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quinta-feira, 28 de abril de 2022
10 Filmes Agradáveis (Para Ver Quando o Coração Pesar)
Segue uma lista feita com carinho para os corações afogados, seja por qualquer motivo, eu mesma estou numa fase de não conseguir ver filmes com temas pesados e muito reflexivos, mas também isso não significa que as histórias precisam ser bobas e efêmeras. Os selecionados aqui servem para aquecer como um abraço, espairecer a mente, chorar sorrindo e despertar desejos.
10- "Prazer, Kalinda" (Bo We Mnie Jest Seks - 2022) Polônia
Kalina Jędrusik, a maior estrela da Polônia nos anos 60, está no auge da fama, mas precisa enfrentar um oficial desprezado que ameaça destruir sua carreira. Maria Dębska estrela a biografia musical de Katarzyna Klimkiewicz sobre a diva rebelde da Polônia dos anos 60 e 70. Um filme que retrata um ícone feminino da Polônia, uma mulher deslumbrante com uma personalidade livre, que resistiu ao machismo e ao assédio. Um filme que inspira o despertar de sentimentos de autonomia feminino.
09- "Dry Martina" (2018) Argentina/Chile
Martina (Antonella Costa) é uma ex-estrela pop que fez muito sucesso na Argentina durante os anos 90. Agora, sem fama ou qualquer tipo de relacionamento, ela não sabe que direção tomar na vida. Mas a chegada de uma irmã desaparecida com um namorado atraente chama a atenção de Martina e mexe em seu desejo adormecido. Um filme leve que se dobra a sua protagonista decadente, mas com anseios e intenções intensas, as relações que se formam durante a história só provam a sua necessidade de calor humano, um filme que vibra na feminilidade e desejos, sobretudo a afabilidade.
08- "Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (Elvira - Te Daría Mi Vida, pero la Estoy Usando - 2014) México
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido. Uma dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
07- "Granizo" (2022) Argentina
Miguel Flores é um famoso meteorologista que é tão famoso que tem seu próprio programa de televisão que é conhecido por nunca errar a previsão do tempo no país. Tendo estudado na disciplina por seis anos e, trabalhando na área há anos, se Miguel garante, deve acontecer do jeito que ele previu. Um filme para amainar a vida, cheio de conflitos que se desenrolam de maneira eficaz e deliciosa, um protagonista carismático que com bom humor norteia várias nuances da vida.
06- "O Confeiteiro" (The Cakemaker - 2017) Alemanha/Israel
Thomas (Tim Kalkhof) é um alemão dono de uma confeitaria que viaja para Jerusalém em busca da esposa e filho de Oren (Roy Miller), seu amante morto. Ao chegar lá ele começa a trabalhar para a viúva de seu amante, que não tem ideia de que eles compartilham uma tristeza sem nome sobre o mesmo homem.
Um filme bonito e corajoso ao demonstrar que o amor não possui barreiras, etiquetas e rótulos, acontece sem que possamos ter controle e de forma inesperada. A experiência do luto, do desespero silencioso da solidão desencadeou no personagem uma busca, tudo isso ricamente explorado em diversas camadas emocionais. É um filme de observação, há olhares que revelam, como o da mãe de Oren em diversas cenas, e tão mais importante, o toque, as mãos aquecendo a massa, a paixão empregada por Thomas na confecção de seus bolos, são momentos de puro deleite.
05- "Hanami - Cerejeiras em Flor" (Kirschblüten: Hanami - 2008) Alemanha
Rudi Angermeier (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hanellore Elsner) é um lindo casal da terceira idade que leva uma vida rotineira e tranquila. Porém, ao receber a notícia de que seu marido está com uma doença que lhe dá poucos meses de vida, os médicos aconselham a Trudi que tenha cuidado ao contar sobre a enfermidade e sugere que o casal aproveite os últimos momentos para viajar ou realizar alguns de seus sonhos. Sem contar ao marido da doença, Trudi o convence a saírem do interior da Alemanha e irem a Berlim visitarem os filhos. Sem tempo para os pais, o casal vê o quanto eles se transformaram a ponto de considerar a breve visita um verdadeiro incômodo. A situação se agrava quando, ironicamente, Trudi morre, deixando seu marido sozinho em meio ao desprezo dos filhos. Ao voltar para sua cidade, Rudi decide se aprofundar nos pertences de sua mulher, e assim descobre que a vida toda ela alimentou o sonho de conhecer o Monte Fuji, no Japão.
04- "Ninguém Sabe que Estou Aqui" (Nadie Sabe que Estoy Aquí - 2020) Chile
Memo (Jorge Garcia), mora em uma remota fazenda de ovelhas no Chile e esconde sua linda voz do mundo. Traumatizado por acontecimentos do passado, ele vive de maneira solitária, até que uma mulher lhe oferece a chance de encontrar a paz que tanto procura. Belíssimo filme que mexe bastante com nossa sensibilidade, contém cenas poéticas e memoráveis, além da interpretação visceral de maneira contida de Jorge Garcia. Um filme extremamente bonito que enche o coração de emoção.
03- "A Incrível Jornada de Jacqueline" (La Vache - 2016) França
Fatah (Fatsah Bouyahmed), um pequeno fazendeiro argelino, só tem olhos para sua vaca Jacqueline, que ele sonha em ver na grande feira de Agricultura, realizada em Paris. Determinado a levar a vaca até lá, ele a carrega consigo e cruza a França a pé, após pegar um barco para Marselha. No caminho, Fatah e Jacqueline viverão uma inesperada viagem cheia de surpresas e aventuras.
Um filme divertido, afável e leve, aborda com sutileza um argelino que tem o sonho de expor sua amada vaca Jacqueline em uma feira agrícola em Paris, e para isso recebe ajuda de sua aldeia para a viagem e atravessa Paris a pé encontrando pessoas das quais tornam a sua jornada ainda mais significativa e intensa. O tom cômico atenua os temas tratados dentro da trama, o que dá um ar de fábula humanista cheia de poesia e delicadeza, acompanhar Fatah em sua caminhada faz bem ao coração e torcemos muito por ele e sua querida vaca Jacqueline.
02- "A Costureira dos Sonhos" (Sir - 2018) Índia
Ratna (Tillotama Shome) trabalha como empregada doméstica para Ashwin (Vivek Gomber), um homem rico que parece ter tudo, porém vive desesperançoso e perdido pela vida. Enquanto isso, Ratna, que parece ter nada, vive a vida determinada a alcançar seus sonhos. Um filme indiano agridoce que retrata os entraves da cultura para uma mulher que corre atrás de seus desejos e sonha em se tornar pelo menos um pouco livre, o roteiro é leve, inteligente e não cai em clichês, tudo acontece de forma progressiva e assim nos dá tempo para conhecer cada personagem e entendê-los, um olhar feminino sobre a Índia contemporânea e as fortes e corajosas mulheres que se arriscam na cidade grande mesmo tendo dificuldades por conta da origem e posição social. Encanta pela beleza das cores, dos sentimentos que se misturam e, principalmente, pela fascinante interpretação de Tillotama Shome.
01- "Café com Canela" (2017) Brasil
Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho. Violeta (Aline Brunne) segue a vida em Cachoeira, entre adversidades do dia a dia e traumas do passado. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.
Apesar de refletir sobre a ausência e a solidão que o luto causa traz boas doses de humor e afeto, a transformação por meio do amor, do como a cura de uma dor pode acontecer através de um olhar, palavras e ações ternas e, justamente por isso, se faz um filme imprescindível, já que as relações no cotidiano estão cada vez mais frias e cresce a falta de empatia, ele tem a capacidade de resgatar sentimentos inertes, como a gentileza, e demonstrar que xícaras de café podem conter abraços aconchegantes e transformadores.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando (Elvira - Te Daría Mi Vida Pero la Estoy Usando)
"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" (2014) dirigido por Manolo Caro - da série "A Casa das Flores" (2018) é um filme mexicano de dramédia bastante agradável mesmo que bandeando para um lado mais ácido da comédia, foge do estilo convencional do gênero e traz vigor e frescor para alguns clichês muito bem utilizados, os aprimora e dosa com muita perspicácia o desespero, a fluidez e a transformação da protagonista.
Uma noite, Gustavo (Carlos Bardem), marido de Elvira (Cecilia Suárez), sai para comprar cigarros e nunca retorna. Elvira, 40 anos, mãe de dois filhos, começa uma busca incessante pelo amor de sua vida. As pistas a leva à conclusão de que seu marido manteve um relacionamento secreto. A infeliz descoberta não a impede de seguir tentando encontrar seu marido.
Cecilia Suárez abrilhanta o filme com uma maravilhosa personagem que vai de uma mulher cercada pelos afazeres domésticos e pela criação dos filhos para uma transformação avassaladora que a liberta e a faz se conhecer e se amar. Tudo acontece numa madrugada quando Gustavo decide dar a velha desculpa do ir comprar os cigarros e já volto e não retornar mais, desesperada Elvira começa buscar pistas e inventar coisas para que as pessoas ao redor não vejam que está abandonada e conta com a ajuda de uma vizinha carente que lhe auxilia com os dois filhos, ela precisa arranjar um emprego e sempre com a desculpa de que o dinheiro não está sendo suficiente, Gustavo trabalha numa companhia de seguros e emprego mais formal que esse não existe, o que desencadeia o espanto quando descobre o que de fato aconteceu, um turbilhão de sentimentos invade Elvira e dia após dia continua a esconder a ausência do marido e se empenha em descobrir seu paradeiro, angustiada recorre a uma amiga que possui uma funerária e pede um emprego, o fato é que ela não sabe fazer nada e ela própria diz que o que faz de melhor é chorar, portanto, ali seria uma maneira de ganhar dinheiro e colocar seus sentimentos para fora. Vamos juntos de Elvira, a cada passo e a cada escolha que faz para tentar achar soluções, também estamos bem perto dela quando inicia sua transformação ao cortar o cabelo, já de certa forma uma outra mulher pronta para encarar os obstáculos, entre tantas loucuras por quais passa, pois após descobrir que Gustavo fugiu com um amante que conheceu em seu trabalho ela pira e começa a enxergar o rapaz em Ricardo (Luis Gerardo Méndez), um dos funcionários da funerária, os dois começam a se envolver e Elvira o leva justamente para o local em que se encontra Gustavo e o amante.
O misto de sensações que a história provoca ganha nossa atenção e transforma a tensão de muitos momentos em alívio, a montanha russa de sentimentos por qual a protagonista atravessa é de enlouquecer, mas passa, e é bom ver sua transformação e libertação, aliás muito bem conduzida, sem pressa e de acordo com os acontecimentos, fica a reflexão de que precisamos nos escutar mais e aceitar quem somos, levar a sério nossos desejos e escolhas, pois as consequências delas podem ser amargas e traumáticas.
"Elvira - Te Daria Minha Vida, mas a Estou Usando" é uma delícia e não bobeia na importância da mensagem, além do mais possui uma trilha sonora apaixonante que traz à tona canções regionais, vide a música tema "Suavecito", de Laura Léon, e também com a versão mais atual com a doce voz de Julieta Venegas. A melodia se encaixa perfeitamente à narrativa e não há melhor definição para o filme do que Suavecito, suavecito!
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Faca no Coração (Un Couteau Dans le Coeur)
"Faca no Coração" (2018) dirigido por Yann Gonzalez (Os Encontros da Meia-Noite - 2013) é uma produção francesa um tanto inusitada e original, chama bastante a atenção seu estilo kitsch, há muito mistério, erotismo e pitadas de slasher, para os fãs de cinema cheio de cores e que ressalta a fotografia sem dúvidas é um exemplar irresistível.
Final da década de 1970, em Paris. Anne (Vanessa Paradis) é uma produtora de filmes pornográficos que sofre com o término de seu relacionamento com a montadora Lois (Kate Moran). Os negócios não andam bem, e são ainda mais prejudicados quando um estranho assassino mascarado começa a atacar seus principais atores. Revoltada com a passividade da polícia, Anne começa a sua própria investigação, e tem uma ideia genial: reencenar as mortes em versão pornô.
Anne, vivida pela fascinante Vanessa Paradis - ícone pop da França, produz filmes pornográficos super criativos com ajuda do seu braço direito Archie (Nicolas Maury), mas as coisas vão de mal a pior, além de estar passando por uma fase complicada em seu relacionamento amoroso com Lois, sua montadora, um misterioso assassino mata um dos seus atores mais queridos, só que ao invés de se preocupar seu processo criativo se reacende e imagina as histórias com base nisso, a atmosfera fetichista domina a trama e tem até um quê de conto de fadas em muitos momentos. O assassino se torna uma espécie de especialista em matar atores pornôs, a dúvida permanece conosco o tempo todo e nada do que se deduz acontece, a explicação final é elaborada, assim como os filmes que Anne produz. As mortes são belamente filmadas e a figura do assassino gera bastante desconforto, seus ruídos e a maneira que crava a faca nas suas vítimas. Anne segue não se importando, fala com a polícia, que também não investiga de acordo e assim o serial killer tem espaço para agir. Ela está interessada na sua obra que reproduzirá os assassinatos e acredita que será o seu melhor trabalho, inclusive acompanhamos todo o processo de "Homocida", que diga-se de passagem são cenas hilárias e também sensuais, não há pudor em exibir os corpos e o sexo, sem ser claramente explícito, mas estimulante ao colocar os sons para ativar a nossa imaginação. A ambientação da época é primorosa e faz referência a clássicos, como Dario Argento, o figurino, as cores e a trilha sonora cósmica também são pontos de destaque e criam um todo singular e interessante.
A história vai te levando para lugares incomuns e surpreendentes, quando Anne decide iniciar uma investigação por conta própria surgem elementos fantásticos e então há uma mudança e uma virada, as descobertas aparecem e finalmente o todo se amarra na estreia do seu filme dentro de um cinema num clube gay.
O universo LGBT é maravilhosamente bem representado, sua diversidade e nuances, os elementos, nada fica de fora, um retrato diferente do usado em tantos filmes, tudo isso misturado a uma trama que envolve amor, sexo, traumas e morte, um obra livre que homenageia e faz diversas referências, como ao gênero Giallo.
"Faca no Coração" tem uma estética primorosa com roupas coloridas e ambientes com luzes néon, sua trilha composta por M83 é bastante magnética e pontual, seu mistério permanece e só descobrimos a face do assassino e sua motivação realmente no fim. Um suspense erótico underground e fetichista com pitadas de slasher, humor negro e até fantasia. Uma experiência pulsante e ousada!
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Roma
"Roma" (2018) dirigido por Alfonso Cuarón (Gravidade - 2013) é um filme íntimo, pessoal e de um apuro técnico fabuloso. Cuarón faz um registro do México dos anos 70 em que quase tudo foi inspirado em sua infância e em suas memórias de quando vivia no bairro Roma. A obra arrebata ao retratar o cotidiano, as desigualdades sociais e momentos críticos do país de maneira cru e fluida sem qualquer interferência ou crítica, completamente sensorial propõe um exercício de observação.
Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.
Cleo, descendente de tribos indígenas mesoamericanas, trabalha como doméstica e babá para uma família de classe média e seu mundo se resume a servi-los, aos poucos vamos criando empatia ao observar o quão invisível é tanto dentro da casa, como na sociedade, Cleo cuida das quatro crianças com carinho, desde o momento em que as acorda de manhã até o momento de colocá-las na cama à noite. O filme se inicia com um belo quadro em que água e sabão se misturam e caem finalmente no ralo, a câmera então abre e vemos Cleo esfregando a garagem, que mais tarde o patrão guarda o carro com todo o rigor possível, a câmera faz questão de exibir e passear pelos detalhes, o Galaxie precisa ser manobrado com cuidado, pois quase não cabe no corredor, a roda passa por cima das fezes do cachorro, o que depois gera reclamações para a esposa e esta desconta em Cleo. Sofía (Marina de Tavira) entra em colapso quando o marido não volta mais para casa, sozinha precisa se virar para dar conta de sustentar os filhos e esconder deles o sumiço do pai, isso reflete em Cleo e Adela (Nancy García Garcia), sua colega de trabalho, as duas dividem um quartinho nos fundos e por mais que sejam ativas na vida social da casa não deixam de ser as empregadas, que necessitam de um lar e comida. Diante da situação em que o país passa elas de algum modo estão protegidas, quando vemos os arredores, o lado pobre e a crise se instalando percebemos a vulnerabilidade, a enorme desigualdade. Em dado momento Cleo sai com Adela e aí conhece um rapaz (Jorge Antonio Guerrero), praticante de artes marciais, mais tarde esse romance se revela uma cilada para Cleo, que se vê grávida e abandonada em uma passagem triste e revoltante que acontece dentro de um cinema.
O filme marca por seus instantes sutis, não há grandes eventos, é o cotidiano se revelando e suas diversas pequenas tramas se instalando, é a dificuldade de Cleo suportar sozinha a carga de estar grávida, de compreender seus conflitos internos, sua invisibilidade na sociedade, o afeto da família que vai até determinado ponto, são inúmeras cenas que fazem esse recorte, de que a barreira nunca será transposta, e tudo isso o filme faz de um jeito ameno, até pelo fato da personagem ter uma personalidade ingênua e observadora, há uma gama de problemáticas, mas em nenhum momento aponta e julga, fica apenas a reflexão diante das imagens que se desnovelam.
O filme marca por seus instantes sutis, não há grandes eventos, é o cotidiano se revelando e suas diversas pequenas tramas se instalando, é a dificuldade de Cleo suportar sozinha a carga de estar grávida, de compreender seus conflitos internos, sua invisibilidade na sociedade, o afeto da família que vai até determinado ponto, são inúmeras cenas que fazem esse recorte, de que a barreira nunca será transposta, e tudo isso o filme faz de um jeito ameno, até pelo fato da personagem ter uma personalidade ingênua e observadora, há uma gama de problemáticas, mas em nenhum momento aponta e julga, fica apenas a reflexão diante das imagens que se desnovelam.
Cada plano exala beleza, poesia e melancolia, consegue nos inserir à época e nos fazer olhar pelo ângulo da recordação, as tragédias, os conflitos políticos, momentos de dor e sofrimento; Cleo tem uma força imensa mesmo não a transparecendo, existe uma enorme complexidade na relação com as crianças que cuida e com a patroa que lhe trata bem, pois apesar do amor ela está ali para servir, os momentos de carinho são quebrados quando pedem para ela pegar um copo da água, fazer uma vitamina e mais grave ainda não saberem absolutamente nada sobre ela a não ser seu nome. Yalitza Aparicio em seu primeiro papel brilha em cena mesmo contida e é justamente por isso que encanta, Cleo nada mais é que uma espectadora.
Alfonso Cuarón concebeu uma bela obra a partir de suas memórias, além de ser uma rica experiência cinematográfica, seu esmero técnico e a fotografia também feita por ele nos enche os olhos, o preto e branco só ressalta a sensação de estar olhando para o passado, para fotografias antigas. Muitas das situações retratadas ainda sombreiam nosso presente, principalmente na América Latina, não tem como não associar certas passagens com o filme brasileiro "Que Horas Ela Volta?", especialmente da relação patrão/empregado. Em "Roma" o registro é sutil e propõe a apreciação das imagens, sem dúvidas um dos melhores do ano!
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
O Autor (El Autor)
"O Autor" (2017) dirigido por Manuel Martín Cuenca (Canibal - 2013) é uma adaptação de uma história do escritor Javier Cercas, que retrata a saga de um homem comum, mas ambicioso que busca inspiração para escrever um livro de alta literatura, só que por mais que tente nada o ajuda a criar, o fracasso insiste em acompanhá-lo. Da onde surgem as inspirações? Será que são epifanias em momentos de ócio ou os estudos e ler continuamente ajuda na elaboração? Como saber se o que está escrevendo é original e não fruto de algo que tenha lido ou ouvido? Por isso, a realidade é muitas vezes usada para inspirar escritores, os passantes e suas angústias secretas, uma gama de possibilidades que atraem qualquer mente criativa, e é por aí que o protagonista começa a desenvolver seu livro, só que ao invés de apenas observar faz dos seus personagens peças num tabuleiro, manipulando-as como bem quer sem se importar, ele espia, se intromete e obsessivamente as leva para o destino que sua história pede.
Álvaro (Javier Gutiérrez) sonha em ser escritor, de alta literatura, não um picareta como o escritor de bestsellers que sua esposa Amanda (María León) gosta. Quando ele encontra a mulher o traindo, ele decide largá-la e sair do emprego para tentar alcançar seu sonho. Ele começa a provocar conflitos reais para então poder escrever sobre eles, mas ele é a principal vítima dos seus atos.
O filme mistura uma sutil sátira ao drama do protagonista que anseia obstinadamente escrever seu livro, mas não qualquer um, como os de sua esposa (María León), uma escritora de bestsellers adorada, ele claramente tem inveja de seu sucesso e sua escalada no meio, mas fecha-se nessa bolha de alta literatura, a narrativa brinca com a questão do processo de criação e se o talento é inerente ou se pode ser adquirido, Álvaro faz um curso para aprimorar técnicas de escrita e se apequena diante a sua jovial e bela mulher que está nos holofotes, até que ele vê ela o traindo e sem manifestar nenhuma emoção vai embora para outro lugar, se acomoda num apartamento onde coloca sua mesa, computador e cadeira num absoluto branco, tal qual uma página, e o emprego é praticamente esquecido, decidido tem certeza que escreverá. Ele é um sujeito comum, sem muitos atrativos e quando lê em voz alta seu conto para o professor, vivido pelo excelente Antonio de la Torre, este o coloca no chão criticando seu modo americanizado e repleto de soluções fáceis, ele diz coisas terríveis a Álvaro, que se não fosse pela sua obsessão cega certamente teria esquecido a ideia de escrever um livro. Mas ele reúne algumas falas do professor em sua mente e inicia sua busca por inspiração no cotidiano, utilizando as pessoas do seu prédio como personagens e suas vidas como enredo, mas ele não se contenta em apenas observar para então criar, ele quer de fato saber o que acontece dentro dos apartamentos, daí começa a gravar com seu celular as conversas do casal de mexicanos ao lado, seduz a síndica com o interesse de saber mais sobre os outros moradores, aliás, Adelfa Calvo é incrível em cena, principalmente quando canta com paixão, coisa que Álvaro não possui, ele não demonstra paixão pelo que está fazendo, parece que vive dentro de um sonho egoísta.
Seu livro vai tomando forma à medida que descobre sobre alguns moradores, os vai moldando a partir das fofocas retiradas da síndica em troca de noites de amor, vai se infiltrando em suas vidas, mentindo e articulando para que coisas ocorram e dessa forma sua história ganhar corpo, só que ele não tem limites e não se interessa pelo ser humano em si, ele manipula e despreza, provoca conflitos, e nessa sua loucura não contou que talvez algo pudesse dar errado, que seus personagens de carne e osso se voltariam contra ele. Uma reviravolta que não cogitou em momento algum.
"O Autor" é um exemplar original que mescla ironia e sensibilidade, retrata um homem comum e sem brilho, até aí tudo bem, na maior parte todos somos, mas ele alimenta sentimentos como inveja, indiferença, arrogância, prepotência, ou seja, nada aberto para inspirações, por isso nunca consegue concluir seu sonho, pois é medíocre e pensa que está acima dos outros, quando na verdade, está à sombra, sempre acariciando o fracasso. Seu desfecho é um tanto desapegado aos clichês e para quem procura por filmes diferenciados dentro do catálogo da Netflix é uma boa opção!
terça-feira, 20 de março de 2018
15 Filmes Confusos (Mindfuck Movies)
Segue uma lista de filmes que deixam o espectador com incômodo na mente tentado buscar teorias que expliquem a trama, a mistura de gêneros é uma característica das obras "mindfuck", geralmente há suspense, thriller, drama e ficção científica, e todo o desenvolvimento não linear alternando entre a realidade e o reino da imaginação fazem com que metade ame e a outra metade odeie esse estilo de filme. Selecionei os que adoro excluindo os mais conhecidos, como "Clube da Luta", "A Origem", "Donnie Darko", "Sr Ninguém", "Cidade dos Sonhos", "Oldboy", entre outros, foi difícil deixá-los de lado, porém preferi incluir alguns longas que não são tão conhecidos, mas que desafiam e dão um belo nó na mente.
15- "O Homem que Incomoda" (Den Brysomme Mannen - 2006) Islândia/Noruega
Andreas (Trond Fausa Aurvaag) desembarca numa cidade estranha sem lembrar como chegou ali. É recebido de forma cordial e inicia uma vida regrada, com trabalho, casa e até uma mulher encantadora. Mas rapidamente percebe que tem alguma coisa errada neste mundo perfeito. As pessoas não parecem sentir emoções genuínas e só falam de trivialidades. Ele tenta escapar da cidade mas descobre que não tem saída. Isso até conhecer Hugo, que achou uma fissura no porão de casa, através da qual se ouve uma bela música. Seria esta uma comunicação com o “outro lado”?
14- "O Amante Duplo" (L’Amant Double - 2017) França
Chloé (Marina Vacht) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo. Só que, com o andar as sessões de terapia, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul encerra a terapia e indica uma colega para tratar a esposa. Entretanto, ela resolve se consultar com outro psicólogo, o irmão gêmeo de Paul, que ela nunca tinha ouvido falar até então.
13- "Frequencies" (OXV: The Manual - 2013) Austrália/UK
Em uma realidade alternativa, as crianças aprendem desde cedo que a sorte guia os seus passos e que o conhecimento é a única forma de moldar os seus destinos. Quando um rapaz, reconhecidamente azarado, se apaixona por uma menina que não corresponde ao seu status, ele irá buscar resolver um grande mistério para receber o upgrade em seu destino.
12- "Cores do Destino" (Upstream Color - 2013) EUA
Um homem e uma mulher são unidos através de um organismo e, a partir daí, suas reais identidades se tornam uma verdadeira ilusão enquanto eles lutam para reunir os fragmentos de suas vidas destruídas. Saiba+
11- "Medo" (Janghwa, Hongryeon - 2013) Coreia do Sul
Duas irmãs voltam para casa após passar um tempo em um internato. Elas são recebidas de braços abertos pela madrasta, que logo depois se mostra uma mulher cruel. Aos poucos, acontecimentos perturbadores vão deixar os nervos à flor da pele. Todos escondem um mistério horripilante. Há outras almas presentes no ar. Almas que não estão em paz.
10- "O Homem Duplicado" (Enemy - 2013) Canadá/França/Espanha
Adam (Jake Gyllenhaal) é um professor de história que leva uma vida monótona, até que descobre a existência de Anthony (Jake Gyllenhaal), um ator de pouco destaque que é fisicamente idêntico a ele. A partir de então, Adam cria uma verdadeira obsessão pelo seu sósia, e passa a persegui-lo em busca de respostas. Saiba+
09- "Viagem Alucinante" (Enter the Void - 2009) França
Oscar e Linda vivem atualmente em Tóquio. Ele sobrevive através de pequenos negócios como traficante e ela como uma stripper em uma boate. Durante um ataque policial, Oscar é atingido por uma bala. Enquanto está morrendo, seu espírito, fiel à promessa que Oscar fez à irmã de nunca desistir, se recusa a deixar o mundo dos vivos. Sua mente, então, viaja pela cidade e suas visões começam a ficar cada vez mais caóticas e apavorantes. Passado, presente e futuro se misturam em um redemoinho alucinante.
08- "A Dupla Vida de Véronique" (La Double Vie de Véronique - 1991) França
Duas mulheres de 20 anos moram muito longe, mas parecem estranhamente estarem conectadas. Weronika é polonesa e sonha em entrar para uma academia de música, e quando ela finalmente consegue a vaga, ela morre na sua primeira apresentação. A partir desse momento, Véronique, que é francesa e mora em Paris, decide largar as aulas de música e acaba por se envolver com um manejador de marionetes.
07- "Motores Sagrados" (Holy Motors - 2012) França
Oscar (Denis Lavant) transita solitário em vidas paralelas, atuando como chefe, assassino, mendigo, monstro, pai… Mergulha profundamente em cada um dos papéis e é transportado por Paris e arredores em uma luxuosa limusine, comandada pela loira Céline (Edith Scob). Ele é um homem em busca da beleza do movimento, da força motriz, das mulheres e dos fantasmas de sua vida. Saiba+
06- "Tudo Estará Bem" (Alting Bliver Godt Igen - 2010) Dinamarca
Um escritor-roteirista, Jacob Falk, conhecido por ficar obcecado com suas próprias histórias, depara-se com fotografias de prisioneiros de guerra que foram torturados por soldados dinamarqueses no Iraque. Suspeitando de uma conspiração política, Falk cai em uma perseguição frenética para revelar o mistério por trás das fotografias e ele descobre uma verdade mais preocupante do que ele imaginava. Saiba+
05- "O Incidente" (El Incidente - 2014) México
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente. Saiba+
04- "Símbolo" (Shinboru - 2009) Japão
Um homem acorda e percebe que está misteriosamente preso em uma sala retangular branca e vazia, vestido com um pijama de bolinhas amarelas. Enquanto isso, em uma cidade empoeirada do México, um lutador mascarado conhecido como Homem Escargot se prepara para uma partida importante. Em meio a excessos ridículos, o suspense aumenta quando o prisioneiro sem nome está perto de escapar e Escargot prestes a entrar no ringue.
03- "O Lamento" (Gokseong - 2016) Coreia do Sul
A chegada de um misterioso estranho (Jun Kunimura) em uma aldeia tranquila coincide com uma onda de assassinatos cruéis, causando pânico e desconfiança entre os moradores. Quando a filha do oficial de investigação Jong-Goo (Kwak Do-won) cai sob a mesma magia selvagem, ele chama um xamã (Hwang Jung-min) para ajudar a encontrar o culpado. Saiba+
02- "O Operário" (The Machinist - 2004) Espanha/EUA
A última vez em que Trevor Reznik (Christian Bale) dormiu foi há um ano, sendo que desde então o cansaço vem destruindo progressivamente sua saúde física e mental. Ele trabalha numa fábrica operando maquinário pesado, e faz de tudo para manter seu emprego. Envergonhado por causa de seu problema, Trevor isola-se cada vez mais, tornando-se paranóico. Depois de se envolver em um acidente no trabalho em que um homem perde um braço, Trevor começa a crer que seus colegas estão conspirando para demiti-lo. Ele precisará lutar não apenas para se manter no cargo, mas também para manter a sanidade.
01- "Amnésia" (Memento - 2000) EUA
Após um assalto que resultou na morte de sua esposa e que o deixou em estado gravíssimo, Leonard Shelby (Guy Pearce) passa a sofrer de amnésia recente. Ele não consegue se lembrar de fatos que aconteceram há 15 minutos. Mesmo assim ele decide ir atrás do assassino de sua mulher e se vingar.
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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
A Região Selvagem (La Región Salvaje)
"A Região Selvagem" (2016) dirigido por Amat Escalante (Heli - 2013) é um filme polêmico e poderoso que traz uma história envolvendo uma mulher traída e um alienígena que desperta prazeres sexuais, uma crítica ao conservadorismo, a repressão, o machismo e preconceitos, tudo exposto de forma bizarra, mas que com certeza captura nossa atenção.
Um meteorito cai em uma montanha. Em uma cidade próxima, um jovem casal se esforça para se reconectar, e o homem trai a mulher. O processo é autodestrutivo para ambos. De repente, algo de fora deste mundo surge, mudando suas vidas para sempre.
Após a queda do meteorito somos inseridos na cena em que Veronica (Simone Bucio) se satisfaz sexualmente com os tentáculos do alienígena, o casal que detém o extraterrestre teme por ela, pois nessa "sessão" saiu machucada, Veronica carrega um semblante pesaroso, pois sabe que não poderá mais vê-lo e o prazer jamais vai ser sentido novamente, no hospital quem cuida da ferida dela é o enfermeiro Fabian (Eden Villavicencio), muito simpático o moço chama ela pra sair junto de sua irmã Alejandra (Ruth Ramos) e o cunhado Ángel (Jesús Meza), do qual mantém uma relação escondida, um hipócrita que cospe preconceitos e evita falar com Fabian perto da esposa pelo fato de ser gay, mas escondido manda mensagens e sai com ele. Há uma tensão sexual entre Veronica e Fabian, partindo mais do lado dela, e Ángel fica enciumado e desconta sua raiva das formas mais machistas e preconceituosas possíveis, começa a ameaçar Fabian e então este decide romper com a relação abusiva. Nisso, Veronica o insere no mistério envolvendo o alienígena que desperta grandes prazeres nas pessoas, só que no dia seguinte ele é encontrado pelado inconsciente num lago, a irmã desesperada tenta entender o porquê e ao entrar na casa do irmão encontra o celular e visualiza as mensagens entre ele e seu marido, algumas de cunho ameaçador, logo a suspeita cai toda em cima de Ángel, atormentada pela traição de ambos denuncia o marido e Veronica a acolhe e lhe mostra o caminho para o alienígena, e é nesta relação que encontra alívio e satisfação. A cena que se sucede é estranha, o casal de idosos lhe dá um chá que a droga e depois a coloca no celeiro, de início se assusta com o que vê e aos poucos a câmera revela o ser que habita ali e emana tanta excitação. As cenas são altamente eróticas, tentáculos que passam e adentram o corpo, uma carga sexual libertadora.
Mas o que será que o alienígena realmente quer das pessoas, ele simplesmente precisa se saciar sexualmente e quando cansa torna-se perigoso, ou poderia ter algo haver com a tendência, que ao entrar no local com o caráter totalmente exposto transfigurava-se em prazer sexual ou violência? Várias questões surgem e a subjetividade é imensa, e é por isso que a obra se torna grande, por exemplo, sobre o desejo feminino, a cena em que Ángel faz sexo com Alejandra demonstra essencialmente o egoísmo machista, ela ali é apenas um objeto, logo a vemos no banho se masturbando, mas os filhos a interrompem, parece não haver espaço para o prazer feminino, como se não existisse, e ao final Veronica até tenta transar com um homem, mas não consegue sentir nada, uma pequena amostra do quanto o ato sexual é ainda repleto de tabus e permeado de preconceitos.
"A Região Selvagem" acerta em cheio na atmosfera criada, provoca o espectador com a quebra dos estereótipos e ideias arcaicas, tabus religiosos que reprimem e tantos preconceitos que envolvem as relações, a cabana com o extraterrestre representa a libertação de todos os paradigmas e desnuda quem está ali, mostrando o seu lado primitivo onde convenções sociais não interferem no desejo. Um filme libidinoso, pulsante e que abre um leque de ideias interessantes e primordiais.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
O Incidente (El Incidente)
"...eu nunca aproveitei nenhuma fase da minha vida...e sempre estava pensando em querer chegar à fase seguinte, e quando chegava a ela me dava conta que a anterior era melhor...Aproveite tudo. A vida é uma baita estrada longa e o que passamos já não volta mais"
"O Incidente" (2014) dirigido por Isaac Ezban (Os Parecidos - 2015) é um filme mexicano de baixo orçamento no estilo "mindfuck", somos completamente absorvidos por uma trama de atmosfera intrincada em que personagens vivem um looping temporal, as escadas de um prédio que se repetem, o incansável percurso em uma estrada que acaba em si mesma, acontecimentos que foram concebidos através de um incidente e que nos leva a questionar sobre realidade paralela, mas também serve como metáfora para nossa existência, das repetições que fazemos ao longo da vida, dos momentos que se fixam e se refazem em nossa mente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
Após um confronto, dois irmãos e um detetive da polícia tentam fugir de um prédio e descobrem que a escadaria se repete infinitamente e não tem saída. O mesmo incidente acontece com uma família em viagem de férias, que acaba presa num trecho da estrada e retorna sempre ao mesmo ponto de partida. Dois episódios aparentemente sem relação conectados por um misterioso looping temporal, que faz com que a realidade se repita infinitamente. A única saída é seguir em frente.
É uma ideia interessante e o desenvolvimento por mais que pareça arrastado se mostra curioso e confunde-nos totalmente e acerta em cheio ao retratar os personagens ao longo de muitos anos vivendo o mesmo, inclusive com objetos e comidas se acumulando, o como cada um reage a essa situação e ao final tentando se conectar com a única realidade existente, a explicação seria que eles ali seria uma espécie de motor gerando energia para a versão real deles, o que alivia um pouco a dor de cabeça de tentar entender, mas ao mesmo tempo essa explicação fica um tanto expositiva.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
É criativo nos detalhes e nos recursos utilizados para ampliar o desconforto da situação, de estar preso em algo que se repetirá exaustivamente e sem saber como sair ou desfazer, se é uma ilusão, um sonho, a questão do tempo e seus desdobramentos. A trilha sonora é uma aliada para o clima de imersão e dá a sensação de um pesadelo consciente.
Muitos incidentes grudam na nossa mente e volta e meia regressamos a eles, traumas, arrependimentos, escolhas, refazemos tudo de novo na nossa cabeça e às vezes incluindo alternativas, com diferentes possibilidades que alterariam a realidade presente, e sem dúvida, pensar por esse lado a história do filme deixa de incomodar tanto com suas teorias de looping, o cérebro para de coçar um pouco, a frase que o irmão diz pro outro no início exemplifica essa ideia, de que nunca estamos satisfeitos com o que temos no agora, sempre estamos ansiando pelo próximo dia que talvez nos dará mais do que hoje, porém quando se chega lá percebe-se que não vivemos o dia anterior e estamos reproduzindo este pensamento sem fim.
"O Incidente" é instigante, possui várias nuances dentro de sua proposta, não deixa a desejar em nenhum momento, é tenso e perturba, as coisas que acontecem durante todo o tempo em que estão presos, a acumulação, o desgaste, as tentativas de sair, tudo é executado brilhantemente e ao final deixa que cada espectador interprete de uma forma, a explicação é dada, mas mesmo assim cada um tem a sua experiência.
terça-feira, 31 de outubro de 2017
22 Filmes de Bruxas (Witch Movies)
Em comemoração ao Halloween, segue uma lista caprichada de filmes com Bruxas, todos excelentes em suas histórias sombrias, misteriosas, sedutoras e também críticas.
"As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas." (As Crônicas de Nárnia)
Na Idade Média, a princesa Ada (Barbara Steele), acusada de bruxaria e práticas de vampirismo, é condenada a uma morte terrível: inquisidores cruéis cravam em sua face uma máscara amaldiçoada repleta de lâminas pontiagudas (a máscara do demônio, naturalmente). Mas antes que eles o façam, a bruxa ameaça a todos e promete voltar para se vingar e dar continuidade a seu legado de sangue e horror... E ela voltará...
21- "A Filha de Satã" (Night of the Eagle - 1962) de Sidney Hayers
Cético professor universitário é contrariado pela crença de sua esposa na feitiçaria, prática que conheceu em uma viagem à Jamaica. Ele tenta convencê-la a abrir mão disto, mas a mulher está cada vez mais obcecada em arrodeá-lo de amuletos e outros aparatos de magia para que tenha sucesso profissional.
20- "O Uivo da Bruxa" (Cry of the Banshee - 1970) de Gordon Hessler
Na Inglaterra do século XVI, o obsessivo magistrado Lorde Edward Whitman empenha-se em erradicar a prática de bruxaria de uma região rural. Sua mulher teme que a família esteja amaldiçoada e se comporta como uma louca, só sendo acalmada pelo seu cavalariço Roderick, que também é amante da filha do Lorde, Maureen.
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19- "O Martelo das Bruxas" (Kladivo na Čarodějnice - 1970) de Otakar Vávra
A história do filme é baseada no livro de Václav Kaplicky, Kladivo na Čarodějnice (O Martelo das Bruxas, 1963), um romance sobre julgamentos de bruxas no norte da Morávia durante a década de 1670. As imagens são de um preto e branco alegórico e cheias de símbolos. Tudo começa com uma ação trivial de uma pobre velha, que desemboca numa espiral de acusações, mergulhando a comunidade no caos total.
18- "O Espelho da Bruxa" (El Espejo de La Bruja - 1962) de Chano Urueta
Elena é avisada por sua madrinha bruxa Sara que domina a magia negra e a arte do espelho de que será assassinada por seu marido, mas a jovem acredita ser muito amada. Adonay que é o demônio chefe de Sara previne que é melhor que o destino aconteça e não interfira. Elena acaba morrendo. A bruxa tem o espelho que possibilita muitas visões, inclusive falar com Elena que está no caixão e promete vingança. O viúvo se casa novamente e passa a presenciar estranhos fenômenos na casa como flores murchando repentinamente no vaso, o piano que toca sozinho até que sua nova esposa acaba sofrendo sérias queimaduras e o marido tomará decisões radicais pra ajudá-la, mas a bruxa estará preparada para a vingança derradeira.Não é uma história de bruxa má, mas uma bruxa que busca justiça.17- "Olhos De Fogo" (Eyes of Fire - 1983) de Avery Crounse
Um grupo de pioneiros do oeste americano se depara com estranhos acontecimentos noturnos numa floresta. Uma misteriosa garota conhece os segredos desses sinistros acontecimentos e o mundo ao qual pertencem e pede aos invasores que abandonem a floresta. Só as forças da noite tem a resposta para algumas perguntas.
16- "A Iniciação de Sarah" (The Initiation of Sarah - 1978) de Robert Day
Filme feito para a TV sobre uma jovem que tem poderes telepáticos, e que ao ser rejeitada por todas de uma irmandade, junta-se a uma professora que mexe com bruxaria, para se vingar da humilhação pela qual passou.
15- "Baba Yaga" (1973) de Corrado Farina
Valentina, uma fotógrafa de moda, em circunstâncias estranhas conhece uma mulher, que se apresentou como Baba Yaga. Esta senhora não é jovem e dá a Valentina uma boneca que pode vir à vida. Ela usa a câmera e o homem fotografado cai morto. Valentina se torna dependente de Baba Yaga. Livre do cativeiro do glamour tenta conseguir seu amante Arnaud.
14- "Superstição" (Superstition - 1982) de James W. Roberson
Uma família se muda para um casarão no interior de Mill Road, ao lado de um grande lago. Não demoram a descobrir que o lago foi o local da execução por afogamento de uma bruxa, 300 anos antes, e ela está de volta para concretizar sua vingança.
13- "Dark Waters" (Temnye Vody - 1993) de Mariano Baino
A jovem Elizabeth chega a um convento localizado numa ilha para tentar saber mais sobre seu passado. O local é quase medieval: não tem eletricidade e as freiras vivem em completo isolamento. Ela espera encontrar uma amiga que vive lá, mas logo descobre que a moça morreu e que o lugar vive às voltas com um mistério envolvendo um antigo amuleto.
12- "Jovens Bruxas" (The Craft - 1996) de Andrew Fleming
Uma jovem (Robin Tunney) se muda de São Francisco para Los Angeles para começar uma nova vida. Lá conhece três alunas do colégio onde estuda que se dedicam ao ocultismo e à magia (tanto que têm a fama de bruxas entre seus colegas). Quando as quatro fazem amizade e começam a praticar magia juntas, desencadeiam um poder que foge do controle, gerando trágicas consequências.
11- "As Bruxas de Salém" (The Crucible - 1996) de Nicholas Hytner
Em Salem, Massachusetts, 1692, algumas jovens fazem "feitiços". Uma delas, Abigail Williams (Winona Ryder), tinha se envolvido com seu patrão John Proctor (Daniel Day-Lewis), mas após o fim do caso foi despedida. Assim, desejava a morte de Elizabeth Proctor (Joan Allen), a esposa deste. Elas são descobertas no seu "ritual" e, acusadas de bruxaria, provocam uma histeria coletiva que atinge várias pessoas, sendo que Abby, a jovem desprezada por John, faz várias acusações até ver Elizabeth ser atingida.
10- "Da Magia à Sedução" (Practical Magic - 1998) de Griffin Dunne
"Jogue sempre sal sobre seu ombro esquerdo, tenha alecrim no seu jardim, plante alfazema para dar sorte e apaixone-se sempre que puder."
Duas irmãs descendentes de feiticeiras tentam levar uma vida normal, mas sofrem com uma maldição que diz que todo homem que se apaixona por uma integrante de sua família é levado à morte. Com Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Stockard Channing e Dianne Wiest.
09- "Elvira - A Rainha das Trevas" (Elvira, Mistress of the Dark - 1988) de James Signorelli
Elvira (Cassandra Peterson) é a anfitriã de um programa de baixo orçamento sobre filmes de terror, mas tudo pode mudar quando ela herda da tia Morgana (Cassandra Peterson) uma velha mansão em Fallwell, Massachusetts, uma pequena cidade com apenas 1313 habitantes. Ela sonha em vender a casa e ir para Las Vegas, mas encontra dois sérios problemas: o primeiro são os adultos da cidade, que ficam espantados com o modo de como ela se veste e se comporta. Liderados por Chastity Pariah (Edie McClurg), eles fazem forte oposição à presença de Elvira na localidade. O segundo problema é Vincent Talbot (William Morgan Sheppard), um tio de Elvira que não herdou nada, mas deseja obter de qualquer maneira um "livro de receitas" que também foi herdado por Elvira, que dará a ele imensos poderes para fazer diversos tipos de bruxarias.
08- "A Convenção das Bruxas" (The Witches - 1990) de Nicolas Roeg
Após a morte do pai, Luke (Jasen Fisher), 10 anos, é levado por sua avó (Mai Zetterling) para um hotel na Inglaterra. Lá o garoto descobre que um grupo de bruxas está fazendo uma convenção e que pretendem transformar todas as crianças do mundo em ratos. Descoberto, ele acaba virando um roedor junto com outro garoto, mas não desiste de parar o plano da senhorita Eva Ernst (Anjelica Huston), a líder da convenção das bruxas.
07- "O Serviço de Entregas da Kiki" (Majo no Takkyuubin - 1989) de Hayao Miyazaki
Kiki é uma jovem bruxa que acabou de completar 13 anos. Segundo a tradição, quando atingem essa idade, todas as bruxas devem sair de casa por um ano para aprender a viver por conta própria. Ela se muda para a cidade de Korico, junto com Jiji, seu gato falante. Lá ela aprende a seguir em frente com sua vida, apesar de todas as dificuldades que possam surgir.
06- "Suspiria" (1977) de Dario Argento
Susan (Jessica Harper) é uma jovem americana que viaja para a Europa para estudar numa prestigiada escola de Balé. Desde o primeiro dia, porém, ela começa a se assustar com estranhas situações que ocorrem no local que a fazem crer que há bruxas por todas as partes.
05- "As Bruxas de Zugarramurdi" (Las Brujas de Zugarramurdi - 2013) de Álex de la Iglesia
Baseado num caso real ocorrido em Logronõ em 1610, quando a Inquisição queimou 40 habitantes, acusados de serem bruxas de Zugarramurdi, o filme conta a história de José (Hugo Silva), um pai divorciado, e um jovem desempregado, Antonio (Mario Casas), que assaltam uma ourivesaria em Madrid. Posteriormente eles tentam fugir para França num táxi, contudo esta viagem começa a correr mal quando mergulham nos bosques do País Basco, e acabam nas mãos de uma família de bruxas, com três gerações .
04- "A Bruxa do Meio-Dia" (Polednice - 2016) de Jirií Sadek
Em meio a um verão não usual, Eliška (Anna Geislerová) se muda com a filha Karolínka de volta para o vilarejo de onde o seu marido é nativo. O retorno deles está associado com um mistério que todos parecem estar cientes, menos a menina. O calor torna-se cada vez mais insuportável e as tensões aumentam. Karolínka começa a perceber as coisas, pois sua mãe está cada vez mais evasiva e preocupada. O medo permeia tudo e os fantasmas passam a se movimentar, sejam eles reais ou não.
03- "The Love Witch" (2016) de Anna Biller
Elaine (Samantha Robinson) é uma jovem bruxa que está determinada a encontrar o homem de sua vida. Ela leva homens para sua casa e faz magias e poções a fim de seduzi-los. Tudo funciona bem, mas ela acaba com uma série de vítimas infelizes. Quando ela finalmente encontra o homem de seus sonhos, seu desespero para ser amada a torna insana. É delicioso, nostálgico, lindo esteticamente, crítico e carrega um humor satírico. O interessante é a mescla de fragilidade e força que a personagem carrega, o que nos faz refletir e muito sobre feminilidade, gênero e etc. Saiba+
02- "A Bruxa" (The Witch - 2015) de Robert Eggers
Nova Inglaterra, ano de 1630. William e Katherine levam uma vida cristã com suas cinco crianças, morando à beira de um deserto intransitável. Quando o filho recém-nascido deles desaparece e a colheita falha, a família se transforma em outra. Por trás de seus piores medos, um mal sobrenatural se esconde no bosque ao lado.
01- "Haxan - A Feitiçaria Através dos Tempos" (Häxan - 1922) de Benjamin Christensen
Häxan documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras numa Europa atravessada pela intolerância religiosa. O filme é narrado em primeira pessoa, como se o diretor desejasse demonstrar uma tese, assim enunciada: “A crença nos maus espíritos, feitiçaria e bruxaria é o resultado de ingênuas noções sobre o mistério do universo”. Torturas, possessões e rituais de Sabá são aqui dramatizados numa narrativa de docudrama, ilustrando uma série de analogias entre o mundo moderno e o período da Inquisição. Obra-prima do cinema fantástico, realizado numa época em que não havia censura. São visíveis as influências pictóricas de Hieronymus Bosch e Bruegel. O virtuosismo de Häxan acabou influenciando Carl Dreyer em "A Paixão de Joana D'Arc".
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