terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Hagazussa - A Heathen's Curse (Hagazussa)

"Hagazussa" (2017) dirigido pelo estreante Lukas Feigelfeld é um filme austríaco primoroso de atmosfera sombria, uma experiência intrigante e hipnótica, sua lentidão e diálogos escassos geram dúvidas, perturbam e nos faz imergir no ambiente, um trabalho excepcional de arte que invoca a idade média com toda a sua obscuridade e superstições.
A lenda da jovem órfã Albrun e sua luta para preservar sua sanidade em um período no qual existe uma linha muito tênue entre magia, fé e loucura; e a população de zonas rurais é assombrada por crenças pagãs de bruxas e espíritos da natureza. O inverno frio estende-se pelos Alpes do século XV. Uma jovem pastora vive com a sua mãe (Claudia Martini) numa cabana no meio dos bosques. Quando, certo dia, a mãe adoece misteriosamente e morre, Albrun fica sozinha e profundamente traumatizada. 20 anos passa e, já depois de se tornar ela própria mãe, Albrun (Aleksandra Cwen) começa a pressentir uma presença negra na floresta. Numa espécie de delírio psicótico, as fronteiras entre a realidade e o pesadelo começam a fundir-se, à medida que ela é novamente confrontada com a morte de sua mãe e o mal que existe dentro de si mesma.
O filme tem um poder de absorção maravilhoso, a cada cena e a cada acontecimento mergulhamos mais e mais, certamente uma obra de terror não convencional, sua atmosfera é o principal e também não é somente um filme de bruxa, tudo é muito ambíguo. Albrun vive com a mãe em meio a floresta, sozinhas lidam com os vizinhos que as atacam e os mistérios que as cercam por serem denominadas bruxas, o local frio e vazio rodeado pelos alpes faz toda a diferença para certas coisas serem tomadas como reais, como superstições, espíritos da natureza e bruxaria. Um dia sem mais nem menos a mãe de Albrun adoece e ela precisa cuidar dela, a relação é estranha e quando de fato está para morrer há uma cena que retrata um abuso, a menina teve sua primeira menstruação e a mãe sente o cheiro do sangue e num acesso de prazer e fúria sai e cai na floresta, há muitos simbolismos e é preciso estar atento a cada detalhe da trama, realmente não é um filme que diz sobre paganismo ou satanismo de forma óbvia, suas camadas são complexas, a fragilidade da linha que separa fé e magia é imensa e as crenças dominam a vida das pessoas. Depois da morte da mãe se passam vinte anos e Albrun está com um bebê para cuidar e sozinha lida com as intempéries da natureza, mas ao contrário da mãe quer se socializar, mesmo que a olhem diferente por não seguir as regras, como ir à igreja e casar, até que começa a manter uma relação de amizade com uma mulher que por curiosidade sobre sua vida se aproxima, Albrun é quieta e passa seus dias cuidando das cabras e da criança, essa mulher vai até sua casa e diz que o padre quer vê-la. Albrun vai e depois dele dizer coisas sobre seu modo de vida e o como isso é danoso e enlouquecedor lhe dá o crânio de sua mãe marcado por desenhos de rosas ao redor.

Quando essa mulher vai visitá-la e percebe alguns símbolos, como o bode e o crânio tem a certeza de que é pagã, mais tarde ela comete um ato desprezível em que Albrun se converterá na mais pura dor e raiva. Quando algo é dito por inúmeras vezes se torna uma verdade, a população diz que quem está fora das regras consequentemente está adorando outras coisas, agindo com espíritos da natureza e, por isso, não merece estar entre eles. Albrun dentro desse contexto resolve libertar esse mal e a forma com que o filme expressa isso é de uma beleza e de um capricho que enche os olhos apesar de todo o desconforto e da aura carregada e obscura. 

A aceitação do desconhecido vem da superstição que todo o ambiente proporciona, a escura floresta, a ampla natureza, a solidão, as dificuldades em se prover, as pessoas que a tem como louca e bruxa, a repressão da igreja, uma vida castigada, e a idade média como ambientação só ajudou a criar esse panorama com mais veracidade, a ida dela para o lado do mal foi uma consequência de toda essa superstição e modo de vida que a rodeava, não tinha outro pensamento e escapatória. A intensidade dos vinte minutos finais em que alucinação, loucura e dor se misturam são incríveis e a trilha sonora tem grande importância para ditar nossas reações, provocando-nos e esmagando-nos. Muitas perguntas surgem, mas há muita liberdade de interpretação, é uma obra instigante que proporciona sentimentos diferentes em cada um que assiste.

O título, "Hagazussa", vem de uma antiga palavra alemã que derivou a palavra bruxa, que descreve uma entidade feminina que vive na fronteira entre civilização e natureza, dividido em quatro capítulos – Sombras, Cornos, Sangue, Fogo, muito tem sido comparado com "A Bruxa" - 2015, mas os elementos são outros, como se sustentar em sua atmosfera deixando de lado diálogos, retrata com perfeição o desconhecido, a solidão, a repressão religiosa, o preconceito contra aqueles que não seguem as mesmas regras; a loucura, a dor e o inferno que isso tudo pode ocasionar.
Um belo, hipnótico e provocante filme de horror! 

3 comentários:

  1. Marília, tudo bem? Assisti o filme e achei bastante intrigante. As únicas partes onde fiquei perdido foram:
    POR QUE AQUELE CASAL, APÓS TEREM ESTUPRADO ELA, SUMIU?
    POR QUE QUANDO ELA AFOGA O BEBÊ, EXISTE AQUELA CENA PSICODÉLICA COM SANGUE?
    POR QUE ELA QUEIMOU DO NADA NO FINAL?

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  2. Jefferson Adriã Reis5 de maio de 2019 01:59

    Que ótima resenha! Concordo plenamente.

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  3. No caso do casal a meu ver no momento que ela coloca a ratazana na fonte de agua explica quando ela vê com sorriso um monge levando uma mulher morta pela peste para ser cremada e antes de ela matar a criança(cena dispensável)note que ela ingeriu cogumelos

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