai para vingar-se do tio, o homem que teve um papel essencial no destino de seu pai.
Versão indiana de "Hamlet", a adaptação é inovadora e ousada, os diversos gêneros dão a possibilidade de vermos a história por vários ângulos. Haider ao chegar em sua terra natal para procurar seu pai está quieto, retraído, mas ao ver sua mãe e seu tio em uma cena suspeita ele se revolta e enlouquece, e ao descobrir mais e mais coisas a sua sede de vingança vai aumentando. Saiba+

16- "The Salvation" (2014) Dinamarca
Na América de 1870, um pacífico colono americano mata o culpado por assassinar sua família, o que desperta a fúria do líder de uma famosa gangue local. Os covardes moradores da cidade traem sua confiança e delatam sua localização e plano para o bandido. Sozinho, ele é forçado a caçar a gangue com as próprias mãos. A trama é simples e não há rodeios, ela gira em torno da vingança que Jon (Mads Mikkelsen) deseja executar. Saiba+

15- "Os Lobos Maus" (Big Bad Wolves - 2013) Israel
Uma série de assassinatos brutais coloca as vidas de três homens em rota de colisão: O pai da vítima mais recente agora em busca de vingança, um detetive da polícia que trabalha fora dos limites da lei, e o principal suspeito dos assassinatos - um professor de estudos religiosos preso e liberado devido a um erro técnico da polícia.
Cumpre o papel de ser um thriller e alivia dando o tom de humor negro, a vingança vai desde a marteladas nos dedos, unhas dos pés arrancadas e queimaduras de maçarico. Vai-se intercalando cenas desconfortáveis com doses engraçadas e absurdas. Saiba+

14- "Eu Vi o Diabo" (Akmareul Boatda - 2010) Coreia do Sul
A noiva de um agente secreto é morta por um serial killer. Cego pela fúria, ele começa a investigar os possíveis suspeitos do crime, até finalmente identificar o culpado. Mas, ao invés de matá-lo, resolve pôr em prática uma terrível e lenta vingança.
A história de vingança é brutal, sangrenta, mas completamente justa. O diretor Jee-woon Kim nos dá duas longas horas e meia de cenas impressionantes e avassaladoras. Saiba+

13- "Bedevilled" (Kim Bok-nam Salinsageonui Jeonmal - 2010) Coreia do Sul
Hae-Won, trintona da cidade que após ter vivido várias complicações na sua vida cotidiana, decide retirar-se por um tempo na ilha remota onde costumava passar férias em criança com os seus avós. Uma vez chegada ao destino, reencontra Bok-Nam, uma mulher com quem teve uma amizade de infância. Mas Hae-Won rapidamente percebe que Bok-Nam vive um autêntico pesadelo na ilha.

12- "Pieta" (2012) Coreia do Sul
Kang-do trabalha cobrando empréstimos devidos a agiotas. Sem família, ele vive um cotidiano brutal e solitário, empregando métodos violentos para extorquir suas vítimas. Tudo muda quando ele é abordado por uma mulher que afirma ser sua mãe.
"Pieta" dirigido pelo mestre Kim Ki-Duk faz alusão à escultura mais conhecida de Michelangelo, onde Jesus morto está nos braços da Virgem Maria. O diretor, conhecido por seus filmes em que o silêncio é o grande protagonista, nos traz dessa vez uma história cruel, de vingança, em que o filho é o alvo principal. Saiba+

11- "O Mundo de Kanako" (Kawaki - 2014) Japão
Quando o romance de Fukamachi tornou-se um best-seller em 2004, muitos no Japão o consideraram muito lúgubre para uma adaptação no cinema. Mas o diretor Nakashima não ficou facilmente assustado com o conteúdo perturbador da misteriosa e sangrenta história que envolve a investigação de um ex-policial em desgraça e sobre o desaparecimento de sua distante filha. A primeira vista Kanako era uma menina exemplar, porém o pai descobre que ela possuía uma vida secreta e obscura.

10- "Confissões" (Kokuhaku - 2010) Japão
No último dia de aula em uma escola, a professora se despede dos alunos e diz que não mais voltará a lecionar. Ela ainda faz uma afirmação: sua filha de apenas quatro anos de idade, que supostamente morreu afogada na piscina da própria escola, na verdade foi assassinada por dois estudantes daquela classe. Antes mesmo de alguém se pronunciar, sem meias palavras a professora anuncia que está prestes a se vingar.
O que se vê é a transformação de uma pessoa calma e passiva numa mulher de sangue frio. Um thriller surpreendente tecido através, como sugere o título, de confissões feitas pelos personagens que pouco a pouco vão nos dando informações necessárias para entendermos o que, de fato, está acontecendo. Saiba+

09- "A Garota da Fábrica de Fósforos" (Tulitikkutehtaan Tyttö - 1990) Finlândia
Uma moça que trabalha em uma fábrica de fósforos leva uma vida frustrante em uma casa com a mãe e o padrasto que ou a ignoram ou abusam emocional e fisicamente dela. Ela acredita que sua vida está prestes a mudar quando encontra um homem bem-sucedido e se apaixona por ele, mas o relacionamento dos dois não será nem perto do que ela esperava.

08- "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (2015) Brasil
Baseado no conto homônimo do livro "Sagarana", do escritor Guimarães Rosa, o filme narra a história de Augusto Matraga (João Miguel), fazendeiro mineiro valente e mulherengo, à beira da falência, que ao buscar vingança por sua mulher tê-lo trocado por Ouvídio Moura (Werner Schunemann), quase morre após cair em uma emboscada armada pelos capangas do Major Consilva (Chico Anysio). "Renascido", depois de ter sido cuidado por um casal, Matraga dedica o resto da sua vida à sua fé e ao trabalho, esperando "sua hora e sua vez" chegar, até fazer amizade com o rei do sertão, Joãozinho Bem-Bem (José Wilker), e seu bando de jagunços. Saiba+

07- "O Lobo Atrás da Porta" (2013) Brasil
Numa delegacia, um homem (Milhem Cortaz), sua mulher (Fabíula Nascimento) e a amante dele (Leandra Leal) são interrogados. Arrancados pacientemente pelo detetive (Juliano Cazarré), um após o outro, seus depoimentos vão tecendo uma trama de amor passional, obsessão e mentiras que levará a um final completamente inesperado.
A complexidade da natureza humana é gigante, assim como a maneira de agir em certas ocasiões, principalmente quando envolve desejo, frustração e traição. Entender o que move o ser humano a tomar atitudes drásticas continua sendo uma incógnita. Saiba+

06- "Lady Snowblood" (Shurayukihime - 1973) Japão
Yuki, nasce dentro de uma prisão, e, desde seu primeiro minuto de vida, herda um legado obsessivo de vingança dos quatro malfeitores que mataram seu pai e estupraram sua mãe. Desde cedo ela é treinada em artes marciais, já crescida, sai em sua missão de vingança, armada com uma lâmina escondida no seu guarda-chuva.

05- "7 Dias" (Les 7 Jours du Talion - 2010) Canadá
Bruno Hamel é um cirurgião de 38 anos. Ele mora em Drummondville com a sua esposa Sylvie, e a sua filhinha Jasmine de 8 anos. Como muitas pessoas felizes, ele vive uma vida normal e cotidiana até um fim de tarde, quando sua filha é estuprada e assassinada. Daí em diante o mundo da família Hamel desmorona. Quando o assassino é preso, uma terrível ideia surge na mente perturbada de Bruno. Ele planeja capturar o "monstro" e fazê-lo pagar por esse crime. No dia que o assassino aparece no tribunal, Hamel, que havia preparado o plano em detalhes, sequestra o monstro e logo após, envia à polícia uma breve mensagem dizendo que o estuprador e assassino de sua filha seria torturado por 7 dias e então executado. Após concluída a sua missão, ele então se entregaria.

04- "O Presente" (The Gift - 2015) EUA
Simon (Jason Bateman) e Robyn (Rebecca Hall) casaram há pouco tempo e estão muito felizes até o dia em que ele reencontra Gordo (Joel Edgerton), um colega de escola. Um segredo do passado dos dois vem à tona e Robyn se sente cada vez mais insegura perto do companheiro.
Um filme estimulante, muito bem construído e com ótimas pitadas de sarcasmo. Ele trata de bullying, ganância, arrogância, mentiras e vingança. O suspense se mantém durante todo o filme e surpreende em seu final. Saiba+

03- "Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes - 2014) Argentina
Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. São seis episódios com pessoas vivendo situações-limite e respondendo violenta e inesperadamente a elas: uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens para um lugar fora de controle.
As seis crônicas urbanas são recheadas de vingança, humor negro, e há muita paixão no modo com que são expostas. Não tem como ficar indiferente a elas, mesmo que uma ou outra seja menos interessante ou impactante, a fórmula utilizada é sem dúvidas envolvente e o filme realmente merece muitos elogios. Como o título sugere a trama oferece relatos de selvageria humana, explosões de raiva, desejo de vingança, ações um tanto questionáveis permeadas por um humor cáustico. Saiba+

02- "Tudo por Justiça" (Out of the Furnace - 2013) EUA
Russell Baze (Christian Bale) trabalha em uma usina e mora com o pai (Bingo O. Malley), que enfrenta sérios problemas de saúde, e o irmão mais novo, Rodney (Casey Affleck), que lutou na Guerra do Iraque. Um dia, Russell se envolve em um acidente de carro onde uma criança acaba falecendo, o que faz com que seja preso. Ao sair ele retoma a vida de antes, trabalhando novamente na usina. Entretanto, Rodney se recusa a levar a mesma vida do irmão e do pai. Querendo ganhar dinheiro, ele passa a fazer lutas clandestinas e acaba se envolvendo com um homem violento e bastante perigoso: Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Um longa que prima por uma história simples e direta.

01- "White God" (Fehér Isten - 2014) Hungria
Um conto visionário entre uma espécie superior e os seus desgraçados inferiores… Privilegiando os cães de raça, uma nova lei impõe uma taxa pesada sobre as raças cruzadas. Os donos passam a abandonar seus cães e os refúgios ficam rapidamente superlotados. Lili, 13 anos, luta para proteger o seu cão, Hagen, mas seu pai acaba abandonando o animal nas ruas. Hagen e a sua dona procuram desesperadamente um ao outro, até que Lili perde as esperanças. Lutando para sobreviver, Hagen percebe depressa que nem todo mundo é o melhor amigo do cão. Ele junta-se a um bando de cães errantes, mas é capturado e enviado para um canil. Mesmo sem esperança de sobrevivência, os cães aproveitam as oportunidades para escapar e se revoltarem contra a humanidade. A sua vingança será implacável. Nesse cenário, Lili pode ser a única pessoa que pode pôr fim a esta guerra inesperada entre o homem e o cão.
É uma alegoria provocativa e reflexiva, uma obra singular e que tem em seu elenco canino uma força de expressão gigantesca, a revolta e a vingança contra o ser humano que domina e se julga superior foi bem representada por eles. Saiba+

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Música e o Silêncio (Jenseits der Stille)

"A Música e o Silêncio" (1996) dirigido por Caroline Link (Saída Marrakech - 2013) é um belo e sensível filme, traz como reflexão a importância de nossas escolhas em contrapartida com o sentimento por aqueles que amamos, e, sobretudo, a compreensão.
Desde a mais tenra idade, Lara serviu de intérprete para seus pais surdos, ajudando-os a se comunicar com os outros. Já crescida, ela demonstra grande talento musical. É quando surge um dilema em sua vida, pois se quiser abraçar uma promissora carreira, terá que mudar-se para Berlim. Lara (Tatjana Trieb) é uma criança esperta e sabe lidar com seus pais surdos de maneira muito leve e bem-humorada, ela os protege e os auxilia em todos os aspectos, Kai (Emmanuelle Laborit) e Marti (Howie Seago) parecem duas crianças necessitando sempre de apoio, não há grandes empecilhos e a família é muito feliz, Lara está para ganhar uma irmãzinha e é na tradicional festa de natal em família que com brilho nos olhos se apaixona pela música ao visualizar sua tia Clarissa (Sibylle Canonica) tocando clarinete. Sua tia lhe presenteia com o instrumento e assim nasce seu desejo pela carreira, mas os pais não gostam por ser um mundo que não compreendem, o pai principalmente é contra, é um tanto egoísta até porque guarda ressentimentos de sua irmã por um episódio na infância. Mas, o professor de Lara a incentiva e a tia lhe impulsiona. 
Aos 18, Lara (Sylvie Testud) precisa decidir se irá mesmo persistir nessa carreira, pois precisa partir para Berlim e deixar seus pais. Lara, então, parte com a tia e começa a vivenciar experiências, como o primeiro amor, mas ela é uma garota triste no fundo, sente falta dos pais e entra em conflito com sua tia. As coisas começam a tomar uma nova forma quando Marti percebe que está perdendo a filha, a irmã de Lara tem um temperamento diferente do dela e não tem aquele sentimento de proteção com os pais, ela ama a irmã e vai sozinha atrás de Lara, diante destas circunstâncias Marti promete compreender o desejo dela pela música, algo alheio a seu mundo. 

Este drama tem um incrível poder de nos transportar para as emoções dos personagens, que são compostos com tanta sensibilidade e verossimilhança, há inúmeras cenas marcantes, como quando o pai pergunta a Lara como é o som das coisas, como da neve, do pôr do sol, são momentos tocantes entre pai e filha, o carinho de Lara, a paciência e a compreensão dela é imensa, o que é lindo, mas torna os pais dependentes e acaba dificultando suas decisões futuras e também a sua personalidade. Mas, claro, quando algo atinge o âmago do pai ele reage e o interessante deste longa é exatamente a mensagem final, do como é primordial trabalhar a compreensão, para assim entender as características e limitações de cada um, como Lara explicando seu mundo, a música ao pai, que conhece apenas o silêncio.

Os diálogos, os olhares, os detalhes, as emoções transpassam a tela, retrata com delicadeza dois jeitos de ver e sentir o mundo, mas que se unem pelo amor, afinal para sentir não há necessidade de som. O filme tem uma aura melancólica e mágica, as atuações de Tatjana Trieb (criança) e Sylvie Testud (jovem) encantam e percebemos a drástica mudança de personalidade, assim como a transformação que acontece em Marti ao se ver só e perdendo sua filha por egoísmo, ciúme e mágoas passadas, ao final vemos um pai mais maduro e disposto a compreender a filha, a última cena é dotada do mais puro sentimento de afeição e compreensão. Belíssimo!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sing (Mindeki)

"Mindeki" (2016) dirigido por Kristóf Deák é um curta húngaro de 25 minutos inspirado em uma história verdadeira, passa uma rica e verdadeira mensagem sobre empatia e o valor da amizade, muito bem produzido, edição e fotografia caprichada, atuações impecáveis e cheio de detalhes e visões. Em pouco tempo a história emociona e marca pela atitude das crianças.
Budapeste, Hungria, 1990. Inspirado numa história real, acompanha um coral escolar premiado e uma menina recém-chegada à classe, que está prestes a descobrir o horrível segredo por trás de sua fama. 
Zsófi (Dorka Gáspárfalvi) chega na escola nova e se empolga para fazer parte do coral, super bem elogiado e ganhador de vários prêmios, já no seu primeiro dia a professora pede para que ela fique para uma conversa depois que terminam o ensaio, Erika (Zsófia Szamosi) é muito rígida e diz a Zsófi para que ela simplesmente não cante, mas apenas mexa a boca, afinal é um coro de prestígio e qualquer defeito pode o tirar da competição, aliás, ela diz que não é possível ganhar se todos cantarem. A menina murcha e passa os dias tristes, treinando a música apenas mexendo os lábios, só que ao fazer amizade com Liza (Dorka Hais), esta percebe algo errado, já que Zsófi parecia animada no início, as duas passam por diversos momentos de pura amizade, escutando música juntas e brincando, a cumplicidade dá a Zsófi a coragem de revelar o segredo e então diz o que a professora lhe pediu para fazer para continuar no coral. Liza fica muito inconformada com a situação, mas promete guardar segredo pela amiga, porém, ela descobre mais uma coisa sobre o coral e a partir daí tem uma ideia, pois acredita que todos têm o direito de cantar independente de ter talento ou não, para isso Liza e Zsófi precisarão da ajuda de todas as crianças do coral.

A história cativa e surpreende ao mostrar o como a amizade verdadeira, a luta pela sua liberdade e a imaginação geram força e desmontam qualquer repressão. A união na cena final é poderosa e emociona deixando o espectador com um sorriso que perdurará por um bom tempo. História marcante e com uma engrandecedora mensagem, lição de empatia e harmonia para a busca da liberdade individual.

Criativo, um exemplo de resistência dessas crianças à opressão silenciosa da professora, demonstra que quando todos têm o mesmo desejo, a união, a amizade produzem grandes efeitos e incentivam outros a agirem com coragem. Não poderia esquecer de mencionar as lindas canções, como "Bodzavirág". Um primor!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ethel & Ernest

"Ethel e Ernest" (2016) dirigido por Roger Mainwood apesar de ter como pano de fundo a II Guerra é um filme muito singelo e leve, o retrato de um doce e real casal vivendo as incertezas e novidades de sua época. Uma terna homenagem de Raymond Briggs aos seus pais, desenhado à mão, com base na sua premiada graphic novel, é uma descrição íntima e carinhosa da vida e dos tempos dos seus pais, dois londrinos comuns que vivem repletos de acontecimentos extraordinários.
1928. Em Londres, o leiteiro Ernest Briggs casa-se com Ethel, dando origem ao pequeno Raymond, em 1934. Quando a Segunda Guerra eclode, o menino, agora com cinco anos, é evacuado junto às tias em Dorset, enquanto Ernest junta-se ao serviço de bombeiros, chocado com a carnificina que vê. Com o retorno de Raymond, eles celebram a entrada dele para a escola de gramática e o nascimento do Estado-Providência. Raymond forma-se na faculdade de arte e obtém um lugar de professor. Pai e filho consolam-se quando Ethel morre, mas logo após Raymond estará de luto por causa do pai dele também.
É um filme meigo, o traços do desenho passam essa sensação e nos apegamos aos personagens, desde quando Ethel e Ernest se conhecem, o primeiro encontro, o casamento, a casa que escolhem morar, o nascimento do filho, as tantas novidades que surgem, como o fogão a gás, e neste aspecto o longa é bastante informativo e acompanhamos junto dos personagens uma série de acontecimentos que a guerra provocou, a pacata vida do casal se modifica, Ernest de leiteiro é obrigado a servir o corpo de bombeiros e assim presencia muita violência e dor, por outro lado, é muito agradável vê-lo ligar o rádio e ouvir as notícias perto de sua amada, que é alheia e pouco entende e que também se incomoda com as modernidades. Enquanto Ethel e Ernest enfrentam as consequências da guerra e vivem em meio a tantas incertezas, o pequeno Raymond aproveita a vida no campo com as tias, quando o tormento da guerra termina e ele volta, tudo o que os pais desejam é que estude num bom colégio, porém Raymond decepciona-os escolhendo estudar artes, mas, claro, que com o tempo teriam muito orgulho do filho, que se torna um incrível professor e um ilustrador de sucesso.
Toda a trajetória de Ethel e Ernest nos é mostrada com suavidade, desde a juventude à velhice, as modificações não só externas, mas também físicas. Uma graça Ernest jovem entregando leite de porta em porta e sua alegria ao mostrar para Ethel as novas utilidades domésticas que estavam surgindo. 

A narrativa segue de maneira muito interessante, praticamente didática ao que se refere ao contexto da guerra, as mudanças conforme os anos e o como esse casal conseguiu superar todas as adversidades sem deixar que nada estragasse a relação. A personalidade durona, mas amável de Ethel, a felicidade e empolgação de Ernest, tudo isso retratado com bastante credibilidade e muito carinho, isso se deve as vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn que imprimiram todas essas características aos personagens.

"Ethel e Ernest" é um filme afável, o delicado traço de Briggs traz as suas memórias, seus pais ganham vida novamente, eis a magia. Uma animação singular cheia de detalhes importantes e com uma aura emotiva e nostálgica. Outra beleza é a canção "In the Blink of an Eye", composta por Paul McCartney especialmente para o longa. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nu (Naked)

"Nu" (1993) dirigido por Mike Leigh (Sr. Turner - 2014) é uma obra-prima sombria, niilista, sarcástica, um mergulho profundo nas angústias humanas. Causa mal-estar, mas é exatamente esta sensação que faz com que sintamos a vida, é necessário saborear o amargor do cotidiano. O título já diz: Nu, a natureza humana cru e destrinchada.
O filme é uma obra em movimento. David Thewlis interpreta um homem sem lar e sem perspectivas que estupra uma mulher e foge, invadindo e mudando os rumos das vidas de várias pessoas que encontra. Thewlis vira carrasco, bálsamo, incitador, vítima, dependendo de quem cruza seu caminho. Parece um anjo/demônio boêmio que vem para provocar reações. Sua rudeza com uma mulher de meia-idade que se exibe na janela contrasta com seus conselhos metafísicos para o vigilante que a olha. Nu despe o espectador de qualquer procura por coerência narrativa. O que importa aqui é investigar almas.
O filme inicia com Johny estuprando uma mulher em um beco, logo ele rouba um carro e foge para Manchester, lá vai para casa de Louise, sua ex-namorada (Lesley Sharp), quem o recebe é Sophie (Katrin Cartlidge), a amiga que divide o apartamento, uma moça tão vazia quanto ele, os dois discutem sobre algumas coisas e Johny a encanta com seu charme, já sua ex precisa enfrentar seus sentimentos por ele, pois Johny é um ser humano extremamente ambíguo. A relação entre os três se torna um caos total e Johny sai pela cidade, uma Londres sombria e decadente, encontrando figuras peculiares. Ele perambula entre ruelas e becos e nessa sua caminhada soturna se depara com pessoas tão perdidas quanto si, discute e desafia a todos, em especial quando encontra o vigia de um prédio que vendo-o no frio o convida para entrar e vagueiam pelos corredores enquanto o homem diz sobre seu tedioso trabalho, nesta parte o contexto crítico da sociedade inglesa é desnudada e os conflitos da existência são expostos com tanta crueza que dificilmente não nos identificamos, a falta de oportunidade, a solidão, o desespero, todos sintomas instáveis e cruéis.
Johny na maior parte do tempo exibe uma faceta cínica, irritante e medonha, mas em determinadas partes podemos enxergar sua delicadeza, na verdade, vulnerabilidade, já que é completamente só, pois toda relação que tenta construir sofre pelo choque de ideias, ele é um poeta marginal, ou apenas um falador que dribla e pisa em cima da falsa felicidade cotidiana, e por conta disso é afogado pela angústia.

Johny incomoda porque ele provoca reações nas pessoas, elas são obrigadas a pensar em suas próprias vidas, de olhar para o próprio vazio e encarar a desesperança, há um misto de admiração e desprezo por ele, um ser verborrágico que ao mesmo tempo instiga e causa repulsa. O filme prima por diálogos impactantes e é indigesto por evidenciar sentimentos dolorosos. Para refletir sobre a existência realmente é necessário que se esteja nu. 

"Veja, Brian, é que Deus é um Deus de ódio. Tem que ser... porque se Deus fosse bom, por que há o mal no mundo? Por que há dor, ódio, ganância e guerra? Não faz sentido. Mas se Deus for um sacana cruel, então pode dizer, 'Por que há o bem no mundo? Por que há amor, esperança e alegria?'. Vamos falar sério. O bem existe para ser esculhambado pelo mal. A existência do bem permite o mal crescer. É isso, Deus é mal."

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)

"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.

É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões. 

O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Morfina (Morfiy)

"Morfina" (2008) dirigido por Aleksey Balabanov (Eu Também - 2012) reconstitui vigorosamente a prática médica em plena Revolução Bolchevique (1917). Um jovem médico determinado e talentoso precisa lidar com inúmeros empecilhos, tanto a sua insegurança, como a ignorância das pessoas. Um retrato sombrio de como um homem com tanto para fazer se envereda por um caminho desolador,  o vício em morfina.
Adaptação da história "A Country Doctor's Notebook", de Mikhail Bulgakov, baseada na experiência real do autor russo, quando, como um médico rural se tornou viciado em drogas, após uma pequena dose prescrita. Balabanov cuidadosamente reconstrói o momento em que Bulgakov cai nos braços da morfina, os anos da Revolução Russa, e mostra com rigor a aspereza da prática da medicina nesse período histórico.
Doctor Polyakov Mikhail Alekseyevich (Leonid Bichevin) sai da cidade grande e vai para um local afastado ficar no lugar de outro médico, lá conhece o paramédico e duas irmãs parteiras, se estabelece no quarto do médico antecessor repleto de livros, percebe que há bastante medicamentos e quando surge seu primeiro paciente na madrugada não consegue salvá-lo, o que cria uma situação estranha, já que foi por uma doença considerada infantil, Mikhail então terá que provar seu talento, senão o nome do médico anterior sempre será falado, deste episódio da difteria por ter tido contato com o paciente precisou tomar uma vacina, que lhe causou "reações", uma outra dose foi dada e esse foi o início de seu vício. Os burburinhos de uma revolução chegam e assim caminham os dias, frios e isolados. As passagens que envolvem cirurgias são as melhores, pois é macabro todos os equipamentos, medicamentos e maneiras, Mikhail exibe controle, mas é inseguro e toda vez sai para consultar os livros e volta e conduz tudo brilhantemente.
O humor está presente na trama que contém um contexto histórico pesado e ameniza o tom que ainda continua duro, a trilha sonora ajuda a compor o cenário e dar mais leveza, a trajetória desse jovem médico é triste, vê-lo se transformar em um esboço sendo que poderia fazer muito pelas pessoas e pela medicina. Sempre interessante histórias que abordam a medicina, os primórdios com suas técnicas e tratamentos assustadores, vários tipos de doenças infecciosas e as soluções que utilizavam. 

Após tomar a vacina de morfina como antídoto, o doutor já começa a sentir náuseas e ao sentir os efeitos toma isso como uma alergia e a enfermeira lhe aplica mais uma dose e essa dose nos dias que se seguem vão aumentando, aos poucos vemos sua deterioração e nisso o filme é primoroso, completamente visual, nada de imersão em sua mente, é no físico que se concentra e a degradação é terrível. O visual é o fator principal e são muitos momentos tensos em que Mikhail precisa agir, como uma amputação, uma traqueostomia, um parto podálico, onde não se poupa gritos, sangue, ruído de vísceras, dor e a fragilidade do corpo.

"Morfina" tem uma ambientação arrebatadora e passa com exatidão as sensações, desde as inseguranças, sejam elas em relação à medicina ou contexto político, como nos sentimentos e sensações fisiológicas dos personagens. Outra caraterística muito atraente é o realismo, as maneiras russas e o humor, além de muito gelo e escorregão e, claro, a vodca, que possui diversas utilidades!
Outra dica para quem gosta da temática é a série britânica "A Young Doctor’s Notebook" (2012) que também é baseada nessa história de Bulgakov, estrelada por Daniel Radcliffe e Jon Hamm. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Personal Shopper

"Personal Shopper" (2016) dirigido por Olivier Assayas (Acima das Nuvens - 2014) é um filme que passeia por vários gêneros, entre eles, drama, suspense e terror, a originalidade e a ousadia do roteiro pega de surpresa e nos deparamos com um filme único que retrata uma personagem imperfeita e repleta de dúvidas. O viés sobrenatural juntamente à atmosfera tensa do crescente suspense intriga e proporciona olhares diversos, uma história que mexe com incertezas, solidão, medo e o vazio.
Maureen (Kristen Stewart) é uma jovem americana que mora em Paris e trabalha como Personal Shopper para uma celebridade local. Ela também tem uma capacidade especial para se comunicar com o mundo dos mortos. A moça dividia esse dom com seu irmão, recém-falecido, que parece estar querendo enviar uma mensagem para o mundo dos vivos.
Acompanhamos Maureen em seu dia a dia, claramente detesta seu trabalho, ela escolhe roupas, sapatos e joias para uma famosa que mal vê, enquanto isso espera... espera um sinal de seu falecido irmão gêmeo, que era médium e acreditava existir vida após a morte, os dois sofrendo de um mesmo problema de saúde fizeram um pacto, que quem morresse primeiro esperaria por um sinal do além. Ela vai numa antiga casa, da qual ele gostava muito e passa noites tentando decifrar se os barulhos que ouve seria algo vindo de seu irmão, mas parece que mesmo se autodenominando também médium, Maureen titubeia nessas questões, ela explica que sente vibrações, mas ela busca um alívio para si e não de fato compreender.
Uma das grandes características do filme é a imersão que causa, sentimos cada ruído e cada sensação, um ar fantasmagórico. A junção desse mistério sobrenatural e o suspense que surge depois que Maureen troca mensagens com um desconhecido pelo celular é terrível, o medo atravessa a tela e nos toca. Kristen Stewart exala essa angústia, especialmente, na cena dessas trocas de mensagens, mas no filme todo podemos sentir junto dela as sensações que vêm com as situações, seja no emprego que considera fútil, na solidão vivida, na saudade do irmão, na espera do sinal, e também no mal que está no cotidiano, as obsessões, o uso das tecnologias para causar terror psicológico, a maldade, a violência. É um terror moderno que prima por gerar desconforto e introduzir perguntas ao final, vale rever até porque a confusão cresce em nossa mente, mas é instigante, sombrio e realmente subjetivo. 

Kristen Stewart domina o filme todo, a câmera não desgruda de seu rosto, cenas de pura angústia, confusão, medo e saudade, uma tensão física bem explorada, a profundidade de sua personagem, as dificuldades em se permitir seguir. Perfeito! Outra coisa bastante curiosa é quando o sobrenatural ganha forma, uma espécie de ectoplasma vomitando outro ectoplasma, causa uma impressão forte, tenebrosa, crendo ou não nessas questões o filme sabe trabalhar o medo de muitas maneiras e não dá respostas, coisa que muitos não gostam por estarem fissurados em imagens e por saciedade, "Personal Shopper" vai pelo caminho contrário e testa nossos sentidos.

"Personal Shopper" é um filme incrível, atmosfera impecável de medo e angústia não só pelo teor sobrenatural, mas também pelos medos contemporâneos, a exemplo das trocas de mensagens com um desconhecido, por outro lado a dor do luto, a solidão e o vazio que a vida moderna proporciona, como o emprego sem sentido, o consumismo, relacionamentos superficiais, etc. O roteiro dá uma bela misturada nisso tudo e, talvez, não funcione para todos, mas merece reconhecimento pela audácia em ser diferente e caminhar por terrenos sombrios.