terça-feira, 6 de outubro de 2015

Que Horas Ela Volta?

"Que Horas Ela Volta?" (2015) dirigido por Anna Muylaert (É Proibido Fumar - 2009) aborda de maneira simples uma questão bastante pertinente, a diferença entre classes sociais no Brasil, principalmente a relação entre patrões e empregados.
A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.
Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica que mora no próprio emprego, ela faz de tudo, até algumas tarefas absurdas como tirar o prato da mesa, ou buscar um copo de água para a patroa, é preciso prestar atenção a cada ação dos personagens para perceber o abismo que existe ali. Val criou Fabinho, filho dos patrões, o título do filme é uma pergunta do garoto para saber quando a mãe, a estilista Bárbara (Karine Teles), deve chegar, já que ela passa o tempo todo fora, os dois criam um vínculo forte, sempre que acontece alguma coisa é para Val que ele vai pedir ajuda. Val cuida de tudo e de todos naquela casa, mas não pertence àquele lugar. Ela não é vista como um ser humano, mas como algo que supre as necessidades deles. Isso é tão comum no cenário brasileiro que às vezes fica difícil enxergar, até porque as "Vals" são invisíveis.
A cena em que ela serve convidados que demonstram desprezo, seguido da atitude da patroa ao ver ela servindo café com o jogo de xícaras que Val comprou de aniversário pra ela nos deixa muito mal. As coisas se modificam com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), que pretende prestar vestibular de arquitetura em uma das universidades mais disputadas, da qual Fabinho também prestará. Daí em diante levamos choque atrás de choque, pois a cada ação percebemos que está tudo errado dentro daquela casa. A tensão já começa quando Val diz à filha que mora na casa dos patrões, e que ela iria dormir no quartinho, inclusive com um colchão novinho que a dona Bárbara comprou, Jéssica não tem intimidade nenhuma com a mãe e ao ver o como ela vive e é tratada fica indignada e desse modo a hipocrisia daquela família vai sendo escancarada. Jéssica cai nas graças do dono da casa, que é rico por herança e cujo casamento com Bárbara é outra hipocrisia, ela acaba indo dormir no quarto de hóspedes, sentando na mesa e comendo o mesmo que eles. É incrível o quanto cresce a questão de que cada um tem o seu lugar ao longo do filme. 

"Que Horas Ela Volta" é um abrir de olhos para algo dito normal, a frase mais comum que se ouve é: Eu tenho empregada, mas a considero praticamente da família, esse "praticamente" é um imenso abismo, ou esta aqui: Estou fazendo um favor já que muitas pessoas necessitam de emprego para sobreviver e eu não tenho tempo. As injustiças e preconceitos imperam, mas o véu da hipocrisia faz questão de cobrir. As pessoas querem comodidades, chegar em casa e vê-la limpa, roupas lavadas e passadas, mas não querem pagar o valor merecido do trabalho executado, a Val representa muito bem a classe doméstica, que por sua simplicidade sempre é passada pra trás.
O filme segue com situações cotidianas que acontecem em qualquer lar por aí, mas a sutileza, os detalhes, as coisas não ditas, por exemplo, os olhares da patroa coroam essa obra magnífica que deve ser vista e absorvida. Causa mal-estar e por mais que alguns momentos soem engraçados, perceba que na realidade é bem triste. Jéssica desestrutura toda a hipocrisia daquela família, sua curiosidade como ela mesma fala: "Não sou inteligente, sou curiosa", sua ousadia em prestar um curso concorrido numa das melhores faculdades, seu jeito desprendido e questionador incomoda o patronato e faz Val começar enxergar que "opa, pera aí, não pode ser assim". 

É um filme que reflete muito a situação de todos os envolvidos, toda vez que sem querer julgamos um personagem vem algo e nos desestrutura, é um choque de realidade e para se pensar na sociedade em que vivemos. "Que Horas Ela Volta" é um exemplar nacional inquietante, mas completamente necessário.

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