terça-feira, 23 de maio de 2017

Flocken + Efterskalv (Filmes Suecos)

"Flocken" e "Efterskalv" são dois filmes suecos densos que dizem muito sobre a hipocrisia que reina no meio em que se vive, o primeiro retrata o machismo, o abuso à mulher e o segundo a reinserção de um adolescente acusado de um crime na comunidade onde mora, são duas histórias pesadas tratadas com seriedade e que nos mostra valores invertidos, influências, manipulação, julgamentos e o poder de interferência da população na vida de outros habitantes.
Assisti alguns filmes suecos atuais recentemente e percebi que há semelhanças entre os temas tratados, nestes dois a reação dos moradores em relação a assuntos como estupro em "Flocken" e crime e perdão em "Efterskalv". É o meio que se põe no direito de julgar, aliás, tanto um como o outro lembram "A Caça" (2012).
Coloca em questão o quão misógina a sociedade sueca é e também fechada para determinados assuntos, o que não deixa de ser uma desconstrução de um país considerado perfeito. Em outra postagem indicarei ainda mais dois filmes suecos que tratam de desemprego e imigração.

"Flocken" (2015) - na tradução literal rebanho - dirigido por Beata Gårdeler nos faz engolir a seco ao ver tanto machismo entranhado, inclusive nas mulheres, a insanidade e a hipocrisia coletiva dá enjoo.
A história baseada em fatos reais nos leva a uma pequena comunidade sueca que parece idílica, porém apenas na superfície. Quando Jennifer (Fatime Azemi), de 14 anos, afirma ter sido estuprada pelo colega de classe Alexander (John Risto), tudo muda. O rumor se espalha rapidamente e cada vez mais gente acredita que Jennifer está mentindo. É o início de um caso de perseguição de uma comunidade contra uma garota e sua família. Provas ou decisões da Justiça não significam nada em um lugar onde as pessoas estabelecem as próprias leis e regras. O mais importante é permanecer com o grupo. A população não acredita e se junta em favor de Alexander, ela sofre com comentários e é excluída do meio, na escola até suas melhores amigas se afastaram, uma delas até diz: você não está com cara de quem foi estuprada! E questionamentos do tipo aparecem: se foi estuprada por que demorou a dizer? 
Interessante observar que Jennifer é de uma família mais pobre e a mãe uma figura destoante daquele universo hipócrita, os moradores atacam e dizem que ela não presta por influência da mãe e essa espiral de ódio só cresce, o namorado da mãe de Jennifer que parecia ser o único a enfrentar quando se viu excluído abandonou-as. Alexander por ser de uma família mais rica e influente recebe o apoio e Jennifer fica encurralada, e o mais tenebroso é que mesmo a lei estando do lado da menina e condenando Alexander, o que importa ao final é o que pensa essa comunidade. O tom pessimista do final denuncia que situações como esta vêm acontecendo sem que nada se faça, pois se o agressor é amparado pela sociedade, a mulher se retraí e tudo continua na mesma, a consciência coletiva têm se modificado, o primeiro passo está sendo dado, mas o machismo entranhado é perigoso e é por isso que filmes como este são essenciais para a discussão e reflexão.

"Efterskalv" (2015) - na tradução literal depois do choque - dirigido por Magnus von Horn é um filme muito cru ao evidenciar a violência sofrida por John (Ulrik Munther) pela comunidade, o diretor faz questão de deixar a dúvida se ele de fato cometeu o crime, se é um ser humano sem empatia ou se num acesso de raiva fez tal besteira, isso nos coloca numa situação difícil, julgando suas atitudes a cada instante para tentar decifrar este enigma, a população desde o minuto que ele volta depois de passar alguns anos num reformatório o rejeita, o exclui de forma impiedosa, não dando a chance dele poder refazer sua vida. John sempre calado começa a frequentar sua antiga escola e não reage as investidas dos colegas, todos o olham com desprezo, na verdade a maioria tem medo e nem a diretora da escola o incentiva, mas ele segue sem se importar e conhece Malin (Loa Ek), uma garota que se destoa dos demais e se aproxima dele, aos poucos os dois criam uma conexão. A rejeição é tanta que isso acaba influindo no como o pai de John lida com a situação, realmente é difícil encarar o contexto do crime que descobrimos no decorrer, mas o filme coloca John em uma posição tão sufocante que fica impossível não refletir sobre o porquê de se apontar o dedo e dizer que tal pessoa não serve para viver dentro do mesmo ambiente, a violência que o menino passa é tão cruel quanto o ato que cometeu. 
É um filme seco, silencioso e que nos coloca na posição de observadores, a atuação de Ulrik Munther - astro pop da Suécia - é excepcional e transmite toda a repressão e também a ambiguidade do personagem, o crime não é a grande questão, mas a reintegração e o como o todo reage a isso, no caso de John a pequena comunidade o rejeitou e até chegou ao ponto de linchamento, o que cai por terra várias regras morais que esta pequena sociedade apontava, principalmente, quando na reunião de escola o pai do menino que bateu em John apoia a violência do próprio filho. É um exercício de reflexão contundente!

Um comentário:

  1. Gostei das dicas, não conhecia estes filmes.

    "A Caça" é um dos melhores dos últimos anos.

    Abraço

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