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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

The Nightingale

"The Nightingale" (2018) dirigido por Jennifer Kent (O Babadook - 2014) é um drama pesado, violento e muito emocional, carregado em cenas chocantes e transformadoras o terror real chega com brutalidade, mas também com sensibilidade e poesia, uma produção de ambientação sufocante acompanhada por uma narrativa silenciosa e repleta de sentimentos. 
Na Tasmânia de 1825, Clare (Aisling Franciosi) uma condenada irlandesa testemunha o assassinato brutal de seu marido e seu bebê por seu mestre soldado (Sam Claflin) e seus amigos. Incapaz de encontrar justiça, leva um rastreador aborígene com ela através do deserto infernal em busca de vingança.
Não é um filme convencional de vingança, existem questões profundas e dolorosas envoltas e que se mostram no decorrer da jornada entre uma mulher despedaçada e pelo seu guia aborígene também despedaçado. Claire cometeu um crime na Inglaterra e foi levada como prisoneira para a Tasmânia, ela está nas mãos de um tenente que pagou suas dívidas e por esse motivo está em dívida com ele, ela sonha poder se desprender desse carrasco e refazer sua vida ao lado do marido e seu bebê, mas depois de desentendimentos seu marido é morto juntamente com o seu filho numa cena perturbadora e imensamente cruel. Devastada, encolerizada e solitária decide pegar seu cavalo e ir atrás dos assassinos, mas o lugar inóspito e estranho só é amplamente conhecido pelos seus nativos que foram massacrados pelos ingleses e os que restaram tiveram que se tornar escravos e se adaptar aos costumes, e é com a ajuda de Billy (Baykali Ganambarr) que a contragosto inicialmente decide guiá-la, claro que ela não diz o verdadeiro propósito de sua busca e os dois partem em meio a natureza selvagem e encontram diversos obstáculos, especialmente na alimentação e nos preconceitos que um tem pelo outro.
A raiva de Claire é expelida por todos os seus poros, sua dor é tanta que não consegue pensar no que realmente acontecerá se encontrar os militares, Billy por sua vez se limita apenas a mostrar os atalhos, porém à medida que essa claustrofóbica viagem avança suas dores se unem e se transformam, ele a protege e cuida para que se alimente, começa a caçar e a roubar, conta sobre sua família e seu povo assassinado e tantos outros submetidos a maus-tratos, Billy percebe que Claire na verdade busca vingança e se interessa a conhecer seu passado cujos algozes são os mesmos que lhe tiraram tudo e a partir daí compreende seu objetivo. Diferentes entre si, porém semelhantes na dor da perda e é diante desse entendimento um do outro que nasce a cumplicidade, lealdade e respeito. 

O fundo histórico da trama destaca quando a Inglaterra no início do século XIX começou a explorar e colonizar a Tasmânia deportando uma imensa população carcerária de ingleses, galeses e irlandeses a fim de que após a sentença cumprida trabalhassem pesado e, obviamente, retratando todo o horror do genocídio cometido contra os aborígenes. Claire era uma prisioneira e foi "ajudada" por um militar, só que permaneceu como escrava trabalhando, cantando para os soldados no bar e constantemente sendo estuprada. O ponto histórico aterrador dá ao filme uma outra forma ao gênero vingança, ganha outros tons e camadas e ao final se transforma, Claire resiste o quanto pode e sua raiva é alimentada por um longo período da jornada, mas acontecem tantos infortúnios que a deixam à beira da loucura e minguam toda a sua força, e então Billy encontra em Claire uma forma de libertar também a sua necessidade de vingança. 

"The Nightingale" é um filme forte, sua abordagem é brutal, mas também possui seus momentos belos e poéticos, as interpretações crescentes e viscerais ajudam neste contexto junto de sua ambientação opressiva e violenta, além da paisagem selvagem que preenche a tela.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Rei (The King)

"O Rei" (2019) dirigido por David Michôd (Reino Animal - 2010, Flesh and Bone - 2015) é um drama épico livremente baseado em eventos históricos e adaptado da peça Henrique V, de Shakespeare. Uma produção poderosa que passa por intrigas de poder políticas e familiares com violência, beleza e questionamentos. 
Após a morte de seu pai, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, obrigado a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França.
Uma ótima surpresa, tanto em seu visual como na condução, é um filme que enche os olhos, mas que também promove reflexões acerca de todo o emaranhado provocado pela ânsia de poder. Acompanhamos a decadência do rei (Ben Mendelsohn), uma figura cruel e do qual o filho que o sucederá rejeita, então o rei deixa claro que a coroa será do outro filho que possui o desejo de ascender de maneiras não tão inteligentes, mas acaba que depois da morte do rei e do filho mais novo Henry é coroado, este que antes vivia uma vida simples de boêmio junto de seu fiel amigo e antigo cavaleiro Falstaff (Joel Edgerton). Todos os personagens possuem características marcantes e se entrelaçam numa trama permeada de intrigas, negociações e artimanhas, Henry é completamente avesso aos planos de guerra e se distancia do pai justamente por isso, mas quando se torna rei se depara e é obrigado a pensar nessas questões e fica de frente a difíceis decisões e cujas pessoas que o rodeiam não são confiáveis, o jogo de poder vai acontecendo e seu processo de amadurecimento é confuso e solitário, sua posição não lhe permite amizades sinceras, em meio a tantas desconfianças ele nomeia Falstaff como seu marechal e na decorrência dos fatos vai se tornando numa pessoa dura e amarga, tão próximo da figura do pai que tanto detestava. O magnetismo de Chalamet impressiona e a ótima interação entre os personagens o torna um épico diferente em que o peso das escolhas tem muito mais ênfase do que qualquer ação e violência, apesar de que as sequências de embates são incríveis e denotam também grande carga dramática, não só a estética prevalece, há uma gama de questões envoltas.
Vale ressaltar a ótima participação de Robert Pattinson como Delfim, o príncipe herdeiro da França, sua personalidade excêntrica e vaidosa preenche a tela, assim como Sean Harris como o conselheiro do rei, Joel Edgerton como o único e leal amigo de Henry e até a pequena aparição de Lily-Rose Depp como Catarina, futura esposa do rei.

O roteiro escrito pelo próprio diretor David Michôd em parceria com Joel Edgerton é bem estruturado e se revela como um poderoso thriller político juntamente com o amadurecimento de um jovem de ideais pacifistas que se vê obrigado a assumir a coroa e aconselhado a não se mostrar fraco inicia uma guerra desnecessária.

"O Rei" é um filme solene, retrata os bastidores do reino, as tramas, estratégias e negociações, a solidão e o tédio; a transformação. Todos os sentimentos são transmitidos pelo olhar de Henry, sempre pensativo e angustiado, as poucas cenas de embate são impecáveis e dolorosas, é rico na ambientação e inteligente no desenrolar. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Gwen

"Gwen" (2018) roteirizado e dirigido por William McGregor é um drama melancólico aterrador ambientado no País de Gales, primoroso em sua atmosfera somos inseridos no século XIX e pela perspectiva da protagonista adentramos em um mundo dominado por homens gananciosos e inescrupulosos, a sobrevivência de uma família em que as mulheres estão por si só, pois o marido está longe por causa da guerra e, talvez, esteja morto, então os especuladores estrategicamente lançam histórias sobre elas com intenção de obterem o território.
Nas montanhas da Snowdonia do século XIX, Gwen (Eleanor Worthington-Cox) vive em uma fazenda com sua mãe e sua irmã mais nova. Com seu pai fora na guerra, sua mãe repentinamente caindo doente e a fazenda sofrendo com estranhas ocorrências, Gwen tem que lidar com a dificuldade de manter seu lar funcionando enquanto uma profunda escuridão parece rondar sua família.
Escura, lamacenta e desesperançosa é a encosta em que vive Elen (Maxine Peake) e suas duas filhas, a adolescente Gwen, que possui uma relação de amor e ódio com ela e a caçula Mari (Jodie Innes), quando surge um surto de cólera na vizinhança e as batatas começam apodrecer a situação delas fica insustentável, na miséria e com Elen adoecendo cada vez mais Gwen precisa tomar as rédeas e amadurecer rapidamente, elas perdem o meio de sustento, os animais amanhecem mortos e os poucos legumes que possuem tentam vendê-los, mas as pessoas não querem nada vindo de lá, pois o padre lança boatos, parece não haver chances de se livrar dessa maldição e a terra que parece não oferecer nada é ambicionada por esses homens que tentarão de tudo para consegui-la. 
O filme possui bastante sutileza e é minucioso, são pequenas atitudes e diálogos pontuais que exemplificam a maldade em torno delas, a tristeza de Gwen aumenta a cada novo entendimento de como esse mundo em que vive funciona. O terror não é caracterizado pelo medo de fantasmas e do sobrenatural que muitas vezes Gwen sente, na verdade, está contido em coisas reais, como na atmosfera desoladora e a sensação do vento cortando, a religião que prega visões distorcidas de bem e mal e o pensamento patriarcal e machista que domina e destrói. Os elementos são utilizados com destreza e gera sensação de angústia, a injustiça cometida contra elas penetra.

A atmosfera ameaçadora e pesada joga com a ambiguidade cruel, nada é revelado totalmente e a tristeza e a sensação de alucinação permeia por todo o desenrolar. Essas características remetem muito ao filme "A Bruxa" - 2015, e também ao "Hagazussa" - 2017, onde a narrativa prima por um mistério que provoca e assombra nas entrelinhas.

"Gwen" é um ótimo exemplar de horror que retrata com maestria a opressão e a perseguição às mulheres por parte de religiosos, o terror está no drama real, no silêncio da escuridão que evoca uma tristeza poética.

quinta-feira, 14 de março de 2019

A Favorita (The Favourite)

"A Favorita" (2018) dirigido por Yorgos Lanthimos (O Lagosta - 2015, O Sacrifício do Cervo Sagrado - 2017) é um filme sarcástico e exuberante sobre os jogos de poder políticos e amorosos entre três mulheres dentro de uma corte baseando-se em parte na era da Rainha Anne, que reinou a Grã Bretanha entre 1707 e 1714, durante as guerras da Inglaterra contra a França.
Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes à oportunidade única.
Com uma linguagem peculiar e visão pessimista da humanidade o diretor grego vêm se destacando e ganhando cada vez mais notoriedade, "A Favorita" é sua obra mais palatável, mas continua firme com suas características tão inventivas e extraindo de seus atores performances de tirar o fôlego. 
Acompanhamos a frágil e carente Rainha Ana, que deposita toda a sua confiança na Duquesa de Marlborough, que mesmo tendo um sentimento aparentemente verdadeiro a manipula para os próprios interesses políticos, Ana sofre de dores constantes da gota, pelas inconstâncias de humor e por ter passado por 17 gravidezes malsucedidas, o pouco de afeto e consolo encontra nos encontros sexuais com a astuta Sarah, que de fato governa o rumo do país, Ana não consegue articular as palavras diante do conselho e não possui pulso firme, é tida como uma pessoa volúvel e fraca. Sarah então se aproveita e toma as decisões, até que a jovem Abigail, prima distante de Sarah, vinda de uma família falida, chega e começa a trabalhar como criada e aos poucos sua sede de poder se manifesta sob maneiras ardilosas, ela percebe que conseguindo a atenção da rainha recuperará seu posto e novamente ascenderá perante a sociedade. Abigail consegue rapidamente com sua doçura e dedicação fazer com que a rainha a note e a coloque numa posição melhor, ao lado dela se torna mais fácil a manipulação ao preencher a ausência de Sarah, logo a rainha se encanta e se envolve sexualmente com Abigail colocando em risco a posição de Sarah. A briga de egos é travada com diálogos afiados, cínicos e personagens multifacetadas compostas com primor, as três têm seu espaço e funcionam com perfeição juntas, protagonistas gloriosas.

Olivia Colman emprega em Ana só com o olhar sentimentos de ciúme, tristeza, raiva, impotência, carência extrema e sua histeria domina a tela, são momentos incríveis em cena, uma potência, Emma Stone surge com sua doce Abigail e cativa a inconstante rainha pela atenção e dedicação, além de seduzi-la e propiciar momentos de prazer, é uma personagem que vai descortinando pouco a pouco suas ambições, Rachel Weisz compõe uma mulher fria que possui o poder e o domina com maestria, os homens retratados na corte são exibidos de forma patética com suas perucas e maquiagem, e sempre se encontram em segundo plano fofocando e se distraindo com coisas bizarras. O único que tem mais ênfase é Robert Harley (Nicholas Hoult), que faz oposição ao governo e termina se aliando a Abigail. Todos dentro da corte se valem de seus status para se beneficiarem e trocarem favores, situações que vão se ampliando e mostrando até onde o ser humano vai para obter mais e mais poder e, ainda pior, retrata que mesmo rodeados de glamour a decadência sempre está à espreita e tudo o que se fez para chegar até ao topo se transforma numa grande chacota.

"A Favorita" é o primeiro filme de Lanthimos cujo roteiro não foi escrito por ele e seu brilhante parceiro Efthymis Filippou, mas a inconvencionalidade e o absurdo está presente, claro que não em grandes doses como nos anteriores, mas permanece e tomara que nunca se dissipe toda a estranheza que suas obras produzem. 
É um filme ácido que retrata de forma diferenciada o cenário da aristocracia e a pompa do ambiente real, seus figurinos exuberantes e maquiagem esdrúxula expõem personagens frágeis, artificiais e exageradas disputando poder político, amoroso e fazendo qualquer coisa em prol de suas ambições. O que de fato não mudou até hoje, apenas se alteraram cenários, roupas e máscaras. 

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society)

"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" (2018) dirigido por Mike Newell (O Amor nos Tempos do Cólera - 2007), baseado na obra homônima de Annie Barrows e Mary Ann Shaffer, retrata o poder dos livros em unir as pessoas e o como as histórias conseguem abraçá-las em suas solidões, a afinidade criada a partir da literatura enquanto o caos reinava é o mote principal e em seguida conhecemos uma outra parte, que também sofreu perdas por conta da guerra e que através do destino se uniu a essa família.
Juliet Ashton (Lily James) é uma escritora na Londres de 1946 que decide visitar Guernsey, uma das Ilhas do Canal invadidas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, depois que ela recebe uma carta de um fazendeiro contando sobre como um clube do livro local foi fundado durante a guerra. Lá ela constrói profundos relacionamentos com os moradores da ilha e decide escrever um livro sobre as experiências deles na guerra. O clube, criado antes de existir de fato, foi formado de improviso, como um álibi para proteger seus membros dos alemães. O que nenhum dos integrantes da Sociedade imaginava era que os encontros pudessem trazer consolo e esperança e, principalmente, auxiliar a manter a mente sadia. As reflexões e as discussões a respeito das obras os livraram dos pensamentos sobre as dificuldades que enfrentavam.
Juliet é uma escritora em ascensão, apesar de estar sendo reconhecida pelo seu segundo livro, seu maior orgulho é o primeiro livro, uma biografia crítica de Anne Brontë, a guerra também levou parte de si, ela perdeu os pais, mas segue firme e busca inspiração para seu novo livro, e é através de algumas cartas trocadas com um desconhecido que a encontra, Dawsey Adams (Michiel Huisman) pede auxílio sobre um exemplar de contos infantis de Shakespeare de Charles e Mary Lamb, Juliet entusiasmada com a história da Sociedade descrita por Dawsey lhe dá o livro de presente e logo se convida para conhecê-los, Juliet arruma as malas e no dia de sua partida seu noivo Mark (Glen Powell), a pede em casamento e coloca um anel em seu dedo, ela aceita e vai em busca do que seria seu próximo livro, porém não é bem isso que acontece, ao chegar lá todos a recebem bem, mas existem coisas das quais só pertencem a eles, segredos e tristezas que só essa família formada a partir da dificuldade e do amor aos livros entendem.
O que se sucede é que Juliet se torna uma curiosa compulsiva e acaba até irritando com tantas perguntas, faltou um pouco de sensibilidade e delicadeza, talvez pela preocupação da personagem em escrever seu próximo livro a fez se comportar assim. Com o passar do tempo o convívio e a experiência do lugar a fez se sentir como se fosse parte deles, mas esse sentimento dela não é tão natural, pelo menos não transpassa desse modo ao espectador. A motivação e o elo que ela forma com todos ali não causa empatia, o que salta aos olhos são outros personagens, que infelizmente não são tão bem explorados, como a maravilhosa Isola (Katherine Parkinson), que confecciona seu próprio gim e se torna uma companheira para Juliet, ela é dona de cenas inspiradas, alegres, mas que contém grande melancolia, o gentil Eben Ramsey (Tom Courtenay) e outro que pouco aparece e que gera interesse é o editor de Juliet, interpretado pelo ótimo Matthew Goode. 

Os traumas da guerra, o amor à literatura, o reconhecer-se no outro, são temas que são abordados com carinho e uma pitada de bom humor, somos introduzidos ao horror que eles vivenciaram, escolhas que tomaram, como o caso de Elizabeth (Jessica Brown Findlay) tida como uma filha para Amelia (Penelope Wilton), que é atormentada pelas perdas, Juliet vai a fundo e de pouco a pouco descobre o que aconteceu com Elizabeth e decide que o que escreverá sobre eles não será publicado.
O filme é um pouco longo e perde o ritmo em algumas partes, mas possui cenas dotadas de sensibilidade, conversas afetuosas e tomadas espetaculares da natureza do local, a fotografia é linda e exuberante, um verdadeiro deslumbre. 

"Nosso clube do livro nas sextas à noite se tornou nosso refúgio. É uma liberdade particular perceber que o mundo se torna cada vez mais escuro à sua volta, mas que só é necessária uma vela para enxergarmos novos mundos se revelando. Foi isso que encontramos na nossa sociedade."

"A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata" tem seus enfeites, mas no todo é um filme delicado que tem no vínculo da amizade e na admiração pelos demais seu maior triunfo, o romance fica em segundo plano e se concentra lá pelo final, mas não anula o que importa, a inspiração da figura feminina, Elizabeth e sua determinação, suas escolhas em tempos tão terríveis, a exaltação à literatura e o poder dos livros em unir as pessoas, no aconchego das histórias, nos aprendizados e na riqueza que elas proporcionam.
Destaque para os personagens do clube da casca de batata, principalmente, Eben, o criador da torta, Isola e suas especiarias para fazer seu gim e os debates acalorados sobre os livros, e o bônus dos créditos finais em que recitam trechos de algumas obras, como "Ao Farol", de Virgínia Woolf, "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson, "A Tempestade", de Shakespeare, "Jane Eyre", de Charlotte Brontë e "A importância de ser Fiel", de Oscar Wilde. 
Disponível no catálogo da Netflix!

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gigante (Handia)

"Gigante" (2017) dirigido pela dupla Aitor Arregi e Jon Garaño (Loreak - 2014) é de um apuro e requinte inenarrável, uma bela e triste história em tom mágico permeada por uma delicadeza ímpar.
A verdadeira história de Mikel Jokin Eleizegi Arteaga, mais conhecido como "O Gigante de Altzo". Este homem, que viveu no século XVII, media mais de dois metros, sofria de gigantismo e não parou de crescer até a sua morte. Mikel alcançou grande popularidade e chegou a viajar pela Europa, sendo exibido para pessoas famosas como a rainha Elizabeth II da Espanha, Luis Felipe da França e a rainha Victoria do Reino Unido.
Somos introduzidos em Altzo, uma província do País Basco no séc. XVII, uma época difícil e cheia de conflitos políticos, o pai, um simples camponês precisa escolher um dos filhos para servir e é Martin (Joseba Usabiaga), o filho mais velho que vai enfrentar a guerra civil, magoado com seu destino tempos depois em combate sofre com a perda dos movimentos de seu braço direito, ao voltar para casa se depara com seu irmão Joaquin (Eneko Sagardoy), que para sua surpresa está imenso, ele sofre de gigantismo e não há nada que o pare de fazer crescer. Martin fica remoendo a escolha do pai, o que lhe tirou grande parte de seus sonhos, como ir embora para a América, a situação precária da família os deixa atados no lugar, a agricultura não está numa fase boa e a única alternativa para ganhar dinheiro termina sendo Joaquin, que aceita ser exposto para a população. A narrativa se desenrola em capítulos nos aprofundando em seus personagens e alternativas que encontram para superar a crise, não demora para que Joaquin ganhe fama e comece a viajar pela Europa, inicialmente não se sente bem, mas não há outro modo para ganhar a vida, já que todos estão impossibilitados com suas deficiências, Martin não diz muito, está sempre contemplando a realidade e sonhando com um possível futuro. Depois de muito viajarem o gigante suspeita do empresário e pede para que o dinheiro seja dividido, Martin sempre manda sua parte para o pai, o que mais adiante acaba salvando a fazenda, já que Joaquin guardava o seu na mala e um dia na estrada foram roubados, era bastante dinheiro e esse foi o início da decaída, pois os tempos também estavam se modificando e pedindo novidades, o gigante não impactava como antes e nenhum número satisfazia o público. A modernidade batia à porta e Martin cada vez mais queria estar longe daquelas terras, mas com a compra da fazenda e o irmão adoecendo se sentia melancólico por ter que ficar. Os personagens possuem variadas camadas e surpreende-nos com o desenrolar, Martin é um homem calado que nos diz tudo com seu olhar, já Joaquin realmente expõe todas as suas agruras, sendo até violento em determinadas partes. 

A estética e a narrativa carregam um tom de fábula, uma poesia terna e triste que denota as mudanças que ocorrem nos personagens devido as transformações ao redor, seja política ou social; a solidão impera, por mais que os irmãos estejam juntos há uma névoa que os impede de alcançar qualquer êxito e se sentirem satisfeitos, Martin possui máculas, desde o dia em que seu pai o escolheu, depois a deficiência em seu braço o impedindo de trabalhar, preso a uma vida no campo, os sonhos quebrados, e é assim com Joaquin também, que está preso a sua doença, e que por ironia deu alguma chance de sobrevivência para sua família. Por mais vagaroso que o ritmo possa ser a história traz sentimentos valorosos ao espectador. Outro ponto a se destacar é o respeito às culturas, tanto a basca, como quando eles vão para vários países durante as apresentações e sempre é mantido o idioma local, é um elemento que faz toda a diferença e caracteriza zelo pela produção. 

" - A capacidade de se adaptar é o patrimônio mais importante do ser humano. 
- Bem, eu acho que é o contrário. Que é a nossa qualidade mais deplorável."

"Gigante" mistura o real e o onírico, o belo e o triste, o rude e o afetuoso, traz personagens complexos que se modificam ao longo, e por isso nos instiga a pensar em diferentes questões. Uma obra que carrega uma narrativa emocional e um visual sombrio arrebatador.

terça-feira, 13 de março de 2018

Adeus, Christopher Robin (Goodbye Christopher Robin)

"Adeus, Christopher Robin" (2017) dirigido por Simon Curtis (A Dama Dourada - 2015) é um filme agridoce que nos introduz ao processo de criação do escritor A.A. Milne para o ursinho Pooh, a sensibilidade permeia toda a trama apesar das tristezas que a envolvem, provoca nostalgia, emoção e também mostra os traumas causados por conta da fama. Conhecemos a origem, antes da Disney obter os direitos, as inspirações e o desenrolar pesado desse universo mágico.
Traumatizado pelas batalhas vivenciadas na 1ª Guerra Mundial, o escritor e autor de peças teatrais Alan Milne (Domnhall Gleeson) retorna a Londres, onde tenta retomar a vida cotidiana ao lado da esposa, Daphne (Margot Robbie). Eles têm um filho, o pequeno Christopher Robin (Will Tilston), que basicamente é criado pela babá da família, Olive (Kelly Macdonald), devido à distância estabelecida pelo próprio pai. Disposto a escrever um livro que irá ajudar o mundo a evitar uma nova guerra, Milne leva a família para morar no campo. Lá ele se aproxima do filho, que serve de inspiração para criar seu personagem mais conhecido: o ursinho Pooh. Pooh (Puff) foi nomeado por causa do ursinho de Robin, outros brinquedos verdadeiros de Robin também emprestaram seus nomes para outros personagens, como Tigrão, Bisonho e Leitão.
Alan Milne deseja escrever um livro anti-guerra e sofre as consequências de ter a vivenciado, completamente traumatizado leva sua família para o campo, onde acaba não tendo nenhuma vontade de continuar seu livro, sua esposa Daphne exibe uma faceta manipuladora e egoísta e não demonstra afeto pelo filho, ela sai da casa e diz que só voltará quando o marido terminar o livro, o pequeno Christopher Robin apelidado de Billy Moon é cuidado o tempo todo por sua amada babá Olive, uma mulher triste e solitária e a única pessoa a se importar realmente com os sentimentos da criança. Porém, ela precisa se afastar para cuidar de sua mãe doente, algumas semanas se passam apenas entre pai e filho, Alan percebe com curiosidade a imaginação fértil de seu filho, sempre com um sorriso no rosto e pronto para inventar histórias com seus bichos de pelúcia, a partir desse convívio Alan começa a escrever poemas, Billy Moon até pede para que o pai escreva um livro para ele, mas o que se sucede é um imenso boom após a publicação de todo o universo imaginado pela criança, de repente seu ursinho é amado por outras crianças, que num mundo onde a dor da guerra prevalece encontram no livro motivos para sorrir.

O garoto é extremamente criativo e no espaço de tempo em que convive apenas com o pai, que anseia por inspiração, mostra suas brincadeiras e aí ele vê nisso a oportunidade de criar algo, são momentos mágicos em que Billy Moon pensa estar se divertindo, pois a mãe sempre dizia que enquanto o pai estiver escrevendo não era para incomodar, as coisas se misturaram e a partir disso os traumas foram sendo desenhados, a carência não era vista pelo pai, a mãe era distante e fria, e a única que lhe dava afeto foi embora devido divergências, pois Olive não tinha vida e não aguentava mais ser humilhada. O filme possui diálogos marcantes e a melancolia permeia toda a trama, as interpretações são emocionais e cativantes, e a fotografia é um primor, enche os olhos com todo o visual bucólico.

"Adeus, Christopher Robin" conta as razões do escritor ter criado o universo do ursinho Pooh, tendo como pano de fundo a guerra, que era considerada a última, as decepções e a sensação de impotência deixaram Milne completamente traumatizado, então vai para o campo com a família e lá sem nenhum tipo de criatividade de repente vê no convívio com seu filho a fonte que necessitava, diante da crueldade pela qual o mundo passava o ursinho Pooh trouxe novamente a alegria e a vontade de sonhar, Christopher quando adolescente sentiu que precisava fugir daquilo tudo, da imagem que o pai criou de si e foi para a guerra, uma forma de eliminar suas dores e sentir que estava vivo. Uma história triste, mas muito interessante e que merece ser conhecida pelos adoradores do ursinho Pooh, é um retrato curioso e que vai além da fantasia. Para quem conhece apenas a versão da Disney é mais que obrigatório assisti-lo.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Sámi Blood (Sameblod)

"Sámi Blood" (2016) dirigido pela estreante Amanda Kernell tem uma história forte que retrata o preconceito dos suecos em relação ao povo nômade da Lapônia, os Sámi. Considerados inferiores na escala da evolução, as crianças dessa etnia iam para uma escola específica, onde era proibido falar a língua nativa e qualquer coisa era motivo para humilhação e punição física, segundo os estudiosos da época, 1930, período que os conceitos da Eugenia ganhavam adeptos pelo mundo todo, povos considerados diferentes eram analisados, media-se o tamanho do crânio e a conclusão era sempre de que eram incapazes de pensar por si próprios. 
Elle Marja (Lene Cecilia Sparrok), de 14 anos, é uma menina indígena do povo Sámi que está sofrendo com o enorme preconceito de sua década, a de 1930. Ela acaba de ser removida à força de sua família e amigos e enviada para um internato do estado, tudo para que passasse de uma integração forçada em um sistema educacional que lhes ensina que seus costumes e estilos de vida indígena eram inferiores aos dos "homens brancos". Exposta ao racismo e a exames biológicos, ela passa a sonhar com outra vida. Para alcançá-la, a jovem tem que se tornar outra pessoa e cortar todos os laços com sua família e sua cultura.
O início nos mostra Elle Marja voltando para a sua terra natal para o velório de sua irmã, seu semblante austero indica que ela não se considera como parte daquilo e faz questão de não participar das festividades, como a marcação das renas, ela deseja ir embora o mais rápido possível, o passado é doloroso, a questão de pertencimento pesa em seus ombros. Ao regressar para seu hotel ela começa a refletir e assim nos envolver em sua vida nos fazendo compreender o porquê de tanta mágoa. Voltamos no tempo junto dela e primeiro adentramos à sua comunidade que vive em cabanas e pastoreia renas, depois que seu pai morre ela e sua irmã são mandadas para um internato a fim de que tenha o básico como estudo e, principalmente, aprender a língua sueca e saber que seus costumes e tudo o que envolve o povo Sámi é inferior. Muito inteligente e decidida, Elle Marja quer ser professora, se empenha para isso mesmo que as humilhações a acompanhe, a relação dela com a irmã é doce e vemos muitos momentos lindos nesse início, como quando fazem joik, um canto tradicional.

O estopim para que Elle Marja queira mudar de identidade é quando estudiosos vão à escola e sem dizer uma palavra começam a medi-la por inteira, ela não suporta a ideia de que sua vida se baseie em cuidar de renas e de que o preconceito limite sua vida, Elle Marja almeja fugir para Uppsala, na Suécia, para estudar e se tornar professora. Quando parte recorre a Niklas, um jovem que conheceu em uma festa, mas os pais dele a expulsam no dia seguinte declarando todo o preconceito, então acaba indo parar num colégio e se abriga por alguns dias, só que para ela continuar ali precisa de uma boa quantia de dinheiro, e vendo que é isso que quer precisa voltar para sua comunidade, pedir a quantia para sua mãe que Elle Marja tem como parte da herança que seu pai deixou. A partir desse momento a garota rompe com todas as suas origens, para sobreviver e ter o que deseja elimina qualquer resquício de sua identidade Sámi.

"Sámi Blood" é um drama belíssimo e intenso que retrata a discriminação em relação aos lapões, a nossa protagonista sofre e sente que para seguir adiante precisa se livrar de sua cultura, o que mais tarde lhe gera as dúvidas sobre pertencimento, horrível ter que perder sua identidade, odiar suas raízes por puro e descabido preconceito dos que pensam ser superiores.
Para se enquadrar na sociedade dominante muitos povos perdem os laços de sua rica cultura e, que infelizmente, cada vez mais vão se extinguindo por conta de não haver respeito étnico. É um importante retrato para que, talvez, haja um resgate desta e de tantas outras culturas espalhadas pelo mundo.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Taboo (Série)

"Taboo" (2017) série da BBC criada por Tom Hardy junto a seu pai Chips Hardy com apoio de Steven Knight e produzida por Ridley Scott centra-se no ano de 1813, o aventureiro James Keziah Delaney (Tom Hardy) retorna da África trazendo ilegalmente quatorze diamantes. Recusando-se a vender a empresa da família para a East India Company, ele a transforma em um império de comércio e transporte, com o objetivo de vingar a morte do pai. Com isso, Delaney se envolve na guerra que está sendo travada entre o Reino Unido e os EUA.
A história se inicia com James retornando a Londres depois de uma década, o que causa espanto a todos que pensavam que estava morto, quando volta ele se depara com a seguinte situação: o pai está morto, possivelmente envenenado, e tendo que lidar com os poderosos da East India Company que querem obter Nootka Sound, a terra que James herdou do pai e cuja está sendo disputada na guerra entre Reino Unido e Estados Unidos. A narrativa intriga por seus diversos segredos, não há pressa, tudo é nublado e aos poucos as coisas vão sendo reveladas.
Tom Hardy é o CARA, ele sabe de tudo o que se passa, quando a notícia chega a ele já existe um plano em sua mente para tal, a explicação seria que há algo místico em si, tanto em seus genes pela parte da mãe que fazia parte de uma tribo indígena, quanto pelo fato de ter ficado muitos anos em uma aldeia africana aprendendo magias e cometendo atrocidades e perdendo assim, totalmente seus sentimentos.
A série tem uma ambientação grandiosa, nota-se as minúcias de se retratar a sujeira, a lama misturada com fezes dos cavalos, as doenças, como a varíola. Tudo isso contribui para o aspecto misterioso e sombrio, a opulência e a miséria se concentra no mesmo lugar, percebe-se isso ao retratar tanto as pessoas do reino, como o Príncipe Regente com sua figura pitoresca e, de fato, nojenta, como as pessoas comuns, as crianças extremamente encardidas, a falta de asseio das prostitutas, esse é um ponto valioso da série que prende-nos numa atmosfera pesada que mistura intrigas políticas ao misticismo. A estética, sem dúvidas, é um dos fatores primordiais para sua originalidade, assim como seu roteiro redondo, coeso. 

Tom Hardy mexe com nosso psicológico, sua personalidade bruta e analítica ora nos faz adorá-lo, ora odiá-lo, não existe limites para James Delaney, sua astúcia é tão grande quanto sua crueldade, sua fama entre os habitantes é de um sujeito que come as vísceras de quem mata, a aura sobrenatural fascina, mesmo que seja pouco explorada é o que responde a questão dele ser assim tão forte e sempre estar a frente de todos, pois com sua estadia na África aprendeu magias que, como vemos em alguns episódios, através de um pó amarelo, ele tem acesso ao que quer. Delaney demonstra ter cometido atrocidades, além de que roubou os diamantes que trouxe consigo, outra coisa bastante perturbadora é a paixão avassaladora que tem por sua irmã Zilpha (Oona Chaplin).

Alguns personagens mesmo não tendo grande destaque na trama conquistam, como é o caso de Thorne Geary interpretado por Jefferson Hall, o Torstein, de "Vikings", ele no decorrer fica bastante atormentado, principalmente, por sua adorada Zilpha ter um caso com o próprio irmão, suas atitudes são impensadas e sua vulnerabilidade dá chance para os outros o traírem. A cena do duelo com Delaney é o ápice, e daí vem sua derrocada psicológica. O que não acontece com a personagem Zilpha, interpretada por Oona Chaplin - neta de Charles Chaplin, infelizmente, inútil na trama, passa a maioria do tempo com uma expressão de susto e não dá ênfase nenhuma em suas emoções. Outros personagens que ganham nossa atenção é o mordomo Brace (David Hayman), que teme por Delaney ter o mesmo fim do pai, do qual Brace era muito próximo, a prostituta Helga (Franka Potente - Corra Lola, Corra) que tem um bordel num espaço pertencente a Delaney e que com o seu retorno faz pequenos negócios com ele para mantê-lo, Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce - Alto Pardal em GOT) é líder da Companhia das Índias e um grande rival de Delaney, ele é extremamente articulador e nocivo, quando aparece ganha a tela e todos os outros acabam ficando menores perto de si, como é o caso de Wilton (Leo Bill). Vale acrescentar ainda Edward Hogg, um escrivão que nas horas vagas se traveste de mulher, Jason Watkins como Soloman Coop, o exímio articulador do Príncipe Regente, Jessie Buckley como a carismática Lorna Bow, Stephen Graham e seu Atticus, e claro, o magistral Tom Hollander e seu químico Cholmondeley, que rouba completamente a cena com seus projetos e seu bom humor.

"Taboo" é uma superprodução de apenas 8 episódios recheada de conflitos e bastante interessante por abordar um lado histórico, no caso, a Companhia das Índias Orientais, a sua importância e também demonstrando seus negócios escusos. A utilização de um protagonista de poucas palavras com ideias avançadas para a época e o grupo que ele junta, pessoas marginalizadas daquela sociedade, é uma sacada bem inteligente. O uso do mistério e da lentidão criando assim uma atmosfera lúgubre junto a aura de feitiçaria também acaba envolvendo. Com a confirmação de uma segunda temporada há esperanças que se desenvolva em muitos aspectos, mas o charme da série é justamente o ar enigmático. Para quem ama séries com ambientações primorosas, temáticas que envolvem jogo de poder, clima sombrio e quer se desviar das tão aclamadas é uma ótima opção!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ethel & Ernest

"Ethel e Ernest" (2016) dirigido por Roger Mainwood apesar de ter como pano de fundo a II Guerra é um filme muito singelo e leve, o retrato de um doce e real casal vivendo as incertezas e novidades de sua época. Uma terna homenagem de Raymond Briggs aos seus pais, desenhado à mão, com base na sua premiada graphic novel, é uma descrição íntima e carinhosa da vida e dos tempos dos seus pais, dois londrinos comuns que vivem repletos de acontecimentos extraordinários.
1928. Em Londres, o leiteiro Ernest Briggs casa-se com Ethel, dando origem ao pequeno Raymond, em 1934. Quando a Segunda Guerra eclode, o menino, agora com cinco anos, é evacuado junto às tias em Dorset, enquanto Ernest junta-se ao serviço de bombeiros, chocado com a carnificina que vê. Com o retorno de Raymond, eles celebram a entrada dele para a escola de gramática e o nascimento do Estado-Providência. Raymond forma-se na faculdade de arte e obtém um lugar de professor. Pai e filho consolam-se quando Ethel morre, mas logo após Raymond estará de luto por causa do pai dele também.
É um filme meigo, o traços do desenho passam essa sensação e nos apegamos aos personagens, desde quando Ethel e Ernest se conhecem, o primeiro encontro, o casamento, a casa que escolhem morar, o nascimento do filho, as tantas novidades que surgem, como o fogão a gás, e neste aspecto o longa é bastante informativo e acompanhamos junto dos personagens uma série de acontecimentos que a guerra provocou, a pacata vida do casal se modifica, Ernest de leiteiro é obrigado a servir o corpo de bombeiros e assim presencia muita violência e dor, por outro lado, é muito agradável vê-lo ligar o rádio e ouvir as notícias perto de sua amada, que é alheia e pouco entende e que também se incomoda com as modernidades. Enquanto Ethel e Ernest enfrentam as consequências da guerra e vivem em meio a tantas incertezas, o pequeno Raymond aproveita a vida no campo com as tias, quando o tormento da guerra termina e ele volta, tudo o que os pais desejam é que estude num bom colégio, porém Raymond decepciona-os escolhendo estudar artes, mas, claro, que com o tempo teriam muito orgulho do filho, que se torna um incrível professor e um ilustrador de sucesso.
Toda a trajetória de Ethel e Ernest nos é mostrada com suavidade, desde a juventude à velhice, as modificações não só externas, mas também físicas. Uma graça Ernest jovem entregando leite de porta em porta e sua alegria ao mostrar para Ethel as novas utilidades domésticas que estavam surgindo. 

A narrativa segue de maneira muito interessante, praticamente didática ao que se refere ao contexto da guerra, as mudanças conforme os anos e o como esse casal conseguiu superar todas as adversidades sem deixar que nada estragasse a relação. A personalidade durona, mas amável de Ethel, a felicidade e empolgação de Ernest, tudo isso retratado com bastante credibilidade e muito carinho, isso se deve as vozes de Jim Broadbent e Brenda Blethyn que imprimiram todas essas características aos personagens.

"Ethel e Ernest" é um filme afável, o delicado traço de Briggs traz as suas memórias, seus pais ganham vida novamente, eis a magia. Uma animação singular cheia de detalhes importantes e com uma aura emotiva e nostálgica. Outra beleza é a canção "In the Blink of an Eye", composta por Paul McCartney especialmente para o longa. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Nas Estradas do Nepal (Kalo Pothi)

"Nas Estradas do Nepal" (2015) dirigido pelo estreante Min Bahadur Bham retrata um pouco dos efeitos da guerra civil no Nepal entre 1996 a 2006, os preceitos maoístas de um lado e o governo monárquico do outro e no meio pessoas simples tentando sobreviver, além de que tradições como o sistema de castas também são empecilhos e dificultam a vida nas aldeias. O filme tem um tom natural e une a ficção com a realidade, semidocumental, os atores não profissionais têm uma sintonia de amizade verdadeira e exprimem inocência, amor e esperança em meio à calamidade da guerra.
Estamos no ano de 2001, e um cessar-fogo temporário traz uma ruptura tão necessária para uma pequena aldeia devastada pela guerra no norte do Nepal, trazendo muita alegria entre os moradores. Prakash (Khadka Raj Nepali) e Kiran (Sukra Raj Rokaya), dois jovens muito amigos, também estão começando a sentir a mudança no ar. Embora sejam divididos por castas ou credos sociais, eles permanecem inseparáveis e começam a pensar na galinha dada a Prakash por sua irmã, com a esperança de economizar dinheiro com a venda dos seus ovos. No entanto, um dia a galinha desaparece. Para encontrá-la, eles embarcam em uma jornada, mas inocentemente desconhecem a tirania trazida pelo frágil cessar-fogo.
Prakash é muito pobre e faz parte dos dalits, seu único elo afetivo depois que a irmã foge para lutar ao lado dos maoístas é uma galinha chamada Karishma e seu amigo de uma casta superior Kiran, família da qual seu pai trabalha. Acompanhamos a rotina da aldeia cheia de tradições e festividades, inclusive por causa da visita do rei todos devem dar suas galinhas, mas Prakash esconde a sua e espera poder vender os ovos para comprar ingressos e ir ao cinema, o que se destaca é a pureza e a inocência dessas crianças e também o como estão isentas dos preconceitos devido a suas diferenças nesta sociedade. O pai de Prakash acaba vendendo a galinha por achar que ela traz mau agouro, porém Prakash junto de seu amigo vão atrás e tentam recuperar o animal, negociam e dizem que levarão todo o dinheiro em três dias, são muitas as adversidades em volta desse desejo de ter a sua adorada galinha de volta, seu amigo se mostra companheiro e leal e o ajuda muito, mas cada vez mais essa saga se complica. A situação do país se agrava e tudo nos é mostrado com naturalidade e em etapas, para Prakash é confuso e vemos o seu ponto de vista através de seus sonhos. Nestes momentos o filme hipnotiza com as imagens, imergimos em cenas angustiantes, especialmente, quando Prakash anda enquanto o resto está estático. A jornada de Prakash junto de seu amigo Kiran em busca de Karishma é linda, arrebatadora, realista e também simbólica.

É com singeleza que a história se desenrola, aos poucos e dolorosamente compreendemos a situação crítica dos habitantes, dos direitos negados, da pobreza, injustiças e da miscelânea de religiões e culturas, riquíssimo em sua linguagem, seja em seus personagens, paisagens e cenas simplórias. É um filme necessário, pois quase nada sabemos desse caos vivido pelo Nepal, onde mais de 12.700 vidas foram dizimadas, toda a questão sociopolítica e a relação de castas são expostas com muita sutileza, mas mesmo diante desse doloroso quadro a beleza se sobressaí e isso se deve as inspiradas interpretações, os meninos passam total sensação de amizade, mesmo com tudo indo contra permanecem juntos e esse retrato tem a função de quebrar barreiras e propiciar críticas e reflexões. 

O cinema tem essa linda missão de mostrar culturas e tradições desconhecidas, de expor as dores e as belezas do mundo, de tirar do espectador o máximo de emoções verdadeiras, "Nas Estradas do Nepal" cumpre esse papel, entrega uma história delicada com diversas camadas e que instiga a querer saber mais sobre esse período histórico e os costumes locais do Nepal. Une ficção e realidade, beleza e dor, inocência e maldade, violência e esperança, e acima de tudo, solidariedade. Para coroar esta produção a música tema é de arrepiar de tão poderosa!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Morfina (Morfiy)

"Morfina" (2008) dirigido por Aleksey Balabanov (Eu Também - 2012) reconstitui vigorosamente a prática médica em plena Revolução Bolchevique (1917). Um jovem médico determinado e talentoso precisa lidar com inúmeros empecilhos, tanto a sua insegurança, como a ignorância das pessoas. Um retrato sombrio de como um homem com tanto para fazer se envereda por um caminho desolador,  o vício em morfina.
Adaptação da história "A Country Doctor's Notebook", de Mikhail Bulgakov, baseada na experiência real do autor russo, quando, como um médico rural se tornou viciado em drogas, após uma pequena dose prescrita. Balabanov cuidadosamente reconstrói o momento em que Bulgakov cai nos braços da morfina, os anos da Revolução Russa, e mostra com rigor a aspereza da prática da medicina nesse período histórico.
Doctor Polyakov Mikhail Alekseyevich (Leonid Bichevin) sai da cidade grande e vai para um local afastado ficar no lugar de outro médico, lá conhece o paramédico e duas irmãs parteiras, se estabelece no quarto do médico antecessor repleto de livros, percebe que há bastante medicamentos e quando surge seu primeiro paciente na madrugada não consegue salvá-lo, o que cria uma situação estranha, já que foi por uma doença considerada infantil, Mikhail então terá que provar seu talento, senão o nome do médico anterior sempre será falado, deste episódio da difteria por ter tido contato com o paciente precisou tomar uma vacina, que lhe causou "reações", uma outra dose foi dada e esse foi o início de seu vício. Os burburinhos de uma revolução chegam e assim caminham os dias, frios e isolados. As passagens que envolvem cirurgias são as melhores, pois é macabro todos os equipamentos, medicamentos e maneiras, Mikhail exibe controle, mas é inseguro e toda vez sai para consultar os livros e volta e conduz tudo brilhantemente.
O humor está presente na trama que contém um contexto histórico pesado e ameniza o tom que ainda continua duro, a trilha sonora ajuda a compor o cenário e dar mais leveza, a trajetória desse jovem médico é triste, vê-lo se transformar em um esboço sendo que poderia fazer muito pelas pessoas e pela medicina. Sempre interessante histórias que abordam a medicina, os primórdios com suas técnicas e tratamentos assustadores, vários tipos de doenças infecciosas e as soluções que utilizavam. 

Após tomar a vacina de morfina como antídoto, o doutor já começa a sentir náuseas e ao sentir os efeitos toma isso como uma alergia e a enfermeira lhe aplica mais uma dose e essa dose nos dias que se seguem vão aumentando, aos poucos vemos sua deterioração e nisso o filme é primoroso, completamente visual, nada de imersão em sua mente, é no físico que se concentra e a degradação é terrível. O visual é o fator principal e são muitos momentos tensos em que Mikhail precisa agir, como uma amputação, uma traqueostomia, um parto podálico, onde não se poupa gritos, sangue, ruído de vísceras, dor e a fragilidade do corpo.

"Morfina" tem uma ambientação arrebatadora e passa com exatidão as sensações, desde as inseguranças, sejam elas em relação à medicina ou contexto político, como nos sentimentos e sensações fisiológicas dos personagens. Outra caraterística muito atraente é o realismo, as maneiras russas e o humor, além de muito gelo e escorregão e, claro, a vodca, que possui diversas utilidades!
Outra dica para quem gosta da temática é a série britânica "A Young Doctor’s Notebook" (2012) que também é baseada nessa história de Bulgakov, estrelada por Daniel Radcliffe e Jon Hamm. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

A Morte de Luís XIV (La Mort de Louis XIV)

"A Morte de Luís XIV" (2016) dirigido por Albert Serra (O Canto dos Pássaros - 2008) é um filme austero, uma experiência cinematográfica que causa agonia, acompanhamos o findar-se de um nobre e sua impotência diante do inevitável.
Baseado nos escritos do filósofo e economista francês Saint-Simon, observamos o lento fim de um soberano. Agosto de 1715. Após sair para uma caminhada, Louis XIV (Jean-Pierre Léaud) sente uma dor na perna. Nos dias posteriores, o rei mantém seus deveres e obrigações, mas tem o sono turbulento e sofre com uma séria febre. Ele mal come e enfraquece cada vez mais. É o começo da lenta agonia do maior rei da França, cercado por seus parentes e médicos.
O reinado de Luís XIV, considerado o maior Rei da França e autoproclamando como "Rei Sol" teve um dos reinados mais longos na história europeia, entre 1643 e 1715. Foi um dos líderes da crescente centralização de poder na era do absolutismo europeu. Luís XIV escolheu como emblema o sol, pois assim como o astro era considerado forte, belo, brilhante e de poderes ilimitados. Luís XIV gostava de ser contemplado, seus afazeres e intimidades eram públicas, seus súditos assistiam ele acordar, comer, etc. Essa figura tão poderosa e esplendorosa é apagada aos poucos pela narrativa de Albert Serra, um diretor peculiar que sempre trata de assuntos incômodos de um jeito incômodo. Com ritmo lento enaltecendo o tempo e os detalhes é um filme completamente imersivo e que provoca reflexões importantes. A riqueza dos pormenores, a sutileza das ações nos faz realmente viajar no tempo e observar com total crueza o fim do Rei Sol, a câmera capta a fragilidade com excelência, Jean-Pierre Léaud - ícone da nouvelle vague - entrega um personagem denso, contido, meditativo, uma figura altiva contrapondo-se com a vulnerabilidade e amargura. O interessante e o que nos deixa inquietos é a sua falta de expressão, a única coisa que temos certeza é a sua prepotência, mas o que realmente está sendo dito por aquele olhar? 
A sensação claustrofóbica é outro ponto do filme, tudo se passa num único espaço, o quarto, a agonia só cresce, estamos de fato velando-o, cada vez mais a doença do rei se agrava e médico nenhum é capaz de identificá-la e tratá-la, é chamado os melhores da época e recorrem até para métodos alternativos, como elixires, também é colocado como solução amputar, mas logo é descartada pelo rei, a angústia em não conseguir curar o rei atormenta os médicos. O que fica é a frase final: "Senhores, faremos melhor da próxima vez". Há cenas intensas e parece até que se sente o cheiro putrefato, um primor, seja na condução da narrativa, na composição visual, os figurinos, objetos, detalhes que enchem os olhos, como na sua belíssima fotografia, onde se trabalha os efeitos de luz e sombra através da iluminação natural de velas, isso tudo dá uma atmosfera sufocante que incomoda e fascina.

A melancolia que o filme traz também é a de associar o definhamento do Rei ao envelhecimento de Léaud, o eterno Antoine Doinel de "Os Incompreendidos", somos colocados de frente à realidade do tempo e de que a morte é sempre solitária e dolorosa, pesa pensar nela e, principalmente, quando se está próximo o sentimento de "entrega" causa desespero, amargura, e a solidão se torna pungente, o fato é que independente de ser nobre ou não ninguém possui o poder de driblá-la, o filme reflete sobre velhice e finitude, mas, sobretudo, capta os sentimentos e sensações de Luís XIV, um ícone, símbolo de poder absoluto nos momentos que antecedem seu derradeiro fim. 
"A Morte de Luís XIV" é um filme interessante, desconfortável e maravilhoso, porém muito particular, mas certamente marcante.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

The King and the Clown (Wang-ui Namja)

"The King and the Clown" (2005) dirigido por Lee Jun-ik (Blades of Blood - 2010), um dos maiores sucessos de bilheteria na Coreia do Sul, é um filme elegante, sutil, porém ousado, e claro, belíssimo. Disserta sobre arte, amizade, amor, lealdade, loucura, poder e corrupção mesclando drama, comédia, ação, política e tragédia shakespeariana.
Baseado em fatos reais, a história se passa em plena dinastia Chosun – século 16, onde um grupo de artistas de rua, uma espécie de "trovadores", conseguem seu sustento entretendo as pessoas. Entre eles há um jovem, Gong Gil (Jun-ki Lee), cujos traços físicos e personalidade são extremamente femininos e por isso é vítima da luxúria de homens com poder. E por esse motivo seu grande amigo e protetor Jang Sang (Kam Woo-Sung), foge com ele para Seul. Ali conhecem mais três palhaços de rua e começam a satirizar o rei, até que um ministro vê e os leva presos ao palácio, sob pena de morte. Entretanto lhes é dado uma oportunidade: se com a sátira que faziam, conseguem fazer o rei sorrir, seriam libertados. Eles conseguem, mas o rei ordena que eles fiquem no palácio, para entretê-lo e cada vez mais o rei vai prestando atenção em Gong Gil.
Gong Gil e Jang-Sang  se conhecem desde crianças, são inseparáveis, existe nesta relação uma afetividade e lealdade ímpar, os dois seguem fazendo números artísticos pelas aldeias, até que resolvem satirizar o rei Yeonsan (Jin-yeong Jeong). Eles criticam a exploração e a corrupção da corte e ao chegar aos ouvidos do rei são sentenciados à morte, mas por sorte aceitam o desafio proposto, apresentar o show ao próprio rei, satirizá-lo e conseguir que ele ria disso. Gong Gil, Jang Sang e mais os três palhaços fazem o que podem, mas só cometem deslizes de tão nervosos, quem salva a pele de todos é o excêntrico Gong Gil, que faz uma piada safada com seu colega e arranca risadas do rei maluco. Livres da morte, mas presos no palácio aos desejos do rei, Gong Gil acaba agradando e se aproximando do rei graças as suas feições femininas e histórias engraçadas. Ele é requisitado todas as noites pelo rei, o que ocasiona ciúmes em Jang Sang, que com o passar dos dias deseja sair de lá. Mas Gong Gil também sente algum afeto pelo rei, um triângulo amoroso se ergue, mas de modo sensível e velado.

A trupe encena todos os podres que acontecem no palácio, assuntos tensos do qual o rei nem sabe, mas que preocupam a corte, são revelações que podem abrir os olhos do rei mimado, então Jang Sang receoso com a situação planeja fugir, só que Gong Gil resiste por sentir pena do rei e agora ter uma vida longe da miséria e violência, isso tudo abala Jang Sang. 
O filme traça a questão política da época magistralmente e traz o teatro como meio de evidenciar toda a mentira vivida dentro do reino e a calamidade em que o povo vivia, as encenações são primorosas, impossível não se encantar com os números. As atuações são sensíveis e gloriosas, a dupla Jun-ki Lee, que vive o andrógino Gong Gil e Kam Woo-sung como o amável Jang Sang passam todo o sentimento de amizade e lealdade com sutilezas e poesia. Destaque também para a forte atuação de Jin-yeong Jeong como o obcecado e louco rei Yeonsan.

"The King and the Clown" é visualmente deslumbrante, o figurino colorido e a ambientação fascinam, além de toda a teatralidade incorporada à história, a arte denunciando as falcatruas, revelando através do falso, a realidade. Uma obra bonita que mistura vários elementos, diverte, emociona, faz refletir e evidencia sentimentos puros com sensibilidade e originalidade. Filmaço!