terça-feira, 26 de maio de 2015

Pessoas-Pássaro (Bird People)

"Pessoas-Pássaro" (2014) dirigido por Pascale Ferran (Lady Chatterley - 2006) é um filme que disserta sobre a liberdade e no como este conceito se diferencia de indivíduo para indivíduo. Interessante e diferenciado é preciso embarcar na ideia, principalmente quando envolve a personagem Audrey, que tem a necessidade de experimentar, de entrar e descobrir as pessoas, é a parte mais subjetiva do filme.
A história começa com um prólogo que ganha o espectador de imediato, pessoas indo e vindo dentro do metrô, onde apenas os pensamentos são captados, algo tão rotineiro exposto de um jeito simples, mas que diz muitas coisas. As pessoas se preocupam, olham umas para as outras, escutam música, conversam no celular, todas em seus próprios mundos. Dá pra fazer diversas análises só com esse começo, por exemplo no que diz respeito ao distanciamento entre os seres humanos.
Acompanhamos dois personagens, Gary (Josh Charles), um executivo americano que vai à França a trabalho e submetido a pressões tanto profissionais quanto familiares decide abandonar tudo e mudar radicalmente sua vida, Audrey (Anaïs Demoustier), uma jovem camareira de hotel que vive entre o devaneio e a depressão. Dois seres díspares, cada um sofre à sua maneira, mas ambos sentem-se enclausurados. Gary já não aguenta mais sua vida de viagens e prazos e a sua decisão de mudar inclui deixar sua família, é uma necessidade egocêntrica, mas legítima. A liberdade para Gary é mais concreta, não temos dificuldade em entendê-la, ele é um homem de uma classe social privilegiada que não usufruía e apenas viajava a trabalho, o abandono de tudo é compreensível, inclusive de sua esposa controladora, o término acontece via Skype, uma amostra de que valores e sentimentos são esmagados pela praticidade que nos rodeia e que dá uma sensação ilusória de liberdade. Já Audrey é sufocada pelas horas extras e pelos hóspedes que nunca respondem o seu bom dia, ela anseia por descobrir as pessoas, os seus olhos sempre estão curiosos, a imagem dela entrando nos quartos para limpar e abrindo um pouquinho a janela fica marcado, assim como a vista para o aeroporto e os aviões indo ao encontro das nuvens.
A narrativa é fragmentada e crítica, não há nada nesse filme que seja desperdiçado, é minucioso em seus detalhes, cada gesto e olhar permite que o espectador reflita sobre o meio em que vive e aonde é que sua liberdade se encaixa.
Apesar de conter elementos que não agradem o grande público, como a inserção de algo fantasioso em meio ao drama, não é um cinema totalmente experimental, ele é bastante explicativo até, e o que parece ser surreal é uma grande reflexão sobre nossa existência, a vontade de alçar voos verdadeiros, construir relações com valores reais ao invés de virtuais, respirar não só por uma fresta, e principalmente nos permitir olhar com mais afinco nossas atitudes e para onde a vida está nos levando.

"Pessoas-Pássaro" aborda temas como solidão, insatisfação, a realidade claustrofóbica e sem graça e a liberdade que cada um almeja. É um filme que chega diferente para cada pessoa, mas sem dúvidas uma obra curiosa e excelente ao que se propõe, embarque na atmosfera e fique atento aos detalhes, metáforas e situações corriqueiras, há muitas coisas escondidas e que podem ter diversas interpretações.

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