segunda-feira, 2 de maio de 2016

Desajustados (Fúsi)

"Desajustados" (2015) dirigido pelo islandês Dagur Kári (O Bom Coração - 2009) é um belo filme que inspira e faz com que tenhamos coragem de enfrentar a vida de frente, independente dos obstáculos internos e externos.
Fúsi (Gunnar Jónsson) é um homem que já passou dos quarenta anos de idade, mas ainda não teve coragem de entrar na vida adulta. Ele vive uma pacata rotina morando com sua mãe até que um encontro com uma mulher vivaz e uma menina de 8 anos afeta seu equilíbrio, obrigando o homem a fazer mudanças.
Quando penso em Fúsi lembro de que quando recebemos algum tipo de gentileza, infelizmente, assustamos. Fúsi causa esse impacto, principalmente por ser grandalhão afasta as pessoas, porém seu coração é tão cheio de afeto que nos desmonta e logo queremos ultrapassar a tela e abraçá-lo.
Fúsi não se encaixa nos padrões determinados pela sociedade, ele é recluso, um menino num corpo de homem, a mãe o mima, ainda brinca e nem pensa em formar família. Passa seus dias tranquilamente, a não ser pelo constante bullying que sofre no trabalho, o departamento de cargas e bagagens do aeroporto de sua cidade, mas ele não enfrenta ninguém. Um dia, de presente o padrasto lhe dá a matrícula em uma escola de dança country, ele pensa duas vezes em entrar na aula, e por acaso conhece Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir), uma mulher também desajustada que o fará perceber a vida de outra maneira. Fúsi está acomodado e não tem forças para lutar contra aquilo que o aflige, até que precisa ajudar Sjöfn, que tem uma forte depressão. Ela é sozinha e trabalha recolhendo o lixo da cidade depois de ter perdido o emprego em uma floricultura. Ele se interessa por ela, os dois passam alguns instantes juntos, mas em determinado momento Sjöfn se desestabiliza e fica envergonhada por ter que se submeter ao emprego de lixeira, só que é óbvio que Fúsi pouco se importa com isso. Sjöfn demonstra interesse pelo grandalhão, mas vive tantos dilemas em seu interior que fica incapaz de manter uma relação. A transformação do protagonista vai acontecendo sutilmente, ao ajudar sua amiga percebe a força que existe dentro de si. 

As particularidades do personagem são cativantes e nos aproxima dele, como a sua mania de ligar para a rádio todas as noites e pedir um heavy metal, comer a mesma comida no mesmo restaurante de sempre, o seu zelo pelo jogo de guerra em miniatura, a sua amizade com a menina que o procura para brincar, mas, que infelizmente, o pai entende de um outro jeito e o proíbe de vê-la. E aí volta aquele pensamento de que as pessoas sempre pensam o pior dos outros, de que não existe mais sentimentos bons, de que tudo tem uma má intenção. Fúsi é gentil e puro em suas atitudes, e isso não combina com o mundo de hoje, as pessoas assustam, o olham de forma estranha.
Gunnar Jónsson como Fúsi está maravilhoso, consegue envolver e fazer com que tenhamos carinho e vontade de ter alguém como ele por perto. A maneira como cuida de Sjöfn é extremamente linda e despretensiosa.

"Desajustados" é um longa delicado que nos tira sorrisos e lágrimas de felicidade, apesar de toda a aura melancólica ao retratar a solidão, mas também mostra o poder de recomeçar a vida, a força que habita em nós e que deve ser usada para transformar nosso cotidiano e as pessoas ao redor. Todos temos desajustes sociais e vulnerabilidades, Fúsi encarou os dele e então se sentiu pronto para abraçar o mundo. 

Um comentário:

  1. Vi o cartaz deste filme na internet, mas tinha a impressão de ser um longa de humor negro. Ao que parece eu estava enganado.

    Seu texto despertou a curiosidade em assistir.

    Abraço

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