terça-feira, 17 de maio de 2016

Metamorfoses (Métamorphoses)

"Minha mente está inclinada a contar histórias sobre seres que se transformam...." (Ovídio)

"Metamorfoses" (2014) dirigido por Christophe Honoré (A Bela Junie - 2008) é uma adaptação do texto clássico, do poeta latino Ovídio, numa abordagem moderna e original. O poema narrativo abrange mais de 250 mitos, em 15 livros, conta a história do mundo combinando ficção e realidade, através das relações entre deuses e homens, e das suas transfigurações em animais, árvores, rios e pedras, representando o início dos tempos. Surpreendente e encantadora, essa obra atualiza a mitologia greco-romana em situações contemporâneas, várias metáforas fazem parte da construção da trama dividida em três capítulos e que tem como personagem central a mortal Europa (Amira Akili).
Tudo começa quando Europa decide ignorar a aula para seguir um caminhão desgovernado, ela se depara com um jovem sedutor e magnético chamado Júpiter (Sébastien Hirel), ele a sequestra e estranhamente a menina fica fascinada pelas histórias contadas sobre pessoas que se transformaram em animais depois de conhecê-lo, nada a assusta, ela ouve e vivencia tudo com muita naturalidade.
O clima do filme é envolto por uma sensualidade latente, não há pudores, os jovens desfilam em total nudez, os desejos são ilimitados, a natureza compõe todo o cenário dando um aspecto maior de liberdade. Europa se encontra com três deuses, Júpiter que a introduz nesse contexto fantástico, Baco, o deus dos excessos, especialmente de natureza sexual, e Orfeu, o deus que arrasta as pessoas consigo, Europa deixa Baco e também começa a segui-lo.
Nesse trajeto entre deuses ela ouve muitas histórias, principalmente de transformações, segue testemunhando as grandes provações pelas quais passam os mortais quando caem em desgraça perante os excêntricos deuses. Em segundo plano outros mitos são abordados, como Argos, Pã, Tirésias, Narciso, Atalanta, etc.
"Metamorfoses" é um longa ambicioso, transpor um poema épico para uma leitura modernizada sem tirar toda a aura lírica exige grande coragem, é de uma beleza visual excepcional e a narrativa envolve com todo o tom sensual e satírico. 

Há um certo estranhamento em como o roteiro é conduzido, porém é extremamente curioso e acende a nossa imaginação, o ato de revisitar os mitos faz com que enxerguemos além, os simbolismos estão expostos, como a distância entre o homem e a natureza, a ilusão de que ele a domina e não o contrário, o prólogo exemplifica. Todas as fronteiras são apagadas, e por conta da leveza inserida tudo flui prazerosamente.

Um dos mitos abordados é o de Narciso, o belo rapaz que teria uma vida longa se nunca visse a própria face, segundo disse o profeta cego Tirésias, todos se apaixonam por ele, mas ninguém o interessa. A maneira moderna que o filme explora esse mito é super interessante e é um dos melhores momentos.
"Metamorfoses" é uma poesia visual, e certamente agradará àqueles que curtem mitologia e se interessam por filmes diferenciados.

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